segunda-feira, 21 de maio de 2018

A visão do galinheiro

No livro, Cadernos de Lanzarote II, de José Saramago, o autor diz que quando era adolescente, costumava ir à ópera. Sem pagar. O lugar era o Teatro Nacional de São Carlos. O porteiro o deixava entrar quando faltavam poucos minutos para a sessão começar. Nesse momento, os “pagantes”, dizia Saramago, já haviam ocupado os seus lugares. O porteiro, então, o conduzia pelas escadas até o último andar, o lugar destinado aos pouco abonados, como ele. Lá, não havia acesso aos camarotes e nem aos lugares pagos. Eram os chamados galinheiros que, na fala de Saramago, dispensa explicações para o termo. Como ele não havia pago pela entrada e, muito menos tinha o dinheiro para tal, seu lugar era no galinheiro. E mesmo sendo um lugar nada convidativo, ainda havia o risco de não ter lugar para se sentar.

Do galinheiro, continua Saramago na sua fala, as pessoas se apertavam para conseguir enxergar o espetáculo. Por mais que fizessem isto, não era possível ver o palco por inteiro. Quando os atores se deslocavam em cena, dizia, era preciso aguardar voltá-los para a antiga marcação, no palco. Somente assim se poderia vê-los novamente. No entanto, enquanto observava que muitas coisas o impediam de ver o palco, os atores, a obra, percebeu que um suntuoso objeto estava bem a sua frente: uma coroa real, dourada, símbolo que sobrou das monarquias, reduzida a um adorno qualquer. Mas, como ele estava no galinheiro, somente conseguia ver a parte de trás deste objeto, enquanto os pagantes e os que ocupavam os camarotes e cadeiras requintadas, conseguiam enxergar a parte da frente deste objeto, com toda a ostentação que uma coroa impõe.

Nas palavras de Saramago, o que ele via era a ausência daquela coroa, e não a coroa em si. O que havia, naquilo que um dia foi uma coroa, era muito pó e teias de aranha, que também marcavam presença no objeto e naquele lugar. Mas as pessoas dos camarotes não viam esta poeira e estas teias. Viam a parte nobre e bonita da coroa, o que foge à realidade.

Neste momento, Saramago compreendeu que o ponto de vista observado do galinheiro é indispensável se, realmente, quisermos conhecer a coroa.

A obra de Saramago segue com muitos descortinares e com inúmeros convites para mudarmos o nosso olhar de lugar. Convites que nos fazem repensar o nosso estar e o nosso tamanho, no mundo.

Na perspectiva de um simples espectador que tenta assistir a uma peça de teatro num lugar sujo, empoeirado, mau cheiroso e apertado pode parecer uma aventura e uma angústia. Um sofrimento e um castigo, digamos assim, por não fazer parte do grupo seleto dos que podem. Como ele não pode, se submete. Um simples espectador talvez pense desta forma. Vê a peça, da forma que dá, e, amassado, busca um espaço entre os que vão a sua frente, espremidos. Nesse estado de ausência que vive, não consegue ir além. Acredito que temos um pouco deste espectador dentro de cada um de nós.

Porém, na perspectiva de um espectador como Saramago, estar no galinheiro do teatro é uma excelente oportunidade para dar uma rasteira na vida, no sentido figurado. Ao invés de raiva, nojo e frustração, olhar, foco e discernimento. Quando assim agimos, o que não é das tarefas mais simples, estar num galinheiro começa a fazer sentido. A vida, com frequência, gosta da ironia e se diverte nos colocando em alguns galinheiros. Mas se soubermos aceitar que estamos num deles, sairemos rapidamente. A vida não tem interesse em nos deixar em lugares cujo aprendizado não se dará. Se lá nos colocou, é porque alguma pendência temos com os galinheiros da vida.

Do galinheiro, podemos enxergar o lado da coroa que ninguém quer ver, assim como disse Saramago. Permite-nos ver o lado que todos tentam esconder. E pior: além de esconder, o fingir que ele não existe. O galinheiro, apesar de seu aspecto feio, ruim e barulhento, é um lugar privilegiado, cuja percepção se dará apenas aqueles que vão a frente.

Somente aquele que já entendeu o sentido de dar toda a volta, compreende o valor de se passar, pelo menos uma vez na vida, pelo galinheiro.

O galinheiro é um lugar que existe dentro de cada um de nós. Assim como o camarote, também. Galinheiros cheiram mal, mas nos dão a visão do todo. Somente nos enxergamos se tivermos a generosidade de aceitarmos o convite da vida para darmos uma passadinha lá. Camarotes existem para contemplarmos a arte. No camarote, enxergamos o resultado de um belo trabalho. Mas para valorizá-lo, somente passando pelo galinheiro.

Galinheiro é o convite para dar toda a volta em nós. É a reflexão para a existência de nossas teias e as de aranhas, também. A poeira e pó que insistem em nos lembrar que há tempos estamos devendo uma visita para nós mesmos. Que denunciam a nossa ausência, a nossa falta de interesse para vermos e conhecermos os nossos bastidores. Que reafirmam que não estamos interessados em subirmos os degraus da nossa construção. As teias das aranhas que nos provocam dizendo que até elas dedicam tempo para construírem suas casas. E nós? Como construir as nossas casas sem passarmos ao redor de nós mesmos? Sem querermos conhecer o galinheiro que habita em nós e que nos dará a visão do todo? Para quê, mesmo, ver o todo, se apenas parte dele será mostrado?

Para conhecermos as coisas é preciso dar a volta. Dar a volta toda. E muitas voltas.

O nosso olhar, de verdade, faz a diferença.  Se passarmos a olhar para a parte de trás de nossas coroas, vamos verdadeiramente conhecê-las. Brigamos por coisas que nos enfraquecem, mas acreditamos que nos fortalecem justamente por valorizarmos apenas os camarotes. Os galinheiros não nos interessam. Mas são eles que nos formam. E mesmo assim, os deixamos esquecidos com entulhos, poeiras e teias.

Escondemos nossos entulhos no galinheiro e assim ele vai ficando inadentrável porque queremos dar conta de tudo. Saber tudo. Ser tudo. E como isto é impossível, priorizamos os camarotes. Afinal, como não querer estar lá? A visão é melhor, mesmo. Mas o que nos esquecemos é que a visão é construída a partir do galinheiro. Simples assim. E abrir mão dele é abrir mão da gente mesmo.

Daí os extremos e barulhos. Os desequilíbrios. Ainda é necessário fazer barulho para ser ouvido. Por isso os galinheiros são tão barulhentos. Eles apenas querem ser ouvidos por nós.

É preciso ir contra a nossa própria inércia para podermos acessar o nosso galinheiro. No começo, ele estará escuro, sujo, feio e com ar de abandono. Mas nada que uma lâmpada nova não dê conta de iniciar uma iluminação há tempos necessária. É preciso lutar por este espaço esquecido que tanto tem a nos ensinar. Somente lá poderemos dar a volta em nós mesmos e assim, saber quem somos. Lutar pelo espaço não é abrir mão dele. Os galinheiros existem em nós, e se soubermos ouvi-los, a nossa cena ficará mais bela e verdadeira.

Nossas singularidades nos representam. Sermos quem somos somente nos fará fortes. Mas somente do alto dos nossos galinheiros teremos esta visão. Minha singularidade está representada na poeira que esqueci lá. A sua também. Enxergar esta poeira me fará mais forte porque terei sobrevivido a ela. A poeira, as traças e as teias não querem medir suas forças com a gente. Apenas querem dizer o que buscamos não ouvir durante todo o tempo em que estamos ou estivemos nos camarotes.

Camarote é um lugar de refresco e de descanso. Silêncio.

Galinheiro é um lugar de trabalho e de movimento. Barulho.

O silêncio e o barulho são as nossas melhores respostas. São os nossos mapas. Ouvi-los será como receber os aplausos da vida nos cumprimentando.

Hoje temos uma só narrativa. Não podemos ter uma só narrativa. O camarote não pode nos representar, exclusivamente. Cresce-se, e muito, do alto de um galinheiro. Aliás, desconfio fortemente, que apenas de lá se cresce. Por isso, Saramago é tão grande. Ele soube, sempre, contemplar a sabedoria do galinheiro, nem que fosse de um simples teatro.

Os camarotes são expostos. E quanto mais exposto, mais banalizado porque todos querem estar lá. Um lugar de poucos aprendizados e de muitas armadilhas. Se soubéssemos disto, talvez mudássemos de opinião ao buscarmos apenas este lugar para estar. Podemos estar em vários lugares. Isto não nos banaliza.

Os galinheiros são recuados. Ninguém quer mostrá-lo em sua propriedade. E por não serem expostos, não são banalizados. São únicos. Proporcionam-nos um conhecimento que, se aproveitado, se transformará em sabedoria. Mas isto é para poucos. É preciso saber apreciar a beleza de um galinheiro. Aprender a ver esta beleza que é nativa em nós. Mas que insistimos em escondê-la. Beleza tem a ver com a forma como eu atuo no mundo. E quando entendermos isto, teremos o poder a nosso favor, e os nossos galinheiros serão lugares mais visitados, mesmo que os camarotes estejam a nossa disposição.

Somos frágeis em nossas singularidades. Somos sensíveis em nossas particularidades. Aceitar isto é fazer as pazes com a vida. Nossas singularidades e nossas particularidades nos constroem e destroem a cada dia. Somos a soma de todos os eus que vivemos. Queremos ter uma narrativa: os camarotes. E não podemos ter uma só narrativa. Por isso, os galinheiros deveriam ser mais visitados por nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Nietzsche, filósofo alemão, que diz:

“Torna-te aquilo que és”.

Ao aceitarmos a trajetória que a vida nos convida a seguir, a do camarote e, principalmente, a do galinheiro, nos tornaremos naquilo que somos. Fora deste caminho, apenas nos camarotes da vida, no que quer que tenhamos nos tornado, será falso, raso e sem a visão do todo. Algo completamente distinto do que trouxe Nietzsche, nos provocando ser e exercer a nossa essência, e do que trouxe Saramago, nos convidando a dar a volta em nós mesmos para que possamos, de verdade, nos conhecer. E isto somente do galinheiro. Lugar algum da vida nos dará uma visão tão privilegiada.

domingo, 13 de maio de 2018

A eficiência ineficaz

A palavra eficiência pede férias. Não há uma palestra, treinamento, evento, reunião, trabalho que ela não seja pronunciada e requerida. Afinal, por meio dela, buscamos melhorar as nossas entregas, os nossos números, os nossos trabalhos. Ela nos ajuda a enxergar o que podemos melhorar naquilo que não vai bem.

Sempre quando ouço esta palavra me lembro da Khazzoum, uma professora de Língua Portuguesa que tive, na época da Faculdade. Ela sempre falava que o bom e velho dicionário deveria nos fazer mais companhia. Que “consultá-lo, era um sinal de inteligência”, dizia.  Lembro-me dela porque esta é uma daquelas palavras que utilizamos, indevidamente, como sinônimo de eficácia. E não é. Elas até podem ter propriedades que se entrecruzam. Mas não são sinônimos.

Eficiência é fazer bem alguma coisa. É ser rápido, preciso, conciso. É fazer bem. Cumprir o seu dever. Eficiência é dar bons resultados. Alguém competente e produtivo é alguém eficiente. Faz muito com poucos recursos e ainda com qualidade.

Eficácia é fazer a coisa certa, diferentemente de fazer certa a coisa. A eficácia, por se preocupar em fazer o que precisa ser feito, busca resultados relevantes e sustentáveis. Alguém eficaz produz um resultado que é esperado dele. Tem foco, sabe aonde quer chegar. Realiza o que precisa ser realizado, e não apenas o que foi pedido para realizar.

Eficiência é fazer certo as coisas. Eficácia é fazer as coisas certas.

Por estas e outras que, de verdade, um dicionário faz falta. Quando comparamos estes dois significados, os sentidos se descortinam e reflexões emergem.

Podemos, então, ser extremamente competentes fazendo o inútil e o desnecessário? Aquela triste sensação que certamente já tivemos ao enxugarmos gelo, na vida, acho que dá conta de nos mostrar que sim, podemos ser extremamente competentes fazendo o que não precisa ser feito ou o que não deveria mais ser feito.

imagem tirada da internet

Pensar que estamos fazendo coisas supérfluas e que muito do nosso tempo está sendo desperdiçado com o inútil e com o desnecessário é assustador. Principalmente porque corremos o tempo todo achando que, desta forma, daremos conta de tudo o que precisamos fazer. E quem falou que tudo o que precisamos fazer precisa ser feito?

Camuflamos nossas entregas sob o nome de eficiência. Muitas delas são bem-vindas e têm a sua utilidade, mas muitas não precisariam ter sido feitas. Ou seja, teríamos sido eficazes, e não, somente, eficientes.

Quando refletimos sobre esta questão, percebemos que a alienação sempre esteve ao nosso lado, nos fazendo companhia. Somos eficientes, mas não capazes de atentar para o que está sendo entregue e o porquê desta entrega. Ser eficiente é fundamental se quisermos nos aprimorar como seres, como profissionais. Mas apenas a eficiência não nos levará adiante. Ela nos deixará no meio do caminho, cheio de curvas, atalhos e placas nos indicando diversas direções cujo sentido e o significado nos escaparão.

A eficiência é fundamental no mundo da operação, mas a eficácia é essencial no mundo do sentido e da essência. Há eficiência sem eficácia. Porém, não há eficácia sem eficiência.

É preciso que estes falsos sinônimos comecem a nos incomodar. No incômodo, buscamos ajuda e conhecimento, mesmo num bom e velho dicionário. Ao começarmos a nos debruçar sobre o real sentido das palavras, a nossa vida vem atrás, querendo participar e se tornar mais eficaz, uma vez que eficiente ela já sabe que somos.

Gostamos do elogio. Somos vaidosos, orgulhosos e competitivos, muitas vezes. E a eficiência, se atingida, nos fará receber elogios, o que alimentará a nossa vaidade, o nosso orgulho e nos fará acreditar que competir é a melhor forma. Que estar no pódio é o melhor lugar.

Enxergamos alucinações do alto de um pódio e vemos coisas inexistentes em função das nossas visões deturpadas. Quando descemos do pódio, a nossa visão se amplia. Quando estamos no pódio a nossa visão se encurta.

A eficiência está para o pódio, assim como a eficácia está para a descida do pódio. Nada contra vitórias e medalhas. Mas podemos ser vitoriosos e ganharmos as nossas medalhas além desse lugar. E para enxergarmos sentido em outros lugares para alcançarmos as nossas vitórias, somente atingindo a eficácia em nossas vidas.

Conhecemos a eficiência porque somos eficientes em muitas situações de nossas vidas. Fundamental e necessária. Mas avançar para que a nossa eficiência esteja em sintonia com a nossa eficácia, é a nossa lição de casa que, a propósito, está atrasada para ser entregue.

Eficácia é a moeda de recompensa que a vida nos presenteia por ter visto o nosso esforço de desprendimento do nosso orgulho, vaidade. Pois não há como buscar a eficácia, em nós, sem encontrarmos estes ilustres visitantes tão confortavelmente alojados, dentro da gente.

Quando passamos a buscar a eficácia em nossa vida, uma angústia aflorará e dará o ar da graça. Mesmo conscientes da necessidade da busca da eficácia, precisaremos, muitas vezes, continuar no mesmo modelo por falta de condições para que a mudança se exerça. Ainda não nos é possível desvencilharmos destes velhos modelos. O fato de buscarmos as nossas reflexões, os nossos avanços e o nosso desenvolvimento não significam que os conseguiremos imediatamente. Por isso, mesmo fazendo nossas reflexões em busca da nossa eficácia, ainda assim, nos encontraremos não sendo eficazes, na vida. O tempo, a consistência da nossa busca e a regularidade darão conta de nos recolocar no caminho. Só não podemos desistir. Foi muito trabalhoso e custoso chegarmos até aqui.

Falhamos, muitas vezes, nas nossas entregas que seguem ineficientes. Mas corrigimos rapidamente a rota e seguimos. Temos facilidade de mapear os erros e reorganizar o caminho. Mas temos extensas dificuldades para perceber que ser eficaz está longe de ser eficiente.

Eficiente está no nível do intelecto, da razão, do fazer. Eficácia está no nível da emoção, do sentir, do propósito.

Para sermos eficientes, basta talento, vontade, disciplina, foco, prazo, atenção. Para sermos eficazes, no mínimo, é preciso nos conhecer. Sem isto, como fazer o que, de verdade, precisa ser feito?

Ser eficiente é fazer bem algo. Nossas mãos e mentes serão as grandes mestras. Ser eficaz é fazer a coisa certa, o que precisa ser feito. É um trabalho interno. É ouvir o que o coração tem a nos dizer. É fazer uma caminhada interna, sem guia e sem bússola.

Somos eficientes para entregar um trabalho. Mas ineficazes para perceber a necessidade do colega. Eficientes para cumprir prazos. Mas ineficazes para perceber que estes mesmos prazos não são o suficiente para que o trabalho tenha relevância e sustentabilidade.

Somos eficientes para apontar o erro. Mas ineficazes para o perdão. Eficientes para ganhar dinheiro. Mas ineficazes para fazê-lo como meio para algo maior, e não como um fim, em si.

Somos eficientes para a realização. Mas ineficazes para a compreensão. Eficientes na teoria. Mas ineficazes na prática.

Somos eficientes para a entrega de mais um brinquedo para o nosso filho. Mas ineficazes para entender a real necessidade dele. Eficientes para a realização de um curso. Mas ineficazes para aplicarmos o que aprendemos lá.

Se queremos ser eficientes, basta aprimorar a nossa técnica. Se queremos ser eficazes, imprescindível será aprimorar o nosso olhar.

Muitas vezes, somos eficientes apenas por conveniências e sustentação de nossas redes de políticas. Mas não há como sermos eficazes passando por este mesmo caminho. A eficácia exige caminhos distintos, mais tortuosos, menos lineares e cheio de incertezas. Um caminho difícil que somente aquele que iniciou sabe do que se trata. Mas ao caminhar por ele, a beleza da vista será indescritível.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Peter Drucker, considerado o Pai da Administração Moderna, nascido no início do século XX, que diz:

“Não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente o que não deveria ser feito”.

Que a gente não fuja desta reflexão. Apesar de incômoda, ela é necessária. Quando descobrimos que fazemos coisas de forma eficientes, porém desnecessárias, e que a eficácia passa, obrigatoriamente, por uma revisitação a nós mesmos, o caminho fica mais leve.

E mais eficaz.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Os Riscados da Vida

Quando eu era criança, estudei, dos seis aos oito anos, num colégio chamado Dr. Celso da Gama, em Santo André. Um colégio cujas lembranças sempre estão presentes e que me trazem o cheiro da minha infância.

Lá, tive uma professora que, além de ensinar muito bem, como os outros que tive, me ensinou algo muito especial que carrego para a minha vida: a valorização dos meus riscados, dos riscados da minha vida.

Até os oito anos, não usei caneta na vida, apenas lápis. Em sala, no Celso da Gama, apenas podíamos usar lápis, e este era o combinado entre nós e a professora: “caneta só quando vocês forem grandes, ela dizia”. Obviamente um entre nós perguntava a ela: “e quando seremos grandes, professora?”. E ela, com paciência e um sorriso no rosto, respondia: “no ano que vem, a partir da terceira série, vocês já serão grandes. Aí, sim, vocês poderão usar a caneta.” Quando ela dizia isso, crescia um sentimento de responsabilidade dentro de mim. Uma mistura de ansiedade boa, aquela que estimula, e um sentimento de importância: afinal, no ano que vem eu seria grande e poderia usar a caneta.

O combinado de usarmos apenas lápis até esta idade era porque errávamos bastante, corrigíamos muitas coisas e não tínhamos, ainda, aquela destreza nas mãos que nos possibilitaria, um dia, escrevermos com firmeza e linearidade. Portanto, a borracha, era uma amiga diária e constante. Se escrevêssemos com canetas, os cadernos ficariam terríveis devido a tantas correções. Então, a forma que a escola encontrou foi determinar esta regra, vamos dizer assim, de utilizarmos lápis até os oito, e após esta idade, maiores, iniciarmos os nossos estudos podendo usar as canetas. Certamente continuaríamos a errar bastante a partir dos nove anos também, mas foi esta a regra adotada pela escola.

E assim seguimos. Errando e apagando bastante. Usando os nossos lápis até os oito anos. Vivíamos e estávamos num contexto no qual o erro era bem-vindo, aceito. Nunca levei uma bronca, sequer, porque eu havia errado. Nem mesmo meus colegas. Também nunca fomos repreendidos por ficarmos com as folhas dos nossos cadernos bem marcadas de tanto usarmos as borrachas. Algumas folhas dos meus cadernos chegavam a ficar escuras de tanto apagar. E como escrevíamos com força e apertávamos muito o lápis no papel, mesmo utilizando a borracha, as marcas ficavam. E ao escrevermos por cima, pareciam pequenos borrões nos cadernos. Bonito não ficava. Mas o significado de tudo aquilo já começava a se desenhar naquelas pequenas folhas escritas por mãos tão pequenas.

Lembro-me da professora passando de carteira em carteira. Eu era uma das que apertava muito o lápis no papel. E na hora de apagar, que eram muitas, os borrões ficavam marcados e manchados. Aí eu apertava mais ainda a borracha para ver se os borrões diminuíam. Apenas ouvia a professora dizer para mim: “não faz mal que você escreveu errado, é só apagar com calma e reescrever na mesma linha o certo, agora. Está tudo bem.”

Esta atitude, mesmo sem percebermos na hora e talvez sem intenções dirigidas por parte da professora, nos fazia ver o erro como parte do processo, e não como algo a ser camuflado e odiado. Não tínhamos a preocupação com o erro. De forma espontânea, aprendíamos que ele fazia parte da nossa construção, como uma etapa fundamental para nos levar adiante. A todos.

Nossas marcas, a lápis, nas folhas do caderno, mesmo apagadas, ficavam ali. Nossa história estava sendo respeitada e preservada.

A intenção da escola e dos professores, talvez, tenha sido, nas questões práticas, poupar um pouco a estética dos nossos materiais até que tivéssemos mais condições, domínio e autonomia para conquistarmos o direito de usarmos canetas. Mas também, mesmo sem propósitos previamente delimitados, nos fizeram crescer e estudar num ambiente no qual os erros, os borrões, as manchas que os grafites deixavam não eram vistos como problemas, mas sim como etapas da nossa construção cognitiva e social. Como o medo não fazia parte, tínhamos tempo de fazer o que era importante: nos conhecer por meio da nossa escrita, dos nossos erros e da nossa produção.

Com a ausência do medo, enxergávamos os nossos riscados, borrados e manchados, nos nossos cadernos, de forma espontânea.

imagem tirada da internet

O que aquela professora talvez não soubesse, na época, é que ela estava ajudando a construir a nossa autoestima. Víamos os nossos borrões, mas não nos envergonhávamos deles. Ela estava ajudando a construir a noção de trajetória e de caminhada, dentro de cada um de nós. Quando enxergávamos os nossos riscados e borrados na folha de papel, sabíamos que já tínhamos passado ali. E isto fazia e faz toda a diferença. Ela estava nos ajudando a valorizar a nossa própria história: uma história de riscados, borrões, manchas, acertos e consertos que estávamos iniciando, naquela época. Com oito anos de idade, os borrões, manchas, acertos e erros ainda são pequenos. Mas existem. E os riscados nas folhas do caderno darão conta de nos mostrar que a nossa caminhada foi iniciada.

Quando sabemos que passamos ali, o medo recua e a nossa coragem se anuncia. Quando sabemos que passamos ali, e os nossos riscados e borrões não deixam dúvidas, o caminho de volta fica mais fácil.

Os riscados, os borrões, as manchas, os acertos e os erros são as marcas dos nossos pés no chão. Reescrever sobre eles os outros passos que damos, também deverão ser feitos com os nossos pés no chão. Mas para que nossos pés caminhem mais firmes, será preciso ter acesso e enxergar os nossos riscados, os nossos borrões, as nossas manchas. E isto somente escrevendo a lápis e, de preferência, com professores que enxergam valor nisso e que não se importam com a falta de estética que terá o nosso caderno, após apagar algo escrito.

O tempo passou, fui para o ano seguinte e conquistei o direito de usar canetas. Mas confesso que nunca abandonei o uso do lápis. Minhas memórias sentem a falta dele, e ele sempre está ao alcance das minhas mãos. Ele me faz lembrar que a construção é possível, e que o erro é só uma etapa imprescindível para acerto. Gosto de escrever a lápis para lembrar que, mesmo eu errando e apagando, é preciso valorizar o traçado borrado e manchado, e saber, acima de tudo, que passei ali e que minha trajetória vem de longe.

Quando valorizamos os traçados tortos, errados e manchados, o próximo passo é sempre mais fácil. E ter tido, inclusive, professores que valorizaram estes traçados tortos e borrados, com manchas aparentes mesmo eu escrevendo por cima, fizeram toda a diferença.

Assistindo a um programa de televisão anos atrás, comecei a acompanhar a entrevista de um artista plástico que desenhava algo muito bonito. Como minha habilidade para desenho é inexistente, a habilidade e a rapidez com que ele desenhava me chamaram a atenção. Foi isto o que prendeu a minha atenção. O nome dele era Amílcar de Castro. Durante a entrevista, ele começou a dizer que trabalhava a superfície das coisas. E que somente desta maneira, chegaria à forma. Neste momento, parei de prestar atenção ao que ele desenhava, para prestar atenção ao que ele dizia. Enquanto desenhava, disse, também: “você tem que sempre trabalhar com um lápis e escrever bem forte, para ter riscados fortes. Porque se você errar e tentar apagar, você deixará a marca do lápis, do riscado no papel, para saber e se conscientizar de que você passou por aqui.” Acho que ele também escreveu muito a lápis, quando criança.

Lembrei-me, imediatamente, daquela professora. Uma pessoa simples, mas que nos trouxe aprendizados profundos. Ouvindo aquela entrevista, o famoso lápis e seu contexto me vieram à mente. Um sentimento de gratidão me preencheu por ter podido conhecê-la e mais que isto: desfrutado de seu conhecimento que carrego até hoje, nas escritas com os meus lápis. Como disse Amílcar de Castro, “...se você errar e tentar apagar, você deixará a marca do lápis no papel, para saber e se conscientizar de que você passou por aqui.” Foi o que ela fez conosco, talvez sem perceber: nos permitia apagar os nossos “erros”. Mas como eram escritos a lápis, nunca mais podíamos dizer que não havíamos passado por ali. E isto fez toda a diferença. Ajudou-nos a construir a nossa forma trabalhando na nossa superfície, como disse o artista plástico. Gratidão.

Com a tecnologia e a facilidade de escrevermos tudo diretamente no computador, inclusive as correções são feitas imediatamente, os ganhos existem, claro. Mas algo de muito valioso se perdeu: a memória dos nossos erros. Tão importantes quanto os nossos acertos. Fazemos de tudo para evidenciarmos os nossos acertos, mas fazemos de tudo, também, para apagarmos a história dos nossos erros. É uma pena. Os nossos erros são vistos por meio das marcas. E como deixar marcas escrevendo apenas com canetas? Nossas memórias nos constroem.

O lápis respeita a nossa trajetória, nos relembra que passamos ali e nos mostra, com marcas, nos riscados: os riscados da nossa vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento antigo, que diz:

“Quando você pensar em desistir, se lembre do trabalho que deu chegar até aqui.”

Desistir é uma das conquistas da maturidade. É importante desistir daquilo que não nos faz grandes, e que insiste em nos remodelar com moldes retrógrados. Uma desistência calculada e consciente porque sabemos que aquela rota deve ser desprezada. Mas nunca desistir por falta de crença de que podemos, conseguimos e devemos. Na dúvida, vamos olhar para os Riscados da nossa Vida. Eles não nos permitirão abandonar o caminho. Mas para isso, deveríamos ter escrito bastante a lápis quando criança, o que certamente ocorreu.

Um lápis e uma borracha: instrumentos de Vida. Para os Riscados e para os Acertos. Instrumentos solidários, atemporais, úteis e, particularmente, descortinadores de horizontes, como disse o poeta Manoel de Barros.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Nossas folhas secas

Cuidar do nosso jardim nem sempre é uma tarefa fácil e simples. Para quem tem, sabe que uma simples planta requer atenção, dedicação e cuidados. Que dirá um jardim. Por conta da correria diária, o que não poderia ser desculpa, deixamos nosso jardim ou nosso pequeno vaso de plantas aquém do merecido. E no final de semana, com mais tempo, regamos e, se lembrarmos, colocamos um pouquinho a planta ao sol. O nosso jardim recebe uma visitinha nossa, meio apressada, e tiramos algumas folhinhas secas e amareladas, caídas ali.

imagem tirada da internet

Cuidar do nosso jardim, e de tudo o que há nele, é tarefa fundamental e intransferível. Podemos até contratar um jardineiro. Mas ele imprimirá a identidade dele lá, e não a nossa. Ele até pode nos ajudar a cuidar, mas o principal trabalho deve ser feito por nós, por nossas mãos. Um trabalho pessoal, diário e intransferível.

Quando nós mesmos cuidamos do que é da nossa responsabilidade, tudo flui e parece estar no lugar. Com o nosso jardim não é diferente. Cuidado e sendo atendido como se deve, floresce. Marginalizado e demandado a terceiros, empobrece e entristece.

Ao visitar o nosso jardim com frequência, e cuidar dele, as folhas secas caídas são facilmente percebidas por nós. E se neste momento, a maturidade estiver sendo uma de nossas principais companheiras de jornada, abriremos um bom e velho saco e as colocaremos lá, tendo o cuidado de abaixarmos, com toda a humildade que ainda não temos, para pegá-las no chão. Outras, mais rápidas, se deixam guiar pelo vento, e vão mais longe. Apressar o nosso passo será preciso se quisermos alcançar as que estão distantes. Outras vão para debaixo do banco do jardim, e ali, se não percebermos, ficarão um bom tempo. Após, juntamos todas elas dentro do saco e ouvimos aquele barulhinho característico das folhas secas: um ruído incômodo nos lembrando da limpeza ainda não realizada por nós e do trabalho a ser feito.

Trabalho árduo, nossas mãos ficam doloridas e machucadas. Mesmo colocando luvas. A preguiça e a procrastinação são duas grandes aliadas do amanhã. É preciso tomar cuidado com elas. Possuem discursos mansos e convincentes.

Enchemos um saco, e percebemos que vamos precisar de outros para acomodar todas as folhas secas e matinhos do nosso jardim. E aquele barulhinho seco da planta dizendo que “há algum tempo você não passa aqui” faz eco em nossos ouvidos.

Aquele que frequentemente visita o seu jardim não abre espaço para que folhas secas se acumulem. A limpeza diária é uma grande aliada daquele que já compreendeu que o jardim é de responsabilidade dele. É até prazeroso, se souber enxergar isto.

Aquele que não frequenta o próprio jardim ou vai até ele esporadicamente, corre o risco de não mais reconhecê-lo ao vê-lo. E não reconhecer algo é abrir mão de tudo aquilo que foi construído. Um abrir de mãos da relação com a gente mesmo que favorece o enorme acúmulo de folhas secas e barulhentas.

É preciso, portanto, conhecer, reconhecer e compreender o nosso jardim, assim como a nossa relação com ele. Quando desta forma fazemos, continuamos íntimos de nosso jardim e sustentada em bases sólidas a nossa relação com ele, mesmo que algumas folhas secas estejam perdidas e esquecidas. A solidez da relação que temos com o nosso jardim nos fará irmos em busca de nossas folhas secas e darmos o devido destino a elas.

Que a intensidade e a constância sejam as armas contra a preguiça e a procrastinação no momento de limparmos o nosso jardim e de, mais importante, mantermos a frequência de limpá-lo e de visitá-lo.  Sem desculpas. Sem culpar o outro pelas nossas folhas secas. Sem jogá-las para o quintal do nosso vizinho. Podem nunca enxergarem os nossos avessos. Mas eles existem.

O cuidado que temos para com o nosso jardim está ligado ao compromisso que mantemos com ele. A solidez se firma no cuidado. Um não se dá sem o outro.

Cuidar, cuidado e compromisso criam uma relação de confiança e nos dão a condição para Ser. O contrário cria o vazio e a solidão.

Folhas secas representam a ausência. Folhas saudáveis representam a vida.

Folhas secas representam a falta de cuidado consigo, com o jardim e com a própria vida. Folhas saudáveis representam o acordo sendo seguido. As respostas sendo dadas. A atenção sendo dispensada.

Folhas secas representam o descaso, o esquecimento, o depois, a vergonha, a vaidade. Folhas saudáveis representam a plenitude, a dimensão do espaço que ocupamos no mundo, as nossas bases muito bem estruturadas.

Folhas secas. Folhas saudáveis. Possuímos as duas. De forma frequente e abundante. As secas nos chamam a atenção para o que não está sendo feito. As saudáveis nos parabenizam por termos acessado o caminho certo. Soubemos ler as placas corretamente. As secas fazem barulho porque somente assim elas serão ouvidas. As saudáveis não fazem barulho porque já conquistaram seu lugar ao sol.

As folhas secas possuem muito a dizer, se soubermos ouvi-las. Talvez, desta forma, elas se afastarão dos nossos jardins. E se afastando, é como se as tirássemos das margens da vida aonde as colocamos durante todo o tempo da nossa ausência, em nosso jardim. Uma ausência notada pelas folhas.

Um tempo de relevante ausência que foi capaz de torná-las secas.

Secas, somente nos resta recolhê-las e, jamais, jogá-las para o quintal do nosso vizinho. A maturidade não nos permitirá fazer isso, não é mesmo? De qualquer forma, somente na hora de limparmos os nossos jardins é que saberemos como, verdadeiramente, agiremos. Afinal, nos conhecemos mais observando as nossas reações do que as nossas ações. Na ação, estamos impregnados pelo estatus, pela vaidade, pelo querer aparecer. Queremos mostrar um belo jardim. Mas na reação, quando nossas folhas secas nos acusam, não temos tempo de pensar.  E, infelizmente, o quintal do nosso vizinho pode se oferecer como uma solução eficiente. Quem vai dizer que aquelas folhas não são do jardim dele?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Millôr Fernandes, que diz:

“Viver é desenhar sem borracha.”

Estejamos firmes no recolhimento de nossas folhas secas e no cuidado do nosso jardim. Durante a vida, receberemos, apenas, sacos para recolhermos as nossas folhas secas, e méritos pelas saudáveis que construímos.

Mas nunca borrachas, para apagarmos o que quer que seja. Viver é, em uma análise possível, ter atenção ao caminho que se constrói.

Um caminho que não permite voltas e nem ensaios.

domingo, 22 de abril de 2018

Nossas fronteiras pedem passagem

O professor João Adalberto Guimarães, brasileiro, em um intercâmbio na Europa, entrou numa estação de Metrô em Estocolmo, capital da Suécia.

Aguardando na fila para comprar o seu bilhete, ele notou que havia, entre muitas catracas normais e comuns, uma de passagem grátis e livre. Ao chegar a sua vez no guichê, perguntou o motivo daquela catraca permanentemente liberada, sem segurança por perto, para a vendedora.

Ela explicou que aquela catraca era destinada às pessoas que, por qualquer motivo, não tivessem dinheiro para o bilhete da passagem.

Com sua mente incrédula, acostumada ao jeito brasileiro de pensar, não conteve a pergunta, que para ele era óbvia:

- E se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?

A vendedora espremeu seus olhos, e num sorriso constrangedor, disse ao homem:

- Mas por que ela faria isso?

Sem resposta, ele pagou o bilhete e passou pela catraca, seguido de uma multidão que também havia pago por seus bilhetes.

E a catraca livre continuou vazia.

imagem tirada da internet

Gloria Perez, autora e escritora de novelas, disse, em entrevista, após ser questionada sobre como é o processo de criação dela e sobre como ela tem a inspiração para abordar tantos temas relevantes em suas obras:

“olho as pessoas como são. Examino o que gostariam de ser e escrevo sobre este abismo.”

O texto sobre a catraca livre exemplifica este abismo dito por Gloria Perez. Um abismo que separa o que somos do que poderíamos ser, se não fosse a nossa insistência e crença nos caminhos irrelevantes da vida. Este abismo que vai em nós é a representação das nossas dores e das que causamos, também.

Pensar que o outro possa se utilizar da catraca livre mesmo tendo o dinheiro da passagem é estar do lado de cá. E ter em mente a tranquilidade de uma resposta como, “mas por que ela faria isso?”, é estar do lado de lá. E entre estas duas frentes, um abismo. Remover esta distância e outras tantas nas quais vivemos talvez seja o nosso grande papel a ser desempenhado aqui.

Termos a mente incrédula, acostumada ao nosso modelo mental, e perguntar: “e se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?”, é mais que acreditar na corrupção e no mal que vai em nós. Afinal, corrupto, além de outras coisas, é todo aquele que se utiliza de formas e de meios ilícitos para conseguir vantagens e ganhos pessoais. É assumir que há, entre nós, um ato de comportamento social, e não somente corrupção. Ou seja, a corrupção é uma consequência de algo grave: nosso comportamento social. Nosso estar no mundo.

Utilizarmos um benefício que não poderíamos deveria nos incomodar e nos impedir de agir. Mas por que isto ainda não é uma realidade em muitos lugares? A resposta está dentro de cada um de nós. E esta resposta passa por nos perguntar o que faríamos se víssemos uma catraca livre de pagamento a nossa frente?

Ainda não consumimos a Ética, como deveríamos, pela nossa falta de experimento. Nossas vivências deveriam cobrir esta falta. Mas infelizmente não dão conta. Quando as chances surgem, que são inúmeras, sempre estamos ocupados com o desnecessário. Poucos são os experimentados. Aquelas pessoas que, na essência e na atitude, entendem o sentido disto, a catraca livre é uma realidade.

Invejar aquele que já usufrui das catracas livres seria o mesmo que abdicar da possibilidade de termos e de vivermos esta mesma situação. Quando invejamos o outro, além de buscarmos desestabilizar o bem que há nele, destruímos a nós próprios nos impondo limites que nunca existiram. Portanto, se há algo cuja vivência também gostaríamos de ter, por que não vamos buscar? O primeiro passo é sempre o mais difícil, porém é ele que determina o sucesso ou não da caminhada.

Estar do lado de cá do abismo, como ainda estamos, requer uma certa dose de alienação. Ela nos permite não enxergar o óbvio e aquilo que tropeça a nossa frente. Sabemos que há o lado de lá e até achamos bom e bonito, mas nos parece, num primeiro momento, um tanto utópico aquele lugar. Por isso, ficamos aqui, mesmo.

Falar sobre estes abismos que há em nós é falar sobre as nossas curvas que, ao fazê-las, nos defrontamos conosco mesmos. Mas assustados, tratamos logo de buscar um retorno. Queremos estar do lado de lá, mas quando acessamos o caminho, ele nos assusta e recuamos.

As catracas livres representam aquele que avança e que caminha. Não há milagres. Há esforço, busca e abnegação do que não serve mais, daquilo que dificulta o acesso para o outro lado. E para chegarmos lá, nossos abismos precisarão ser tratados e curados.

Curamos e tratamos os nossos abismos quando deixarmos de dar as mãos para a omissão. Quando ela deixar de ditar as respostas da nossa vida. Omissão é uma falta de atenção para com a vida. Uma ausência.

Curamos e tratamos os nossos abismos quando nos enxergarmos e nos apropriarmos do problema como realmente nosso. E é nosso. Ao fazermos a pergunta: “e se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?” é importante dizer que “esta pessoa” simplesmente pode ser a gente mesmo que, num momento de fragilidade e de imoralidade, utilizamos um benefício indevidamente.

Se quisermos, portanto, estarmos do lado de lá do abismo, será preciso reforçarmos os calçados porque a caminhada será longa.

A cura somente virá quando enxergarmos o valor e a necessidade dela. E valorizando a cura, respostas como a da vendedora de bilhetes: “mas por que ela faria isso?” serão comuns entre nós.

Os abismos existem porque precisam nos dizer algo. Existem porque os criamos. Aprofundam-se porque damos espaços e acomodações a eles. Perpetuam-se porque a arrogância do saber ainda nos faz companhia diariamente. Integram-se a nossa rotina porque a nossa soberba em achar que somente o outro é que poderá usar a catraca indevidamente faz eco em nossas mentes e em nossos corações.

Os abismos existem para nos fazer entender que de profundidade eles entendem. A medida que o tempo passa, eles se fortalecem e crescem. E quando nos damos conta e olhamos para eles, eles também olharão para nós, como disse Nietzsche, nos chamando a atenção para que a gente não se transforme no próprio abismo.

A vida nos dá chances inúmeras de transpormos os nossos abismos e de até não permitirmos o nascimento deles. Mas onde estávamos quando essas chances chegaram?

Não nos cabe criticar um País em detrimento do outro, comparar um povo a outro, mas sim o que estas atitudes diferenciadas representam para nós e qual é o nosso distanciamento em relação a elas. Problemas todas as nações possuem. Mas escolher mudar este patamar depende da atitude individual.

Catracas livres: ainda não temos por um limite imposto a nós mesmos. Estamos distantes disto porque assim construímos este distanciamento. Assim alimentamos os nossos abismos.

Catracas livres: um caminho ainda não percorrido, mas possível.

Catracas travadas e livres são a representação da mesma face. Do mesmo abismo. Se queremos ir mais longe e chegarmos ao outro lado, é bom começarmos logo o trabalho. Planejamento, intensidade, vontade e regularidade serão ferramentas necessárias.

Abismos existem para serem vencidos. Abismos vencidos, espaços trilhados e conquistados. Quando encurtarmos os abismos e alongarmos as nossas pernas, os distanciamentos estarão fadados ao declínio.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Lao-Tsé, filósofo e escritor da antiga China, que diz:

“Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias”.

Conhecimento técnico nós temos. Conhecemos, por exemplo, muitos vieses do nosso caráter para saber de nossa capacidade de utilizarmos a catraca vazia, principalmente se estivermos com pressa ou se ninguém estiver vendo. Mas sabedoria, que é o conhecimento da vida, capaz de nos permitir dizer: “- mas por que ela faria isso?”, somente eliminando coisas todas os dias, como o supérfluo, o desnecessário, o tendencioso e o marginal. Esta limpeza nos fará enxergar as catracas livres, e o mais importante: permanecerão livres até que alguém, verdadeiramente, precisar usá-la. E este alguém poderá ser a gente mesmo.

domingo, 15 de abril de 2018

Feche os seus parênteses

Nossos lentos avanços mostram e evidenciam os nossos retrocessos. A tecnologia na qual todos estamos inseridos, o mundo tecnológico no qual vivemos e o saber que achamos que temos somente porque somos ágeis nos dedos e nas teclas, rápidos nas postagens e fluentes na navegação na rede, na realidade, marcam nossos lentos avanços. Poderíamos estar mais longe.

A tecnologia é fundamental e nos ajuda muito. Todo o agradecimento a ela. Desmerecê-la seria, no mínimo, leviano e insensato. Ela nos proporciona avanços e acessos a lugares e a questões inimagináveis até pouco tempo. Encurta distâncias, traz descobertas, possibilita estudos, proporciona facilidades. Não me refiro, portanto, ao bem que ela traz, porque ele está claro, mas sim ao mais longe que poderíamos estar se não fosse o nosso lento caminhar, o nosso desvio de rota e de atenção ao que verdadeiramente importa. E este lento caminhar, quando poderíamos avançar, nos dá evidências dos retrocessos que vivem em nós.

A tecnologia deveria existir para nos servir e não o contrário. Ela deveria existir para nos ajudar a sermos melhores e a fazermos, deste mundo, um lugar mais belo de se viver.

Estamos muito expostos. Muito disponíveis. Muito acessíveis. Muito de muito. Muito do muito. Isto denota as carências e faltas que habitam em nós, mas que insistimos em colocá-las para debaixo do tapete. Este excesso de exposição é aprovado por nós. Colocamo-nos no centro das atenções e queremos todas as atenções. Somos localizáveis o tempo todo porque também assim o permitimos. Colocamo-nos como vítimas de uma situação que buscamos, de uma posição que gostamos de estar: a da exposição. Quando não estamos expostos de alguma forma (comentários nas redes, fotos, vídeos, likes, etc) é como se estivéssemos à margem da vida. É como se algo nos faltasse. Uma sensação de alguém oferecer uma festa e não nos convidar. Conferimos um poder às redes e à tecnologia que não deveríamos. Isto tudo nos faz criar vínculos e laços com o desmedido, desnecessário, efêmero. Faz-nos ficar viciados na novidade, no curto, no raso, no superficial.

Superestimamos o som da mensagem que chega e paramos imediatamente o que estamos fazendo para ver sobre o que se trata. Quando recebemos um zap e não respondemos na mesma velocidade daquele que nos enviou, somos cobrados. Quando ligamos para o celular de alguém e este mesmo alguém não atende, ficamos aflitos. Uma postagem no facebook foi realizada por um amigo desconhecido e indiferente à nossa vida, mas imediatamente curtimos ou, no mínimo, colocamos algum comentário. O twitter nos encaminha um e-mail dizendo que temos atualizações que são, muitas vezes, inúteis e desprovidas de conteúdos de qualidade, mas que damos uma passadinha lá.

São tantas as janelas abertas na parte inferior do nosso computador, que o sol mal entra nas janelas verdadeiras da nossa casa. Perdemo-nos no meio de tantas informações, mas o conhecimento está à margem há tempos. O que fazemos com tudo o que nos chega?

Valorizamos a nossa agilidade na navegação, elogiamos os mais jovens pela desenvoltura com que manuseiam as máquinas, acessamos notícias, zapeamos na rede. No final do dia, para onde exatamente fomos? Aquilo tudo nos construiu ou não?

O tempo é uma moeda com a qual não podemos brincar. Além de não aceitar desaforos, costuma cobrar pela inabilidade do uso.

Somos interrompidos a todo o momento não por causa da tecnologia, mas sim por causa de nós mesmos que nos deixamos interromper a qualquer hora, momento e circunstância. A questão não é a tecnologia, mas sim nosso agir diante isto. Criamos um monstro, e agora não conseguimos mais controlá-lo e nem viver sem ele.

Vivemos excessos de interferências que nos causam sobreposições. Estes excessos de interferências e de interrupções simbolizam o nosso retrocesso. Um retrocesso que nos faz ainda falar sobre os mesmos velhos assuntos que, apesar de ressurgirem com outras roupagens, possuem a mesma essência. A violência é um destes velhos e mesmos assuntos. A nossa agressividade ainda é um velho assunto. A covardia e o egoísmo ainda são velhos assuntos, mas que agora se apresentam de forma tecnológica.

Abrimos tantos parênteses ao falarmos, que nos perdemos. O que estávamos falando mesmo?

imagem tirada da internet

Estamos ansiosos por informações que não sabemos o que fazer com elas. Esta ansiedade cria instabilidade. E na instabilidade, obviamente, nada se estabelece. Um livro de 50 páginas se torna grande. Pensar exige um transbordar de nós próprios. E como acontecer este transbordamento se logo ali há mensagens para serem lidas agora?

Senso de urgência e de prioridade são distintos de falta de triagem e de filtro para selecionarmos o que, verdadeiramente, importa. Como tudo se tornou urgente, como uma das medidas do sucesso se tornou o imediatismo, o pensar e o refletir realmente estão ficando fora de moda. Mas desconfio que este não seja o melhor caminho.

Coisas vão sendo colocadas sobre as outras, janelas abertas sobre as outras, mensagens sobre as outras. Sobreposições camuflam a mesmice, o retrabalho, o ineficiente, o favorecimento de alguém, o cansaço. Sobreposições nos dão a falsa sensação do trabalho, do pertencimento e da utilidade porque criam necessidades desnecessárias, que somente serão percebidas lá na frente, quando alguém quiser resolver algumas velhas questões.

Portanto, sobreposições interessam àqueles que querem nos desviar da rota e do caminho.

Textos são lidos mecanicamente porque há algo pulando aqui na nossa tela, clamando nossa atenção. São tantas as irrelevâncias que nos chamam a atenção, que aquilo que necessita, de verdade, do nosso olhar, muitas vezes fica para segundo plano. É uma pena.

Somos o tempo todo interrompidos. É fundamental compreendermos que interrupções, discretamente, sugerem uma troca de contextos. Elas nos tiram do lugar no qual estávamos, que poderia ser um lugar necessário. O pior é que muitas vezes não voltamos para este lugar certo e necessário. E a nossa oportunidade de transformação e de reflexão se perde no meio dos erros construídos por nós, e por uma sociedade que anseia pelo rápido e pelo novo para que não tenha tempo de lidar com aquilo que demanda tempo: nós.

Quando somos interrompidos, invariavelmente, paramos de fazer o que estávamos fazendo para atendermos a algum chamado. E muitas vezes um chamado que poderia esperar ou até que não deveria ser atendido.

Interrupções são um compartilhamento do nosso tempo. Com ou sem a nossa autorização. Um
desperdício de tempo com eventos diferentes.

A interrupção e a interferência forçam uma mudança que nos transfere da nossa rotina.

Estamos fragmentados, viciados em novidades, em notícias curtas, em manchetes que nada dizem. Interrupções têm prioridade, mas estão se tornando a regra. Ou não?

Que a gente se desligue dos cliques imediatos e das respostas prontas para que possamos nos ligar nas possibilidades daquilo que poderemos ser.

Estar o tempo todo conectado nos faz abrir muitos parênteses e nos ausentar de nós mesmos. Quando fechamos os nossos parênteses, abrimos espaços em nossas mentes para o pensar e para o ir além. A conexão tecnológica é importante e fundamental. Mas que saibamos delimitar espaços e tempos. É isso. Mais que isso, é delegar o indelegável. É permitir invadir espaços preciosos de tempos que poderiam ser utilizados para a ação e reflexão.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Rubem Alves, um escritor atemporal, que diz:

“No silêncio, mora o mundo.”

Por que, então, este silêncio nos incomoda tanto? Acredito que seja porque nunca aprendemos a silenciar os nossos ruídos, que são muitos. E as interferências e interrupções cumprem bem o papel de não permitirem nos ouvir.

A realidade nos traz a velocidade da interrupção e da interferência a todo momento. Estarmos o tempo todo conectados e velozes apenas nos dedos, nos tira a velocidade do pensar e a possibilidade de nos revisitar e enxergar o que nos perturba.

Viver é bem mais complexo que a própria realidade. Ainda mais sob os efeitos cruéis e ineficientes de tantas interferências e interrupções. Por isso, é preciso parar para que se possa seguir. Um seguir firme, sustentável e focado, mesmo que interferências e interrupções insistam em nos distrair. Quando chegarmos neste ponto, certamente não teremos mais tantas janelas abertas na parte inferior do nosso computador. Porque outras, bem mais importantes, terão sido, há tempos, abertas.

domingo, 8 de abril de 2018

Ditos ocos, ouvidos moucos

Sonhar é viver, e viver é sonhar. Um depende do outro. Um completa o outro. Quando enxergamos isto, o nosso compromisso com a vida se torna sólido, verdadeiro e profundo, e todas as possibilidades que ela nos oferece são lucidamente percebidas por nós. No entanto, esta lucidez e fluidez com que percebemos este sonhar e este viver, ou seja, nossas possibilidades, vão cedendo e perdendo espaço na mesma medida que dedicamos tempos preciosos para ouvirmos o desnecessário, o vão, o tolo, o inútil. Portanto, deixar de ouvir algumas vozes, alguns ruídos e barulhos faz todo sentido. Ouvidos moucos são bem-vindos.

“Ditos ocos, ouvidos moucos”, diz o provérbio português.

Onde estão os nossos sonhos? Dentro das nossas vidas. Para enxergá-los, será necessário silenciar as nossas tormentas internas e calar vozes que teimam em nos desviar da rota que buscamos trilhar. E infelizmente muitas vezes elas conseguem. E triunfam.

Sonhar e realizar é maravilhoso. Mas nem sempre sonharemos e realizaremos. Faz parte da vida e do nosso processo de construção e de consolidação como seres autônomos que somos ou que, no mínimo, buscamos ser.

Sonhos realizados significam que andamos de mãos dadas com o tempo e com a vida. Sonhos ainda não realizados podem significar um convite do tempo e da vida para que nossas mãos estejam estendidas. Assim eles podem nos alcançar.

O tempo e a vida sempre nos darão pistas que revelarão os motivos da realização e da não realização dos sonhos. Acima de tudo, acreditar e desenvolver as condições para. Se vamos conseguir, somente o caminho dirá. Guimarães Rosa diz que “...a realidade está na travessia”. Portanto, nossa realidade está no sonhar, no viver e nos pés que precisamos tirar do chão se quisermos avançar, apesar de eles nos conectarem com a base.

Ouvidos moucos nos ajudam a não afrouxarmos diante à vida. Ajudam-nos à concentração no que, verdadeiramente, importa. Fernando Pessoa nos provoca dizendo:

“Os meus sonhos são mais belos que a conversa alheia.”

Aquele que deixou de sonhar, normalmente, já não tem muito mais o que fazer. E por conta do tempo ocioso que resta a ele, comumente tenta e busca destruir o sonho do outro. E destruir o sonho do outro são conversas alheias.

É preciso fazer ouvidos moucos para aqueles cuja capacidade de sonhar se perdeu.

Deixar de sonhar nos causa desequilíbrios. Por isso, aquele que se perdeu de sua capacidade de sonhar busca apoio nos ombros e ouvidos alheios.

Todo aquele que deixou de sonhar, deixou de viver. E se não estivermos atentos, faremos companhia a esse cujo sonho se tornou desconhecido.

Ouvidos moucos nos blindam de interferências que poderiam nos fazer desviar da rota. Eles não são sinônimos de alienação ao que precisa ser ouvido por nós, mesmo que seja algo difícil como uma crítica ou a constatação de que ainda não estamos prontos. A vida nos transmite recados e é preciso termos a humildade para ouvi-los. Ouvidos moucos são, fundamentalmente, ferramentas necessárias que nos ajudam e fortalecem a nossa caminhada. Utensílios imprescindíveis para não abandonarmos o caminho e a rota porque sabemos que estamos na direção correta.

Sonhar é fundamental para aquele que vive. É o movimento que conduz. É o recuo como refúgio. É o arriscar para se acertar. Quando não desistimos, o sonho permanece.

O sonho ilumina nossas estradas. É ele quem nos acomoda. A falta de sonho nos deixa desconectados com a vida. A lua perde todo o sentido.

Sonhar nos ajuda a ser seletivos e objetivos. O tempo nos exige isto.

Aquele que sonha ouve os seus silêncios. Faz o caminho de volta para se reencontrar. Aquele que sonha segue as próprias marcas deixadas no chão. Desta forma, o caminho de volta fica mais fácil e familiar.

O homem que sonha é um corajoso, um destemido.

As conversas alheias são os excessos diários que cumprem o papel de nos chamarem à reflexão. São exatamente os excessos que nos fazem refletir sobre a necessidade do limite. São os excessos de exposição que nos fazem refletir sobre a importância e lucidez da reclusão e da preservação. Estas conversas alheias e desnecessárias servem para nos fazer refletir sobre a relevância do silêncio. Elas não nos permitem sonhar. Falam muito e ocupam espaços não autorizados. Entram e se alojam. Elas nos intoxicam porque nos tiram da relação conosco.

É preciso tempos vazios para a contemplação. Nela, os sonhos ressurgem. Reaparecem. Descem das estrelas, aonde os colocamos, para alcançarem as nossas mãos.

Os sonhos são a prova de que a vida existe. E a vida é a prova de que se é possível sonhar.

O sonhar nos torna humanos e singular a nossa experiência. Exige tempo, reflexão e construção. Quando deixamos de sonhar para nos conectar, abrimos mão de um espaço de construção dentro de nós.

É preciso fazer ouvidos moucos para que conversas alheias não tenham vez conosco. Pois como disse Fernando Pessoa, os nossos sonhos são mais belos. E são mesmo!

Que as conversas alheias, os barulhos, interrupções, desestímulos sejam apenas belas oportunidades para reforçarmos aquilo que não queremos.

Que os nossos sonhos nos encontrem na bela vida que vivemos. Os sonhos nos constituem. Revisitá-los é como olhar para nós mesmos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Victor Hugo, romancista e poeta do século XIX, que diz:

“Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.”

Que a nossa vida seja este caminho vivo, como uma representação dos nossos mais belos sonhos estrelados, como disse o Poeta. Somente quando calamos as vozes neutras e dúbias, é que as estrelas podem ser vistas. Quando damos vozes a vozes desprovidas da crença no sonho, as estrelas choram e se escondem para não serem vistas.

Que a gente não tenha pressa para preencher as nossas lacunas. Elas indicam o caminho para os nossos sonhos, para a nossa vida. Enquanto nossos sonhos existirem em nós, estaremos vivos e o melhor: sonhando.