domingo, 28 de julho de 2019

Estou fazendo a minha parte

Fernanda Montenegro diz algo muito curioso: “você não enxerga os alfinetes quando você não os está procurando. A partir do momento que você decide ver alfinetes, começa a prestar atenção em alfinetes ou a procurá-los, muitos deles surgem.”

Na verdade, os alfinetes sempre estiveram lá. Nós é que não os víamos. Quando começamos a dedicar a nossa atenção a determinadas coisas, me parece que elas começam a ser vistas. Uma conclusão óbvia, até sem sentido. No entanto, um óbvio que não foi percebido por nós porque, certamente, estávamos em outro lugar quando os alfinetes cruzaram o nosso caminho. Se eu perguntar a você quantos clipes você encontrou hoje, saberia a resposta? Mas eles estavam lá, no trajeto no qual você caminhou. Apenas não foram vistos por você. Portanto, as coisas passam a ser vistas e percebidas por nós a partir do momento que iniciamos a procura por estas mesmas coisas. Uma procura para compreendê-las, entendê-las ou, até mesmo, para discordar delas.

O essencial é saber interagir e dialogar com o que encontramos no nosso caminho.

“Estou fazendo a minha parte” é uma colocação que tenho ouvido bastante. E aí me lembrei da reflexão da Fernanda Montenegro: será que tenho ouvido muito esta frase porque as pessoas estão, de fato, falando mais isso, ou será que eu não a ouvia quando ela era dita? Será que estas falas começaram a ser ditas agora ou simplesmente eu não prestava atenção ao serem ditas? Difícil responder a esta pergunta. Mas é preciso refletir sobre.

Se agora os alfinetes são vistos por mim, preciso será entender e compreender porque eles possuem eco dentro de mim. Por que eu os busco. Tanto os busco que os encontrei. Talvez se eles não fizessem um cenário, em mim, eu não os teria visto, não os teria buscado.

Se agora localizo os clipes no meu caminho é porque algo eles têm a me dizer que tanto posso gostar ou não. Mas a interação é inevitável. Se assim não fosse, por que passei a percebê-los se eles estavam lá, no mesmo lugar onde sempre estiveram? Enquanto estavam quietos e mansos não me incomodavam. Não me exigiam contato. Agora os percebo e este perceber exige uma fala minha com eles, e vice-versa.

Pensando sobre esta frase que tenho ouvido bastante exatamente porque tenho refletido sobre ela, o primeiro incômodo que me ocorre é quanto à incongruência dessa colocação: como dizer que estamos fazendo a nossa parte se nem ao menos sabemos qual é a nossa parte? E se, hipoteticamente, soubéssemos qual é a nossa parte, como saber se ela está sendo feita? Uma incongruência e incoerência sem precedentes. E o segundo incômodo é quanto à nossa insistência em nos reafirmar como à parte de tudo o que nos acontece. Fazemos. Os outros é que não fazem. Por isso, estamos com problemas de todas as ordens.

Estou fazendo a minha parte.

Esta frase, que tanto tenho ouvido exatamente porque há muito tenho pensado sobre ela, me fez refletir. E o mais importante de uma reflexão é a lentidão de que ela necessita para agir.

Uma reflexão precisa ser lenta, morosa e com uma dinâmica bem distinta da nossa, cuja rapidez, velocidade e ausência do pensar a identificam. Na lentidão, uma das características da reflexão, as falhas aparecem e somos obrigados a parar e a mergulhar se quisermos saber. A reflexão é fundamental se quisermos compreender porque os alfinetes e clipes surgem no nosso caminho e compreender porque, hoje, passei a enxergá-los. Sem esta reflexão, dificilmente subiremos os nossos degraus.

Refletir é o caminho para sermos artesãos de nós mesmos. Uma construção manual, porém, sólida.

Na rapidez, uma das características da nossa insensatez, as falhas são escondidas. Passam despercebidas. Nossas aparências, aqui, são muito mais importantes e tomam o espaço que, antes, mostrava os erros e as falhas. Como eles pouco nos interessam, foram obrigados a cederem os seus espaços para outros visitantes.

Ter pressa é o caminho mais rápido para a irrelevância. Apressar uma construção é começar a destruí-la. Ser rápido sem critério e sem sentido nos fará, talvez, realizar o nosso sonho. Mas de tão rápida que foi esta construção, não será possível mais reconhecer o nosso sonho após realizado. Triste será realizar um sonho sem poder reconhecê-lo, parafraseando Dostoyevski. Na rapidez, um caminho apressado que nos privará do que poderíamos ter sido.

Nossos bastidores nos revelam, mas também ajudam a esconder. Reflexão e rapidez: dois caminhos. Duas possibilidades. Duas hipóteses. Para trilhá-los, somente fazendo escolhas. Somente nos responsabilizando pelos alfinetes que escolhemos ver e também pelos clipes que escolhemos não ver, não dedicar atenção.

A cada descoberta que fazemos na vida, os nossos desdobramentos vão se mostrando.  Descobrimos os silêncios que vão escritos e cheios de significados, em nós. Nossas gavetas e nossos recreios nos sustentam. Nossas gavetas entulhadas de reflexões. Nossos recreios repletos de pressa.

O abrir de portas ao autoconhecimento é fundamental se quisermos nos tornar pessoas melhores em todos os sentidos. Aceitar este convite para este caminho sem volta, onde louros e dificuldades nos aguardarão logo ali, atrás da porta, com risos e indigestões.

Estou fazendo a minha parte.

A abundância precisa ser um valor. Uma abundância do pensar, do agir e do refletir. Caso contrário, a tendência será o desperdício que é refletido pela nossa insuficiência moral.

Estou fazendo a minha parte reflete enorme ênfase no curto prazo que nos lembra sermos uma sequência de rupturas e de contradições, o que dificulta a construção clara de qual é o nosso projeto. Qual é o nosso todo? Não sabemos. Não sabemos porque não nos olhamos mais. Somos segmentados na nossa construção. Fomos educados para um olhar pontual e não global. E isto nos impede de enxergarmos o que vai no nosso caminho mesmo que seja para desconstruí-lo.

Estou fazendo a minha parte reflete uma dor que vai em nós. Uma dor não ouvida, não sentida em sua plenitude. E é preciso tempo de ter tempo para as nossas dores. Caso contrário, sempre estaremos encostando a nossa escada na parede errada e achando, com isso, que estamos fazendo a nossa parte. Se respirarmos a nossa própria presença e aquilo que vai dentro da gente, nossas propostas abertas encontrarão as respostas.

O mundo pede outros papéis. Os vigentes já deram a sua contribuição. Eles, sim, já fizeram a parte deles. É preciso pensar na falta de existência que estamos exercendo na vida. Existir não é passar pela vida. É vivê-la. Uma conversa franca com a gente e com a vida. Precisamos aprender a ficar o máximo no agora que é aonde o tempo tem sua existência em horas. A nossa conversa deve ser aqui para que a gente aprenda a acessar os nossos silêncios e, a partir disso, provocar as nossas atitudes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Confúcio, Filósofo Chinês que viveu 500 a.c., que diz:

“Não procuro saber as respostas, mas compreender as perguntas”.

Quanta sabedoria dita há tanto tempo e com valor vigente e atemporal. Quando buscamos respostas, nos cerceamos. Quando compreendemos as perguntas que a vida nos faz, ampliamos a nossa percepção sobre nós e sobre tudo o que nos cerca. E por isso, passamos a perceber mais os alfinetes, os clipes, frases como estou fazendo a minha parte e outros adereços relevantes presentes em nossos caminhos e estradas, como um convite da vida para, de posse deste repertório, sermos os autores das nossas perguntas, e não mais o público.

Neste dia, teremos atingido, finalmente, o patamar da alta-costura em nós mesmos.

domingo, 21 de julho de 2019

Os desertos em nós

Quando pensamos sobre o filme Dumbo, de Walt Disney, logo nos chega à mente a classificação de “infantil”. É comum associarmos estes tipos de filmes a esse gênero devido à fantasia e ao lúdico que eles apresentam. No entanto, se dedicarmos tempo para assisti-los, quase sempre, chegaremos à conclusão de que o tal gênero “infantil” ou “fantasia” logo se acomodará no final da fila. Nos primeiros lugares, o gênero que a vida nos impõe, e de como ela, por meio dos problemas, alegrias, angústias e realizações, se apresenta para nós e nos pede e cobra passos. De preferência, para frente.

“Não julgue o livro pela capa”, alguém disse certa vez. E foi o que não fiz. Acreditei que Dumbo fosse um filme leve, de caráter lúdico, infantil. Mas me enganei. O filme me trouxe muitas reflexões de caráter filosófico, ético e moral. No entanto, o lúdico, a leveza e o infantil que eu esperava não se apresentaram. Surpreendi-me e foi uma excelente experiência.

Todos os filmes e obras, no geral, trazem reflexões. Mas quando estes materiais são catalogados como “infantil”, geralmente, vamos com o nosso espírito desarmado e sem defensivas. Sentamo-nos comodamente nas cadeiras do cinema ou do teatro e achamos que vamos nos divertir, somente. E justamente por estarmos livres de filtros e indefesos, as mensagens nos atingem com facilidade. A simplicidade dos diálogos entre os personagens, a singeleza das palavras, a naturalidade e a espontaneidade da ação das crianças, no transcorrer do filme, dão a impressão de que hoje não é dia de falar sobre coisas sérias e atemporais. Só uma armadilha do autor para sairmos do rigor dos nossos pensamentos e retomarmos a integridade que, há tempos, perdemos durante as nossas trajetórias.

imagem tirada da internet

Quando nos desligamos, mesmo que seja pelo instante de um filme, do rigor dos nossos pensamentos e compreendemos que o coletivo nos constrói, voltamos a viver e a valorizar este mesmo coletivo, este entorno, este problema que, em tese, não é meu, mas que é do outro. Portanto, meu também. Voltando a viver, contribuímos para o todo.

A nossa experiência de viver precisa ser aprimorada. Para tanto, é preciso nos debruçar sobre as argumentações que nos são apresentadas e propostas. Sem isso, nos tornamos obsoletos na nossa condição de existir. E Dumbo nos ajuda a lembrar isso. Nossas narrativas de vida envelhecem, mas não podem se tornar obsoletas.

Os desertos em nós.

Envelhecer é um processo natural daqueles que vivem e obedecem a natureza. Daqueles que avançam com o tempo e não contra ele. O envelhecimento de nossas narrativas é natural e apenas significa que estamos, a todo o tempo, recriando e reafirmando as nossas relevâncias.

Obsoleto é um processo de busca pela insignificância e irrelevância. Tornar obsoletas as nossas narrativas é desistir sem, ao menos, ter tentado. É contrariar a dinâmica da vida e começar a nos ausentar de nós. É dar brilho ao que é pequeno, em nós. Valorizar o desvantajoso e o primitivo. É quando, no meio do nosso caminho, nos descobrimos burocráticos. Por quê?

Penso que uma possível resposta a este porquê esteja na fala da personagem Milly Farrier, interpretada pela atriz Nico Parker, filha de um dos integrantes do circo aonde Dumbo havia nascido. Ela e o irmão, ao notarem que Dumbo podia levantar voo exatamente por causa das orelhas grandes que tinha, chamam o pai para mostrarem o que haviam descoberto. No entanto, o pai simplesmente não dá atenção ao que os filhos estavam falando, e sai apressadamente para fazer algo que, certamente, poderia esperar. Nesse momento, a personagem de Nico Parker (a menina), diz:

“aquele que não tem interesse não merece saber.” Ela e o irmão saem do lugar aonde estavam e sem se abaterem, seguem a aventura. Os dois possuíam informações preciosas a respeito do que acontecia ali, com Dumbo, que certamente impactaria a todos. Mas apenas as duas crianças, pelo menos, naquele momento, estavam interessadas.  Mas e o pai? O pai não quis saber, assim como os demais personagens do filme.

Fiquei refletindo sobre a palavra que a menina trouxe: interesse. E de tudo o que a vida não nos revela simplesmente porque não nos interessamos.

Nossas obscuridades caminham nos nossos luxos e palácios repletos de adereços que refletem os nossos bastidores. Nossas obscuridades acesas por lâmpadas ora sujas, ora de baixa potência, ora queimadas, ora emprestadas, ora submersas. Mas ainda há tempo de instalarmos outras lâmpadas mais eficientes e até mais econômicas. As lojas costumam abrir aos sábados, também, para aqueles que não possuem tempo de trocá-las durante a semana.

A cadeira do cinema ficou um pouco incômoda para todos nós após ouvirmos aquela frase dita por uma menina. Talvez seja preciso resgatar a pureza das crianças, parafraseando Gonzaguinha, como um recurso para se viver. Mas como o nosso interesse nem sempre está no que nos diz a vida, ela se cala. Ou ela fala com quem a ouve. Tudo é uma questão de afinarmos a nossa comunicação com quem fala conosco. No caso: a própria vida.

Buscando o significado da palavra interesse, entre tantas informações, encontrei: relevância atribuída a algo. Importância. Palavra originada do Latim. Inter (estar entre) + esse (ser, estar). Portanto, se interessar por algo é estar no que se fala, no que se faz. É ser parte deste algo que se fala ou que se deseja saber.

Interessar-se é se importar, é trazer para perto de si a realidade do outro e buscar acolhê-lo para poder ajudá-lo. E vice-versa. De posse deste conceito, fica mais fácil compreendermos os motivos pelos quais, muitas vezes, a vida não nos traz as respostas que buscamos e que procuramos. Não estamos com o interesse que ela julga ser genuíno. Não estamos nos importando, de verdade. Para quê sabermos, então? Não merecemos, simples assim. E por que não merecemos? Porque não nos interessamos o suficiente.

“Aquele que não tem interesse não merece saber.” Muitas foram as reflexões, mas este texto tem a pretensão de ficar somente com esta.

Não há desperdícios por parte da vida. É preciso que saibamos disto. Se não há interesse, também não há informação, não há saber. É preciso justificar o nosso merecimento em receber o saber. E para merecê-lo é preciso interessar-se. Parece uma ideia simplista, mas é importante diferenciarmos simplista de simples. Simplista é algo patético, sem a mínima importância, algo ridicularizado e não valorizado. Simples é o lugar habitado por aqueles que já entenderam que não estão aqui a passeio e que, por isso, há muito trabalho a ser feito. O simples de tão simples que é, complicamos e inviabilizamos o acesso a nós próprios.

É preciso revisitar os nossos interesses para que a vida se aproxime da gente com o saber que importa. Somente assim evitaremos o risco de nos tornarmos irrelevantes cujo significado é não ter papel, não ter função, não ter uso. É preciso parar de darmos vozes aos outros que nem ao menos sabem que existimos, para iniciarmos nossas próprias vozes. Recuperar o nosso apropriar de nós mesmos para que a gente saia da ficção para a realidade. Vivemos, muitas vezes, numa ficção muito bem elaborada pelas nossas lentes desajustadas.

Quando a vida nos diz que não merecemos saber porque não nos interessamos é o mesmo que vivermos exclusões diárias. É preciso pensar sobre isso e não permitir que nossos frutos sejam filhos do cansaço, mas sim do franco olhar acerca de quem somos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma ironia de Fernando Sabino, um dos mais importantes cronistas brasileiros, que diz:

“Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.”

Que a gente não ceda à tentação de voltar à infância para reaprendermos o significado e a relevância da palavra interesse. Que possamos dedicar nossos espaços para o interesse legítimo e, sejamos, assim, merecedores do saber.

De posse deste saber, avançaremos do espaço da nossa terra desconhecida e incógnita para a descoberta da nossa preservação, um desejo e uma resposta que sempre esteve em nós. No entanto, por falta de interesse, caminhamos durante tempos em círculos e nos perdemos nas rotas imaginárias.

Que a gente não dependa do Dumbo e dos amigos dele para nos relembrar de coisas que já aprendemos, mas que, por um descuido desinteressado de nossa parte, nos esquecemos.

domingo, 23 de junho de 2019

A vaidade nossa de cada um

O artigo definido “a”, no título, significa que não desejo falar sobre uma vaidade genérica, aquela inerente ao humano e que, mesmo que haja um esforço forte de nossa parte, não nos livraremos dela por ser parte de nós. Esta vaidade é conhecidíssima de todos nós. Para quê apresentações? Nascemos com ela. Morreremos com ela. Uns com graus maiores que outros. A realidade é que ela será (e tem sido) a nossa mestra em muitos passos do solo que construímos. Desejo, no entanto, falar sobre a vaidade construída por nós, aquela que nos esforçamos, diariamente, para aprimorá-la. Não sobre a vaidade institucionalizada, mas sobre a minha e a sua, particularmente. A nossa. A vaidade que tem, portanto, endereço certo: nós.

Somos todos parecidos na vaidade. Ela nos reconhece. Ela é minha e de cada um de nós.

A vaidade institucionalizada, aquela que todos sabem que todos têm, não nos afeta tanto. É algo tão abstrato em nós que nem nos damos ao trabalho de compreendê-la. Faz parte do humano e aceitamos isso. É como se uma tinta de normalidade colorisse a vaidade para que ela passasse por nós como velha conhecida, que realmente é. No entanto, a vaidade construída por nós é aquela sabida e percebida. Os outros podem até demorar um pouco para perceberem os efeitos desta vaidade. A gente, não. A percepção é imediata. Sabemos o que estamos fazendo. Sabemos tanto que até disfarçamos a nossa vaidade de humildade ou de modéstia. “Imagina”, dizemos, quando recebemos algum elogio ou consideração sobre algo. No fundo, lá no fundo, bem no fundo, inchamos. E o nosso inchaço diminui o tamanho que poderíamos ter, se houvesse espaços, em nós, para crescimentos reais.

Crescimentos reais nos tornam e nos formam. Inchaços criam edemas e nos deformam. Mário Quintana, o grande poeta, dizia que a modéstia é a vaidade escondida atrás da porta. Sábio. O difícil é querermos arrastar as nossas portas e identificarmos o que há por detrás delas.

O que restaria de nós e em nós, por exemplo, se não fôssemos vaidosos? Difícil dizer.

Sentimos uma vaidade imensa quando aquele que não nos conhece diz que somos humildes. O contraditório em nós. Se realmente fôssemos, não nos envaideceríamos. Apenas nos envaidecemos porque ainda somos incompletos, inconclusos, rasos e queremos, forçosamente, que o olhar do outro nos perceba e nos coloque sobre patamares cujo espaço ainda não merecemos e não nos esforçamos para tal. A vaidade construída, além da natural que temos, é aquela que força uma posição de destaque, mas que procura disfarçar para não dar tanto na vista. É aquela que nos alimenta. É aquela que estabelece uma relação de cumplicidade conosco porque também a alimentamos por meio das nossas incongruências diárias e arrogâncias inofensivas. Que são muitas!

A vaidade construída por nós nos completa, nos preenche e nos traz falas que nos tiram de situações constrangedoras como o silêncio que nos foi imposto pela vida, por exemplo. A vida, tão invasiva como ela sabe ser, nos impõe silêncios ao longo da nossa existência. Cobra-nos respostas, atitudes e construções que há tempos atrasamos a entrega. Nem mesmo os tijolos compramos. É quando a vaidade nos acessa e nos salva por meio de respostas prontas e discursos comprados. Ela ajuda a criar movimentos que confundem a própria vida dando a impressão de que estamos agindo. Mas não estamos. Estamos, apenas, sendo vaidosos e esperando a vida se esquecer da gente e nos deixar em paz com as nossas obras inacabadas, solos inférteis e uma completa ausência de compreensão acerca de nós mesmos.

Do latim vanus, a vaidade significa “vazio, ocioso”. Ou seja, além de sermos vazios e ociosos por natureza, uma vez que a vaidade institucionalizada nos pertence, intensificamos este vazio e esta ociosidade por meio das nossas ausências em nós, por meio das nossas futilidades que nos dizem, a todo o momento, como somos imprescindíveis. Ainda não compreendemos o espaço que nos pertence porque invadimos o do outro. Isto é vaidade. Ainda temos problemas de relacionamento porque o outro está sempre errado, enquanto eu estou sempre certa. Isto é vaidade. Ainda somente nós falamos e o outro somente escuta. Isto é vaidade. Ainda temos sérios problemas com limites porque invadimos o do outro. Isto é vaidade. Ainda entramos em campo sem objetivos porque somos, somente, um número. Isto é vaidade. Ainda falamos apenas para ocuparmos espaços que não nos pertencem, e, consequentemente, retiramos o espaço do outro. Isto é vaidade.

Temos muitas demandas necessárias que precisariam ser reestruturadas. Acredito que isto reorganizaria as nossas verdadeiras bases. Contudo, temos tantas demandas desnecessárias, mas atuantes, que não sobram espaços, em nossas agendas, para este diálogo tão antigo.

A vaidade construída por nós é um solo cuja plantação tem dado os frutos certos como a violência, a competição, a falta de senso. Os frutos que crescem fortes porque foram larga e abundantemente adubados de longas trajetórias coletivas. Há, entretanto, solos à deriva, a espera de mãos que os lavrem com tempo justo, paciência para a construção, rigor e completo desprezo às fórmulas prontas cujas receitas mandamos manipular, baratinho, na farmácia ao lado. Aliás, o que não nos faltam são farmácias. Muitas. Sua presença em excesso nos traz um certo diagnóstico do que nos falta. Medicalizamos a dor para não a sentirmos. Isso também é vaidade. Somos distantes do que poderíamos ser. A teoria distante da prática.

Somos tão conscientes da nossa vaidade que, como dizia Nietzsche, “a vaidade alheia só nos é antipática quando vai de encontro a nossa”. Temos um acordo coletivo: enquanto eu estiver no palco me servindo da minha vaidade, você não sobe. E vice-versa.

Todos fazemos parte da mesma problemática. E a vaidade reforça esta nossa condição. Ela nos afunda e nos torna perdidos em nós mesmos. Não fomos educados para olharmos para estas nossas pequenezas. Nossas miudezas foram escondidas e camufladas. Quando crescemos, percebemos que elas estavam escondidas. Mas estava tudo tão arrumadinho nos porões que não quisemos entrar lá. Somos alérgicos e, afinal, há tantos outros trabalhos mais importantes a serem feitos.

Fomos educados para o destaque, para a briga, para a competição e para buscarmos o nosso lugar ao sol. Vivemos em guerra porque aprendemos, logo cedo, a relevância da luta. Não uma luta genuína da gente com a gente, para nos vencermos. Aprendemos a lutar contra o outro porque ele ocupa lugar demais no mundo. O avançar dele me interrompe e me ameaça. Por isso, aprendemos técnicas e ferramentas para interceptá-lo. A estas técnicas e ferramentas chamamos de protagonismo, proatividade, garra, ironicamente. Tenho dó das palavras que, sem justos advogados, são usadas ao bel prazer dos desavisados e oportunistas.

Protagonismo é ter responsabilidade. Bem distante do que divulgamos como sinônimo de vencer na vida, muitas vezes às custas de interceptar o outro. Proatividade significa pegar para si o que é preciso ser feito. Bem distante, também, do que fazemos atropelando o outro e chegando na frente. Chegamos realmente primeiro ou foi porque o derrubamos lá, atrás? Garra é vencer a si, simples assim. Bem diferente de sinônimo de guerra.

Estudamos tantas fórmulas matemáticas e químicas, tivemos de entender o meridiano de Greenwich, a Trigonometria e memorizar a data na qual chegou, aqui, a família Real, mas nunca estudamos, pelo menos falo por mim, porque somos vaidosos por excelência e, pior, porque conseguimos, pela mesma excelência que nos cerca, ampliarmos a nossa vaidade para a construída, aquela que, conscientemente, fazemos. Ou não? Tivemos de aprender seno e cosseno, tabela periódica e memorizar a fórmula da água (que, de longe, é H2O), mas não nos ensinaram a instalar espelhos internos para enxergarmos, com antecedência, o que a vida nos cobraria. A vida não nos perguntará quem foi Colombo ou quem foi o primeiro presidente do Brasil, apesar de sabermos que o conhecimento e a informação são relevantes, mas há coisas que deveriam ocupar as primeiras cadeiras. Mas ela nos enviará contas a serem pagas sobre os resultados da nossa vaidade, por exemplo. E como não foi matéria que cairia na prova, não estudamos. E agora? Como no poema de Drummond,

“E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou...”

Só que a vida não imita a poesia de Drummond, e, portanto, vamos precisar arregaçar as nossas mangas e irmos ao encontro de nós mesmos. Já não é sem tempo. Quando nos reencontrarmos, nossas vaidades institucionalizada e construída estarão lá, quietinhas, apenas aguardando serem esquecidas. A decisão será nossa. “E agora, José?”

É preciso estarmos inscritos na vida para existirmos. É preciso buscarmos, portanto, as nossas respostas para o nosso “E agora, José?”

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Balzac, escritor francês do século XVIII, que diz:

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.”

Com respeito a Balzac, acredito impossível deixarmos a vaidade apenas para os outros, uma vez que ela é inerente a nós. Além de sermos humanamente egoístas para não ficarmos com pelo menos um pouquinho da vaidade para nós. No entanto, se aceitarmos o convite dele para, no mínimo, iniciarmos o trabalho, a vaidade começará a apagar as luzes, reduzirá o tom árduo do discurso e ocupará lugares de menos relevância, em nós.

E, finalmente, marcharemos, como disse, Drummond, na sua poesia José. Um José que sou eu, mas que também é você. E o outro também. Ou seja, todos nós.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O menino somos nós

Sabermos se determinado aprendizado que adquirimos é relevante implica encontrarmos uso prático para ele. O conteúdo que nos representa, que vai em nós e que nos absorve precisa estar indissociável da prática, seja ela coletiva ou individual. O que aprendemos de irrelevante, que foram muitas coisas, certamente, se perdeu na massa da qual todos nós fomos construídos. Está tudo ali, no meio das luzes e das encostas que nos formam. Quem somos surge de quem fomos.

Machado de Assis, na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo XI, nos propõe um tema de indigesta reflexão: nós. Quem somos, por causa do menino que, um dia, esteve em nós? Ele nos faz esta pergunta. Hoje, somos pais do homem. O menino da nossa infância, da minha e da sua, hoje é o pai do que nos transformamos: num homem. Com os nossos conteúdos relevantes e irrelevantes, entendidos e subentendidos.

O menino que é pai do homem, título do texto de Machado de Assis, nos traz uma reflexão incômoda a respeito de quem somos por causa de quem fomos. Um convite para avançarmos o pensamento desgastado e cansado de que somos frutos do meio, apenas. Antes disso, nascemos no meio, interagimos nele e com ele, e produzimos a partir dele. Somos os que vivem no meio, os que são o meio e os que, somente, o observam.

O meio nos inicia, nos reverencia, nos violenta, nos embrutece, nos aprisiona, nos cala, nos consente, nos finaliza, nos aposenta, nos marginaliza. O meio nos evidencia para continuarmos a nos curvar, ao mesmo tempo que nos dá visibilidade que, sozinhos, não conseguiríamos. O meio nos torna, mas nos retira de cena talvez no auge da cena. Nunca saberemos. Autorizamos o meio a nos ordenar porque sem ele não existiríamos. Tudo com a nossa anuência, estejamos conscientes ou não.

Quem somos por causa de quem fomos? Respostas individuais. Reflexões particulares. Choros e risadas criam um embate para ganharem a nossa atenção. Mas que o todo sente, age e reage. Somos, hoje, o pai do homem. Este pai que um dia foi um menino. Um menino que cresceu e se tornou o pai do homem.

imagem tirada da internet

O meio: de um lado, uma violência, que de longe é um fenômeno firmado numa decisão individual. Nunca decidimos nos tornar violentos somente por causa da nossa caprichosa vontade. É preciso lembrar que o meio nos abastece do torto, do desrespeitoso, do ausente e do agressor que se utiliza da força física e do verbo para calar vozes e oprimi-las. Aplaudimos o opressor porque confundimos força física com força moral. Porque valorizamos a guerra na mesma proporção que aposentamos o diálogo. Damos os primeiros lugares à mesa àqueles que nos rebaixam e nos relembram da nossa inaptidão para o viver e para o ser.

Firmamos acordos com o meio quando aceitamos ser abastecidos pelo conteúdo que ele nos traz. Um contrato vitalício de vazios, de ausências e de porões, a menos que as cláusulas miúdas possam ser reescritas e revistas.

O meio: de outro lado, uma parceria, cujas mãos dadas deveriam sustentar as nossas frágeis estruturas. Uma parceria cujo conteúdo poderia nos levar adiante, lá aonde não chegamos, mas que já poderíamos estar se não fossem o desatino daqueles que nos aplaudem sem merecermos, as plateias que buscamos para alimentarmos os nossos egos e as traças que existem em nossos caminhos, diariamente iluminadas pelo nosso incentivo assertivo à ignorância. Somos resultado deste meio. Criamos este meio. Somos ele em nós. Somos o que recebemos. E hoje somos porque, um dia, em algum momento, fomos.

O menino que é pai do homem.

Qual espelho nos representa? De quais máscaras, como dizia Fernando Pessoa, nos servimos? Com qual delas sairemos, na rua, hoje?

“Afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não seguindo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lugares”, diz Brás Cubas.

O que nos sustenta é o nosso cotidiano, as nossas interações, reflexões, ausências, acordos, toma-lá-dá-cá e reajustes, conforme o caminhar nas estradas cujos pés nem sempre querem trilhar. Nem sempre seguimos padrões rígidos, mas ao sabor da nossa conveniência, como diz o personagem de Machado de Assis. Por isso, a nossa conivência com o meio está escancarada. Ele atua através de nós porque ele nos representa.

O menino que fomos se tornou o pai de quem somos.

Nossas atuações autorizadas e medidas porque dependem do que ganharemos. Nossas sátiras disfarçadas porque não podemos demonstrá-las, apesar de serem autorizadas por todos. O importante não é o ser, mas o parecer. Então, fingimos que fazemos enquanto os outros fingem que acreditam que fazemos. Nossos risos envergonhados. Nossos resultados camuflados por causa da poeira que nos esquecemos sobre os nossos móveis.

Nossas consequências não são lineares, mas cíclicas.

Somos resultado. Somos uma perspectiva. Somos uma expectativa. Somos erros e acertos. Somos as nossas relevâncias e irrelevâncias. O que se aproveita e o que é descartável. O sólido e o líquido. Somos muitas coisas apenas para alimentarmos o nosso estar, e assim nos disfarçamos e contamos com o palco que nos é dado por aqueles que acreditam e que, também, sobrevivem das luzes que devolvemos para eles. Uma parceria que deu certo.

O menino que é pai do homem. Que homens somos? Que menino fomos? Quem e o quê nos alimentaram? A quem ouvimos? De quais influências falamos? Como interpretamos os nossos viveres até chegarmos aqui? Quais parcerias, por causa dos conteúdos recebidos, fizemos? Que homens seremos depois que o nosso pai estiver saído da condição de menino?

Não somos pesquisadores de nós mesmos. Não aprendemos. Não nos ensinaram. Não nos interessamos em aprender. Nossos conteúdos perdidos. Nossas reservas caladas. Reservar um lugar para avaliar e ouvir as nossas entrelinhas. No entanto, ouvi-las significa abrir mão da permanência no lugar onde se está e fazer das entrelinhas, prioridade. Um lugar interno, mas sem muito espaço em nossas agendas cheias e repletas de compromissos adiáveis. A inutilidade tem o seu valor: nos envaidecer. Enquanto achamos que somos extremamente ocupados, mais lugares vão sendo ocupados dentro da gente com a orfandade. Somos, muitas vezes, órfãos de nós mesmos. Órfãos do nosso olhar e da conversa que poderíamos ter tido.

Enquanto isso, o homem se tornou o filho do menino porque o tempo passou. Mas ainda há tempo: o trabalho de retirada das pedras do caminho é pessoal e intransferível. Alguns já começaram o trabalho. O trem já saiu da estação para alguns. Olhar em perspectiva nos dá amplitude do que poderemos alcançar. Se muitos já saíram da estação é porque existe a possibilidade, mesmo que ainda não tenhamos, nem ao menos, comprado os bilhetes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Humberto de Campos, jornalista e escritor do século XIX, que diz:

“Cada ave, com as asas estendidas, é um livro de duas folhas aberto no céu. Feio crime é roubar ou destruir essa miúda biblioteca de Deus.”

Somos esta biblioteca de Deus, independentemente da nossa crença, ou não, nele. Somos feitos de conhecimento e de sabedoria, mas também de ignorância e de retrocesso. Somos o resultado aliado às nossas escolhas, interferências, interpretações e preparo. Somos o resultado de quem fomos e de quem temos sido. Um dia crianças, um dia meninos que se tornariam pais dos homens. Nós.

Há tempo.

Que esta biblioteca siga aberta, com suas asas estendidas para que possamos reencontrar o sábio que vai em nós. Em cada um de nós. O sábio vestido de palhaço para disfarçar e não ser derrotado por nós, porque vamos querer nos roubar e nos destruir por meio de negociações. O palhaço, por ser o único lúcido, sabe que não pode negociar com o tempo. O tempo não negocia com ninguém porque ele tem amigos. Quem tem amigos não negocia. Somente negocia aquele que tem coniventes, aquele que destrói a biblioteca. Uma biblioteca fechada não nos impedirá de nos tornarmos homens, mas jamais homens filhos dos meninos felizes que poderíamos ter sido, mas que ainda temos tempo. Homens felizes. Meninos felizes. Mesmo dentro das nossas imperfeições.

domingo, 19 de maio de 2019

Abismos construídos

É comum acharmos que somos invejados e não invejosos. É comum falarmos mais sobre nós e pouco ou nenhum interesse pela fala do outro.

É comum aguardarmos horas numa sala de um médico qualquer. É comum acharmos que a corrupção sempre é do outro.

É comum ultrapassarmos pelo acostamento porque o nosso motivo sempre se justifica. É comum a tecnologia substituir as nossas mãos obrigatórias.

É comum a violência disfarçada de assertividade. É comum a vaidade pintada de autoestima.

É comum a pressão por discursos mais rápidos e eficientes. É comum o essencial ter perdido o lugar para o banal. É comum o eu porque o nós pediu afastamento.

É comum a construção ter se tornado ultrapassada. É comum a quantidade ter se tornado sinônimo de qualidade, apesar de muitos dizerem que não. A gentileza de mentir ainda existe.

É comum a fala vazia ter ocupado cada vez mais espaços. “Fale para que eu te veja”, dizia Sócrates. É comum considerarmos amigo aquele que pensa como nós. Aquele que pensa diferente, ou não sabe o que diz ou é nosso inimigo.

É comum a pausa ser constrangedora porque os vazios, há muito, deixaram de ser espaços de construção e de reflexão. É comum naturalizarmos o que não poderíamos, e abrirmos os braços para a banalização.

É comum a opinião do outro ser a extensão da nossa. É comum o quadrado do vizinho ser sempre o melhor. É comum a injustiça sempre acontecer com a gente.

É comum entregarmos o fútil para alimentarmos a futilidade de alguém que tem, na trivialidade, sua marca de expressão. É comum acharmos que a nossa história daria um livro e a do outro nem numa página de livro de subliteratura caberia.

É comum o vício nas novidades porque o atemporal cansa. A insustentabilidade da novidade nos situa nos degraus debaixo da vida que ajudamos a construir, nos acomodando numa cegueira confortável. A atemporalidade tira as vendas dos nossos olhos, desfaz o pacto com a dependência e nos situa no tempo: nosso verdadeiro lugar.

É comum o insustentável criar a dependência e o atemporal criar raízes. É comum darmos poder ao outro por meio da nossa submissão.

É comum jogarmos nossos rascunhos fora. No entanto, neles, são construídos os verdadeiros passos da nossa vida. O sentido está no rascunho e na travessia de Guimarães Rosa, e não na obra pronta.

É comum que o erro do outro se torne instrumento para persegui-lo. É comum descartarmos a oportunidade de discussão sobre o significado daquele erro. É comum desconsiderarmos que o erro é, também, o processo de compreensão do outro. Todos erram. Mas é comum o outro errar e a gente acertar.

É comum descontinuarmos uma relação. Concertá-la é para os antigos. É comum delegarmos para a tecnologia um saber que deveria ser nosso. É comum vivermos correndo, sem tempo e com agendas sem espaços. Aquele que diz ter tempo, ou é um desocupado ou está mal informado.

Atualizar, caminhar, construir, fazer, ser: verbos em desuso. O comum ocupando espaços largos e sem a mínima cerimônia. O comum tendo acesso a nós porque assim o aceitamos como parceiro de conduta. Ter um conivente deste quilate nos autoriza a estar, uma vez que também é comum este mesmo estar ocupar o lugar do que deveria ser.

O comum como forma de um ser debilitado. Um ser manco, mas que se apoia em muletas longamente construídas.

Na sala de espera, pessoas estão aguardando há uma hora. Uma das pessoas diz: “Não tem jeito, médico atrasa mesmo.” E assim, autorizamos, por meio de cartas em branco, nossa sentença de subordinação, de acatamento, de obediência. Porque é comum, também, darmos a nossa voz àqueles que não a querem ouvir.

Ao mesmo tempo, é comum darmos crédito a nossas contradições. Uma pessoa na sala de espera, ao ser chamada pontualmente pelo médico, pensa: “não deve ser bom médico. Atendeu muito rápido. Não deve ter tantos pacientes.”

Afundamos nas nossas contradições porque elas nos conduzem e ditam as regras. Aceitamos o comum porque ajudamos a construí-lo.

O comum faz moradia em nós. O natural seria que assim não fosse. O comum não nos traz mais constrangimento. No entanto, o natural seria que assim não fosse. De tão comum que o comum se tornou, ele agora é parte de nós. Convidá-lo a se retirar seria como se parte de nós também partisse. Acostumamo-nos com o irracional, com o ilusório, com o raso, com aquilo que não nos convida a pensar. Pensar é pesado e trabalhoso.

Comum é aquilo que todos fazem. Inclusive a gente. Aceitamos o comum sem o mínimo acanhamento, como se fosse algo aceitável. Naturalizamos o que, de longe, é natural. Pode ser comum machucar alguém por meio de um olhar repressor, mas não é natural.

O comum vem de todos. O natural vem da natureza, daquilo que deveríamos fazer, daquilo que é essencial. É comum andarmos por cima. O natural seria aprofundarmos os nossos pés.

Concedemos ao comum o nosso dever do pensar e do refletir. No momento que o inserimos em nossas vidas, ele passa a entrar em nossas casas sem, ao menos, tocar a campainha. Acomoda-se e faz tronco em nós. Nossos troncos retorcidos e falíveis. Mas é comum também não percebermos isso. A natureza tem feito, há tempos, o seu papel. Ela segue o que é natural. Mas e a gente?

Na fila de um Banco, apenas um caixa. Uma forma direta de a Instituição dizer que não somos bem-vindos àquele lugar. Isso é comum. Mas quem se importa? Somos desprezados e desprezamos. Uma linguagem comum de todos os tempos, não é exclusividade da contemporaneidade.

O comum que dá guarida à banalidade, que dá o berço para a ausência da moral, para o nascer do desprezo. Coisas que naturalizamos, mas que não poderíamos. Coisas que aceitamos como parte de uma construção doente, mas que nossos olhos não enxergam. Aceitamos o comum como natural, ora porque “faz parte”, ora porque nem percebemos que o comum nos marginaliza, nos aprisiona, nos acovarda.

Na formatura dos médicos, o juramento solene dito pelo aluno traz “o compromisso de considerar a saúde do doente como a primeira preocupação”.  No consultório ao lado, o médico que pede exames desnecessários apenas para ganhar mais dinheiro. Ou o convênio que diz que “sem carteirinha, não tem atendimento”, como diz a música da Legião Urbana.

Faz parte. “É comum”, alguém diz. Fazer o quê? Num quarto de hospital, uma pessoa sofre com câncer. O estágio da doença está avançado. E o médico diz ao enfermeiro: “se o paciente reclamar de dor, nem faça mais nada.” Um crime ou um comércio de saúde? Acho que há espaço para ambos. Enquanto tentamos provar, mais cenas como estas serão vistas como comuns. Fazer o quê?

Os doentes morrem. Os marginais se avolumam. Horas são perdidas a espera de atendimento porque seguimos agendas vaidosas. Maus gestores se apropriam de um poder que não possuem. Os Bancos lucram com a inflação que consome a vida alheia. O panetone, que é palco de lucros desmedidos na época do Natal, impõe a presença dele, a nós, até o dia das mães. Mas depois do Natal é comum uma ofertinha. Precisamos agradecer por isto? É comum, ainda por cima, acharmos que fizemos um bom negócio comprando um panetone, de marca boa, a doze reais. Pobres que somos. O comum se apropriando do natural, daquilo que deveria ser, que importa e investiga a essência, essa que deveria estar a serviço.

O comum se apropria do indevido e se serve exclusivamente. Esta é a meta. O natural não se apropria do exclusivo porque sabe que toda construção sólida está no coletivo. Não sei se vamos querer estar lá quando descobrirmos isso.

O comum cega. Traz caminhos rasos. Convence-nos sobre a inutilidade do pensar. Oferta-nos uma rapidez ineficiente. É como se caminhássemos milhões de quilômetros, só que na direção errada. Chegará o dia (ou será que já chegou?) que pediremos informação ao viajante do caminho e ele nos dirá: “desculpe, amigo. Você andou quilômetros na direção errada. Vai precisar refazer o caminho.”

O natural agrega, alimenta e avança. Traz caminhos tortuosos, densos e repletos de obstáculos. No entanto, o único possível se não quisermos caminhar quilômetros em vão.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação atualíssima de Maquiavel, um dos principais escritores da literatura mundial, que diz:

“Todos veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é.”

É comum parecermos, e sermos medidos e identificados por isso. Mas o natural seria que soubessem, inclusive a gente, quem realmente somos. Vivemos num estar, num parecer. Um comum de vida que todos conhecem, todos sabem, todos veem. Mas, infelizmente, não somos. E quando somos, poucos são os que percebem, poucos são os que sabem. Há, portanto, um verdadeiro abismo entre o que é comum e o que é natural.

Um abismo que frequentamos porque foi criação nossa. Sem exceções.

domingo, 28 de abril de 2019

Assim nasce um preconceito

O conceito de que uma coisa é boa ou má existe como resultado da nossa interação (ou falta dela) com estas mesmas coisas. É a nossa atuação, relação, interpretação e convívio com algo que dá o sentido que as coisas têm. O que caracteriza uma ação como boa ou como má resulta do olhar que concedemos a ela, do sentido misturado aos nossos valores, crenças e cultura.

O bem e o mal são abstrações das nossas vidas. O que confere valor a estas abstrações e o que as identifica são as nossas relações, atribuições e intervenções. O que era bom antigamente, talvez não o seja hoje e vice-versa. A Escravidão foi, numa época, aceito como modelo de uma sociedade, por muitos. A Inquisição foi aceita como forma de punição daqueles que não falavam a língua de Deus. As mulheres, até pouco tempo, não votavam. E isto foi aceito por muitos como “algo normal e sem muito o que fazer sobre”. Ou até mesmo rejeitado por muitos, mas que, na época, não havia muitas ferramentas e mecanismos de oposição. E isto somente reforçou o preconceito ao longo dos tempos. Muitas coisas que hoje enxergamos como mal, em outras épocas foram vistas como normais e fazendo parte de algo cuja aceitação era a única saída, ou sem força para contrapor.

Tudo é fruto de criação. Nada é por acaso. Nada surge. Tudo é sempre resultado de algo.

A nossa História está recheada de bons e de más valores, e o preconceito que, de tanto insistir em existir, não ficou de fora. Tamanha é a resistência dele que, muitas vezes, nem percebemos a presença. Alguns estão muito arraigados que passam por nós como uma brisa leve.

Também eles passaram por evolução: algo que alguém dissesse antigamente talvez não fosse considerado preconceito, diferentemente de hoje. Trechos de músicas como: “Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia que era a mulher de verdade...”, “O teu cabelo não nega, mulata...”, “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é...”, “antes mal acompanhada do que só...” apenas reforçam estereótipos, machismos, preconceitos e rótulos que, infelizmente, passaram despercebidos e, apenas por meio da nossa própria evolução e desenvolvimento, passamos a questionar e a não mais admitir. Mesmo que os preconceitos não tenham passado despercebidos para todos, não havia, antes, mecanismos e ferramentas de combate como hoje. A consciência ainda não estava desperta como hoje. Mas ainda há muito espaço para melhorar. Ainda há muito o que fazer. E sabemos disto.

Com todo respeito ao saudoso Mario Lago, mas dizer que a mulher de verdade é aquela que não tem vaidade é um pouco demais, não?

Mas como perceber isso antes de o tempo evoluir? Como não permitir mais estas letras antes das feridas e marcas que elas causam e causaram?

À medida que o tempo vai seguindo sua rota, novas formas de vida vão se mostrando para nós. A vista fica mais clara à medida que o tempo avança. Por isso, o tempo transcorrido é primordial para avançarmos na História, na nossa própria história.

Mesmo não sendo intencional, os rótulos machucam, marcam e identificam uma época. Somente os perceberemos e os aboliremos por meio do avanço e da evolução de uma época.

Podemos até ouvir ainda estas músicas, mas agora com um olhar crítico e atento. Isto demonstra que os valores são mutáveis. Que somos vivos como uma sociedade que busca outros degraus para avançar. Ainda estamos lentos nesta caminhada, mas estamos nela. Aquilo que, em algum momento, era apenas uma marchinha inocente de carnaval ou uma música de um ídolo se tornou um chamamento de atenção, também. Um duplo papel: ouvir a canção como fruto da nossa história, arte e memória, mas também como reflexo de uma construção melhor que se busca como um povo que somos.

Estas coisas começaram a chamar a nossa atenção. Hoje conseguimos identificar estas notas tortas sejam nas músicas, nas falas, nas escritas, nos silêncios. Temos um longo caminhar, mas esta percepção que estamos construindo para percebermos estes lugares vazios do preconceito, do racismo, do machismo e de tantos outros retrocessos tem valor intangível.

Uma dupla sertaneja tem uma música chamada “Preto de alma branca”. Por quê? Obviamente, se a dupla fosse perguntada do motivo deste nome, na época, diria que não seria para atacar alguém ou preconceito racista. Isto reflete que somos frutos de uma época que se aceitava este tipo de fala sem questionar. Mas as consciências despertam.

O questionamento se inicia no momento que se sente forte para tal e no momento que se percebe um avanço não autorizado, que já não aceitamos mais.

Como questionar algo que vinha disfarçado de bem? Mudar algo que era consenso? Identificar padrões que rotulavam, numa sociedade de muitos invisíveis? Questionar se o medo ditava as regras? E mesmo que houvesse questionamentos, seria por parte dos pequenos grupos, aqueles que não tinham direito à voz.  Portanto, mesmo alguns pequenos percebendo tal ação racista ou machista, ainda assim, muitas vezes, era mais fácil decidir continuar como se estava.

Construir compromissos com forças que querem nos impulsionar para frente, para o avanço, custa muito caro. É mais fácil viver na escuridão e deixar de pensar a criar laços com o questionamento, com o pensar. Por isso, muitas coisas se perpetuaram e se perpetuam.

Todos esses temas ainda existem com força. Mas foram piores. É preciso reconhecer que avançamos. Podemos até acreditar que hoje as coisas estão piores e mais difíceis, mas é que aqueles que vão às margens estão avançando e propondo as discussões. E isso causa a sensação de que pioramos. Mas não. Os que marginalizaram, os que criaram rótulos e os racistas estão sendo convocados para a conversa. O que presenciamos é o tempo decorrido trazendo os seus ganhos e benefícios como consciência, reeducação, renomeação de paradigmas e releituras de preconceitos, estereótipos, racismos etc.

A caminho do metrô, atrás de mim, um pai diz a filha:

“Que história é essa de pedir doce para o seu avô? Em plena quinta-feira? É dia de semana. Quer ficar gorda, quer? Quer ficar feia? Olha a sua mãe como está gorda. Ela está fazendo regime. Você precisa ajudar a mamãe.”

Paulo Freire dizia que todo professor, se não for capaz de lidar com a incompletude do outro, deveria abrir mão de seu trabalho. Estendo esta provocação a todos nós, àquele pai. Somos todos professores de alguma forma, considerando que o verdadeiro professor é aquele que, de posse da informação, do conhecimento, o amplia para facilitar a vida do aluno e, mais que isso, despertá-lo para o saber, para o saber que importa. E aquele pai, reforçando o estereótipo de que todo gordo é feio não cumpriu o seu papel de bom professor, que deveria ser. Acredito que muitos são pais e mães para darem uma satisfação para a sociedade. Mas de longe os são por vocação e missão.

Aquela menininha, dos seus cinco anos, no máximo, olhava para cima a procura dos olhos do pai, daquele que deveria ser a referência dela. Ela nada respondeu, apenas ficou atentamente olhando para ele e depois baixou sua cabeça, em direção aos próprios pés. Pés estes que torcemos para que a levem para lugares mais leves e para caminhos mais estreitos, que dificultem a entrada dos preconceitos e rótulos.

Precisamos buscar outras formas de educação e de interação. Há tempos, o mundo saiu do processo de participação (aonde você chegava para participar, mas a regra estava pronta) para o mundo da interação (aonde você ajuda a construir porque faz parte). Precisamos sair da inércia do armazenador de preconceitos e estereótipos, para sermos bons processadores daquilo que nos for transmitido. Somente assim passaremos a questionar e a fazermos companhia para as vozes dos marginalizados. Aquela menina, se nada for feito, apenas armazenará mais uma experiência cruel acerca do preconceito, do racismo etc.

Assim nasce um preconceito. Se dermos sorte, talvez a índole daquela menina não se deixe influenciar, e ela se transforme numa cidadã adulta com um olhar bem filtrado para o que não for bom. Mas retomo a minha fala inicial: o bom e o ruim apenas existem como tais após a nossa interpretação, após a nossa interação e convivência para poder nomeá-los. É muito difícil a construção de um preconceito, como esta que foi feita, ser desconstruída depois. A chance de insucesso é expressiva. Se assim não fosse, os nossos números sobre este assunto não se justificariam.

Somente o vivido e o experimentado são incorporados. E aquela menina viveu uma experiência que reforçou que o preconceito é bem-vindo. Aquele pai, por meio do não saber dele, associou a gordura à feiura. Reforçou um modelo que se autorizou na nossa sociedade: ser gordo é sinal de feiura, fraqueza e falta de força de vontade, o que, de longe, procede.

Novas vistas. Novos pensamentos. Novas perguntas. Isto é preciso. Caso contrário, a alienação será a nossa principal companheira. E aquela menininha, de idade tão imprecisa, acabava de receber, de seu pai, um convite para esta alienação. Pobre menina.

Paulo Freire ainda reforça dizendo que precisamos educar e não domesticar. Que possamos enxergar os entraves em nós para que o nosso senso domesticador não avance no próximo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de William James, filósofo e psicólogo americano, século XIX, que diz:

“Muitas pessoas acreditam que estão pensando quando, na verdade, estão rearrumando os seus preconceitos.”

Somos estas pessoas que reorganizam e rearrumam os próprios preconceitos, representados por aquele pai. Por meio do aprendizado, avançamos. A ausência dele, as mesmas limitações e pedras para carregarmos. É preciso questionarmos e ocuparmos os espaços vazios desta conversa importante. E, acima de tudo, rejeitarmos os rótulos daqueles que reduzem estes temas ao supérfluo, ao simples, ao irrelevante. Daqueles que insistem e se esforçam na permanência do preconceito, do racismo, do machismo e de tudo aquilo que nos reduz e nos traduz ao tamanho que temos merecido.

Pessoas que tentam rejeitar o comum, o pisado e aquele tom de que “isso é normal” sofrem mais nos caminhos que trilham. Mas são pessoas mais livres, privilegiadas e lúcidas por poderem desfrutar de vistas mais belas, altas e sólidas. São os rejeitadores de etiquetas: pessoas que voam e vão além. Um voo que sempre existiu e que poucos o conhecem. Mas está à espera de ser aprendido por todos aqueles que tenham a disposição de querer descobri-lo e, o melhor, de aprendê-lo.

domingo, 14 de abril de 2019

Os manés injustiçados

É comum alguns nomes próprios, existentes na Língua, sofrerem alterações e abreviações: Cristina se torna Cris, Maria Aparecida se torna Cida, Antônio se torna Toninho, Rogério se torna Roger, Fabiana se torna Fabi, Eliane se torna Eli, Ricardo se torna Caco, Maria Emília se torna Mila e assim por diante.

Alguém algum dia disse: “nossa, às vezes, me esqueço do meu verdadeiro nome.” Apelidos e abreviaturas de nomes criam marcas, referências e identidades. Mesmo que as pessoas não gostem dos apelidos e abreviaturas dos próprios nomes que recebem, não os aceitar é o caminho mais rápido e fácil de eles se instalarem. Apelidos “pegam” e grudam. São impostos pelos outros e por uma força do externo. Não há como fugir.

No entanto, alguns nomes, menos sortudos, ganham, além de abreviações e alterações, um presente a mais: o de grego. Manoel, por exemplo, se torna Mané, querendo ou não. São nomes cujas abreviaturas vão além da marca e da identidade: criam desserviços como os estereótipos, rótulos e identificam, pejorativamente, uma pessoa. É o caso do Mané. Aqueles que se chamam Manoel ou Manoel Carlos sabem disso.

A ingênua abreviatura de Manoel ou Manoel Carlos há muito deixou de ser apenas um apelido: se tornou o estereótipo do bobo, daquele que nada sabe, do que faz trapalhadas. Os Manés são, portanto, tanto os que se chamam Manoel ou Manoel Carlos, como aqueles que receberam este apelido de uma sociedade que os considera ora bobalhão e tolo, ora arrogante, o falso, aquele que se considera melhor e superior aos outros.

O apelido Mané, que deveria ser algo natural como Cris de Cristina, se tornou um termo pejorativo criado por aqueles que fazem da pobreza, a realidade da língua que usam. Só aquele que carrega a escassez no vocabulário poderia criar este estereótipo. No caso: a gente mesmo.

Outro dia, num curso, uma pessoa se apresentou a mim e disse:

- Prazer, meu nome é Mila.

- Prazer, o meu é Renata. Mila é o seu nome, eu disse?

- Ah, sim, Maria Emília, na verdade. Mas o meu apelido é Mila, disse com um sorriso no rosto.

Ter um apelido como Mila não carrega o peso do estereótipo como Mané. Por isso, ela sorria. E apesar de o Manoel e Manoel Carlos não precisarem explicar o significado de mané, como a Mila precisou explicar, não creio que se sentem orgulhosos do apelido que têm. Podem ter se acostumado, mas desconfio de que gostem. Os manés injustiçados.

Enquanto isso, os manés verdadeiros seguem com os seus nomes originais, sem precisarem ouvir: “Oh, Mané, vem aqui...”. Eles são, mais cedo ou mais tarde, descobertos. Mas enquanto for possível, ficam escondidos em conversas não realizadas. Confundem-se com os manés injustiçados e, desta forma, vão se misturando apostando na certeza da camuflagem. E como eles existem. Há sempre um por perto, incluindo a gente.

Os manés verdadeiros vão se acomodando na invisibilidade e na transparência das coisas que deveriam ser vistas, mas não são. São tantos os compromissos que agendamos com o desnecessário e com o ineficiente, que os manés verdadeiros acabam passando despercebidos por nós, ora por falta de tempo, ora por pura alienação, mesmo. Eles vivem às custas dos erros dos outros, e se beneficiam de uma sociedade sem prioridades verdadeiras, como a nossa. Ainda sofremos devido à incapacidade de enxergar o que importa. Por isso, eles passeiam ao nosso lado e ainda nos dão caronas que, gentilmente, aceitamos.

Como são manés verdadeiros, estão sempre à espreita do escorregar do outro e assim, se agarram à única forma de crescer que acreditam existir. São sagazes negligentes: uma modalidade que vem tomando território e se apropriando de terras inabitadas pelo real proprietário.

Aquele que não cuida do que é dele corre o risco de invasão, mesmo que ilegal. É preciso lembrar que de ilegalidade também se vive.

Os manés verdadeiros são pessoas distantes do refinamento e não possuem a capacidade de se comunicar nem com os próprios vazios. Um tolo que passa despercebido pela vida que se importa. Chegam tarde e fazem perguntas respondidas. Falam alto porque creditam, na imposição, uma ferramenta de poder. Recuam de si próprios para invadirem a vida dos outros. Não se encontram em si porque lá há um deserto em expansão.

Nas entrelinhas, a vida acontece e dialoga com a gente. Enquanto isso, os manés verdadeiros estão preocupados em manter o brilho opaco dos palcos que acham que ocupam.

Os manés injustiçados ouvem as próprias pausas, e enxergam os significados invisíveis que os farão conectar com o verdadeiro entendimento sobre si e a vida. A mesma que está tentando falar com os manés verdadeiros.

Um executivo de uma automotiva multinacional, recém-chegado na área, se senta bem próximo à janela por achar que merece um lugar de destaque para ver a paisagem. Apoia-se na carteirada para dar comandos ineficientes sobre um assunto que mal conhece. Apropria-se de falácias e de verbos dourados de cores desnecessárias para disfarçar o indisfarçável: a ignorância. Encaminha um e-mail com conclusões equivocadas a cerca de um assunto e cobra atitudes de quem, ironicamente, já estava fazendo. Faz uma leitura da situação de forma primária porque está ocupado com a inércia do próprio ser. Um amador profissional. Relaciona-se com o que não existe.

Manés verdadeiros são assim: além de ocuparem cadeiras indevidas e colocarem sobre elas o próprio vazio, ainda insistem em atrapalhar os passos dos que andam. Eles brigam pelo lado da janela, mas não percebem que são, por meio dos corredores, que a vida passa, se transforma e se mostra. Enquanto os manés verdadeiros acham que a janela mostra a melhor paisagem, os manés injustiçados vão a frente perseguindo os corredores recheados de aprendizados e de avanços oferecidos pela vida.

Manés verdadeiros. Pobres tolos. Sempre buscam o lugar que cria uma visão limitada e tendenciosa sobre tudo. Mude de lugar e mude a perspectiva. Os manés injustiçados já sabem disto há tempos. Por isso, raramente são vistos próximos à janelinha. Vão sempre ao lado dos corredores e, acima de tudo, nos corredores.

Oscar Wilde, um fundamental poeta e escritor do século XIX, disse: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Os poetas sempre enxergam o que ainda não nos é evidente. Os manés verdadeiros buscam degraus altos e vivem interrompendo a verdadeira caminhada. São ávidos por atalhos, a ferramenta dos desavisados e dos que possuem essência duvidosa. Enxergam no supérfluo, o principal. São peritos na pose, mas não naquela que Oscar Wilde trouxe, mas na dispensável. Uma pose natural, como disse o poeta, é do grupo dos manés injustiçados, algo que os verdadeiros desconhecem. Pobres manés.

Enquanto os manés verdadeiros vão apegados ao supérfluo, o que importa e o essencial seguem como um rio a frente deles. Um rio que passa manso e denso, mas que passa. Os corredores não os interessam.

Na maior parte das vezes, o supérfluo é ardiloso o suficiente para nos fazer nos esquecer do imprescindível. É uma pena. Pobres manés que somos todos nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um trecho de um conto de Machado de Assis, O Medalhão, que diz:

- “Papai”, disse o filho.

- “Não te ponhas com denguices, vou dizer-te coisas importantes”, disse o pai. “Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino” ...

“É de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade”, disse o pai.

“Creia que lhe agradeço. Mas que ofício, não me dirá”? – disse o filho.

“Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício”.

Machado de Assis, um autor imprescindível e atemporal. Ele nos traz um possível e provável caminho (porque há vários) para merecermos o apelido de Mané: nos tornarmos um medalhão, um mané verdadeiro. Aquele que faz jus a toda a ineficiência e ineficácia que produz, seja pela fala, pela conduta, pela insensatez e pelo lugar que ocupa na vida. Um lugar que, de tão frequentado, se funde a ele próprio.