segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pintor de horizontes

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

Este pensamento do escritor russo Tolstói, um dos maiores da literatura mundial, é um clássico. Atemporal.

E por que seria um clássico?

O escritor Ítalo Calvino diz que “um clássico é um clássico porque ainda não terminou de dizer tudo o que precisa dizer”. São obras inacabadas, inconclusas, no bom sentido. O que está por ser dito, pelos clássicos, é um constante diálogo entre nós e a vida, entre a vida e nós. Há sempre o que dizer, porque sempre haverá vazios e preenchidos a serem questionados, compreendidos e conhecidos. Vazios que insistem em nos preencher e preenchidos que insistem em serem ilustres moradores desconhecidos. Clássicos permanentes que sempre nos trarão perguntas e sempre nos lembrarão do que está por fazer.

Clássicos se impõem pelo respeito. Eles nos silenciam porque ouvi-los se faz necessário. Tolstói, portanto, nos trouxe um destes clássicos, numa reflexão preocupada em nos relembrar a relevância do pensar. Quando pensamos, damos volume a nós, tamanho e importância.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” traz inúmeras reflexões e aprendizados. Para cada um de nós, um eco diferente deste pensamento, uma morada distinta, em nós. Reflexões inúmeras, variadas, diferentes. Todas certas. Todas válidas.

Tolstói: imagem tirada da internet

Para mim, destaco o autoconhecimento como eco que o pensamento de Tolstói fez em mim. Sem o autoconhecimento, acredito que as nossas aldeias serão, sempre, paisagens distantes da gente, com tintas descascadas, arranhões nas paredes, vidraças quebradas, canos enferrujados, ilustres desconhecidas. Sem autoconhecimento, as nossas aldeias serão sempre um por fazer. Um lugar escondido, mato alto, cerca destruída e o desprezo como anfitrião.

Autoconhecimento é uma ferramenta do viver. É imprescindível termos um viver, um plano de riscado, um tracejado. Viver é um caminhar com passos, estratégia, vontade firme, espada afiada na medida e desprendimento para saber retirar-se. Viver é esta busca pela universalidade que representa não recusar o mesmo viver.

Conhecer-se é custoso, cansativo e, por vezes, exaustivo. Mas como viver sem conhecer-se? Como saber se a nossa aldeia precisa ser pintada, sem autoconhecimento? Não há receitas. Não há fórmulas. Mas estratégia e vontade firmes, coisas que não podem ser desgastadas pela continuidade.

A universalidade não é um lugar, mas um estado. É preciso maturidade para alcançá-lo. A aldeia, antes de ser um estado, é um lugar. É preciso coragem e maturidade para aceitar que se vive nela, e disposição para abandonar as derrotas conquistadas às custas da nossa precisa conivência. Para começar a pintar a nossa aldeia, é preciso se achar nela e, principalmente, reconhecê-la e não se envergonhar. Debruçar-nos sobre as nossas aldeias nos dará o tom de por onde começarmos. Mas não teremos dúvidas: pela pintura.

Há muito trabalho a ser feito. No entanto, estamos sempre olhando para lugares que ainda não chegaram, e falando sobre um tempo que, se não cuidarmos, não chegará. A universalidade está distante de nós, assim como estamos distantes das nossas aldeias.

Queremos ser universais. Queremos ser pintores de horizontes. As nossas escadas começam no degrau máximo. Os degraus menores não são para nós. Nossas aldeias choram a nossa ausência. Mas não ouvimos estes choros porque as nossas malas estão prontas para o exterior.

Temos muitas sobreposições. Interferimos e sofremos interferências o tempo todo, o que ofusca as nossas vistas. Somos frágeis. As nossas aldeias choram mais uma vez. E a cada lágrima, descascam mais. É preciso nos visitar e pintar as nossas aldeias. Apenas exercitando a limpeza e a pintura das paredes, o obscuro, em nós, se mostra. Apenas pintando a nossa aldeia saberemos aonde moramos, quem são os nossos vizinhos, qual é a natureza do nosso bairro e, principalmente, a qualidade da tinta que vai nas paredes. Passar tempo conosco. Transformar a nossa má ociosidade em diálogo conosco e com a nossa aldeia. Questionar a nós.

Evitamos o diálogo porque não assumimos o nosso não saber. Fechamos a porta da nossa aldeia para que ninguém a veja desordenada. Aquele descascado é só um detalhe.

À medida que nos questionamos, vamos dialogando com a nossa ignorância. Não uma ignorância pejorativa, mas uma ignorância como única saída que nos leva ao saber. Somente aquele que desconhece e que assume o próprio desconhecimento pode conhecer. A ignorância é alavanca. Somente conhecemos, sabemos, avançamos porque assumimos o não saber, o não conhecer. Não há como sermos universais sem passarmos pela nossa aldeia, pelo desconhecido, pelo pequeno, por nós. Não há como sermos universais se a nossa aldeia nos envergonha e, por conta disto, evitamos conhecê-la e estamos sempre de malas prontas.

A universalidade somente existe por causa da particularidade da aldeia. Universal é a soma dos pequenos particulares. A cada aldeia conhecida e pintada, um universo povoado de belas cores. A minha aldeia é a minha conversa comigo. A minha universalidade é a minha conversa com o mundo. Somente posso conversar com o mundo quando tiver aprendido a conversar comigo. Caso contrário, o eco da minha voz irá se sobrepor a ela, e não conseguirei ser ouvida. Minha voz será um barulho perdido.

Voltando para a questão do clássico, não é à toa que Tolstói é uma referência na literatura mundial: suas falas são atemporais. Ele diz coisas que ainda farão, por muito tempo, morada em nós. Tolstói ainda tem muito a nos dizer.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento incômodo de Oscar Wilde, outra referência da literatura mundial, que diz:

“viver é a coisa mais rara do mundo; a maioria das pessoas, apenas, existe.”

Aquele que vive já fez as pazes com a necessidade do autoconhecimento, e passou, há tempos, na loja de tintas. A aldeia dele é destaque e as paredes brilham. O raso, para ele, deixou de ser um lugar sem base, e as narrativas também deixaram de ser mancas.

Aquele que vive, o homem do Oscar Wilde, que não apenas existe, acaba de trancar a porta da própria aldeia. O que terá acontecido? Sim, agora ele a tranca. Não um trancar daquele homem que apenas existe, que se envergonha da própria aldeia, que a desconhece e faz de conta que ela não existe. Mas um trancar de um homem que vive e que conquistou o lugar de universal. E, por conta deste novo estado de universalidade, passou a ser um pintor de horizontes, ofício aprendido ao tomar a iniciativa, há tempos, de pintar a própria aldeia.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Viver amanhecido

Há um pensamento que diz: “se mudarmos o começo da história, mudamos a história toda.” O começo é sempre a base sobre a qual construímos, inauguramos formas de convívio conosco e com o mundo, e evitamos ausências que nos custarão caro. Todo o começo (base) é, portanto, imprescindível, porque ele permite que nossos pés conheçam a textura do caminho que começa a surgir e que será necessário percorrer.

A reflexão deste texto propõe um pensar sobre algo que dificulta, e muito, a nossa percepção de necessidade de mudança deste começo, desta base, se preciso for, para que possamos ter condições de reorganizarmos as nossas rotas, o nosso caminhar e assim, reajustarmos a nossa história toda. Quando percebemos, em tempo, que é preciso mudar este começo, temos mais chances de termos um caminho eficiente, preciso e verdadeiro. E o que dificulta esta necessidade de mudança da base, deste começo de história é o cultivo da procrastinação. Um fantasma em forma de hábito que, frequentemente, assombra aqueles que permitem intimidade e aproximação com o supérfluo, que conversa com o raso, resumido e com o oco.

Perceber as necessidades de mudanças, ao longo de toda a nossa trajetória, é essencial. No entanto, no começo, é mais crítico e crucial porque as diretrizes e as linhas ainda estão sendo traçadas. O trem ainda está parado, na estação. Os rabiscos ainda são rabiscos, passíveis de ajustes e combinações. Mudar os começos colaboram, e muito, para que o desenho e a obra possam ter roteiros consistentes, menos amadores.

Não estarmos atentos às necessidades de mudanças da base, do começo, nos coloca na banalidade, nas ocorrências em recortes, nas aparências, nos picados com intervalos. Estarmos atentos às necessidades de mudança da base, do começo, nos retira dos sintomas tolos, confusos e nos dá clareza sobre o significado dos nossos sinais, das nossas manifestações e da relevância da nossa inteireza, da nossa essência, sem ou quase nenhum intervalo.

Etimologicamente, procrastinação significa “aquele que é a favor do amanhã, coloca-se à frente da causa para o amanhã, aquele que se lança e se joga à frente, para o amanhã”. Do latim pro (em favor de, diante de, à frente) + a palavra latina crastinatus (amanhã). Aquele cras (amanhã) famoso, escrito nos pés de Santo Expedito. Uma pessoa que procrastina é alguém que desempenha um papel principal no se lançar a favor de algo para se fazer amanhã.

Temos relação com isso? Conseguimos nos reconhecer?

imagem tirada da internet

Hoje ou amanhã? Não um hoje literal, sem pensar, sem planejar, não um sair fazendo. Mas um hoje que entende a urgência de buscarmos as mudanças primeiras que precisam ser feitas. Sem isso, nossa história fica à deriva, à espera de um bote que nos salve.

Sabemos que não há garantias, que a qualidade das nossas relações depende de experiências vividas e construídas por meio do tempo, do exercício diário do levantar-se, e que a imprevisibilidade é um item obrigatório da nossa lista. Mas atuar nos inícios, mudar os começos, se necessários, apesar de não haver garantias, fará que o socorro chegue mais rápido, e aumentará a chance de termos uma história menos dolorida.

Por que procrastinamos? Porque, de certa maneira, achamos que assim nos protegemos. Buscamos proteção o tempo todo. Mas a verdadeira proteção reside na avaliação acerca de quem somos, e isto é infinito, um exercício eterno, diário. Só que fazer isso cansa e muito. Dói. Por isso, deixamos para amanhã com a esperança, quase infantil, de que o amanhã nunca chegue para nos cobrar com as contas sobre o capacho. É urgente fazermos uma avaliação realista sobre quem somos e sobre o que nos acontece. De posse disso, talvez, possamos nos proteger mais, mas não procrastinar como sinônimo de proteção. Somente o fazer, o conhecer e o buscar do conhecimento protege. A procrastinação, pelo contrário, expõe, descuida e nos deixa ao relento e ao abandono.

Procrastinar é um ir adiando, agendando, protelando. É um ir para um lugar que ainda não fomos porque o adiamento foi a nossa parada de contemplação. Um adiantamento programado porque não queremos encontrar os sofrimentos presentes das nossas encostas. Um adiamento para entrarmos no mundo. É um ir à cata de facilidades, resumos, técnicas milagrosas, receitas, truques infalíveis.

Procrastinar é uma forma de fazer vistas grossas para as coisas profundas que não podem ser simplificadas. Mas como existem influências que nos diminuem, como o curto, o raso, o rápido, vamos deixando para amanhã, que o amanhã Deus pensa. Vamos sendo este “a favor do amanhã, do fazer depois” e damos graças porque o amanhã sempre, para aquele que procrastina, raramente chega.

Sentimos frio porque não fizemos as mudanças necessárias na base, no inicio da história. Por isso, agora, o frio intensificou-se, e a mudança em toda a história fica, se não impossível, prejudicada. A prevenção é vital para que a gente não se torne patológico. Prevenção como sinônimo de perceber a necessidade da mudança no início, para que toda a história possa ocupar patamares versáteis e universais.

A procrastinação evidencia o nosso lado permissivo. Acomodamo-nos como se não pudéssemos interferir. Entregamos a nossa caneta ao acaso, sem nos lembrar de que o acaso adora nos fazer companhia. Somente assim ele surge: com a nossa anuência, disponibilidade para o erro, indulgência mórbida e, o pior de tudo: receptividade. Somos um caminho de linhas retas e fáceis quando agimos desta maneira. Precisamos nos mover para provocarmos e reproduzirmos efeitos, movimentos, resultados das mudanças que fizemos no início, nas nossas bases. Ao fazermos isso, tiramos os nossos vagões estacionados para vivermos a relação com o essencial, não mais com o superficial.

Procrastinar é alongar os nossos erros, agravá-los. É mais que deixar para amanhã. É um amanhã agravado, angustiado e com lágrimas. Um viver amanhecido de um amanhã mofado que poderia ter sido, mas não foi.

Precisamos dar o espaço para que as coisas consigam andar e ajustar a nossa história. E não procrastinar será imprescindível, para que isso possa acontecer. Fácil? Não. Mas quem nos prometeu facilidades, além das fórmulas e receitas mágicas da autoajuda?

Não podemos esperar pelo “despertar da nossa conscientização” de necessidade da mudança para que o todo possa também ter chance de mudar, não acredito nisso. Acho um discurso moralizante, não funciona. Acredito, sim, numa reflexão diária, como um excelente exercício de se propor, de se lançar para o fazer com aquilo que se tem à mão. Um trabalho de obras. Somos esta obra: uma obra inacabada, inconclusa, incompleta, mas que caminha, que faz, que cai, que segue. Não há fórmulas e receitas. Não há o momento do despertar. Este momento nasce dos pequenos momentos, e não de algo pronto e imediato. Se prestarmos atenção aos aprendizados diários que a vida, de forma generosa e empática, dilui para nós, a nossa visão deixará de ficar turva e o nosso caminhar será o nosso grande gerúndio.

O convite está feito. Urgente mudarmos o eixo sobre como as coisas são apresentadas. Um olhar agudo sobre as necessidades de mudança dos começos, da base, para que o todo seja vivo. E com isso, podermos ocupar o lugar que há tempos a vida insiste em nos oferecer.

Há palavras que nunca param de nos dizer algo. São os clássicos. E procrastinação é uma destas palavras. Com um olho treinado, a procrastinação é convidada ao esquecimento.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento ácido de Santo Agostinho, um homem que, em parte da vida, procrastinou, que diz:

“Deus prometeu perdão para o seu arrependimento, mas não um amanhã para a sua procrastinação.”

Que possamos desejar e buscar um amanhã como um lugar do saber que se quer chegar. Um lugar que a construção nos ajudará a alcançar. Um amanhã como sinônimo de esperança, de possibilidades de construção, de dinamismo. Mas não desejar e buscar um amanhã para servir como depósitos de nossas pendências, de nossos viveres amanhecidos, enrugados e entristecidos por não terem tido a chance de terem sido.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Vazios ocupados

Se está vazio, como pode estar ocupado? Detalhes turvos que nos obrigam a enxergar o que as nossas estradas empoeiradas e perturbadas não permitem que a gente faça.

Santo Agostinho, um dos maiores Filósofos da História Mundial, leu menos livros que a gente. Ele teve acesso a menos informações. Viu menos coisas. O mundo e a época nos quais ele viveu eram mais enxutos, de estruturas mais simples, com menos pessoas e dados, e, principalmente, sem quaisquer facilidades. Se, então, Santo Agostinho viveu e conviveu com menos, como ele fez tanto? Como ele, tendo lido bem menos livros do que cada um de nós, produziu tanto? Teve acesso a bem menos estruturas, e construiu tanto? É inquestionável que a obra de Santo Agostinho demonstra a própria inteligência dele colocada a serviço da Humanidade. Um Homem a serviço.

Um Homem a serviço: por isso ele fez tanto e com tão pouco. Santo Agostinho foi uma destas pessoas preenchidas de significado, de conclusões, de perguntas, de narrativas essenciais e, portanto, sem vazios ocupados. Foi um Homem que não tinha, como companhia, a vaidade, cujo sentido vem do latim vanitas, que significa vazio. A vaidade não nos permite fazer quase nada com o muito que temos, que dirá com o pouco. Ela nos preenche com um vazio que nos ocupa, que nos marca, que nos impulsiona para o nada. Como resultado, o tempo passa, e nada é feito, nada é entregue, nada é produzido, e o que é lido volta para a estante.

Vivemos numa guerra constante. Apenas não damos este nome. A simples falta de diálogo é uma guerra, mesmo silenciosa. A vaidade tem sido outra guerra constante. Queremos ser o autor de tudo, cortar a fita de tudo, assinar tudo, ver tudo, ser protagonista de tudo, sem percebermos que o tudo é inalcançável. Temos horror a ficarmos de fora de uma festa, de perdermos algo, por isso estarmos em tudo é uma garantia para a nossa ingênua existência. As ausências nos constroem, nos refazem. Fundamental valorizarmos os nossos comerciais para que os bastidores possam ser refeitos, reconstruídos e remanejados, se assim for preciso. Não há a necessidade de estarmos sempre disponíveis, à mostra, à vista, presentes. Isto é vaidade.

A ausência nos torna, muitas vezes, mais presentes do que a nossa presença. Quando queremos estar em tudo nossos rostos ficam imunes à reflexão, nossas atitudes se tornam números fixos de uma apresentação circense, e repensar acerca de nós torna-se inútil. Reflexo de uma vaidade desajustada que acreditamos ser a métrica da vida. Mas não é.

Alimentamo-nos de tradicionais motivos que nos levam à irracionalidade. Sempre o mais do mesmo. Pensar dá trabalho. Ler dói a vista. Aonde estão as figuras e as letras grandes deste livro? Percorremos os caminhos mais fáceis não por ser eficiente (e muitas vezes o é), mas por preguiça de gastarmos a sola dos nossos sapatos. Não abrimos mão da vaidade desenfreada. Por isso, mesmo que a gente leia muito, qual será a nossa obra? Qual será a nossa construção? Não há espaço para fortes construções quando a base é a vaidade. Não há consenso para o avanço quando a vaidade colabora para o retrocesso.

Santo Agostinho, portanto, mesmo tendo lido muito menos que todos nós, fez muito mais. E esta é uma ironia porque podemos imaginar o que ele não faria hoje, com a inimaginável quantidade de dados e de informações. Enquanto ele se preocupava em se desenvolver e compreender o mundo no qual habitava, muitas pessoas de hoje, que leram muito mais que ele, ou nem se lembram mais do que leram ou nada fizeram com o que leram. Ficaram mais preocupadas em divulgarem suas ações do que aprenderem com ela. Santo Agostinho foi um homem que se habituou ao pensar, e isto colaborou para que ele se tornasse um Mestre.

Quando nos habituamos ao pensar, passamos a ser estruturados sob outras bases. Saímos da estandardização, da uniformização, da busca pela felicidade com fórmulas, das falas e diálogos superficiais que buscam nos manter numa monotonia profunda. A vaidade adoecida, que foge da originalidade, nos arrasta para a mediocridade e ajuda a evidenciar a nossa alienação. É preciso pensar, questionar, buscar, discordar, indignar-se. Sem isso, os vazios ocupados alargarão porque a vaidade tratará de fazer o usucapião a respeito de nós. Pobre que somos!

imagem tirada da internet

A questão não é o tempo no qual se vive, mas sim o que você faz com ele e com tudo aquilo que está sendo oferecido. Quem tem um horizonte, tem uma estrada a percorrer. Quem tem foco, assertividade e clareza sobre o que fazer com o ofertado, não busca atalhos, não desvia o caminho, não perde tempo. Quem tem um horizonte, não permite que a vaidade se torne o principal produto da própria prateleira. Quem tem uma estrada para percorrer, não se ocupa de vazios preenchidos. Ao contrário, se ocupa do que vai em si e não faz contrato com o incerto. Não podemos buscar o que é, facilmente, compreendido. É preciso recuperarmos o “gosto pelo esforço”, como nos lembra o Filósofo Luc Ferry. E esforçar-se é apartar-se da vaidade, daquilo que esconde a minha, a sua, a nossa dificuldade.

A vaidade é um destes ocupantes dos nossos vazios. Ela acomoda-se e molda-se ao nosso tamanho de forma tão perfeita, que qualquer alfaiate de alta costura não saberá diferenciar o que somos nós do que é a vaidade. Ela nos cega e acentua nossa poeira e nossa perturbação. Nossos vazios ficam vazios de tão ocupados pela vaidade. Uma ocupação inútil e consumida, mas não por traças. Estas apressaram-se e foram embora. Mas pela ferrugem, mesmo, que infelizmente, tem oxidado a nós.

Inúmeras têm sido as oportunidades de pararmos com as guerras, mas as desperdiçamos porque estamos ocupados construindo outras guerras. E a vaidade é uma forma cruel de perpetuarmos as guerras. Enxergamos sentido nela. Caso contrário, ela não estaria extinta, mas certamente, num lugar menos privilegiado da fila.

Não estamos predispostos a todas as possibilidades do que podemos ser. É uma pena. Somos produtos para um público certo, pré-definido e treinado. Somos facilmente treináveis, manipuláveis e consumidos. Se assim não fosse, nossas preocupações estariam mais na ordem do Ser do que do Ter, do transformar-se do que do acomodar-se, do esforço do que do encosto, do som das nossas vozes do que na imposição delas.

Nossos braços estão oxidados. Estamos todos cansados e exaustos por fazermos trabalhos inócuos, vazios e sem sentido. Trabalhos vaidosos que evidenciam a nossa marca construída num estreito universo. Uma vaidade que não deixa lugar para o outro, que cala o outro, que emudece o outro, que esconde o outro. Quem é o outro? Há tempos ele não existe.

Vaidade é inerente a todos nós. Não acredito que possamos nos despojar dela. Mas podemos, sim, nos apropriar dos moldes que a limita, e assim, limitada, avançarmos para que possamos fazer o mais com menos, para que nossas leituras criem rastros iluminados e saudáveis sob os nossos pés, mesmo que as nossas estradas ainda estejam empoeiradas e com algumas luzes queimadas. É preciso darmos vozes às nossas possibilidades ilimitadas, avançarmos, sairmos do trivial, do cardápio pronto e acelerarmos. Isto dará voz aos ecos roucos que tentam sobreviver dentro de cada um de nós.

Nossos vazios ocupados de vaidade, de vazio, de oco precisam ser desocupados. Quem se habilita a começar a arrumação?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Santo Agostinho, como não poderia deixar de ser, que diz:

“Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência.”

A vaidade impede o nosso acesso à sabedoria que, para existir, precisa de paciência. Que saibamos calar a vaidade que vai em nós para que os planos, para nós, não sejam outros. Constantemente, temos conversas nossas, vaidosas, sendo interrompidas por situações e contextos relevantes que insistem em não desistirem da gente. A vida tem sido incansável em nos relembrar o que importa.

domingo, 5 de abril de 2020

Passos alargados

Estamos diluídos na nossa construção, que se traduz e se sustenta por meio dos nossos valores. Há um muito de nós em tudo que possui a nossa digital. A nossa diluição se apresenta nas nossas medidas, nas nossas brechas e nos nossos espaçamentos.

A forma como estamos diluídos na vida, na nossa construção, pode revelar-se sob três aspectos: pessimista, realista e otimista. Não há um quarto aspecto. Ou talvez um quarto aspecto seja a mistura destes três ou a combinação deles. Mas o fato é que há uma predominância na nossa construção, na nossa diluição, na nossa forma de viver e de fazer.


Quem é o mais importante? Quem é o necessário? Quem define?

O pessimista crê na ausência de luz. Esta é a base da construção do pessimista. O otimista crê na ausência de escuridão. Esta é a base da construção do otimista. O realista crê em acionar o interruptor para que haja luz. Esta é a base da construção do realista.

São formas de se viver e versões acerca de quem somos. Valores que nos representam e que nos formam, nos diluem e modelam a nossa construção. Somos a soma de cada um de nós. Ora os três aspectos, ora um, ora dois deles, ora três. Somos os intervalos deles em cada um de nós. Não há errado, não há certo: somente formas distintas de se viver, de se enxergar o que vai, de nos fazer. Todos são importantes. Todos são necessários. Todos nos definem.

Mas por que os otimistas e os realistas são pessoas cuja sombra e água fresca estão garantidas? São pessoas que não sofrem retaliações, são bem-vindas e, mesmo quando apresentam discursos hipotéticos, hipócritas, políticos e mágicos, são alimentados pelos irracionalismos e pelos tendenciosos de plantão. Já os pessimistas, cuja crença está na escuridão, são repelidos da conversa como se fossem contagiosos e inabitáveis.

A maioria de nós se coloca como otimista e/ou realista, porque assim definimos. Mesmo que esta posição não reflita a realidade que vai em nós. É esperado da gente, por causa de uma construção social, que sejamos esperançosos, alegres, otimistas, felizes. Ser pessimista, assumir-se como tal, é como se fosse uma afronta, uma ofensa, um desserviço. O pessimista é renegado, mal visto e, muitas vezes, solitário. É mais valorizado quem se mostra feliz, apesar de não o ser muitas vezes, do que o infeliz honesto. O suposto feliz não dá trabalho para a sociedade. Já o infeliz honesto demanda muito de todos.

Na nossa Cultura de atirar os que não vão com a maioria pelas portas e janelas laterais, vamos acusando, sem exceções, os pessimistas. São pessoas que têm a parte individual atacada pelos que acham que eles deveriam estar ausentes e fora das conversas. O pessimista, que possui uma forma de diluir-se na vida de forma ácida e pouco afeita à luz, é facilmente posto de lado.

imagem tirada da internet

Perdemos a nossa capacidade de reconhecer o outro exatamente por causa da incompletude que ele tem. Mas somos todos incompletos e por fazer. Estamos todos numa esteira sendo formados. É preciso resgatarmos a nossa vontade de nos debruçarmos sobre os outros para poder conhecê-los. Porque se assim fizéssemos, a chance de compreendermos o pessimismo do outro seria grande. A chance de refletirmos sobre o otimismo do vizinho talvez nos ajudasse a nos compreender. E assim sucessivamente. Como, muitas vezes, silenciamos aqueles que não possuem eco em nossas vozes, retiramos de nós a oportunidade de avançarmos. O outro não nos interessa.

Informamos, ao mundo, quem somos por meio do que possuímos e por meio do que damos. Aquilo que nos identifica, que deveria ser o Eu, puramente, está marcado na roupa que vestimos, na universidade que cursamos, na linguagem que usamos, nas crenças que temos, nos lugares que frequentamos, nas falas que pronunciamos. Nossa referência de reconhecimento do outro está no que vai lá fora, e não há mais espaço e nem vontade para nos debruçarmos sobre quem é o outro, sobre a real identidade que ele possui. O externo nos identifica e o interno não nos interessa. Mas é justamente o interno que deveria nos interessar. É ele, e somente ele, que poderá nos explicar quem é o outro. Quem é aquele pessimista, aquele otimista, aquele realista.

E neste lugar de diálogos pré-concebidos e estabelecidos, cujo esgotamento de possibilidades é evidente por parte daqueles que excluem, os pessimistas vão somando rótulos injustos de fracassados, infelizes e precários.

Obviamente, não faço, aqui, um movimento em prol do pessimismo. Mas um convite para reflexão. O pessimista, o otimista e o realista possuem nuances, ramificações que camuflam virtudes e defeitos. É preciso atenção a isso. Mas apenas para os pessimistas esta lupa está a postos.

Um otimista é essencial porque ele sempre enxerga retas no caminho. Vê curvas ainda não trilhadas. Vê possibilidades de caminhada. É um incansável na arte da não desistência. Mas é desprezível aquele típico otimista oco, cujo pensamento mágico o faz crer que bastam meia dúzia de palavras e de pensamento positivo que tudo dará certo. Um otimista que nada constrói porque acredita em fórmulas mágicas e que acha, de forma arrogante, que detém o controle das coisas e da vida. Desconsidera o lado randômico e irregular da vida.

Um realista é essencial porque ele, dificilmente, tira os pés do chão. Sabe até os centavos que possui na conta bancária. É privado de delírios e de alucinações. É um incansável na arte de trabalhar com os fatos. É um sujeito de repertório e sem apego para descontruir o que não deu certo. Mas é desprezível aquele típico realista enfadonho que acha que tudo se resume a uma planilha de Excel e que acha que a vida se traduz em números e descritivos.

Um pessimista é essencial porque ele enxerga a escuridão que, fatalmente, virá, mas que os outros têm medo de enxergar. Vê tropeços na estrada porque sabe da fragilidade dos passos dados até aqui. Ele é o único a colocar holofotes na estagnação e no cotidiano retrógrado. É um incansável na arte de nos lembrar se pegamos o guarda-chuva, porque certamente choverá. Mas é desprezível aquele típico pessimista que se limita a repetir modelos porque “sempre foi feito assim”. Um pessimista que se encosta porque “não adianta, não dará certo”, evidenciando uma postura imobilista, o que não é saudável.

Otimista, realista, pessimista: sinônimo de quem somos. Virtudes e defeitos. Ordens e desordens. Controle e descontrole. Não há como fugirmos disso. Ao excluirmos o pessimista de nossas conversas, sem percebermos, estamos nos excluindo. Porque o pessimista somos nós, também.

Todos são urgentes numa construção pendente e atrasada. Então, por que somente o pessimista paga a conta? Por que este isolamento?

O pessimista vê coisas que ninguém vê, mas que existem. São questionadores porque possuem algo necessário: desconfiança. Não uma desconfiança vazia e má, mas uma desconfiança porque conhece a natureza humana, cuja desonestidade existe. Ele percebe os furos, aquilo que está escrito nas entrelinhas daquele contrato que todos assinam sem ler. Fala dos problemas que aquele super projeto pode oferecer. Quando todos estão comemorando algo que ainda não aconteceu, ele questiona o motivo. Por ser incompreendido, é chamado desmancha-prazeres, mas todos precisam dele. Apenas não reconhecem e o afastam.

Somos uma sociedade que acredita em felicidade de fórmulas e sem construção. Somos viciados em novidades, queremos ser inéditos e achamo-nos no direito de experimentar. Acreditamos que querer é poder. E nada disso existe. O pessimista sabe disso há tempos. E como ele nos lembra disso a todo o instante, queremos afastá-los. É terrível conviver com alguém que fica, o tempo todo, nos falando a verdade e nos lembrando do que somos feitos.

Guimarães Rosa valorizava o meio, a travessia, o trajeto. Portanto, o equilíbrio é essencial. Precisamos de todos, na medida. Nem muitos pessimistas, nem muitos otimistas, nem muitos realistas. De todos. Mas na medida. Para encontrarmos esta medida, apenas fazendo a travessia de Guimarães Rosa. Caindo. Levantando. Chorando. Andando.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de um pessimista incorrigível da nossa História, Nietzsche, autor imprescindível, que diz:

“por vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas.”

Este é o trabalho do pessimista: árduo, difícil, indigesto, mas de autoria necessária. Ele ajuda a destruir a ilusão, a farsa, a hipocrisia. Destrói as tábuas de salvação, os falsos apoios e oferece páginas em branco para o recomeço da escrita. Ele possui passos alargados pela lucidez. Mas é incompreendido e, na maior parte das vezes, não recebe aplausos porque todos estão sentados assistindo a um filme de ficção que pela, vigésima vez, reprisa na televisão.

sábado, 14 de março de 2020

Aldeias sem vozes

Quando eu era pequena, por volta dos 13 anos, estudei três anos de violão. Não por convicção, uma vez que minha vontade por estudar o instrumento não era tão forte assim, mais para fazer um carinho ao meu pai, apaixonado pelo violão. Mas foi uma experiência muito valiosa. Tive a sorte de ter uma professora dedicada ao ensinar, que conhecia o universo infantil, tinha a técnica aprimorada sobre o instrumento (tocava lindamente) e ainda, por cima, era didática e extremamente carismática. Hoje, adulta, tenho a certeza de que estes três anos dedicados, além do meu esforço e decisão por fazer, também se devem à presença desta professora, que ainda tão presente se faz em mim.

As aulas corriam passo a passo, nota por nota. A cada aula um avanço. A Tia Nida, como era carinhosamente chamada pelos alunos, assegurava, o tempo todo, que alguma coisa importante estava acontecendo no meu aprendizado. Ela sempre me dava a sensação e a certeza de que o meu avanço estava existindo. Sentia-me caminhando e o melhor: ao acontecer a “mágica” de uma nota difícil ser conseguida de fazer por mim, ela dizia: “você conseguiu!”, e isto me dava metade do caminho andado. A outra metade deveria ser por minha conta. Ao dizer que “eu havia conseguido”, ela valorizava a minha trajetória e a minha história. E ao fazer isso, me sentia parte do processo, um sujeito, e não um objeto em branco a ser desenhado e esculpido. Eu já sabia coisas antes de chegar lá, e isso foi valorizado, apesar de toda a minha dificuldade e erros, que foram inúmeros.

Paulo Freire dizia: “Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar”. Tia Nida sabia isso. E aplicava. Coerente. Reta. Assertiva.

Inacabados somos todos nós. Mas quem percebe? Somente aqueles que amam. E amar, neste contexto educacional, significa permitir a ação e a reflexão do outro. Significa permitir que o outro caminhe ainda por pés tortos, inchados e cansados. Que o outro possa ter espaço para refletir sobre a própria incompletude e inacabamento. Sem isso, o que nos sobra é a arrogância, isolamento e a hipocrisia. Meu inacabamento e minha incompletude foram percebidos. No entanto, ao invés de constrangimento, acolhimento.

Em meio ao meu inacabamento, quando eu já caminhava para um ano e meio de estudo, comecei a colocar os meus pés para fora da soleira. Apesar de ainda chover forte e de eu estar desprevenida, quis sair mesmo assim, ainda que, discretamente, a vida já havia me mostrado que não era a hora. Cheguei para a aula, iniciei meus estudos. A professora me pediu para tocar A casa, música de Vinícius de Moraes. Era uma canção muito estudada por mim e eu já sabia tocar, de verdade, muito bem (“...era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”). Toquei meio a contragosto. “Por que não avançamos?”, pensei, na minha incompletude. Continuei a tocar, mas sem dizer uma palavra acerca do que eu pensava. Terminamos a aula. Fui embora. Voltei para a outra aula. A mesma situação: tocar outra música “conhecida”, agora ela me pediu para tocar Amigo, de Roberto Carlos e Erasmo. Toquei. Agora não mais a contragosto, mas irritada.

A irritação é uma arma perigosa do arsenal dos vaidosos. E isto independe de idade.

Irritada, toquei Amigo. Hoje, adulta, me envergonho de um dia ter achado músicas de Vinícius de Moraes, Roberto Carlos e Erasmo, fáceis de tocar. Enfim, marcas de um currículo que me trazem até aqui. Toquei. Despedi-me da professora. Saí. Brava, enquanto atravessava o jardim da casa dela, ouço: “Renata, te espero na quinta”, com um largo sorriso. Fazia aulas as terças e quintas. Fiz um aceno positivo com a cabeça, arrogante, e segui meu caminho no auge da minha pequenez que ainda tinha 13 anos.

Na época, como compreender? Apenas vivendo. Aquele sorriso dela, hoje compreendo, era um convite para eu recusar atalhos, para eu recusar caminhos curtos, para eu abrir mão da necessidade desnecessária. Mas convites são para toda a vida, muito além do horizonte, a também música “fácil” de Roberto Carlos e Erasmo, que tive de tocar durante as aulas.

Na próxima aula, a mesma cena se repetiu. Toquei, desta vez, a canção Aquarela, de Toquinho, que possui pouquíssimas notas. Fiz com displicência, confesso. Mas toquei. Parei e disse: “Eu não quero mais tocar estas coisas fáceis. Isto eu já sei. Quero aprender coisas mais difíceis. Quero aprender a tocar Abismo de Rosas. “Apenas um parêntese: a canção Abismo de Rosas é uma das mais difíceis de se tocar, no violão. Fecha parêntese”.

“Abismo de Rosas?”, ela me disse. “Esta é bem difícil, há passos antes dela.”

Um silêncio se fez. Mas logo foi preenchido por aquele mesmo sorriso, do mesmo dia do “te espero na quinta”. Novamente relembrando a genialidade de Paulo Freire quando disse: “Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar”, a professora me recoloca dizendo: “Renata, quando temos a base sólida e muito bem aprendida, o difícil fica relativo.” E continuou: “se você quer aprender coisas mais difíceis, o que valorizo em você, primeiro você precisa criar intimidade com o simples. Porque será ele que facilitará o teu caminho para o complexo.”

Fui desmascarada. Fiquei sem chão. Não esperava aquela lição tão dura que carrego para a vida. A diferença entre o inesperado daquele ensinamento e o difícil de aprender a tocar Abismo de Rosas me reorientou e me deu valiosas dicas de que o amadurecimento de uma pessoa começava por aquele caminho, que certamente me levaria a outros. Tão valiosos quanto.

“Vamos continuar a tocar?”, disse ela, como se nada houvesse acontecido. Sábia, sabia que contribuía, e muito, para que meus pequenos vazios fossem preenchidos. Ela, portanto, não precisava ficar se demorando nas lições morais, porque ela havia permitido o espaço para a minha reflexão e para eu relembrar, mesmo com tão pouca idade, que somos uma sequência de rupturas e de contradições, o que dificulta a construção de um claro projeto de vida. Toda vez que abrimos mão dos passos que o simples quer nos ofertar, nos perdemos. E simplesmente o que ela fez foi me reorientar, me recolocar na rota, cuja impertinência e vaidade de minha parte me fizeram desviar.

Fui apresentada a Toquinho, Vinícius, Roberto Carlos e Erasmo, entre outros. E achei fácil. Não tinha dúvidas de que era fácil. O genial Millôr Fernandes dizia que “quem não tivesse dúvidas era porque estava mal informado”. Era o meu caso, desconfio.

Crescemos com a imposição de alguns isolamentos, de alguns nãos. Isto nos faz avançar. A linha é muito tênue entre correr riscos para avançar e saber esperar e se consolidar. Por isso, uma das chaves é nos aprimorar no nosso autoconhecimento, no nosso limite, no estudo acerca de quem somos, cuja descoberta completa é impossível. De posse destes estudos, as respostas da vida, para nós, ficarão mais claras. Saberemos, de verdade, a hora de nos arriscarmos nos aprendizados mais complexos.

Muitos aprendizados, na vida, nos obrigam a entrar e a acessar nossos vazios e nossos silêncios. Nossas vaidades diversas. Nossos espaços alargados. O não nos dá consciência do nosso limite. Porque ele existe e precisa ser respeitado.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação do escritor russo Tolstoi, que diz: “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

Outro dia, ao ouvir a música Aquarela, de Toquinho, uma canção de poucas notas musicais, a mesma que aprendi logo que comecei a estudar e que julguei fácil por haver tão poucas notas, me lembrei do profundo ensinamento que recebi e que jamais me esqueci. Poucas notas sim, mas de uma profunda simplicidade que, certamente, me ajuda a compreender o complexo da vida. Sem o aprofundamento e o respeito pelo simples, o complexo jamais será bem-vindo e compreendido. Quando Toquinho diz que com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo, vi a Tia Nida ali, na minha frente, me dando aquele largo sorriso de quem sinto falta. O castelo, de Toquinho, é um lugar de excelência e de permissão para todos, mas antes, é preciso saber, conhecer, respeitar e aprender a relevância das retas, sejam elas cinco, seis ou quantas mais forem necessárias. Para se chegar à gaivota voando no céu, antes, e mais importante, é imprescindível valorizar o pinguinho de tinta que cai num pedacinho azul do papel.

Vi que Tolstoi e Toquinho, apesar de não serem contemporâneos, são pessoas que caminham à frente, bem à frente. Tolstoi nos convida a sermos universais, assim como Toquinho nos chama a fazer o castelo; mas antes, Tolstoi nos relembra que antes da universalidade, há a nossa aldeia para ser conhecida, respeitada e pintada, e Toquinho nos relembra que antes do castelo, é preciso conhecer as retas.

Que nossas aldeias não fiquem sem vozes. Que nossas retas não fiquem sem nossas mãos.

Somos parte do mesmo. Somos um a partir de. Somos um lápis em torno da mão que nos dará uma luva, mas se assim, valorizarmos o lápis e o brilhante trabalho que ele faz. Sem ele, a luva jamais existirá.

domingo, 1 de março de 2020

A metáfora dos anões

Isaac Newton, um dos grandes da História, dizia:

“Se cheguei até aqui, foi porque me apoiei nos ombros de gigantes.”

Somente uma pessoa grande diz isso. Quando somos grandes, reconhecer a grandeza dos outros é natural, feito sem esforço. Mas quando somos pequenos, a grandeza dos outros incomoda e ofusca, e reconhecê-la é quase uma afronta, um convite ao retrocesso.

Somos uma sociedade feita de anões. No entanto, não reconhecemos isto por nos acharmos grandes. Confundimos conceitos. E esta conta se percebe quando nos atrapalhamos com as nossas medidas e entregas. Exatamente por acharmos que sabemos os conceitos, erramos. Somos uma sociedade de desatentos, por isso a vulnerabilidade nos encontra com facilidade e nos assola. Caso estivéssemos mais atentos, nossas luzes estariam acesas, e seríamos menos suscetíveis à escuridão e menos acessíveis àquilo que não fosse bom.

Somos uma sociedade que está pautada na carência. Portanto, se elogiamos alguém, se consideramos o trabalho de um colega, se valorizamos aqueles que já passaram é como se não houvesse espaço para nós.

O andar do outro não diminui o nosso. O construir do outro não invalida o nosso. Há muita dificuldade na valorização dos que foram porque somos vaidosos, queremos os louros em embalagens fechadas e exclusivas. Queremos deixar nossas pegadas isoladas e não misturadas. O passo do outro nos incomoda porque ele pisou sobre terras que gostaríamos de ter pisado primeiro. Entretanto, como isso não foi possível, tentamos encontrar uma forma de diminui-lo e de neutralizá-lo para que ele entre para o hall dos esquecidos.

Não sabemos aonde está a nossa atenção. Sabemos reivindicar, mas não sabemos construir. Sabemos pedir, mas temos dificuldades de ficarmos na fila aguardando sermos chamados. Alienados que somos. Desbotamos a experiência do outro porque não foi a nossa. Desvalorizamos os passos dos outros porque não foram deixados por nossos sapatos. Queremos que os outros encurtem os nossos caminhos apenas por capricho e apego que temos a nós, mas não porque a trajetória dele fosse uma referência a ser considerada. E na hora de subirem os créditos que deveriam ser dados aos que já passaram, chamamos os comerciais. Quem percebe?

A construção do nosso conhecimento se dá por meio da própria experiência que fazemos, mas sempre considerando o caminho que os outros trilharam, a história e a História que os outros já escreveram. Mas parece que temos outra lógica de influência e de significados. Como a experiência, trajetória e construção do outro não entram na nossa conta e não nos interessa, nos tornamos insustentáveis. E assim sendo, construímos tragédias por não termos aprendido que o outro, e toda a sua completude, é parte que nos constrói. Nossos itinerários ficam obstruídos por falta de material de construção que deixamos, há tempos, de comprar.

Isaac Newton, ao trazer este pensamento para a nossa reflexão, faz uma metáfora que, ao longo da história, ficou conhecida como a metáfora dos anões. Esta simbologia de dizer que “se está sobre os ombros dos gigantes” nos coloca numa condição de anões. Para que possamos estar sobre ombros dos gigantes, não podemos ser grandes, também. Anões, portanto, é um grande estado de excelência para todos nós. Este raciocínio mostra que, independentemente, de quem somos, do que fazemos, do que construímos e descobrimos, sempre alguém veio antes. Sempre. Mas parece que estamos nos esquecendo disto e nos apropriando de louros e de créditos que, de longe, ajudamos a construir. Um conceito antigo, bem antigo, que reacendeu com Isaac Newton, um dos maiores Astrônomos da Humanidade.

Somos todos anões sobre ombros dos grandes. Quem são os grandes? Todos aqueles que vieram antes de nós. Sem exceções. Se sabemos o que sabemos foi porque alguém nos trouxe verdades a partir de outras verdades descobertas antes de aqui chegarmos. Para aceitarmos isso, será preciso ter aceitado, antes, o fato de sermos pequenos e de termos sido construídos a partir de outros que vieram antes. Somos construções dos olhares dos outros.

Os ombros dos gigantes é um lugar para poucos. Apenas para aqueles que já entenderam o que fazem aqui. Para aqueles que ainda possuem dificuldades de valorizarem os ombros dos que vão à frente de nós, um possível caminho seja refletir sobre algo recorrente em nós: a ingratidão. Etimologicamente, gratidão vem do latim “gratus”, que, por sua vez, possui uma base indo-europeia formada por “gwer”, que significa dar as boas-vindas.

Quando somos ingratos, temos dificuldades de nos apoiar sobre os ombros dos gigantes porque os gigantes que passaram não nos interessam. O trabalho deles é irrelevante, desnecessário, ultrapassado. Ingratidão significa considerar que o mundo e seus atributos começaram apenas quando nós chegamos. É viver sob uma farsa pintada de cores brilhantes para que ninguém perceba. O ingrato não conhece o entorno. Não percebe e não reconhece o trabalho do outro porque somente a caneta que ele possui faz grandes obras.

O contrário, a gratidão, é dar estas boas-vindas àquele que já veio, àquele que já passou e que parou no degrau cuja estada chegamos agora. Gratidão é saber que muito havia sido feito quando chegamos. E que muito há por fazer. Difícil e custoso, mas necessário. Gratidão é não se importar em ser o “anão”. Porque somos todos.

Aquele que é grato se eleva porque se torna autônomo, menos suscetível ao alheio. Sabe que é influenciado por ele, mas não se deixa dominar. Aquele que é ingrato se diminui porque precisa de cada migalha que cai para tentar formar máscaras que ficarão tão presas, como disse Fernando Pessoa, ao rosto, que se tornarão nossa própria pele.

Tomamos posse de conquistas cuja participação foi mínima, irrisória, vergonhosa. Outros começaram bem antes da gente, e em épocas muito mais duras e de conflito que as vividas hoje. Se temos liberdade de gritarmos nas ruas é porque muitos foram silenciados antes de nós. E este é apenas um exemplo em muitos.

Concedemos uma invisibilidade aos outros e às obras deles porque impomos a nossa visibilidade de futilidades e de excentricidades a todos. Construímos a partir de. Por que não identificamos as vozes dos outros, então? Por que os que foram têm as próprias obras e passos esnobados por nós? Outro dia, escutei alguém dizer que Machado de Assis é um autor ultrapassado e que Shakespeare, se vivo, seria um escritor mediano. Pobre que somos. Medimos o mundo pela nossa ínfima régua. Medimos a expressividade da obra dos outros pela inferioridade e inexpressividade da nossa. Por isso, nos apoiar sobre os ombros de gigantes como Shakespeare, Machado de Assis e de outros tantos anônimos não nos é convidativo. Afinal, o que aprenderemos com eles? Nada. Ao invés disto, nos apoiamos nos nossos próprios ombros para continuarmos a usufruir de inexistentes paisagens.

Aquele que se apoia sobre os ombros dos gigantes vai longe porque não se envergonha de ter um saber continuado, restrito, fragmentado e específico. Não há como nos apropriarmos de toda a obra, mas assim agimos. Por isso, os outros não nos interessam. Os ombros dos outros são lugares que não nos merecem. Pobre que somos. Para sairmos desta inércia, precisaríamos nos vestir de muitas outras coisas, mas nossa visão é turva, pálida e míope.

Somos desequilibrados por causa dos excessos e por causa das ausências. É preciso questionar quem são os nossos representantes e as bases que sustentam o nosso pensar e agir. Nossa fragilidade é assustadora, por isso, burocratizamos nossas atitudes, medicalizamos as nossas emoções e os ombros dos gigantes não fazem parte do nosso querer. Aliás, eles atrapalham.

Pobres que somos. Vaidosos que somos. Míopes que somos. Por convicção. Por acharmos que temos uma verdade. Mas o que não sabemos é que toda verdade é incompleta. Somente os que vão sobre os ombros dos gigantes já perceberam isso e não desprezam, jamais, este lugar.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um lindo pensamento do escritor francês, do século XVII, Jean de la Bruyere, que diz:

“Não há, no mundo, exagero mais belo que a gratidão”.

O convite está feito. E há tempos. Mas somente aqueles que caminham sobre os ombros dos gigantes conseguiram enxergar esta beleza.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Campos doentes

Logo pela manhã, ao abrir a janela, a imagem abaixo me deu bom dia. Uma imagem comum, conhecida, banal. Afinal, o que há de especial num carro estacionado, na rua?


Quando não enxergamos mais aquilo que era para ser visto, significa que as dores, que são alimentadas pela nossa alienação, tomaram conta do espaço doado por nós. Espaços doados sem esforços; lugares doados porque não sabíamos (e ainda não sabemos) o que fazer com eles. Dores intensas que nos têm levado à cegueira, ao costumeiro, à aceitação do que não poderíamos e não deveríamos aceitar.

O que há de errado com este carro estacionado? Um limite ultrapassado. Simples assim. E, exatamente, por ser simples, ignoramos. Ignoramos o limite imposto pelo marcador amarelo, no chão, e ignoramos tudo aquilo que há por trás de algo simples porque subestimamos. Se há um limite para mim, é porque há o outro lado do espaço que te pertence. Se há um sinal para eu respeitar, é porque, ao parar, você poderá passar. Se há um marcador, há uma marca, um limite para ser respeitado porque outros chegarão e o lugar deles precisa ser validado.

Obviamente, não me refiro àquele limite que precisa ser quebrado como sinônimo de superação. Como vitória de reconhecimento de nossas forças. Refiro-me àquele limite que, se não respeitado, prejudica, traz custos e retrocessos. Dificulta o avanço, mas facilita a insanidade e a alienação.

São tantos os exemplos de cegueira sobre os limites que infringimos em relação aos outros, que ocupamos o lugar deles sem a menor cerimônia. E vice-versa. Uma cegueira aceita, institucionalizada, não percebida, não sentida. E esta é uma das mais perigosas. Exatamente por não a percebermos, ela vai se espalhando e se apossando do nosso pensar e do nosso olhar. Somos cegos que enxergam. Não nos faz falta o interpretar, o pensar, o refletir. Quem perde tempo interpretando, pensando e refletindo acerca de si, e do que faz, corre um importante risco de elevar-se. Mas não sentimos falta de elevação e nem de nada que nos traga trabalho e massa de construção. Por isso, aquela faixa amarela, pintada ali, no chão, é apenas um rabisco que, por não ser visto, não precisará ser refeito. Uma decoração feita por alguém que não sabe o próprio papel. Um passar de tempo.

Um passar de tempo para aquele que pinta o chão, que põe marca, que impõe limites. Mas faz isto para o vento, para o nada. Ninguém, ou quase ninguém, percebe. Passamos o tempo errando. E este mesmo tempo passa nos cobrando acertos. Uma equação que nunca fecha. Enquanto erramos, vamos nos fingindo mortos, caídos no caminho, apressados. Nosso nível de compreensão acerca destas coisas está bem aquém do que verdadeiramente é.

“Avancei só um pouquinho, dá para sair”, disse alguém.  Engraçado como sempre nos utilizamos dos diminutivos quando queremos ser simpáticos, solícitos e aceitos. Mas, no fundo, o que buscamos é uma indulgência para as nossas faltas, uma camuflagem, um diálogo morno, medíocre, sem pressa e sem demandas. Um diminutivo que obriga o outro a reduzir o tom porque você tentou ser “amigável”, não quis briga. Um diminutivo usado para se impor ao outro e assim, forçar desculpas compradas.

Somos errantes do caminho. Criticamos aqueles que vão a nossa frente, bem à frente, buscando nos corrigir e nos oferecer exemplos. Pessoas que respeitam o limite do outro, que não caminham por espaços não convidados, que usam os próprios sapatos e que limpam a própria lama, geralmente, são os chatos, os metódicos, os que chamamos inflexíveis. Somos uma sociedade que confunde conceitos.

O educado é um chato, um rígido nos costumes. O mal educado é assertivo.
O que respeita as regras é inflexível e retrógrado. E o que desrespeita é uma pessoa “disruptiva e que vai além”.
Aquele que não tem compromisso algum com a construção do próprio caminho se tornou aquele que “tem pressa de crescer”.
O impaciente com o tempo se tornou uma pessoa que apresenta um importante requisito de caráter: a “inquietação”.
O paciente, aquele que sabe o poder e a relevância da experiência e do tempo, é visto como alguém que não tem ambição, um acomodado.

Adoramos fazer apontamentos no caderno dos outros, mas vão vazios os nossos. Não sabemos nem os nossos limites, como respeitar o alheio, o que vai fora de nós? Como saber se excedemos o limite se nem ao menos o enxergamos? Somos frágeis tentando nos manter estendidos e equilibrados em meio aos nossos discursos pobres, sem convivência, contraditórios. Possuímos discursos sem diálogos, de poucas falas porque são somente as nossas que constam lá.

Muitas respostas que buscamos podem ser encontradas no significado das próprias palavras. Limite, a palavra que escolhi para refletir, hoje, tem sua raiz latina em “limes”, cujo significado é caminho entre dois campos, fronteira.

Caminho entre dois campos. Chega a ser poético se não fosse a nossa insistência em desmentir o Poeta. Um poeta que canta, que tenta nos tirar do ambiente das ideias e das falsas concessões. Caminho entre dois campos: o que nos leva ao próximo e o que aproxima o próximo de nós. Somos uma coisa só, um caminho entre dois campos, e não dois caminhos. Um caminho que começa em nós e continua no outro. Mas ainda temos muita dificuldade de entendermos isso exatamente por, ironicamente, ultrapassarmos os limites, seja aqui, aí, ali ou logo lá, além.

Limitar é, numa análise mais simples, então, um caminho construído entre estes dois campos: entre o meu e o seu. Se eu avanço para o seu caminho, como você caminhará? Se você invade o meu campo, como se dará este trajeto sobre o qual tenho compromissos?

Limites respeitados: diálogos construídos. Limites ultrapassados e desrespeitados: monólogos perpetuados. Limites respeitados: convites ao adiantamento sendo feitos. Limites ultrapassados e desrespeitados: definhamento do que deveria ter sido e não foi.

Ocupar-nos. Talvez seja isso o que nos falte. Precisamos nos ocupar da gente, nos escrever e saber o que vai em nossas linhas e entrelinhas. Habitar-nos, como disse o escritor. Um cuidar da gente não para nos envaidecermos, para sermos melhores, mais éticos, íntegros. Isto deve ser libertador. A Filósofa Viviane Mosé diz que “quem não se cuida despenca sobre o outro”. Em outras palavras, ultrapassa os limites. Precisamos de limites. Eles são necessários porque nos dão a dimensão do outro. Sem limites voltamos à selvageria, à barbárie. Precisamos voltar para nós porque desconfio que nos afastamos. Um pouco. Somos desconhecidos para nós mesmos. Somos doentes que desperdiçam a cura porque não a enxergam. Desrespeito ao limite do outro, ao reconhecimento do campo do outro é um sintoma da nossa sociedade. Uma sociedade que sofre, mas que não dá conta e nem ouvidos ao que diz o sofrimento. Por isso, adoecemos.

Como respeitar o limite do outro? Como reconhecer este caminho entre dois campos? Arrogância minha dizer que sei a resposta. Mas talvez um possível caminho seja trabalharmos na desconstrução deste erro de não permitirmos que o outro caminhe. E como fazer isso? Que tal começarmos por não ultrapassarmos a faixa amarela, nas guias das ruas?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento lindo de Louis Pasteur, bacteriologista imprescindível e atemporal, que diz:

“Quando vejo uma criança, ela inspira-me dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode vir a ser.”

Crianças não somos mais. Mas ainda podemos corresponder às expectativas de Pasteur e conquistarmos o respeito dele: nos esforçar para sermos quem poderemos ser. Ainda dá tempo.  Mas e quanto à ternura? Deixemos a ternura para os fortes. Se dermos conta da conquista do respeito, sermos ternos será somente uma questão de tempo.