domingo, 19 de julho de 2015

Os gigantes vão ao longe

"Se cheguei até aqui foi porque me apoiei nos ombros dos gigantes".

Em minhas pesquisas, encontrei variações desta frase como:  “Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes” e "Se vi ao longe é porque estava nos ombros dos gigantes”. São creditadas ora a Isaac Newton, ora a Aristóteles. Como não encontrei um consenso, pedi licença para eles para utilizar a frase em meu texto. Eles concordaram desde que eu dividisse os créditos entre eles.

Enfim, tudo esclarecido, créditos dados. Penso que esta frase encerra reflexões atemporais e pode ser pensada sob vários aspectos. Escolhi falar sobre o poder que a alienação tem sobre nós, quando optamos por este caminho, ao mesmo tempo o poder que o conhecimento tem sobre nós, quando optamos por este caminho.

Alienação e Conhecimento. Caminhos inversos. Caminhos opostos. Caminhos que caminhamos. Caminhos que pertencem a nós. Caminhos que ajudamos a construir. Caminhos que só existem porque passamos por eles e deixamos as nossas marcas.

Muitas de nossas alienações vêm, obviamente, do desconhecimento, do não saber, daquele saber que nos foi ocultado, ou seja, mesmo que queiramos, não vamos saber. Pelo menos, não agora. Mas há aquele tipo de alienação que habita em nós e que alimentamos diariamente. É o tipo de alienação que nos corrói e mina a nossa capacidade de crescer como seres autônomos que deveríamos ser. Mas que ainda não somos, pelo menos não no nível que deveríamos.

Esta alienação que alimentamos colabora, e muito, para que esta autonomia se distancie de nós a cada dia. É uma alienação confortável, quentinha, preguiçosa, que nos protege e corrobora com a nossa máxima: “Sério? ” “Quando? ” “Ah, eu não sabia...” “Se eu soubesse...”.

No fundo no fundo, bem lá no fundo, a gente sabe que deveria saber, mas os desdobramentos do saber nem sempre são confortáveis e quentinhos. E o pior: depois que descobrimos que sabemos, não dá mais para dizermos “Sério? Quando? ”.

E a preguiça? Ah esta companheira de todas as horas...que acolhe a nossa cômoda ignorância..., mas você pode dar adeus a ela depois do saber, do caminho descoberto, do arregaçar de mangas.

A alienação, portanto, tem o seu valor: nos esconder de um mundo que terá cada vez menos respostas e que fará cada vez mais perguntas. Um mundo que terá cada vez menos muros e que te convidará a derrubá-los, se você tiver a ferramenta certa para isto. Para derrubar muros, a alienação não será necessária. Aliás ela é ótima para construí-los. Mas para derrubá-los, um bom martelo para descortinar o que estiver será muito bem-vindo.

Platão, filósofo grego, da antiguidade, mas que de antigo não tem absolutamente nada, escreveu um livro conhecido mundialmente: “A República”, e nele consta uma passagem muito estudada, chamada “O mito da caverna”, que talvez seja um dos textos filosóficos mais lidos e comentados, no mundo.

O mito diz que, numa caverna, viviam homens amarrados e acorrentados que não podiam mudar de posição. A única coisa que conseguiam fazer era olharem para a parede do fundo da caverna. A frente da caverna possuía uma pequena abertura e abrigava uma fogueira, mas os habitantes da caverna não podiam vê-la porque estavam de costas.  Em frente à entrada da caverna havia um muro de tamanho médio e, por trás dele, alguns homens se movimentavam carregando, sobre os ombros, estátuas trabalhadas que representavam várias figuras e imagens. Isto criava sombras no interior da caverna, projetadas pela luz da fogueira. Além disto, as vozes destes homens ecoavam e os habitantes podiam ouvi-las.

Como aqueles habitantes não conheciam o mundo externo e as únicas coisas que tinham eram as sombras projetadas e as vozes, começaram a acreditar que aquelas sombras eram a única e verdadeira realidade. E que o eco das vozes seria o som real das vozes emitidas pelas sombras.

O mito traz, ainda, uma suposição: de que se um dos habitantes conseguisse se soltar das correntes, ele buscaria esta luz, esta claridade que viria de fora e se habituaria a este novo mundo que se apresentava para ele. E de posse desta nova realidade, começaria a entender o que significavam aquelas sombras, aquelas imagens. Desta forma, ele voltaria à caverna para contar a novidade aos que ficaram ali e, assim, ajudá-los a se libertarem. Mas quando ele volta, é chamado de louco e é morto por seus companheiros.

Este texto é bastante utilizado e muito já se debateu sobre ele. Um dos pontos importantes de interpretação é que nós (representados pelos prisioneiros da caverna) acreditamos muito naquilo que nos é dito, acreditamos em imagens criadas que nem sempre refletem a realidade. E o mais crítico: replicamos modelos ineficientes que aprendemos e que nem sempre promovem o bem, o aprendizado, o desenvolvimento, a autonomia.

Todos daquela caverna tinham o mesmo comportamento: o de olharem para a parede e acreditarem naquilo que viam. Mas aquilo que viam (imagens distorcidas da realidade) não era o verdadeiro, o real. E mesmo depois, quando um dos habitantes libertos volta para trazer a luz para aquela caverna e para eles, este homem é morto. Morto porque trouxe a luz, quis levá-los para outro patamar de existência.

Replicar modelos ineficientes, como o de acreditar em falsas imagens projetadas na parede, é sinônimo de alienação, como escrito anteriormente. Alienação é uma forma de acreditar em falsas imagens, em falsas sombras. Obviamente que não se podia exigir que aqueles habitantes tivessem alcance para desconfiarem daquelas sombras e, desta forma, questionarem.

Portanto, até aquele momento, a alienação deles estava explicada. Porém, a partir do momento que o outro habitante quis trazer a luz, por que recusá-la?

Assim fazemos. Tudo por conta da alienação, do medo de sair da caverna, desta falsa proteção que achamos que temos. É preciso desconstruir a forma como nos ensinaram a pensar. Pensar? Não sei se nos ensinaram a pensar ou se nos ensinaram a replicar modelos e regras. Assim fica mais fácil controlar e saber quem errou e, desta forma, puni-lo.

Fomos criados no sistema punição x recompensa. Já disse isto em algum outro texto.

Acertamos, somos recompensados. Erramos, somos punidos. Trata-se de um sistema que cria seguidores e não desbravadores. Trata-se de um sistema que faz o ser humano andar por caminhos já trilhados e construídos, e não a criar o seu caminho, a trilhar o seu andar. E a alienação está no caminho da punição x recompensa. Como fomos educados neste sistema, ali estamos alimentando a alienação. E quando nos desvinculamos, nos chamam de loucos.

E não foi o que fizeram com aquele habitante que conseguiu se desamarrar das correntes?

Seguir no caminho da alienação é perpetuar estereótipos ineficientes.  E o pior é que muitos deles estão se perpetuando e se renovando.  E por que isto?

Porque o comportamento é algo construído socialmente. Portanto, o lado bom disto é que muitas coisas boas serão exemplificadas e replicadas. Porém, os estereótipos ultrapassados também serão renovados por meio do nosso comportamento. E numa sociedade complexa como a nossa, a mudança de patamar é um desafio diário.

Penso que os tais gigantes sobre os quais Isaac Newton e Aristóteles se apoiaram tenham sido estas pessoas que ousaram sair da caverna. Estes desbravadores enxergaram longe e se desacorrentaram em busca da luz. O caminho deve ter sido árduo. Mas o que pode ser mais árduo que ficar condenado a olhar somente para uma parede, com imagens e sombras sendo projetadas o tempo todo? E o pior: acreditar nisto.

Quantas tradições, hábitos e crenças acabaram criando desavenças e guerras no mundo? As tais sombras nas paredes...

Nossa visão está ofuscada. E este ofuscamento é porque não queremos enxergar a luz. Temos dificuldades de assimilar outras posições, assumir que erramos, nos abrir a outros conhecimentos. Quando nos colocamos na posição de aprendizes, que é o que somos e o que sempre seremos, precisamos dizer uma frase mágica: “Eu não sei. Por favor, me ajude”. E como é difícil dizer “eu não sei” no mundo dos que acham que sabem, no mundo que não dá espaço para o “não saber”. Como é ilusório dizer que sabemos!

Para aqueles moradores da caverna tudo estava no lugar, tudo estava certo, tinham as respostas. Para que ir lá para fora? Bobagem...

As imagens projetadas na parede da caverna não poderiam ser sobrepostas ao que era verdadeiro. Mas foram e são assim ainda hoje. E convivemos com isto.

Estamos subindo cada vez mais os nossos muros, além das cercas elétricas. Isto só reforça a nossa alienação. O outro que não tem sequer a casa para ter muros, que dirá uma cerca elétrica, embrutecido, agride o dono da casa que tem muros.

Com estes muros tão altos, como vamos nos apoiar nos ombros dos gigantes?

Os gigantes vão lá na frente..., mas os muros altos nos impedem de vê-los.

Os meninos pobres e sem muros em suas casas, vulgarmente chamados de menores, brincam de carrinho de rolimã na rua porque querem, podem e também porque não têm acesso ao tablet e nem aos livros.

Os meninos ricos e com muros em suas casas, educadamente chamados de crianças, brincam nos seus tablets porque querem, podem e também porque não conhecem o carrinho de rolimã. Ah, mas eles têm livros...

A falência de nossos valores, a crença desmedida naquilo que não faz sentido. O ir com o fluxo sem perguntar para onde se vai. Isto é alienação. Isto é construir e fazer a sua morada numa caverna.

Meus avós dormiam de janelas e de portas abertas. Por que hoje uma tranca só não é suficiente? Nem a nossa impressão digital mais dá conta da segurança. A ordem agora é mapear a nossa corrente sanguínea. Aí sim ninguém poderá se passar por nós. Socorro!

É preciso saber quando a alienação passou dos limites. O limite é necessário para nos libertarmos das nossas cavernas.

Temos medo de mudar porque isto nos desequilibra. Mudar é desequilibrar. Andar para frente requer desequilíbrio momentâneo. Mas quem quer se desequilibrar no mundo em que o equilíbrio é uma constante para os vaidosos?

Atitude transformadora é para quem quer sair da caverna. Mas precisa ter coragem de enfrentar o que estiver lá fora. Caverna é para muitos. Sair da caverna é para poucos e para os gigantes que tiverem a coragem de crescer.

Por isto penso que sair da caverna é uma escolha. Difícil, mas certamente recompensadora. A escolha é nossa. Ninguém poderá fazê-la por nós. Mas penso que se ousarmos sair dela, voltar lá será obrigatório para resgatar ou, pelo menos, tentar resgatar quem ficou lá dentro.

Mas só conseguiremos fazer isto se nos apoiarmos sobre ombros de gigantes, como disse Isaac Newton ou Aristóteles, que viram isto tudo antes da gente porque ousaram sair, bem cedo, de suas cavernas.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ei, McBarker...



Quem está aqui há algum tempo, certamente se lembra do Mr. Magoo: um velhinho simpático, “quase” cego e que vivia em confusão por conta disto. Sempre acompanhado de seu cão McBarker que ficava aflito quando via seu dono dirigindo na contramão. Uma das frases mais famosas do Mr. Magoo era: “Ei, McBarker...” e lá ia ele se meter em encrencas!

Como estou aqui há algum tempo, me lembrei com saudades deste desenho. E como era bom assisti-lo apenas como um desenho! Porque era isto o que ele representava para mim: apenas um desenho. Não era preciso pensar e nem refletir sobre coisa alguma.

A infância traz isto de bom: o riso frouxo, a inocência que nos isenta e nos protege do saber, e o descompromisso com a obrigatoriedade de olhar além, algo que a maturidade nos exige.

Esta inocência da infância, que nos convida apenas para viver e brincar, vai ficando distante na medida em que vamos amadurecendo e percebendo a complexidade das coisas, da vida e sobre esta necessidade de olhar além, enxergar o imperceptível, o óbvio. Olhar além é imprescindível se não quisermos ser atropelados pelos míopes de plantão.

A miopia só é engraçada na pele do Mr. Magoo, e ainda assim, apenas quando somos crianças.

Hoje, com a infância tendo se despedido de mim há algum tempo, descobri que o Mr. Magoo não era tão cego assim. Era uma estratégia dele para passar pela vida sem se aprofundar sobre as grandes questões. Sem responsabilidades. Ele era míope, claro, mas não cego como eu acreditava na minha infância. E mesmo esta miopia que ele tinha era discutível: em ocasiões que o interessavam, bem que ele enxergava. Mas como ele queria que os outros acreditassem que era cego ou, no mínimo, míope, assim ele fazia.

Quantos recados Mr. Magoo já nos dava naquela época. Mas não era possível percebê-los.

Um episódio clássico que me lembro é aquela cena de um grande fluxo de carros e ele, claro, dirigindo na contramão. Muitos carros bateram por causa disto, mas ele, que foi quem causou todo o transtorno, saiu ileso.

Rimos por causa do absurdo. Como alguém, dirigindo na contramão, pode se sair bem? Mr. Magoo conseguia. Mas na vida real, sabemos que não é bem assim.

Ele tinha sorte? Pode ser. Mas não era só isto. Existia uma crítica por trás daquele comportamento: a de não enxergar o que importava, a de delegar aquilo que não era possível, a de ser irresponsável, a de ser inconsequente. Coisas que a infância não nos permitiria enxergar, certamente.

Passada a infância, percebemos que o Mr. Magoo continua ativo, dentro e fora de nós.

Somos míopes em enxergar as nossas questões, mas enxergamos muitíssimo bem quando o assunto é apontar o dedo para o outro. Somos especialistas no assunto. Este é o Mr. Magoo de hoje. E acho que ele sempre existiu.

Quando apontam o dedo para nós nos sentimos injustiçados. Mas quando apontamos o dedo para o outro temos uma listinha de razões. Caso ele não concordar com o primeiro item da nossa lista, teremos o segundo, o terceiro...

A miopia nos faz orgulhosos, vaidosos, arrogantes. “Eu sei”. “Eu faço”. “Eu ganhei”. São tantos os “eus” que nem sei como não tropeçamos em nós próprios.

Somos míopes para o que realmente importa. Dá trabalho enxergar, dizer que viu. Quando dizemos que vimos, precisamos nos posicionar, opinar, descer do muro. Só que ficar sobre o muro é bem mais confortável que descer dele. Quando descemos, precisamos tomar partido, escolher um lado, o que, obviamente, implica abrir mão do outro. Isto, muitas vezes, pode se traduzir em desavenças, desentendimentos. Então é mais fácil dizer que não vimos. Pronto. Vamos nos escondendo na nossa miopia criada de forma tão conveniente. Criamos conveniências para atender a nossa vaidade. É este o nosso mundo.

Temos, claro, os que enxergam, e enxergam longe. Mas o mundo não é tão gentil com os que enxergam.

“Quem você pensa que é”? “Sabe com quem você está falando”? São perguntas clássicas dos míopes. E os que enxergam precisam, o tempo todo, respondê-las. Cansativas e exaustivas, mas precisam ser respondidas.

O míope é um limitador da linguagem. Acha que sempre tem resposta para tudo. Mas não tem. E nunca vai ter. Aliás nunca teremos. Eles querem, mas entre o querer e o poder, há uma longa distância. O míope quer saber tudo, quer ter tudo à mão, quer que façam por ele e para ele. Pobres míopes. Não querem o trabalho da construção, do processo, do caminhar. Têm dificuldades de enxergar além porque o seu umbigo está muito próximo dele. Acham que possuem as informações da vida, sabem a verdade. Eu sou... é a máxima do dicionário deles.

Manoel de Barros, um maravilhoso escritor que nos deixou há pouco tempo, dizia que quem acumula muita informação perde a oportunidade de adivinhar. E dizia, também, que precisamos nos tornar pessoas de conhecimento e não pessoas com informações. Por isto Manoel de Barros é considerado um dos imortais de nossa Literatura. Sabe das coisas.

A capacidade de adivinhação nos permite enxergar além, aquilo que falei que a maturidade nos exige diariamente. Mas isto ficou para trás porque estamos muito preocupados com o ter, com a posição, com o estatus.

Adivinhar é coisa de gente fraca. Eu tenho as respostas.

Tem uma frase que diz: “quando decorei todas as respostas, a vida mudou as perguntas. ” Pois é, ironias da vida. Não podemos perder o nosso prazer pela adivinhação, pela descoberta da vida. Caso contrário, ela vai mudar as perguntas. Estejamos certos.  Ela ensina de forma amarga, muitas vezes, mas quem mandou desprezarmos o açúcar?

O míope é aquele que não quer saber do contexto, e tira conclusões baseado apenas no texto. O míope está sempre apressado. Acha que nunca tem tempo. Está sempre correndo.

Você já conversou com algum míope? Você começa a falar e ele, sem pensar, te interrompe e conclui o que você estava tentando dizer. E aí você diz: “mas não era isto o que eu ia falar. ”

Ao passo que aquele que vê, que enxerga, tem tempo, tem espaço para o outro. Tem tempo porque sabe usá-lo e não vai na contramão dirigindo como louco atrapalhando os outros. Respeito e moderação são atributos dos que enxergam. Arrogância e prepotência são características dos que acham que enxergam.

Respeito e moderação trazem liberdade. Arrogância e prepotência trazem alienação. Prezamos tanto a liberdade, mas quando a temos em mãos, não sabemos o que fazer com ela. A liberdade nasce a partir da criticidade, da autenticidade, da autonomia. Mas como ser autônomo dirigindo na contramão?

Trabalhei numa Empresa que dizia que ela era o próprio benchmarking. Dizia que não existiam outras empresas que poderiam servir de benchmarking para ela. Participando de uma reunião, disse, para nós, o Diretor: “para quê fazer benchmarking? Somos o maior e o melhor benchmarking do mercado. Eles é quem deveriam aprender conosco e não o contrário. ” Enfim, acho que a miopia do Mr. Magoo passou por lá.

Com esta miopia latente, é melhor nem falarmos sobre ética. Aliás, o que é isto mesmo? Num mundo aonde a miopia aumenta consideravelmente, quem vai sair desta contramão?

Mas a conta da miopia chega para todos. E não vai dar para parcelar o débito.

Em outra reunião, na mesma Empresa, ouvi a seguinte colocação: “errem dentro da política, mas não acertem fora dela. ” Socorro! Quanta miopia e arrogância!

As regras e as políticas são necessárias, porém desde que façam sentido.  Dizer para errar, porém dentro de uma regra, mas jamais acertar fora dela é assassinar qualquer poder de iniciativa que pudesse nascer ali. Se alguém, naquela reunião, tivesse alguma ideia para dar, certamente ficaria calado. E foi o que aconteceu. Enfim, Mr. Magoo fez escola...

A miopia é uma forma de nos colocar como vítima diante à vida. Somos vítimas de nossa própria falta de limites e de educação. Somos nossos próprios reféns.

Somos míopes para enxergar o que deveria ser visto. O míope tem dificuldade de enxergar de longe porque não sabe lidar nem com o que está próximo dele.

Temos uma relação difícil entre o desejo pelo poder e o não direito a este poder que achamos que temos.

Esta miopia está nos tirando a esperança de acharmos uma solução. E isto está nos tornando insensíveis e frios. A dor do outro não me dói mais. Não sei se um dia chegou a doer, mas o fato é que a miopia está aumentando.

Nossas emoções estão míopes porque só queremos as boas emoções. As más e as difíceis, medicalizamos. Deixa que o remédio dê conta disto.

Estamos, como o Mr. Magoo, andando na contramão de coisas importantes. Mas lá era só um desenho, aqui não. Lá era engraçado, aqui não.

A miopia é exatamente esta deficiência de se enxergar além, ir adiante, mais longe.

A conveniência de ser míope: “puxa, não vi, me desculpe”. A miopia te camufla, te protege.

Medir o outro pela sua régua é um grande sinal de cegueira, de miopia. Os míopes enxergam as diferenças como divergências. E isto é andar na contramão da vida. É atropelar o outro. É não deixar o outro falar.

A miopia se dá quando nos escondemos na submissão, quando não assumimos a nossa posição, quando temos medo de dar a nossa opinião.

A miopia se dá quando fazemos de conta que não sabemos, nos escondemos em medos que criamos só para nos fazer de fracos e alguém ficar com pena da gente.

Vi uma criança de não mais de 07 anos vender limão no farol. Isto acontece ao mesmo tempo que algum marmanjo ganha algum dos auxílios do governo. Isto me faz entender o porquê este menino precisa vender limão no farol.

Os auxílios financeiros são importantes desde que sejam pontuais, e não como uma forma de sustento fixo para quem pode e deve se sustentar.

Ajuda não pode ser confundida com assistencialismo. Uma coisa é ajudar; outra coisa é sustentar. Uma coisa é dar condições para. Outra coisa é fazer pelo outro. Agora entendo porque o menino de 07 anos vende limão no farol e mais de 140 milhões de adolescentes estão fora da escola, no mundo. A miopia do Mr. Magoo já sinalizava estas coisas, mas era preciso entendê-las. Os desenhos animados, de ingênuos, não têm nada.

Miopia é esta dissociação, este paradoxo do outro. O outro está sempre errado, o preconceito é sempre do outro. Queremos ser aceitos. Então fazemos de tudo para tal, mesmo que isto custe a nossa dignidade.

Precisamos sair de nós e olhar de um ponto de vista neutro para que possamos amadurecer. Mas quem se habilita?

O míope não quer ver o contexto, não quer saber do todo. Diz que não tem tempo.

Quem vê quer saber do contexto, quer saber do todo. Sempre tem tempo.

O míope enxerga a conveniência. O que vê enxerga a totalidade.

O míope enxerga o micro. O que vê enxerga o macro.

O míope quer a resposta. O que vê faz sempre perguntas.

Penso que os míopes tenham sido elogiados demais na infância. Muitos elogios nos fazem perder a medida das coisas, nos fazem perder o tamanho de quem realmente somos, nos tiram da realidade. Por isto nos tornamos míopes: queremos ser maiores do que verdadeiramente somos. O elogio em excesso nos faz olhar somente para nós e deixar de olhar para o outro. Quando olhamos para o outro e enxergamos nele habilidades diferentes das nossas, isto vai nos trazendo medidas para a vida. Mas com tantos elogios, como enxergar estas medidas e estas habilidades diferentes no outro, que nós não temos? Por isto somos míopes.

E o que pode nos tirar desta miopia?

Sabemos que não há receita, não estamos fazendo um bolo. Portanto não é simples. Mas acredito que um caminho que se desenha é trabalhar a nossa autoestima, construirmos e desenvolvermos a nossa autonomia como seres humanos. Desta forma, reduziríamos os nossos níveis de narcisismo uma vez que não estaríamos mais no pedestal da vida. É preciso conhecer as nossas medidas, conhecer as medidas da vida. Elas existem, apesar de insistirmos em não as conhecer. Aquele que quer tudo somente para si é um narcisista, e isto traz um distanciamento do que realmente importa. Se o narcisista não consegue toda a admiração de que precisa ele se torna agressivo quando criticado e rejeitado.

Quando olharmos para as necessidades do outro a nossa miopia começará a dar lugar à claridade, à lucidez.

Num mundo que valoriza a miopia em vários aspectos, realmente é difícil enxergar o que ninguém vê. Enxergar além. Vão tentar nos impedir a todo custo. “Tolo”, dirão para nós. Mas é fundamental, se quisermos dar um passo além.

Como disse Isaac Newton:

“Construímos muros demais e pontes de menos. ”

Talvez seja este o principal motivo de nossa miopia.

domingo, 5 de julho de 2015

As pessoas vão e vêm

As pessoas vão

As pessoas vêm

Vão a todos os lugares. Vêm nem sempre de todos eles

Vão porque precisam. Vão porque querem

Vêm porque não querem. Vêm porque alguém mandou

Vão para fazer

Vêm para saber

Vão para obedecer

Vêm para entristecer

Vão para começar

Vêm para esquecer

Tem gente que vem para que o outro chegue. Tem gente que sai para que alguém entre

Tem gente que dá passagem; tem gente que emperra a passagem. Tem gente que finge dormir para fazer “de conta” que não viu

Mas alguém avisou que o faz-de-conta é só para os livros e memórias de Emília?

Tem gente que sai, tranca a porta e leva a chave. Mas tem gente que deixa a chave embaixo do tapete

Tem gente que quer que você entre. Tem gente que finge não estar em casa

Outros chegam porque outros foram embora. Às vezes em boa hora; às vezes, não

Talvez os que foram não deveriam ter ido. Tem espaço para todos. Será?

A pergunta sem resposta; a resposta sem pergunta. A pergunta que não terá resposta. E a resposta que precisa de perguntas certas. E qual é a pergunta certa? Será que ela existe?

O movimento paralisa. O excesso nos priva do pensar

As pessoas acordam enquanto outras dormem

As pessoas estudam enquanto outras tentam sobreviver

Tem gente que aprendeu a escrever o nome bem tarde; tem gente que nunca aprenderá

Tem gente que ajuda a significar. Tem gente que só atrapalha

Acordar para poder levantar. Deitar para acordar

Tem gente que não sai e, portanto, o outro não consegue entrar

Tem gente que não sai porque acha que o lugar é dele. Mas ele ainda não se achou nem dentro dele

Tem gente que grita para esconder o medo da sua insignificância

Tem gente que fala manso e sua mansidão ganha significado longe

O movimento paralisa. A inércia faz pensar. O falar às vezes é inoportuno. O silêncio é uma oração. A ferrugem denuncia a ausência

O silêncio é ausente nos dicionários da arrogância

Tem gente que fala quando deveria se calar

Tem gente que silencia quando deveria falar

As pessoas vão e vêm

O barulho dos passos ensurdece o som dos pássaros. Mas quem os ouve?

Porque as pessoas vão e vêm, os pássaros vão precisar esperar. Mas eles sabem. A gente não

As pessoas vão e vêm como figurantes pela vida: o figurante não fala

O barulho dos pensamentos das pessoas é interrompido pela pressa das buzinas

A vontade dos pensamentos das pessoas é interrompida por mais uma meta a ser cumprida

As buzinas fazem vozes e escondem a tristeza que vai dentro de cada um

A pressa das pessoas é um santo remédio para esconder a tristeza

A tristeza resgata a gente para o nosso íntimo: um lugar que há tempos não passamos. Onde fica o nosso íntimo, mesmo?

A inteligência tem reclamado seu estado de burrice frente à forte obediência

As pessoas vão para aparecer

As pessoas vão para desaparecer

A figuração pela vida é um reflexo da toalha que jogamos no chão e deixamos que o outro ganhasse a parada

As pessoas vão para destratar

As pessoas vêm para retratar

O destrato é a arte do descaso

Descaso para com a vida

A vida. A minha, a sua a nossa vida. Uma vida que está sofrendo uma medicalização porque queremos controlar, com químicas, os nossos sentimentos e as nossas dores

Nem os sentimentos e dores ganham espaço neste ir e vir

Estamos com pressa

Não dá tempo de sofrer

Não dá tempo de ficar triste

Não podemos parar a máquina das vaidades

Bendito seja o remédio que esconde o que o nosso íntimo tenta nos mostrar

Por isso as pessoas vão e vêm

Para não verem as dores e nem os sentimentos seus, que dirá os alheios

O remédio sendo feito de Deus: tomo e espero a cura

As pessoas vão e vêm

As pessoas vão para ajudar

As pessoas vão para atrapalhar

As pessoas vão e vêm sem saber para onde estão indo e nem onde estão chegando

As pessoas vão e vêm

Vão para entender a fundo e o fundo das coisas

Vêm para ficar no raso: a superfície é sempre mais segura. O que me perguntarem ali, vou saber responder

A mulher oprimida pela educação. O homem oprimido pela obrigação

As pedras menores que há no caminho não podem ser retiradas porque alguém as eternizou

As pedras maiores que há no caminho podem ser retiradas, mas alguém não viu porque as pequenas impedem a visão das maiores

Tem gente que caminha em círculos e nem sabe

Tem gente que anda bem, mas somente sozinho

Tem gente que está perguntando, ainda, qual é o caminho

Tem gente que aprendeu faz tempo e já está fazendo pontes para outros

Tem gente que anda bem no caminho que o outro trilhou

Tem gente que se perdeu faz tempo, e não sei se vai se achar. Talvez ele se ache se recolher a toalha que ele mesmo lançou no chão

Tem gente que tem o que dizer, mas ninguém pergunta e nem quer ouvir

Tem gente que não tem o que dizer, mas há muitos perguntando o que ele acha, somente para servir de alimento para a vaidade e presunção de alguns tantos que acreditam nisto. Coitados!

As pessoas vão e vêm

Para aonde vão? Não sei se elas sabem

O sinal tocou. Alguém tocou este sinal. Portanto é preciso entrar

Mas o aprendizado se dá sem toques de sinais. Mas é preciso entrar porque alguém mandou

E é este alguém que certamente faz parte daquele grupo de pessoas que vão e que vêm

terça-feira, 30 de junho de 2015

Quando as palavras se desentenderam

Era manhã e a minha manha me fez usar da artimanha de dormir um pouco mais

Passada a hora. Eu atrasada. Fiquei estressada porque estava chateada e desesperada

E a falta de tempo me trouxe um contratempo porque não me deu nem um meio tempo para pensar na hora que era agora me levando embora e para fora

Estava com pressa e, depressa e não pouca-pressa, fiz a compressa na testa e possessa nessa pressa fiz a prece com pressa

Sem essa!

Com pressa eu não faço a prece que é uma compressa para a minha dor. Eu disse compressa e não com pressa. Por que com pressa eu não faço a prece que é a minha compressa, mesmo que eu me apresse. Promessa

O jeito é correr para percorrer o querer e o sofrer. E o viver!

Da dor do amador do agressor do meu autor. É do escritor que falo!

Haja tato para lidar com tato com todo o contato que nos é colocado. Fato!

Contanto que aja já e haja senso e não censo, cedo aqui para que cedo ali eu avance na chance do lance com suas nuances. Mas aí será outra história com outras glórias

Glórias simplórias; glórias inglórias, mas sempre com dedicatórias. Mesmo sendo inglórias, porém nunca vexatórias

Isto fará parte da nossa história. O experimento da dor com sabor, da alegria com alegoria

Bendito o palhaço que é feito de aço

Que ouve ou vê aquilo que houve. Que faz capaz e perspicaz

Que faz a vigilância também da comilança na lambança da nossa andança

No caminho, pego sozinho o bondinho comendo o meu polenguinho

Mas como sou mesquinho, guardo o pedacinho só pra mim. Quero sair de fininho, então dou um empurrãozinho

“Vai catar coquinho”, um nervosinho falou!

Distante ainda o caminho

Por isso, vou dando conversa para o ambulante que sonha ser comediante. Mas acho que ele se faz um delirante!

Mais perto estou do caminho. Aperto o incerto, e entreaberto desço no deserto encoberto, mas liberto

Cansado. Mas adequado e adaptado. Animado com o aprendizado

Chega a noite. Ouço um “boa noite” da dama-da-noite

É hora de descansar e parar para aclarar e comparar e, quem sabe, reparar

Era noite. Fui fazer o chá-da-meia-noite que é o mesmo de ontem

O mesmo, mas não a esmo em torno de si mesmo

É madrugada. Cansado da andada da estrada

Durmo para encontrar o rumo

Hora de acordar

Ora, acorda!

Sem se acovardar para enfrentar o que te faz acomodar. Andar te faz aprofundar

Era manhã e a minha manha...

A rotina é inimiga da adrenalina, mas elas se completam. E isto é desde os tempos da brilhantina!

A alegria é a alegoria da nossa autoria

Existência com essência, mas com advertência!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Estenda as suas asas

Respeito. Um dos valores mais importantes do ser humano. Pelos menos, deveria ser. Ele nos impede de termos ações reprováveis em relação ao outro.

Educação. Um dos direitos essenciais do ser humano. Pelos menos, deveria ser. A educação existe, em um de seus papéis, como um propósito para que o indivíduo desempenhe funções nos contextos sociais. É um processo contínuo de desenvolvimento para o melhor que cada um pode ser.

Educar é um ato de amor, acima de tudo. É um direito, sim, mas é um ato de amor que nos liberta para sermos o melhor que pudermos.

Mas acho que isto está um pouco distante de nossa realidade. Infelizmente.

A teoria nos abastece com belos textos, mas como estão distantes da prática! Isto explica o desequilíbrio que temos e vivemos.

Olhando para a nossa história, temos excelentes exemplos de educadores e de estudiosos, excelentes sugestões de caminhos a seguir, excelentes teóricos que dedicaram muito tempo de suas vidas à educação. Por que, então, temos um abismo entre a teoria e a prática? Por que somos excelentes no falar, no mostrar caminhos, no sinalizar tendências, no apontar soluções, mas somos ineficientes no colocar tudo isto em prática?

Uma palavra que me vem à mente e que, pelo menos, para mim, responde a muitas das minhas dúvidas, e também responde a esta que faço agora, é a desonestidade. Somos desonestos. Ponto. Simples assim. Não cabe, aqui, ofensas pessoais, mas uma constatação.

Portanto, este desequilíbrio que se dá entre a teoria e a prática chama-se desonestidade. Desonestidade não é somente pegar algo físico que não pertença a você, roubar um dinheiro e afins. Roubar também significa tirar o “direito sobre algo”. E não é isto o que fazemos quando temos uma banalização do estudo, do ensino, como a que presenciamos diariamente?

Tendemos a pensar na palavra “roubo”, “desonesto” somente no sentido físico e material que elas trazem. Mas quando pensamos no significado destas duas palavras num sentido profundo, percebemos que o material ficou lá atrás, bem atrás. Roubamos, diariamente, o direito dos outros sobre algo e somos roubados também. E com a Educação não seria diferente.

Estamos sendo desonestos com a nossa educação, consequentemente desonestos conosco, também. São várias as desonestidades que encontramos ao nosso redor. Mas escolhi, neste texto, falar sobre uma delas, que é a desonestidade para com a nossa Educação.

Esta desonestidade é uma das causas básicas de todos os nossos problemas, que começam quando nos distanciamos de nossa essência. Quando a nossa essência começa a se distanciar de nós, deixamos um pouco de existir. E quando penso assim, as coisas começam a fazer sentido. A desonestidade incide nisto: no distanciamento da nossa essência, de nos permitir ser roubados a cada dia um pouquinho, e de roubarmos um pouco do direito do outro.

Roubamos o direito de existir da Educação porque a afastamos da sua essência. E qual é a essência da Educação? Vou apresentar alguns números que talvez respondam a pergunta.

Gems Education Solutions, uma consultoria Educacional de Londres, realizou, em 2014, um estudo sobre a Educação e seus níveis mundiais. Numa pesquisa com 30 países, o Brasil ocupou o 28º lugar no item “valor que se gasta por ano, por professor”. Veja a classificação:

1) Suíça: 68,8 mil dólares
2) Holanda: 57,8 mil dólares
3) Alemanha: 53, 7 mil dólares
28) Brasil: 14, 8 mil dólares
29) Hungria: 14, 7 mil dólares
30) Indonésia: 2,83 mil dólares

Ou seja, de 30 países pesquisados, estamos, praticamente, na lanterna. E isto explica muitas coisas. Somente um País que não valoriza a educação poderia apresentar estes números.

Um outro índice, o de eficiência, colocou o Brasil no 30º. Conforme explicado pelo Instituto, índice de eficiência é uma comparação que se faz entre o que se gasta com a educação x o resultado na formação dos alunos. E o nosso Brasil ficou um pouquinho pior neste índice. Veja a classificação dos mais eficientes:

1) Finlândia: 87,81%
2) Coreia do Sul: 86,66%
3) República Tcheca: 84,38%
29) Indonésia: 51,13%
30) Brasil: 25,45%

Portanto, para respondermos a pergunta “qual é a essência da Educação? ”, é fundamental entendermos o que é eficiência, no contexto da escola e do ensino. A partir daí, entenderemos qual é a essência da Educação e, consequentemente, entenderemos o porquê roubamos o direito de existir da educação. Quando as coisas começam a ser entendidas, nossas atitudes vão sendo explicadas, também.

Ser eficiente é, pois, aprender a conviver com o outro, em primeiro lugar. O distanciamento do convívio pessoal, que há hoje, é muito crítico. Queremos que o aluno tenha capacidade de pensar, de transformar o mundo, mas não o ensinamos a conviver, não o incentivamos a tal. Queremos isto, mas o que mais fazemos como seres humanos é nos distanciarmos do outro.

O ensino médio prepara o aluno para o vestibular, na maior parte das vezes, infelizmente, e não deveria ser este o objetivo.  A educação tem sido vista como um bem de consumo, um objeto e não uma causa, como deveria ser. Por isso o índice de eficiência educacional do Brasil foi ruim. Preocupamo-nos com tudo na educação, menos com o principal: que é aprender a conviver com o outro, em primeiro lugar. E isto é um roubo. Isto é desonesto.

Paulo Freire, um dos maiores educadores que o Brasil já teve, dizia que uma das principais perguntas que deveríamos, enquanto cidadãos e educadores, fazer era: “para quê ensinar? ” A falta desta resposta tira a essência da educação. Este sempre foi o debate e o questionamento de Paulo Freire. Porém o que nos ensinam são as técnicas e o como. Aquilo que não é discutido (para quê estudar?) revela muitas coisas. O silêncio revela; a ausência revela.

Isto tudo é roubar o direito de existir da Educação porque tudo está muito longe da essência. Num mundo materialista como o nosso, o que prevalece é a aparência e não a essência. A aparência está intimamente ligada à personalidade (personalidade = persona = máscara = falso: o que quero mostrar?), ao passo que a essência está intimamente ligada à individualidade (individualidade = indivíduo = eu = indivisível). Portanto, me importo com aquilo que sou ou com aquilo que quero aparentar? Fica uma reflexão.

Outro significado para a palavra desonestidade é a colocação de empecilhos a partir do momento em que não aceitamos a verdade. Empecilhos para não fazer, para deixar para depois, para amanhã. Bendita seja a procrastinação! Ainda bem que ela existe para apoiar a ineficiência, a desordem e a falta de escrúpulos.

Temos muitas iniciativas maravilhosas na educação, muita gente com vontade de mudar, de fazer aquilo que é o certo, aquilo de que a educação precisa. Mas ainda são ações isoladas.

É preciso entender que não estamos aqui para usufruir do mundo, mas para fazer algo pelo mundo. Difícil entender isto quando roubamos coisas e somos roubados. Tem um escritor que diz que o único valor da vida é o bem que se faz. E qual é o bem que estamos fazendo pela sociedade e pela educação? Não sei responder a esta pergunta.

Para pararmos de roubar o outro e de sermos roubados e, assim, voltarmos a existir, é preciso voltar para a nossa essência, que muitos de nós sequer a conhece.

Nada é conhecido se não for amado.

Vejo uma triste banalização do que não poderia ser. Precisamos utilizar bem o que temos, mas não sei se nos conscientizamos a respeito.

Precisamos resgatar a nossa capacidade de ser e de existir. A baixa autoestima não nos permite existir. Vamos tentar entender o que explica este nosso comportamento, nossas ações, o porquê aceitamos determinadas coisas, o porquê fazemos determinadas coisas. O porquê roubamos, o porquê somos roubados.

Temos que combater algumas coisas frontalmente. Buscarmos existir. Construir, de verdade, um mundo sem paredes. E rápido. Ele não vai ficar esperando por nós. É melhor começar logo. Alguém pode, por favor, desligar a televisão para sairmos da alienação?

Desligar a televisão é uma decisão importante. E uma decisão importante aponta as curvas dos nossos caminhos. Caminhos novos, sem roubos.

Precisamos buscar o que perdemos e nos preparar melhor. Quando nos preparamos temos opções. E aí o resultado da nossa existência começa a aparecer. Uma existência com essência, sem roubos.

Encerro este texto apenas no papel, uma vez que o assunto é longo. Deixo uma frase de Humberto de Campos, jornalista, poeta e escritor, para nossa reflexão:

“Cada ave, com as asas estendidas, é um livro de duas folhas aberto no céu. Feio crime é roubar ou destruir essa miúda biblioteca de Deus. ”

Que possamos ser esta ave com as nossas asas estendidas representando livros abertos, com a esperança de que ninguém roube, nem mesmo a gente, esta maravilhosa biblioteca que nos foi dada.

Com o pensamento e a atitude voltados para a nossa essência e, consequentemente, para o nosso existir, até o mais astuto dos ladrões, mesmo que este ladrão seja a gente mesmo, ficará envergonhado de suas ações, principalmente a de nos impedir de voar.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Padre, eu pequei


A imagem acima, disponível na internet, nos oferece inúmeras reflexões e inúmeros caminhos para conversas. São várias as ramificações que a imagem nos proporciona e nos provoca.

Após o primeiro impacto que ela me causa, o riso, logo percebo a ironia implícita nos diálogos, o que me obriga a colocar o riso no segundo plano, e a escolher qual destas ramificações, que a imagem me causa, vou querer falar. E escolhi falar sobre o limite, ou melhor, a falta e o excesso dele.

Independentemente da religião de cada um, se é que a temos todos, de forma alguma trago esta imagem para criticar algo sobre a religião ou para falar sobre. Absolutamente. Cada um com as suas crenças. Cada um com a sua direção espiritual.

O que trago aqui, por meio desta figura, é uma reflexão sobre o limite, tanto a falta dele como o excesso. Os dois são ruins e nocivos a nós. E acredito que esta imagem é bastante emblemática para falarmos sobre isto.

No desenho, uma pessoa, que poderia ser qualquer uma de nós, busca a Deus para alívio de suas dores, de suas angústias existenciais. E ansioso pela resposta que poderia aliviar a sua dor, o Senhor pede para ela buscar a resposta no Google. Certamente não era isto o que aquela pessoa queria ouvir.

Passamos dos limites. Passamos de todos os limites. E há tempos. Nem Deus foi poupado. Como diz a música: “...nem o Santo tem ao certo a medida da maldade...”. E estes excessos por ultrapassarmos tantos e todos os limites estão nos causando sérios danos.

Concordo que para muitas coisas, muitas mesmo, precisamos quebrar os limites, questioná-los se quisermos evoluir, se quisermos ser pessoas melhores, se quisermos viver num mundo melhor e mais justo. Limite é incompatível com crescimento, seria uma forma de alienação.

Mas é preciso saber a hora de parar, senão certamente vão nos parar.

Questionar algo estabelecido é saudável e necessário. Porém, penso que, da mesma forma que muitos limites devem ser questionados e ultrapassados, muitos, e muitos mesmo, devem ser mantidos e respeitados. Daí a ironia da figura acima. Moralismo à parte, bem à parte, a ironia contida no texto da figura mostra que este tipo de limite deveria ser respeitado. Jamais Deus nos mandaria buscar respostas na internet. Portanto, o que chama a atenção não é a questão moralista, religiosa, mas sim este “ultrapassar de limites” sobre assuntos em que o limite deveria ser mantido e respeitado.

A ironia, presente nos diálogos, vai bem ao encontro destes excessos que ocorrem em nossas vidas, exatamente em função da falta de limites. Estamos irônicos frente aos nossos problemas, estamos irônicos frente à dor alheia. Passamos dos limites.

Quando recebemos esta resposta de Deus, “já procurou no google, meu filho? ”, claramente há a presença de uma dissimulação, que consiste em dizer algo contrário àquilo que se pensa, àquilo em que se acredita. E isto é a ironia. O principal papel da ironia é contestar o preestabelecido, aquilo que alguém falou e é dito como certo.  Consiste em dizer o contrário do que se pretende. É também uma forma de zombar de alguém. E isto causa uma reação em quem ouve. É como dizer:

“A situação está sob controle. Só não sabemos de quem. ” Pois é, bela ironia para os nossos dias...

Na figura acima, Deus foi irônico conosco. Dizemos com frequência: “Não vivo sem o meu celular.” Então, se não vivemos sem o nosso celular, por que não perguntamos para ele o sentido da vida, no lugar de perguntar a Deus?

Há, até, uma propaganda de televisão cuja parte do diálogo é: “...mas o que você faz, hoje, sem internet? ”. Pois é, é melhor buscar a resposta para esta pergunta na internet, e não perguntá-la a Deus...

Um outro papel importante da ironia, que baseia o nosso texto sobre limites, é que ela nos convida a sermos ativos, a refletirmos sobre algo ou alguma coisa e, consequentemente, escolhermos uma posição. Por isto, a ironia, neste caso, está sendo um recurso de linguagem muito importante para percebermos que ultrapassamos os limites. E há tempos. A ironia, no fundo, faz uma crítica e/ou uma censura sobre algo. Ela procura valorizar alguma coisa, mas na realidade, quer desvalorizá-la.

Na imagem, o apelo que se faz para se buscar uma resposta sobre algo relevante (sentido da vida), na internet, desvalorizou e ironizou o próprio ato de fazer buscas na internet. E isto aconteceu exatamente pelo excesso do uso disto. Esta desvalorização acontece justamente pelo excesso, pelo além da conta. Quando temos excessos e muito do muito, difícil será encontrar alguém que dê o devido valor à coisa, que não a desperdice.

Fazer buscas na internet é maravilhoso, excelente para o aprendizado. Mas esta maravilha somente se dará se houver este limite, se soubermos o uso que faremos disto e para quê. Raro isto hoje.

Importante ressaltar que o tema ironia é discutido desde a época de Aristóteles, filósofo grego que viveu há muitos anos antes de Cristo. Ele introduziu um conceito chamado ironia socrática, que refere-se a uma técnica do método de Sócrates, filósofo ateniense e um dos fundadores da filosofia ocidental. Este conceito simulava uma forma de ignorância ao fazer perguntas ao interlocutor e “aceitar” as respostas dele. Isto até se chegar a uma contradição e, desta forma, perceber os erros do próprio raciocínio.

E o que os excessos, ultrapassagem e falta de limites têm nos causado? Têm nos causado perceber os erros do nosso próprio raciocínio, perceber que passamos dos limites para muitas coisas. E ironicamente, tantas outras coisas que deveriam ter seus limites questionados, assim permanecem.


Outra provocação, outra zombaria. Outra forma de banalizar o que não poderia ser banalizado.

Estamos transformando o sagrado naquilo que é comum. E não estou falando em sagrado somente no sentido religioso, mas sim “sagrado” no sentido do respeito, do justo, do ético. Daquilo que ninguém teria o direito de violar.

Somente trouxe estas figuras de cunho religioso para dizer que exageramos na tinta, que passamos do ponto, aliás ultrapassamos o ponto, e o espaço que deveria ser do outro tem sido feito de nosso território.

O nosso espaço é o nosso limite. Simples assim. É a nossa fronteira com o outro.  Se assim não for, vamos nos destruir. E será que já não é o que está acontecendo?

Hobbes, um filósofo inglês, afirma que os limites surgem da necessidade de organizar a sociedade e de impedir que o ser humano se destrua.

A Filosofia é uma necessidade de primeira grandeza. Deveríamos ler mais sobre isto.

O limite não pode nos impedir de ir adiante, de questionar, como dito acima, mas ele deve existir como uma fronteira de respeito às condutas humanas, ao sagrado, à vida.

Portanto, devemos reconhecer que o caminho não é fácil. Aliás é tortuoso, bem tortuoso. Mas qual opção temos que não a de trilharmos este caminho? O caminho é o mesmo para todos; o que difere é a forma como caminhamos.

Ultrapassamos o limite quando vivemos uma relação de oposição com o outro. E talvez esta busca pelo “estar sempre certo” esteja nos fazendo avançar o sinal.

Ultrapassamos o limite quando encontramos o desconhecido, o diferente, e recuamos, ora porque dizemos que eles estão errados, ora porque nos assustamos e perdemos uma excelente oportunidade de avançarmos.

Ultrapassamos o limite porque desconhecemos o seu significado e a sua importância.  Aristóteles diz que o limite fixa o término de uma coisa e o começo de outra coisa diferente. Portanto, limite é um ponto de finitude e um ponto de partida.

Sábio Aristóteles, mas quem o ouve? Ainda mais em tempos de internet...Sorte a dele que viveu numa época em que o pensamento era construído, e que os limites ultrapassados eram os necessários para o desenvolvimento do homem, e não para invasão do espaço alheio em função da falta de ética, justiça e honestidade.

Pondé, filósofo da atualidade, diz que os limites nos humanizam. Vamos pensar sobre isto. Não pode ser tudo do nosso jeito, na hora que queremos e como queremos. Isto nos desumaniza. E não é o que está acontecendo? Podemos nos perder na falta de limites.

Em tempos de festas juninas, ouvi uma mãe dizer a outra mãe: “Começaram os ensaios para a festa junina. Acabaram os meus finais de semana. ”  Acho que se referindo às idas à escola da filha para a realização do ensaio.

Torço para que a filha não tenha ouvido o que esta mãe disse. Outro avançar de limites. Há coisas que não se dizem na vida, e esta é uma delas. É um crime fazer isto. Mas enfim, somente a alienação e a falta de limites me trazem uma resposta aceitável para este comportamento desprezível.

Temos infinitas possibilidades na vida. Mas ultrapassar os limites do respeito, da ética, da justiça e do amor não deveria ser permitido. Mas quem vai controlar isto? Se não conseguimos nem garantir o básico, que dirá sobre a subjetividade humana, como é este o caso, o ultrapassar de limites? Acho que somente os filósofos dão conta disto. Ainda bem que deixaram obras e estudos preciosos para nós. Mas é preciso praticá-los.

O exceder limites traz descobertas; mas o exceder limites no trabalho prejudica a saúde, prejudica o ambiente e traz alienação.

O exceder limites traz problemas na convivência com o outro, e a falta dele também.

Saber o limite implica buscá-lo, descobri-lo, interpretá-lo. Os limites nos ensinam a tolerância, a trabalhar em nós as frustrações do desejo não cumprido, do adiar a nossa satisfação. Saber esperar é uma arte, mas só para aquele que respeita o limite.

A falta de limites traz desorientação. Temos tanta liberdade, mas o que fazer com ela?

Os limites existem para que sejamos livres.

Os limites são importantes porque eles dão vozes aos nossos gritos internos.

Os limites existem para serem questionados, mas somente quando existirem perguntas a serem feitas.

Os limites existem para serem respeitados, principalmente porque as nossas dores pediram.

Os limites existem para serem quebrados e ultrapassados, mas somente quando enxergarmos um novo caminho a seguir.

Os limites existem para sabermos o momento de parar.

Os limites existem para sabermos o momento de seguir.

Ensinar limites no curto prazo é dar liberdade no longo prazo.

Ensinar limites é aceitar o que se tem, e acima de tudo, valorizar o que se tem.

Ensinar limites é um ato de amor.

Os limites existem para nos ensinar a escolher. Quando temos muitas opções, o prazer pela escolha é substituído pela angústia do não poder escolher tudo, e ter de optar por este ou aquele.

Enfim, nossas velhas conhecidas contradições. Como saber se devemos passar os limites e assim nos superar? Como saber se estamos invadindo o espaço alheio e ultrapassando limites que não deveríamos fazê-lo?

De verdade, não sei a resposta. Mas tenho uma desconfiança de que ela passa pela brilhante citação de Carl Jung:

“Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão. ”

terça-feira, 9 de junho de 2015

Os buracos na pista

Nossos caminhos são tortos porque se forem retos nos perderemos.

Nossos caminhos são tortos porque se forem retos perderemos o prazer de caminhar.

Nossos caminhos são tortos porque se forem retos desaprenderemos como andar.

Temos dois olhos e uma boca porque devemos prestar mais atenção antes de falar.

Nossos caminhos são tortos para que novas formas de fazer sejam descobertas.

Nossos olhares são para baixo porque o alto está alto demais para nós, e o meio não nos interessa.

Nossas mentes são intranquilas porque nossos pensamentos são caóticos, porém é a linearidade que é valorizada num mundo sem linearidade.

Nosso despertar de consciência é lento porque se for rápido não perceberemos a mudança.

Nosso despertar de atitude é lento porque se for rápido não o valorizaremos.

Nossas conquistas são árduas porque se forem fáceis não serão conquistas.

Nossas facilidades são muitas porque se assim não for, não serão facilidades.

Recebemos muitos nãos ao longo da vida para não perdermos o prazer pela busca do sim.

Ouvimos pouco o som dos pássaros porque aprendemos a valorizar os sons das buzinas.

Frente à necessidade do outro, o nosso pequeno universo de egoísmo se agiganta e se torna mais importante.

Nossa educação não nos ensina a criticar, para que o controle continue nas mãos de poucos.

O contexto nunca nos é dado, para que o texto fique sempre sem sentido.

Os nossos textos são sempre sem sentido porque o contexto sempre foi para poucos.

O ponto de interrogação faz parte de nossas vidas porque o de exclamação sempre será para poucos, muito poucos.

Nossas angústias mostram a nossa inconformidade pelas conquistas alheias.

Nossas inquietações mostram a nossa pequenez de nos preocupar com coisas tão pequenas.

Nossas ações de solidariedade mostram o nosso potencial de agigantamento que poderemos alcançar...se quisermos.

Nossa avidez por saber coisas do outro nos faz perceber nossos vazios.

Nossos caminhos são tortos porque se forem retos não perceberemos nada disto.

Nossos caminhos são tortos para que alguém nos coloque no lugar certo.

Nossos caminhos são tortos porque arrastamos a nossa cama para não consertarmos o nosso telhado.

Nossos caminhos são tortos porque amanhã chegará logo e assim fazermos depois.

Nossos pés ajudam a sustentar o peso do nosso corpo, mas quem olha para eles?

Nossos caminhos são tortos porque não queremos conhecer o vizinho, o porteiro e muito menos a pessoa que nos serve o café.

Nossos caminhos são tortos porque ainda teimamos em usar a expressão: “patrão e empregado”.

Nossos caminhos são tortos porque ainda acreditamos numa estrutura na qual um manda e muitos obedecem. Deixamos de perceber a riqueza que seria se trabalhássemos de forma linear e parceira.

Nossos caminhos são tortos porque muitos de nós achamos que o home office é coisa de estrangeiro. “Como vou controlar o empregado”?

Nossos caminhos são tortos porque temos um abismo que nos separa do outro.

Nossos caminhos são tortos porque construímos pontes apenas se fizerem sentido para o nosso caminho. Se não fizerem, que o outro construa a sua ponte.

Nossos caminhos são tortos porque o problema do outro não nos interessa, a menos que seja para satisfazer a nossa curiosidade.

Nossos caminhos são tortos porque aceitamos propinas, mas teimamos em querer dar um nome mais bonito para ela: “negociação”.

Vivemos no caos porque o caos nos alimenta, porém, o caótico é visto como louco.

Nossos caminhos são tortos porque aprendemos a obedecer e não a questionar.

Nossos caminhos são tortos porque, cedo demais, aprendemos o poder da subordinação.

Nossos caminhos são tortos porque o nosso agir adoeceu.

Nossos caminhos são tortos porque queremos o diploma e não o estudo.

Nossos caminhos são tortos para que sejam valorizados quando o alcançarmos.

Nossos caminhos são tortos, mas quando a vida nos coloca no caminho reto, damos um jeito de entortá-lo novamente.

Nossos caminhos são tortos porque não aprendemos a ser autônomos, mas sim obedientes. Sendo obedientes não somos punidos.

Nossos caminhos são tortos porque fomos criados no sistema “punição x recompensa”.

Nossos caminhos são tortos porque o simples e a retidão nos afligem.

Nossos caminhos são tortos porque, nos desvios da vida e do caminho, dou um jeito de limpar o meu dinheiro tão “honestamente” recebido.

Nossos caminhos são tortos porque a retidão não nos interessa. O que vou ganhar com isto?

Nossos caminhos são tortos porque escolhemos caminhos tortos para caminhar.

Nossos caminhos são tortos porque muitas vezes a nossa lágrima não é verdadeira.

Nossos caminhos são tortos porque o perdão não faz parte do nosso dicionário.

Nossos caminhos são tortos porque não aprendemos a questionar, mas sim a reproduzir modelos pré-estabelecidos por alguém.

Nossos caminhos são tortos porque não ajudamos a construí-lo.

Nossos caminhos são tortos porque fomos e somos ensinados a sermos competitivos e não a sermos solidários, éticos e colaborativos.

Nossos caminhos são tortos porque o que precisa não é discutido e o “não discutido” revela muitas coisas.

Nossos caminhos são tortos porque fizemos do sentido uma meta e não um modo de viver, um rumo.

Nossos caminhos são tortos porque confundimos informação com conhecimento com sabedoria, e não são a mesma coisa.

Nossos caminhos são tortos porque acreditamos nas mensagens das propagandas.

Nossos caminhos são tortos porque fortalecemos os nossos inimigos diariamente. Ou alguém acha que não tem?

Nossos caminhos são tortos porque não aprendemos a parar para conhecer e amolar as nossas ferramentas.

Nossos caminhos são tortos porque aceitamos sem questionar. “Sempre foi assim. ”

Nossos caminhos são tortos porque perdemos a nossa espontaneidade e aprendemos a nos deixar ser comandados e dirigidos.

Nossos caminhos são tortos porque fomos elogiados fazendo coisas que só adultos deveriam fazer, ao passo que deveríamos fazer, enquanto crianças, coisas de crianças. Brincar de amarelinha, por exemplo. E não está ultrapassado. Ultrapassado é quem pensa desta forma.

Nossos caminhos são tortos porque estamos muito preocupados com o formar e não com o transformar.

Nossos caminhos são tortos porque somos constantemente interrompidos pelo WhatsApp e pelo tablet.

Nossos caminhos são tortos porque perdemos a nossa combinação de propósitos: por que estou fazendo isto? O que estou fazendo? Com quem vou fazer isto?

Nossos caminhos são tortos porque sabemos muitas coisas, sabemos muito, mas estamos vivendo pouco.

Nossos caminhos são tortos porque ainda aceitamos o inaceitável.

Nossos caminhos são tortos porque acreditamos que as grifes nos representam.

Nossos caminhos são tortos porque nos achamos modernos, porém somos escravos da tecnologia.

Nossos caminhos são tortos porque não fomos educados a reconhecer o mal em nós.

Nossos caminhos são tortos porque escolhemos a maldade para nos representar durante bastante tempo. Fomos o último País a abolir a escravidão. E este é só um dos exemplos.

Nossos caminhos são tortos porque a conta chegou. Fomos, então, ao Banco fazer um empréstimo para pagarmos a conta, mas o Banco negou porque estamos numa crise criada por pessoas que nunca passaram por crises financeiras, por isto eles a criaram para nós.

Nossos caminhos são tortos porque somente desta forma nos reconhecemos.

Nossos caminhos são tortos porque a brincadeira de roda saiu de moda, e agora parece que está voltando.

Nossos caminhos são tortos porque a greve, a briga, a pancadaria, o quebra-quebra têm sido as nossas únicas formas de comunicação.

Nossos caminhos são tortos porque o diálogo, há muito não sabemos o que é.

Nossos caminhos são tortos porque há muito tempo a sabedoria deu lugar para o entretenimento.

Nossos caminhos são tortos porque a felicidade do outro me agride.

Nossos caminhos são tortos porque o acostamento e a fila dupla foram feitos para mim.

Enfim, a lista é grande.

Para chegar ao outro lado, é preciso sujeitar-se aos buracos, perfurações, ondulações, ciclo-faixas, ciclovias, ciclo-mais alguma coisa que está por vir...

Num dia destes, vi aqueles rapazes pintando uma ciclovia. De repente um deles parou a pintura porque havia um buraco numa parte da pista. Ao invés de ele sinalizar o buraco ou fazer algo sobre, ele contornou aquele buraco e continuou a pintar, ou seja, o buraco ficou ali, e a pintura da ciclovia continuou. Sei que você poderá dizer: “ah, mas os buracos são muitos. Se ele for parar a cada buraco...”.

Pensar que alguém poderá passar por lá e se machucar são outros quinhentos. O propósito é seguir o que me MANDARAM fazer, no caso, pintar a faixa. Se algo mais importante aconteceu que deveria chamar a minha atenção (o buraco na pista) deixa que o outro veja, isto não é problema meu.

Por estas e outras que nossos caminhos são tortos.

Difícil romper com aquilo que está estabelecido. É preciso coragem para interrogar e transformar a realidade. Mais fácil é deixar os buracos na pista...