terça-feira, 25 de abril de 2017

A inconveniência do acerto

Há alguns dias, a atitude do jogador do time São Paulo, Rodrigo Caio, ocupou muito espaço nos noticiários esportivos. Espaço demais. Num determinado momento, quando o juiz penalizava o jogador do time adversário por meio do cartão amarelo, Rodrigo Caio tomou à frente e assumiu a responsabilidade do ato. “Fui eu, fui eu”...ele disse. E aí, o juiz cancelou o cartão amarelo e o jogo seguiu.

Para aqueles que adoram diminuir as boas atitudes alheias, poderiam dizer: “não sei se ele faria isto se fosse um jogo decisivo, um clássico, se fosse prejudicar o time”. Pois é, era um jogo decisivo (não no sentido literal, mas baseado no contexto), era um clássico e o time do Rodrigo Caio se complicou, e muito, com o resultado desse jogo. Portanto, para os que adoram desvalorizar a atitude alheia, será preciso buscar outros argumentos.

Além destas pessoas, pudemos conhecer e nos identificar com outros grupos de pessoas que surgiram e se manifestaram sobre este assunto:

- o grupo que entendeu que o jogador que assumiu a responsabilidade foi um tolo. Afinal, jogo é jogo e vale tudo para ganhar o campeonato. “Estes erros fazem parte do jogo. Não dá para você ficar tendo este tipo de atitude como a do Rodrigo Caio. Isto prejudicou o time. ”

- o grupo que aplaudiu a atitude do jogador. Este grupo entendeu que o comportamento dentro de um campo de futebol reflete a educação, o externo, o social. Atitudes como esta é que contribuem para a formação de um mundo digno e ético.

- o grupo que não se posicionou, aliás, se posicionou: ficou sobre o muro. Ora acreditou que esta atitude torna o mundo um melhor lugar para se viver, ora acreditou que a conversa é mais complexa do que, simplesmente, levantar a mão e dizer: “fui eu”. Que há outras questões envolvidas como: hipocrisia, infantilidade, demagogia, querer aparecer e outras coisas.

De qual lado estamos? A qual grupo pertencemos? Num primeiro momento, isto se trata de uma reflexão pessoal. Cada um de nós sabe, perfeitamente, a qual grupo pertence. Mas num segundo momento, a reflexão pessoal fica para trás e o resultado de nossas escolhas influencia todo o demais, todo o contexto.

Saber a qual grupo pertencemos e, principalmente, assumirmos as consequências e os resultados do grupo a qual pertencemos será imprescindível se quisermos, de verdade, entendermos a nós mesmos e ao mundo no qual vivemos.

O terceiro grupo que citei, os que ficaram sobre o muro, disseram que “no futebol”, é diferente. Não dá para dizer que “só porque eu não falei que o erro foi meu, não quer dizer que sou um mau caráter, um mau cidadão lá fora. ”

Como assim “no futebol”? Por que lá é diferente? Como assim “só porque eu não falei”?

Diminuímos a importância do erro quando ele é cometido por nós. Assim a dor da culpa perderá a intensidade, e o peso da consciência será facilmente carregado naqueles carrinhos que são levados à feira, num dia chuvoso. Mas quando a culpa é do outro...

Padrão de conduta justo e sistema vigente sustentável deveriam ser a base da nossa construção. Mas infelizmente o nosso padrão e o nosso sistema vigente conversam e se confundem, diretamente, com a corrupção, com a leviandade e com a falta de ética.

Por isso, quando alguém faz a coisa certa e, pior, assume o erro, desconfiamos e estranhamos. Chama a nossa atenção exatamente porque este não é o nosso padrão e a base de nossas atitudes. Mas deveria ser. Acostumamo-nos ao jeitinho, ao benefício sem sacrifício, à manipulação, ao levar vantagem, ao se dar bem. Muitas coisas e ações foram e têm sido construídas sobre bases tortas. Portanto, quando qualquer coisa escapa ao esquema, chama a atenção e é motivo de monopólio nos noticiários, como foi este o caso.

A base da nossa educação é a competição e não a colaboração. Triste constatação. Fomos educados para entregarmos números e resultados, e não para entregarmos descobertas de processos e de caminhos para, aí sim, chegarmos aos números e aos resultados. Os números e os resultados precisam ser entregues, mas não a todo custo.

É preciso disposição para percorrermos os caminhos descobertos e reinventá-los.

É preciso atenção ao caminho sustentável, ao caminho mais longo. Mas valorizamos o caminho mais curto, o resultado imediato. Afinal, o jogo tem somente noventa minutos.

Triste pensar que este acerto foi um incômodo, um atrapalho. Um bem que causou males. Um acerto inconveniente como aquela visita que chega sem avisar, entra na nossa casa com os sapatos sujos da rua, não lava as mãos e ainda fica para o jantar sem ter sido convidada.

É como se o acerto nos incomodasse. É uma inconveniência. Um desajuste. O bem nos traz certos transtornos, em nossa sociedade. Não sabemos lidar com ele. Ele nos coloca num lugar desconfortável. O justo, o correto nos colocam em cadeiras lisas e retas cuja máxima, “mas eu não sabia”, está em desuso há tempos. Mas esta máxima nos cabe tão bem! É, de verdade, uma pena não podermos usá-la mais com tanta frequência a que estávamos acostumados.

A atitude deste jogador causou polêmica porque não temos uma visão de quem somos. Muitas coisas ainda não estão claras para nós. Somos seres imperfeitos, incompletos. A nossa essência é a incompletude. E não sabemos lidar com isto. Ainda temos dúvidas sobre o que é o bem e o mal. Estamos tão arraigados no mal, que quando alguém faz o bem, o chamamos hipócrita e demagogo. Pode até ser demagogia e hipocrisia. Mas por que esta tem sido sempre a nossa primeira opção?

É preciso entendermos o problema para podermos buscar a solução.

Fazer o bem com tantos olhares ainda no mal nos causa a impressão de que aquele bem era falso, mentiroso. É como se ele não merecesse o nosso crédito. Estar no bem e fazer o bem é, de certa forma, olhar para o futuro acreditando que ele existe. E olhar para o futuro com uma crença positiva é pretensioso para nós.

Mais que uma atitude dentro do Futebol, o que aconteceu nos serve para percebermos a nossa realidade e não apenas pensarmos sobre ela. Quando a nossa realidade é, verdadeiramente, percebida, criamos autonomia e liberdade para desconstrui-la e recriá-la.

Somos todos os grupos que se posicionaram a respeito deste tema, que é muito maior que uma partida de futebol. Somos o grupo que apoiou, somos o grupo que não apoiou e somos o grupo sentadinho, lá, sobre o muro, mas que a vida está fazendo o convite para descermos e descortinarmos os nossos saberes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma belíssima passagem da música Eclipse, da banda Pink Floyd, que diz:

“And everything under the sun is in tune. But the sun is eclipsed by the moon. There is no dark side of the moon really. Matter of fact it's all dark. ”

Que significa:

“E tudo sob o sol está em perfeita sintonia. Mas o sol está coberto pela lua. Não há um lado escuro na lua, na realidade. Na verdade, ela é toda negra. "

Ou seja, somos aquele que mostra e aquele que esconde. Aquele que acalma e aquele explode. Aquele que ajuda e aquele que atrapalha. Enquanto o sol está alto, vamos nos equilibrando nas cordas que nos são mais convenientes e sustentáveis ... para nós. O brilho do sol, às vezes, camufla as nossas escolhas seja para o grupo a, b, c ou d. E assim, vamos aparentando quem não somos e acreditando em inverdades contadas por nós mesmos.

O brilho do sol sugere uma falsa perfeição, um ofuscamento que dificulta enxergar a qual grupo o outro pertence porque nem nós mesmos sabemos aonde estamos, muitas vezes. Mas ao chegar da Lua, com sua monótona palheta de cores acinzentadas, tudo é esclarecido e posto sobre a mesa. As cordas para nos equilibrarmos são as mesmas para todos e o ofuscamento do sol, que dificultava a nossa visão, já não existe mais. A visão é clara e podemos nos enxergar, como verdadeiramente somos. E nesta hora, saberemos, com absoluta clareza, a qual grupo pertencemos.

E ao descobrimos quem verdadeiramente somos, que a gente não se acovarde, mas também não fique satisfeito. Porque os satisfeitos e os covardes são sempre os primeiros a se retirarem. Que sejamos o meio do caminho, para que possamos valorizar a nossa travessia, como disse Guimarães Rosa, e assim, chegarmos firmes a um lugar que terá sido construído por nós mesmos, por meio de acertos que, agora, não mais nos incomodarão.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Falar...........................................................................Fazer

O distanciamento que há entre as palavras do título deste texto é proposital. Ainda há um abismo entre o que falamos versus o que fazemos. Mas por quê?

imagem tirada da internet

O fazer nos expõe, mostra quem somos, não há como driblar o outro. O nosso realizar evidencia as nossas crenças, os nossos valores, os nossos objetivos. E o que é mais difícil: o nosso fazer exige grande esforço de nossa parte. A realização, mesmo que haja a participação do outro, é, em grande parte, tarefa nossa e intransferível.

O falar também nos expõe e também evidencia quem somos. Afinal, uma fala diz muito sobre nós. Mas é só. Podemos ficar parados, sem grandes consequências. Depois de um tempo, as pessoas não se lembrarão mais do que dissemos e, mesmo que se lembrem, não terão todos os detalhes de nossa fala. E, portanto, dificilmente seremos cobrados.

O fazer conclui e mostra a obra. O falar inicia e está desvinculado da entrega. Nem sempre aquilo que falamos, fazemos. Mas sempre aquilo que fazemos está posto. Não há formas de retroceder. O fazer imprime uma marca; o falar imprime falácias.

Falar e fazer são duas distintas realidades praticadas por todos nós, todos os dias. Mesmo que não percebamos. Falar nos permite estar sempre presentes, sempre entregando algo. O falar nos presenteia com a visibilidade, com o efêmero, com o hoje, com o rápido. O falar nos coloca, rapidamente, numa evidência que, até ontem, não tínhamos.

Obviamente que o nosso falar também é carregado de responsabilidade. Muitos de nós já conseguem falar e fazer representar a base da vida. Muitos já prestam atenção ao que dizem e se preocupam, sim, com a coerência da entrega versus a fala. Para estas pessoas, o distanciamento que há no título é, apenas, um recurso didático e lúdico. Mas ainda a maior parte de nós constrói e reforça, diariamente, este distanciamento entre o falar e o fazer.

O falar supre a nossa necessidade de estarmos, sempre, em evidência. Falamos, falamos, falamos e assim vamos pertencendo, vamos entregando, vamos participando, vamos evidenciando nossas pequenezas, sem muitas pretensões de sermos pessoas melhores. E neste gerúndio, vamos diminuindo as nossas chances de crescermos. Esta pseudorrealização nos afasta do que é preciso ser feito. O pertencer, o entregar, o participar devem ser precedidos de responsabilidade e de sensatez. Enquanto falamos, ficamos com a falsa sensação de realização, sem nos apropriarmos do que verdadeiramente importa. E desta forma, vamos enchendo o mundo com as nossas falácias, vamos ocupando espaços mortos e realizando coisas dispensáveis e descartáveis.

Falar ocupa mais espaço que o fazer, mas não deveria ser assim.

Falar dá mais audiência do que o fazer, mas não deveria ser assim.

O falar é barulhento. O fazer é silencioso.

Ninguém, ou quase ninguém, confere se uma fala é verdadeira ou não. Muitas vezes nem há como verificar esta veracidade. O que mostra a veracidade da nossa fala é o nosso fazer. E isto demanda tempo, paciência e planejamento. E tempo, paciência e planejamento são artigos de luxo num mundo como o nosso. Isto explica um pouco o excesso de falares, a ausência de fazeres, e a nossa incrível crença em falácias e em barulhos que, de longe, lembram uma fala bem construída, original e responsável.

Atendemos as nossas necessidades de visibilidade e de vaidade quando falamos. Falamos coisas bonitas, muitas vezes, éticas, corretas e, assim, vamos pintando em nós mesmos uma falsa aparência de quem não somos. Como os outros também estão preocupados com suas próprias aparências, acabam não tendo tempo de verificar se o que falamos procede ou não. Se estamos sendo coerentes, por meio do nosso fazer, com a nossa fala.

Fazer implica compreender a nossa dimensão de incompletude. Somos incompletos, imperfeitos, tortos. A completude e a perfeição estão a nossa disposição. Mas quem se habilita a caminhar em direção a elas? Nossa imperfeição é produtora dos nossos conflitos. Por isso o nosso fazer é tão complexo e complicado. Difícil e procrastinado por nós até o último momento. Enquanto pudermos disfarçar e não tomarmos contato com as nossas questões, a vida vai se desenhando em linhas tortas criadas por nós mesmos.

Fazer é abrir a maleta de ferramentas e descobrir, dentro da gente, que não há a ferramenta que precisamos. E aí, num difícil ato de humildade, deveremos recomeçar e pedir ajuda ou, no mínimo, emprestarmos a ferramenta de alguém que começou a fazer o caminho há mais tempo que nós. O fazer não nos dá a mesma satisfação do falar porque não nos diz aonde está a verdade. Vamos ter de buscá-la. O falar nos dá falsas pistas sobre a verdade. E como somos crianças, acreditamos.

O falar nos dá a falsa sensação de pertencimento. É muito mais fácil falar. Não dá tanto trabalho assim. Falamos o que convence, o que o outro quer escutar, o que vende, o que é politicamente correto, o educado e o ético. A fala nem sempre é carregada da responsabilidade, da realização e do fazer. Mas deveria ser. Falar e não fazer é, no mínimo, leviano. Ocupamos tempo e espaço que não nos pertencem. E assim, vamos poluindo o mundo e sendo poluídos pelos nossos pares.

Trabalhei numa empresa, na área de Pessoas, e o Vice-Presidente desta área dizia que adorava liderar pessoas, e que, um verdadeiro Líder, deveria ser próximo da equipe. Ao dizer isso, foi elogiado e acreditado por muitos. Uma fala perfeita. O contraditório, é que, durante os cinco anos em que estive nesta área, ele esteve conosco, fisicamente, apenas duas vezes. E, mesmo de longe, raramente liderava e se envolvia nos assuntos ligados a Pessoas.

Logicamente que a presença física nem sempre é sinônimo de proximidade e vice-versa. Mas, para ele que dizia adorar liderar pessoas e categoricamente afirmava que estar próximo era um dos itens da boa liderança, certamente nos serve de belo exemplo de falácia e de fazer barulhos improdutivos, desnecessários e insignificantes. Mas o que ele fazia lá, então? Isso é assunto para outro texto, mas arrisco dizer que ele ali estava porque foi colocado por outras pessoas que também tinham o falar bem distanciado do fazer.

É preciso, portanto, atenção às nossas falas, assim como saber a proximidade e/ou a distância que estão de nossas atitudes e de nossos fazeres.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Paulo Freire, que diz:

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática. ”

Que os espaços entre o falar e o fazer diminuam por meio da nossa ação. E nos espaços vazios que ficarem, possamos preenchê-los com a nossa mais bela essência da realização.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A pressa que nos atrasa

Há alguns anos, pesquisadores da área educacional fizeram a seguinte experiência com crianças de diversas nacionalidades: pediram para elas se sentarem próximas às mesas e aguardarem, pacientemente, um doce que ganhariam. E assim foi feito. Os pesquisadores deram um doce a cada uma delas e disseram:

- A partir deste momento, quem quiser, pode comer o doce que ganhou. Mas quem esperar até amanhã para consumi-lo, ganhará outros dois doces para compensar a espera. Vocês escolhem. E assim, os pesquisadores se retiraram da sala e ficaram observando as crianças.

Ao fim da experiência, os pesquisadores notaram que poucas foram as crianças que aguardaram o dia seguinte. Mesmo com a certeza de que receberiam mais doces no dia seguinte, o prazer imediato falou mais alto, em detrimento do prazer de longo prazo.

Esperar até amanhã é muito tempo para aquele que duvida da vida.

Em conversa com os responsáveis pela educação das crianças que optaram por esperar o dia seguinte, os pesquisadores descobriram, nestes responsáveis, no caso os pais, um baixíssimo nível de ansiedade, uma valorização crescente da educação em si, um respeito pelo próximo, o saber esperar e um saber construir, um planejamento para o amanhã. E, na contrapartida, pais excessivamente ansiosos do outro lado, necessidade desenfreada de resolver isto hoje, falta de planejamento e desorganização da rotina.

Obviamente que generalizar não é o correto. Certamente existem pais ansiosos cujos filhos são planejados e calmos, e pais tranquilos com filhos agitados e inquietos. Mas o que a pesquisa chama a atenção é para as probabilidades, ou seja, num cenário no qual a criança tenha o exemplo ou o contraexemplo de determinada coisa, a chance de ela seguir o caminho mostrado e exemplificado será bem grande.

Consumir a bala no momento que se ganha não é errado. É nossa escolha esperar o dia seguinte ou não, desde que assumamos esta postura e esta escolha. Saber os riscos e os ganhos do curto e do longo prazos precisam estar claros para todos nós.

Certamente as crianças da pesquisa não possuem a dimensão do curto e do longo prazos. Mas este comportamento delas trará importantes diagnósticos futuramente.

Aquele que sabe esperar e enxerga valor nisto toma, sempre, as melhores decisões. Está ciente e seguro desta garantia. A espera o fortalece. A espera, para aquele que optou pelo longo prazo, é sua companheira e melhor conselheira. A espera oferece um refúgio para o autoconhecimento. Um dos melhores lugares para o autoconhecimento se apresentar é na espera, nas horas e dias que passam sem respostas. Mas a resposta de amanhã chegará.

Aquele que age pelo impulso e pela triste crença na ausência do amanhã, certamente consumirá o doce hoje, no curto prazo. Não está certo e nem seguro. Não acredita em garantias. A espera o enfraquece. A espera o angustia. O relógio deixa de cumprir o seu papel e passa a requerer paradas frequentes de seus ponteiros, no mesmo lugar.

Saber esperar, de verdade, é uma arte. Uma espera que sustenta, que fortifica, que solidifica.

Abrir mão de prazer pontual para receber outro mais compensador, duradouro e melhor: é esperar com critério. E não a espera pela espera. É uma espera que se desdobra na esperança de que o melhor está a caminho. E está próximo.

Ter esperança é sinônimo de saber esperar. E aquele que sabe esperar, portanto tem esperança, é uma pessoa mais feliz. Feliz porque tem menos necessidades. Menos demandas. Menos requisitos a serem preenchidos.

Saber esperar é ter fluência na vida. É não brigar com ela.

Será que a Lua apressa o pôr-do-sol para que ela possa brilhar logo mais à noite? Será que a semente cobra, da terra, um desenvolver mais rápido?

O curto prazo deve ser acionado para aquilo que é urgente, não, necessariamente, importante. E muitas vezes uma coisa se torna urgente porque deixamos de fazer e de contemplar o importante, o imprescindível.

O longo prazo deve ser acionado para aquilo que é importante, atemporal, para aquilo que verdadeiramente importa. Mas quem se importa com isso?

Abrimos mão de cozinhar o arroz integral porque demora muito. Então comemos o branco, mesmo, que, apesar de não ser tão bom, dá menos trabalho e fica pronto rapidamente.

Corremos contra o tempo para darmos conta de fazermos o planejado para aquele dia. E nem percebemos que, muitas vezes, esta correria é fruto da falta de planejamento de longo prazo.

Falamos ao celular com tamanha destreza; nas redes sociais, nos posicionamos com forte veemência; criamos demandas com facilidades; falamos alto coisas desnecessárias... o celular como um instrumento sem o qual não vivemos.

Vivemos sem caráter e sem educação, mas todos temos um celular! O curto e o longo prazo pedindo redirecionamento. Mas e o tempo para olhar isso?

As redes sociais, a facilidade do post, do like, do repasse sem a preocupação dos danos causados: a tela do computador nos protege. O curto prazo nos esconde em telas que aceitam tudo, sem filtros. Mas o longo prazo, a vida real, não nos esconde. Pelo contrário, nos expõe e nos convida a resolver e a tratar as nossas questões.

O curto prazo que falha, mas que a vaidade esconde. Por interesse.

O longo prazo que acerta, mas que a vaidade também esconde. Por interesse, também.

Queremos fazer depressa para compensar nossa necessidade de entrega. A qualidade não importa muito. A rapidez não cobra qualidade; a qualidade cobra e é implacável.

O curto prazo alimenta nossa sede de aparecer. Aquele que opta pelo curto prazo sempre está presente, sempre está sendo visto. É aquele que está sempre no raso, no supérfluo, na periferia, na marginal. É aquele que sempre opta pelo doce imediato. E, ao amanhecer, ao se dar conta de que poderia ter, agora, três doces e não, apenas um, tenta ludibriar o próximo para dividir o doce com ele e, não conseguindo, busca, por meio da covardia, desmerecer e diminuir os doces ganhos pelo próximo.

Curto prazo. Longo prazo. Escolhas e renúncias. Imediatismo e paciência. Somos tudo isto que luta, diariamente, para se impor e sobressair no nosso mundo de iguais e de desiguais. Importante, pois, nos lembrar de que, diferentemente do público com quem a pesquisa foi realizada, não somos mais crianças para nos escondermos em doces e fazermos de conta que somos inocentes. A inocência e a ingenuidade são atributos que constroem uma personalidade. E aquelas crianças, inocentes e ingênuas, que optaram por seus doces no curto ou no longo prazos, podem se beneficiar do luxo que é o de ser criança. Mas nós, adultos há tempos, sabemos os custos do curto e do longo prazos. Portanto, seja qual for a nossa escolha, que os riscos e os ganhos sejam assumidos de todas as escolhas que fizermos, mesmo que, do outro lado, vejamos o nosso vizinho com mais doces que a gente.

O curto prazo do post em detrimento do longo prazo da reflexão e do respeito.

O curto prazo favorece o fast, o rápido, o urgente, a entrega, o lançamento, a vaidade.

O longo prazo favorece a sensatez, o pensar, a solidez, o caráter.

Curto e longo prazos: dois lados que nos representam, que nos identificam como seres inacabados e imperfeitos. Mas o caminho continua.

Por que optamos pelo curto prazo? Por que optamos pelo longo prazo? Quando soubermos estas respostas e estivermos confortáveis com elas, nossas escolhas terão mais qualidade e sofreremos menos.

O imediatismo que consome nossas horas, que nos induz a escolher o doce para consumi-lo hoje porque não acreditamos que o amanhã chegará. Uma crença na ausência.

São escolhas. São decisões. Não há roteiros e nem respostas prontas, somente perguntas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Clarice Lispector, que diz:

“O tempo corre, o tempo é curto; preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. ”

Que a pressa, portanto, não nos atrase. E que se formos valorizar o curto prazo, que seja, apenas, como instrumento de limpeza do desnecessário, do inútil, do vaidoso e do sem ética, para que o longo prazo possa ter mais espaço em nossas vidas e ser utilizado para o que, de verdade, importa.

E ter esperança nos doces que virão e saboreá-los é um exemplo de se fazer o que, verdadeiramente, importa.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ouvidos de ouvir

Jesus sempre dizia, aos que acreditavam nele e em suas palavras, que quem tivesse olhos de ver que visse, e ouvidos de ouvir que ouvisse.

Independentemente de nossas crenças religiosas, se as temos ou não, a fala acima de Jesus é conhecida de todos nós. É uma provocação e um convite austero para repensarmos nossos modelos existentes de vida, de crenças, de hábitos, de costumes e, principalmente, de atitudes.

Os ouvidos são para ouvir, mas ouvir o quê?

Os olhos são para enxergar, mas enxergar o quê?

Ou seja, o óbvio que, mais uma vez, está distante de todos nós.

imagem tirada da internet

A preposição “de” em “Ouvidos de ouvir e olhos de ver” faz toda a diferença.  Uma das formas que podemos utilizar a preposição de é quando queremos indicar uso, função, propósito, destinação. Portanto, os ouvidos de ouvir e os olhos de ver indicam que estes mesmos olhos e ouvidos possuem um propósito e uma função. Não estão aqui por acaso. Acreditar que eles apenas ouvem e enxergam é aceitar o raso como um elemento-chave do nosso viver. E sabemos que podemos ir além, fazermos mais e darmos um passo adiante.

Aquele que tem ouvidos de ouvir e olhos de ver são os que vão à frente. Lá longe se distanciam dos demais. Entenderam o recado de forma mais assertiva que outros. São os que utilizam o tempo a seu favor e não contra. São aqueles que, mesmo avançados em sua caminhada, não se esquecem dos que, por escolha, optaram por reduzirem a velocidade de suas marchas. Afinal, as distrações do caminho são tantas, que dá muito trabalho ter ouvidos de ouvir e olhos de ver. Mais fácil será ter os ouvidos e olhos comuns, sem tantas preocupações.

Filtrar e excluir o desnecessário requer sabedoria e coragem. Um caminho ainda trilhado por poucos. Há espaço para mais pessoas. No entanto, é preciso aceitar o convite para este caminhar. É preciso coragem e abertura de sentidos para esta busca. Não se trata de uma tarefa simples. Mas alguém falou para nós que seria?

Ouvidos que apenas ouçam e olhos que apenas vejam: o caminho mais fácil. Curto. Logo ali. Rápido. Pouco tempo para chegar. Que bom, porque assim não perderemos a novela.

Ouvidos de ouvir e olhos de ver: o caminho mais árduo, duro, cansativo. E muitas vezes, solitário. Caminho que precisa de muitos passos para ser concluído. Muito tempo para chegar. Sustentável. Mas nele não há espaço para o acompanhar de cada capítulo da novela, comodamente do sofá da sala, sem envolvimento, sem preocupações. Talvez a única preocupação seja o desligar da televisão quando o capítulo, daquele dia, estiver terminado.

Nossos ouvidos e nossos olhos são, em sua maioria, seletivos. Ouvimos o que nos é cômodo e o que nos coloca, confortavelmente, naquele mesmo sofá para assistirmos à novela. Alguém nos colocou neste lugar de destaque, e é isto o que importa. Se o que ouvimos é falso ou não, pouco adianta. Afinal, a novela já vai começar e não temos muito tempo para buscarmos esta informação. E os nossos olhos também são seletivos. Enxergamos somente aquilo que continuará a alimentar e a sustentar nossa estada no sofá. Enquanto o nosso lugar estiver assegurado, vamos fazendo vistas grossas para o restante.

Faz muita diferença sabermos quem se beneficia com nossa estada no sofá. Com os nossos ouvidos e vista falhos. Mas quem está preocupado com isto? Os que estão, já podem ser vistos dobrando a esquina, lá, bem lá na frente.

Precisamos de confiança, coragem e audácia para rejeitarmos certas coisas na vida. Rejeitarmos ouvidos e vistas medíocres poderia ser o nosso primeiro passo. Mas quem começa?

A provocação de Jesus é atemporal. Cabe muito, portanto, para uma atualidade que insiste em perpetuar alguns modelos falidos e insustentáveis. Uma provocação atual para um mundo que, infelizmente, caminha a passos lentos por escolha própria. A velocidade não tem sido nossa melhor companheira. Pelos menos, não para isto.

Precificamos o que não podemos. Não insistimos na busca por sermos melhores.

É preciso acreditar na nossa insistência. Na nossa insistência de querermos ser bons. Esta insistência existe. Mas está perdida no meio de tantos comerciais que passam durante a novela. Por não temos olhos de ver a outros canais?

Vamos nos desdobrando em diversos, muitas vezes, sem sentido. Um diverso que não constrói, que demora, que insiste no retroceder, no nosso marasmo. Um retrocesso parado na fila dupla que atrapalha o outro, mas que resolve o seu problema.

Vamos nos descobrindo no fazer. Mas é preciso começar. Se não, como descobri-lo?

O desdobramento que descobre o fazer: pensemos neste arco como uma ferramenta para alcançarmos aquele que vai dobrando a esquina. Este nosso arco nos levará até ele.

É rever os nossos padrões de certezas para que possamos ter ouvidos de ouvir o que precisa, não o que queremos, apenas. Escolher ter ouvidos de ouvir e olhos de ver nos trará vazios, mas que nos servirão para nos reconstituir.

A nossa vaidade se alimenta dos olhos e dos ouvidos rasos. O nosso orgulho também. Beneficiamo-nos com os nossos olhos e ouvidos medianos. O pensar custa e dá trabalho. Trabalhar nossos ouvidos e aguçar a nossa visão nos afastarão dos confetes que nos são jogados por pessoas que estão à espreita da nossa queda, do nosso escorregar nas pequenas cascas de bananas. São invisíveis, mas estão lá. Prontas.

Os confetes não passarão por crise de vendas e de abastecimento num mundo que valoriza o supérfluo, a aparência, a vaidade e o eu exacerbado em detrimento do outro. Avançamos, sim. O nosso passado nos confirma isto. Mas acho que temos problemas na velocidade.

Quando teimamos em ter ouvidos e olhos rasos, são as vagas certezas que temos, que utilizamos. Por que não fazemos melhores escolhas? Esta velocidade lenta é uma opção. Para quê tantas marchas se mal sabemos utilizar a primeira?

Ansiamos pelo tratamento imediato e não pelo entendimento, pela compreensão e pela aceitação da dor. Tomar um comprimido é mais fácil e muito mais rápido.

Conhecer-se é um processo árduo e sofrido. E somente com ouvidos de ouvir e olhos de ver conseguiremos dar os passos necessários. Sem diagnósticos apressados de coisas inexistentes e de coisas inventadas.

Aquele que tem ouvidos de ouvir e olhos de ver é o desprovido de disfarces sociais e internos, consciente da sua imaturidade, desapegado da necessidade neurótica do poder, do estatus e do controle.

Quando os nossos ouvidos ouvem, de verdade, entramos em contato com as nossas fragilidades e com a nossa imaturidade. E para tanto, será necessário questionar os nossos graus de certezas. Caso contrário, não conseguiremos ouvi-las.

Penso que somente teremos ouvidos de ouvir e olhos de ver, de verdade, quando passarmos, várias vezes, pelo mesmo lugar. E passar várias vezes pelo mesmo lugar significa caminhar por dentro da gente por diversas vezes. Um caminhar até então desconhecido e pouquíssimo explorado por muitos de nós. Infelizmente.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Jean de la Bruyere, ensaísta francês do século XVII, que diz:

“A demasiada atenção que se emprega em observar os defeitos dos outros, faz que se morra sem ter tido tempo de conhecer os próprios. ”

Que sejamos amigos do tempo para que ele nos ensine como utilizá-lo com sabedoria. E, assim, possamos nos conhecer. Nossos ouvidos e nossos olhos, certamente, mudarão de patamar. E nossas esquinas serão mais frequentes em nossas vidas.

terça-feira, 28 de março de 2017

O caminho escolhido nos revela

Quem vê aquele senhor, parado próximo à guia, verificando o celular, não diz que há poucos minutos ele descia de um carro que estava em fila dupla. A fila dupla que duplica o que não precisa: os entraves do caminho escolhido por aquele que faz errado e por aquele que acata o que o outro faz de errado.

Os pés descalços daquele que não tem o que entrar pela boca, muito menos o que vestir nos pés. Os pés descalços daquele que sente a terra para acordar os seus sentidos. O descalçar para estabelecer uma conexão sem intermediários: os sapatos que escondem as marcas daquele que anda, que busca, com ou sem calçado.

A mãe que veste um agasalho no filho mais novo porque começou a esfriar. O mais velho puxa a planta do jardim de um prédio e ainda pisa na grama. Mas o filho mais novo está agasalhado, mesmo que às custas de gramas e plantas machucadas.

O homem que passa, e que buzina, e que xinga, e que gesticula, e que fala alto. Mas ele acabou de sair da missa e de comungar. É possível, ainda, verificar o pequeno terço que vai no espelho do retrovisor do carro dele.

O menino que passa verificando uma mensagem no celular. Tropeça na pessoa que vem na direção contrária. Mas que não levanta a cabeça porque está verificando a mensagem.

A moça passa gravando um áudio, também, no celular. Caminha contornando os obstáculos, no caso, pessoas, e se apressa para chegar a um lugar que talvez nem saiba onde fica. Mas a pressa a fará chegar mais depressa ao lugar desconhecido.

A mãe que passa de mãos dadas com a criança. Mas a velocidade do caminhar não é a da criança, mas sim a da mãe, que, no caso, é a que menos precisa.

O caminho que escolhemos nos revela.

As especializações que dificultam o aprendizado. A simplicidade que constrói, porém não é valorizada por ser simples demais.

O mau gestor que rouba a energia de quem está perto. A incompetência disfarçada é pior que a incompetência declarada. Habilidades e competências não fazem parte de seu atuar. Querem ser servidos. Mas fingem que servem. As necessidades reais sendo sobrepostas por necessidades criadas sob o comando da arrogância e da vaidade. Doentes morais. Ele não deveria estar lá. Mas quem o colocou lá? Aquele que compartilha disto.

O bom líder que não tem muitas chances por não compartilhar da ausência de ética de muitos.

O bêbado que está sóbrio. O lúcido que vê coisas.

A criança que grita para chamar a atenção. E que consegue. Se ela gritar com a vida, será que ela para, também? Pode ser que sim, se ela estiver de bom humor...

Os acordes desafinados tocados pelo mestre. A afinação é coisa do passado. Quem perceberá o desafinar, no espetáculo, se as luzes do palco concorrem com as luzes dos celulares e dos computadores?

O analfabetismo necessário para a manipulação que se deseja. Manipular aquele que não sabe é covardia. Mas manipulação me parece que tem sido sinônimo de uma espécie de “cidadania”. O manipular cria uma situação de necessidade, para o mais fraco. Assim, aquele que manipula terá espaço para despejar suas sombras no outro.

Os trechos ditos pelo padre, durante a missa. Minutos depois, este mesmo padre dormiu enquanto os demais rituais eram seguidos e presenciados por pessoas que não estavam lá. Mas que estavam comodamente sentadas nos bancos.

A fala repetida não porque faz sentido, mas pela simples rotina da repetição.

Mais uma pessoa passa verificando seus e-mails. Conectados cada vez mais com algo que nos desconecta de nós mesmos. A conexão com a máquina facilita o distanciamento nosso de cada dia, e estamos longe de encontrarmos o pão, como diz a oração. Ele está próximo de nós, talvez por isto não o encontramos.

Para encontrarmos o pão, será necessário dividi-lo. E para dividi-lo, será necessário sentar-se ao lado do outro, para ficarmos do mesmo tamanho dele. Ainda não encontramos este pão. Nem em aplicativos, porque foram criados por quem evita massas e glúten.

O cachorro puxa firme a coleira. Quer andar mais rápido para poder aproveitar bem o passeio. Não sabe quando sairá de novo.

O correr é um sinalizador de ausência.

O sofrer é um sinalizador do conhecer.

Aquele que passa falando muito, porque as vozes da sua mente são insuportáveis. Aquele que é calado porque já fez as pazes com a sua consciência.

O choro misturado ao riso. Uma mistura chamada vida.

O grito misturado ao silêncio. Um exercício de inclusão em nós mesmos.

Reconhecemo-nos inclusivos, desde que a gente não precise fazer parte disto. A inclusão está no discurso e a exclusão na nossa prática. Somente incluímos aquilo que traz inclusões para nós. Do contrário, a exclusão é a regra. Se assim não fosse, por que ainda discutimos as velhas e mesmas coisas?

Discurso e prática: a melhor forma de conhecer alguém. O caminho escolhido nos revela.

Somos reconhecidos pelas nossas escolhas, discursos, ações e reações.

Aquele mesmo senhor que vai, novamente, à missa, reza a oração junto ao padre. Todos se levantam como sinal de respeito. Logo adiante, o sinal do semáforo não é respeitado pelos mesmos integrantes da missa. Seriam situações distintas?

A comunhão é a simbologia da divisão, do partilhar. Mas ainda temos dificuldades de partilharmos o que vai em nossos excessos.

A mesma fila dupla. Agora outra pessoa. Vários carros passam e buzinam. Pedem licença para passarem. O homem assiste a tudo passivamente. Como se não fosse com ele. Mas é. E ironicamente, um adesivo no carro deste mesmo homem que faz da fila dupla uma extensão da sua existência, diz: “que Deus te acompanhe”.

A ironia que nos sustenta, mas que não somos capazes de compreendê-la. As contradições que nos formam, mas que juramos que não somos assim, tão contraditórios. Os paradoxos que escondem nossos valores e que, ao serem revelados, nos dão espelhos de presente.

Criamos espetáculos porque acreditamos na ilusão. Mas o que, muitas vezes, não percebemos, é que a plateia que nos assiste está sedenta por nossa queda. E imediatamente a nossa queda, aquele que nos ajuda é o que não está na plateia, e sim, nos bastidores nos aguardando. Porque lá é o lugar aonde tudo é construído e sustentado.

O palco é um lugar de ilusões e de representações. A vida, de verdade, se faz antes dele.

O dia em que ampliarmos a nossa compreensão sobre quem, verdadeiramente, somos, e não sobre quem queremos aparentar ser, as ironias, os paradoxos e as contradições serão remotas lembranças. Os recados já terão sido todos dados.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com a imagem abaixo:

imagem tirada da internet

Que nós sejamos o pássaro da imagem que, com o seu atrevimento de pousar em um lugar proibido, pelo menos para ele, ousa questionar as regras e mais, transgredi-las com argumento sólido. Que sejamos nós, este pássaro, fazendo reflexões sobre nossas contradições e limitações para que possamos ser mais, muito mais.

Nossos caminhos escolhidos nos revelam quem somos.

Que estejamos em paz com os nossos caminhos escolhidos e com a revelação que eles fizerem. Mas se não estivermos, que saibamos que ainda há tempo de tirarmos o nosso carro da fila dupla e de irmos à missa de verdade e por vontade. E mais: que o terço em nosso retrovisor seja, de verdade, um reflexo da nossa crença e escolha de vida. E não um objeto que decora um espelho no qual não reconhecemos a imagem nele refletida.

terça-feira, 21 de março de 2017

A fôrma que nos forma

Um pai, em companhia do filho, arrumava o peixe, sem a cabeça, na fôrma. O assado sairia num instante. O filho, observando o pai, perguntou:

- Pai, por que o senhor cortou a cabeça do peixe? Por que não podemos assar todo o peixe?

- Não sei, exatamente, meu filho. Por que a pergunta? Sempre fizemos desta forma. Além disto, esta é uma receita antiga. Aprendi com o seu avô.

O menino inquieto e insatisfeito, continuou:

- Mas por que, então, o vovô também corta a cabeça do peixe?

- Não sei, meu filho. Vamos até ele perguntar. E assim foram os dois até o avô do menino.

- Vovô, por que o senhor corta a cabeça do peixe? Por que não o assamos inteiro?

- Eu não sei, meu neto. Esta receita é tão antiga. Aprendi com o meu pai. Só sei que sempre fiz assim.

- Mas o senhor nunca perguntou o motivo? disse o neto.

- Não, nunca perguntei. Sempre foi feito assim. Mas se quiser, podemos ir até o seu bisavô perguntar. E assim foram. Chegando lá, o menino perguntou:

- Biso, por que o senhor corta a cabeça do peixe para assá-lo? Por que não podemos assá-lo inteiro? O bisavô olhou para o menino, um tanto indiferente, e disse:

- Não sei, meu filho. Isto é tão antigo. Nem me lembro mais do motivo, para ser sincero. Só sei que aprendi com meu pai, seu trisavô. Vamos até ele perguntar? E assim foram.

Quando chegaram lá, encontraram um senhor de aparência serena e tranquila. O menino se aproximou dele e perguntou:

- O senhor poderia me dizer o motivo de cortarem a cabeça do peixe, antes de assá-lo? Por que precisamos fazer isto e não o assar inteiro?

O trisavô, no auge da sua sabedoria, respondeu:

- Ah, sim, claro, realmente quando fiz este peixe pela primeira vez cortei a cabeça dele, sim. Mas foi só a primeira vez. Nas demais, eu o fiz inteiro, com a cabeça.

O menino, intrigado, diz ao trisavô:

- Ué, mas o meu bisavô, o meu vô e o meu pai cortam a cabeça do peixe todas as vezes que fazem este prato. Por que, então, o senhor não falou para eles que poderiam assar o peixe também com a cabeça?

O trisavô respondeu:

- Simplesmente porque eles não me perguntaram. E eu nem sabia que eles estavam fazendo este peixe desta forma. Eu só cortei a cabeça do peixe uma vez porque a minha fôrma era pequena, e a cabeça do peixe não cabia. Se eu tivesse, naquele momento, uma fôrma maior, certamente eu assaria o peixe com a cabeça...

A fôrma que nos forma. Estamos todos em uma. Mas será que ela cabe em nós?

Quando estamos numa fôrma, a medida deve ser justa e certa. Nem mais nem menos. O que sobrar desta fôrma deverá ficar do lado de fora. E como não temos a coragem de nos desinformar, muitas vezes, vamos sobrepondo camadas sobre a nossa essência e assim, perdemos grandes oportunidades de nos conhecer e de saber por qual motivo estamos dentro de fôrmas sendo formatados.

A fôrma que nos forma a seguirmos modelos existentes, mesmo que não façam sentido para nós. E por comodidade, orgulho, medo, negligência, ausência e falsa presença não perguntamos o motivo pelo qual assamos o peixe sem a cabeça.

As perguntas precisam ser feitas, mesmo que tenhamos medo das respostas. Mesmo que não seja compreensível, ainda, a nós, as perguntas precisam ser feitas. Mas quem ousa fazê-las? Cortar a cabeça do peixe parece ser tão mais fácil...

Perguntas bem-feitas nos colocam num outro patamar. Não num patamar arrogante, do inalcançável, daquele que acha que sabe, mas num patamar que pertence àquele que não teme, que enfrenta, que luta e que constrói. O “sempre foi feito assim” é um espaço pequeno e apertado para aquele que não tem medo de assar o peixe com a cabeça.

Não o fazer pelo fazer. Mas o fazer para o fazer.

Não a pergunta pela pergunta. Mas a pergunta para o sentido da pergunta.

Perguntar significa abrir portas mesmo que não tenhamos sido convidados para a festa. A inércia, o orgulho e a preguiça do “sempre foi feito assim” nos aprisionam em nossas próprias inferioridades.

Nossas assadeiras serão do tamanho de nossas perguntas.

Enfrentar e perguntar é amedrontador, mas libertador. E liberdade é o caminho para a felicidade. Uma felicidade verdadeira, livre, de poucas necessidades.

Acatar a passividade da ausência de perguntas traz retrocesso e submissão. Uma servidão voluntária, como provocou Etienne la Boétie, filósofo francês.

Por que obedecemos? Por que abrimos mão da nossa capacidade de decidir? Por que seguimos o que não tem sentido? Por que não questionamos?

Questionar implica construir caminhos.  E construção é sempre trabalhosa e cansativa.

Seguir respostas dadas e caminhos percorridos é acessível a todos. A construção foi feita por outros que não eu. O trabalho foi do outro. Eu só preciso seguir. É mais fácil e menos doloroso.

Quando perguntamos nos expomos ao mundo. Todos vão saber o que pensamos. E se ficarmos sozinhos no caminho após saberem o que pensamos? Após ouvirem as nossas perguntas?

Um monte de conversa só com um fiozinho de ação: nosso habitual.

Falas mais espaçadas com enormes caminhos de ação: o convite da vida. Alguém já o aceitou?

Temos uma altíssima disposição para a adaptabilidade. Somos excessivamente adaptados. E por quê? Porque também cortamos a cabeça do peixe para assá-lo, sem perguntarmos o motivo.

Se cortar a cabeça do peixe fizer sentido e coerência, devemos seguir. Afinal, comer uma cabeça de peixe não deve ser algo agradável. Mas se não fizer sentido cortá-la, por que o fazemos, então? Para seguirmos os passos que o outro já deu antes.

Seguimos o conhecido para não nos perdermos no caminho. Mas será que já não estamos perdidos no caminho trilhado? Afinal, ele foi trilhado pelo outro e não por nós.

Não precisamos seguir rotas que nos foram ensinadas.

Não precisamos concordar, se discordamos.

Não precisamos querer o que o outro quer que a gente queira.

Não precisamos seguir necessidades impostas por pessoas que nos desconhecem.

Questionar o motivo de cortar a cabeça do peixe é dedicar tempo para a vivência, para a experiência, para o que está por vir. Para uma vida com sentido.

Quando não questionamos o motivo de cortarmos a cabeça do peixe começamos a perder a nossa conexão com a vida e com nós mesmos. O questionar constrói. O seguir sem sentido destrói. Aquele que questiona justifica sua estada aqui. Aquele que somente segue e serve a ignorância precisará sempre se explicar. Sua estada aqui parece ser um favor.

A fôrma que nos forma deve ser posta em xeque. Qual é a fôrma que nos forma? Como entramos nessa fôrma? Queremos estar lá?

Mais do que estar e entrar em fôrmas, é saber sairmos delas, mesmo que ao desinformarmos a massa, ela quebre e esfarele um pouco. Quebrar um pedacinho da massa, no momento de desinformar, é o que trará conhecimento para os próximos desinformes.

A ousadia do disforme. A passividade da forma. Duas formas que lutam e vivem juntas.

Aquele que pergunta segue. Aquele que somente segue não valoriza o tamanho de suas pernas e o quanto elas poderiam contribuir para o avanço. O que pergunta, caminha. O que segue, aguarda uma carona de um desconhecido para levá-lo a um lugar qualquer.

Aquele que pergunta é desprovido de disfarces. Aquele que segue o que não faz sentido e não pergunta porque tem medo e preguiça é o que mais precisa disfarçar.

Coragem, ousadia e conhecimento são ingredientes que colaboram para o desinformar e para a rejeição de fôrmas sem sentido e medíocres. Orgulho, preguiça, comodismo e medo são ingredientes que colaboram, e muito, para nos moldarmos perfeitamente às fôrmas que colocam em nossos caminhos ou, até mesmo, em fôrmas que nós próprios criamos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Winston Churchill, que diz: “O orgulhoso prefere perder-se a perguntar qual é o seu caminho. ”

Que a gente não se perca em fôrmas pré-concebidas pelo simples orgulho de não querermos perguntar ou pelo medo de colocarmos uma questão sobre a mesa. E que, se formos assar um peixe, sejamos nós os autores da nossa própria receita, com ou sem a cabeça.

terça-feira, 14 de março de 2017

Nossa velha conhecida

Um corvo, com um belo pedaço de queijo no bico, pousou em uma árvore. Estava sossegado. Mas como todo o sossego dura pouco, uma raposa se aproxima dali atraída pelo cheiro do pedaço de queijo. Com muita vontade de comê-lo, mas sem condições de subir na árvore para pegá-lo, pensou em outra estratégia...

- Bom dia, amigo Corvo! - disse ela.

O corvo a observou e fez uma saudação balançando a cabeça.

- Ouvi falar que o rouxinol tem o canto mais belo de toda a floresta. Mas eu aposto que você, meu amigo, se cantasse, o faria melhor que qualquer outro animal.

Sentindo-se desafiado e querendo provar o seu valor, o corvo abriu o bico para cantar. E imediatamente o pedaço de queijo caiu e foi direto para o chão.

A raposa apanhou o queijo e, irônica, ainda disse: Obrigada, amigo, pelo pedaço de queijo. Mas da próxima vez, desconfie das bajulações...

Moral da história: os bajuladores estão sempre de plantão aguardando a sua queda.

imagem tirada da internet

Lendo esta ingênua fábula, que de ingênua não tem nada, ficou fácil descobrir que o corvo perderia o pedaço de queijo. Assim como estavam claras, para nós, as más intenções da raposa.

Olhando e observando do lado de fora, tudo fica mais fácil e mais claro. Mas quando somos nós os protagonistas da história sendo contada, aonde vai parar aquela nossa facilidade?

O corvo e a raposa são representações do humano que há em nós. Somos um. Somos o outro. Somos os dois. Representado, aqui, por meio de uma fábula, este texto é um convite para descortinarmos algumas janelas que existem em nós. De tempos em tempos, é importante afastarmos as cortinas para podermos enxergar o que a paisagem tem a nos dizer.

O desejo a qualquer custo de ser o melhor, de ser reconhecido e de ser um destaque é o que nos leva ao declínio. Buscar nosso aperfeiçoamento é genuíno e necessário. Deve ser um desejo nosso. Sem isto, pararíamos e perderíamos a chance de irmos além. Um desperdício, portanto. Mas ultrapassarmos a linha do equilíbrio e querermos ser mais do que somos é buscarmos companhia e aconchego na arrogância, na prepotência e na alienação. Sabemos que não são boas companhias. Por que insistimos nisto, então?

Quantos pedaços de queijo ainda perderemos?

Os excessos nos completam, mas não deveriam. Os equilíbrios nos desequilibram. Buscamos a corda bamba. Buscamos o perigo desnecessário. Buscamos a alienação. Buscamos o problema.

Rejeitamos o acerto. Andamos pelo caminho mais difícil. Complicamos o que a vida tenta, a todo custo, descomplicar. Se não há problemas, desconfiamos, e criamos um. Habituamo-nos à falta, à escassez, e não à abundância e à simplicidade.

E quando a solução se apresenta, não a reconhecemos.

O corvo representa a vaidade, nossa velha e conhecida amiga. Somos tão frágeis, que uma bajulação foi confundida com elogio. E como somos ávidos e carentes de elogios, caímos na armadilha da raposa.

imagem tirada da internet

Como são caçadoras oportunistas e ardilosas, usam a inteligência apenas para benefício próprio, e assim, conseguem apanhar as suas presas facilmente. Sabem que o nosso ponto fraco é o desejo do confete a qualquer custo, é a vontade de estarmos sempre no palco, sendo aplaudidos e reconhecidos como os melhores. Qualquer coisa exceto ser o melhor não nos interessa.

Somos o corvo: buscamos o constante elogio. Somos incapazes de distinguimos um elogio sincero de uma bajulação. A falsidade explícita que há nisso cega os nossos olhos.

Queremos tanto o palco, que ele mesmo será o motivo da nossa queda. Queremos tanto as luzes, que elas mesmas nos cegarão. Queremos tanto o brilho, que ele próprio nos ofuscará.

Ironia, não? Mas temos opções. Temos outras escolhas. As raposas de plantão sabem que temos escolhas. Mas elas também sabem que temos dificuldades de compreender estas escolhas. Muito providencial, para elas, a nossa alienação. Que, no fundo, só as alimenta.

É preciso saber receber elogios, sinceros, claro. Um elogio nos fortalece para seguirmos. Um elogio é um eco do outro reconhecendo o nosso valor. É uma voz que contribui para o nosso caminhar. Quando nos elogiamos, quando somos elogiados, de verdade, compreendemos o sentido e o que fazemos aqui. É um norte. Uma direção que, verdadeiramente, nos guia.

No entanto, é preciso saber diferenciar um elogio da bajulação. O elogio foi construído na verdade; a bajulação, na mentira. O elogio é discreto, sem sobreposições, sem excessos. A bajulação é sempre excessiva, desconfortante, constrangedora. O elogio não é tendencioso. A bajulação é pegajosa e desonesta. Só serve para alimentar as nossas misérias que tentamos esconder de nós mesmos.

O papel do elogio é alimentar aquilo que constrói. O papel da bajulação é destruir tudo e todos que atrapalham o caminho daquele que acredita que deve ser servido, daquele que acredita que o palco é o mínimo que a vida deve a ele. Daquele que acredita que o outro é mero equívoco da natureza.

Aquele que elogia é livre e feliz porque não está preso a convenções. Possui poucas necessidades porque seu caminho é reto, transparente. Tem foco e direção.

Aquele que bajula está preso em suas próprias teias e, dificilmente, conseguirá sair delas. Será refém de sua própria trama. Deve possuir uma excelente memória para poder se lembrar de todas as mentiras contadas. Sua vida é triste porque desconhece o caminho da liberdade. Desconhece formas de vida eficazes e sustentáveis.

Os corvos que há em nós não nos deixam dúvidas sobre a arrogância e sobre a vaidade que nos alimentam. Enquanto dermos vozes às nossas vaidades desmedidas, as raposas serão sempre muito bem alimentadas. E as raposas que há em nós também não nos deixam dúvidas sobre a certeza de, muitas vezes, utilizarmos a nossa inteligência para aquilo que nos aprisiona e não para aquilo que nos liberta. Enquanto dermos vozes às raposas que há em nós, a base do mundo ainda será a felicidade com a infelicidade do outro. A satisfação porque o outro perdeu o seu pedaço de queijo.

Os corvos que há em nós são tristes porque desconhecem a possibilidade do elogio verdadeiro. Não há a necessidade de bajulações.

As raposas que há em nós são tristes porque desconhecem que o vencer se dá quando o valor e o direito do outro também são reconhecidos.

Quando as mesquinharias deixarem de existir, as raposas entrarão em extinção.

Quando acreditarmos no potencial que habita em nós, sem vaidades, os corvos baterão suas asas em direção oposta a nós.

Não podemos exigir muito discernimento de um corvo e de uma raposa, na realidade. São animais movidos pelo instinto de sobrevivência. Mas de nós, o que já podemos exigir?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma bela provocação de François La Rochefoucauld, pensador do século XVI, que diz:

“A bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana.”

Portanto, se ela existe é porque a alimentamos, seja como corvos, seja como raposas.

Que o nosso próximo pedaço de queijo, se caído de nossas bocas, tenha sido derrubado para alimento do próximo, e não para alimento de nossa vaidade e alienação. Desta forma, as bajulações feitas pelas raposas que aparecerem em nossos caminhos perderão, completamente, o sentido.