domingo, 29 de janeiro de 2017

Nossos penhascos diários

imagem tirada da internet

Um comentarista esportivo, ao se referir a um comportamento de um atleta, disse a palavra medíocre. Fiquei com esta palavra passeando na minha cabeça durante a semana, e resolvi escrever sobre ela.

De origem latina, mediocris, tinha o significado inicial do que estava no meio, na média, mediano. Significava, também, o que estava no meio de duas coisas. Aquele que ligava uma coisa à outra. E o termo ocris, uma antiga palavra que significava penhasco ou montanha.  Portanto, mediocris era, simplesmente, aquele que estava no meio da montanha, do penhasco, da rocha. Aquele que estava no meio do caminho.

Mais tarde o termo evoluiu para medíocre, na língua portuguesa, como grafada até hoje.

Por conta da evolução (ou involução?) da nossa história, muitas palavras perderam o significado inicial no longo caminho que percorreram até aqui. E a palavra medíocre faz parte deste seleto grupo de palavras que perdeu o seu significado inicial por conta da nossa atuação.

Aonde a ação do homem chega, somente a incerteza será a nossa certeza.

Se antigamente ser medíocre não era ofensivo, hoje, se somos chamados disto ou se chamamos alguém desta forma, nos sentiremos ofendidos e ofenderemos. Certamente. O sentido da palavra mudou e o que era suficiente num passado, não mais o é de algum tempo para cá. Se antes ser medíocre apenas era estar no meio dos nossos penhascos, com direito a nos sentir completos por conta disto, hoje isto não basta mais. É preciso subir cada vez mais em nosso penhasco para que a mediocridade não seja impressa em nós, como um rótulo imposto pela sociedade ou, até mesmo, por nós.

Obviamente, subir os nossos penhascos e sairmos do lugar comum, do lugar aonde está a maioria, é recompensador desde que haja sentido na caminhada e rota para esta escalada. Caso contrário, será a subida pela subida. A ida a um lugar que não foi desejado por nós.

Mesmo sabendo que o sentido original da palavra mediocridade não carrega o pejorativo que há hoje, não tem jeito: o “novo” sentido dado a ela veio para ficar e, claramente, não queremos estar na categoria dos medíocres.

A mediocridade, no sentido atual, é uma inimiga silenciosa e astuta. Ela parte, essencialmente, da forte crença de que não é possível fazer, e que, portanto, não vale a pena insistir. Este é o caminho, o trajeto da mediocridade como a conhecemos hoje. Mas nem sempre é fácil reconhecê-la. Ela está arraigada na ausência do querer. A vontade é nula. A existência é só mera coincidência do Universo, para o medíocre.

A bravura, a coragem e a intolerância ao pequeno, sem menosprezá-lo, é, definitivamente, uma linguagem que a mediocridade não entende.

O escritor Paulo Coelho traz um texto que bem exemplifica o sentido da mediocridade “atual”:

Só os medíocres agradam a todos

Quando você começa a fazer alguma coisa, sempre tem alguém torcendo contra. Se você consegue ultrapassar as primeiras dificuldades, a “torcida contra” aumenta.

É preciso saber aproveitar isso. Não adianta querer agradar a todo mundo. Só os medíocres conseguem isso e, mesmo assim, à custa de muito sacrifício pessoal.

Tampouco adianta ficar ressentido ou odiar quem não o ama. Convença-se que isso faz parte do trabalho. Use a energia da “torcida contra” para adestrar a sua vontade, para ser mais profundo e mais sério no que está fazendo. Aproveite.

Entretanto, se este tipo de torcida afastar você do seu caminho, é porque este não era o seu caminho. Se fosse, só mesmo a mão de Deus poderia ter feito alguma coisa contra.

Bela reflexão. O medíocre de hoje é diferente do medíocre de ontem, como disse Max Gehringer. Portanto, com o medíocre do passado, mesmo que tenha sido a gente mesmo, não havia com o que se preocupar. Mas com o medíocre de hoje, principalmente se for a gente mesmo, este sim é preciso cautela e muito cuidado. O silêncio dele é assustador, imperceptível. E é exatamente esta a intenção: fazer que a gente não o perceba ali.

O medíocre de hoje é aquele que torce pelo seu insucesso. Desta forma, o dele não ficará tão evidente. Ele terá com quem discutir os infortúnios da “falta de sorte”. E quando você buscar outros caminhos para atingir o seu objetivo, o medíocre, de plantão, estará lá firme, te desencorajando. Como seu amigo, ele acredita que assim te ajudará a poupar mais dores.

Ele se compraz da sua infelicidade porque ele não é feliz. Esta é a linguagem dele.

O medíocre de hoje possui a régua muito abaixo do limite do aceitável. É aquela pessoa que não se esforça pelo simples fato de não enxergar valor no esforço. E isto pode ser consciente ou inconsciente. E quando você se esforça, mesmo com poucas chances de acerto, você parece ridículo para ele. Um ser à parte. Uma pessoa que incomoda. Uma pessoa que obriga, sem perceber, o medíocre a sair do lugar comum porque você demonstra que há outras possibilidades e formas de ver a vida. Por isto, ele tenta, desesperadamente, te desanimar na esperança de que você deixe as coisas como estão.

Ser medíocre não é uma escolha. É uma condição. Para sair dela, o autoconhecimento e o amadurecimento são caminhos transformadores. Mas o caminho mais rápido e eficiente é quando a dor, pelos prejuízos causados pela mediocridade, começa a ser sentida por quem a pratica.

O medíocre de hoje é sempre aquele que tentará puxar você para baixo, para o nível da régua onde ele está. Ele está cansado de sonhar e de acreditar na caminhada. Ele se cansou de lutar. E o mais crítico: ele não possui lutas a serem conquistadas. E todo medíocre gosta de uma companhia. Por isto é preciso tomar cuidado.

Fazer o melhor que podemos, sempre, mesmo que longe da perfeição, é abrirmos mão da mediocridade.

Às vezes somos exigidos, pela vida, a buscarmos opções de outras rotas para a realização de nossos sonhos. Mas somente a vida tem este direito de nos desviar, temporariamente, deles. Ela certamente nos desviou para nos fortalecer. Mais adiante ela tratará de nos colocar no caminho, de novo, em busca dos mesmos sonhos. O medíocre não tem este direito. Mas ele acha que tem. Por isto, todo o cuidado com ele é pouco.

O medíocre mina as nossas forças. Ele busca nos desestabilizar. Sentimo-nos enfraquecidos em nossos desejos, quando damos ouvidos a ele.

A submissão é a linguagem do medíocre. O pensar e o agir são dispensáveis num mundo em que o pensar e o agir são indispensáveis.

Definitivamente o medíocre de hoje é incompatível. Uma pessoa perdida que busca parceria. O questionamento, para ele, é irrelevante. É uma pessoa que segue o caminho trilhado, valoriza a conveniência e não a competência. Os interesses do outro, mesmo que inoportunos, são a base do fazer do medíocre. Ele se contenta com a escada pronta, não sente prazer em construí-la. A construção não faz parte do dicionário do medíocre.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de José Ingenieros, escritor, médico, professor que diz:

“O homem medíocre é sinônimo de homem domesticado, se alinhando com exatidão às filas do convencionalismo social. A opinião dos outros é o que importa, são os escravos das sombras, vivem para o fantasma que projetam na opinião de seus similares. Porque pensam sempre com a cabeça social e não com a própria, são a escora mais firme de todos os preconceitos políticos, religiosos, morais e sociais. Associa-se aos milhares para oprimir os que não comungam com a sua rotina. ”

Este pensamento foi dito em 1913, pelo escritor. Mas parece que ele acabou de escrevê-lo...

Que sejamos dignos da subida em nossos penhascos. Firmes e justos com o nosso propósito, com o nosso sentido. E que os medíocres do caminho apenas nos sirvam para fortalecer as cordas que apoiarão a nossa subida. E se cansarmos e quisermos parar no meio de nossa caminhada para descansarmos, que esta decisão seja nossa. Apenas nossa.

Boa caminhada a todos nós.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

De verdade, Feliz Ano Novo

imagem tirada da internet

Um ano se foi. O outro chegou. Que a gente o receba de braços abertos. Porque braços fechados também recebem, mas que este não seja o nosso caso.

Para que de verdade seja um Feliz Ano é preciso vontade e disposição. Apesar de difícil, está ao alcance de todos nós.

Para muitos, o ano de 2016 passou muito depressa. Somente o depressa não expressa. Mas o muito junto do depressa expressa o real sentimento que ficou sobre 2016, para muitos. Prefiro acreditar que a pressa na qual vivemos é o que fez de 2016 um ano corrido. Uma pressa construída por nós, não pelo ano que se foi. E se não mudarmos esta pressa, que alguém um dia nos disse ser necessária e que, infelizmente acreditamos, o próximo ano, 2017, passará rápido também. Tudo é uma questão de escolha.

O tempo passa normalmente. Mas nós insistimos em apressá-lo. Por isto esta sensação.

Outros se despediram de 2016 com alívio. Afinal, “o ano não foi bom, disseram”. Não é justo responsabilizá-lo por nossas falhas e culpas. Ele nos ofereceu 365 oportunidades de acertarmos. E se assim não se fez, injusto seria culpá-lo.

Independentemente do motivo que nos fez querer que o ano se encerrasse ou não, temos, novamente, 365 novas chances de fazer o que é preciso, de parar de fazer algumas coisas e de continuar a fazer tantas outras. Que possamos sempre esperar o melhor de todo o ano que começa, mas que também, como disse a Mafalda, tenhamos a humildade de entender que o ano também espera o melhor de nós. E qual é o melhor de nós? Somente a gente sabe, mais ninguém. Que possamos, então, colocar tudo isto em prática.

O ano novo, de verdade, é a todo o momento. Não podemos esperar que dezembro e janeiro resolvam todas as nossas questões.

Viver, de verdade, um ano novo é vivê-lo com responsabilidade, sem pressa. Não ter pressa não significa que não estamos fazendo, que não estamos construindo. A construção se dá na calma, na paciência e na contemplação. Mas ter pressa significa passar sem objetividade pelas coisas, sem conteúdo, superficialmente.

Aquele que tem tempo para tudo é quem constrói e realiza. Aquele que corre o tempo todo nada constrói. Apenas fica de olho no relógio.

Carlos Drummond de Andrade, no seu conhecidíssimo poema Receita de Ano Novo, diz:

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo...não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, ...

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-la na gaveta...

...nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem...

Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.  É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. ”

Algumas passagens deste belo poema que destaquei mostram o quão complexa e árdua é a tarefa de construir um ano novo de verdade.

Do que adianta fazer lista de boas intenções e arquivá-la na gaveta, como ele diz? Esta é uma das mais belas reflexões, na minha opinião. Além do encerramento que, lindamente, ele diz que para que o ano novo seja, verdadeiramente, novo, vamos ter de merecê-lo porque, antes de tudo, o ano novo cochila dentro de cada um de nós.

É preciso, portanto, irmos além dos cumprimentos da meia-noite. Há muito o que fazer.

Apesar de os bocejos, um tempo após os cumprimentos, indicarem que está na hora de retirar os pratos da mesa, sabemos que há muito o que fazer.

Quando entendermos que a vida é uma via de mão dupla, que ela dá, mas cobra, e que o trabalho precede o resultado, aí sim, iniciaremos um ano novo.

Que possamos entender que paradigmas existem para serem questionados.

Que possamos pensar melhor. Desta forma, não compraremos gatos por lebres.

Que sejamos impedidos, por nós mesmos, de burocratizarmos as nossas emoções para que elas possam ser sentidas.

Que sejamos autônomos para que possamos, assim, questionarmos as muitas bases hipócritas nas quais nos apoiamos para defendermos o indefensável.

Que aprendamos a não atrapalhar. Assim ajudaremos e muito.

Que sejamos representativos para nós mesmos.

Que a gente não reclame da cobrança se, de verdade, tivemos mais chances e condições.

Que a nossa voz baixa prevaleça em 2017, para que aquele que realmente precisar falar tenha vez e seja ouvido.

Que a palavra renúncia faça mais parte do nosso dia a dia.

Que o palco não seja a nossa única aspiração. Que assistir, muitas vezes, ao espetáculo da vida, da plateia, também nos proporcionará alegrias e realizações.

Que nossas conquistas sejam mais morais do que materiais.

Que o grito ceda lugar à paz.

Que a gente se canse de guerrear.

Que a crueldade comece, de verdade, a nos incomodar. E que o “fazer o quê?” não faça mais parte da nossa fala.

Que a violência passe a ser compreendida como a voz dos incompetentes.

Que a gente não acredite em todos os elogios. E também nem em todas as críticas.

Que sejamos justos com o tempo. Ele sempre comparece. Nós é que insistimos em administrá-lo mal. E depois dizemos que não temos tempo.

Que o nosso tempo também sirva para ouvir a história do outro. Quem sabe, assim, a gente pare de falar somente da gente?

Que a gente se esforce para se lembrar de que criticar é, muitas vezes, destruir.

Que o ano seja de construção forte e resistente, com tijolos que, de verdade, existam.

Que nossas atenções estejam voltadas para o bom combate, como dizia o apóstolo São Paulo.

Que a gente abra mão do ridículo. Pararmos de fingir que estamos dormindo para não cedermos o banco, no metrô, servirá de começo.

Que possamos colocar nossos sonhos nas primeiras prateleiras das nossas vidas. Somente desta forma eles terão espaço para concretização.

Que possamos nos centrar em nós para sabermos o básico, pelo menos.

Que possamos reconhecer as nossas hipocrisias disfarçadas de boas intenções.

Ao ano de 2016, somente nos resta agradecer pela paciência, tolerância e compreensão. Demos muito trabalho a ele. Ao ano de 2017, obrigada por confiar na gente e nos dar mais uma chance para acertarmos. Vamos nos esforçar para não o decepcionar.

Afinal, como diz, novamente, Carlos Drummond de Andrade:

“Mas se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor...

O melhor vai se instalar em nossa vida. Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura. ”

Que tenhamos uma larga visão sempre sobre o melhor para que ele se sinta confortável de se aproximar da gente e, mais que isto, se instalar em nós, como disse o poeta.

Um ano novo, de verdade, a todos!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

E...E...E...Vamo, Vamo, Chape

É com muita tristeza que escrevo este texto. De verdade, não queria fazê-lo. Não sobre isto. Não sobre este tema. Mas foi a forma simples que encontrei para homenagear os que se foram na última semana, o dia em que todos acordamos com aquela triste notícia.

imagem tirada da internet

Em situações como esta, o velho ditado “Deus dá o frio conforme o cobertor” é posto em xeque. Nossa fé é testada. Nossa força é chamada. Nossa coragem se desencoraja frente à crueldade como tudo aconteceu. Nossos medos se agigantam e ficamos pequenos, muito pequenos. Tomamos pé de nossa pequenez e talvez, nesta hora, caibamos naquele cobertor do ditado. Em momentos assim, o chão é algo que não se encontra e as referências, urgências e pendências perdem o sentido.

O silêncio é a única necessidade. Ele ameniza o cansaço. As palavras ocupam espaço demais nesta hora. O recolhimento é o esconderijo ideal.

Nestas horas costumo ficar de mal com Deus. Fiquei algumas vezes de mal dele durante a minha vida. É como se ele não tivesse cumprido a promessa que nos fez de que seríamos todos felizes. E nas minhas conversas com ele, costumo cobrar isto. Na maior parte das vezes, ele silencia. Acho que esperando que eu recobre minha lucidez. Ele espera. Sempre espera.

E logo a frente, peço desculpas a ele, e fazemos as pazes. Preciso dele e do entendimento que somente ele poderá trazer. A isto chamamos fé. A fé não se explica, se sente. E num momento como este, para aquele que tem fé, a caminhada fica menos dolorosa.

A fé nos faz acreditar naquilo que não encontramos explicação lógica. E o que aconteceu foi um exemplo clássico. Como explicar o que aconteceu? Não há como explicar.

Não há como ficar indiferente. Aquele que não se emocionou e não se sensibilizou com o que ocorreu deve se perguntar o que faz no mundo. Uma pergunta importante para se fazer. E aquele que tenta pegar carona nesta tragédia para resolver incompetências pessoais, o título de ser humano não é merecido. Deveria se recolher ao lugar de insignificante.

As homenagens feitas a todos aqueles que se foram (jogadores, profissionais do clube e jornalistas) foram dignas e justas.

Aquele grito “E...E...E...! Vamo, Vamo, Chape! ” ficará marcado em nossas memórias. O grito era, nas arquibancadas da Arena Condá, em Chapecó, e no estádio Atanasio Girardot, na Colômbia, uma triste tentativa de manter viva a esperança no amanhã, além da gratidão expressa na palavra Heróis, estampada nos telões. E na contagem regressiva, o grito de “é campeão” também se misturava à dor de todos.

Um título mais que merecido: serão sempre lembrados como Heróis.

Em seu Hino, a Chapecoense traz na letra: “...são tantos títulos outrora conquistados com bravura, muita raça e fervor. Leva consigo o coração de uma cidade...”.

E será nesta bravura, raça e fervor que ela precisará se apoiar para se reerguer. E este reerguer começou no choro inconsolável dos meninos da base, que a partir de agora carregam a missão de levantarem o time e o colocarem, novamente, numa posição de destaque.

Muito triste. Uma perda irreparável.

O Brasil parou. O mundo se comoveu. E todos prestaram as suas homenagens. Todos unidos num só coro: “Força, Chape! ”. A beleza deste coro seria ainda maior se não fosse pelo motivo que a causou. A união de forças que se deu foi uma demonstração de que ainda temos a bondade e o amor dentro de nós. Infelizmente ainda temos a dificuldade de expressar tal sentimento de bondade e de amor fora das tragédias. Mas ainda há chance. Mas ainda há esperança. Mas ainda há motivos.

A união e a solidariedade vistas foram emocionantes.

Ainda somos capazes de amar. Mesmo que seja num momento ímpar e de dor. Ainda assim somos capazes.

A dor nos causa uma sensação como se estivéssemos anestesiados. O problema é que o efeito da anestesia, ao passar, nos colocará, novamente, nos pódios criados por nós para servirem as nossas vaidades.

A dor nos anestesia. Faz-nos baixar a guarda, baixar as nossas armas e nos colocar ao lado do outro e não acima dele. A dor do outro nos comove porque sentimos dor também. Frente àquilo, não há o que fazer. Somos impotentes, frágeis, pequenos. Somos humanos.

Por que precisamos de uma tragédia como esta para expressarmos amor, caridade e solidariedade?

Por que na hora da dor temos tempo de estarmos juntos?

Por que na hora da dor abraçamos quem nos é desconhecido? Mas não sabemos sequer o nome do nosso vizinho?

Por que na hora da dor acolhemos o nosso adversário?

Por que num momento de dor nos unimos? Por que neste momento não temos cor, raça e religião? Por que num momento de dor abrimos mão de nossos compromissos imprescindíveis? Mas ao passar este momento, voltamos para os nossos compromissos adiáveis, cuja presença é fundamental.

A morte traz reflexões que a alegria busca esconder. Por que precisam nos lembrar, por meio de tristes acontecimentos, que a união e a fraternidade são, de fato, fundamentais? Por que a tristeza aproxima e a alegria afasta, muitas vezes? No mínimo, irônico.

São muitas as perguntas. E poucas as respostas. E precisamos nos acostumar com o fato de que nem sempre teremos acesso às respostas de que gostaríamos. Ainda ficaremos por muito tempo sentindo o incômodo de termos perguntas sem respostas.

O Atletico Nacional propôs que o título fosse dado ao time da Chapecoense. Que linda atitude.

Uma atitude de campeões e de pessoas que já entenderam o verdadeiro sentido da vida.

O mundo precisa de mais atitudes como esta. Pessoas que agem desta forma, certamente, já encontraram muitas respostas para as suas perguntas.

O tempo vai passar. A dor daquelas pessoas que perderam seus amigos e parentes se transformará em saudade. Uma saudade sofrida e inesquecível.

Um choque para todos nós. Um duro aprendizado. Um golpe violento. A vida tem seus dias felizes e seus dias tristes.

Ela também fica de mau humor.

A morte tem o poder de nos calar e de nos colocar no nosso lugar. Ela não deixa dúvidas sobre o que fazer: por isto expressamos todos aqueles sentimentos de compaixão, de amor, de fé e de solidariedade. Neste momento, sabemos exatamente o que precisa ser feito. Parece um choque de realidade.

O silêncio que ela provoca rompe padrões estabelecidos. Não há regras. As máscaras caem.

Aquela mesma fé que tenho me faz crer que a vida continua. O jogo foi interrompido apenas por um tempo. Mas logo ele retomará. Não demora e eles colocarão novamente suas camisas verdes e voltarão ao campo. É só uma questão de tempo. Foi só uma parada técnica, num dia de muito sol, para um copo de água.

A trajetória destas pessoas e deste time não merece o vice-campeonato. Por isto o grito de “é campeão “ foi cantado justamente.

Parabéns a todos! Vocês todos são campeões! E sempre serão lembrados como Heróis.

Heróis de um tempo, de uma época, de um povo.

#somostodoschapecoense

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Jean de La Fontaine, poeta e fabulista do século XVII, que diz:

“Nas asas do tempo, a tristeza voa”.

Uma frase curta, mas que expressa muito do que sentimos na última semana e que, certamente, ficará em nossas memórias.

E...E...E...! Vamo, Vamo, Chape!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Os crocodilos incompreendidos

imagem tirada da internet
Diz a história que um milionário promoveu uma festa em uma de suas mansões. Num determinado momento, ele pediu para baixar o som para poder falar com os convidados. Ao lado da piscina, aonde criava crocodilos, ele disse:
- Quem pular na piscina e conseguir atravessá-la até o outro lado ganhará todos os meus carros. Alguém se habilita?
Espantados, os convidados ficaram em silêncio. E o milionário insistiu:
- Quem pular na piscina e conseguir atravessá-la até o outro lado ganhará todos os meus carros e os meus aviões. Alguém se habilita?
O silêncio foi desconcertante.
Mais uma vez, então, o milionário disse:
- Quem pular na piscina e conseguir atravessá-la até o outro lado ganhará todos os meus carros, os meus aviões e as minhas mansões.
Foi neste momento que alguém saltou na piscina. A cena era impressionante. Uma intensa luta. O rapaz que saltou na piscina se defendia como podia. Segurava a boca dos crocodilos com pés e mãos. Tentava torcer o rabo dos animais. Muita violência e emoção. Após alguns minutos de terror e de pânico, o corajoso homem, cheio de feridas, saiu da piscina. Vivo.
O milionário se aproximou dele, o parabenizou e perguntou:
- Aonde você deseja que os meus carros sejam entregues?
- Obrigado, mas não quero os seus carros, respondeu o rapaz.
Surpreso, o milionário perguntou:
- Então você aceita os meus aviões? Aonde posso entregá-los?
- Obrigado, mas também não quero os seus aviões.
Estranhando a reação do homem, o milionário fez mais uma pergunta:
- E as minhas mansões? Agora elas pertencem a você!
- Eu tenho uma bela casa, não preciso das suas, respondeu o rapaz.
Impressionado, o milionário perguntou:
- Mas se você não quer nada do que ofereci, o que quer então?
- Apenas encontrar o imbecil que me empurrou para dentro da piscina!
Humor à parte, ninguém, em sã consciência, se atiraria, literalmente, numa piscina com crocodilos. A aparência amiga que a imagem deste texto sugere está presente só nos desenhos. Na vida, queremos ficar longe deles, mas nem sempre é possível.
Sempre escrevo que são várias leituras que podem ser feitas a partir de um texto. E com este não poderia ser diferente. Toda e qualquer leitura que fazemos sempre trará a verdade de cada um.
Lendo esta história, me lembrei das piscinas com crocodilos pelas quais já passei, e com as quais fui convidada a lidar e a mergulhar. O convite, muitas vezes, vinha mascarado de oportunidade na fala de um mau gestor, no erro por escolhas mal pensadas, no comportamento dos hipócritas, no discurso pronto e hostil e aquele comprado por pessoas que não faziam da ética, a sua primeira opção de vida. Piscinas não me faltaram. Algumas fundas, que me ensinaram a nadar, e outras rasas que, apesar de eu não ter o problema da profundidade, outros crocodilos eram colocados lá a todo momento. O convite vinha por todos os lados.
Nunca entramos, por querer, em piscinas com crocodilos. No máximo, sabemos que estamos entrando num lugar com animais ferozes, mas o nosso otimismo natural sempre nos faz crer que o bicho “não é tão feio assim como pintam”. E aí, esperançosos, colocamos parte dos nossos pés na água, e quando nos damos conta, o crocodilo já está atrás de nós. Na maioria das vezes, o que ocorre, exatamente como na história, somos convidados a dar um mergulho numa piscina com integrantes bem acessíveis e generosos.
Entrar em piscinas com crocodilos não depende apenas de nós. Permanecer nelas, sim.
Os crocodilos, apesar de sua aparência repugnante e do perigo que representam, nos fazem um serviço que anos de estudos não seriam suficientes: eles nos fazem, como na história, lutar como guerreiros, desejar a nossa sobrevivência, descobrir o nosso lado estrategista, planejar, confiar, desenvolver o foco e a atenção, ter um objetivo e persegui-lo.
Com um crocodilo atrás da gente, o tempo e a vida são mais valorizados.
Eles nos elevam a um patamar de excelência que levaríamos anos para descobrir e para colocar em prática.
Na história, mesmo à força, aquele homem descobriu que “o outro lado da piscina” é para todos, inclusive para ele. Que chegar “do lado de lá” dependia, entre outras coisas, dele.
Metáforas e proporções à parte, estarmos mergulhados numa piscina com crocodilos é sinônimo de testar nossas forças, de não desistir e de, acima de tudo, rever planos e objetivos. Os crocodilos são excelentes anfitriões. Eles não nos dão muito tempo para firulas. Forçam-nos a nos enxergar dentro da piscina e saber quem somos. Estar lá é um convite para saber se o rumo tomado está certo.
Os crocodilos sempre indicam caminhos. É preciso saber reconhecê-los e trilhá-los.
Eles sempre foram presentes em nossas vidas. Como são quietos e lentos não percebemos a sua presença. Mas eles estão lá.
Com ou sem o nosso consentimento, eles têm vida própria e sempre nos visitam ao longo de nossas vidas, e de formas variadas. Eles chegam, se acomodam e ainda nos pedem um café, porque não têm hora para irem. Mas quando eles se vão, nos agigantamos. Olhamos para trás, para a piscina na qual estávamos mergulhados e, de forma irônica, agradecemos aos crocodilos pela visita, até então incompreendidos por nós. Reconhecemo-nos vivos e munidos de ferramentas até então desconhecidas por nós. Ferramentas nos dadas por eles.
Ferramentas que descobrimos ao longo de nossa jornada até o outro lado da piscina. Ferramentas que descobrimos enquanto lutávamos com os crocodilos.
Eles existem para despertar a força que há em nós, cuja capacidade não tivemos para fazê-la. Mas eles tiveram e fizeram o trabalho por nós. Os crocodilos são ágeis e atentos.
Dentro de uma piscina com crocodilos, o “não posso” não existe, mas sim o “como”. Somente isto nos fará sobreviver a eles. O como abre caminhos para o outro lado da piscina; o não posso nos faz ser engolidos.
Enquanto nadamos até o outro lado, o crocodilo vai nos obrigando a descortinar nossos saberes. É uma questão de sobrevivência. Não temos saídas e opções. E a medida que avançamos e chegamos do outro lado, o crocodilo vai se despedindo de nós. Vencer é uma questão de escolha e de criar possibilidades.
Sem eles, poderíamos ter ficado pelo caminho. Muitos de nós, por não terem tido crocodilos em suas vidas, viveram às margens da paisagem vista da janela. Mas os que tiveram a grande sorte de terem sido jogados dentro de piscinas com crocodilos, hoje ajudam a pintar a paisagem, e não apenas a contemplam.
Portanto, gratidão aos crocodilos do caminho, antes que os convites para novos mergulhos cheguem a nós.
Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Horácio, Filósofo e Poeta da Roma Antiga, que diz:
“A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. ”
Bendito sejam os crocodilos do caminho.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Os elefantes invisíveis

Durante minha trajetória profissional, trabalhei na equipe de um grande Líder com quem aprendi muito. Quando acontecia algo absurdo que, na visão dele, representava uma grande perda de foco e de tempo, ele dizia: “prestamos tanta atenção às formigas, que não percebemos a passagem dos elefantes. ”

Fico imaginando como não perceber a passagem de elefantes..., mas o fato é que eles passam, estão passando e já passaram. E a gente nem percebeu, realmente.

Obviamente que dar atenção às formigas é fundamental. Elas também fazem a diferença. E apesar de seu pequeno tamanho, suas obras são imensas. Mas naquele momento, ele chamava a atenção para o fato de que as formigas estavam bem cuidadas e encaminhadas, mas os elefantes não. As formigas estavam à mostra. Mas os elefantes não. As formigas se mostravam e faziam questão de dizer que estavam passando. Mas os elefantes não.

Formigas e elefantes: dois lados que dão conta das nossas questões e nos chamam a refletir. Mas quem está com boa vontade e disposição para esta conversa?

Ver e perceber as formigas é muito mais fácil. Organizadas, perfeccionistas e previsíveis, no bom sentido. Então, como não perceber que elas estão lá?

As formigas não se escondem. Mostram-se e o caminho delas é conhecido.

No entanto, os elefantes, mudam suas rotas ao primeiro sinal de perigo. São fortes. Atacam e constroem caminhos alternativos para despistarem os inimigos. Vivem em localidades de difícil acesso e dificultam, ao máximo, a proximidade com o homem.

Os elefantes não se mostram. Escondem-se e isolam-se. O caminho deles não é conhecido.

Por tudo isto é que aquele Líder, de verdade, com quem trabalhei, dizia isto com frequência.

Ter atenção para perceber o que realmente importa é para poucos. Perceber formigas é essencial. Mas perceber elefantes é imprescindível. Mas isto é para poucos. Apenas para aqueles cujo olhar se despojou de percepções inúteis e desnecessárias, livres do preconceito e das vaidades. E este olhar é para poucos.

A história abaixo, aparentemente inofensiva e divertida, escrita pelo cronista Sérgio Marcus Rangel Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, traduz o que trago neste texto. A história é sobre a Velha Contrabandista...

imagem tirada da internet

Havia uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira, montada na lambreta, e carregava um saco atrás. Todos da Alfândega, experientes, começaram a desconfiar dela.

Um dia, quando ela vinha em sua lambreta, e carregando o saco atrás, o fiscal pediu para ela parar e perguntou:

- Escuta, aqui, vovozinha. A senhora passa aqui todos os dias, com esse saco atrás. O que a senhora carrega dentro dele?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que ainda restavam e mais outros que adquirira no odontólogo, e respondeu:

- Carrego areia!

O fiscal sorriu e não acreditou nela. Teve a certeza de que ela não carregava areia alguma naquele saco, e mandou que ela descesse da lambreta para examiná-lo. O fiscal, então, esvaziou o saco e dentro, realmente, só havia areia. Envergonhado, ordenou à velhinha que seguisse. E assim ela foi embora.

Mas o fiscal, mesmo assim, continuou desconfiado. Pensou que ela estivesse passando num dia com areia e no outro com muambas, dentro daquele saco. No dia seguinte, quando ela passou em sua lambreta com o saco atrás, o fiscal pediu para ela parar novamente. Perguntou o que ela levava no saco. E, de novo, ela respondeu que era areia. O fiscal examinou e confirmou. Durante um mês o fiscal parou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Aí o fiscal se chateou e disse:

- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega há 40 anos. Reconheço de longe esta coisa de contrabando. Ninguém me convence de que a senhora não seja contrabandista.

- Mas no saco só tem areia, insistiu.

Quando ela ameaçou seguir com a sua lambreta, o fiscal propôs:

- Eu prometo que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai ter que me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

- O senhor promete que não "espaia"?

- Juro, respondeu o fiscal.

- Meu contrabando é a lambreta...

Pois é, quantas lambretas não deixamos passar por estarmos tão obstinados em descobrirmos o que havia no saco.

Sabermos onde estão as formigas e o que há no saco é importante. Faz parte do processo. Mas enquanto estivermos destinando o nosso olhar apenas para isto, nossos elefantes invisíveis passarão, montados em lambretas, sem que percebamos a sua passagem. No máximo, acenaremos para eles, enquanto passarem por nós, como ilustres desconhecidos, sem sabermos o porquê os cumprimentamos e sem sabermos quem eles são...

domingo, 23 de outubro de 2016

Cuide das panelas que estão no fogo

imagem tirada da internet

Panelas são utensílios domésticos bem antigos. Sua função mais nobre é o ato de transformar, de alimentar. Elas podem ser de cerâmica, pressão, alumínio, vidro, ferro, barro, cobre e outros tipos. São instrumentos de protesto também, é verdade, mas este não é o seu papel. Pelo menos não deveria ser.

Independentemente do tipo, panelas ajudam a transformar. Ajudam a criar outro estado. Ajudam a mudar a forma.  Elas são o meio para algo. Elas são a ponte. Elas são a ferramenta que, nas mãos certas, produzem maravilhas.

Ouvi a expressão “cuide das panelas que estão no fogo” de um comentarista esportivo. Em uma determinada partida, o locutor disse esta frase referindo-se a um jogador que, apesar de não fazer muitos gols, cuidava muito bem das panelas que estavam no fogo. Disse, ainda, que se tratava de um jogador atento aos lances do jogo, dava assistências, tinha foco e visão privilegiados sobre a partida. E completou: “pois é, ele cuida das panelas que estão no fogo. Não deixa as panelas queimarem. ”

Fiquei com esta expressão na cabeça e resolvi pegá-la emprestada para escrever este texto.

Diversas são as leituras que podemos fazer sobre esta expressão. Todas estarão certas. Quando tratamos da subjetividade da vida, todas as leituras que fazemos têm o seu sentido, a sua lógica. E, portanto, não podem ser contestadas.

Cuidar das panelas que estão no fogo significa não perder a construção de vista. Quando deixamos que a vida cuide daquilo que é o nosso papel, sentimos aquele cheiro desagradável de panela queimando no fogo. Corremos para a cozinha, na esperança de salvarmos o alimento, e desligamos o fogo. Tarde demais. A comida queimou e a panela, se dermos sorte, poderá ser salva.

E por que isto aconteceu? Porque perdemos o foco e a atenção. Duas raridades atualmente. Perdemos o foco e a atenção, muitas vezes, sobre algo importante. Porque para aquilo que não importa, muitas vezes dedicamos foco e atenção. Estranhezas de nossos tempos que só cabe a nós resolvê-las.

Estar atento às panelas que estão no fogo significa, também, abrir mão de uma suposta vaidade pessoal porque, certamente, aquele que cuida das panelas no fogo não será o que vai saborear a refeição. E estar disposto a esta grandeza de espírito é um lugar que não sei se já está habitado por alguém.

Cuidar das nossas panelas e não permitir que elas se queimem é fazer as coisas com propósito e sentido. Saber o que importa e a essência. É saber que a responsabilidade de cuidar delas será sempre nossa, correndo o risco de nunca sermos reconhecidos e valorizados por isto.

Quando cuidamos bem de nossas panelas e temos atenção a todas as etapas necessárias fazemos, da vida do outro, uma vida com mais facilidades e com menos interrupções. A vida do outro, por causa do nosso cuidar, se torna mais fácil de ser vivida. Podemos apostar que sim. Mas nem sempre a nossa vida será mais fácil por causa disto. É a arte da renúncia.  E, novamente, isto não é para todos.

A renúncia somente existe no vocabulário daquele que já entendeu que servir é muito melhor que ser servido. Aqueles que já começaram a cuidar das suas panelas iniciaram o seu processo de renúncia. O seu processo de servir.

Se você está na condição de servir é porque já tem suas necessidades atendidas, ou próximo disto. É, portanto, uma pessoa mais livre. Não necessita ser servido.

Servir é um ato de superioridade. Só os despojados de inutilidades enxergam o valor disto.

Renunciar a vaidade de fazer o gol em prol de um passe para aquele que melhor está posicionado.

Renunciar o gosto de ter sempre razão para lembrar que a razão do outro também existe.

Renunciar a obsessão pelo acerto, uma vez que isto nos induz ao erro.

Renunciar é o início da verdadeira felicidade. Aquele que renuncia tem menos necessidades. Por isto é muito mais feliz.

Quem não descuida das panelas tem uma atenção que altera, coopera e transforma.

Enfim. As panelas são nossas. A cada um a responsabilidade de cuidar do que nos cabe. É preciso assumir nossas panelas para que sejamos merecedores do seu alimento.

Tempo, esforço e dedicação. Três atributos seguidos por quem iniciou o caminho. E coragem para expor o resultado do nosso cuidar, que é o que não dá para não fazer.

Cuidar das panelas é não permitir que as nossas verdadeiras questões de distanciem de nós.

Que a gente sempre consiga equilibrar os gols realizados na vida com o cuidar de nossas panelas. Os gols virão, certamente. Mas terão mais sabor se forem construídos em estradas que permitiram o uso e o cuidar de panelas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Confúcio, pensador Chinês, que diz:

“O operário que quer fazer o seu trabalho bem deve começar por afiar os seus instrumentos. ”

Pois é, e que melhor instrumento para este começar que não nossas panelas? Mas é preciso atenção para que elas não se queimem durante a nossa trajetória.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O Ballet que desequilibra

imagem tirada da internet

Todas as danças são belas. Não vejo exceção. Mesmo aquelas cuja sintonia não bate com a nossa, ainda assim são belas. Têm a forma, o ritmo, a beleza, a história, o esforço, o trabalho.

Acredito que a beleza da dança também se reflita, além da questão coreográfica, por conta do amor à profissão, que é visível nos artistas. Aquela vontade de estar lá. Aquela presença da alma em tudo o que é feito.

Quando a nossa alma está presente, tudo o mais se realiza.

Dançar, para estas pessoas, passa a ser mais que passos e posturas: passa a ser uma forma de expressar felicidade, portanto. E isto é para tudo na nossa vida, não somente na dança. Quando conseguimos, de fato, nos enxergar de corpo e alma naquilo que fazemos, o trabalho, a dor e o cansaço ficam, de verdade, para segundo plano. E um segundo plano raramente visitado, frequentemente esquecido.

E o ballet é uma destas maravilhosas danças. Assistir a uma apresentação desta é se deixar conduzir pela leveza, ter certeza sobre o próximo passo e seguir adiante, de preferência sem errar...a perfeição é a ordem. O equilíbrio uma necessidade.

Toda aquela elegância e postura sob os pés dos bailarinos caem por terra caso não sejam respeitadas. E o que seria belo se torna desequilibrado e desarmônico. O ballet é uma das danças cujo erro é mais notado, mais visto. Em outras danças também. Mas aqui, os passos são tão calculados que não há espaços para tentativas, desvios e disfarces.

O ballet exige uma perfeição que a própria vida ainda não aprendeu.

Estudei com uma colega, no ensino fundamental, chamada Denise. Menina calada, muito inteligente, discreta e de movimentos controlados. Esguia, magra e alta, a pergunta a ela era inevitável: “você dança ballet”? “Sim, estudo, no Teatro Municipal”. Esta era a resposta da Denise, apenas isto. Nenhum sorriso, nenhuma pista. Respostas curtas talvez sinalizando a nós, crianças curiosas, que não caberiam mais perguntas.

Ainda bem que, como crianças, muitas vezes não entendemos os sinais que nos dão. Assim nossas buscas podem continuar. Como continuaram.

A Denise não falava que “dançava ballet”, mas sim que “estudava ballet”. Este já era um forte sinal. Aquele que sente prazer no que faz se deixa conduzir pela dança, pela emoção.

O tempo foi passando e a Denise foi se ambientando mais conosco, foi gostando da nossa companhia, foi se aproximando mais da gente. Foi quando começou a dizer que não gostava de fazer ballet, mas que tinha que fazer porque seus pais assim queriam. Dizia que era uma tortura ir para o Teatro Municipal e que seus pés doíam muito. Que até achava bonito aquilo, mas que não era para ela. E quando a questionávamos sobre dizer isto a seus pais, ela era categórica: “não adianta. Eles não vão aceitar que eu pare. Eles querem que eu seja uma bailarina. ”

Como crianças, não tínhamos muito como ajudar a Denise. Mas entendíamos a sua tristeza que agora, de forma mais próxima, ela compartilhava conosco. O sonho da Denise? Ser Psicóloga. Sempre dizia isto para nós. Mas seus pais diziam que “esta” profissão não dava futuro para ninguém.

A Denise chegou a se formar pelo Teatro Municipal. Foram sete anos de estudo e de dedicação forçados. Mas sem o principal: propósito. A professora dela chegou a conversar com os pais dizendo que a Denise não tinha prazer pela dança. E os pais disseram: “sabemos o que é melhor para ela. No futuro, ela vai nos agradecer por esta bela profissão. Quantos chegam a um Teatro Municipal? ” O propósito era dos pais, e não da Denise.

Sem propósito, tudo o que é feito é em vão.

Querer que o outro seja o que ele não quer é uma agressividade silenciosa. Há agressões morais mais duras que agressões físicas. Talvez este seja um exemplo.

O tempo passou. Adulta, a Denise ingressou numa segunda faculdade: a que sempre quis. Psicóloga formada, recuperou o seu “diploma” de bailarina, empoeirado na gaveta e o entregou a seus pais como uma forma de se acertar com os seus fantasmas.

Quando lembro desta história, penso que a Denise era só uma criança tentando se encontrar no mundo. Buscava equilibrar-se nas imposições que não compreendia. Buscava reconhecer-se e conhecer suas vontades e habilidades. Mas não teve chances.

Orientação é completamente diferente de imposição. A orientação é necessária àquele que inicia o caminho, como a criança. Mas a imposição é uma tirania disfarçada de educação.

É preciso respeitar o espaço do outro para que ele possa se encontrar.

A coordenação, a simetria, a postura, as regras e a rotina do ballet somente são válidas quando fazem sentido para aquele que faz. A perfeição do ballet só é perfeita para a dança. Para a vida, é preciso mais que passos, regras e rotinas. É preciso sentido.

Por que insistimos em desviar as rotas dos outros? Por que achamos que sabemos o que é melhor para o outro? Por que calamos a voz do outro para que somente a nossa seja ouvida? Por que a opinião do outro nos agride? Por que a escolha do outro é ridicularizada? Por que nossos talentos são questionáveis aos olhos do outro? Por que precisamos trilhar rotas que não quisemos construir?

Perguntas sem respostas. Talvez não haja respostas. Talvez as perguntas sejam mais que suficientes. Ou talvez a resposta esteja dentro da pergunta...

A Denise venceu seus medos e transgrediu. Disse-nos que foi “libertador” não precisar mais “dançar” aquela dança. Ela, finalmente, compreendeu, que o verdadeiro prazer pela dança não estava naquele caminho que ela trilhava. Que o verdadeiro sentido de tudo é fazer aquilo que vai ao encontro da essência de cada um. E neste novo caminho não cabem imposições.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, trazendo um pensamento da Companhia Cisne Negro, uma das mais respeitadas escolas de dança do mundo, inclusive, de ballet, ironicamente...

“A única coisa que está em seu caminho para a perfeição é você mesmo."

Trilhar o nosso caminho, aquele que faz sentido para nós, é a verdadeira essência, é o que nos levará à verdadeira perfeição. Nós somos o caminho que nos levará a ela. Neste nosso caminho haverá pedras, percalços, buracos. Mas ainda assim será o nosso caminho, verdadeiro e único.

Aquele que faz sentido.