terça-feira, 7 de março de 2017

O Mas que constrói

Há uma música escrita por Guilherme Arantes e interpretada por Elis Regina, Aprendendo a Jogar, que diz:

“Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas aprendendo a jogar...”

Esta música somos nós. Vivemos e aprendemos o tempo todo. Ora ganhamos, ora perdemos. E o gerúndio, presente no vivendo e no aprendendo, vem nos mostrar que o processo da vida é contínuo e que está sempre em construção. Portanto, o caminhar é uma certeza. E assim sendo, enxergar e identificar os aprendizados deste caminhar para que eles facilitem os nossos próximos passos é, no mínimo, fundamental para nós. E este é o papel dos aprendizados: nos recolocar na rota, nos fazer enxergar as placas do caminho que, com pressa, passamos sem observá-las. Talvez nos falte descobrir isto. Por isso ainda estamos vivendo e aprendendo...

Esta música é um migrar em nós mesmos. A migração em nós é imprescindível se quisermos aprender a jogar. Não há como aprender sem conhecer e navegar em nós.

A nossa escolha não está no viver e no aprender. Mas como realizar este viver e este aprender.

Vivendo e aprendendo a jogar é uma condição imposta pela vida. Não há como fugirmos disto. Mesmo que ficássemos parados diante à vida, ainda assim, estaríamos vivendo e aprendendo.

Nem sempre ganhando nem sempre perdendo é uma consequência da nossa condição de viver e de aprender. Também não há como fugirmos desta realidade. Quando ganhamos é porque agimos de acordo com a vida; quando perdemos, é porque agimos contra a vida. Simples assim. O difícil é colocarmos isto em prática.

Mas aprendendo a jogar é a nossa escolha neste nosso caminhar chamado Vida. Quando aceitamos a condição da vida, que é viver e aprender, assumimos as consequências desta condição, que são nem sempre ganhando e nem sempre perdendo, conquistamos o direito de escolher, que é aprender a jogar. E a partir deste momento nos tornamos autônomos e livres.

Autônomos para que as influências externas não nos atinjam. Autônomos para sermos os criadores da nossa trajetória. Autônomos para agirmos e não somente reagirmos.

Livres para não nos colocarmos em prisões impostas e criadas por nós. Livres para estarmos e sermos felizes mesmo que não estejamos no palco. Livres para desejarmos desejar a liberdade.

Quando aprendemos a jogar, de verdade, é porque, com ou sem a bola, sabemos o que fazer. Aprendemos a jogar mesmo sem bola. E é preciso valorizarmos isto.

A conquista do aprender a jogar, que é uma metáfora de aprender a viver, somente se dará no momento em que valorizarmos e dermos vozes às nossas gavetas e aos nossos bastidores. Eles representam a essência que há em nós. Mas os escondemos porque não dão ibope e porque temos a tendência de escondermos as bases de nossa formação. Afinal, quem vai querer saber o que vão nas nossas gavetas? O que há em nossos bastidores?

As nossas gavetas e os nossos bastidores nos constroem. Eles estão cheios de Mas.

O mas de “mas aprendendo a jogar” é o momento no qual reconhecemos a nossa imagem nos nossos bastidores. Quando chegamos neste momento, mas aprendendo a jogar, a vida terá valido a pena. As máscaras não nos servirão mais, e o servir será um desejo nosso, e não uma imposição da vida.

Somos cobrados, pela vida, a aprendermos a jogar. Mesmo que ela não permita ensaios, como disse Chaplin, ainda assim ela nos oferece oportunidades e chances de acertarmos e de começarmos de novo, mesmo que seja de forma mais acelerada porque o tempo terá passado. Como se fosse um “Genius”...

imagem tirada da internet

Erramos, percebemos. Saímos do tom. Desafinamos. Este é o aprendizado. E aí recomeçamos e buscamos ouvir a música que toca no “Genius” com mais atenção para não desafinarmos novamente. Este é o aprendizado. Este é o aprender. Este é o viver. Este é o convite que, dependendo de nossas respostas, se tornará uma convocação.

A música do “Genius” toca novamente. Mais atentos, seguimos e acertamos. Pegamos o jeito porque vivemos e aprendemos. Ganhamos e perdemos muitas vezes. Recomeçamos. Aprendemos, de verdade.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Guimarães Rosa, que diz:

“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Uma travessia bela e recompensadora. Somente ela, acredito, nos levará a aprender a jogar, ou melhor, a viver. E nesta hora, seremos livres e autônomos para verdadeiramente ouvirmos a música que toca, na vida ou no “Genius”. E o melhor: seremos capazes de entendermos a letra e o que ela, o tempo todo, quis nos dizer, mas que, por ineficiência de nossos sentidos, não fomos capazes de entender.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A máscara que mostra

Há um poema de Fernando Pessoa, poeta português do século XIX, chamado Tabacaria, que traz um verso belíssimo:

...”e quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. ”

Fernando Pessoa é um destes essenciais escritores que dizem coisas para nos tirar do lugar comum no qual, muitas vezes, nos colocamos. Por meio deste verso, que nada há de ingênuo, ele revela a angústia de sermos humanos, principalmente quando o nosso mundo interior oscila com o mundo exterior. A realidade, muitas vezes decadente, confronta com o que há dentro de nós e pede respostas. Não há como ficarmos indiferentes.

Este poema fala disto: das angústias inerentes ao ser humano. Do confronto da realidade versus aquilo que se quer. Muitas respostas serão encontradas; muitas não. E lidar com as respostas encontradas, mesmo que não tenhamos gostado, ainda assim será mais fácil do que lidar com respostas não encontradas. A angústia nasce disto. Desta resposta que não veio, do sonho não realizado, das experiências vividas no isolamento e no anonimato, dos saberes não aplicados.

Carl Jung, psiquiatra suíço, falecido em 1961, nos ensina que as máscaras são, na linguagem trazida por ele, uma forma de conformidade, uma maneira de cessarmos a nossa guerra com a vida e aceitarmos as suas condições. Baixarmos a guarda. Quando nos conformamos, por pior que pareça este conceito, nos acalmamos. Parece que a vida nos deu uma trégua. Por isso Jung nos diz que a máscara não possui, portanto, somente aspectos negativos. E a ironia está exatamente nisto. Ver o lado bom delas.

Tirar as máscaras é aceitar a nossa condição de inacabados e, portanto, imperfeitos. Quando abrirmos mão da necessidade neurótica que temos de poder e de estatus, as máscaras entrarão em desuso. Mas talvez como ainda não estejamos prontos para enfrentarmos esta nossa condição de inacabados, vestimos máscaras para fazermos de conta que estamos. Afinal, quem irá nos questionar se nossas máscaras são perfeitas?

As máscaras, na época grega, eram utilizadas pelos atores, no palco. A ideia era mostrar, ao público, o distanciamento entre o personagem versus o ator. Era deixar claro que aquela encenação no palco era alheia à vida do ator. Uma coisa era o personagem; outra coisa era o ator. Duas realidades distintas, portanto.

A máscara, em si, nada mais é do que um adereço. Simples assim. Um objeto inanimado. O perigo está justamente na função dada a ela, que é construída por nós. A máscara será o resultado dos nossos desejos e das nossas intenções. Ela pode servir para trabalhar o nosso lado lúdico (brincadeiras de crianças), para participar de uma festa (carnaval), disfarçar o que eu não quero mostrar e outros exemplos.

Por que usamos máscaras se não somos atores encenando uma peça? Podemos não ser atores de teatro, mas somos atores da vida e na vida. Não há como negarmos esta realidade. Por isso, adaptar-se às vezes é necessário. Usar máscaras é necessário. Elas são uma espécie de ferramenta de convívio social. Ou será que podemos ser quem somos o tempo todo e dizer o que queremos o tempo todo? Não. Portanto, as máscaras nos ajudam a conduzir melhor esta dinâmica chamada Vida.

O ideal seria vivermos livres, educados para dizermos a verdade, sempre, e não para sermos aceitos, cordatos e agradáveis. Mas e o limite disto? Quando saber o momento de retirar a máscara antes que ela se confunda com o nosso rosto? Vejo dois caminhos: o primeiro é se observar sem máscaras ou, pelo menos, com menos máscaras. Assim, a visão ficará mais limpa do que há atrás das cortinas. E um segundo caminho: revisitando, frequentemente, conceitos que podem, hoje, não fazer mais sentido. Deveríamos aprender a descontruir máscaras e não incentivados a vesti-las e, assim, perpetuarmos um modelo falido. Acusamos os mascarados. Mas fazemos parte deste mesmo grupo.

É preciso questionar o poder que damos a quem nos obrigada a colocar máscaras. Caímos em profundo esquecimento de nós mesmos quando as usamos. E depois, quando tentarmos acordar, não será mais possível. Estamos tão acostumados a usá-las porque desconhecemos o que é viver sem elas. E cá entre nós, usar máscaras é muito mais confortável que não a usar. Elas nos tornam as pessoas ideias. Que maravilha não precisar explicar quem somos! As máscaras fazem este papel por nós.

A máscara é usada por aquele que perdeu a medida e acabou se perdendo no caminho da própria mediocridade.

imagem tirada da internet

Enxergar a nossa essência requer ausência de máscaras, desprovida de disfarces.

Com elas, os caminhos percorridos são curtos e insustentáveis; sem elas, longos e sustentáveis. Qual caminho escolheremos?

A nossa vaidade é tão grande que, mesmo sabendo não ser ideal o uso constante de máscaras, ainda assim comparamos as nossas com as do nosso vizinho.

A máscara é uma ferramenta do convívio social. A dependência dela não nos traz opções, muitas vezes. Mas acima de tudo, questionar o uso da máscara é fundamental. Usá-la é necessário; mas transformá-la em pele é abrir mão do direito de estar no mundo. A máscara tem o poder (que damos a ela) de esconder a nossa identidade. E o que é pior: tem o poder de transformar a nossa identidade. O super-herói se transforma em alguém que ele não é e cria uma expectativa de que aquele personagem seja ele mesmo. E sabemos que não. A máscara, portanto, é uma maneira de disfarçar, mudar e/ou transformar quem somos. Nos gibis, isto é inofensivo. Mas na vida como ela é, não saber lidar com as máscaras poderá nos tornar reféns dela.

Máscaras perfeitas são máscaras desmedidas num mundo desenhado para ser perfeito, mas que é imperfeito. Vestimos máscaras para podermos exercer a nossa convivência.

Mascarados, fazemos de conta que somos o que não somos para correspondermos às expectativas daqueles que não nos representam. Porque aqueles que nos representam não nos cobram máscaras e expectativas.

A aparência que aparenta aquilo que aparentemente aparentamos. Frase ambígua e redundante. Mas quem é o que veste máscaras? Linguagem redundante nos confunde. Assim como os mascarados, que confundem o ouvinte menos atento.

Aquele que não usa máscara é livre. Livre é aquele que tem responsabilidades, porém com cada vez menos necessidades. Não é para qualquer um.

A máscara aponta o erro, a falha.

Às máscaras, a resposta pronta. Aos desmascarados, a pergunta que importa (im + porta) = trazer para dentro, para aquilo que, verdadeiramente, importa.

Quem se importa com o que importa? Se nos importássemos com o que importa, as máscaras estariam em desuso, no máximo seriam usadas, como brincadeiras, num sábado de carnaval.

Enfim, vestir, para sempre, uma máscara nos torna marionetes da vontade alheia.

A propósito, você já tirou a sua máscara hoje? O que viu no espelho? Ou ainda está vestido com ela? Se soubermos esta resposta, a lucidez ainda está fazendo parte das nossas escolhas. Sabemos que usamos máscaras. Mas se não soubermos se ainda estamos vestindo ou não, certamente a máscara vestida já está se confundindo com o nosso próprio rosto.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma inquietante frase de Lêdo Ivo, jornalista e poeta brasileiro, que diz:

“Na vida, precisamos sempre de usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria se nos apresentássemos de rosto nu. ”

Acusação grave, mas quem ousa rebatê-la?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A retidão que mente

Fernando Pessoa, um dos grandes poetas da literatura mundial, por meio do seu heterônimo Álvaro de Campos, escreveu:

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Heterônimo é uma “pessoa” com vida própria, criada pelo autor. E Fernando Pessoa foi um mestre nesta arte, também. Seus heterônimos tinham biografias e definições próprias como se fossem pessoas reais. Um recurso para ter a liberdade de dialogar melhor, e com mais liberdade, sobre certos assuntos. É como se o escritor desse voz a várias personalidades que habitam nele. Neste poema, Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos, faz uma dura crítica a era das aparências, que me parece se estender até hoje.

Um poema que incomoda e que nos faz refletir sobre a imposição de sermos felizes o tempo todo. A obrigação de mostrarmos que estamos bem e que estamos e somos felizes.

De onde vem isto?

De longe, muito longe. Se mergulharmos na nossa história, na história da Humanidade, encontraremos alguns caminhos que explicarão as razões desta nossa alienação. Descobriremos que, ao longo da nossa jornada, as noções de fracasso e de sucesso foram sendo modificadas e construídas com base nos valores e na cultura existentes.

O nosso conceito de sucesso atualizado, com raríssimas exceções, está ligado ao dinheiro, ao estatus, ao cargo e à posição social. E o contrário disto, o fracasso.

Mesmo tendo sido escrito no início do século XX, Fernando Pessoa traz esta provocação e esta reflexão. Logo no início do poema ele diz:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Temos muitas dificuldades de falarmos e de assumirmos os nossos problemas. Não queremos falar sobre os nossos fracassos porque nos comparamos a eles.

O próprio poema foi construído e escrito pelo autor de forma irregular para os padrões métricos. Utiliza esta irregularidade como forma de criticar a retidão que mente, a métrica que não funciona e pior, que aprisiona.

Por que, até um poema, precisa seguir regras métricas? Por que o nosso pensar e a nossa inspiração precisam se encaixar em regras, muitas vezes, sem sentido? Por isto ele faz e constrói um poema fora da regra, não linear, não reto.

O conteúdo do poema é uma ironia àquilo que não é possível.

Tudo certinho, no lugar, em perfeita ordem, sem arranhões. Como passar pela vida sem arranhões? Como viver sem o caos? Como viver sempre na ordem?

Os amigos de Pessoa, aqueles que viviam em linha reta, estavam numa retidão inexistente. Irônica. São fracassados por não assumirem os seus fracassos. Aquele que assume o seu fracasso deu o primeiro passo para a vitória.

Somos vulneráveis na nossa própria condição. A imposição da felicidade nos é feita por pessoas desordenadas que somente acreditam numa forma de felicidade: a impossível.

Somos contraditórios na nossa própria essência. O fracasso e a vitória caminham juntos. A fronteira entre eles é quase inexistente. Portanto, é preciso aprender a dialogar tanto com os nossos fracassos como quanto com as nossas vitórias. É preciso dialogar, inclusive, com a possibilidade do fracasso e com a possibilidade da vitória. Nem uma coisa nem outra está garantida. Por que tanta arrogância, então?

O diálogo com o fracasso nos faz fortes. O diálogo com a vitória nos torna humanos e atentos.

Admitir a nossa infelicidade é acreditarmos ser pequenos. Mas não somos.

O medo de nos expor nos fragiliza. Estamos perdendo o direito à fragilidade, à insegurança. Como o imperativo da felicidade não permite deslizes, a dor está ficando fora de moda.

Estamos perdendo espaço para falarmos do que não vai bem. Estamos perdendo tempo divulgando fotos felizes. Isto é verdadeiro?

Escondemos o que deve ser mostrado. Mostramos o que não interessa ao outro.

A felicidade de uns agride o outro porque ele não se sente representado. Quem vai ouvi-lo? Por isto a simples ideia de felicidade o incomoda e o agride.

Estamos confundindo o conceito de fracasso com os nossos problemas. Tê-los não é sinônimo de fracasso. O que determinará o fracasso e a felicidade é o uso e a atitude que se fizer disto.

O homem de sucesso, o homem em linha reta, é aquele que responde e corresponde aos imperativos da performance, do desempenho e da felicidade.

Por que criamos grades para nós mesmos? Por que criamos prisões e nos colocamos lá?

Mais que receitas de como vencer, precisamos criar formas normais e saudáveis para enfrentarmos os nossos fracassos. Por que somos educados para somente acertarmos e não somos educados para encararmos os nossos fracassos? Por que a educação se cala frente a esta necessidade?

É preciso enxergar o fracasso como integrante da nossa formação.

Sem fracasso não há sucesso. Sem linhas tortas não há linhas retas.

Não deixamos espaço para falarmos sobre a dor, suas consequências e sintomas. Apenas para o riso, mesmo que frouxo e sem sentido.

A felicidade está se tornando um produto padronizado. Aonde compramos, mesmo?

Somos seres inacabados, imperfeitos. Reconhecermos a existência da tristeza é reconhecermo-nos humanos. A sensação de infelicidade, de angústia, de incompletude nos acompanhará, querendo a gente ou não. E, ironicamente, se quisermos reduzir esta sensação, somente aceitando e assumindo os nossos fracassos e as nossas linhas tortas trilhadas por nós.

Nossas falhas e nossos avessos existem para nos servirem e para nos mostrarem quem, verdadeiramente, somos. É preciso, portanto, trabalhá-los.

Talvez fracasso seja, apenas, tarefas inacabadas deixadas por nós, no caminho. Talvez sucesso seja, apenas, o convite da vida para servirmos, aonde reside o prazer e a verdadeira sabedoria.

O fracasso pode ser um ponto de partida. O sucesso, um acerto de contas com a vida.

Fracassar é doloroso. Mas é preciso. Fugir do fracasso é se render ao discurso falido e insustentável da perfeição, do “não erre” e do “acerte sempre”.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Fernando Pessoa:

“A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. ”

A ironia, fortemente utilizada neste poema, demonstra a profunda consciência do autor em nos propor estas reflexões. Que a ironia seja, em parceria com o questionamento, sempre as nossas melhores armas para combatermos a alienação e o pensar submisso.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Saia do script

Há algumas semanas, o controle remoto da televisão parou de funcionar. Simples assim. Com pouco mais de 05 anos de utilização, muito bem conservado e utilizado, ele resolveu se aposentar. É preciso respeitar.

Após tentativas de fazê-lo funcionar (troca de pilha e demais opções que estavam ao alcance), não tive sucesso. Como a televisão é nova, liguei para a assistência técnica para encomendar outro controle remoto. Original. Ao ligar para lá, apesar do bom atendimento, me informaram que o controle que eu buscava não estava disponível no site da Empresa, estava em falta no mercado. Mas a assistência não sabia me dizer se era uma falta de produto, apenas, ou se o controle havia saído de linha. Eu tinha, então, duas opções: fazer o pedido, mesmo assim, e aguardar uma resposta do fabricante, ou ligar diretamente para ele e ter mais informações. E foi o que fiz.

Ao ligar para lá, após ouvir todo o script automático e obrigatório (disque 1, disque 2, disque 3...), fui para a sexta opção que era o meu caso (disque 6 para falar com um dos nossos atendentes). Ao ser atendida, pediram meu nome completo e o meu CPF?!

Qual o motivo para alguém pedir o nome completo e numeração de CPF para uma simples pergunta sobre um controle remoto? Não é mais ético deixar o cliente falar antes? Há casos em que o CPF é necessário (uma compra, por exemplo). Mas este não era o meu caso.

Não forneci o meu CPF e nem o meu nome completo. Para o que eu precisava saber, o meu primeiro nome bastava. E percebi que a atendente não gostou da minha atitude. Disse: “preciso do número, senhora, é norma da empresa. ”

Norma?

Continuei não fornecendo os dados. Disse a ela o motivo da minha ligação. Que apenas gostaria de saber se o controle remoto modelo X ainda era fabricado. Se sim, quando ele estaria disponível para compra. Caso contrário, eu compraria o outro oferecido pela assistência técnica.

E aí, o diálogo abaixo se desenrolou:

- Mas eu não tenho esta informação, senhora. Aqui não é logística para eu saber sobre aparelhos. Sou uma Central de Atendimento. A senhora precisa falar diretamente na assistência técnica. Mais alguma informação?

- Mas eu já falei com eles. E eles me pediram para falar diretamente com vocês, os fabricantes. Sei que você é uma Central de Atendimento (!) e é por isso mesmo que estou ligando. Preciso saber se este acessório continuará sendo fabricado.

- Só um minuto... (aqui entrou a música).

após um intervalo de quase dois minutos...

- Obrigada por aguardar...então, eu vi com o meu supervisor, e é isto mesmo: aqui não é logística. Não temos como saber isto. Mais alguma informação, senhora?

- Meu Deus, não há uma área aí com quem eu possa ter esta informação? Não é possível que eu esteja ligando para o Fabricante e não consiga esta informação. Se não é com você, com quem eu posso falar, então?

- Não sei informar, senhora. Aqui é só uma Central de Atendimento ao cliente. Mais alguma informação?

- Eu sei que aí é a Central, meu Deus, e que eu sou o cliente. Quero falar, então, com o seu supervisor. Você, me passa, por favor?

- Senhora, não estou autorizada. Mas já informei a senhora que não temos este tipo de informação. Posso ajudá-la em algo mais?

(Ajudá-la? Ela não me ajudou…)

- Sim, claro, você pode me ajudar, sim. Vocês possuem um canal de reclamação e uma Ouvidoria, eu acredito.

- Ah, sim, senhora, temos sim.

- Ah, que ótimo. Você pode me falar, então, se posso registrar a reclamação pela internet ou se preciso ligar?

- Pois não, senhora, a senhora poderá estar fazendo a reclamação pela internet, mesmo. Posso ajudá-la com algo mais?

- Não, obrigada.

- A LG agradece a sua ligação. Por favor, fique na linha para avaliar o nosso atendimento...

imagem tirada da internet

É no mínimo irônico. Depois disto ainda me pedem para aguardar para avaliar o atendimento? Confesso que ri ao desligar o telefone. Impossível não rir. Como assim pedir para eu ficar “na linha” para avaliar o atendimento? De qual atendimento ela se referia? Não houve atendimento, simplesmente. E quando eu disse que registraria uma reclamação, ela, prontamente, me falou, “pois não”?

A alienação é um preço muito alto que pagamos pela nossa completa ausência de bom senso. Ela atrofia a nossa inteligência e nos embrutece. Diminuímos de tamanho quando, ao lado dela, nos colocamos.

Ao passar por isso, a palavra script veio fortemente à minha mente. O mau atendimento ficou evidenciado, e cheguei a sentir dó da atendente pela completa falta de autonomia e discernimento dela. Ela tinha outras opções. Mas acho que ela não sabia. Ou se sabia, não quis fazer uso disto.

Lançar mão de outras opções na vida, que não o script, é sempre mais trabalhoso.

Seguir o que já foi escrito e roteirizado, com falas frias e sem sentido, nos transformam em anônimos e despercebidos na multidão de iguais. Ela tinha opções. Mas não teve alcance para ir além da fala pronta, para ler a situação e entender que, ali, era preciso um pouco mais que roteiros previamente construídos por pessoas despreparadas.

Padrão de atendimento não deve ser confundido com mecanização e robotização. Estar e atuar dentro do script é necessário. Mas o mais importante é saber o momento de atuar além dele.

Num mundo onde há muito de tudo, estabelecer regras e instruções é necessário para que se tenha uma certa ordem, controle e padrão. Caso contrário, cada um de nós sairá fazendo o que bem entender, o que achar o certo. Portanto, um pouco de ordem é imprescindível para que possamos conviver com a nossa desordem. Porém com equilíbrio e sem exageros.

Sair do script requer tempo de estrada percorrido, disposição e vontade. A vida não segue um script. Por que, então, insistimos em transformar tudo num padrão? Estamos ficando sem espaço para o improviso, para o autônomo, para a criação.

Executar algo requer um conjunto de instruções. Mas é preciso criar uma gordura de atuação para os momentos que este conjunto de instruções não funcionar.

Trabalhei numa empresa que dizia sempre: “errem dentro da circular, mas não acertem fora dela”. Um conceito retrógrado e ultrapassado. Os erros realmente lá eram poucos do ponto de vista técnico. Mas a opressão, a falta de criatividade e a completa falta de autonomia eram evidentes. Muito se perde com este tipo de gestão pobre, que só fazem ganhar dinheiro e estatus. E só. Mas tudo é uma escolha.

Criamos scripts e roteiros para ficarmos no comando e no controle. É isto o que precisa ser dito. Ponto. Um simples controle remoto é um instrumento que comanda a distância. E o que é o script senão a crença infundada do comando de algo ou de alguém, a distância? O script nos treina para o óbvio, mas não para o mais difícil que é identificar as perguntas que não estão sendo feitas e buscar resolvê-las.

O roteiro nos impõe um limite, nos leva a uma subordinação, ao imobilismo. Mas é preciso saber a razão deste limite e avançar.

Aonde está o nosso senso crítico? Não encontraremos a resposta no script.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Ingmar Bergman, dramaturgo e cineasta sueco, falecido em 2007, que diz:

“Eu escrevo scripts para servir como esqueletos aguardando a carne e o tendão de imagens. ”

Que saibamos seguir os scripts quando forem necessários. Mas que saibamos o mais importante: que eles são, realmente, apenas estruturas e esqueletos. Portanto, que o nosso discernimento e a nossa razão sejam a base, a carne e a imagem. Somos e sempre seremos os condutores e os responsáveis pela decisão de usarmos ou não um script.

Scripts são domesticadores. E não incentivadores de um novo patamar de pensamento.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Nossos penhascos diários

imagem tirada da internet

Um comentarista esportivo, ao se referir a um comportamento de um atleta, disse a palavra medíocre. Fiquei com esta palavra passeando na minha cabeça durante a semana, e resolvi escrever sobre ela.

De origem latina, mediocris, tinha o significado inicial do que estava no meio, na média, mediano. Significava, também, o que estava no meio de duas coisas. Aquele que ligava uma coisa à outra. E o termo ocris, uma antiga palavra que significava penhasco ou montanha.  Portanto, mediocris era, simplesmente, aquele que estava no meio da montanha, do penhasco, da rocha. Aquele que estava no meio do caminho.

Mais tarde o termo evoluiu para medíocre, na língua portuguesa, como grafada até hoje.

Por conta da evolução (ou involução?) da nossa história, muitas palavras perderam o significado inicial no longo caminho que percorreram até aqui. E a palavra medíocre faz parte deste seleto grupo de palavras que perdeu o seu significado inicial por conta da nossa atuação.

Aonde a ação do homem chega, somente a incerteza será a nossa certeza.

Se antigamente ser medíocre não era ofensivo, hoje, se somos chamados disto ou se chamamos alguém desta forma, nos sentiremos ofendidos e ofenderemos. Certamente. O sentido da palavra mudou e o que era suficiente num passado, não mais o é de algum tempo para cá. Se antes ser medíocre apenas era estar no meio dos nossos penhascos, com direito a nos sentir completos por conta disto, hoje isto não basta mais. É preciso subir cada vez mais em nosso penhasco para que a mediocridade não seja impressa em nós, como um rótulo imposto pela sociedade ou, até mesmo, por nós.

Obviamente, subir os nossos penhascos e sairmos do lugar comum, do lugar aonde está a maioria, é recompensador desde que haja sentido na caminhada e rota para esta escalada. Caso contrário, será a subida pela subida. A ida a um lugar que não foi desejado por nós.

Mesmo sabendo que o sentido original da palavra mediocridade não carrega o pejorativo que há hoje, não tem jeito: o “novo” sentido dado a ela veio para ficar e, claramente, não queremos estar na categoria dos medíocres.

A mediocridade, no sentido atual, é uma inimiga silenciosa e astuta. Ela parte, essencialmente, da forte crença de que não é possível fazer, e que, portanto, não vale a pena insistir. Este é o caminho, o trajeto da mediocridade como a conhecemos hoje. Mas nem sempre é fácil reconhecê-la. Ela está arraigada na ausência do querer. A vontade é nula. A existência é só mera coincidência do Universo, para o medíocre.

A bravura, a coragem e a intolerância ao pequeno, sem menosprezá-lo, é, definitivamente, uma linguagem que a mediocridade não entende.

O escritor Paulo Coelho traz um texto que bem exemplifica o sentido da mediocridade “atual”:

Só os medíocres agradam a todos

Quando você começa a fazer alguma coisa, sempre tem alguém torcendo contra. Se você consegue ultrapassar as primeiras dificuldades, a “torcida contra” aumenta.

É preciso saber aproveitar isso. Não adianta querer agradar a todo mundo. Só os medíocres conseguem isso e, mesmo assim, à custa de muito sacrifício pessoal.

Tampouco adianta ficar ressentido ou odiar quem não o ama. Convença-se que isso faz parte do trabalho. Use a energia da “torcida contra” para adestrar a sua vontade, para ser mais profundo e mais sério no que está fazendo. Aproveite.

Entretanto, se este tipo de torcida afastar você do seu caminho, é porque este não era o seu caminho. Se fosse, só mesmo a mão de Deus poderia ter feito alguma coisa contra.

Bela reflexão. O medíocre de hoje é diferente do medíocre de ontem, como disse Max Gehringer. Portanto, com o medíocre do passado, mesmo que tenha sido a gente mesmo, não havia com o que se preocupar. Mas com o medíocre de hoje, principalmente se for a gente mesmo, este sim é preciso cautela e muito cuidado. O silêncio dele é assustador, imperceptível. E é exatamente esta a intenção: fazer que a gente não o perceba ali.

O medíocre de hoje é aquele que torce pelo seu insucesso. Desta forma, o dele não ficará tão evidente. Ele terá com quem discutir os infortúnios da “falta de sorte”. E quando você buscar outros caminhos para atingir o seu objetivo, o medíocre, de plantão, estará lá firme, te desencorajando. Como seu amigo, ele acredita que assim te ajudará a poupar mais dores.

Ele se compraz da sua infelicidade porque ele não é feliz. Esta é a linguagem dele.

O medíocre de hoje possui a régua muito abaixo do limite do aceitável. É aquela pessoa que não se esforça pelo simples fato de não enxergar valor no esforço. E isto pode ser consciente ou inconsciente. E quando você se esforça, mesmo com poucas chances de acerto, você parece ridículo para ele. Um ser à parte. Uma pessoa que incomoda. Uma pessoa que obriga, sem perceber, o medíocre a sair do lugar comum porque você demonstra que há outras possibilidades e formas de ver a vida. Por isto, ele tenta, desesperadamente, te desanimar na esperança de que você deixe as coisas como estão.

Ser medíocre não é uma escolha. É uma condição. Para sair dela, o autoconhecimento e o amadurecimento são caminhos transformadores. Mas o caminho mais rápido e eficiente é quando a dor, pelos prejuízos causados pela mediocridade, começa a ser sentida por quem a pratica.

O medíocre de hoje é sempre aquele que tentará puxar você para baixo, para o nível da régua onde ele está. Ele está cansado de sonhar e de acreditar na caminhada. Ele se cansou de lutar. E o mais crítico: ele não possui lutas a serem conquistadas. E todo medíocre gosta de uma companhia. Por isto é preciso tomar cuidado.

Fazer o melhor que podemos, sempre, mesmo que longe da perfeição, é abrirmos mão da mediocridade.

Às vezes somos exigidos, pela vida, a buscarmos opções de outras rotas para a realização de nossos sonhos. Mas somente a vida tem este direito de nos desviar, temporariamente, deles. Ela certamente nos desviou para nos fortalecer. Mais adiante ela tratará de nos colocar no caminho, de novo, em busca dos mesmos sonhos. O medíocre não tem este direito. Mas ele acha que tem. Por isto, todo o cuidado com ele é pouco.

O medíocre mina as nossas forças. Ele busca nos desestabilizar. Sentimo-nos enfraquecidos em nossos desejos, quando damos ouvidos a ele.

A submissão é a linguagem do medíocre. O pensar e o agir são dispensáveis num mundo em que o pensar e o agir são indispensáveis.

Definitivamente o medíocre de hoje é incompatível. Uma pessoa perdida que busca parceria. O questionamento, para ele, é irrelevante. É uma pessoa que segue o caminho trilhado, valoriza a conveniência e não a competência. Os interesses do outro, mesmo que inoportunos, são a base do fazer do medíocre. Ele se contenta com a escada pronta, não sente prazer em construí-la. A construção não faz parte do dicionário do medíocre.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de José Ingenieros, escritor, médico, professor que diz:

“O homem medíocre é sinônimo de homem domesticado, se alinhando com exatidão às filas do convencionalismo social. A opinião dos outros é o que importa, são os escravos das sombras, vivem para o fantasma que projetam na opinião de seus similares. Porque pensam sempre com a cabeça social e não com a própria, são a escora mais firme de todos os preconceitos políticos, religiosos, morais e sociais. Associa-se aos milhares para oprimir os que não comungam com a sua rotina. ”

Este pensamento foi dito em 1913, pelo escritor. Mas parece que ele acabou de escrevê-lo...

Que sejamos dignos da subida em nossos penhascos. Firmes e justos com o nosso propósito, com o nosso sentido. E que os medíocres do caminho apenas nos sirvam para fortalecer as cordas que apoiarão a nossa subida. E se cansarmos e quisermos parar no meio de nossa caminhada para descansarmos, que esta decisão seja nossa. Apenas nossa.

Boa caminhada a todos nós.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

De verdade, Feliz Ano Novo

imagem tirada da internet

Um ano se foi. O outro chegou. Que a gente o receba de braços abertos. Porque braços fechados também recebem, mas que este não seja o nosso caso.

Para que de verdade seja um Feliz Ano é preciso vontade e disposição. Apesar de difícil, está ao alcance de todos nós.

Para muitos, o ano de 2016 passou muito depressa. Somente o depressa não expressa. Mas o muito junto do depressa expressa o real sentimento que ficou sobre 2016, para muitos. Prefiro acreditar que a pressa na qual vivemos é o que fez de 2016 um ano corrido. Uma pressa construída por nós, não pelo ano que se foi. E se não mudarmos esta pressa, que alguém um dia nos disse ser necessária e que, infelizmente acreditamos, o próximo ano, 2017, passará rápido também. Tudo é uma questão de escolha.

O tempo passa normalmente. Mas nós insistimos em apressá-lo. Por isto esta sensação.

Outros se despediram de 2016 com alívio. Afinal, “o ano não foi bom, disseram”. Não é justo responsabilizá-lo por nossas falhas e culpas. Ele nos ofereceu 365 oportunidades de acertarmos. E se assim não se fez, injusto seria culpá-lo.

Independentemente do motivo que nos fez querer que o ano se encerrasse ou não, temos, novamente, 365 novas chances de fazer o que é preciso, de parar de fazer algumas coisas e de continuar a fazer tantas outras. Que possamos sempre esperar o melhor de todo o ano que começa, mas que também, como disse a Mafalda, tenhamos a humildade de entender que o ano também espera o melhor de nós. E qual é o melhor de nós? Somente a gente sabe, mais ninguém. Que possamos, então, colocar tudo isto em prática.

O ano novo, de verdade, é a todo o momento. Não podemos esperar que dezembro e janeiro resolvam todas as nossas questões.

Viver, de verdade, um ano novo é vivê-lo com responsabilidade, sem pressa. Não ter pressa não significa que não estamos fazendo, que não estamos construindo. A construção se dá na calma, na paciência e na contemplação. Mas ter pressa significa passar sem objetividade pelas coisas, sem conteúdo, superficialmente.

Aquele que tem tempo para tudo é quem constrói e realiza. Aquele que corre o tempo todo nada constrói. Apenas fica de olho no relógio.

Carlos Drummond de Andrade, no seu conhecidíssimo poema Receita de Ano Novo, diz:

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo...não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, ...

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-la na gaveta...

...nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem...

Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.  É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. ”

Algumas passagens deste belo poema que destaquei mostram o quão complexa e árdua é a tarefa de construir um ano novo de verdade.

Do que adianta fazer lista de boas intenções e arquivá-la na gaveta, como ele diz? Esta é uma das mais belas reflexões, na minha opinião. Além do encerramento que, lindamente, ele diz que para que o ano novo seja, verdadeiramente, novo, vamos ter de merecê-lo porque, antes de tudo, o ano novo cochila dentro de cada um de nós.

É preciso, portanto, irmos além dos cumprimentos da meia-noite. Há muito o que fazer.

Apesar de os bocejos, um tempo após os cumprimentos, indicarem que está na hora de retirar os pratos da mesa, sabemos que há muito o que fazer.

Quando entendermos que a vida é uma via de mão dupla, que ela dá, mas cobra, e que o trabalho precede o resultado, aí sim, iniciaremos um ano novo.

Que possamos entender que paradigmas existem para serem questionados.

Que possamos pensar melhor. Desta forma, não compraremos gatos por lebres.

Que sejamos impedidos, por nós mesmos, de burocratizarmos as nossas emoções para que elas possam ser sentidas.

Que sejamos autônomos para que possamos, assim, questionarmos as muitas bases hipócritas nas quais nos apoiamos para defendermos o indefensável.

Que aprendamos a não atrapalhar. Assim ajudaremos e muito.

Que sejamos representativos para nós mesmos.

Que a gente não reclame da cobrança se, de verdade, tivemos mais chances e condições.

Que a nossa voz baixa prevaleça em 2017, para que aquele que realmente precisar falar tenha vez e seja ouvido.

Que a palavra renúncia faça mais parte do nosso dia a dia.

Que o palco não seja a nossa única aspiração. Que assistir, muitas vezes, ao espetáculo da vida, da plateia, também nos proporcionará alegrias e realizações.

Que nossas conquistas sejam mais morais do que materiais.

Que o grito ceda lugar à paz.

Que a gente se canse de guerrear.

Que a crueldade comece, de verdade, a nos incomodar. E que o “fazer o quê?” não faça mais parte da nossa fala.

Que a violência passe a ser compreendida como a voz dos incompetentes.

Que a gente não acredite em todos os elogios. E também nem em todas as críticas.

Que sejamos justos com o tempo. Ele sempre comparece. Nós é que insistimos em administrá-lo mal. E depois dizemos que não temos tempo.

Que o nosso tempo também sirva para ouvir a história do outro. Quem sabe, assim, a gente pare de falar somente da gente?

Que a gente se esforce para se lembrar de que criticar é, muitas vezes, destruir.

Que o ano seja de construção forte e resistente, com tijolos que, de verdade, existam.

Que nossas atenções estejam voltadas para o bom combate, como dizia o apóstolo São Paulo.

Que a gente abra mão do ridículo. Pararmos de fingir que estamos dormindo para não cedermos o banco, no metrô, servirá de começo.

Que possamos colocar nossos sonhos nas primeiras prateleiras das nossas vidas. Somente desta forma eles terão espaço para concretização.

Que possamos nos centrar em nós para sabermos o básico, pelo menos.

Que possamos reconhecer as nossas hipocrisias disfarçadas de boas intenções.

Ao ano de 2016, somente nos resta agradecer pela paciência, tolerância e compreensão. Demos muito trabalho a ele. Ao ano de 2017, obrigada por confiar na gente e nos dar mais uma chance para acertarmos. Vamos nos esforçar para não o decepcionar.

Afinal, como diz, novamente, Carlos Drummond de Andrade:

“Mas se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor...

O melhor vai se instalar em nossa vida. Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura. ”

Que tenhamos uma larga visão sempre sobre o melhor para que ele se sinta confortável de se aproximar da gente e, mais que isto, se instalar em nós, como disse o poeta.

Um ano novo, de verdade, a todos!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

E...E...E...Vamo, Vamo, Chape

É com muita tristeza que escrevo este texto. De verdade, não queria fazê-lo. Não sobre isto. Não sobre este tema. Mas foi a forma simples que encontrei para homenagear os que se foram na última semana, o dia em que todos acordamos com aquela triste notícia.

imagem tirada da internet

Em situações como esta, o velho ditado “Deus dá o frio conforme o cobertor” é posto em xeque. Nossa fé é testada. Nossa força é chamada. Nossa coragem se desencoraja frente à crueldade como tudo aconteceu. Nossos medos se agigantam e ficamos pequenos, muito pequenos. Tomamos pé de nossa pequenez e talvez, nesta hora, caibamos naquele cobertor do ditado. Em momentos assim, o chão é algo que não se encontra e as referências, urgências e pendências perdem o sentido.

O silêncio é a única necessidade. Ele ameniza o cansaço. As palavras ocupam espaço demais nesta hora. O recolhimento é o esconderijo ideal.

Nestas horas costumo ficar de mal com Deus. Fiquei algumas vezes de mal dele durante a minha vida. É como se ele não tivesse cumprido a promessa que nos fez de que seríamos todos felizes. E nas minhas conversas com ele, costumo cobrar isto. Na maior parte das vezes, ele silencia. Acho que esperando que eu recobre minha lucidez. Ele espera. Sempre espera.

E logo a frente, peço desculpas a ele, e fazemos as pazes. Preciso dele e do entendimento que somente ele poderá trazer. A isto chamamos fé. A fé não se explica, se sente. E num momento como este, para aquele que tem fé, a caminhada fica menos dolorosa.

A fé nos faz acreditar naquilo que não encontramos explicação lógica. E o que aconteceu foi um exemplo clássico. Como explicar o que aconteceu? Não há como explicar.

Não há como ficar indiferente. Aquele que não se emocionou e não se sensibilizou com o que ocorreu deve se perguntar o que faz no mundo. Uma pergunta importante para se fazer. E aquele que tenta pegar carona nesta tragédia para resolver incompetências pessoais, o título de ser humano não é merecido. Deveria se recolher ao lugar de insignificante.

As homenagens feitas a todos aqueles que se foram (jogadores, profissionais do clube e jornalistas) foram dignas e justas.

Aquele grito “E...E...E...! Vamo, Vamo, Chape! ” ficará marcado em nossas memórias. O grito era, nas arquibancadas da Arena Condá, em Chapecó, e no estádio Atanasio Girardot, na Colômbia, uma triste tentativa de manter viva a esperança no amanhã, além da gratidão expressa na palavra Heróis, estampada nos telões. E na contagem regressiva, o grito de “é campeão” também se misturava à dor de todos.

Um título mais que merecido: serão sempre lembrados como Heróis.

Em seu Hino, a Chapecoense traz na letra: “...são tantos títulos outrora conquistados com bravura, muita raça e fervor. Leva consigo o coração de uma cidade...”.

E será nesta bravura, raça e fervor que ela precisará se apoiar para se reerguer. E este reerguer começou no choro inconsolável dos meninos da base, que a partir de agora carregam a missão de levantarem o time e o colocarem, novamente, numa posição de destaque.

Muito triste. Uma perda irreparável.

O Brasil parou. O mundo se comoveu. E todos prestaram as suas homenagens. Todos unidos num só coro: “Força, Chape! ”. A beleza deste coro seria ainda maior se não fosse pelo motivo que a causou. A união de forças que se deu foi uma demonstração de que ainda temos a bondade e o amor dentro de nós. Infelizmente ainda temos a dificuldade de expressar tal sentimento de bondade e de amor fora das tragédias. Mas ainda há chance. Mas ainda há esperança. Mas ainda há motivos.

A união e a solidariedade vistas foram emocionantes.

Ainda somos capazes de amar. Mesmo que seja num momento ímpar e de dor. Ainda assim somos capazes.

A dor nos causa uma sensação como se estivéssemos anestesiados. O problema é que o efeito da anestesia, ao passar, nos colocará, novamente, nos pódios criados por nós para servirem as nossas vaidades.

A dor nos anestesia. Faz-nos baixar a guarda, baixar as nossas armas e nos colocar ao lado do outro e não acima dele. A dor do outro nos comove porque sentimos dor também. Frente àquilo, não há o que fazer. Somos impotentes, frágeis, pequenos. Somos humanos.

Por que precisamos de uma tragédia como esta para expressarmos amor, caridade e solidariedade?

Por que na hora da dor temos tempo de estarmos juntos?

Por que na hora da dor abraçamos quem nos é desconhecido? Mas não sabemos sequer o nome do nosso vizinho?

Por que na hora da dor acolhemos o nosso adversário?

Por que num momento de dor nos unimos? Por que neste momento não temos cor, raça e religião? Por que num momento de dor abrimos mão de nossos compromissos imprescindíveis? Mas ao passar este momento, voltamos para os nossos compromissos adiáveis, cuja presença é fundamental.

A morte traz reflexões que a alegria busca esconder. Por que precisam nos lembrar, por meio de tristes acontecimentos, que a união e a fraternidade são, de fato, fundamentais? Por que a tristeza aproxima e a alegria afasta, muitas vezes? No mínimo, irônico.

São muitas as perguntas. E poucas as respostas. E precisamos nos acostumar com o fato de que nem sempre teremos acesso às respostas de que gostaríamos. Ainda ficaremos por muito tempo sentindo o incômodo de termos perguntas sem respostas.

O Atletico Nacional propôs que o título fosse dado ao time da Chapecoense. Que linda atitude.

Uma atitude de campeões e de pessoas que já entenderam o verdadeiro sentido da vida.

O mundo precisa de mais atitudes como esta. Pessoas que agem desta forma, certamente, já encontraram muitas respostas para as suas perguntas.

O tempo vai passar. A dor daquelas pessoas que perderam seus amigos e parentes se transformará em saudade. Uma saudade sofrida e inesquecível.

Um choque para todos nós. Um duro aprendizado. Um golpe violento. A vida tem seus dias felizes e seus dias tristes.

Ela também fica de mau humor.

A morte tem o poder de nos calar e de nos colocar no nosso lugar. Ela não deixa dúvidas sobre o que fazer: por isto expressamos todos aqueles sentimentos de compaixão, de amor, de fé e de solidariedade. Neste momento, sabemos exatamente o que precisa ser feito. Parece um choque de realidade.

O silêncio que ela provoca rompe padrões estabelecidos. Não há regras. As máscaras caem.

Aquela mesma fé que tenho me faz crer que a vida continua. O jogo foi interrompido apenas por um tempo. Mas logo ele retomará. Não demora e eles colocarão novamente suas camisas verdes e voltarão ao campo. É só uma questão de tempo. Foi só uma parada técnica, num dia de muito sol, para um copo de água.

A trajetória destas pessoas e deste time não merece o vice-campeonato. Por isto o grito de “é campeão “ foi cantado justamente.

Parabéns a todos! Vocês todos são campeões! E sempre serão lembrados como Heróis.

Heróis de um tempo, de uma época, de um povo.

#somostodoschapecoense

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Jean de La Fontaine, poeta e fabulista do século XVII, que diz:

“Nas asas do tempo, a tristeza voa”.

Uma frase curta, mas que expressa muito do que sentimos na última semana e que, certamente, ficará em nossas memórias.

E...E...E...! Vamo, Vamo, Chape!