domingo, 28 de janeiro de 2018

E se eu tentar

O que conseguiríamos se tentássemos? O que nos seria possível alcançar se não desistíssemos? Aonde chegaríamos se não parássemos? O que há por trás de uma simples pergunta: “e se eu tentar?”: há um descortinar de nós mesmos. Um descortinar que nunca se esgota e que nos leva a conhecer o que, insistentemente, buscamos esconder.

Nunca saberemos aonde poderíamos ter chegado ou aonde chegaremos se não tivéssemos tentado, se não tentarmos. A tentativa é a nossa resposta teimosa quando a vida nos diz não, quando o convite insinua um desistir de nossa parte. Mas há convites que devem ser recusados e devolvidos ao remetente. Quando tentamos, mesmo ainda sem sabermos o resultado, demonstramos a nossa crença na não desistência. E isso nos fortalece.

É inimaginável o que poderemos alcançar se tentarmos, se não desistirmos.

Desistir é concordar com a inércia, é dar ponto a quem quer que o jogo seja perdido por nós. Desistir é a entrega sem luta. É a concordância sem questionamento. É o baixar de olhos sem ter-se permitido ver. É aceitar uma conclusão sem emitir, se quer, uma opinião. Desistir é sair da vida, mas ainda permanecer nela sem perceber.

Fácil não é, mas alguém nos disse que seria? Os exemplos são muitos.

vídeo tirado da internet

Estarmos conscientes de nossas potencialidades e termos a humildade de abandonarmos um caminho é saudável e necessário. Mas é preciso sabermos diferenciar o caminho que deve ser abandonado, porque se o seguirmos não chegaremos a lugar algum, do caminho que deve ser percorrido e perseguido. Não podemos abandonar caminhos que nos pertencem. E esta certeza cada um de nós traz dentro de si.

Caminhos que devem ser abandonados não nos deixam felizes. Eles nos trazem uma sensação de frustração, de cansaço, de inércia diante à vida. São caminhos cansativos, exaustivos, tristes, que nada nos representam. Somos apenas um número. Estes devem ser abandonados porque possuem valores conflituosos com os nossos, e insistir neles é como abrirmos mão de sermos felizes. Os caminhos que devem ser percorridos aliviam a nossa alma, refrescam os nossos pensamentos e nos dão a doce sensação de pertencimento, de conexão conosco e com a vida. Mas somente alcançaremos estes caminhos se tentarmos. Tentativas conscientes, firmes e, acima de tudo, com propósito. Fizermos mais que desistir...

Inúmeras serão as investidas para desistirmos. Mas qual caminho escolheremos?

Encontrar equilíbrio e sabedoria para andar neste caminhar cheio de encostas, desvios, buracos, sinalizações falhas e mudanças de tempo é tarefa espinhosa e complexa, mas extremamente recompensadora. Os espinhos até tentam esconder a beleza do caminho, mas eles nunca conseguem.

Tentar e não desistir, e desistir porque, de verdade, não compensa insistir, é o que nos faz grandes, é o que nos faz importantes para a nossa própria história, e o quanto nos constitui como Homens que somos. Conscientizarmos de que a tentativa e a não desistência nos tornarão autônomos e donos de nós mesmos. E que também a consciência da necessidade de abandonarmos caminhos que não devem mais ser trilhados fortalecerão as nossas tentativas vitoriosas. Tudo é uma questão de escolha. Escolher é não desistir. E escolher bem é apurar o filtro das nossas tentativas na vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Clarice Lispector, que diz:

“Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.”

Que estejamos, sempre, atentos a nós e aos nossos entornos e contornos. A dúvida de Clarice sempre existirá em nós. Mas saberemos lidar melhor com ela quando entendermos a razão do nosso cansaço, ou seja, se estamos desistindo porque efetivamente é preciso, ou se apenas por desculpa para justificarmos a nossa fuga da vida.

Que façamos mais que desistir, como disse Mandy Harvey, no vídeo. E o primeiro passo? Não desistir da gente e tentarmos quantas vezes forem necessárias. Mesmo que a vida descarregue sobre nós o seu mau humor e descontentamento. Ainda assim, terá valido a pena tentar.

domingo, 21 de janeiro de 2018

A paz de Cristo

Este não é um texto religioso. E nem poderia. Não é sobre isto o que quero falar. Mas sim deste de, em itálico, que, discretamente, figura na fala do padre e que também figura em tudo, em toda parte. Talvez por figurar em toda parte, explique o motivo de não o enxergarmos. Porque se o enxergássemos, teríamos percebido que se é preciso dizer Paz de Cristo para diferenciar da paz dos Homens, é porque ainda a nossa relação com esta paz não é única. Existem diferenciações.

Desde minha infância escuto esta frase: a paz de Cristo. Mas somente na fase adulta fui parar para ouvi-la. E quando comecei a ouvi-la, ela começou a me incomodar. E se algo nos incomoda, é porque há espaços para arrumações.

Na infância, quando somos crianças, escutamos muitas coisas e outras tantas nos passam despercebidas. Não entendemos outras muitas. Tudo certo. Na infância da vida, não nos são cobrados compreensão e entendimento. Ainda estamos na fase da recepção das informações, conhecendo este lugar para o qual fomos convocados. Por isso, podemos seguir. Sem culpas e sem incômodos. Nesse momento, é ela, a vida, quem nos dá e traça os caminhos para seguirmos. Utilizamos, para este seguir, valores, conceitos e trechos vividos por quem nos educa e por quem nos apresenta este viver. Vamos construindo nossa história a partir da história de outras pessoas, e nossos contornos e entornos vão sendo desenhados e rabiscados. Rabiscos estes que se tornarão um desenho pronto que somente lá na frente conheceremos melhor. A vida nos conduz e nos serve. O nosso papel, entre tantos, é o de absorver o que nos está sendo transmitido, além do papel de convidado para um jantar cuja mesa está posta.

Não se trata de passividade, mas na infância, somos apenas um convidado da vida. Fazer mais que isto é deixar de viver etapas importantes desta infância que nos serão cobradas logo adiante. E não demora muito para a cobrança chegar.

A infância é apenas uma das etapas que nos conduzem a algo maior: o crescimento e a maturidade. Eles nos trazem pausas imprescindíveis e obrigatórias para que possamos seguir. Sem estas paradas, a vida não nos permite avançar. E se insistirmos, ela se vingará de nós por meio de uma vida sem sentido e sem propósito. Como não é isto o que buscamos, paramos para buscar esta compreensão. Isto se torna fundamental.

imagem tirada da internet

Quando respeitamos estas paradas, passamos a ouvir a vida. De verdade. E tudo aquilo que ela quer nos dizer. Uma voz suave e mansa. Porém firme e assertiva. Uma voz que nos diz, claramente, que este de, em itálico, faz toda a diferença. Um de que traz outro propósito. O sentido da preposição de, entre tantos, é o de estabelecer uma nova relação, uma nova visão. Portanto, a nossa paz, a dos homens, não é a mesma do Cristo. Por quê? Porque ainda temos relações conflituosas e queremos nos impor frente à vida. Continuamos a achar que temos as respostas e que sabemos muito. E a verdade é que pouco sabemos. Como esta realidade do pouco saber nos incomoda profundamente, criamos conceitos arrogantes como “paz dos homens” em detrimento da “paz do Cristo”. E assim, abrimos mão do convite nos feito pela vida para sairmos da horizontalidade e partirmos para a verticalidade. Acatamos o conceito “paz do Cristo” como meramente religioso e desperdiçamos oportunidades de construirmos, que passa a ser a nossa obrigação na maturidade e no crescimento. Diferentemente da infância, quando éramos convidados para o jantar, hoje o convite é o de prepararmos o jantar. E se conseguirmos ir além, nos juntarmos aos outros, abarcaremos cada vez mais pessoas para o jantar. Afinal, todos têm fome.

O jantar é uma representação daquele que sente fome. Somente saciaremos a nossa fome quando respeitarmos as paradas que a vida nos impõe.

A paz do Cristo significa que a paz que criamos é arrogante e soberba. Criamos outro conceito e vivemos sob as influências dele. Nossas pazes são diferentes. Independentemente de religião, se é que a temos, a paz do Cristo é uma metáfora para buscarmos aquilo que nos transcende, aquilo que nos alimenta, aquilo que nos faz maiores, mesmo conscientes de nosso diminuto tamanho.

Não se trata de religião, mas de postura diante à vida. O conceito paz do Cristo não tem caráter religioso, apenas, mas muito além. Apresenta um caráter revolucionário de ruptura com a mesmice, de insubordinação necessária, de uma revisitação de valores e de caráter. Um convite para viajarmos dentro de nós mesmos. Talvez esta seja uma das principais viagens que podemos nos dar de presente. Um navegar difícil, mas necessário. Este caminhar por nós mesmos, como sinônimo de convivência com nossos cotidianos, é muito saudável se quisermos saber o que significa a paz deste Cristo, se quisermos viver a paz deste Cristo. Não um Cristo homem. Não um Cristo religião. Não um Cristo líder. Não um Cristo físico. Mas um Cristo como sinônimo de um repensar diante à vida. Se há a paz dele, por que criamos outra? Por que criamos a nossa? A dele não nos serve? Ou não nos cabe? Ou será que saiu da moda? Por que a dele existe antes e apesar da nossa? Isto não deveria ser o suficiente para repensarmos nossas posições e lugares?

Por que, na missa, dizemos “a paz de Cristo”, mas depois seguimos a cartilha da nossa paz?

Por que desejamos paz de Cristo aos homens e à Terra, na virada do ano, e logo na madrugada, literalmente do dia primeiro do primeiro mês, voltamos aos velhos e bons hábitos? Por que os dedos nunca apontam para nós?

Abraçamos o nosso irmão e o cumprimentamos porque o relógio disse que o novo ano chegou ou por que, de verdade, é o desejo que vai em nosso coração? Talvez seja uma mistura dos dois, mas, infelizmente, a primeira razão ainda ocupa mais espaços em nossas vidas. Se assim não fosse, por que, então, o nosso abraço não se sustenta durante o ano? Encurtamos nossos abraços e mãos na mesma medida que aumentamos a nossa audácia de acharmos que podemos seguir, assim, impunemente, passando pela vida ainda como simples convidados. Mas não somos mais. E há tempos. Por que existem duas pazes? Por que aceitamos viver de forma menor a que poderíamos?

A paz dos homens é condicionante. O se faz a diferença aqui. A paz do Cristo é atemporal e transcendental. E são estas as paradas obrigatórias que a maturidade nos traz e nos convida a fazer. Um caminhar sem voltas, mas que valerá a pena se tivermos a disposição e a lucidez de assumirmos que não sabemos fazer, mas que temos o principal: acesso ao livro de receitas e às ferramentas para realizarmos este jantar, porque já é tempo. Um jantar cujo convite se deu quando chegamos à maturidade ou até mesmo antes, quando saímos da infância. Não importa se estamos atrasados. O que importa é podermos fazer uso da flexibilidade que a vida nos oferece para que possamos iniciar o preparo do jantar.

Crescer é isso: ouvir a vida. Reparar no que ela tem a nos dizer. É incomodar-se em dizer “a paz do Cristo” se não é o que vai em nosso coração. Seguir e viver a paz do Cristo é fazer algo muito além do que apenas desistir. Não podemos desistir. A caminhada até aqui foi extremamente importante para não seguirmos.

É preciso continuar. Não há como continuar sem parar. Não há como ir além sem observar entraves e cercas. Não há como seguir a paz do Cristo sem a construção, real, do conceito unidade.

Sermos agentes requer força e coragem. Um além que somente atingiremos se nos levantarmos, assumirmos a nossa posição de pequenos maduros. Sairmos das margens nas quais nos colocamos, muitas vezes, dependerá da postura de aceitarmos, por exemplo, que o conceito “paz dos homens” não faz o mínimo sentido, uma vez que temos um conceito completo, único e universal vigente, mas que, por arrogância, o relegamos ao segundo plano porque entendemos que nós somos quem, verdadeiramente, sabemos sobre a Paz.

Quando este baixar de olhos para as nossas insignificâncias e pequenezas se fizer presente em nossas vidas, a maturidade e o crescimento terão batido na nossa porta. A maturidade independe da questão cronológica, e sim, da postura diante à vida. Quanto mais rápido entendermos isto, melhor será a nossa vida. Uma vida de paz, mas a do Cristo. Desvendar estes nossos trilhos tortuosos, arrogantes, soberbos e egoístas trará visibilidade para buscarmos caminhos mais limpos e livres. Caminhos verdadeiramente felizes e de paz. A do Cristo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Liev Tolstói, escritor russo do século XIX, que diz:

“se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

Que a gente não desista da nossa aldeia, no caso, da gente mesmo. Mesmo que tenhamos de fazer concessões, acordos, negociações com a vida para que ela nos mostre o sentido da paz do Cristo, que nossas promessas sejam mantidas para que tenhamos uma vida, de verdade, autoral. Somente conseguiremos ser os autores da nossa história, se tivermos a vontade, sabedoria e disciplina de ouvirmos a vida. Isto nos fará universal. Quando isto acontecer, acredito, teremos atingido e compreendido, finalmente, o sentido de paz, a do Cristo, e não mais falaremos, na missa, ou em outro lugar, sobre qualquer outra paz que não seja a dele: a do Cristo.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A arte de dizer eu não sei

Existem saberes e saberes. Aquele que aproxima. O que afasta. Aquele que encanta. O que humilha. Aquele que serve ao mundo. O que somente serve a quem o tem. O descortinar para o conhecimento dá tom à vida, traz luz, faz desabrochar o que o livro fechado não revela. Portanto, o saber é imprescindível se quisermos avançar em direção ao crescimento. Ele nos convida a darmos as mãos à autonomia e à liberdade, duas chaves essenciais para a vida.

O problema todo se inicia quando queremos saber tudo e sempre. Uma realidade impossível e insustentável. Mas que achamos possível e saudável. Caso assim não fosse, por que a praticamos? Há sempre um desconforto de nossa parte quando não sabemos algo, quando não temos uma resposta para algo que nos é perguntado. De onde vem isto: da construção coletiva que fizemos, na condição de sociedade que somos, ou da doente crença de valorizarmos apenas aquele que sabe tudo? Dois caminhos bem possíveis...

O saber não apresenta limites. É ilimitado e não ocupa espaços. Pelo contrário, expande as nossas ocupações e nos traz terras, até então, inabitadas. Traz-nos espaços abstratos que nos revelam sede de construção. E ao compartilharmos este saber, mais espaços ganhamos porque o saber compartilhado é multiplicado.

Quanto mais buscamos conhecimento, mais ele se apresenta a nossa frente, e mais o desconhecemos. O saber e o conhecimento se assemelham ao grande mar: à medida que avançamos, ele avança também. E nunca conseguimos alcançá-lo completamente. Aprendemos algo hoje, descobrimos algo ontem, e amanhã surgirá algo de que não sabemos. Sem limites por parte do saber, mas uma limitação claramente demarcada em nós: não nos é possível sabermos e conhecermos tudo. Não nos é possível conhecermos e vivenciarmos tudo. Como seres incompletos que somos, o ato de não sabermos também nos constitui, e muito.

Sabemos que não sabemos tudo. Mas nos escondemos desta realidade. Somos vítimas e protagonistas de uma sociedade que constrói falsas imagens de que o certo é o saber tudo, é o de se ter respostas para todas as perguntas. Avançamos neste comportamento insustentável de exigirmos saberes de onde ainda não se pode oferecer, e assim, ajudamos a construir e a propagar neuroses e situações nocivas cujas consequências cairão sobre todos nós.

Saber nos permite avançar em direção a algo melhor. Ele limpa a nossa visão e passamos a enxergar coisas que estavam ali o tempo todo. Somos melhores a partir do momento que sabemos. Mas o não saber é uma forma de saber o que não sabemos. Parece óbvio, mas diz muito sobre quem somos, quem aparentamos e sobre quem queremos ser. Se o que sabemos mostra o que não sabemos, qual é a nossa realidade, afinal? Um exercício necessário.

Há um texto antigo, escrito por Antônio Ermírio de Moraes, sobre a arrogância de querer saber tudo. Diz o texto:

Você está olhando pela janela. Não há nada de especial no céu, somente algumas nuvens. Alguém te pergunta:

- Será que chove hoje?

* se você responder “com certeza”, sua área é a de Vendas. Esta área sempre tem certeza sobre tudo;

* se você responder “sei lá, estou pensando em outra coisa”, sua área é a de Marketing, que sempre está pensando no que os outros estão pensando;

* se você responder “sim, há uma boa probabilidade”, sua área é a da Engenharia, que sempre está disposta a transformar o universo em números;

* se você responder “depende”, sua área é a de Recursos Humanos, que sempre acredita que um fato estará na dependência de outros;

* se você responder “ah, a meteorologia diz que não”, sua área é a de Contabilidade, que sempre confia mais nos dados que nos próprios olhos; e

* se você responder “sei lá, mas, na dúvida, eu trouxe um guarda-chuvas”, então a sua área é a de Finanças, que sempre deve estar bem preparada para qualquer virada de tempo.

No entanto, se você responder simplesmente “não sei”, há grandes chances de você se tornar uma pessoa de sucesso.  De cada 100 pessoas, somente uma tem a coragem de dizer que não sabe. As outras 99 pessoas sempre acham que precisam ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação. 'Não sei' é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo mundo, e predispõe os envolvidos a conseguirem dados mais concretos antes de tomarem uma decisão. Parece simples, mas responder “não sei” é uma das coisas mais difíceis de se aprender na vida, independentemente da nossa posição.

Por quê? Eu sinceramente 'não sei'.

O saber é fundamental para a vida, mas com propósito, discernimento e foco. É uma poderosa ferramenta que alavanca o nosso desenvolvimento e o do outro. É uma ferramenta de elevação e não de corrupção. De humildade, porque aquele que sabe serve, e não de exibicionismo para mostrar que sabe. Este é um saber vazio, sem visões ao se dobrar a esquina. O saber verdadeiro implica no esquecimento de si em favor do outro. Saber muito aumenta a nossa responsabilidade. Significa, inclusive, ter disposição de pagar o preço pela nossa ascensão e saber.

É nosso dever buscar o conhecimento e o saber. Mas com discernimento e equilíbrio. Não seremos menores por não sabermos. Mas seremos grandes se assumirmos o nosso desconhecimento.

Não saber tudo nos dá a certeza de que somos e de que estamos em construção. E isto nos devolve um pouco da lucidez que perdemos no dia em que achamos que deveríamos saber e ter todas as respostas.

É preciso saber discernir o saber que devemos saber, nossa obrigação e dever (é esperado que saibamos), do saber para se manter a aparência, sem construção e sem obras. O primeiro é um saber que ampara; o segundo, um saber que não se abstém de quaisquer exibições de superioridade. O saber nos desloca e transforma a nossa visão de mundo. Mas o não saber, também, nos recoloca no lugar de aprendizes, que é o que somos.

Todo o equilíbrio nos faz grandes. Todo o excesso nos torna menores do que já somos. O saber na medida nos faz fortes. O saber em excesso não é saber, é falácia. É necessário e preciso deixar espaços para o não saber, para o desconhecido, para o inabitado.

Dizer “não sei” é libertador. Liberta-nos da condição que nunca teremos: a de detentores do saber incondicional, de todas as respostas. As pessoas que abrem espaço para o erro, para o não saber, aprendem, verdadeiramente. Elas não se importam e não se preocupam em ocuparem lugares que a sociedade intitulou de “os primeiros”. Quem é o primeiro? Quem é aquela pessoa de sucesso?

O primeiro é sempre o que não se importa de ficar por último, algumas vezes, na vida, porque sabe que o primeiro lugar é transitório e inconstante, assim como o último.

Colocarmo-nos numa posição de detentor do conhecimento e daquele que tudo sabe é abrirmos mão do longo prazo da vida. Não há como sabermos tudo. O saber é uma construção. Portanto, ele, em si, é uma obra inacabada, incompleta. Brigarmos contra isto nos torna inabilitados para os compromissos de longa duração, da vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Lya Luft, uma escritora que admite não saber muitas coisas, que diz:

“Não saber é o que torna nossa vida possível.”

Que saibamos buscar o saber necessário e verdadeiro, e não o saber que apenas ocupa espaço num palco aonde insistimos em estar. Que saibamos, sempre, diferenciar o saber que eleva daquele que torna as nossas convicções (o nosso saber imposto e autoritário) em nossas próprias armadilhas.

O saber é essencial à vida. Mas o não saber é o que mais abre espaços para uma vida plena. E somente por meio da lucidez e da humildade seremos capazes de descobrir isto. A vaidade de querermos saber tudo e de termos todas as respostas nos afastará, e muito, de novos saberes e de novos e verdadeiros conhecimentos.

domingo, 19 de novembro de 2017

Tempos de sempre

Vivemos tempos estranhos. Vivemos tempos felizes. Estranhos e felizes. Felizes e estranhos.

Consideramos o outro como estranho a nós. Não nos é pedido sermos amigos íntimos, mas por que a dor e a angústia dele não nos representam? Fazemos questão de considerar o outro como estranhos.

Um distanciamento provocado, assistido e, particularmente, calculado. Mantermos a distância das dores do outro nos faz criar ilusões sobre a vida, e nos faz colocar tintas sobre ela que jamais existiram na cartela. Tornar a angústia do outro parte do nosso problema, nos obriga a conhecer as nossas dores e as nossas angústias. Talvez seja este o problema.

Sempre quando estendemos a mão para o outro corremos o risco de sermos derrubados pela própria força que o outro fará quando se apoiar em nós para se levantar. E vice-versa. Mas queremos esconder. Ninguém precisa saber disto. Por isso, quanto menos contato tivermos com a dor do outro, mais camufladas estarão as nossas questões.

Acreditamos que viver como estranhos ajuda a evitar o nosso sofrimento. A frieza do estranhamento causa um distanciamento e assim, apostamos numa ilusão de proteção.

Afastar o estranhamento frente à dor do outro não nos fará tristes e sofredores. Sermos solidários, de verdade, à angústia do outro nos fará seres mais fortes e capazes de superarmos nossas próprias dores. Somos seres interdependentes. Mas insistimos na tese do individualismo. A crença na interdependência desperta a vontade de aliviar a dor do outro. Quando aliviamos a dor do outro uma dor em nós é amenizada também. A crença no individualismo desperta o nosso inchaço e nos faz crer no irreal.

Esse estranhamento a tudo o que achamos que não nos pertence. Essa alienação vivida e sentida porque estamos ocupados demais tentando disfarçar nossas miudezas. Não se trata de acreditarmos, falsamente, que temos a solução das coisas e sairmos buscando pessoas com problemas e angústias. Mas apenas legitimarmos a dor do outro. Só isso.

Fugimos da dor do outro e reforçamos a condição de estranhos porque a dor nos coloca de volta ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído: a da consciência de sermos apenas seres humanos, frágeis, falíveis e incompletos. A incompletude nos completa. O que há além dela, neste nosso estágio? A intensidade dela pode ser reduzida. Mas a linha que nos define é esta. A fragilidade nos caracteriza, nos identifica. Afinal, o que é mais humano que se sentir frágil e amedrontado? Vítor Hugo diz que todo mundo é parecido quando sente dor. Quando estamos com dor e vulneráveis, parece que a lucidez volta a ter voz em nós. Somos falíveis. Que belo golpe para o ego. Esta descoberta traz desconforto porque somos vaidosos. E quanto mais vaidosos somos, mais falimos. Que ironia.

Passos melhores e maiores. O sinal soou. A maioria ouviu. E por que não avançam? Talvez pela inércia, outro recurso imprescindível do qual todos nós somos feitos.

Somos estranhos a nós mesmos. Por isso não há como ouvirmos a dor do estranho que passa. A dor que cala porque a voz não cessa de falar o que não produz.

O silêncio que chega manso buscando um espaço no conturbado lago das ilusões.

Vivemos tempos felizes, também. E aquele que já entendeu isso, descobriu que felicidade não se define, se sente. Aquele que mente e diz que sabe o que é felicidade, não é feliz. É só um burocrata do conceito, do significado, um afoito de dicionários. Não há como ser feliz com conceitos concluídos e absolutos. É só um personagem passando pela vida.

Aquele que diz saber o que a vida nos oculta, por sabedoria, é um fazedor de vida, e não um realizador da vida. É um reivindicador e não um executor. É uma pessoa cansada e que cansa. É uma pessoa com a vista turva, mas que optou por não a aclarar.

A vida sempre nos dá as opções certas de recortes. Mas a tesoura está em nossas mãos.

Aquele que já entendeu e descobriu que também vivemos tempos felizes sabe que a serenidade e a paz no coração que a felicidade traz sinaliza, também, algo pontual e demarcado a nossa frente: a tempestade que não enxergamos, mas que sabemos que ela existe. Portanto, não a subestima.

Tempos complementares e interdependentes. O avesso de um mostra o lado do outro.

Os limites, os excessos e os avessos fazem parte destes tempos. Que são nossos, mas que já foram de outros. Tempos estranhos e tempos felizes são reflexos do que fazemos deles. Os tempos, em si, são sempre os mesmos. O que muda é a nossa relação com ele.

A vaidade que chega falando alto porque demos voz a ela. Ela sente-se à vontade porque somos a casa dela. A vaidade nos coloca na base da incompletude. Um lugar confortável porque aqui somos os melhores? E quem nos disse isso? Aqueles que querem a nossa queda, o nosso declínio, o nosso inchaço exatamente por não cabermos em nós. Somos estranhos.

Nossos contornos refazem nossas formas. Mas não as reconhecemos. Desfazemos as nossas recentes formas e desperdiçamos as falas trazidas pelos contornos. Caímos em ciladas autorais que buscam a perda de nós mesmos. Perdidos, como entender estas formas?

Valorizamos as ferramentas que destroem e que corrompem. Elas proporcionam construções imediatas e mais rápidas, encurtamento de caminhos obrigatórios, planejamento subestimado e etapas desconsideradas. De posse de nossas agendas cheias, estas ferramentas nos induzem ao cultivo do impossível, do descartável e do alienável. Nossa atenção está direcionada para o que não precisa e, portanto, não percebemos os sinais da construção destas grades que, livres, se perpetuam, se fortalecem e criam raízes.

O tempo não voa. Ele só passa mais rápido porque se chateia por não priorizarmos o que, de verdade, importa.

Tempo nosso. Tempo do outro. Nosso tempo. Nossos tempos. Antigamente é um tempo tão próximo. O futuro precisa dar as mãos para a antiguidade se quiser se reinventar. Os tempos que temos são de todos nós.

Aquele que vai à frente, investe tempo. O que ficou preso às lentes distorcidas, gasta tempo.

O tempo é lento e rápido. Depende do tom que quisermos dar a ele. Ajudar alguém a se reestruturar é um dos maiores investimentos de tempo. E não perceber a nossa necessidade de reajustes e ajustes é uma das maiores perdas de tempo.

Os tempos estranhos nos fazem estranhos em meio a conhecidos. Os felizes nos impulsionam para o despertar do compromisso.

Somos uma sociedade de apressados porque apressamos o tempo. E por vingança, ele nos apressa também. E assim chegamos mais rápido a lugares desconhecidos. Os tempos estranhos pertencem a todos nós: inconscientes, injustos e desatentos.

Nosso exacerbar dos excessos que finge não perceber o transbordamento. Afogamos os conhecimentos alheios porque o saber somente a nós pertence. Vivemos tempos estranhos.

Tempos estranhos. Tempos felizes. A batalha do encontro que, aos poucos, vai fazendo as pazes. Mas antes, será preciso fazer as pazes com a gente mesmo.

Em paz conosco, não teremos medo de nos apropriar da dor do próximo. Teremos entendido, finalmente, que nos apropriar da dor dele e ajudar a minimizá-la, não significa tomar a dor dele para nós, nem mesmo abrir mão da nossa felicidade.

Exacerbamos a nossa ideia de felicidade por isso ainda sentimos infelicidade. A nossa ilusão de felicidade absoluta é a grande causa da infelicidade e do insucesso. Quando aceitarmos quem somos e quando nos identificarmos como seres relativos e não absolutos, a nossa contribuição para o mundo será enorme.

Que a gente busque tempos felizes, e não a obrigação de ser feliz. Porque isto nos coloca num lugar apertado, na vida, com difícil acesso a outros patamares de evolução. Mas que os tempos estranhos sejam respeitados e ouvidos até para que os felizes façam sentido. E que espaços de conversa com nossos tempos estranhos sejam criados.

O individual e o coletivo são um. Que o amanhã chegue. Que o passado seja a nossa fonte para perguntas e, assim, nos envergonharmos da nossa arrogância. O passado é sempre sábio. E que o presente sirva para nos conscientizar sobre a ignorância de termos pressa. Assim, todas as nossas frestas estarão cobertas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, que diz:

“Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”

Os monstros do nosso tempo são velhos conhecidos: o esvaziamento das relações e, como consequência, nos tornamos seres estranhos uns aos outros, e a nossa busca doentia pela felicidade absoluta. Algo que, ironicamente, não existe.

O cuidado para que não nos tornemos um monstro por estarmos lutando contra os nossos monstros, é o que nos diferencia como seres inteligentes. E se para esta luta for preciso olharmos e contemplarmos os nossos abismos, que não tenhamos a ilusão de acharmos que não teremos sido vistos por ele. O melhor que fazemos é cumprimentarmos nossos abismos, dialogarmos com eles e compreendê-los. Subestimar que eles nos observam é reafirmar a nossa condição de estranhos. Quando tivermos a coragem de sairmos dos nossos estranhamentos, nossos abismos terão transformado nossos monstros em coautores da nossa nova história. Uma história de escrita feliz e sem estranhos por perto.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A pobreza mora logo aqui

Estava parada na calçada quando uma mulher, de mãos dadas com uma criança, disse:

- Anda logo, meu! Você não anda!

A criança, que não passava dos três anos de idade, apressou os pequenos passos e, entre tropeços e quedas, tentou caminhar. Tentativa frustrada. Como o ritmo da criança não era o que a mulher esperava, ela a colocou no colo e andou no passo que ela achou adequado.

Quando fazemos somente aquilo que achamos o certo, o mundo se perde e adoece.

Estamos acostumados a enxergar apenas o externo como representação de nossas verdades. E nos esquecemos que o interno, aquilo que vai em nós, também representa os nossos valores, nossas medidas, nossos contornos e entornos. E este texto falará sobre estes nossos internos.

O externo está visto, não há dúvidas. Sabemos reconhecer uma pessoa pobre, materialmente. Por mais que haja vontade de disfarçar, não é possível com o externo. Ele é visível e muito bem traduzido. Mesmo envergonhado, nosso externo está sempre à mostra.

Mas e o interno? Onde está a nossa pobreza interna? Quando ela se mostra? Sabemos estas respostas, mas as disfarçamos, novamente.

Marketing pessoal disfarçado de trabalho voluntário.

Supérfluos e excessos.

Não sentir a dor do outro, ter mórbido prazer porque o outro sofre.

Ter inveja das conquistas alheias e buscar diminui-las.

Não enxergar a necessidade do outro. Impedi-lo de avançar no seu desenvolvimento.

Apressar o passo do outro num ato de total desigualdade de condições.

A pobreza nos representa, portanto. E vai logo aqui, dentro de nós.

Parece-me que evidências não nos faltam. Talvez o que nos falte seja o diálogo com isto. A conversa franca. Somente quando enfrentamos os fantasmas, eles diminuem de tamanho. Eles têm o tamanho e a dimensão que damos a eles.

Sabemos identificar a pobreza física porque ela está escancarada a nossa frente. Quem apagou as luzes para que nós não víssemos as nossas pobrezas morais? A escuridão é conveniente.

Somos pobres por fora porque a pobreza fez morada em nós.

Somos ricos por fora porque a riqueza encontrou espaço em nosso íntimo. O bom também está presente. Mas precisaríamos dar mais espaço a ele. Ou não?

Somos hipócritas por fora porque a hipocrisia nos alimenta por dentro.

Somos insensíveis por fora porque a insensibilidade nos representa.

A tristeza do outro nos toca porque sabemos o que ela nos diz.

Portanto, se o externo existe é porque o interno foi o seu Mestre. E parece que aprendemos direitinho a lição.

Como não fomos ensinados a iluminar o que vai em nós para que pudéssemos saber quem, verdadeiramente, somos, camuflamos o interno e só queremos mostrar o externo, o melhor de nós, obviamente. Se tivéssemos olhado para dentro de nós desde o começo, talvez houvéssemos percebido a pobreza que mora logo aqui, dentro da gente, há tempos.

Pedir para alguém “andar logo”, naquele contexto e cenário, simboliza a pobreza que vai em nós. Por que demoramos a perceber que o outro não está pronto? Por que insistimos em exigir mais de que o outro pode oferecer, com as atuais condições? Por que levamos anos para conseguir fazer algo, mas do outro esperamos o imediato, no mínimo? Ao aprendermos, nos esquecemos da complexidade do caminho. A arrogância toma conta de nós e exigimos destreza do outro. Esquecemo-nos da complexidade que agora toma conta do caminho dele pelo qual passamos há tão pouco tempo.

A arrogância é um dos elementos que nos favorece à cegueira.

Não há como encontrarmos as respostas sem investigarmos o interno. Sem nos interessarmos por quem nós somos. As respostas nem sempre serão agradáveis, mas necessárias.

Quando exigimos mais do que o outro pode oferecer, estamos minando todas as possibilidades de desenvolvimento dele. Damos ao outro um rótulo que ele não merece: o de incompetente. No entanto, o incompetente é aquele que não vê o outro, que não respeita a condição dele de aprendiz. O alienado.

imagem tirada da internet

A pobreza revela quem somos. Revela a nossa condição de seres inacabados e incompletos.

Os passos mais lentos possuem perspectivas diferentes dos que possuem passos mais rápidos. E se uníssemos estas visões? Qual seria o fruto? Talvez um enxergar além.

Um passo mais lento hoje, um passo mais rápido amanhã. Um passo crescente hoje, para se chegar a uma construção amanhã.

Passos lentos, mas constantes. Isso importa.

Passos apressados, mas insustentáveis. Isto não importa.

Passos lentos porque talvez tenha iniciado agora na estrada. Ou está nela faz tempo.

Passos apressados porque talvez a noção do tempo tenha se perdido.

Passos lentos significam, muitas vezes, respeito ao ritmo que se tem. Passos rápidos não percebem, muitas vezes, os avisos do caminho.

Apressar o outro significa assumir a nossa pobreza interna. Demonstra, ao outro, que o ritmo e o tempo dele não importam para nós. Que a construção dele é irrelevante. Apressar significa interromper a criação da obra que, inacabada, perderá o sentido.

A lentidão faz parte da criação. Não a lentidão que deforma, ineficiente. Mas a que não pula etapas e que vê, no tempo, seu melhor aliado.

É preciso cuidar para não estarmos, apenas, na vida. Mas sim para vivermos a vida.

Quem está apenas na vida, corre e apressa o outro o tempo todo, sem trégua. Não vê a graça do cantar do pássaro que só aquele que reduz o passo conseguirá ver. Respeitar o tempo do outro é compreender o seu processo de construção da vida.

É preciso perceber isto. Nossa responsabilidade está além de fazer aquilo que está ao nosso alcance, mas também em perceber o que já nos é possível diagnosticar, aquilo que já temos condições de fazer, mas que ainda não estamos fazendo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Padre Lebret, religioso católico do século XIX, nascido na Bretanha, que diz:

“O maior mal do mundo não é a pobreza dos desafortunados, mas a inconsciência dos privilegiados.”

Assim como Padre Lebret que dedicou sua vida à construção de uma civilização mais solidária e humanitária, que possamos ser um local de reflexão para nós mesmos. Uma civilização mais solidária e humanitária apenas se dará no momento que os nossos passos rápidos fizerem eco e sentido para melhorar a vida do outro, e quando os passos mais lentos do outro nos fizerem resgatar a beleza de vivermos a vida e de não, apenas, estarmos nela.

domingo, 29 de outubro de 2017

Vítimas da abundância

Não se trata, exatamente, da pobreza, mas da desvalorização da fartura e da riqueza. Pobreza é a resposta. Fartura é a responsabilidade de fazer mais.

Não se trata da falta de tempo, mas das horas que sofrem a inércia das nossas faltas e das nossas ausências. O tempo sempre está lá. Mas não o enxergamos.

Não se trata da falta de educação, mas da nossa desfaçatez e do nosso descaso em deixarmos este assunto para depois. Um depois que esperamos sentados, acanhados, no final da fila.

Não se trata da depressão, mas da ausência do convívio conosco ao longo do tempo. Há tanto tempo não falamos conosco, que nos esquecemos do som da nossa voz.

Não se trata do conflito, mas da cegueira produzida por nós que nos favorece não enxergar o nosso próximo. Abrir mão de pequenas conquistas para que o longe e o maior sejam alcançados, definitivamente, não está em nossos planos.

Não se trata da infelicidade, mas da autossabotagem praticada por nós, ironicamente, nos nossos momentos felizes.

O sorriso frouxo e sem graça que damos porque estamos nos esquecendo da importância de um sorriso verdadeiro e sincero.  A ferrugem é o destino das ferramentas não usadas.

A abundância que há em nós, mas que há tempos necessita passar por uma ressignificação e ganhar outros sentidos. E assim ampliarmos nossos olhares e enxergarmos espaços não preenchidos que, se merecermos, poderemos ocupar. Mesmo sem percebermos, estamos nos tornando vítimas desta abundância. Quanto mais a temos, mais ela se distancia de nós. Quanto mais a buscamos, mais a desvalorizamos. Quanto mais sabemos da existência dela em nossas vidas, mais a desperdiçamos. Somos vítimas dela porque a criamos, a produzimos. Somos coparticipantes e coautores dela. Participamos e ajudamos a construir algo grandioso, porém não sabemos como usá-lo. Reféns de nós mesmos.

Acendemos as luzes, mas a sala está vazia. Nosso banco está repleto de atletas de potencial que não conseguem expressá-lo em campo. Nossa saúde está em perfeito estado, mas escolhemos a difamação ao exercício. Nossas tristezas sofrem por quererem transmitir os seus recados, mas que são sufocadas por pílulas que prometem fazer o que não podem.

Temos tanto, mas não sabemos o que fazer com tudo isto. Exatamente por termos tudo, sentimos falta de tantas coisas. O que nos falta está escondido em nossos excessos, que, obviamente, não pode ser visto.

Somos vítimas de nossas próprias luzes. Vítimas talvez por termos antecipado o acender das luzes sem um mínimo de preparo. E quando acendemos, não pudemos com tanta luminosidade. Não é porque são luzes que podem ser acesas em sua totalidade. É preciso dosar a intensidade da luz para que possamos enxergá-la e valorizá-la.

O desperdício é a abundância mal trabalhada e mal compreendida. Ele se dá em função dos excessos, do muito de tudo que temos e que, talvez por isto, não valorizamos. Os excessos dizem muito a nosso respeito. Eles denunciam nossas personalidades lotadas e pesadas. Eles clareiam aonde tentamos escurecer. Eles nos desmascaram e nos deixam desconcertados buscando desculpas vexatórias. Afinal, somos um dos países que mais desperdiça alimento no mundo, por exemplo (cerca de 40 mil toneladas por dia – fonte: site terra serviços – julho de 2016).

Porque temos, desperdiçamos. Porque temos, somos abundantes. Mas nem sempre sabemos valorizar esta abundância. Uma abundância que, não valorizada, nos torna vítimas de nós mesmos. Somos vítimas do nosso próprio sucesso que um dia tivemos.

A dificuldade de doarmos até dos nossos excessos é refletida no mundo em que vivemos. Aquele que nada tem poderia viver dos nossos excessos. Mas como esta relação simplesmente não se dá, ou se ocorre, é bem discreta, produzimos mais vítimas além de nós: o nosso próximo. Distribuir nossos excessos seria uma pequena forma de demonstrar que queremos avançar.

Quando o outro se beneficia dos nossos excessos e vice-versa, o mundo começa a acreditar na justiça, a violência dá mostras de um possível recuo e o bem avança timidamente.

No excesso, dizemos que somos melhores do que o outro. Tudo para mim e nada para você. Eu mereço. Você não. O excesso é a prova incontestável de que está faltando algo para alguém, exatamente porque alguém tem em excesso.

O que são os excessos? A abundância mal trabalhada. Simples assim.

Um abraço que não se dá é um excesso de mesquinharia e de avareza.

Comidas estocadas, não consumidas e, consequentemente, estragadas são excessos de egoísmo, porque certamente alguém tem fome, agora.

Palavras duras e ásperas são excessos de intolerância.

O abuso do forte sobre o fraco é o excesso da arrogância e da covardia.

O falso Líder que usa seus liderados para servi-lo é o excesso do egoísmo.

Os excessos mostram a doença.

O culto à felicidade é um excesso que escancara a tristeza escondida, mas que nos envergonhamos de mostrar. O esconder da tristeza é um excesso de fingimento. Por que a tristeza está tão difamada nestes novos tempos? O que há de errado com ela? Por tentarmos escondê-la, ela surge com força nos excessos nossos de cada dia.

É por termos tamanha liberdade, que não conseguimos mantê-la.

Precisamos fazer reflexões para que elas provoquem, em nós, deslocamentos entre as nossas respostas fáceis e aquilo que queremos construir. E isto começa por questionar nossos excessos, nossas abundâncias não valorizadas.

É preciso buscar caminhos com menos senãos e desenvolvermos a nossa capacidade de reflexão e de percepção. Somente assim, acredito, desconstruiremos colocações sem reflexões e que favorecem a alienação. Numa época em que temos menos tolerância, menos paciência e mais urgência, se não refletirmos, provocarmos e pensarmos, nos condenaremos a sermos pouco, a sermos menos, a estarmos aquém. Sem pensamento crítico, nos condenamos ao servir sem propósito.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de José Ortega y Gasset, filósofo do século XIX, que diz:

“Não é a fome, mas, pelo contrário, a abundância, o excesso de energia, que provocam a guerra.”

Precisamos decidir acreditar que somos capazes. Tratar-nos como seres com história, e não como objetos disponíveis e manipuláveis.

Que saibamos enxergar a beleza da abundância em nossas vidas antes de elas se tornarem excessos perniciosos para nós e para o outro. Que saibamos escolher o melhor lado da história, enquanto, ainda, temos tempo e chance para isto.

domingo, 22 de outubro de 2017

A nossa disponibilidade disfarçada

Uma vez presenciei um diálogo que dizia assim:

- “Você viu a lua, ontem? Nossa, estava linda! ”

- “Ando tão ocupado, está tudo tão corrido, que ando de cabeça baixa e nem me lembro de olhar para cima e de ver a lua. ”

Apesar dos exageros que sempre fazem parte dos nossos diálogos (e com este não seria diferente), um fundo de verdade sempre tem naquilo que dizemos e expressamos. Nossas falas, mesmo supervalorizadas, exprimem o que vai em nós, revelam as nossas ausências, crenças, abismos, valores e bastidores. Mesmo que sejam inconscientes.

A tecnologia avança, realiza múltiplas tarefas que até pouco tempo eram realizadas por nós, porém estamos cada vez mais sem tempo. Onde foi parar o tempo que nos sobrou a partir do momento que a tecnologia nos foi apresentada?

O acesso às informações se democratizou. Hoje a informação é de todos, pelo menos de quase todos. Mas por que não avançamos, então, em conhecimento e em discernimento? O que estamos fazendo com tantas informações?

A liberdade que temos para dizer o que pensamos, para construir o que acreditamos, para ser o que queremos. Mas por que, então, estamos cada vez mais sozinhos? Por que somos campeões no consumo de antidepressivos?

Avançamos na longevidade, mas o que estamos fazendo com este tempo a mais?

Orgulhamo-nos de tantos amigos virtuais. Mas onde foram parar os reais? Por que nos custa entender que a quantidade, neste caso, é improdutiva e irreal?

A medicina avançou, mas nunca fomos tão rapidamente diagnosticados por doenças, distúrbios, transtornos, síndromes de todas as ordens. Realmente estamos descobrindo isto tudo porque, de fato, existem, ou estamos transformando a dor em algo proibido de se sentir? E, aí, portanto, a medicalização da dor se torna uma saída estratégica? Atingimos o ápice da arrogância e da prepotência quando dizemos sem tempo para sentirmos dor ou que não queremos sentir dor. Ela é um poderoso instrumento de transformação. Se não queremos senti-la, por que a buscamos? Por que a provocamos?

Encontrar uma causa exterior para o nosso problema pode, num determinado ponto, ser reconfortante. Seria um caminho mais curto optar pelo diagnóstico sem mesmo antes tentarmos buscar, internamente, o significado de tudo aquilo?

Não condeno, absolutamente, o remediar, o diagnosticar, e nem digo que isto está errado. Mas a pergunta que fica é: para quê? Por que isto está acontecendo desta forma? Isto não explicaria nossa falta de disponibilidade para a vida? Na vida? Com a vida?

Refletindo sobre isto, uma palavra chega em minha mente: disponibilidade. Estar disponível. Aquela pessoa não viu a lua simplesmente porque ela não estava disponível para. Simples assim. A lua sempre esteve e sempre estará lá. E, de verdade, para ela será indiferente se a percebermos ou não. No entanto, para nós, a percepção e a contemplação da lua farão enorme e brutal diferença.

Estar disponível é participar da vida, mesmo que estejamos com muitos compromissos. Quais têm sido, portanto, os nossos compromissos?

A sensação que tenho é que, mesmo com tantas facilidades, de todas as ordens, que temos hoje, sempre vamos encontrar uma maneira de preencher os vazios que ficarem. Vazios que deveriam ser respeitados e mantidos. Mas que insistimos em preenchê-los, muitas vezes, com superficialidades e amenidades que nos fazem ter a alienação como uma de nossas irmãs.

Mesmos ocupados, podemos estar disponíveis. Disponíveis para a vida, para nós e para o nosso próximo. Não é possível que não tenhamos tempo para isto. Mas insistimos em acreditar que estar ocupado o tempo inteiro é sinônimo de importância, nos dá uma posição frágil de acreditarmos que somos alguém. Quando dizemos que não temos tempo para olharmos a lua, quem perde com isto? Nós, certamente. E a vida sabe nos cobrar contas bem caras por nossa desfaçatez e descaramento.

Não temos tempo de olharmos a lua, mas gastamos horas verificando quantos viram nossa última postagem. Não temos tempo de ligarmos para um amigo de verdade, mas aceitamos convites virtuais de ilustres desconhecidos que nem sabem quem somos. Não temos tempo para lermos um livro, mas navegamos horas preciosas em postagens sem sentido. Uma constatação nossa de cada dia. Uma realidade construída por nós.

A disponibilidade passa pelas escolhas que fazemos. Temos mais facilidades, mas encurtamos a nossa ideia de felicidade, de normalidade, de individualidade, de amizade. Buscamos o intangível, o inacessível, a completude e a felicidade plena. Não há esta completude. Simplesmente ela não existe. Então por que a buscamos? Sentimos vergonha por não atingirmos esta completude. Deprimimos. Ficamos com a sensação e com a percepção de insuficiência. E aí enchemos, novamente, nossas agendas e nos orgulhamos de estarmos o tempo todo ocupados, muitas vezes, do nada, do vazio e do improducente.

Esta busca incessante nos torna inacessíveis e indisponíveis. Dedicamos tempo, muitas vezes, à realização do incoerente em detrimento do que é possível fazer.

Os virtuais nos leem, mas muitas vezes alguns curtem em segundos um texto que levaria minutos para ser lido. Ou seja, não leram. A questão não é o virtual, a tecnologia, o externo. Mas sim a falta de equilíbrio e o tamanho das necessidades que depositamos nisto tudo. Necessidade de nos esconder, de sermos agressivos, de não nos colocar, de não interagirmos. E isto tudo é reflexo da falta de disponibilidade para e com a vida.

É preciso nos ocuparmos do que produz, do que impulsiona, do que constrói. Ou seja, estarmos disponíveis e enxergarmos o que precisa. Renunciar a desejos inatingíveis e ter a maturidade de assumir isto e as consequências de nossas renúncias. Abrir mão de privilégios que pouco ou nada fizemos para merecê-los. Comungar com a dor e com a alegria. Não podemos ter a ilusão de que somente alegrias teremos. As dores são necessárias para que as alegrias sejam vistas e reconhecidas. Isto não significa ir ao encontro das dores, mas sim não medicalizá-las e camuflá-las. Isto seria como negar uma parte de nós. Somos seres comuns cuja dor, assim como a alegria, constituem a nossa existência.

A dor e a alegria trazem contornos, unidades para a construção da nossa imagem. Dá-nos a sensação e a percepção de, finalmente, existirmos. Isto é estar disponível para a vida.

O sociólogo Alain Ehrenberg diz que “esta sociedade (a nossa) que valoriza o ato e o individualismo produz todas as patologias que temos. ” E a falta de disponibilidade é uma de nossas patologias.

Deixamos de enxergar o outro porque não nos enxergarmos mais em nossos próprios espelhos ou se nos enxergamos, difícil está nos reconhecermos.

Estar disponível é olhar o próximo e dar a ele um suporte. Ser testemunha de que ele existe. Devolver a ele a oportunidade de buscar a essência perdida. Silenciar ao lado de quem precisa. Entender a dor do outro sem precisar que ele diga. Dedicar-se. Ler as necessidades dele antes que ele diga. Apoiá-lo por meio do olhar e tornar-se presente na vida dele. Devolver-nos para o outro em forma de uma escuta ativa, atuante e que não finge que ouve enquanto digita um texto num e-mail cujo assunto é sem importância.

Não estamos interessados no problema do outro. Mas disfarçamos. Nem na felicidade do outro. Mas disfarçamos. E vice-versa. Por isto estamos tão sós e ao mesmo tempo tão cheios de nós mesmos. A construção é coletiva. Mas insistimos no individualismo. E depois, quando a conta chega (já chegou), fingimos que o porteiro não a colocou sobre o capacho.

Para isso, é preciso ampliar a nossa linguagem de afeto para o próximo. Educar as nossas reações, os nossos olhares, as nossas palavras e assim, melhorarmos as nossas respostas ao outro. A verdadeira disponibilidade passa por estes três componentes essenciais à vida. E assim, criamos outras narrativas para as nossas vidas e para a vida do outro, que, até então, estavam desconexas. E isto começa dentro de nós.

Admitir a nossa falta de disponibilidade é humilhante. Faz-nos relembrar a nossa pequenez e o nosso tamanho, que, desconfio, esquecemos por conveniências. Ao mesmo tempo, explicitarmos isto, nos recoloca na condição de humanos, portanto, imperfeitos. Assumirmos nossa condição de amadores e de eterno aprendiz, como diz a música, revela que uma mudança é sempre bem-vinda, que queremos mais. Esta inquietação é fruto de um modelo que não queremos mais. E isto é positivo.

A nossa falta de disponibilidade para a vida está nos fazendo perder de vista os caminhos que já tínhamos trilhado. Precisamos prestar atenção às conquistas que estão sendo deixadas pelo caminho. Darmos atenção a nossa individualidade e enxergar o próximo como um igual. Caso contrário, seguiremos na construção de nossas violências não percebidas, porém sentidas. Em nossas disponibilidades disfarçadas.

Desconfio que ser feliz é algo bem mais simples do que imaginamos. Mas como complicamos, nunca conseguimos enxergar a simplicidade deste caminho. A felicidade está a nossa espera. Mas para ser encontrada, o único caminho é a simplicidade.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Paulo Freire, um Educador revolucionário, que diz:

“É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática. ”

Alimentamos uma fala bonita, disponível, mas não praticada. A nossa disponibilidade, que está disfarçada de educação, muitas vezes é somente conveniência e não convicção. Quando estivermos disponíveis para o outro e quando o outro estiver disponível para nós, as falas não serão mais necessárias porque nossas atitudes e as do outro ocuparão todos os espaços.