terça-feira, 10 de novembro de 2015

Obrigada, amigo!

A semana que passou foi muito triste para mim. Particularmente muito triste. Perdi um amigo.

Um amigo todo branquinho, peludo, da raça poodle, que não pesava mais que três quilos e meio. Chamava-se Barthy. Ou melhor, chama-se Barthy. Aprendi que utilizar o tempo verbal no presente eterniza sobre o que se fala e/ou sobre quem se fala. E o Barthy estará sempre nas nossas memórias, sempre presente em nossas vidas.

Um amigo cão.

Barthy foi um cão feliz. Literalmente posso dizer que ele teve uma vida de cachorro. No melhor sentido que esta construção possa ter. Sempre teve amor da família, atenção, alimentação, caminha confortável e, principalmente, respeito. Ele nos amava e nós o amávamos. Sei disto.

Ele se foi de velhice. Viveu quase 16 anos. Faria aniversário em 14 de dezembro. Nunca teve problemas de saúde, nunca precisou tomar remédios na vida. Um cachorro saudável que viveu a totalidade de tempo que sua raça e espécie permitiram. E sem dores e sem sofrimentos. Apenas nestes últimos quinze dias ele começou a apresentar problemas na lombar, sua circulação foi dando sinais de cansaço, e ele se foi da forma mais linda que pode haver: nos braços de quem o amava muito, também: minha irmã, a mãe dele.

Até nesse momento triste de despedida, ele não deu trabalho. Foi embora de forma rápida e indolor. Mas sei e acredito que a despedida foi temporária: Barthy vive. Não aqui, mais. Mas num outro lugar, num outro plano aonde ele possa descansar e continuar brincando. Acredito nisto. E que bom que acredito nisto. As nossas crenças nos determinam.

Fica a saudade. E quanta saudade! Cheguei a ouvir o latido dele durante a semana, acho que de tanta saudade que sinto. A última vez que nos vimos, há poucas semanas, fiquei um tempão com ele no colo. Como era o costume! Ele adorava um colo. Num momento, ele apoiou sua cabeça no meu pescoço e pude sentir o seu focinho, sua respiração. Só para quem ama animais pode imaginar o sabor delicioso desta sensação. E depois, o levei para tomar água e comer um pedacinho de tomate, que ele fez com gosto. E ainda lambeu meus dedos e minhas mãos.

Que gostosa esta convivência! Obrigada, amigo. E que conforto que dá saber que você foi um cão feliz! E que viveu a plenitude da sua vida. Obrigada, amigo! Obrigada por ter trazido somente alegrias para as nossas vidas.

Como um bom sagitariano, uma de suas principais características era a sinceridade. Quando ele não gostava de alguma coisa ou de alguém, era visível. Latia, rosnava, resmungava. Ficava bastante inquieto quando algo o incomodava. E quer saber? Na maior parte das vezes ele estava certo: ele sempre latia para pessoas esquisitas, que não gostavam de animais e que tinham uma energia pesada.

Respeito quem não gosta de animais. Cada um com suas escolhas. Mas não sei se são pessoas boas e confiáveis. Desculpe se ofendo alguém. Mas somos livres para expressarmos as nossas opiniões. Penso que quem não gosta de animais é só porque ainda não teve a oportunidade de conviver com eles. Depois da convivência, duvido resistir a um chamado deles.

Como diz a música “Samba da minha Terra”, de Dorival Caymmi: “Quem não gosta do samba bom sujeito não é...ou é ruim da cabeça ou doente do pé...”, parafraseando esta bela música...”...quem não gosta de animais bom sujeito não é...ou é ruim da cabeça ou doente do pé...”. Além disto, a convivência com animais nos faz pessoas melhores. Acredito nisto também.

Quando minha irmã viajava, o deixava conosco, em casa. Minha mãe cuidava dele. E que delícia era chegar à noite, em casa, e saber que ele estava lá. Quando eu saía do elevador e tocava a campainha, lá vinha ele com o seu focinho redondinho embaixo da porta, cheirando, só esperando que eu entrasse. E quando isto acontecia, ele ficava pulando em mim pedindo para pegá-lo no colo. E que dificuldade era pegá-lo no colo! Era o que mais eu adorava fazer: ficar com ele no colo.

Numa das vezes em que ele estava conosco, cheguei do trabalho muito triste. Tinha tido um dia muito difícil. Cheguei muito cansada, brinquei pouco com ele e fui tomar um banho. Depois jantei e me sentei no sofá para tentar descansar um pouco. Realmente naquele dia eu não conseguia me doar mais, estava muito cansada. Liguei a televisão, me sentei no sofá e só senti um focinho molhado encostando na minha mão. Era o Barthy. Olhei para ele. Ele levantou a cabeça e olhou para mim, também. Como que entendendo o que acontecia, e sem nada me cobrar, abaixou a cabeça dele e só ficou ali ao meu lado, sem me pedir e sem me cobrar absolutamente nada. Nunca vou me esquecer desta demonstração de carinho, de amor e de solidariedade, algo raro em nós, humanos. São poucos os que fazem, de verdade, isto. Nada me pediu em troca. Muito pelo contrário: foi ele quem me fortaleceu. E ficamos os dois ali, assistindo televisão, quietos, juntos. Não era necessário dizer algo. O silêncio, muitas vezes, fala por si. Mas é preciso saber ouvi-lo.

Aprendemos muito com eles, não só com os cães, mas com todos os animais. São sábios, simples e sabem olhar para a vida além do que ela mostra. Sabem olhá-la com os olhos do coração e para o que realmente importa. Respeitam a vida e só atacam a nós quando nós o atacamos em primeiro lugar. Só que é preciso lembrar que se eles nos atacam será por pura defesa e instinto. Não são vaidosos, não querem o poder, não puxam o tapete de ninguém. São amigos sinceros e solidários. Respeitam a natureza. Respeitam a si.

Quanto podemos aprender com eles, animais!

Nestes últimos dias em que o Barthy esteve debilitado, minha irmã precisou se ausentar do trabalho. Não havia como deixá-lo sozinho. Ela é Professora. Conversando com a Coordenadora de Ensino sobre a situação e pedindo um pouco de compreensão, recebeu a seguinte resposta:

“Você vai precisar escolher. Ou você fica com o seu cão ou você escolhe o seu profissionalismo. Deixar de trabalhar por causa de um cachorro? ”

Pessoas infelizes não são dignas de críticas, mas sim de piedade. Acho que este raciocínio se encaixa bem a esta pessoa. Há pessoas no mundo que congelam em função da frieza delas. Mas não percebem em função de suas duras cascas. Só mesmo os tropeços da vida serão capazes de mudar a rota destas pessoas.

É inquestionável a necessidade do trabalho. Mas aqui se fala de algo além, extremamente superior, e sem comparação: solidariedade, compreensão, estender as mãos, caridade. Mas como pedir isto a este tipo de pessoa?

Nem preciso dizer a escolha de minha irmã: o Barthy. E ela arcou com todas as consequências de sua escolha, de sua feliz e acertada escolha. Num mundo em que se abandonam pessoas, como reparar em quem tem este tipo de atitude perante a um cachorro, a um animal? Tento encontrar outra palavra, mas acho que piedade é a que melhor se encaixa, mesmo. São pessoas dignas de piedade. E, independentemente, de nossas crenças religiosas e se é que temos alguma, achar que não há reação para as nossas ações, é pura ilusão. É viver no mundo encantado. Tudo o que fazemos e tudo o que não fazemos sofrerá reações, efeitos. Seja para o bem ou para o mal. Portanto, é preciso que saibamos que todos nós prestaremos contas de todas as portas que fechamos às pessoas que nela bateram. E o inverso também é verdadeiro: que não serão em vão as portas que abrimos a quem tocou a nossa campainha. Isto é um fato, independentemente de quem acreditar ou não. Quem não acreditar nisto, só estará exercitando o seu poder de alienação, coisa muito comum e nossa parceira diária.

As nossas escolhas são as direcionadoras de nossas vidas. É preciso saber escolher. Escolhas bem-feitas, vida feliz; escolhas malfeitas, vida infeliz. Quem é feliz, olhe para as suas escolhas: você encontrará uma resposta do motivo de sua felicidade. Quem é infeliz, olhe para as suas escolhas: você encontrará uma resposta do motivo de sua infelicidade. Isto é a nossa vida. Somos estas duas coisas. Mas nem todos dedicam tempo para acertarem as rotas. E quando se derem conta, será preciso refazer o caminho. E refazer o caminho não me parece uma coisa agradável. Cada um de nós deve ter uma história para contar sobre isto.

Enfim, quero encerrar este texto que escrevi para homenagear o meu amigo Barthy com um “Muito Obrigado, amigo! ”, e também deixar duas reflexões para todos nós:

“A grandeza de uma nação pode ser medida pela maneira como seus animais são tratados. ” - Mahatma Gandhi

“Compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem. ” - Arthur Schopenhauer

O que falar sobre Gandhi? A obra dele fala por si. Mas há uma coisa que não posso deixar de falar: que Gandhi lutou pela transformação do mundo, para que fosse um lugar melhor de ser vivido. Ele foi o maior defensor do princípio da não agressão e da não violência. Só isto ele buscou.

E sobre Arthur Schopenhauer, o que dizer? Também a obra dele fala por si. Como um dos grandes Filósofos da História, tinha como uma de suas metas de vida, o Amor.

Acho que vou apresentar Gandhi e Schopenhauer àquela pessoa que se diz Coordenadora de Ensino. E que tristeza uma pessoa com estes pensamentos atuar na área da Educação. Em qualquer área isto seria crítico. Mas na área da Educação, é preciso concordar que é, no mínimo, irônico.

Mas é preciso descongelar a alma e o coração para entender as palavras de Gandhi e de Schopenhauer.

O convite para este descongelar nos chega diariamente. Mas às vezes, muitos de nós estamos ocupados com coisas desnecessárias para ouvirmos a este chamado. E acho que este é o caso daquela pessoa. Mas a vida ensina. À maneira dela, mas ela ensina. Lembrando que a vida não costuma ser muito gentil em seus ensinamentos para quem escolhe caminhos tortos. Mas isto é assunto para outro texto!

Mais uma vez: Obrigada, amigo!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O que aprendi com a vida

Que mais aprendo do que ensino.

Que nem sempre minha voz é ouvida. Mas isto não quer dizer que devo ficar calada.

Que por mais que eu me esforce, nem sempre o meu esforço é recompensado.

Que por mais que eu mereça, nem sempre a vida é justa, no meu ponto de vista.

Que eu devo mais ouvir do que falar.

Que ceder o meu lugar é mais que uma boa ação: é minha obrigação.

Que ficar falando sobre mim é ineficiente. Minhas atitudes devem dizer quem sou. Não será necessário falar sobre, a menos que me perguntem.

Que aquele que nada faz por merecer, ganha um grande prêmio. E que, mesmo contrariada, é de bom tom apertar a mão desta pessoa e parabenizá-la.

Que colocar os meus defeitos embaixo do tapete aumenta o tamanho deles.

Que deixar minha obra no mundo não significa que vão reconhecê-la.

Que eu recebo muitas coisas da vida, muitas vezes sem muito esforço aparente. Simplesmente recebo porque mereço. Em algum momento construí este caminho. Simples assim. Aprendi que é preciso aceitar os presentes da vida e me sentir merecedora deles. Se me forem dados, foi porque os mereci.

Que a tristeza faz parte da vida. Eu querendo ou não. Se eu a aceitar e procurar compreender porque ela me visitou, certamente ela irá embora mais cedo.

Que embora o tempo esteja chuvoso, o sol está presente. Apenas não está aparente. Mas ele está lá. Basta procurá-lo.

A vida me ensinou o perigo da subjetividade. E por causa dela, presenciei, presencio e presenciarei muitas injustiças.

A vida me ensinou a dura arte de aprender a lidar com os falsos, com os políticos, com os hipócritas. E o pior: a necessidade de sorrir para eles quando eu quero desmascará-los. A vida os utiliza para me ensinar a dura arte de perseverar: a de não desistir de acreditar no que é certo e, principalmente, no poder de transformação das pessoas.

A vida me ensinou que conviver com hipócritas não me faz um deles. Ensinou-me a ter firmeza no meu querer e saber quais caminhos eu não trilharei na vida.

A vida me ensinou a gratidão pelas pessoas idôneas e honestas com as quais também convivi. E o quão difícil e prazeroso é me manter neste caminho.

Aprendi que a vida não facilita o meu caminhar, a menos que eu permita que ela me ajude.

A vida me ensinou que nem sempre ela me dá aquilo que eu quero, mas sim o que eu preciso. E como é duro este aprendizado. Mas de verdade? Se eu facilitar o caminho, ela também facilitará para mim.

Aprendi que não adianta medir forças com quem é mais forte do que eu.

A vida me ensinou a observar a água: ao encontrar uma pedra pela frente, simplesmente ela contorna a pedra. Ela sabe que o seu objetivo é o rio, o mar. E aquela pedra? Nada além de alguém tentando desviá-la do caminho. Mas a água, sabiamente, não permite.

Aprendi com a vida que querer sempre ter razão é arrogante e improdutivo. Não sairei do lugar com este proceder. Além do mais, a minha vaidade fica muito evidente e isto é vergonhoso.

A vida me ensinou a não ir contra a natureza. É inútil. Mas é preciso saber isto e aprender a conviver com o que eu não gosto.

Aprendi com a vida que não adianta ficar brava com Deus (já fiquei algumas vezes). Ele sempre sabe o que faz. O problema é que ele só avisa depois. Bem depois. É preciso esperar e confiar.

Aprendi com a vida que os elogios sinceros são poucos. Mas mais que suficientes para o fortalecimento da minha vida e para o meu fortalecimento. Ela me ensinou que muitos elogios atiçam a minha vaidade e me fazem acreditar sem questionar. Poucos elogios me colocam numa posição de humildade, de gratidão e de reconhecimento de minhas raízes, de eterna busca. Muitos elogios me levam para caminhos sem volta. E quando me der conta, estarei perdida.

Ela me ensinou que o dinheiro é um meio, uma consequência, e não o fim em si. O dinheiro não encerra, promove. Não conclui, possibilita.

A vida me ensinou a pensar duas vezes antes de criticar a corrupção dos governantes, a menos quando eu esteja pronta para abrir mão de minhas pequenas corrupções.

A vida me ensinou que aprender não é sinônimo de apreender. São coisas muito diferentes. O difícil é colocar isto em prática.

A vida me ensinou que o óbvio para mim é absurdo para o outro. E vice-versa.

Ela me ensinou a não esconder os meus medos. Quanto mais os escondo, mais eles aparecem e evidenciam o meu rosto.

A vida me ensinou que os tropeços da minha vida são convites para eu continuar no caminho.

Aprendi com a vida que as minhas frustrações são testes para a minha vontade.

A vida me ensinou que as contrariedades são oportunidades de colocar minhas forças em prática e em serviço.

Ela me ensinou que problemas e dificuldades são formas encontradas por ela de me fazer redescobrir o meu sonhar.

A vida me ensinou a pedir licença para entrar, mas nunca deixar de entrar.

Ela me ensinou que falta de educação é muito triste. Mas que educação em excesso atrapalha.

A vida me ensinou que a grosseria de alguém comigo nem sempre é pessoal. Que na maioria das vezes, reflete, apenas, o que aquela pessoa traz por dentro.

Ela me ensinou que quando eu aponto o meu dedo para o outro, na verdade o defeito é meu, a limitação é minha de, no mínimo, não exercitar a minha compreensão.

A vida me ensinou que sempre posso dar o primeiro passo. E que posso transformar o caminho de muitas pessoas por meio do meu primeiro passo.

A vida me ensinou que ser corajosa custa caro. Mas que ser covarde custa mais ainda.

A vida me ensinou que me posicionar significa, muitas vezes, ficar sozinha no caminho.

A vida me ensinou que ser ética e ter bom senso são obrigações minhas e não méritos de minha personalidade.

A vida me ensinou que, quase sempre, aquele que tem o poder está errado. E aquele que dá o poder ao outro e estimula o servir por meio do poder, está sempre certo.

A vida me ensinou que amigos, de verdade, são poucos. E que quem disser que tem muitos amigos, na verdade não tem nenhum.

A vida me ensinou que ser honesta nem sempre é valorizado.

A vida me ensinou que o conhecimento é um valor inestimável para aqueles que, verdadeiramente, sabem o seu valor.

A vida me ensinou quem nem sempre aquilo que eu acho importante e justo tem voz.

Aprendizados: fáceis, difíceis, necessários, atemporais. Se soubermos lidar com tudo isto, só sairemos melhores desta experiência. Disto não podemos duvidar.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de uma pessoa pouco conhecida, e de uma sabedoria incalculável, que diz:

“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”. Charles Chaplin

Se persistirmos no medo de vivermos as nossas vidas, os ensinamentos ficarão a nossa espera, à espera de quem dê ouvidos a eles.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A cegueira moral

A situação se dá em Praga, a capital da República Tcheca, início do século XX, numa exposição de pintores. Um jovem poeta tcheco chamado Gustav Janouch comentou com Franz Kafka:

-  Picasso distorce, deliberadamente, as formas. Criticou o rapaz.

Em resposta a ele, Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX, respondeu:

- Picasso, o grande pintor espanhol, apenas registrava “as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”.

Se eu fosse aquele jovem rapaz tcheco, Gustav Janouch, abriria um buraco ali mesmo e me enterrava. Perdeu uma excelente oportunidade de se calar. Mas ganhou uma excelente oportunidade de aprender. Mesmo que às duras penas.


imagem tirada da internet

Nem sempre, na vida, o aprendizado vem pelo amor. Que saibamos reconhecer isto.

Observando este diálogo entre eles, atual e atemporal, fiquei pensando na nossa verdadeira cegueira: aquela que obscurece o nosso olhar frente às verdades da vida, frente ao que verdadeiramente importa. Não falo da cegueira física, esta que, infelizmente, acomete algumas pessoas. Falo da cegueira moral que nos impede de sermos pessoas melhores, mais éticas e justas. Esta cegueira que nos faz olhar apenas para os nossos pés, para o caminho que caminhamos. Esta cegueira que somente nos faz reconhecer os nossos passos e o quão eles são imprescindíveis, na nossa opinião. Será?

Gustav Janouch ao criticar a forma como desenhava e criava Picasso demonstra esta cegueira.

Temos o direito de não gostar de algo, de criticar, mesmo esta crítica sendo referida a Picasso. Mas não temos o direito de sermos arrogantes, cegos e vaidosos. Isto não.

Criticar e dizer que não gostou é exercer o nosso direito à democracia. É exercer o nosso direito enquanto cidadãos que somos. Mas a crítica, pela crítica, pela pura vaidade, apenas demonstra o imenso tamanho da nossa pequenez, o imenso tamanho da nossa arrogância e da nossa desproporcionalidade diante à grandiosidade do mundo e de suas obras. No caso, aqui, Picasso: um dos gênios que a Humanidade teve.

É preciso saber e reconhecer o limite entre o que é crítica, como direito de protestar, de ser contrário ao mostrado, ao proposto, e o que é crítica baseada na arrogância, na vaidade, na prepotência que apenas mostra o quão longe estamos.

Esta cegueira é a verdadeira que cega. Infelizmente.

As distorções das formas, tão genialmente pintadas por Picasso, acho que foram criadas para aquele jovem poeta. E para todos nós, também.  Apenas ainda não estamos conscientes sobre isto.

Ouvi, certa vez, um palestrante dizer: ”o problema do nosso ponto de vista é que ele cega a nossa vista”. Perfeito. Aquele jovem poeta não ouviu este palestrante dizer isto, mas ele estava acompanhado de um mestre, Franz Kafka, que soube colocá-lo no seu devido lugar ao dizer: “...deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”.

O problema é sempre o mesmo: falta de autoconhecimento. Como não nos conhecemos, este mesmo desconhecimento nos faz crer que nos conhecemos. E aí começa todo o problema: aquele que acha que se conhece torna-se arrogante, prepotente, vaidoso. Nunca poderemos dizer que nos conhecemos. No máximo que temos certas pistas, um “cheiro”, mas a verdade é que estamos em constante processo de autodescoberta, de autoconhecimento. Saber isto nos fará pensar duas vezes antes de criticar uma obra de Picasso e demais coisas que se apresentarem no nosso caminho.

A arrogância, a vaidade e a prepotência são inimigas do conhecimento, da humildade. No fundo, no fundo, elas são um espelho de nossos medos escondidos embaixo de nossos tapetes felpudos e aconchegantes.

A vaidade demonstra a ociosidade e os vazios presentes em nós. É um literal abandono do bom senso.

A arrogância nos torna capazes de exigir o que não temos direito, o que não merecemos. Aquele jovem poeta, ao criticar, cegamente, a obra de Picasso, exigia um reconhecimento como “conhecedor da obra” que ele não tinha, e que jamais viria a ter. Pelo menos não enquanto durasse a cegueira dele.

O que motiva a arrogância, a cegueira, a prepotência é o sentimento de pequenez mental. Este é o sentimento que movimenta o arrogante. Mas claro que ele não sabe disto: ele está cego!

É preciso ser merecedor da obra, do reconhecimento. E isto é para poucos. Porque são poucos os que, verdadeiramente, enxergam.

Aquele que acha que sabe, como aquele poeta, é o que menos sabe. Quando achamos que sabemos as respostas, a vida muda as perguntas, já dizia o escritor. É bom estar atento.

A crítica é sempre bem-vinda, sempre será. Crescemos por meio dela. Mas a crítica, independentemente, a qual obra ou fato esteja se referindo, deve estar acompanhada de respeito e de humildade. O que certamente faltou a aquele poeta.

O que me chamou a atenção, também, foi que ele era um poeta. E o verdadeiro poeta tem humildade e sensibilidade. Sem isto não há como ser um verdadeiro poeta, talvez um pseudopoeta, nada mais que isto.

Julgamo-nos superiores a coisas cuja importância desconhecemos. Perdemos excelentes oportunidades de aprendermos, de avançarmos.

A futilidade que sustenta muitas de nossas ações nos faz escorregar diante o nosso próximo. E isto nos envergonha. Mas como não somos capazes de sustentar a nossa vergonha e de aprendermos com ela, buscamos defeitos na obra alheia, nas pessoas, nas coisas, enfim em tudo aquilo que tire a atenção da gente.

Somente ostenta quem não tem, verdadeiramente. Aquele jovem poeta, ao querer diminuir a obra de Picasso e “mostrar” que sabia, somente colocou mais luz na invisibilidade e na insignificância dele, nas pequenezas dele. Quanto mais ostentamos, mais mostramos que não temos. Quem tem, de verdade, não precisa mostrar. O que ele produz fala por si. A obra produzida, se bem produzida, fala pelo escultor.

Aprendemos com quem chegou antes, com quem chegou depois. Aprenderemos com quem ainda nem chegou. E muita gente aprenderá conosco quando nem aqui mais estivermos.

Aprendemos com a obra de Picasso, com a genialidade dele, mas também aprendemos com aquele que talvez não seja o Picasso, mas que possui genialidade, tanto quanto. Mas para isto é preciso que se enxergue com a alma e com o coração.

A falta de humildade, a ostentação, a arrogância, a prepotência nos levam para caminhos sem volta. São traiçoeiras. Elas nos fazem acreditar que somos o máximo, quando, na verdade, só nos expõem ao ridículo, e acendem todas as luzes sobre os nossos defeitos e fraquezas. Elas se unem para esconderem as nossas fortalezas. Definitivamente, não são boas companheiras. Mas elas são ótimas em nos fazerem ver as distorções das formas pintadas por Picasso.

Haja cegueira moral! Como é triste não termos consciência disto. Deixamos de apreciar uma obra, no caso a de Picasso, por conta de não a enxergarmos.

Uma doença da alma, fruto da ignorância. Demonstra a obscuridade que aponta aquilo de misterioso, encoberto e adormecido que há em todos nós.

Finalizo o texto, mas não a reflexão, com uma frase de Clarice Lispector, uma das maiores escritoras da literatura mundial que, certamente, enxergava muitíssimo bem. Suas obras não deixam dúvidas.

“A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos. ”

Pois é, ainda bem que Picasso não deu ouvidos àquele jovem poeta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O arco-íris não vai te esperar

Duas senhoras caminhavam pela rua quando uma delas viu um homem pedindo uma ajuda. Como fazia frio, uma delas resolveu doar o casaco que vestia, imaginando ser esta a melhor forma de ajudá-lo, em função da baixa temperatura.

Observando isto, a outra senhora disse:

- Espere. Vai doar este casaco caro e que você acabou de comprar? Vamos para casa e lá pegaremos outra blusa ou casaco velho, ou até mesmo um cobertor usado, e traremos para ele, aqui.

A outra senhora concordou. E as duas partiram rapidamente para casa. Ao voltarem com o casaco, o homem não se encontrava mais lá. As duas, devidamente vestidas com seus casacos, agora com um a mais, ficaram paradas na calçada, como se isto fosse o suficiente para que aquele homem voltasse. Mas ele não voltou.

Podemos fazer várias leituras sobre esta pequena história. Mas o traço de conversa que quero puxar aqui é sobre as oportunidades de fazermos algo relevante nesta vida, mas que deixamos passar em nome de coisas irrelevantes. Deixamos para amanhã coisas que talvez não sejam mais necessárias, solicitadas, permitidas.  Deixamos para amanhã coisas que fazem sentido serem feitas hoje. É preciso pensar sobre.

Isto não quer dizer que devemos abrir mão da ordem, do planejamento. Isso sempre será necessário e útil para a eficiência de qualquer atitude, compromisso, mudança. O planejamento é fundamental, mas exercer a arte do fazer é crucial para a nossa vida. “Sair fazendo”, definitivamente, não é a melhor opção. Mas esperar demais ou querer que a situação esteja “perfeita” para começar a agir, também não será uma boa opção.

E talvez este tenha sido o erro das duas senhoras. Ficaram tempo demais no planejamento. E quando voltaram, era tarde demais. Sempre há algo para se fazer no momento, na oportunidade. E depois, com mais tempo e calma, efetuar o planejamento. Mas jamais perder a oportunidade. Na cabeça delas, tudo estava planejado: “...vamos para casa, pegamos outras peças de roupas, mais velhas, e voltamos e doamos a ele...”. Simples, não? Pois é, só que elas se esqueceram do principal: de considerarem aquele homem nas etapas planejadas. E quando voltaram, o homem não se encontrava lá. De que adiantou o planejamento? Nada. Planejamento sem ação é um vazio de significados.

Agora é a hora de fazer. Agora é a hora de pensar. Agora é a hora de agir. Agora é a hora de estudar. Agora é a hora do agora. Agora é a hora. A hora é agora. E o significado de agora é “nesta hora”. Portanto, lembre-se: o arco-íris não vai te esperar.

imagem tirada da internet

Aquelas duas senhoras, apesar de terem em mente ajudarem aquele homem, excederam no tempo, passaram do ponto, e perderam a chance de ajudar. Elas queriam fazer uma doação, ajudá-lo, mas desde que a doação fizesse parte dos excessos delas, do supérfluo, e não de algo realmente que importasse a elas.

Aquela blusa a mais nas mãos de uma delas denuncia os excessos, seja de planejamento, seja de atitude. É preciso abrir mão dos excessos, do supérfluo, daquilo que nos aliena do mundo.

Os excessos e o supérfluo nos encastelam. São redomas de vidro criadas por nós próprios. Assim como as privações também têm a mesma força. Eles não podem ser os nossos orientadores, os nossos direcionadores. Caso sejam, ainda ficaremos com muitas blusas nas mãos e deixaremos de ver muitos arcos-íris.

Aproveitar as oportunidades e saber a hora de realizar é saber enxergar o arco-íris. Nem sempre ele virá após uma chuva, mas se estivermos preparados quando ele passar, certamente o enxergaremos. No entanto, se estivermos muito mais preocupados com questões irrelevantes, como qual blusa vamos doar, certamente quando ele passar não estaremos na janela para vê-lo. E quando haverá outra oportunidade? Ninguém sabe. Assim como aquele homem que jamais voltou, na história das duas senhoras.  A oportunidade é agora. E só quem estiver pronto saberá.

Obviamente há que se preocupar com a chuva e saber aonde se abrigar. Ou seja: planejar. Mas o mais importante é saber o que fazer depois de a chuva passar. E tendo isto em mente, aguçaremos os nossos olhares para as oportunidades da vida.

Então, enquanto chover e estivermos aguardando a chegada do arco-íris, é bom sabermos...

- planejar, planejar e planejar. Seremos gratos a nós por isto. Mas não podemos nos esquecer de viver, também. Viver é tão importante quanto planejar;

- buscar o aperfeiçoamento de nossas atividades, e nunca a perfeição, uma vez que ela não existe. Buscar a perfeição é nos perder na nossa vaidade e na nossa arrogância. As imperfeições são bem-vindas;

- pedir desculpas hoje. Não sabemos se teremos outra oportunidade;

- ser feliz hoje. Não sabemos se teremos outra chance;

- valorizar a simplicidade, a honestidade, a lucidez, a humildade, a ética. Somente eles poderão nos mostrar o arco-íris. Sem eles, nem adianta aumentarmos a graduação de nossas lentes;

- abrir mão de ofender e de nos sentir ofendidos: quem ofende é pobre de espírito, e quem se sente o tempo todo ofendido é um vaidoso de plantão;

- construir a nossa base de valores naquilo que é sólido, e não naquilo que é efêmero. Os likes que o digam...;

- ousar desconstruir modelos que não servem mais. Trilhar caminhos não trilhados;

- construir nossa morada para o inverno. Mas não nos esquecer de termos tempo de apreciarmos o sol que bate em nossa janela;

- lembrar de que a racionalidade não pode tomar o lugar da sensibilidade. Quando isto acontece, há o embrutecimento da alma e a nossa sensibilidade se revolta;

- dar continuidade às coisas, mas não nos esquecer das possibilidades;

- lembrar de plantar, mas não nos esquecer de regar. O regar traz esperança;

- abrir mão de coisas que dificultarão enxergarmos o arco-íris;

- colocar mais cores no nosso arco-íris. Quem falou que ele só tem sete cores? Termos sempre, por perto, um baldinho para pintá-lo quantas vezes for necessário. E se manchar alguma cor, usarmos o baldinho de novo;

- acreditar no arco-íris. Insistirmos;

E o principal:

- nunca perdermos a oportunidade de olharmos para cima e enxergarmos o arco-íris que chegou. Precisamos nos lembrar de que ele nunca tocará a campainha para nos avisar. Se quisermos vê-lo, deveremos percebê-lo. E isto é para poucos. Muito poucos. Somente para aqueles que, raramente, têm blusas desnecessárias em mãos.

Para finalizar, deixo uma bela frase de Mário Quintana. Um escritor que certamente foi um apreciador de arco-íris:

“Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo. ”

Portanto, que cada um de nós possa ter racionalidade de ver a chuva, porém sem descuidar da sensibilidade de enxergar e de perceber o arco-íris.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O que nos representa?

Muitas coisas. Nem sempre as coisas que me representam são as mesmas que te representam. Somos representados por coisas afins e distintas; semelhantes e opostas. O dinamismo da vida se dá nisto: nesta singularidade de diferenças de representações; nesta similaridade de forças.

A singularidade de diferenças de nossas representações será vivida e descoberta ao longo de nossa existência, de nossa relação e convivência com o outro. É isto o que também nos constrói e que vamos conhecendo no decorrer da vida. Não há um mapa a respeito, apenas trilhando o caminho é que se conhecerá esta singularidade de diferenças de nossas representações.

Ao passo que a similaridade de forças, que nos constrói da mesma forma, pode ser mais facilmente percebida por meio do comportamento do outro. E a angústia é um exemplo muito forte. Reconhecemos a angústia no outro porque também é facilmente percebida em nós. Percebemos quando o outro está angustiado pelo fato de isto nos ser familiar. Infelizmente ou felizmente, a angústia faz parte da vida, da nossa vida, e é uma velha companheira.

Digo infelizmente porque a sensação da angústia não é agradável. Mas se fizermos as pazes com ela, colheremos bons frutos, uma vez que ela é uma das nossas forças poderosas capazes de nos fazer conversar com as nossas sombras.

Há um poema maravilhoso, de Álvaro de Campos, que retrata bem este tema. Chama-se Esta Velha Angústia.

Esta velha angústia, esta angústia que trago há séculos em mim,

Transbordou da vasilha, em lágrimas, em grandes imaginações,

Em sonhos, em estilo de pesadelo sem terror, em grandes emoções súbitas

sem sentido nenhum.

Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida, com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!

Se ao menos endoidecesse deveras!

Mas não: é este estar entre, este quase, este poder ser que..., Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,

Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.

Estou doido a frio, estou lúcido e louco, estou alheio a tudo e igual a todos:

Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura

Porque não são sonhos. Estou assim... Pobre velha casa da minha infância perdida!

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! Que é do teu menino? Está maluco.

Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? Está maluco.

Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou. Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, por aquele manipanso que havia em casa, lá nessa, trazido de África.

Era feiíssimo, era grotesco, mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer: Júpiter, Jeová, a Humanidade.

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

(Álvaro de Campos, Obra: Poemas. Heterônimo de Fernando Pessoa).

Fernando Pessoa costumava dizer que era impossível ser um só. Daí a criação de vários heterônimos. E Álvaro de Campos é um dos mais conhecidos. Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português do século XIX. Criou heterônimos como extensões dele próprio, que funcionavam como representantes de seus outros “eus”. Apesar de os heterônimos serem autores fictícios, tinham sua personalidade e sua biografia. Heterônimos criados por Fernando Pessoa que, de forma brilhante, fizeram de sua obra uma referência na literatura mundial.

imagem tirada da internet

Encontramos nossos “eus” neste poema. Quem nunca se sentiu angustiado? Impossível.

Alguns filósofos defendem a tese de que a angústia é um sentimento moderno. Mas não sei se concordo. Talvez, no passado, não tínhamos este nome, angústia, mas acredito que ela sempre existiu, obviamente com as características de cada época.

A passagem que diz: “...Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre. Este quase, este poder ser que...”.

Estar entre. Este quase. Este poder ser que.

A angústia nos faz sofrer e fazemos sofrer o outro também. Ela é uma das marcas da nossa condição humana.

Somos complexos porque é muito difícil sermos simples. Vivemos numa inconstância e numa incerteza porque não sabemos quais são as nossas certezas. O que é certo?

A convivência nos é imposta, muitas vezes, por causa da conveniência de uma época. Mas não porque aquilo dá som a nossa voz. As conveniências impostas impedem a nossa expansão.

Eu só não faço o mal porque não tive oportunidade. Mas a intenção estava lá. É angustiante constatar isto. Mas somente quando constato, a oportunidade de mudança se apresenta para mim. É um convite à renovação, à mudança para melhor, porém por caminhos árduos.

A angústia do ser e do se tentar ser alguém.

Vivemos sonhos porque temos dificuldades de construir realidades ou de viver nelas. A imaginação e o sonho ganham forças frente às incertezas e os medos reais.

Pedem criatividade, mas punem os que erram. Só que não existe criação sem erro.

As novas gerações estão sendo reverenciadas como revolucionárias e com a missão de “consertarem” o mundo, mas quem começou a revolução, com todo o respeito, não foram eles. Aliás, foram pessoas que nem aqui estão mais. Dar sequência em algo criado e pensado não pode ser considerado revolucionário. É como caminhar por caminhos trilhados. Mastigar e engolir o pão é completamente diferente de fazer o pão.

É a angústia de assinar uma obra que não foi você quem fez. Aprenda a admirá-la primeiramente, depois certamente você terá seus créditos. Mas numa obra sua.

Exigimos protagonismo do outro, mas o que é ser protagonista? Não é ser o centro das atenções e ter o papel principal. Isto só funciona nas novelas e nos filmes. Ser protagonista é ter maturidade e responsabilidade na vida. Encarar as subidas, as descidas e os atolamentos dos pneus com a mesma disposição.

E ser coadjuvante? É saber a hora de se calar quando o outro precisar falar; é saber ceder o seu lugar para quem mais precisar sentar; é saber pedir desculpas a alguém. É saber abrir mão do seu desejo em prol do que é melhor para o grupo. É entender o seu papel no mundo e ter, na humildade, uma aliada e não uma propaganda para sua vaidade.

O que importa é a construção da obra que se dá por meio das duas forças: protagonista e coadjuvante. Portanto, as duas são necessárias.

Somos cobrados por coisas que não estamos preparados para dar. Mas não querem, muitas vezes, receber o que estamos preparados para dar. Por isto somos angustiados. Nossa sociedade é uma sociedade angustiada, vivendo em meio ao caos, à mistura de sensações. Vivemos tentando nos adequar em meio as nossas inadequações. Somos maiores do que os espaços que, muitas vezes, nos dão. E nos apertamos nos espaços. Isto é angustiante.

Passos iguais e passos adversos. Ora na igualdade; ora na adversidade. Reconhecemo-nos nas nossas representatividades de alegrias e de dores.  Nas diferenças e nas igualdades, somos únicos no nosso sentir, somos únicos no expressar aquilo que nos representa.

A angústia é uma força, porém precisamos enxergá-la como tal. Querer ganhar é saudável, mas querer ganhar sempre é doentio. Esta busca pelo inacessível (ganhar sempre) é o que nos angustia. Somos cobrados por vencer e ganhar troféus concretos. Mas não somos incentivados a vencermos e a ganharmos troféus intangíveis. Isto não cabe na nossa sociedade. Não há muito espaço para esta conversa.

É preciso usar a angústia como uma ferramenta de busca por nós mesmos. Valorizar o intangível. Aquilo que não se mede. O controle é importante, mas em excesso angustia. Querer ter todas as respostas angustia.

Usamos a angústia contra nós, e não a favor. E isto não é um sinal de inteligência. Estamos tão avançados no que se copia, como as commodities, e tão imersos no primitivismo daquilo que nos forma, como a ética, os valores, a relação com o outro. Temos uma relação de submissão com muitas coisas. Porém é preciso construir uma relação de troca, e sairmos desta submissão. Construir esta migração angustia porque não se aprende isto nos livros, só na vida.

Quando usamos a angústia a nosso favor e a favor do outro, construímos. Quando usamos a angústia contra nós e contra o próximo, destruímos. Aquilo que nos constrói nos destrói. E isto parte do sentimento de angústia, de nos sentir ameaçados, de não sabermos o caminho a seguir. É preciso criar mecanismos que nos façam enxergar o diferente apenas como diferente e não como inimigo, para que a gente não queira destruí-lo.

A angústia se dá porque não há fronteiras, não há métodos. Para muitas coisas não há regulação. Precisamos saber lidar com as nossas inquietudes, com as nossas sombras, com as nossas dualidades. Isto é a vida. E isto angustia.

É preciso valorizar a caminhada e não só a chegada. Querer ser o campeão é louvável, saudável e mais que isto: é uma busca plausível daqueles que querem se superar. Mas saber que a vida também é feita de vice-campeonatos e saber aplaudir, de verdade, quem chegar em primeiro lugar, é nobre. E somente aquele que aceita a força da angústia como ferramenta de autodescobrimento e de autodesenvolvimento conseguirá fazer isto.

Encerro o texto com uma frase de Fernando Pessoa, que diz:

“É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. ”

E uma das nossas companheiras no tempo da travessia será, certamente, a angústia. Se soubermos respeitá-la e acolhê-la, ela nos mostrará belas paisagens quando chegarmos.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Tirando satisfações com La Fontaine

Era uma vez...

...uma formiga e uma cigarra muito amigas. Durante o outono, a formiga trabalhou sem parar, armazenando comida para o inverno. Não aproveitou o sol, a brisa suave do fim da tarde e nem o papo com os amigos.

Enquanto isto, a cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos e nos bares da cidade. Cantou durante todo o outono, dançou, aproveitou o sol e curtiu para valer, mesmo sabendo da proximidade do inverno.

Alguns dias se passaram, e o tempo começou a esfriar. Era o inverno começando.

A formiga, exausta, entrou para a sua singela e aconchegante toca, repleta de comida.

Mas alguém a chamava do lado de fora da toca.

Quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu. Sua amiga cigarra estava dentro de uma Ferrari com um aconchegante casaco de vison. E disse para a formiga:

- Olá, amiga, vou passar o inverno em Paris. Será que você poderia cuidar da minha toca? E a formiga respondeu:

- Claro, sem problemas! Mas o que aconteceu? Como você conseguiu dinheiro para ir a Paris, ter este carro e estas roupas?

E a cigarra respondeu:

-Imagine você que eu estava cantando em um bar na semana passada, e um produtor gostou da minha voz. Fechei um contrato de seis meses para fazer show em Paris. Foi isto o que aconteceu. A propósito: você quer alguma coisa de lá?

- Sim, claro, quero sim, respondeu a formiga. Caso você encontrar o La Fontaine por lá, manda ele ir para...!

Após o momento “riso”, sabemos que esta não é a história original escrita por La Fontaine, um famoso poeta e fabulista francês que viveu no século XVII. Na história original, quando o inverno chega, a cigarra, sem abrigo e sem alimento, pede ajuda à formiga que, ao contrário dela, tudo fez para se preparar. Por isto ela tinha abrigo e alimento. E o ensinamento é este: a de que precisamos nos preparar para os invernos da vida. Concordamos com isto. E apesar de sabermos que o ensinamento da fábula está correto (preparar-se, ter foco e planejamento), é muito importante que a gente não se esqueça de que não vivemos num mundo perfeito, ou seja, em muitos momentos vamos nos preparar, vamos nos planejar, e simplesmente alguém mudará as regras. E aí? O que faremos com todo o nosso planejamento? E se o inverno não chegar? O que faremos com todo o estoque da nossa comida? Se a dividirmos com alguém será um bom começo...

Ao lermos esta divertida versão moderna da fábula, muitas reflexões podem ser feitas. Eu diria até que esta nova versão foi bastante irônica, muito além de divertida.

A formiga se preparou demais, lutou, estabeleceu metas, abriu mão do descanso, da diversão, teve foco e planejamento. Ao chegar o inverno, foi recompensada: tinha abrigo quente e armários cheios de alimentos. Por que, então, ela se revoltou, se ela fez tudo certinho e, ao chegar o inverno, estava com tudo pronto? Ela não deveria estar feliz por ter dado certo o seu planejamento, cuidadosamente dividido em etapas?

Ela se revoltou porque, apesar de todo o seu esforço, cansaço e trabalho terem permitido que ela construísse uma base sólida para o seu inverno, a cigarra fez absolutamente tudo ao contrário, e simplesmente tirou a “sorte grande”, na visão da formiga. No fundo, lá no fundinho, a formiga acreditou que estava fazendo o que era certo. Ela esperava que a cigarra se desse mal por não ter se preparado o tanto que ela se preparou. Portanto, criou a falsa expectativa de que se sairia melhor do que a cigarra por ter seguido as regras, a ordem, o planejamento. Afinal não é o correto? Pode até ser, mas não foi o que aconteceu.

Fiquei pensando na palavra expectativa: espera. Expectativa é esperar por algo. Mas este “algo” pode não ocorrer. Acho que foi isto o que fez a formiga se revoltar. Se ela tivesse feito todo o seu trabalho com convicção e acreditando ser este o melhor, e não somente por obrigação, como foi o caso, talvez ela tivesse se revoltado menos. Inúmeras serão as vezes as quais nos sacrificaremos por algo, e simplesmente alguém irá nos dizer: “ah, te agradeço, mas não será mais preciso...”.

Preparar-se é fundamental, e neste preparo, infelizmente, vamos precisar abrir mão de muitas coisas. Faz parte do processo. Porém, é preciso conscientizar-se de que abrir mão de coisas na vida em prol de outras é arriscar-se ao engano, ao erro, ao não dar certo. Nem sempre o fato de seguirmos as regras, seguirmos o planejado fará que nosso plano dê certo. Pode ser que sim, pode ser que não. Porém se tivermos esta consciência de que correr riscos é inerente a qualquer processo da vida, e nos preparar para minimizá-los, termos planos alternativos e saídas “de emergência”, certamente se alguém, repentinamente, mudar as regras do jogo, estaremos fortalecidos para seguirmos para o nosso próximo plano. E foi o que faltou à formiga. Ela não tinha um próximo plano. Ela acreditou, exclusivamente, numa execução de um plano que sempre vinha dando certo. E ver alguém se “dando bem” sem fazer muito esforço foi motivo de revolta. A formiga tinha razão nesta parte. Mas na vida nem tudo acontece com a justiça que esperamos. Portanto é preciso estar preparado.

Um outro ponto que também faltou à formiga foi ficar extremamente apegada ao processo, às regras. É muito importante ter uma visão do todo, delegar, acreditar no intangível, no mágico, naquele “milagre” que acontece nas nossas vidas, e que não sabemos explicá-lo. É preciso acreditar naquela mão que nos alcança, mas que não sabemos de onde ela veio. Dar um pouco de leveza à vida, que foi o que a cigarra fez.

A cigarra, apesar da sua irresponsabilidade de deixar tudo na mão do acaso, uma coisa fez de certo: acreditou nela (sabia cantar) e expôs o seu talento acreditando que alguém pudesse descobri-lo, que foi o que aconteceu. Isto é fundamental. Acreditar na gente, mesmo que todos digam o contrário e que tudo esteja contra nós. Nunca podemos deixar de acreditar em nós. A cigarra acreditou nela; a formiga acreditou no processo. Estes dois pontos são essenciais para que as coisas funcionem, e funcionem bem. Porém estes dois itens precisam caminhar juntos, e não apartados. Portanto, se a formiga tivesse acreditado nela e no seu talento, além de tudo já realizado, talvez não tivesse se revoltado.

A formiga e a cigarra somos nós. Sempre. Temos as duas dentro de nós. Ora uma, ora outra. O bem e o mal. A questão é: a quem alimentamos mais? Acredito que o mais importante seja a consciência sobre isto, para que possamos aproveitar o melhor que cada uma delas poderá nos proporcionar.

Reflexões sobre o texto:

- nem sempre, ao nos esforçar, seremos reconhecidos e recompensados;

- saber lidar com a frustração é uma sabedoria. O grau da nossa frustração está totalmente ligado ao tamanho da nossa expectativa. A nossa expectativa deve ser realista. Pense nisto;

- quanto mais realista for a nossa expectativa, o nosso objetivo, a nossa meta, o nosso plano, menor será a nossa frustração. O realista considera os riscos e as chances de aquilo não acontecer ou de não dar certo;

- lembre-se: risco não se evita, se administra. Seria importante as Empresas saberem disto também. Querem inovação e criatividade, porém sem erros, sem riscos, de preferência;

- buscar o equilíbrio: nem a escassez (formiga) e nem o excesso (cigarra);

- o texto faz uma sátira ao padrão existente: isto é certo; isto é errado. É preciso se lembrar do contexto que transforma o certo em errado e vice-versa;

- fundamental andar por caminhos não trilhados e aceitar que não podemos controlar tudo na vida. Acreditar nos “milagres” e principalmente em nós;

- a formiga, na sociedade, é vista como a mocinha, o modelo correto a se seguir; a cigarra como a vilã, a irresponsável, o modelo a não se seguir. Não há esta segmentação: mocinho e bandido. Somos esta dualidade. O mocinho, por si só, não consegue se sustentar; idem para o vilão. Trafegamos pela bondade e pela vilania, mesmo que disfarçadamente;

- é fundamental colocar o lúdico em nossas interações, na nossa vida. O humor dá cor e nos ajuda a pensar e a refletir sobre as nossas sombras. Se não tivéssemos lido esta sátira em forma de fábula, talvez não pensássemos em todas estas reflexões;

- precisamos mergulhar nas nossas sombras. E estes textos nos fazem conversar com elas;

- essencial dar mais leveza para as nossas relações conosco e com o nosso próximo;

- a formiga é silenciosa; a cigarra faz questão de que todos ouçam o seu canto. Silêncio e voz: duas forças que se misturam e que nos formam. É preciso pensar nisto, também;

- é preciso cuidar do caminho a ser percorrido, porém valorizar o tanto que já se andou.

Enfim, muitos foram os aprendizados, as reflexões e as lições. E é preciso enfrentá-los, nem sempre com facilidade, nem sempre com bússola, nem sempre com coragem. Mas, como diz um maravilhoso provérbio africano:

“Mares tranquilos não produzem bons marinheiros. ”

Que nos lembremos das nossas formigas e das nossas cigarras internas em nossas viagens pela vida, seja por terra ou por mar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Você tem um bom alfaiate para indicar?

Algumas pessoas podem te olhar de forma estranha se ouvirem você dizer que frequenta boas alfaiatarias. Ainda mais em tempos de fast, likes, zap-zap e afins. É tudo tão corrido, tão irritantemente urgente que dizer que vai a um alfaiate é, no mínimo, sujeitar-se a receber um maldoso comentário: “nossa, isso ainda existe? ” ou “por que você não compra uma roupa pronta? É mais fácil. ”

Claro que é mais fácil, e mais descartável também. Mas somente aprendemos esta lição quando a roupa se desgasta.

Comprar roupas prontas é bom e necessário. Já imaginou fazer todas as suas roupas com uma costureira ou com um alfaiate? Inviável em todos os sentidos.

Mas eu diria que, em momentos ímpares de nossas vidas, fazer algumas roupas com a costureira ou com um excelente alfaiate seria imprescindível para todos nós.

Mas quem está preocupado com isso, se é tão chique ter uma agenda cheia de compromissos? Muitas pessoas se sentem bem com agendas cheias. Há um falso paradigma de que, desta forma, serão consideradas necessárias e importantes: #façopartedacorreria!

Falando sobre isto, me lembro de duas palavras: poder e vaidade. Mais do que palavras, elas ditam costumes e culturas desde a antiguidade. Fazem parte de nós. Em alguns mais; em outros menos. Mas fazem parte de nós. Acho que história abaixo ilustra bem este raciocínio:

O Mandarim e o Alfaiate
Um dia, um homem recebeu a notícia de que tinha sido nomeado mandarim.

Ficou tão eufórico que quase não se conteve.

- Serei um grande homem agora, disse a um amigo. Preciso de roupas novas imediatamente. Roupas que façam jus à minha nova posição na vida.

- Conheço o alfaiate perfeito para você, replicou o amigo. É um velho sábio que sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Vou lhe dar o endereço.

E o novo mandarim foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou as suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o homem disse:

- Há mais uma informação que preciso ter. Há quanto tempo o senhor é mandarim?

- Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu manto? Perguntou o cliente surpreso.

- Não posso fazê-lo sem obter esta informação, senhor. É que mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, quando está ocupado com seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, e ele olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir, aí então eu costuro o manto de modo que a parte da frente e a de trás tenham o mesmo comprimento. E mais tarde, depois que seu corpo está curvado pela idade e pelos anos de trabalho cansativo, sem mencionar a humildade adquirida por meio de uma vida de esforços, então faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto, tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente.

O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais no motivo que levara seu amigo a mandá-lo procurar exatamente aquele alfaiate.

Esta história foi retirada do livro “O livro das Virtudes II - O Compasso Moral”, de William J. Bennett, cuja reflexão cabe a todos nós e é de uma mensagem atemporal.

O mandarim vivia nos antigos impérios da China, pertencia à classe dos letrados. Era geralmente uma pessoa importante e influente. Agora começamos a entender porque ele queria roupas novas...

imagem tirada da internet

...ainda bem que ele foi a um sábio alfaiate que ensinou a ele valiosas lições sobre a inutilidade da vaidade para as nossas vidas. Além da cegueira que o poder nos traz, se mal utilizado.

imagem tirada da internet

Aliás, se pesquisarmos a origem da palavra vaidade, ela possui uma raiz latina, que se escreve vanus, e que significa “vazio, ocioso”; e outra raiz indo-europeia (que era utilizada antes do latim, em tempos remotíssimos), que se escreve wa-no-, que significa “deixar, abandonar, desistir”. Esta palavra também traz outro significado, agora em hebraico, que é: qualquer coisa invisível que logo desaparece.

Por essas e outras, ainda bem que, mesmo em tempos de fast, o alfaiate e a costureira persistem. Sábios eles. Todos precisam de alfaiates e de costureiras porque a vaidade está presente em todos nós, sem exceções.

E para aqueles que se julgam modestos, sem vaidades, Mário Quintana, um dos maiores poetas da Literatura, tem uma resposta:

“A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta. ”