terça-feira, 3 de maio de 2016

O voluntariado obrigatório

O título deste texto foi, propositadamente, pensado e escolhido. Apesar de contraditório, é real. Irônico? Sim. Mas quem está preocupado com isto?

Em todos os tempos vivemos e presenciamos coisas e situações. Ora boas. Ora não. Às vezes concordamos; às vezes não. Muitas vezes queremos gritar, mas nossas vozes são caladas. Outras vezes somos convidados a falar, mas não sabemos o que dizer. Há vezes em que os absurdos tomam conta e fazemos de conta que não sabemos; às vezes nos metemos e saímos mais complicados do que quando entramos. Fazemos parte disto. Ninguém nos perguntou se queríamos. Mas já que estamos aqui, o jeito é abrir o guarda-chuva, que também serve como guarda-sol, e vivermos. Ora com chuva; ora com sol. A velha sombrinha servirá para os dois momentos. E para os dias de vento e de poucas nuvens, com sol fraco, não precisaremos dela.

O que tudo isto tem a ver com o voluntariado obrigatório? Tudo. Trata-se de mais uma destas coisas destes tempos e de outros. Coisas que são de nossa época, mas de outras também.

O voluntariado, no Brasil e no mundo, é antigo. Há tempos que este tema tem espaço e vivência na sociedade. No Brasil, inúmeros são os exemplos de ações e de pessoas que, de verdade, querem ajudar, contribuir e proporcionar uma vida digna a quem precisa. Atitudes de pessoas brilhantes que, discreta e anonimamente, fizeram e fazem da vida do próximo, um caminho de esperança e de dignidade.

Porém nem sempre os rios correm para o mar. Deveriam. Mas nem sempre acontece isto. E com este assunto não seria diferente.

Muitas empresas, camufladas sob uma imagem de “responsável socialmente”, abraçam uma causa e seguem realizando ações que, de longe, poderiam ser chamadas de solidárias e voluntárias. No fundo o que estas empresas querem é uma imagem que esteja acima de qualquer suspeita. E o que melhor a qualifica? O bem que fazem à sociedade.

A pergunta é: por que estas empresas fazem isto? Por aparência e por obrigação. Não é a real intenção delas ajudar o próximo. As empresas que realmente querem e fazem um trabalho voluntário, tendo como base a solidariedade, não divulgam suas obras. Quem realmente quer fazer o bem e aliviar a dor alheia não faz propaganda. Não é preciso.

Mas, também, há muitas empresas e pessoas que agem no anonimato. As obras delas são descobertas muito tempo depois, exatamente como tem que ser. Quem faz alarde de obras realizadas mostra excessiva necessidade de reconhecimento e de devoção. É como se a sociedade devesse reverenciá-las.

Além desta distorção do conceito do que é ser voluntário, existem aquelas empresas que “convidam” os funcionários para serem voluntários (?). Quer dizer, além de fazerem propagandas de suas obras tentando vender falsas imagens de bondade para a sociedade, ainda coagem colaboradores a participarem disto. Mas claro, “é só um convite. Ninguém é obrigado a participar”. Mas se você for...ganhará pontinhos na próxima avaliação, será melhor visto pelos gestores. Isto seria uma forma de coação e de um constrangimento ou precisamos rever alguns conceitos? Por meio de um discurso bonito, a empresa convida o colaborador a participar destas ações, mascarado de convite. Será que, na prática, é realmente um convite ou uma obrigação escrita nas entrelinhas? Será que aquele que faz trabalho voluntário é melhor visto pelo selecionador, pelo gestor, pelo diretor? Se sim, não deveria. Desde quando fazer trabalho voluntário é pré-requisito para alguma coisa?

Somos todos voluntários a nossa maneira. Quando nos calamos, quando falamos, quando cedemos o nosso lugar. O voluntariado não se dá em apenas ir até a algum lugar e fazer algo. É um ser em detrimento do ter. É um ser, é um estar junto de. Por isto não podemos obrigar as pessoas a fazerem isto. Cada um é voluntário a sua forma, a sua maneira. O voluntariado que se obriga é um disfarce para esconder as falsas aparências.

Temos dificuldades de entendermos os conceitos das palavras.

O termo voluntário vem do latim voluntarius, ou seja, de própria vontade, sem coações, sem constrangimentos. Ter desejo por fazer o bem. Aquele que não faz por imposição do outro; que depende de nossa vontade. Feito espontaneamente. O dicionário é ainda mais claro: é praticar algo de forma instintiva, sem reflexão, do que não precisa de estímulo. E por último, aquilo que se faz por opção. Portanto, não é uma imagem, uma foto se mostrando ao mundo, mas sim uma atitude, uma postura. É uma ação. Um querer.

Infelizmente, há um profundo distanciamento entre o que se diz versus o que se pratica. Estamos longe de praticarmos, neste caso do voluntariado, o que diz o dicionário. Ainda fazemos o bem porque dá ibope, e não o fazemos pela atitude em si. Ainda olhamos com bons olhos o colaborador que participa destas ações porque, desta forma, nos beneficiaremos.

O voluntariado que mente. O voluntariado que se mostra. O voluntariado que aparece.

O voluntariado que corrompe. O voluntariado que não é voluntariado.

Ser voluntário e não estar voluntário é uma questão de maturidade. É um sentimento genuíno de querer ajudar o próximo a se levantar. Ser voluntário é ter compaixão, que não é ter dó e pena do próximo, mas sim se solidarizar com a dor dele e ajudá-lo. Ser voluntário é enxergar o outro com o mesmo direito de ter dignidade de viver e de evoluir que todos.

Ser voluntário não é, definitivamente, fazer as coisas por obrigação.

O que se vê, muitas vezes, é um aproveitamento da dor alheia como meio de promoção. A hipocrisia é a base do falso voluntariado; o anonimato é a base do verdadeiro voluntariado.

A propaganda só existe com a finalidade primeira de se vender algo. E a pergunta que fica é: se, de verdade, somos voluntários, qual é a razão da propaganda? O que queremos vender? A dor alheia ou a nossa sincera vontade e disposição de sermos bons e assim mostrarmos uma imagem politicamente correta?

Qual é a razão para este invadir de boas atitudes além de se mostrar e de abater o imposto de renda? São muitas as respostas.

Somos cegos da alma. Acreditamos no externo. Temos dificuldades de questionar porque não saberemos lidar com as respostas.

Aqueles que têm segundas intenções e se utilizam do voluntariado querem os louros de uma imagem construída sem ética e sem escrúpulos.

Como pode uma instituição financeira, por exemplo, ter várias causas sociais abraçadas na sociedade, e, ao mesmo tempo, sufocar esta mesma sociedade com juros abusivos? A extorsão fica em qual patamar? Como podemos acreditar numa empresa que abraçou uma causa social para ter o que mostrar no power point, mas ao mesmo tempo não conseguir construir lideranças sólidas e ambientes de confiança para seus colaboradores?

A solidariedade e o voluntariado verdadeiros não se mostram e não se envaidecem. A linguagem do voluntariado é a discrição, o anonimato, a servidão, a humildade. O verdadeiro voluntariado aproveita as forças dele para levantar o próximo e não para se apoiar nele para se elevar. Quem faz isto não é voluntário e nem de longe solidário.

Não somos produtos. Somos seres humanos. Não somos vendáveis. E, por consequência, nosso espírito de voluntariado e de solidariedade também não está à venda. Deveríamos ter liberdade para usá-lo quando assim achássemos apropriado. A solidariedade é sentida e não comprada, muito menos oprimida.  E aqueles que se vendem, seja por obrigação ou por opressão, infelizmente, receberão aplausos sobre um caminho falsamente construído.

Que sejam poucas as nossas ações ou até nenhuma, mas que haja veracidade. Mas se ainda queremos e buscamos aplausos, nos deslumbramos com os falsos elogios, e se ainda o próximo é visto por nós como escada para as nossas idealizações, o voluntariado, definitivamente, não é o nosso lugar.

Ser solidário e voluntário é mais que fazer companhia para um idoso, numa tarde de domingo, e depois da foto tirada com ele, colocá-la no instagram: é ser capaz de compreender a solidão que ele sente.

É mais que doar coisas dos nossos excessos. É ajudar a construir um possível caminho para que ele não tenha mais necessidades de pedir doações.

É mais que contar uma história para uma criança. É fazê-la compreender e se orgulhar da história dela.

Mostrar-se é desprezível e torpe. Confirmamos a nossa ausência de caráter e de escrúpulos, enfatizamos a dor do próximo. Colocamos luz sobre algo que ele quer apagar. Destacamos as necessidades e privações do outro, as misérias dele. Aquilo que tanto ele quer esconder, mostramos. Isto não é ajudar o próximo, mas sim se ajudar. De forma mesquinha e cruel. Somos tão pequenos que precisamos usar a fraqueza do outro para aumentarmos o nosso diminuto tamanho. É preciso conhecer outras formas de crescermos.

Ser voluntário e solidário é uma completa compreensão da dor alheia. É uma completa lucidez frente às misérias do próximo porque também entendemos e conhecemos as nossas misérias.

O mundo está cheio de falsos bons. Empresas que adoram abraçar causas sociais porque isto “pega bem”, porque isto mostra responsabilidade, mostra que esta empresa está preocupada com a dor alheia. Dor alheia?

Mas o imposto de renda destas pessoas agradece. O leão é sempre mais amigo de quem faz o bem. De coração, claro...

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, trazendo uma frase de Francis Bacon, um filósofo do século XVI, que diz:

Na caridade não há excesso.

Sábio ensinamento. Só nos falta o principal: aplicá-lo.

domingo, 17 de abril de 2016

A insistência como excelência

vídeo tirado da internet

Rimos, ao assistirmos a este filme. Realmente é divertido e, no mínimo, inusitado, ver uma porquinha lutando bravamente por um pote de biscoitos! Rimos por causa do inusitado, do improvável, da situação atípica. Mas quando paramos para observarmos a mensagem da entrelinha, o riso cai, um pouco, para segundo plano.

É assim em nossas vidas. O humor faz parte, ainda bem. Se ele não existisse, muitos caminhos ficariam mais difíceis do que já são ou, até mesmo, impossível de trilhá-los. O humor favorece o caminhar, mesmo que a duras penas. Mas é preciso reconhecer a hora de o riso se aquietar. As reflexões precisam de silêncio. O pensar exige um esvaziamento de falas e de barulhos. É preciso aquietar a mente para ouvir o que, de verdade, importa.

Observando a porquinha, me lembro de um pensamento de Henry Ford que diz: “há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam. ”

Sábio ele. Ninguém fracassa. Mas muitos desistem. O fracasso é relativo. Ele só será, de verdade, um fracasso, se pararmos no meio do caminho, no meio do trajeto de nossas buscas, no meio do trajeto de nossas descobertas. Mas se seguirmos viagem, independentemente dos empecilhos, talvez não consigamos alcançar o nosso pote de biscoitos, mas certamente estaremos mais próximos dele do que muitos que ficaram no meio do caminho.

E a porquinha não desistiu. Isto a fez mais forte e mais confiante. Seus planos e estratégia foram estudados e executados, apesar dos divertidos exageros. E ao final, mesmo não tendo conseguido saborear os deliciosos biscoitos, pelo menos por enquanto, ela atingiu um patamar que poucos atingem: o patamar de saber que se é capaz. O patamar de saber que se pode ir, que o objetivo é possível de ser alcançado.

Porém, este patamar só é ocupado por aqueles que não desistem. O patamar do real, do possível, precisa ser construído. E o não desistir é o principal ingrediente. O caminho desenhado só existe quando pegamos caneta e papel para desenhá-lo. E nem me venha com o tablet nestas horas! Os riscados prontos e a frieza dele não podem substituir a destreza da mão que desenha o caminho que se quer.

Deixa o tablet para os arremates. Quando estamos na fase dos arremates, a obra já pode ser vista, mesmo inacabada. Aí sim o tablet deve ser usado. Aliás, o seu está carregado? Ele não funciona com o pensar. Ele funciona se for colocado na tomada, algo que fazemos de forma mecânica e sem pensar. Ah, puxa, está descarregado? Não tem problema. Basta colocá-lo na tomada. Assim que ele acusar “100%”, você poderá tirar a tomada. Que prático, não?

Ainda bem que nem sempre a praticidade resolve os nossos problemas. Imagine colocar os nossos cérebros nas tomadas? Nosso pensar no carregador? O difícil será se nos esquecermos de nossos carregadores em nossas casas. Mas isto foi só um devaneio...estamos longe disto...pelo menos até a semana que vem.

O plano desenhado pela porquinha põe em prática tudo o que os pensadores de universidades renomadas e influentes dizem e escrevem em seus rebuscados artigos.  A personagem do nosso vídeo talvez não tenha uma formação acadêmica de ponta, como se diz por aí, mas certamente ela tem o principal: a sede pela busca. A sede pela luta. A sede pelo inconformismo. A sede pela sabedoria. A sede pelo acreditar que se pode. Coisas que talvez estes renomados destas renomadas universidades não têm. Aliás desconfio de que muitos destes, espalhados pelo mundo das aparências, vivem uma espécie de excesso de adaptabilidade. Aquele que é excessivamente adaptado não questiona, não critica, não busca...desiste. Acha tudo normal. Afinal, ou a coisa não é com ele ou acha-se incapaz.

Acredito que isto seja algo em que se pensar.

Tenho verdadeiro horror quando ouço alguém dizer, principalmente em programas de televisão, que determinada pessoa é autoridade no assunto. Como assim, autoridade no assunto? Fulano de tal é autoridade em gestão de pessoas, Beltrano é autoridade em liderança, Sicrano é autoridade em desenvolvimento de projetos...

Autoridade em liderança? O fato de sermos estudiosos sobre Liderança não nos faz Líderes. O fato de sermos estudiosos sobre desenvolvimento de projetos não significa que todos os nossos projetos terão sucesso. Então, quem deu autoridade a eles de se intitularem “autoridades”? Quem, de verdade, conhece, não precisa do título de autoridade. O título não o representa, mas sim o espaço para fazer a vida do outro melhor, por meio do servir.

Fazendo uma leitura das etapas desenvolvidas e realizadas pela personagem, muitos livros rebuscados sobre métodos e ferramentas organizacionais são postos em xeque. Livros complexos que só servem para falarem mais do mesmo e para darem nomes distintos a coisas iguais. Somente desta forma, talvez, eles consigam participar de uma sociedade que vive ávida por fórmulas mágicas e métodos que só nos livros funcionam.

Ela realizou etapas e passos fundamentais na realidade de quem é um especialista em não desistir:

1) conhecia-se e sabia seus desejos e vontades. Conhecia o seu objetivo. Sabia aonde queria chegar. Tinha uma missão clara e assertiva;

2) seus passos, apesar de exagerados, foram compatíveis com o objetivo: foco x visão. Sabia onde estava e aonde queria chegar;

3) mapeou seus riscos e oportunidades. Como valia a pena, confiou e partiu para a ação;

4) teve foco o tempo todo e não teve medo de assumir riscos. O medo não a paralisou e sabia que o risco seria inerente ao processo;

5) não se culpou pelos erros e não ficou procurando culpados para as suas frustrações. Investiu seu tempo e sua energia na criação de estratégias para atingir o objetivo;

6) mapeou os seus stakeholders, ou seja, todos aqueles a quem poderia recorrer para ajudá-la, assim como aqueles que poderiam atrapalhá-la;

7) teve prontidão: não adiou para amanhã sua busca pelos biscoitos. A oportunidade surgiu hoje e ela estava pronta. Estar pronto é essencial para uma vida de excelência;

8) e fez o principal: não desistiu e não responsabilizou terceiros por sua suposta derrota. Isto a fez se diferenciar dos demais.

Penso que estes deveriam ser os comportamentos a serem analisados pelos Líderes, em todos os momentos de convivência com colaboradores e pares. Todos nós deveríamos ser reconhecidos por causa destes comportamentos, e não somente pela entrega. O não desistir deveria ser mais valorizado que a entrega. A entrega, em si, é pontual, perecível e até questionada. Mas o ato de não desistir é que faz de um indivíduo, seja colaborador ou não, um vencedor, uma pessoa que não se curva diante às dificuldades, diante aos nãos que a vida traz.

Isto sim deveria ser visto com mais cuidado numa avaliação, e não supervalorizar aquele que mais faz marketing de si. Lembrando que uma das funções do marketing é criar necessidades desnecessárias e nos fazer acreditar no ilusório, no supérfluo, no tangível, no perecível. Ou alguém já viu alguma propaganda nos induzindo a comprar um produto que nos transformará em éticos e responsáveis? Poderia ter, mas não sei se venderia...

Quem faz marketing de si é porque desistiu de si. Eu não preciso fazer propaganda de mim. Minha obra deverá ser a minha propaganda. Simples assim.

Claro que é importante saber a hora de parar, a hora de nos darmos por satisfeitos. Porém, não por acomodação e desistência, mais sim por excelência, por inteligência. Aquele que carrega a excelência dentro de si sabe o momento de parar. Mas não porque alguém pediu, mas porque ele assumiu o risco de parar. Sem culpas. Sem discursos. Sem demoras.

Desistir é uma forma de não existir. E existir significa “ex-sistere", ex (negação, fora, sair) e sistere (estar em pé, fora de). Ou seja, para existirmos, precisamos sair de nós para nos enxergarmos, para nos ver. Por isto, ter um espelho em casa pode ser um exercício revelador de percepção...

Somente podemos dizer que nos conhecemos quando nos distanciamos de nós. Somente desta forma poderemos nos enxergar e, assim, existirmos. Quando desistimos, deixamos de fazer este processo, de irmos para fora para nos ver, perdemos uma excelente oportunidade de nos conhecermos e de irmos mais longe.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase que sempre ouvi durante a minha vida. Uma frase que sempre me acompanhou apesar de eu não saber o autor. A frase diz: “nunca permita que aqueles que não sabem ou não aprenderam sonhar te façam desistir dos teus sonhos”.

Sábio quem disse isto. E aliás, a palavra “sábio” vem de “sapiens”, que deriva de “sapere” (saborear, ter entendimento). E o que é a vida senão esta busca pelo não desistir e pelo compreender o que, ainda, nos é incompreensível? Aquele que entra, de verdade, em contato com as coisas se torna sábio porque saboreia, experimenta, vive. Aquele que não tem medo, que não desiste, se torna sábio.

Portanto, só aquele que sonha e não desiste, pode dizer que vive.

domingo, 10 de abril de 2016

O não saber é uma forma de saber

São tantas coisas para aprender, para conhecer, para saber.

Às vezes, a gente acha que sabe. E depois, logo ali, descobrimos que não sabemos. E o pior: descobrimos que não sabemos por meio de uma pessoa que talvez saiba menos do que a gente. Irônico, não? Mas é assim.

São tantas coisas para darmos conta, que não fazemos mais contas. Muitos as fazem de cabeça; mas outros ainda não sabem que podem fazê-las de cabeça. E outros estão tentando ainda entender como se faz uma conta, que dirá de cabeça...

Às vezes, a gente se perde na nossa conta. Conta de coisas contáveis e conta de coisas incontáveis. Coisas tangíveis e coisas intangíveis. E se esquecermos de contá-las? Com os tangíveis não corremos este risco. Porém com os intangíveis, estes sim merecem uma especial atenção. Passam despercebidos, quietos, inexpressivos. Talvez eles devessem estar contemplados em contas específicas. Desta forma, não nos esqueceríamos deles. Mas enfim, são tantas as contas para darmos conta, que esta acaba sendo só mais uma...

Será que teremos tempo para darmos conta de tudo? Talvez. O problema do talvez é que ele tenta ser amigo dos dois lados: do sim e do não. Ele deveria escolher um lado. Mas não. Fica ali e lá, aqui e acolá, à esquerda e à direita, só reforçando nossas dúvidas. Ele indica tendência e possibilidade, mas sem nos dar certeza alguma.

O talvez nos coloca como participantes de um jogo de xadrez: pensamos, estudamos a próxima jogada, observamos a jogada do outro, vamos em busca de uma nitidez de movimento de peças sem nos darmos conta da nossa estupidez. Nitidez de movimento? Que nitidez? O que sabemos sobre isto? A mesquinhez de nossos passos quando não nos damos conta de um vasto caminho que se mostra a nossa frente. A nitidez da jogada que buscamos somente será encontrada mediante erros cometidos por causa de nossa pequenez.

Nossos erros nos fazem grandes se tivermos a coragem de trilhá-los e de assumi-los.

Nossas dúvidas são somente caminhos de certezas não ouvidas.

Dúvidas são certezas analisadas.

Quando ouvimos as dúvidas elas mudam de lugar. Vão para o campo das certezas. Saem da pequenez. Mas é preciso ouvi-las.

Escuridão. Densidão. Só depois da escuridão é que o dia começa a clarear.

Da forma inconstante surge a forma. Mas é preciso acreditar nela, mesmo que, aparentemente, disforme. Quem falou que ela está fora do padrão?

Da ausência do que nunca foi dito surgem os silêncios que constroem. Mas é preciso ouvi-los.

Da aparente lucidez surge a escuridão que traz à tona o falso e o palco.

Este palco cujo piso foi inaugurado pelos vaidosos. E os outros? Os outros vivem. Eles não precisam do palco para se sentirem vivos.

O barulho que ocupa o lugar deixado pelo silêncio cansado.

O aposento que se aposentou porque deixou de existir.

O sol que chegou à noite porque se atrasou conversando com a lua.

A contradição absolutamente correta porque o mundo é desigual. Aliás, não o mundo, mas sim nós. Isto. Nós somos desiguais. Não o mundo.

Injustiça? Somente para quem convive com ela. Quem não convive, certamente nunca a conheceu, nem num dicionário.

Quem atravessou a rua perde grande parte da visão ou brinca de faz-de-contas. Assim fica mais fácil.

Da anestesia dos nossos tempos. Foi-se o tempo em que anestesiar era tomar uma injeção para não sentir dor. Estamos anestesiados frente à dor alheia porque também já não a sentimos em nós. São tantas dores que elas próprias se perdem dentro de nós. Quando as dores são muitas, anestesiar pode ser um forte aliado. Mas tomamos demais deste tal remédio, porque a dor, além de anestesiada está banalizada.

Hoje morreram muitos num conflito aqui, ontem uma pessoa morreu lá, anteontem foi lá não sei onde. E assim vamos. Para onde? Não sei. Mais uma coisa para nos darmos conta. Não sei se isto também está naquela conta lá de cima. Deveria. Mas não sei se está. De qualquer forma, se esquecermos de colocar o custo da anestesia também na nossa conta, alguém a enviará para nós. Estejamos certos.

Vivemos como se nunca fôssemos ser descobertos.

A hipocrisia que sustenta a alienação das mentes. Esta é outra conta que virá alta, bem alta.

Mentes que mentem.

Mentes que matam.

Mentes que mandam.

Mas quem se importa? Só os que têm mentes verdadeiras, mas que agora choram.

A sujeira que a luz traz, mas que precisa ser limpa.

O limpo aguarda a sua chance. Enquanto isto, ele vai se sujando. É uma pena. Mas se olharmos com olhos atentos, encontraremos partes ainda limpas. Mas é preciso apressar o passo.

Um peso e duas medidas. Ainda se usa este ditado? O desuso é atual.

Pesos desiguais, medidas também. Mas quem toma conta disto? Desculpe, a balança está no conserto...está quebrada há tempos...venceu o prazo. Ninguém foi pegá-la. E o dono vendeu a balança para pagar o conserto... é uma pena.

A fila é grande, mas a senha foi entregue. Poucas. Mas foram entregues. Já é um começo.

Não reclame: muitos nem senha conseguiram! Você teve sorte! Viu como valeu a pena dormir dois dias na fila e tomar chuva?

A paciência que não espera mais. Nem ela teve paciência.

O grito sufocado que liberta a voz que cala. Que de tão calada, nem se lembrava mais que podia falar. E falou. E falou. E falou.

Alguém nos ensina a gritar de novo, por favor?

Os pés caminham por direções tortas.

Alguém sabe o caminho?

Só os rios sabem o caminho. Mas quem os ouve com este silêncio desconcertante?

O silêncio angustia. Fale alguma coisa, por favor. Nem que seja para discordar do que digo. Ninguém vai notar. Que diferença isto faz? Ninguém quer saber a sua opinião mesmo. O que importa é parecer que falou, parecer que pensou, parecer que entendeu, parecer que dançou, parecer que viveu...

E quando você se der conta disto, será preciso recomeçar... E com as contas sobre os ombros.

O silêncio não nos representa. O falar sem parar sim.

Queremos as luzes da ribalta, o palco do palhaço, os aplausos do artista, os confetes do carnaval. Mas não a ribalta que apresenta, mas a que ostenta; não o palco do palhaço que chora a dor conhecida, mas o que ri sem sentido; não o aplauso sincero, mas o que corrói a alma e empobrece o encanto; não os confetes que brincam, mas os que mostram a nossa pobreza moral que de tão fraca se despedaçou na avenida.

Acendam as luzes! A dor tira as suas máscaras!

Por que a inteligência é obrigada a ceder o seu lugar à ignorância? Por que a educação não tem voz? Por que não queremos sair do anonimato da dor?

Nossos silêncios deveriam nos construir. Nossas lacunas deveriam ter seus espaços respeitados. Mas tudo está ocupado porque nossa conveniência condena a nossa expansão.

Nossos silêncios e nossas lacunas nos incomodam. Acabamos de tomar um remedinho para curar tudo isto. A medicalização daquilo que é natural tem sido o norte da nossa sociedade. Deveríamos sentir os nossos silêncios. Viver as nossas lacunas. Mas tomar um remédio é mais fácil, não é? Ainda mais com tantos médicos dispostos a nos ajudar com isto.

Somos seres com espinhos, muitos espinhos. Mas são eles que criam a espinha dorsal da vida de sentido, sem beatices. Mas os espinhos machucam. Isolamo-nos por conta deles.

A convivência que tem sido substituída pela conveniência. Alguém já acessou o whatsapp hoje?

O abandono de nossas ideias e de nossos ideais em nome da submissão, da anulação e da bajulação.

São tantas as contas...

Quero concluir este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, que diz:

“Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências. ”

Bela provocação. Num mundo impregnado pela cultura do fast, aceitar a dúvida e a experiência, o não saber e o caminhar, são, no mínimo, exercícios para um redescobrimento da vida e de seu real valor.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

OIBNLTIAR

Perder-se ou reencontrar-se? Não sei. Podem ser as duas coisas. Perder-se e reencontrar-se são as duas possibilidades de um labirinto. Não vejo meio termo. Ora perdemos. Ora reencontramos aquilo que perdemos. Ora descobrimos que não perdemos coisa alguma. Estava tudo lá, só espiando o nosso desespero.

Ficamos confusos num labirinto, refazemos caminhos, passamos pelos mesmos lugares e uma sensação de incompetência, ineficiência e perda de tempo toma conta da gente. Tudo parece igual. Tudo parece confuso e embaralhado, como o título deste texto.

imagem tirada da internet

Quando eu era criança, um dos meus passeios preferidos era visitar a Cidade das Crianças, que inclusive ainda existe. Meus pais levavam a mim e a minha irmã e nos divertíamos muito.

Numa destas vezes, um brinquedo me chamou a atenção: o labirinto. Meu pai, então, comprou os ingressos e fomos todos.

Ao entrar ali, cada um foi para um lado (meus pais, minha irmã e eu) e a brincadeira começou: cabeçadas nos espelhos, tropeços, risadas e certas aflições porque não conseguíamos nos reencontrar, muito menos acharmos a saída. Uma sensação divertida e aflitiva, ao mesmo tempo. Mas como a ideia lá era diversão, aquilo não me assustou.

Porém, muito próxima a mim, uma criança começou a chorar e a dizer que não queria “mais brincar”, “que queria sair dali”.

O responsável pelo local foi até a criança, pediu que se acalmasse, que seus pais já chegariam. E assim aconteceu.

O tempo passou. E quando se é criança, muitas reflexões ficam à espera de oportunidades para serem discutidas e debatidas. E com esta não seria diferente: durante muito tempo não pensei sobre isto. Mas com o passar do tempo e com a chegada da maturidade, estas experiências vão tomando forma e reivindicando o seu direito à expressão. Por isto, acredito, surgiu a ideia deste texto.

Fazendo um passeio pela História, vamos encontrar diversas informações sobre a origem dos labirintos. São, de fato, muito antigos, desde a época das cavernas. Segundo consta nos livros, o primeiro labirinto foi construído por um arquiteto grego chamado Dédalo, na ilha de Creta, a pedido do Rei Minos. Na Mitologia, este Rei queria prender, no labirinto, um monstro que levava o nome de Minotauro, cujo corpo era metade homem e metade touro. Todos que tentassem entrar no labirinto, morriam. Exceto Teseu, um jovem heroi que consegue escapar do labirinto graças a filha de Minos, Ariadne, que dá ao jovem um fio de lã de um novelo.

Fantasias à parte, a Mitologia é imprescindível para aguçarmos os nossos olhos e ouvidos e observarmos o que a vida quer e tem a nos dizer. Mas é preciso ter atenção.

Esta história nos mostra, acredito, que nem sempre terá alguém do lado de fora, no caso o labirinto, nos dando a mão ou um fio de lã. Vamos até torcer para que ele venha, mas ele não virá. Ou até terá uma mão do lado de fora tentando nos ajudar, mas como esta mão talvez não seja da filha do rei, talvez a entrada dela ou a ajuda dela não nos seja autorizada. E aí precisaremos buscar as saídas por nós mesmos. Mas e se chorarmos pedindo a presença de nossos pais lá dentro? Ficaria inconveniente, você não acha?

A palavra labirinto, do grego, “labyrinthos”, significa “prédio com passagens complicadas”. Também origina-se de “labrys”, ou seja, “machado de dois gumes”, sendo este machado o símbolo real de Creta, lugar cujo Mito aconteceu, como contei acima.

Este “prédio com passagens complicadas”, no decorrer da História, também foi a intenção dos criadores dos labirintos, cuja finalidade era atrapalhar o avanço de tropas inimigas, dificultar a fuga de alguém ou, até mesmo, esconder algum tesouro. Ou seja, os labirintos tinham uma razão de existirem. Arrisco a dizer que é assim até hoje. E conhecemos bem estes labirintos.

E sobre os nossos labirintos?

- aqueles nos quais nos colocamos sem querer ou por querer;

- aqueles nos quais nos colocamos para bucarmos perder algo, sem a mínima necessidade. Afinal, quando estamos perdidos alguém sempre toma conta da gente e facilita, bem, o nosso trabalho;

- aqueles nos quais nos colocamos por puro medo de nos reencontrar, de nos entregar aos nossos sonhos e à nossa essência;

- aqueles nos quais nos colocamos por achar que precisamos sofrer. A propósito, o sofrimento precisa ser vivido, ser falado, ser elaborado. Caso contrário ele se tornará uma angústia. Mas é preciso fazer tudo isto apenas quando ele chegar e não ficar procurando por ele a vida toda, certo? Como se a felicidade fosse uma afronta à nossa realidade e ao nosso merecimento.

Enfim, certamente cada um de nós tem uma história para contar a respeito.

O labirinto existe para deixar a nossa visão turva, nos atrapalhar no avançar, nos fazer não acreditar na gente. Este é o papel dele. Ele está ali para nos testar. Mas ao mesmo tempo, por causa do espelho, nos obriga a nos olhar. Não há como estar num labirinto e não se olhar. Mas para funcionar deverá ser um olhar sincero e não um olhar que seja produto de uma selfie. Este não conta. Afinal estamos sempre bem neste...

O labirinto existe para nos distanciar do objetivo. Ele é um excelente comparsa porque enquanto estivermos presos nele, teremos quem culpar por nossa inércia. Ele acolhe as nossas pequenezas. Mas ao mesmo tempo nos expõe e, no meio de tantos espelhos, não há como não nos incomodarmos com tantas evidências.

O labirinto está com a porta aberta, mas é preciso encontrá-la. Ou melhor, querer encontrá-la. É bom estar nele para que possamos, depois, ter um reencontro conosco. Só valorizamos o reencontro quando passamos pela experiência da perda ou quando, no mínimo, sabemos o que isto significa. Isto é a vida. Só sabemos o que é a felicidade, pelo menos um pouco, porque já estivemos infelizes em algum momento.

Os contrastes nos constroem e nos dizem quem verdadeiramente somos. Como falar da fome de barriga cheia?

Estar num labirinto é uma experiência libertadora porque sabemos que saíremos melhores. É preciso saber andar por todos os corredores de espelhos e viver aquela experiência. Mas também é preciso saber a hora de buscar a saída, a hora de dizer “não quero mais brincar disto”, como disse aquela criança, naquela dia.

Simone de Beauvoir, escritora francesa, brilhante em seus escritos, tem um pensamento que gostaria de compartilhar aqui, neste texto cheio de espelhos. O pensamento diz assim:

“Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

Penso que para atingirmos esta liberdade que tão lindamente Simone de Beauvoir coloca, somente se nos responsabilizarmos por nossos labirintos, segurarmos bem o ticket de entrada (porque ele será necessário), mas, ao estarmos lá dentro, já observarmos a seta indicando a saída. Sem pressa para sair de lá porque será preciso experimentar todo o labirinto e vivê-lo, mas por que ficar ali dentro mais tempo que o necessário? Viva, e quando achar que deve, saia. E saia rápido antes que alguém da fila te puxe para dentro, novamente.

A seta da saída existe. Ela está lá. Mas é preciso enxergá-la entre os espelhos. Procure-a.

A saída poderá estar na forma de um fio de lã ou escrita na parede, mesmo, que enxergaremos sozinhos por causa de nossa visão que foi limpa enquanto caminhávamos naqueles imensos corredores do labirinto. O caminho é exaustivo, mas a chegada é recompensadora.

Que todos nós possamos nos reencontrar por meio dos labirintos que a vida nos impõe. E nos reencontrando, reconheceremos, no nosso próximo, um merecedor de um pedaço de um fio de lã, mesmo que não sejamos a filha do Rei...

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Das 22 horas a uma da madrugada

imagem tirada da internet

A virada do ano é sempre emocionante: muitos abraços, muitos beijos, muitos desejos de felicidades a todos, muitos desejos de saúde, de sucesso, de paz. Enfim, muitos são os desejos de realizações de coisas boas tanto para nós como para quem amamos.

Há muito dos muitos.

Talvez a frase que mais dizemos é: “...que o próximo ano seja repleto de paz, saúde e realizações. Que seja um ano maravilhoso...”. Como é bom ter este sentimento dentro de nós para compartilhá-lo com quem amamos.

Mas a pergunta que faço é: por que, logo após as comemorações e os desejos de coisas boas, voltamos a ver as velhas notícias, os velhos hábitos, os mesmos problemas? Voltamos para a nossa rotina como se nada tivesse acontecido? Voltamos a nos comportar como antes? E aquelas promessas?

No dia dois deste mês, ao ligar a televisão, o apresentador do Jornal dizia:

“E veja a seguir: confronto entre policiais e integrantes do movimento Sem Terra na reintegração de terreno, hoje, pela manhã. “ E veja também: “depredação de ônibus deixa feridos” e “...os novos passos da Operação Lava-Jato...”

Quantas novas notícias...quantos movimentos pela paz...quanta novidade velha...

Notícias velhas para o ano que se inicia e que mal bateu à porta de cada um de nós.

Aonde estão aqueles desejos de paz, de confraternização, de vontade de fazer o melhor? Será que depois da uma da madrugada, após os cumprimentos, os velhos hábitos e os velhos costumes dão as caras novamente?

O Papa Francisco, num discurso ácido e provocativo, disse:

“...as festividades de Natal soam falsas em um mundo que escolheu a guerra e o ódio. ”

E disse mais:

“Estamos perto do Natal: haverá luzes, festas, árvores iluminadas, presépios, (…) mas é tudo falso. O mundo continua em guerra, fazendo guerras, não compreendeu o caminho da paz. Existem hoje guerras em toda a parte e ódio. (…) E o que resta? Ruínas, milhares de crianças sem educação, tantos mortos inocentes. E tanto dinheiro nos bolsos dos traficantes de armas. A guerra é a escolha de quem prefere as riquezas ao ser humano. ”

Independentemente da religião de cada um, se é que a temos, acho que o discurso do Papa deve passar pela nossa reflexão. Internamente, claro.

Sabemos que muitas mudanças não estão nas nossas mãos. Que muitas das notícias ruins que ouvimos e que sabemos não nos cabe julgar. Muitas vezes não teremos culpa, realmente, pelo mal causado, pela comunicação torta, pela guerra. Mas, e sobre as outras mudanças a que temos acesso? E sobre as outras atitudes que podemos e devemos tomar agora?

E sobre os velhos hábitos que teimamos em não os mudar? Afinal, o errado é sempre o outro, não é? E o que dizer sobre aqueles costumes perniciosos que temos, mas que nem percebemos o mal que estamos fazendo ao outro?

Isto me faz acreditar que naquele abraço de “Feliz Ano Novo” que demos e que recebemos, há um grande espaço de realizações a serem feitas para que, de verdade, um Ano Novo Feliz aconteça. Merecemos isto. Mas é preciso ir além do discurso. Dá trabalho claro, mas como dizia o escritor: “como chegar ao céu sem morrer? ”

Sabemos que antes do objetivo, há o processo, o caminho a ser percorrido.

Toda luta é legítima e bem-vinda. Devemos lutar pelos nossos direitos, mas é imprescindível que saibamos, também, as nossas obrigações.

Os Sem Terra podem lutar. Mas será que precisam atear fogo em pneus e fazerem barricadas? Será que não existe outra forma de mostrarem ao mundo que eles existem? Os pneus queimados e as barricadas somente os distanciam da justiça social.

Os Policiais deveriam proteger e não intimidar. Mas será que eles sabem disto? Quem deu a eles este poder que acham que têm, mas que não deveriam? Penso este ser mais um dos nossos enganos.

Pedimos o fim da corrupção. Mas estamos preparados para não pagarmos mais aquele cafezinho inocente? Afinal, “se não for assim, a coisa não sai, não é mesmo? ”

O fim da corrupção significa vivermos num País, num mundo sem corrupção. E viver num País, num mundo sem corrupção significa que nestes lugares haverá, somente, pessoas éticas e idôneas. E aí? E a gente com isto? Aonde estaremos num mundo como este?

E para não nos esquecer: queremos o fim da corrupção, mas elegemos corruptos...

Pedimos igualdade social até a segunda página... espera só alguém “meio esquisito” se sentar ao nosso lado, no banco do metrô...

Acredito que todas estas reflexões e mais algumas deveriam estar naquele abraço de “Feliz Ano Novo”, e não somente dizer “Feliz Ano Novo” das 22h a uma da madrugada. Estamos atrasados em nossas reflexões. Se ao menos o tempo parasse um pouco para descansar...

Que a gente pare de se comparar com o outro buscando o que nos falta. Não nos falta coisa alguma, apenas não aprendemos a nos enxergar. O olhar interno não nos foi ensinado. O olhar externo sim.

Precisamos aprender a usar bem o nosso repertório de vitórias (porque o temos) para que ele nos ajude a acreditar e a fazer um ano novo de verdade.

Que a gente confie mais na gente. Independentemente da idade de cada um, já temos nossa biografia em andamento. Não sei se ela é publicável, mas que a temos, temos...

Que no Ano Novo a gente acredite menos em fronteiras morais e mentais, já que as físicas ainda estão difíceis de serem transpostas.

Que a gente aproxime a teoria da prática. Não é difícil.

Que a gente fale quando for relevante, apenas. E não para que sejamos vistos e aplaudidos. Nem sempre o aplauso será sincero e conveniente. Aliás questiono a necessidade de aplausos: num mundo tão conturbado e exagerado, é de bom tom deixarmos a nossa vaidade adormecida. Os aplausos poderão acordá-la e não sei se isto será bom.

Que a gente não acate tendências como certezas. As tendências são relevantes como estudo, como sinais, como possibilidades, como norte, porém não como caminho estabelecido.

Que a gente caminhe por caminhos ainda não trilhados. Acredito que teremos mais chances de acertarmos.

Que se for para participar das torcidas organizadas que não seja para praticar o terror, mas sim o amor à diversão. Simples assim.

Enfim, para que o ano seja de verdade feliz e novo, há muita coisa a ser feita e muita coisa apenas para dar prosseguimento porque já estão certas.

Há muito mais o que fazer além do abraço, dos cumprimentos e da comilança. Há muito mais o que fazer além da eterna promessa de começarmos um regime.

É preciso arregaçarmos as mangas, irmos para a cozinha, reunirmos os ingredientes e começarmos a receita. Aquela que estava lá embaixo, na última gaveta do armário e que um dia você prometeu que faria. Pois é, chegou a hora.

E quando você começar a sentir o cheirinho do bolo assando no forno ou daquela torta, as coisas começarão a fazer sentido. E certamente, mesmo com a cozinha ainda um caos, terá valido a pena todo o esforço.

Quero finalizar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação do filme “Alice no País das Maravilhas”. Nele, Alice e o pretendente dela, Hamsh, conversam enquanto dançam. Após pensar em situações inovadoras, criativas e dizer a Hamsh que tinha dúvidas, recebe a seguinte resposta:

“Guarde a sua imaginação só para você. Quando tiver dúvidas, fique em silêncio. Por que perder tempo pensando no impossível? ”

Este é um conselho de uma pessoa que, certamente, nos induz à inércia, ao padrão, ao estabelecido. Afinal, assim dá menos trabalho para manipular, não?

Que a gente não guarde a nossa imaginação só para nós: que a gente a utilize para melhorar a qualidade dos nossos abraços e de nossas atitudes. E quando tivermos dúvidas (acredito que seja sempre!), que a gente não fique em silêncio. Que a gente busque respostas. E não as encontrando, que, pelo menos, a gente melhore a qualidade das nossas dúvidas.

Acredito, de verdade, que este seja um caminho ou uma forma de tornar possível um verdadeiro Ano Novo e, o melhor de tudo, feliz e muito além da uma da madrugada...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A irregularidade que nos conduz

Às vezes, entramos em lutas apenas para nos lembrarmos das lutas que fugimos.

Às vezes, entramos em lutas apenas para nos conscientizarmos das lutas que não deveríamos ter entrado.

O passar dos anos nos dá mais armas para encararmos as armadilhas.

Caráter para ganharmos. Crenças para perdermos.

Falta de caráter para disfarçarmos.

Força para conquistarmos. Força para destruirmos.

Crença no possível porque não acreditamos no impossível.

Falta de sonho.

Chegamos para criar opções. Chegamos para tirar sonhos.

Chegamos para produzir o que ninguém quer comprar ou o que ninguém precisa usar.

Entendemos o limite para ultrapassá-lo.

Entendemos o limite de alguém exatamente para não o respeitar. Somos bons nisto.

O que define são os detalhes.

As derrotas são inevitáveis para se chegar às vitórias. Mas quem quer viver as derrotas? Não podemos passar para alguém esta parte ou culpar alguém?

O erro não nos pertence. Eu acerto. Ele erra. O erro não nos representa. Somos seres perfeitos. Não sei o que fazemos aqui, em nosso mundo repleto de erros. Acho que estamos aqui por engano.

Deus errou na estratégia. Acho que confundiu as nossas fichas e nos mandou para cá indevidamente. Que pena! Agora vamos precisar ficar.

A nossa força nos tira do gingado da vida.

A lentidão tem tempo para mostrar as nossas falhas.

A rapidez esconde as nossas falhas.

As marcas indicam paradas para novos caminhos.

O carisma nos diferencia dos iguais e dos formatados.

Os riscos nos levam ao deslize, mas também aos acertos.

O oposto nos mostra que há outro caminho, mas também nos mostra coisas que não gostaríamos de ver agora. “A novela vai começar. Não pode ser depois? ”

A reflexão serve para sabermos em qual parte da história estamos, mas também serve para nos lembrar de qual parte dela deixamos de construir e de escrever.

Mas ainda dá tempo.

Falando nele, ele sabe ser cruel com quem não é amigo dele. Mas sabe ser um excelente bem a quem o trata bem. Interesseiro! Do que adianta discutir com ele? No final ele está sempre certo, mesmo. É melhor aceitar e seguir.

Às vezes, acho que ele não tem muita razão, não. Mas não mesmo! Mas o deixo pensar que tem. Assim ele continua sendo meu amigo. Não é bom criar inimizades com quem é mais forte que a gente.

Dormir é excelente para o repouso, mas também para perder o bonde. Se perdermos o bonde acordados, menos mal. Quem sabe alcançamos o próximo? Se bem que não tenho certeza de que ele passará. Enfim, não custa verificar o itinerário. Mas perder o bonde porque dormimos é se antecipar às derrotas da vida.

A fumaça dá o tom do show, mas também impede a nitidez. O que há ali? Não consigo enxergar bem.

Acordar para vencer. Ou seria vencer para acordar?

Dormir para esquecer. Ou seria esquecer para poder dormir?

A realidade que se mistura com a utopia porque a realidade é uma utopia.

A percepção rompe padrões. Mas só se alguém deixar...A percepção traz a interpretação que traz a escolha.

É preciso tecer os nossos bordados internos para descobrirmos as nossas costuras. Costuras que costuram. Costuras que descosturam. Costuras que embelezam. Costuras que enfeiam. Costuras que ficam à mostra. Costuras que ficam escondidas.

Só passeando dentro da gente vamos, de verdade, nos conhecer. Precisamos colocar uma poltrona dentro de nós para assistirmos a tudo, assistirmos às nossas reações.

Nossos pequenos abismos que habitam dentro da gente. Estes abismos são riquezas brutas que ainda não tivemos tempo de lapidar porque estávamos verificando o nosso Facebook.

Nossos problemas nos constroem. Mas esta construção é lenta, bem lenta.

“Não dá para pular algumas etapas? ”, alguém pergunta. “Claro, Senhor, podemos fazer um desconto de 10 etapas e o restante parcelar no cartão em seis vezes sem juros. ” “Ah, que ótimo, vou levar. ”

É preciso coragem para atravessar a ponte e voltar de lá para povoar os terrenos desconhecidos. Mas para ir e voltar da ponte é preciso estar conectado com a verdade. Mas a verdade de quem? A nossa.

Os estranhos se falam porque os que se conhecem estão ocupados no WhatsApp.

Quem são os nossos heróis? Mas a pergunta é: temos heróis? Temos que ter heróis?

Nossos heróis são os que nos permitem sonhar. São os que enxergam a nossa alma.

São os que sabem ler e ouvir os nossos silêncios. São os que completam os nossos vazios.

São os que descobrem terrenos férteis em nós e tiram a placa de “aluga-se”.

São os que nos ensinam a conversar com a nossa escuridão. E o melhor: nos ajudam a localizar o interruptor. São os que chegam quando todos já se foram.

Irregularidades: uma das grandes verdades de nossas vidas. Queiramos ou não. Se quisermos acertar e trilhar o caminho da regularidade, o caminho da irregularidade deverá ser percorrido antes, bem antes.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão com um pensamento de Dostoiévski, escritor russo, que diz: “é preciso encher minhas medidas”.

Como estão as nossas medidas? A resposta cabe a cada um de nós.

Que saibamos ocupar todos os espaços e preencher as nossas medidas com o sabor e o cheiro da vida. Somente desta forma, acredito, poderemos dizer que vivemos.

Uma vida de retas, curvas, altos, baixos, solavancos, quedas e subidas. Uma vida cheia de irregularidades que nos movem, que nos transformam, que nos formam.

A irregularidade é o caminho para “o encher minhas medidas. “ Fora isso, só a vaidade de acreditar numa vida sem curvas e sem paradas. Numa vida linear. Numa vida sem solavancos.

Acreditar nisto é ter morrido sem saber.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Qual posição da mesa você ocupa?

O lugar era um restaurante. Muitas pessoas em várias mesas. Mas em uma, especialmente, algo chama a atenção: alguns canudos de formatura espalhados pela mesa denunciavam algumas conquistas alcançadas. Não foi isto o que chamou a atenção, mas sim um senhor de quase 80 anos, sozinho, isolado, sentado próximo à ponta da mesa, da mesma mesa aonde os canudos de formatura estavam espalhados.

Os canudos de formatura são encarados como conquistas. Mas por que não a velhice também? Muitos respeitam a velhice; muitos não. Muitos a encaram como conquista; muitos não. O fato é que a velhice é um estado natural de todo aquele que vive a plenitude de sua vida. Aquele que não envelhece é porque está morto.

Não sei se o pessoal daquela mesa sabia disto.

Muitas vezes não nos damos conta do quanto contribuímos para aumentar o sentimento de isolamento do outro. E vice-versa. Somos assim. Em função de nossa incompletude, vamos fazendo coisas, tomando atitudes sem prestarmos muito atenção às consequências.

Nosso comportamento hostil e desatencioso convida, ostensiva e diariamente, várias pessoas ao caminho da solidão. Somos muito bons nisto.

Estar numa festa, porém sem participar dela: talvez este tenha sido o sentimento daquele senhor sentado próximo à ponta da mesa. Quem o colocou lá? Talvez ele mesmo tenha se colocado lá. Não dá para saber. Mas o fato é que ele estava sentado lá, bem próximo à ponta da mesa. O lugar aonde nos colocamos é aonde, efetivamente, estamos.

Dependendo do lugar que você ocupar na vida ou na mesa, você simplesmente não participará, não terá voz, não terá acesso ao falar. Ou ao contrário, você sempre será convidado a falar, mesmo que não tenha nada a dizer. Mas como vivemos no contexto das aparências, vamos fingindo que falamos e o outro fingindo que entende. E assim vamos criando mundos paralelos e sem muitas culpas e escrúpulos. Afinal, quem vai nos procurar para nos responsabilizar?

Aquele senhor usava óculos de elevada graduação que davam pistas do quanto ele tinha visto na vida. Mas alguém estava interessado? Acredito que não porque ele estava sentado próximo à ponta da mesa. E quem se senta próximo à ponta da mesa corre sérios riscos de ficar à margem da vida, à margem de si próprio. Simplesmente à margem.

Sentar próximo à ponta da mesa é ter, como companheira, uma velha conhecida nossa: a solidão. Esta visita sorrateira que chega sem avisar e o pior: tem as chaves de nossa casa. Portanto, ela não toca a campainha: simplesmente entra.

A solidão é silenciosa. Não pede licença. Vê um espaço e se acomoda. Não faz distinção por raça, idade e sexo. Não é preconceituosa. Só quer um espaço para se manifestar.

Penso que a pior solidão que existe não é aquela cuja vida te proporcionou, sem te dar muitas escolhas. Claro, esta é triste, também. Afinal, quem quer ser solitário? Mas penso que as contingências da vida que o levaram ao estado de solidão não podem ser calculadas e medidas por uma régua o tempo todo. Portanto não há como controlar tudo. Nem sempre temos escolhas. Nem sempre temos as melhores escolhas. É preciso aceitar e seguir.

Mas penso que a pior solidão é aquela imposta por quem nos rodeia, pela sociedade, por aqueles que nos conhecem, mesmo que seja sem perceber, sem querer. A solidão provocada por aqueles que te esquecem, mesmo quando você está presente. E para completar, a solidão que acompanha a velhice.

A solidão não acontece apenas quando se está só. Esta solidão é conhecida. Esta solidão é sabida. É uma solidão batida, que já bateu à porta de muitos.

Falo da solidão sentida na presença de muitos, na presença de todos. Só que ninguém percebe você, ninguém vê você, mesmo estando todos presentes. E quando se dão conta da sua presença é apenas para te levarem ao banheiro... como aconteceu com aquele senhor sentado próximo à ponta da mesa.

Ir ao banheiro é uma necessidade fisiológica, apenas. E as necessidades essenciais? Carinho, atenção, afeto...meu Deus, quem inventou isto?

A solidão que ninguém vê, que ninguém sabe ou finge que não sabe.

Estamos todos à mesa. “Estamos nos divertindo, não estamos? ” “Qual é o problema de se sentar próximo à ponta da mesa? ”, alguém poderá dizer.

Aquele que sofre de solidão não ousará discordar. Como discordar se vivemos a tirania da felicidade? Nossas infâncias foram educadas para pedirem desculpas todas as vezes que choraram.

A solidão se dá quando a sua história não interessa a mais ninguém. Quando alguém dá um sorriso frouxo para você como que a dizer: “e daí? ”

A solidão se dá quando se envelhece: raros são os velhos que têm companhia e atenção. Tratamos os velhos como se fosse errado envelhecer. Como se o envelhecimento fosse um problema. Problema é não enxergar na velhice uma conquista.

Temos falsos escrúpulos para dizermos a palavra “velho”. Qual é o problema? Por que falamos “idosos” e não “velhos”? Isto não é pejorativo. O que é pejorativo é não valorizar a velhice, os anos percorridos e as conquistas. Idoso é aquele que tem muita idade. Qual é a diferença?

Desprezamos a velhice porque a vaidade nos domina. O culto à juventude conduz à miopia e à doença da alma.

Lembramos dos velhos para levar até eles o remédio do horário marcado ou para levá-los à consulta marcada. Raros são os que se lembram deles para ouvirem suas histórias e aprenderem com tanta sabedoria.

Pobres míopes somos! Arrogantes em nossas frágeis escadas da ignorância. Mas só saberemos a fragilidade delas após a queda.

A solidão se dá nisso. Velhos são os outros. Talvez nós ainda não sejamos somente por uma questão de tempo. Mas se continuarmos aqui, chegaremos à velhice. Velhos somos todos nós.

A solidão se dá quando você percebe que o que você quer contar ninguém quer mais ouvir.

A solidão é um estado de estar presente-ausente: presente fisicamente e ausente na alma.

A solidão acontece quando o contexto te coloca para fora, sentado próximo à ponta da mesa. Estar sentado próximo à ponta da mesa simboliza a facilidade de te tirarem de lá.

Quem se senta próximo à ponta da mesa sai sem ser notado.

Solidão não é um estado desejado: é um estado imposto, mesmo que por nós mesmos.

Solidão é um querer sair quando ainda ninguém chegou.

Solidão é querer o silêncio como companhia.

É quando ouvir os pássaros começa a incomodar e quando o sofrimento passa a ser o seu guia.

Solidão é não ter paciência para ouvir a história do outro.

A solidão se dá quando perdemos o sentido sobre aquilo que fazemos.

Quando um jovem está solitário, dizem: “É a juventude! Eles adoram ficar sozinhos. ” Mas quando um velho está sozinho dizem: “Coitado” ou “Quem vai cuidar dele? ”

A juventude tem um álibi que não serve para a velhice. Para tudo a juventude tem desculpas e um álibi; para nada a velhice tem desculpas.

Envelhecer é um ato de coragem num mundo em que a velhice incomoda. Talvez ela incomoda porque tem muito a dizer.

Ser velho não dá ibope e não vende numa sociedade corruptível. Ser velho é um estado natural e não uma culpa apenas na sociedade incorruptível.

Vivemos numa sociedade invertida: o valor é dado àqueles que têm e não àqueles que são.

Os excessos nos impedem de enxergar o que realmente tem valor, o que realmente importa.

Olhar e perceber deveria ser uma obrigação. Olhamos porque está a nossa frente, mas não percebemos. Quem estava ali? “Não vi, me desculpe. Mas a propósito: tinha alguém ali, mesmo? Não sei. Não vi. Estou indo agora. Desculpe. Tenho pressa. Depois nos falamos. ”

A velhice precisa ser percebida, sentida, vivida. Ela traz os seus problemas assim como a juventude também.

Do que adiantarão os canudos de formatura se não valorizarmos o avançar do tempo e da idade para podermos viver tudo o que eles poderão nos proporcionar?

Somos paradoxais. Seres paradoxais. A juventude envelhece a cada minuto transcorrido.

“Nada é mais atual do que envelhecer”, disse Arnaldo Antunes.

Por isto te faço uma pergunta: qual posição da mesa você ocupa ou tem ocupado? Se você estiver sentado próximo à ponta da mesa, você saberá o lugar que você ocupará e tem ocupado na vida. A menos que você se levante imediatamente e vá buscar o assento que cabe a você por direito e por merecimento.

Só não demore para fazer esta busca. Talvez não haja mais espaços na mesa e você, infelizmente, deverá se sentar próximo à ponta da mesa...