quarta-feira, 21 de março de 2018

Os pregos em nós

Enxergar o outro como verdadeiramente o outro, e aceitá-lo, talvez seja uma das coisas mais difíceis. A essência do outro fica camuflada diante os nossos olhos quando algo nos confronta, nos desafia, nos diz que podemos estar errados. Sabemos que ele tem uma essência, mas é como se ela atrapalhasse o brilho da nossa. Sentimo-nos ameaçados e a saída, encontrada por muitos, é enquadrá-la à nossa maneira e formato de ver e de lidar com o mundo.

Conviver com o diferente não é simples. Exige muitas habilidades. Mas é preciso reforçar que é ineficiente e improdutivo rechaçá-lo e colocá-lo de lado. O diferente do outro nos incomoda, mas o nosso diferente também incomoda os outros.

Respeitar as diferenças não significa concordar com elas. Significa, apenas, respeitá-las e ceder espaço para que o outro pense e aja diferentemente. A palavra respeito, do latim respectus, significa, além de outras coisas, olhar para trás, considerar. Ou seja, aquele que respeita olha para trás e sabe que há sempre alguém vindo. Não um olhar para trás arrogante, como se estivesse à frente, mas um olhar ciente de que não vamos sós, que o mundo caminha compartilhado e partilhado, dividido com outros saberes, sentidos e passos. Quando pensamos desta forma, mesmo que a nossa discordância do outro seja inevitável, no mínimo, o respeito estará presente. Mesmo que o nosso compartilhar de passos seja por meio de caminhos distintos e opostos, mesmo assim, o respeito estará presente.

Respeito presente. Guerra ausente. Podemos lutar lutas distintas. Podemos nos distanciar daquele de quem não compartilhamos nem a vírgula. Podemos nos afastar daquele de quem discordamos absolutamente, principalmente nas atitudes, valores e virtudes. Mas, o respeito, se convidado, sempre estará pronto para ser o condutor da paz.

Trabalhei num Banco e ouvi, certa vez, no momento do feedback:

“Você precisa se expor mais, falar mais, dizer a sua opinião, nas reuniões da Diretoria. Percebo que nestas reuniões você não fala muito, é muito calada. É importante você se colocar para que as pessoas te conheçam mais e saibam quem você é.”

Apesar de discordar, apenas ouvi aquele comentário descontextualizado. Ao final do feedback, a Gestora me perguntou: “está claro, ficou alguma dúvida?”, apenas respondi: “claro está, mas discordo. Se não falo muito neste tipo de reunião é porque não tenho muito, mesmo, a dizer. São reuniões genéricas e amplas que, em muitas situações, não cabem comentários, mesmo. As poucas interações que já fiz me parecem mais que o suficiente. Acredito que a fala deve ser utilizada com utilidade.” Assim encerramos o nosso feedback: de uma forma traumática, ineficiente e tendenciosa.

Jamais podemos chamar a atenção de alguém por falar pouco ou por não dizer a própria opinião. A menos que esta ausência de fala prejudique algo ou alguém, o que não foi o caso. Muitas pessoas apenas “falam” neste tipo de situação para marcarem presença. Levantam o braço apenas para chamarem a atenção para si. Falam apenas para ocuparem espaços vazios e para gritarem suas vozes sem expressão.

O feedback é e deve ser um momento de realimentar para o bem, e não um momento de opressão. O alimento eleva; a opressão rebaixa.

Importante dizer que esta Gestora era extremamente falante e extrovertida. Sempre tinha uma opinião sobre tudo. Estava sempre envolvida em diversas ações, porém com poucas conclusões. E “não sei” era algo raro de se ouvir.

“Se tudo o que você tem é um martelo, sua tendência será ver tudo como um prego.” Este foi o pensamento que veio à minha mente após aquela conversa. Fui tratada como um prego, naquele momento, uma vez que ela possuía, apenas, um martelo. Uma pena.

Quem sai perdendo com tudo isto? Aquele que não considera a diferença e que mede o outro por meio da sua régua pessoal. Que busca reprodutores de modelos e de pensamentos, seguidores e não pensadores. Aquele que, tomado pela cegueira, enxerga, apenas, o seu caminhar, os seus passos e as suas marcas.

Aquela gestora demonstrou toda a sua limitação ao não considerar que eu era apenas diferente dela. Simples assim. E isto é um exemplo de muitos outros símbolos.

Direcionar alguém e orientá-lo para a realização de um bom trabalho é essencial. Contribuir para o desenvolvimento de alguém, fazendo que as habilidades e talentos desta pessoa brilhem e ajudem a criar o sucesso do todo é o que um Líder, verdadeiro, deve buscar. No entanto, reprimi-lo sobre quesitos da personalidade, sobre algo pessoal e particular, que nada interferem na qualidade, na entrega e no bem-estar nem do trabalho e nem da pessoa, em questão, é ultrapassar as fronteiras do razoável e do aceitável. É, no mínimo, entrar na casa de alguém sem, ao menos, tocar a campainha e pedir licença para entrar.

O tempo passou, e após quatro meses, outra Gestora chegou a área. Muitas mudanças boas foram percebidas por todos. No momento novamente do feedback, que era semestral, um dos comentários que ouvi, desta nova Gerente, foi:

“um dos seus pontos que destaco é o discernimento ao falar, ao se expor. Você é bastante discreta, fala apenas quando tem algo a agregar, não fala apenas por falar, inclusive em reuniões com Diretores, momentos muitas vezes de realização de marketing pessoal para tantas pessoas. Saber o momento de se calar é uma arte. São características essenciais para o trabalho que se faz aqui.” E quando ela me fez a pergunta clássica: “está claro, ficou alguma dúvida?”, me lembrei imediatamente da situação oposta que tinha vivido.

Ironias da vida ou reflexões? Os dois. Ironia porque para uns, é defeito; para outros, qualidade. E reflexão porque uma coisa é nos permitir à reorientação, quando necessário, chamados à atenção e reconduzidos ao caminho que nos levará ao melhor que pudermos ser. Isto é o início de um trilhar de humildade, é um reconectar dos nossos pés com a terra. Às vezes é doloroso, mas necessário. Um alimento amargo, mas que lá na frente saberemos valorizá-lo. Outra coisa é aceitarmos, indevidamente, nos colocar numa condição de pregos por alguém que não enxerga as próprias limitações.

Não se trata de valorizar a segunda atitude apenas porque fui elogiada. Exatamente o contrário. Trata-se de ressaltar a relevância da valorização da diferença, da individualidade. Esta segunda Gestora também era extrovertida e falante. Porém, sabia enxergar, no silêncio e na discrição, relevâncias também. Sabia enxergar ganhos nas diferentes formas de existência.

Exigir e fazer que o outro ande na nossa rota, no nosso caminho, e de preferência, com as nossas regras é um excelente condutor ao fracasso. Enxergá-lo apenas com uma possibilidade, e ainda assim, porque está baseada na nossa expectativa e crença, é somente o retrato da nossa pequenez e do quão distante ainda estamos.

A diferença entre as marteladas que a vida nos dá e as que os outros nos dão está no sentido: as da vida representam um pedido para acordarmos para as inúmeras possibilidades de deixarmos de ser pregos. As que os outros nos dão servem para nos confundir de quem realmente somos, e assim, nos afundarmos em madeiras podres e doentes. Servem para não pensarmos em quem somos e em quem poderemos ser.

Críticas e elogios: duas faces da mesma moeda. Importantes para o nosso desenvolvimento. As críticas nos reconduzem ao caminho que nos fará brilhar, e os elogios nos darão a certeza de que já estamos brilhando, mas não um brilho que ofusca aquele que vem atrás, mas o que ilumina o caminho em comum no qual todos possam caminhar.

Uma crítica sincera e efetiva nos mostra muitas possibilidades além de um prego. Um elogio sincero é um sinal de respeito ao que se é, à individualidade, ao estar no mundo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Manoel de Barros, um poeta imprescindível, que diz:

Guarda, num velho baú, seus instrumentos de trabalho que são: um abridor de amanhecer, um prego que farfalha, um encolhedor de rios e um esticador de horizontes”.

A poesia dá colorido à vida. Ela explica o verdadeiro sentido que a vida pode e deve ter. Manoel de Barros sabe disso há tempos.

Aquele prego, cuja comparação me foi feita está, até hoje, guardado na minha memória e no meu velho baú. Aonde o respeito predomina, o ego perde a vez.

Nossos pregos guardados em nossos baús representam o essencial: lembrarmos de manter a atenção em nós e no que, verdadeiramente, importa. Quando estamos atentos a nós, o mundo ao redor melhora. E, consequentemente, deixamos de considerar o outro como prego ou, pior, de martelá-lo como se esta fosse a opção e caminho dele.

Sempre haverá pessoas tentando diminuir os nossos tamanhos. Os pregos guardados nos farão lembrar disso. Mas como somos grandes, não permitiremos.

O feedback, uma excelente ferramenta, é uma arma na mão dos desajustados. Pode prejudicar alguém ou o tiro pode sair pela culatra. Neste caso, o tiro acabou saindo pela culatra: ao invés de aquela Gestora conseguir me oprimir por meio de uma fala tendenciosa, ela, sem perceber, me ajudou a descortinar uma arma poderosa que tenho, que todos nós temos: o meu esticador de horizontes. Uma arma poderosa que há no baú de todos nós.

Que todos nós possamos fazer uso do nosso baú. Ele nos diz aonde estamos, porque assim nos colocamos, mas nos diz, acima de tudo, aonde poderemos chegar se fizermos uso de um abridor de amanhecer e de um esticador de horizonte, por exemplo. Com estas ferramentas, os pregos até continuarão existindo, mas não em sua função inicial, apenas. Eles precisarão se adaptar aos novos moldes de ferramentas mais éticas, claras e justas.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A passagem estreita

Um homem foi ao encontro de Sócrates para levar a ele uma informação. Julgando ser de interesse do filósofo, disse:

- Mestre, quero contar ao Senhor uma coisa a respeito de um amigo seu.

- Espere um momento, disse Sócrates. Antes de me contar, quero saber se você passou esta informação através das três peneiras.

- Três peneiras? O que o Mestre quer dizer com “três peneiras”?

imagem tirada da internet

- Quero dizer que vamos peneirar tudo aquilo que você vai dizer. E para isto, devemos, sempre, utilizar as três peneiras. Se não as conhece, preste bem atenção. A primeira delas, é a peneira da Verdade. Você tem certeza de que isto que vai me dizer é verdadeiro?

- Bem, disse o homem, foi o que eu ouvi os outros contarem. Não sei, exatamente, se é verdade.

Sócrates olhou para o homem de maneira desconcertante.

- A segunda peneira, continuou Sócrates, é a da Bondade. Acredito que você tenha passado esta informação através desta peneira. Ou não?

Envergonhado, o homem respondeu:

-Devo confessar que não.

Sócrates, pensativo, continua:

- E a terceira peneira é a da Utilidade. Você pensou se esta informação é útil?

- Útil? Na verdade, não. O homem respondeu, baixando a cabeça.

- Então, disse o Mestre, se o que você quer me contar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueça a informação.

Certamente, se seguíssemos estes conselhos de Sócrates o mundo seria mais feliz, justo, ético e silencioso.

Feliz porque o mundo ficaria mais leve sem tantas falas, sem tantos comentários. Falamos muito e sobre tudo. O fazer, muitas vezes, é obrigado a ceder espaço para o falar sem parar. Quando falamos muito não temos tempo de construir a nossa felicidade que, passa, obrigatoriamente, pela reflexão interna, pelo autoconhecimento, pela contemplação. A felicidade é plena e leve. Digna daqueles que mais observam do que falam. Felicidade é ausência de necessidades. Como ser feliz falando muito e com desequilíbrio?

É preciso dar espaço para as ausências porque elas nos constroem. O caminho da construção interior leva à felicidade.

Justo porque utilizaríamos medidas honestas na nossa convivência, e não tendenciosas. Três pra mim e meio para você. Nosso próximo não seria utilizado, por nós, como escada e vice-versa. Sentar-se na primeira fila deixaria de ser sinônimo de observar, com atenção, o erro do outro. Quando erramos, queremos compreensão, paciência e, de preferência, que esqueçam logo o nosso erro. Quando o outro erra, vestimos a nossa torga e julgamos. Enquanto o prazer em ver o erro do outro existir e a curiosidade e a fofoca ocuparem mais espaços do que a ajuda, como falar em justiça?

É preciso calçar as sandálias do outro, como diz o provérbio, para, de verdade, começarmos a entender o conceito de justiça.

Ético porque as mesmas regras que servem para nós devem servir para o outro. As três peneiras de Sócrates são um exemplo disto. Como ser ético sem ser bom, verdadeiro e útil? Como ser ético se os nossos espelhos estão cobertos? Como ser ético se estes mesmos espelhos, agora descobertos, estão virados para o outro? O espelho mostra quem somos. Por que temos tanta capacidade de falarmos sobre o que não importa? Por que o supérfluo nos representa tanto? Por que nossos espaços não são ocupados pelo sentido?

É preciso revisitar os nossos excessos, facilidades, privilégios e comodidades para, então, iniciarmos a fala sobre ética. Todos eles são indicativos de falta. E falta de algo maior.

Silencioso porque muitas coisas deixariam de ser ditas. Os excessos se retirariam, envergonhados. O silêncio teria sua vez. Os sábios são silenciosos. Falam pouco porque o exemplo deles fala por si. Ouvem muito porque são humildes. Aquele que sabe ouvir e que silencia vai à frente, bem à frente. Somos barulhentos, ansiosos, espaçosos porque, ainda, não aprendemos a valorizar e a perceber o silêncio. Nele podemos, verdadeiramente, nos expressar. Mas perdemos esta oportunidade. “Fala demais por não ter nada a dizer”, diz a música. Um valioso exercício de reflexão. Falar é imprescindível, mas desde que haja o que dizer. Desde que a fala construa algo verdadeiro e digno.

Fabricamos falas improdutivas, mais do mesmo. Falamos sobre as rugas, olheiras e comportamento de todos. Julgamos, criticamos e sempre temos uma solução. Somos assíduos consumidores de fofocas em todos os formatos (reality, revistas, tv). Falamos o tempo todo sobre tudo e sobre todos porque não dedicamos tempo a nós e à construção de nós mesmos. E quando o silêncio se aproxima, tratamos de preenchê-lo e o desprezamos.

Nossos espelhos estão envelhecendo por falta de uso. Nossas imagens distorcidas não chamam mais a nossa atenção. Queremos o palco para termos atenção porque há tempos não sabemos o que é isto, não nos damos atenção. Falamos dos outros indefinidamente e sem pudores porque falar da gente nos fará nos conhecer. A fofoca nos alivia porque, assim, colocamos o outro na cena do julgamento. E assim vamos passando despercebido na vida.

Aquele que ouve os próprios silêncios, silencia. Cala-se. Não tem tempo de falar do outro, de se ocupar, indevidamente, da vida do outro. Aquele que utiliza a verdade, a utilidade e a bondade como forças há muito já entendeu o sentido da vida e o que fazer dela.

Utilizar as peneiras trazidas por Sócrates é sentir o aperto da responsabilidade. É sentir o estreitamento da vida. É uma advertência para a renúncia do que não serve. Uma advertência e um convite, ao mesmo tempo. É um desvencilhar das inutilidades para, finalmente, conhecermos a utilidade. É conhecer o mal para que possamos diferenciá-lo do bem. É conviver com mentirosos para que saibamos valorizar a verdade.

Uma peneira é estreita e apertada. Somente passará o importante e o necessário.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento do próprio Sócrates, que diz:

“O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância. Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.”

Que nossa bondade não seja seletiva e que nossas falas não tenham mais dificuldades absurdas para reconhecerem o valor do outro, se quisermos que o nosso valor seja igualmente reconhecido. Que o silêncio seja mais vivenciado para que a nossa fala seja cada vez mais eficiente e significativa. Que a admissão da ignorância não seja uma vergonha para nós, mas sim, o princípio da sabedoria, como trouxe Sócrates.

É preciso valorizar os passos dados, que já foram muitos. É preciso valorizar o bem que há em nós, porque há. Mas é preciso, também, abastecer nossas vidas com mais peneiras porque elas nos levarão a um melhor patamar de consciência e, consequentemente, a um melhor patamar de ser. Um ser conciso, estreito, no melhor sentido da palavra, e peneirado.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Somos o nosso espelho

Há dois meses, estávamos no fim do ano. Preparativos, correrias, afazeres. Tudo para que, na noite do dia 24 de dezembro, a nossa ceia familiar estivesse pronta e, desta forma, pudéssemos nos reunir com aqueles a quem amamos e brindarmos o Natal, o ressurgimento, o nascimento. E na semana seguinte, os mesmos preparativos para recebermos aquele que batia à nossa porta: o Ano Novo.

Independentemente da religião de cada um, se é que a temos, e da crença que vai na mente e no coração de cada um de nós, o fato é que, nestas duas épocas do ano, nos dedicamos mais àquilo que verdadeiramente importa: união, amor, fraternidade e, para os mais atentos, reflexão e um reposicionar-se diante à vida.

O ano inicia. Aquele sentimento de renovação e de desejo de coisas boas que buscamos para nós e que também desejamos ao outro, à meia-noite, parece que vai caindo no desuso e no esquecimento, e todos aqueles votos de paz, amor, fraternidade, união e prosperidade vão reocupando os lugares do abstrato nas nossas vidas. Não um abstrato que tem força própria de existência e que se materializa sem a nossa interferência, mas um abstrato intangível, e mais que isto: um abstrato que não se alcança. Obviamente sem generalizações. Cada um é cada um. Há muitas pessoas que se esforçam, e muito, para carregarem este dever e esta vontade de renovação ao longo do ano. Mas há outros tantos que se esforçam, e muito, para que a teoria sempre fique bem distante da prática. Aqueles que possuem a teoria afiada na ponta da língua, mas os braços curtos para alcançarem o próximo, assim como se deixarem alcançar também pelo outro.

E é nessa hora que uma palavra simples, sem muitos adereços e brilhos, pouco utilizada e até menosprezada, entra em cena: a reflexão.

Reflexão conversa com refletir que conversa com reflexo. Todas da mesma família. Todas com a mesma provocação. Como coincidências não existem, acredito que elas queiram nos dizer algo. Mas será preciso dedicar os nossos ouvidos para ouvi-las.

Reflexão é um exame a respeito de nós mesmos. É um voltar para trás para refletir. É um pensar sobre o nosso comportamento, nossas atitudes. É uma investigação do investigado, no caso, a gente mesmo. Reflexão é, portanto, uma postura firme de desejo de reposicionar-se na vida. Refletir é a ação em si. É colocar em prática o nosso pensar, mudar a direção e, acima de tudo, arcar com os custos disto. E reflexo é o produto da nossa reflexão, que pode ser aquilo no que acreditamos ser, não necessariamente aquilo que somos. Reflexo, portanto, é aquela imagem que volta para nós mesmos ao passarmos diante um espelho.

O que enxergamos ali? Para alterarmos aquele reflexo será preciso efetuarmos modificações no nosso refletir, no nosso agir. E assim, nossa reflexão, este exame a respeito de nós, será mais eficiente e sustentável. A imagem vista no espelho será mais amigável. E apesar de ela nos duplicar (somos dois ao nos vermos através do espelho), isto já não será mais problema.

A reflexão deve ser um exercício diário se quisermos sair dos cumprimentos formais das festas de fim de ano. E oportunidades para estas reflexões não nos faltam.

imagem tirada da internet

Estes encontros anuais com a boa fala, com as boas palavras e com os bons desejos se mostram insuficientes. Basta olharmos os resultados. As comemorações de Natal e de Ano Novo não dão conta mais dos nossos absurdos e das nossas demandas. É preciso estabelecer mais paradas para refletirmos nossas condutas e, por consequência, nossos reflexos no mundo e em nós mesmos.

O trabalho é meu. A responsabilidade é minha. O dever é meu. As conquistas são nossas.

Toda reflexão começa no nível individual, mas o produto dela se materializa no coletivo. E para isto, será preciso espalharmos espelhos aonde poderemos nos enxergar sem rodeios, entraves e atalhos. Os nossos bastidores são descortinados e os nossos reais interesses se mostram.

Espelhos apenas refletem quem somos, porém em dobro. Se há incômodo com o que se vê lá, estejamos certos de que a vida está nos fazendo um convite para uma reflexão, cujo único objetivo será o de apaziguar, acalmar e compreender os nossos reflexos. Acolhidos, quem sabe eles não nos dizem o que fazem lá? Quem sabe eles não revelam o motivo de surgirem para nós, mesmo que a nossa revelia?

Refletir, fazer reflexões e tomar contato com os nossos reflexos não é das tarefas mais fáceis. Mas se deixarmos estas tarefas para o fim do ano, apenas porque a boa educação manda, as coisas ficarão mais difíceis ainda. Refletir é uma das formas de dedicarmos amor a nós mesmos. E de, mesmo sem percebermos, sermos pessoas mais felizes que não são aquelas que possuem muitas coisas, mas sim, as de poucas necessidades. E as nossas reflexões diárias nos ajudam a eliminar as nossas necessidades desnecessárias e descabidas. Ajudam-nos a apreciar o sentido, a direção, o foco, para que a gente acerte o caminho logo do início. E mesmo se errarmos, será mais fácil retomarmos o caminho, se a reflexão estiver fazendo parte da nossa rotina.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento que diz:

“passo a passo, anda-se, num dia, um bom pedaço”.

Que bons pedaços sempre façam parte de nossa caminhada. Bons pedaços calçados, pensados e firmes no estar no mundo. E quem sabe, um dia, de pés firmes e calçados, olharemos no espelho e estaremos em paz com os nossos reflexos. Mesmo cansados pelo caminhar, felizes pelo avançar, agora a longos e bons pedaços.

domingo, 28 de janeiro de 2018

E se eu tentar

O que conseguiríamos se tentássemos? O que nos seria possível alcançar se não desistíssemos? Aonde chegaríamos se não parássemos? O que há por trás de uma simples pergunta: “e se eu tentar?”: há um descortinar de nós mesmos. Um descortinar que nunca se esgota e que nos leva a conhecer o que, insistentemente, buscamos esconder.

Nunca saberemos aonde poderíamos ter chegado ou aonde chegaremos se não tivéssemos tentado, se não tentarmos. A tentativa é a nossa resposta teimosa quando a vida nos diz não, quando o convite insinua um desistir de nossa parte. Mas há convites que devem ser recusados e devolvidos ao remetente. Quando tentamos, mesmo ainda sem sabermos o resultado, demonstramos a nossa crença na não desistência. E isso nos fortalece.

É inimaginável o que poderemos alcançar se tentarmos, se não desistirmos.

Desistir é concordar com a inércia, é dar ponto a quem quer que o jogo seja perdido por nós. Desistir é a entrega sem luta. É a concordância sem questionamento. É o baixar de olhos sem ter-se permitido ver. É aceitar uma conclusão sem emitir, se quer, uma opinião. Desistir é sair da vida, mas ainda permanecer nela sem perceber.

Fácil não é, mas alguém nos disse que seria? Os exemplos são muitos.

vídeo tirado da internet

Estarmos conscientes de nossas potencialidades e termos a humildade de abandonarmos um caminho é saudável e necessário. Mas é preciso sabermos diferenciar o caminho que deve ser abandonado, porque se o seguirmos não chegaremos a lugar algum, do caminho que deve ser percorrido e perseguido. Não podemos abandonar caminhos que nos pertencem. E esta certeza cada um de nós traz dentro de si.

Caminhos que devem ser abandonados não nos deixam felizes. Eles nos trazem uma sensação de frustração, de cansaço, de inércia diante à vida. São caminhos cansativos, exaustivos, tristes, que nada nos representam. Somos apenas um número. Estes devem ser abandonados porque possuem valores conflituosos com os nossos, e insistir neles é como abrirmos mão de sermos felizes. Os caminhos que devem ser percorridos aliviam a nossa alma, refrescam os nossos pensamentos e nos dão a doce sensação de pertencimento, de conexão conosco e com a vida. Mas somente alcançaremos estes caminhos se tentarmos. Tentativas conscientes, firmes e, acima de tudo, com propósito. Fizermos mais que desistir...

Inúmeras serão as investidas para desistirmos. Mas qual caminho escolheremos?

Encontrar equilíbrio e sabedoria para andar neste caminhar cheio de encostas, desvios, buracos, sinalizações falhas e mudanças de tempo é tarefa espinhosa e complexa, mas extremamente recompensadora. Os espinhos até tentam esconder a beleza do caminho, mas eles nunca conseguem.

Tentar e não desistir, e desistir porque, de verdade, não compensa insistir, é o que nos faz grandes, é o que nos faz importantes para a nossa própria história, e o quanto nos constitui como Homens que somos. Conscientizarmos de que a tentativa e a não desistência nos tornarão autônomos e donos de nós mesmos. E que também a consciência da necessidade de abandonarmos caminhos que não devem mais ser trilhados fortalecerão as nossas tentativas vitoriosas. Tudo é uma questão de escolha. Escolher é não desistir. E escolher bem é apurar o filtro das nossas tentativas na vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Clarice Lispector, que diz:

“Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.”

Que estejamos, sempre, atentos a nós e aos nossos entornos e contornos. A dúvida de Clarice sempre existirá em nós. Mas saberemos lidar melhor com ela quando entendermos a razão do nosso cansaço, ou seja, se estamos desistindo porque efetivamente é preciso, ou se apenas por desculpa para justificarmos a nossa fuga da vida.

Que façamos mais que desistir, como disse Mandy Harvey, no vídeo. E o primeiro passo? Não desistir da gente e tentarmos quantas vezes forem necessárias. Mesmo que a vida descarregue sobre nós o seu mau humor e descontentamento. Ainda assim, terá valido a pena tentar.

domingo, 21 de janeiro de 2018

A paz de Cristo

Este não é um texto religioso. E nem poderia. Não é sobre isto o que quero falar. Mas sim deste de, em itálico, que, discretamente, figura na fala do padre e que também figura em tudo, em toda parte. Talvez por figurar em toda parte, explique o motivo de não o enxergarmos. Porque se o enxergássemos, teríamos percebido que se é preciso dizer Paz de Cristo para diferenciar da paz dos Homens, é porque ainda a nossa relação com esta paz não é única. Existem diferenciações.

Desde minha infância escuto esta frase: a paz de Cristo. Mas somente na fase adulta fui parar para ouvi-la. E quando comecei a ouvi-la, ela começou a me incomodar. E se algo nos incomoda, é porque há espaços para arrumações.

Na infância, quando somos crianças, escutamos muitas coisas e outras tantas nos passam despercebidas. Não entendemos outras muitas. Tudo certo. Na infância da vida, não nos são cobrados compreensão e entendimento. Ainda estamos na fase da recepção das informações, conhecendo este lugar para o qual fomos convocados. Por isso, podemos seguir. Sem culpas e sem incômodos. Nesse momento, é ela, a vida, quem nos dá e traça os caminhos para seguirmos. Utilizamos, para este seguir, valores, conceitos e trechos vividos por quem nos educa e por quem nos apresenta este viver. Vamos construindo nossa história a partir da história de outras pessoas, e nossos contornos e entornos vão sendo desenhados e rabiscados. Rabiscos estes que se tornarão um desenho pronto que somente lá na frente conheceremos melhor. A vida nos conduz e nos serve. O nosso papel, entre tantos, é o de absorver o que nos está sendo transmitido, além do papel de convidado para um jantar cuja mesa está posta.

Não se trata de passividade, mas na infância, somos apenas um convidado da vida. Fazer mais que isto é deixar de viver etapas importantes desta infância que nos serão cobradas logo adiante. E não demora muito para a cobrança chegar.

A infância é apenas uma das etapas que nos conduzem a algo maior: o crescimento e a maturidade. Eles nos trazem pausas imprescindíveis e obrigatórias para que possamos seguir. Sem estas paradas, a vida não nos permite avançar. E se insistirmos, ela se vingará de nós por meio de uma vida sem sentido e sem propósito. Como não é isto o que buscamos, paramos para buscar esta compreensão. Isto se torna fundamental.

imagem tirada da internet

Quando respeitamos estas paradas, passamos a ouvir a vida. De verdade. E tudo aquilo que ela quer nos dizer. Uma voz suave e mansa. Porém firme e assertiva. Uma voz que nos diz, claramente, que este de, em itálico, faz toda a diferença. Um de que traz outro propósito. O sentido da preposição de, entre tantos, é o de estabelecer uma nova relação, uma nova visão. Portanto, a nossa paz, a dos homens, não é a mesma do Cristo. Por quê? Porque ainda temos relações conflituosas e queremos nos impor frente à vida. Continuamos a achar que temos as respostas e que sabemos muito. E a verdade é que pouco sabemos. Como esta realidade do pouco saber nos incomoda profundamente, criamos conceitos arrogantes como “paz dos homens” em detrimento da “paz do Cristo”. E assim, abrimos mão do convite nos feito pela vida para sairmos da horizontalidade e partirmos para a verticalidade. Acatamos o conceito “paz do Cristo” como meramente religioso e desperdiçamos oportunidades de construirmos, que passa a ser a nossa obrigação na maturidade e no crescimento. Diferentemente da infância, quando éramos convidados para o jantar, hoje o convite é o de prepararmos o jantar. E se conseguirmos ir além, nos juntarmos aos outros, abarcaremos cada vez mais pessoas para o jantar. Afinal, todos têm fome.

O jantar é uma representação daquele que sente fome. Somente saciaremos a nossa fome quando respeitarmos as paradas que a vida nos impõe.

A paz do Cristo significa que a paz que criamos é arrogante e soberba. Criamos outro conceito e vivemos sob as influências dele. Nossas pazes são diferentes. Independentemente de religião, se é que a temos, a paz do Cristo é uma metáfora para buscarmos aquilo que nos transcende, aquilo que nos alimenta, aquilo que nos faz maiores, mesmo conscientes de nosso diminuto tamanho.

Não se trata de religião, mas de postura diante à vida. O conceito paz do Cristo não tem caráter religioso, apenas, mas muito além. Apresenta um caráter revolucionário de ruptura com a mesmice, de insubordinação necessária, de uma revisitação de valores e de caráter. Um convite para viajarmos dentro de nós mesmos. Talvez esta seja uma das principais viagens que podemos nos dar de presente. Um navegar difícil, mas necessário. Este caminhar por nós mesmos, como sinônimo de convivência com nossos cotidianos, é muito saudável se quisermos saber o que significa a paz deste Cristo, se quisermos viver a paz deste Cristo. Não um Cristo homem. Não um Cristo religião. Não um Cristo líder. Não um Cristo físico. Mas um Cristo como sinônimo de um repensar diante à vida. Se há a paz dele, por que criamos outra? Por que criamos a nossa? A dele não nos serve? Ou não nos cabe? Ou será que saiu da moda? Por que a dele existe antes e apesar da nossa? Isto não deveria ser o suficiente para repensarmos nossas posições e lugares?

Por que, na missa, dizemos “a paz de Cristo”, mas depois seguimos a cartilha da nossa paz?

Por que desejamos paz de Cristo aos homens e à Terra, na virada do ano, e logo na madrugada, literalmente do dia primeiro do primeiro mês, voltamos aos velhos e bons hábitos? Por que os dedos nunca apontam para nós?

Abraçamos o nosso irmão e o cumprimentamos porque o relógio disse que o novo ano chegou ou por que, de verdade, é o desejo que vai em nosso coração? Talvez seja uma mistura dos dois, mas, infelizmente, a primeira razão ainda ocupa mais espaços em nossas vidas. Se assim não fosse, por que, então, o nosso abraço não se sustenta durante o ano? Encurtamos nossos abraços e mãos na mesma medida que aumentamos a nossa audácia de acharmos que podemos seguir, assim, impunemente, passando pela vida ainda como simples convidados. Mas não somos mais. E há tempos. Por que existem duas pazes? Por que aceitamos viver de forma menor a que poderíamos?

A paz dos homens é condicionante. O se faz a diferença aqui. A paz do Cristo é atemporal e transcendental. E são estas as paradas obrigatórias que a maturidade nos traz e nos convida a fazer. Um caminhar sem voltas, mas que valerá a pena se tivermos a disposição e a lucidez de assumirmos que não sabemos fazer, mas que temos o principal: acesso ao livro de receitas e às ferramentas para realizarmos este jantar, porque já é tempo. Um jantar cujo convite se deu quando chegamos à maturidade ou até mesmo antes, quando saímos da infância. Não importa se estamos atrasados. O que importa é podermos fazer uso da flexibilidade que a vida nos oferece para que possamos iniciar o preparo do jantar.

Crescer é isso: ouvir a vida. Reparar no que ela tem a nos dizer. É incomodar-se em dizer “a paz do Cristo” se não é o que vai em nosso coração. Seguir e viver a paz do Cristo é fazer algo muito além do que apenas desistir. Não podemos desistir. A caminhada até aqui foi extremamente importante para não seguirmos.

É preciso continuar. Não há como continuar sem parar. Não há como ir além sem observar entraves e cercas. Não há como seguir a paz do Cristo sem a construção, real, do conceito unidade.

Sermos agentes requer força e coragem. Um além que somente atingiremos se nos levantarmos, assumirmos a nossa posição de pequenos maduros. Sairmos das margens nas quais nos colocamos, muitas vezes, dependerá da postura de aceitarmos, por exemplo, que o conceito “paz dos homens” não faz o mínimo sentido, uma vez que temos um conceito completo, único e universal vigente, mas que, por arrogância, o relegamos ao segundo plano porque entendemos que nós somos quem, verdadeiramente, sabemos sobre a Paz.

Quando este baixar de olhos para as nossas insignificâncias e pequenezas se fizer presente em nossas vidas, a maturidade e o crescimento terão batido na nossa porta. A maturidade independe da questão cronológica, e sim, da postura diante à vida. Quanto mais rápido entendermos isto, melhor será a nossa vida. Uma vida de paz, mas a do Cristo. Desvendar estes nossos trilhos tortuosos, arrogantes, soberbos e egoístas trará visibilidade para buscarmos caminhos mais limpos e livres. Caminhos verdadeiramente felizes e de paz. A do Cristo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Liev Tolstói, escritor russo do século XIX, que diz:

“se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

Que a gente não desista da nossa aldeia, no caso, da gente mesmo. Mesmo que tenhamos de fazer concessões, acordos, negociações com a vida para que ela nos mostre o sentido da paz do Cristo, que nossas promessas sejam mantidas para que tenhamos uma vida, de verdade, autoral. Somente conseguiremos ser os autores da nossa história, se tivermos a vontade, sabedoria e disciplina de ouvirmos a vida. Isto nos fará universal. Quando isto acontecer, acredito, teremos atingido e compreendido, finalmente, o sentido de paz, a do Cristo, e não mais falaremos, na missa, ou em outro lugar, sobre qualquer outra paz que não seja a dele: a do Cristo.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A arte de dizer eu não sei

Existem saberes e saberes. Aquele que aproxima. O que afasta. Aquele que encanta. O que humilha. Aquele que serve ao mundo. O que somente serve a quem o tem. O descortinar para o conhecimento dá tom à vida, traz luz, faz desabrochar o que o livro fechado não revela. Portanto, o saber é imprescindível se quisermos avançar em direção ao crescimento. Ele nos convida a darmos as mãos à autonomia e à liberdade, duas chaves essenciais para a vida.

O problema todo se inicia quando queremos saber tudo e sempre. Uma realidade impossível e insustentável. Mas que achamos possível e saudável. Caso assim não fosse, por que a praticamos? Há sempre um desconforto de nossa parte quando não sabemos algo, quando não temos uma resposta para algo que nos é perguntado. De onde vem isto: da construção coletiva que fizemos, na condição de sociedade que somos, ou da doente crença de valorizarmos apenas aquele que sabe tudo? Dois caminhos bem possíveis...

O saber não apresenta limites. É ilimitado e não ocupa espaços. Pelo contrário, expande as nossas ocupações e nos traz terras, até então, inabitadas. Traz-nos espaços abstratos que nos revelam sede de construção. E ao compartilharmos este saber, mais espaços ganhamos porque o saber compartilhado é multiplicado.

Quanto mais buscamos conhecimento, mais ele se apresenta a nossa frente, e mais o desconhecemos. O saber e o conhecimento se assemelham ao grande mar: à medida que avançamos, ele avança também. E nunca conseguimos alcançá-lo completamente. Aprendemos algo hoje, descobrimos algo ontem, e amanhã surgirá algo de que não sabemos. Sem limites por parte do saber, mas uma limitação claramente demarcada em nós: não nos é possível sabermos e conhecermos tudo. Não nos é possível conhecermos e vivenciarmos tudo. Como seres incompletos que somos, o ato de não sabermos também nos constitui, e muito.

Sabemos que não sabemos tudo. Mas nos escondemos desta realidade. Somos vítimas e protagonistas de uma sociedade que constrói falsas imagens de que o certo é o saber tudo, é o de se ter respostas para todas as perguntas. Avançamos neste comportamento insustentável de exigirmos saberes de onde ainda não se pode oferecer, e assim, ajudamos a construir e a propagar neuroses e situações nocivas cujas consequências cairão sobre todos nós.

Saber nos permite avançar em direção a algo melhor. Ele limpa a nossa visão e passamos a enxergar coisas que estavam ali o tempo todo. Somos melhores a partir do momento que sabemos. Mas o não saber é uma forma de saber o que não sabemos. Parece óbvio, mas diz muito sobre quem somos, quem aparentamos e sobre quem queremos ser. Se o que sabemos mostra o que não sabemos, qual é a nossa realidade, afinal? Um exercício necessário.

Há um texto antigo, escrito por Antônio Ermírio de Moraes, sobre a arrogância de querer saber tudo. Diz o texto:

Você está olhando pela janela. Não há nada de especial no céu, somente algumas nuvens. Alguém te pergunta:

- Será que chove hoje?

* se você responder “com certeza”, sua área é a de Vendas. Esta área sempre tem certeza sobre tudo;

* se você responder “sei lá, estou pensando em outra coisa”, sua área é a de Marketing, que sempre está pensando no que os outros estão pensando;

* se você responder “sim, há uma boa probabilidade”, sua área é a da Engenharia, que sempre está disposta a transformar o universo em números;

* se você responder “depende”, sua área é a de Recursos Humanos, que sempre acredita que um fato estará na dependência de outros;

* se você responder “ah, a meteorologia diz que não”, sua área é a de Contabilidade, que sempre confia mais nos dados que nos próprios olhos; e

* se você responder “sei lá, mas, na dúvida, eu trouxe um guarda-chuvas”, então a sua área é a de Finanças, que sempre deve estar bem preparada para qualquer virada de tempo.

No entanto, se você responder simplesmente “não sei”, há grandes chances de você se tornar uma pessoa de sucesso.  De cada 100 pessoas, somente uma tem a coragem de dizer que não sabe. As outras 99 pessoas sempre acham que precisam ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação. 'Não sei' é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo mundo, e predispõe os envolvidos a conseguirem dados mais concretos antes de tomarem uma decisão. Parece simples, mas responder “não sei” é uma das coisas mais difíceis de se aprender na vida, independentemente da nossa posição.

Por quê? Eu sinceramente 'não sei'.

O saber é fundamental para a vida, mas com propósito, discernimento e foco. É uma poderosa ferramenta que alavanca o nosso desenvolvimento e o do outro. É uma ferramenta de elevação e não de corrupção. De humildade, porque aquele que sabe serve, e não de exibicionismo para mostrar que sabe. Este é um saber vazio, sem visões ao se dobrar a esquina. O saber verdadeiro implica no esquecimento de si em favor do outro. Saber muito aumenta a nossa responsabilidade. Significa, inclusive, ter disposição de pagar o preço pela nossa ascensão e saber.

É nosso dever buscar o conhecimento e o saber. Mas com discernimento e equilíbrio. Não seremos menores por não sabermos. Mas seremos grandes se assumirmos o nosso desconhecimento.

Não saber tudo nos dá a certeza de que somos e de que estamos em construção. E isto nos devolve um pouco da lucidez que perdemos no dia em que achamos que deveríamos saber e ter todas as respostas.

É preciso saber discernir o saber que devemos saber, nossa obrigação e dever (é esperado que saibamos), do saber para se manter a aparência, sem construção e sem obras. O primeiro é um saber que ampara; o segundo, um saber que não se abstém de quaisquer exibições de superioridade. O saber nos desloca e transforma a nossa visão de mundo. Mas o não saber, também, nos recoloca no lugar de aprendizes, que é o que somos.

Todo o equilíbrio nos faz grandes. Todo o excesso nos torna menores do que já somos. O saber na medida nos faz fortes. O saber em excesso não é saber, é falácia. É necessário e preciso deixar espaços para o não saber, para o desconhecido, para o inabitado.

Dizer “não sei” é libertador. Liberta-nos da condição que nunca teremos: a de detentores do saber incondicional, de todas as respostas. As pessoas que abrem espaço para o erro, para o não saber, aprendem, verdadeiramente. Elas não se importam e não se preocupam em ocuparem lugares que a sociedade intitulou de “os primeiros”. Quem é o primeiro? Quem é aquela pessoa de sucesso?

O primeiro é sempre o que não se importa de ficar por último, algumas vezes, na vida, porque sabe que o primeiro lugar é transitório e inconstante, assim como o último.

Colocarmo-nos numa posição de detentor do conhecimento e daquele que tudo sabe é abrirmos mão do longo prazo da vida. Não há como sabermos tudo. O saber é uma construção. Portanto, ele, em si, é uma obra inacabada, incompleta. Brigarmos contra isto nos torna inabilitados para os compromissos de longa duração, da vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Lya Luft, uma escritora que admite não saber muitas coisas, que diz:

“Não saber é o que torna nossa vida possível.”

Que saibamos buscar o saber necessário e verdadeiro, e não o saber que apenas ocupa espaço num palco aonde insistimos em estar. Que saibamos, sempre, diferenciar o saber que eleva daquele que torna as nossas convicções (o nosso saber imposto e autoritário) em nossas próprias armadilhas.

O saber é essencial à vida. Mas o não saber é o que mais abre espaços para uma vida plena. E somente por meio da lucidez e da humildade seremos capazes de descobrir isto. A vaidade de querermos saber tudo e de termos todas as respostas nos afastará, e muito, de novos saberes e de novos e verdadeiros conhecimentos.

domingo, 19 de novembro de 2017

Tempos de sempre

Vivemos tempos estranhos. Vivemos tempos felizes. Estranhos e felizes. Felizes e estranhos.

Consideramos o outro como estranho a nós. Não nos é pedido sermos amigos íntimos, mas por que a dor e a angústia dele não nos representam? Fazemos questão de considerar o outro como estranhos.

Um distanciamento provocado, assistido e, particularmente, calculado. Mantermos a distância das dores do outro nos faz criar ilusões sobre a vida, e nos faz colocar tintas sobre ela que jamais existiram na cartela. Tornar a angústia do outro parte do nosso problema, nos obriga a conhecer as nossas dores e as nossas angústias. Talvez seja este o problema.

Sempre quando estendemos a mão para o outro corremos o risco de sermos derrubados pela própria força que o outro fará quando se apoiar em nós para se levantar. E vice-versa. Mas queremos esconder. Ninguém precisa saber disto. Por isso, quanto menos contato tivermos com a dor do outro, mais camufladas estarão as nossas questões.

Acreditamos que viver como estranhos ajuda a evitar o nosso sofrimento. A frieza do estranhamento causa um distanciamento e assim, apostamos numa ilusão de proteção.

Afastar o estranhamento frente à dor do outro não nos fará tristes e sofredores. Sermos solidários, de verdade, à angústia do outro nos fará seres mais fortes e capazes de superarmos nossas próprias dores. Somos seres interdependentes. Mas insistimos na tese do individualismo. A crença na interdependência desperta a vontade de aliviar a dor do outro. Quando aliviamos a dor do outro uma dor em nós é amenizada também. A crença no individualismo desperta o nosso inchaço e nos faz crer no irreal.

Esse estranhamento a tudo o que achamos que não nos pertence. Essa alienação vivida e sentida porque estamos ocupados demais tentando disfarçar nossas miudezas. Não se trata de acreditarmos, falsamente, que temos a solução das coisas e sairmos buscando pessoas com problemas e angústias. Mas apenas legitimarmos a dor do outro. Só isso.

Fugimos da dor do outro e reforçamos a condição de estranhos porque a dor nos coloca de volta ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído: a da consciência de sermos apenas seres humanos, frágeis, falíveis e incompletos. A incompletude nos completa. O que há além dela, neste nosso estágio? A intensidade dela pode ser reduzida. Mas a linha que nos define é esta. A fragilidade nos caracteriza, nos identifica. Afinal, o que é mais humano que se sentir frágil e amedrontado? Vítor Hugo diz que todo mundo é parecido quando sente dor. Quando estamos com dor e vulneráveis, parece que a lucidez volta a ter voz em nós. Somos falíveis. Que belo golpe para o ego. Esta descoberta traz desconforto porque somos vaidosos. E quanto mais vaidosos somos, mais falimos. Que ironia.

Passos melhores e maiores. O sinal soou. A maioria ouviu. E por que não avançam? Talvez pela inércia, outro recurso imprescindível do qual todos nós somos feitos.

Somos estranhos a nós mesmos. Por isso não há como ouvirmos a dor do estranho que passa. A dor que cala porque a voz não cessa de falar o que não produz.

O silêncio que chega manso buscando um espaço no conturbado lago das ilusões.

Vivemos tempos felizes, também. E aquele que já entendeu isso, descobriu que felicidade não se define, se sente. Aquele que mente e diz que sabe o que é felicidade, não é feliz. É só um burocrata do conceito, do significado, um afoito de dicionários. Não há como ser feliz com conceitos concluídos e absolutos. É só um personagem passando pela vida.

Aquele que diz saber o que a vida nos oculta, por sabedoria, é um fazedor de vida, e não um realizador da vida. É um reivindicador e não um executor. É uma pessoa cansada e que cansa. É uma pessoa com a vista turva, mas que optou por não a aclarar.

A vida sempre nos dá as opções certas de recortes. Mas a tesoura está em nossas mãos.

Aquele que já entendeu e descobriu que também vivemos tempos felizes sabe que a serenidade e a paz no coração que a felicidade traz sinaliza, também, algo pontual e demarcado a nossa frente: a tempestade que não enxergamos, mas que sabemos que ela existe. Portanto, não a subestima.

Tempos complementares e interdependentes. O avesso de um mostra o lado do outro.

Os limites, os excessos e os avessos fazem parte destes tempos. Que são nossos, mas que já foram de outros. Tempos estranhos e tempos felizes são reflexos do que fazemos deles. Os tempos, em si, são sempre os mesmos. O que muda é a nossa relação com ele.

A vaidade que chega falando alto porque demos voz a ela. Ela sente-se à vontade porque somos a casa dela. A vaidade nos coloca na base da incompletude. Um lugar confortável porque aqui somos os melhores? E quem nos disse isso? Aqueles que querem a nossa queda, o nosso declínio, o nosso inchaço exatamente por não cabermos em nós. Somos estranhos.

Nossos contornos refazem nossas formas. Mas não as reconhecemos. Desfazemos as nossas recentes formas e desperdiçamos as falas trazidas pelos contornos. Caímos em ciladas autorais que buscam a perda de nós mesmos. Perdidos, como entender estas formas?

Valorizamos as ferramentas que destroem e que corrompem. Elas proporcionam construções imediatas e mais rápidas, encurtamento de caminhos obrigatórios, planejamento subestimado e etapas desconsideradas. De posse de nossas agendas cheias, estas ferramentas nos induzem ao cultivo do impossível, do descartável e do alienável. Nossa atenção está direcionada para o que não precisa e, portanto, não percebemos os sinais da construção destas grades que, livres, se perpetuam, se fortalecem e criam raízes.

O tempo não voa. Ele só passa mais rápido porque se chateia por não priorizarmos o que, de verdade, importa.

Tempo nosso. Tempo do outro. Nosso tempo. Nossos tempos. Antigamente é um tempo tão próximo. O futuro precisa dar as mãos para a antiguidade se quiser se reinventar. Os tempos que temos são de todos nós.

Aquele que vai à frente, investe tempo. O que ficou preso às lentes distorcidas, gasta tempo.

O tempo é lento e rápido. Depende do tom que quisermos dar a ele. Ajudar alguém a se reestruturar é um dos maiores investimentos de tempo. E não perceber a nossa necessidade de reajustes e ajustes é uma das maiores perdas de tempo.

Os tempos estranhos nos fazem estranhos em meio a conhecidos. Os felizes nos impulsionam para o despertar do compromisso.

Somos uma sociedade de apressados porque apressamos o tempo. E por vingança, ele nos apressa também. E assim chegamos mais rápido a lugares desconhecidos. Os tempos estranhos pertencem a todos nós: inconscientes, injustos e desatentos.

Nosso exacerbar dos excessos que finge não perceber o transbordamento. Afogamos os conhecimentos alheios porque o saber somente a nós pertence. Vivemos tempos estranhos.

Tempos estranhos. Tempos felizes. A batalha do encontro que, aos poucos, vai fazendo as pazes. Mas antes, será preciso fazer as pazes com a gente mesmo.

Em paz conosco, não teremos medo de nos apropriar da dor do próximo. Teremos entendido, finalmente, que nos apropriar da dor dele e ajudar a minimizá-la, não significa tomar a dor dele para nós, nem mesmo abrir mão da nossa felicidade.

Exacerbamos a nossa ideia de felicidade por isso ainda sentimos infelicidade. A nossa ilusão de felicidade absoluta é a grande causa da infelicidade e do insucesso. Quando aceitarmos quem somos e quando nos identificarmos como seres relativos e não absolutos, a nossa contribuição para o mundo será enorme.

Que a gente busque tempos felizes, e não a obrigação de ser feliz. Porque isto nos coloca num lugar apertado, na vida, com difícil acesso a outros patamares de evolução. Mas que os tempos estranhos sejam respeitados e ouvidos até para que os felizes façam sentido. E que espaços de conversa com nossos tempos estranhos sejam criados.

O individual e o coletivo são um. Que o amanhã chegue. Que o passado seja a nossa fonte para perguntas e, assim, nos envergonharmos da nossa arrogância. O passado é sempre sábio. E que o presente sirva para nos conscientizar sobre a ignorância de termos pressa. Assim, todas as nossas frestas estarão cobertas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, que diz:

“Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”

Os monstros do nosso tempo são velhos conhecidos: o esvaziamento das relações e, como consequência, nos tornamos seres estranhos uns aos outros, e a nossa busca doentia pela felicidade absoluta. Algo que, ironicamente, não existe.

O cuidado para que não nos tornemos um monstro por estarmos lutando contra os nossos monstros, é o que nos diferencia como seres inteligentes. E se para esta luta for preciso olharmos e contemplarmos os nossos abismos, que não tenhamos a ilusão de acharmos que não teremos sido vistos por ele. O melhor que fazemos é cumprimentarmos nossos abismos, dialogarmos com eles e compreendê-los. Subestimar que eles nos observam é reafirmar a nossa condição de estranhos. Quando tivermos a coragem de sairmos dos nossos estranhamentos, nossos abismos terão transformado nossos monstros em coautores da nossa nova história. Uma história de escrita feliz e sem estranhos por perto.