segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Você amolou o seu machado hoje?

Havia um jovem lenhador que ficava impressionado com a eficácia e com a rapidez que um velho e experiente lenhador cortava e empilhava as madeiras que cortava.

Além de admirá-lo, o jovem desejava se tornar tão bom quanto o velho homem e quem sabe, até melhor que ele na arte de cortar madeiras.

Certo dia, o rapaz procurou o velho lenhador para aprender este ofício. Alguns dias depois, o jovem entendeu que havia aprendido tudo o que podia com o velho e que, pensando bem, o lenhador não era tão bom assim.

Arrogante, o jovem propôs um desafio ao velho lenhador: ganharia o prêmio quem cortasse mais madeiras. E o experiente lenhador aceitou o desafio: de um lado, o jovem incansável. Mantinha-se firme, cortando as suas árvores sem parar; do outro, o velho lenhador, desenvolvendo o seu trabalho, silencioso, tranquilo, firme e sem cansaço.

Num dado momento, o jovem olhou para trás para observar como estava o velho lenhador, e, surpreso, o viu sentado. O jovem sorriu e pensou: “Além de velho e cansado, está ficando tolo. Por acaso não sabe que estamos numa disputa? ”

Assim, o jovem prosseguiu cortando a lenha sem parar, sem descansar um minuto.

Ao final do tempo estabelecido, foi constatado que o velho havia cortado quase duas vezes mais árvores do que o jovem. Espantado e irritado, ele questionou:

- Velho, qual é o seu segredo para cortar tantas árvores? Além disto, parei para observá-lo e o vi sentado e tranquilo. No entanto eu não parei um minuto para descansar.

E o velho, sabiamente, respondeu:

- Todas as vezes em que você me viu sentado, eu não estava parado, descansando. Eu estava amolando o meu machado!

Bela reflexão...

Existem muitas coisas na vida que são indelegáveis. E uma delas é amolar o nosso machado. Este exercício é individual, particular, intransferível. Não deve ser delegado.

Delegamos coisas indelegáveis. E deixamos de delegar aquilo que deveríamos. E com o nosso machado não seria diferente: há muitos de nós delegando este amolar.

Amolar vem de (a + mola + ar) e seu significado literal é tornar algo afiado por meio de um aparelho, o amolador ou a mola, como dizem os espanhóis. O prefixo “a”, antes do termo “mola”, de ingênuo não tem nada. Ele vem do latim e indica uma ideia de aproximação, transformação, mudança de estado. Por isto acredito que esta é uma das muitas coisas que não se deve delegar na vida. Transformação e mudança de estado são trabalhos individuais, ninguém poderá fazê-los por nós.

Amolar o machado não é para qualquer um. É só para aqueles que já perceberam a relevância de se preparar, de pensar antes de agir, de se calar quando não se tem nada a dizer. De realmente se recolher para repensar a estratégia ou, até mesmo, se firmar nela.

Amolar o machado é para poucos. A maioria quer a ferramenta pronta para o uso. Sabe aquela embalagem que diz: “pronto para servir! ”. Pois é...

Estamos desprezando o tempo do preparo, queremos tudo pronto: o frango já vem temperado e a pizza está pré-assada. Estas praticidades ajudam? E como! Mas aceitar e usar as praticidades da vida não significam abrir mão de amolar o seu machado, de fazer o que precisa e de delegar o que você não precisa fazer.  Quando estamos nos referindo ao frango, nada há de errado. Mas quando falamos sobre transferir responsabilidades e delegar coisas e assuntos indelegáveis, a conversa muda de tom.

Não queremos mais o preparo. Ele foi desprezado por nós.

Amolar o machado significa se preparar para algo que talvez não aconteça. Você já pensou nisto? Você se preparou tanto para uma reunião, estudou, simulou perguntas. E quando o Diretor entrou na sala, disse para você que ele teria somente dez minutos para te ouvir. Ou quando você estuda tanto, perde horas de sono, se esforça e a prova é cancelada.

Tive um Diretor que sempre fazia isto: pedia uma série de coisas, informações, dados. Era um tempo considerável no preparo daquele material. Invariavelmente ele chegava atrasado à reunião, se desculpava, e nos dizia que precisaríamos “acelerar” a conversa. Ouvia-nos e ao mesmo tempo verificava seus e-mails no celular, agradecia e saia da reunião.

Que bom que o contato com ele não foi suficiente para me desestimular a amolar o meu machado durante a minha vida. Sempre existirão aqueles que incentivarão você a amolar o machado e aqueles que dirão que é pura perda de tempo. Cabe a você decidir o que fazer.

Amolar o machado é o tempo do preparo. É o tempo da espera. É o tempo do plantio. E por que este tempo do preparo não é valorizado?

Porque temos urgência em estarmos sempre no amanhã, em algum lugar que talvez não chegue. E se ele chegar, esta urgência que tivemos no presente não terá tido serventia.

Amolar o machado significa olhar e entender o cenário no qual se está inserido. E mais: ver se é naquele cenário que você quer estar e se ele faz sentido para você.

Significa ausência de pressa quando a vida te pede calma e disciplina. Significa fazer o que é importante, e não aquilo que é urgente. Aquele Diretor sempre chegava atrasado porque estava sempre fazendo o que era urgente, e não o que era importante. Mas quem tinha coragem de dizer isto a ele?

Amolar o machado significa se recolher num mundo em que todos se mostram. Se você não aparece, tem alguma coisa de errado com você.

Estar em evidência. Quando estamos em evidência não há tempo para amolar o machado. Isto já deverá estar pronto. Quando a visita chega você começa a preparar o almoço ou você inicia bem antes de ela chegar? Pois é, há o tempo de amolar o machado e o tempo para usá-lo.

É preciso valorizar a ferramenta, valorizar este machado. Mas os arrogantes não sabem disto porque acreditam que parar para amolar uma ferramenta é coisa para os fracos.

O arrogante acredita que ele pode pagar alguém para amolar a sua ferramenta. “Quanto você quer para fazer isto para mim? ” Ou eles acreditam que não precisam disto.

Amolar o machado é essencial se soubermos aonde queremos chegar. É estar preparado para quando a oportunidade surgir. É recuar alguns passos mesmo quando, aparentemente, o outro estiver em evidência.

Precisamos nos reinventar e manter o que conquistamos. Isto somente é possível com ferramentas amoladas.

A pressa, a ansiedade, a necessidade de sempre estarmos ocupados, a necessidade de nos sentirmos necessários. Tudo isto se origina da ausência de amolar o machado, da ausência de ferramentas para a vida. Da ausência de se saber quem é.

Estar desocupado talvez seja essencial para nos ocuparmos do que realmente precisa: o silêncio, a ordem, a construção, a utilização das ferramentas certas.

Somos ansiosos porque todo mundo já terminou de almoçar e nós ainda estamos mastigando. E no auge da culpa, dizemos: “já estamos terminando”.

São aquelas empresas que vivem fazendo a reunião da reunião para tentarem resolver problemas insolúveis porque elas nunca param para amolar os seus machados.

Se você não parar para entender a sua ferramenta, de nada adiantará querer resolver o problema. Por isso muitas Empresas têm reuniões intermináveis sobre assuntos insolúveis porque os responsáveis não sabem amolar suas ferramentas.

E depois eles contratam uma Consultoria e delegam a solução do problema para eles. E esta mesma Consultoria, após receber os seus milhões, chegará com uma solução que a Empresa já poderia ter percebido e praticado há tempos. Coisas que acontecem com quem não amola os machados.  Mas possuem dinheiro para delegarem esta tarefa indelegável.

As pessoas que não amolam os seus machados vivem apagando incêndios porque não enxergam aonde o fogo começou. E por incrível que pareça, o fogo sempre começa no momento em que elas não quiseram amolar os seus machados ou os desprezaram. Ou estavam muito ocupadas em alguma reunião desnecessária, e, portanto, não sentiram o cheiro da fumaça vindo de pertinho, bem de pertinho.

São aquelas empresas míopes que lançam produtos sem se preocuparem, de verdade, com o real significado deles.

São aquelas empresas que, mesmo sabendo que há problemas, lançam o produto e dizem: “a gente conserta lá na frente”. Lançam apenas para satisfazer a sua necessidade de brilhar. Um brilho opaco, bem opaco. Mas eles não sabem disto porque não amolaram os seus machados.

Trabalhei numa Empresa que tinha muitos falsos Líderes que diziam: “esse negócio de cuidar de pessoas dá muito trabalho. Precisa, mesmo, dar feedback? Isto toma muito o meu tempo. ”

Comentários típicos dos despreparados, dos desajustados, dos incapazes. De quem não amola as suas ferramentas.

Amolar machados não dá visibilidade, mas dá sustentabilidade, algo que só quem amola os seus machados com frequência sabe do valor.

É aquele Trainee que mal se formou e já quer ser Gerente. Não discuto o conhecimento técnico. Isto é com cada um. Mas a atitude de buscar somente isto na vida contraria todos os preceitos do verdadeiro Líder, da verdadeira Liderança, que é servir e não ser servido. O verdadeiro Líder é escolhido pelo time e não o contrário.

Tenho um sobrinho de 06 anos. Chama-se Felipe. Outro dia ele me mostrou o feijão no potinho que havia plantado. Mas um segundo após me mostrá-lo, disse: “mas é chato, tia, demora muito para crescer. Tem que ficar esperando. Não acontece nada. É chato. ”

Ele ainda é muito pequeno para entender o tempo do preparo, o tempo de amolar o machado. Mas será um aprendizado essencial se ele não quiser se aborrecer ao ficar esperando o feijão crescer. Custo a acreditar que esta geração levou os mesmos nove meses para nascer.

Não sei como ainda não inventaram um aplicativo que apresse o nascimento. Porque o nascer de nove meses está ficando ultrapassado. Será peça de museu. A mãe dirá para o filho: “antigamente as pessoas nasciam após nove meses”. E o filho dirá: “sério? Nossa”.

Uma mãe disse: “não sei o que vou fazer com eles em casa, em férias. Preciso arrumar coisas para eles fazerem. ” Por que esta mãe não ensina a amolar os machados? Mas não sei se ensinaram para ela.

Resultados. Curto Prazo. Longo Prazo.

Amolar o machado não agrega valor no mundo fast. “Vendemos fácil o que não tem preço”, já disse o poeta.

O machado amolado te ajudará a construir pontes, a quebrar muros, a encurtar distâncias, a pular abismos, a desbravar novas terras. A encontrar abrigos no momento das tempestades.

Achar que é perda de tempo amolar o machado é criar um rótulo de arrogante para si mesmo. Achar que passará pela vida sem paradas é viver iludido, é apenas passar pela vida, mas não é vivê-la. Quando nos curvamos para amolar o nosso machado, a dignidade cresce dentro de nós, e é ela quem nos permitirá nos levantar após as quedas.

É preciso repensar este modelo construído por quem não amola seus machados. É imperativo fazê-lo se quisermos construir algo sustentável para nossas vidas.

E quando a vida te cobrar o machado amolado, espero que você não o tenha esquecido na loja de amolar, que um dia você levou. E quando se lembrou, ao ir buscá-lo, descobriu que o dono havia vendido a ferramenta para cobrir os custos.

Deixo aqui uma frase de Philip Dormer Stanhope, escritor inglês do século XVII, que diz:  “Quem tem pressa demonstra que aquilo que está a fazer é demasiado grande para si. ”

Acho que Philip disse isto justamente no momento em que amolava o seu machado. Sábio ele.

Que possamos amolar os nossos machados, sem pressa, para que sejamos dignos da nossa obra. E para que esta mesma obra não ultrapasse o nosso tamanho. Caso isto acontecer, perderemos o direito sobre ela.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Jogar sem a bola

Conheço pouco sobre futebol. Sou apenas uma torcedora. Mas gosto de observar comportamentos e prestar atenção no que não está sendo dito.

O futebol mostra bem o comportamento humano, e explica o nosso Estar e Ser no mundo. Ele é um excelente lugar para nos apontar o abismo que nos separa do que queremos ser e do que, verdadeiramente, somos.

Meu pai sempre diz que se você quiser conhecer bem uma pessoa, dê a ela dinheiro e poder. E o mundo do futebol (não somente ele) é um celeiro para provar isto.

O lado bom de conhecer pouco sobre um assunto, é que, justamente por isto, prestamos mais atenção nele do que talvez fizesse uma pessoa experiente. Isto se deve à insegurança que temos em função deste desconhecimento. Temos medo de errar. Prestamos, então, mais atenção. E isto nos faz enxergar coisas que os mais entendidos talvez não vejam.

Em contrapartida, quando conhecemos profundamente um assunto, exatamente porque o dominamos, alguns detalhes nos escapam. Contraditório. Mas é assim.

Assumindo o pouco conhecimento que tenho sobre futebol, observo com mais atenção os comportamentos, falas, gestos, posturas, entrelinhas, aquilo que querem falar, mas não podem, quem ganhou e quem perdeu, pessoas, vaidades e resultados.

Competir.

“Se quisermos ganhar o campeonato, vamos ter de mostrar que somos o melhor”, disse um atleta. Fiquei pensando nesta frase: “...vamos ter de...”.

Aprendi, na escola, que “ter que”, é fazer algo, porém sem a obrigação, sem aquele compromisso. É simplesmente fazer. Mas “ter de” é fazer algo de forma obrigatória, necessária, imprescindível. Lembrei-me daquela aula e do quanto ela é atual, do quanto aquele ensinamento que tive há anos é atemporal.  O “temos de” nos é exigido diariamente, o tempo todo. O “temos de” ser o melhor é um imperativo.

Não basta sermos. Temos de ser o melhor. Sermos, apenas, não é suficiente. É pouco. Frágil. Invisível. Indiferente. Ninguém quer Ser. Todo mundo tem de ser o melhor. Mas o que é “ter de ser o melhor”? Não temos esta resposta. Mas vivemos como se a tivéssemos.

Ganhar o campeonato é saudável. Mas deveria ser bom também apenas participar dele.  Participar é construir. É fazer parte. É estar. É Ser. Mas não é valorizado. O segundo lugar sempre é visto como fracasso. A medalha é mais valorizada do que o pertencer, do que o participar, do que o construir.

“Fulano precisa aprender a jogar também sem a bola.”, é outra coisa que se diz no futebol.  Pensei sobre este significado e as analogias com a nossa vida. Foram muitas.

Jogar com a bola, sabemos bem o que é: o que buscamos o tempo todo: o gol, a superação, a glória, o topo, o gritar do nosso nome, a realização, o reconhecimento.

Mas o que é saber jogar sem a bola?

Além de ser o desenvolvimento de outra habilidade tão importante quanto estar com a bola, é essencial para a vida saber jogar sem ela. Num cenário competitivo como o nosso, e também no futebol, o que se busca o tempo todo é estar com a bola. Mas nem sempre isto será possível. Por isto desenvolver a habilidade de saber jogar sem ela é tão importante.

A questão é que, apesar de cobrarem isto de nós (aprender a jogar sem a bola), isto não é valorizado. Somente quem faz o gol ganha as glórias.

Marcar o gol, efetivamente, somente é possível com a bola. Mas se não estivermos com ela, também poderemos marcar os nossos gols como dar um bom passe, defender a bola do adversário, driblá-lo, saber perder a bola, etc. Enfim, ajudar a construir aquele jogo.

Mas alguém valoriza quem sabe jogar sem a bola? Somos cobrados para aprendermos. Mas quando aprendemos a jogar sem bola somos cobrados para fazermos o gol.

Podemos fazer um belíssimo passe, dar a melhor assistência, mas sempre seremos os assistentes, os coadjuvantes. E os protagonistas? São aqueles que fazem os gols. Injusto? Também acho. Mas é assim. E quem ousar discordar, correrá um sério risco de ser visto como vítima, como aquele que “está criando problemas”.

Aquele discurso que nos contaram “o importante é participar” é falso, não funciona para a nossa sociedade. Este discurso só funciona para sociedades mais justas, aquelas nas quais quem ajuda a construir é tão importante quanto quem cortou a fita no dia da inauguração.

Na época em que estavam construindo os estádios para a Copa, um jornalista perguntou para um pedreiro como ele estava se sentindo ao construir aquele estádio. E ele, sabiamente, disse: “estou feliz por saber que, mesmo anônimo, faço parte disto. Não vou poder entrar aqui, porque não tenho condições, mas pessoas se sentarão nestas cadeiras que, da minha casa, saberei que eu ajudei a montar. ”

Um pedreiro disse isto. E ainda dizem que Universidades fazem de nós pessoas melhores. Tenho minhas dúvidas.

Este pedreiro certamente sabe jogar sem a bola e deu um belo passe. Ele não está no palco, mas não está se importando com isto. Sabe passar a bola para que o outro brilhe.

Ele deveria ser o convidado de honra daquele estádio. Mas a nossa sociedade somente valoriza quem está com a bola, quem faz o gol. E ele não estava com a bola nos pés, mas sabia jogar sem ela. Grandes lições são aprendidas com pessoas que não valorizamos.

Muitas vezes aquele que sabe jogar sem a bola joga mais do que quem está com a bola. Aquele passe perfeito, mas o atacante chutou para fora. Mas quem enxerga o passe perfeito?

Muitas vezes aquele que está sem o microfone fala melhor do que aquele que está com o microfone. Às vezes o que não está falando tem mais a dizer do que quem está falando. Mas quem observa isto? Somente saberá quem aprendeu, logo cedo, a jogar sem a bola.

Estar no palco é saudável. Quem não quer aplausos? Ele simboliza o caminho certo. Mas querer sempre estar lá é doentio. É fuga. Enquanto estamos no palco não temos tempo de olharmos por detrás das nossas cortinas e enxergarmos os nossos bastidores. É fundamental conhecermos os nossos bastidores para que possamos brilhar no palco. E aquele pedreiro conhecia muito bem os bastidores dele.

Estar nos bastidores, saber jogar sem a bola é aceitar o convite da vida à reclusão, ao silêncio, ao anonimato, ao ouvir a sua própria voz mesmo quando não se tem nada a dizer. Mesmo quando ninguém quiser ouvir a sua opinião.

É abrir mão de ter razão, é deixar o outro ganhar, e aceitar que perdeu, muitas vezes. Mas estar no palco também é aceitar que perdeu, porque não existem ganhadores nem perdedores. O que existe são vivenciadores.

Acho que esta palavra não existe, mas ela traduz o que digo: precisamos aprender a viver as nossas histórias, com ou sem bola. Sermos vivenciadores de nossa própria experiência.

Começamos a perder no momento que achamos que ganhamos.

Ganha-se quando se perde; perde-se quando se ganha. Esta é a vida. Este é o jogo. Ora nos bastidores, ora no palco, ora entre um e outro. Ora fechando a cortina, ora abrindo. Ora ninguém na plateia para te ver. Ora com pessoas te vaiando, ora aplaudindo, ora indiferentes.

Jogar sem a bola é isto. É um incessante trabalhar de vaidade. É um constante aprender a passar a bola, mesmo que não se queira, porém é preciso. O outro está bem mais à frente. Ele tem a visão do jogo. Passe a bola para ele.

Podemos tentar fazer o gol sozinhos? Podemos. Mas só se estivermos bem colocados e valer corrermos este risco. Caso contrário, comprometeremos o time por causa da nossa vaidade. Vaidade que só quem não aprendeu a jogar sem bola, tem.

Jogar sem a bola é deixar de esperar reconhecimento porque ele pode não chegar.  E o que você fará nesta hora? Se você souber jogar sem a bola, saberá esta resposta no momento em que a vida te perguntar.

É preciso aprender aquela lição do pedreiro: a não estar em evidência e ficar bem com isto.

Às vezes, a bola nem dará o gostinho de ficar um pouco conosco. Ela apenas passará pelos nossos pés, mas vamos ter de passá-la por necessidade, por obrigação. Que difícil. Também queremos marcar. Mas será preciso aprender a jogar sem a bola para fazermos o gol. Esta é a exigência da vida.

Aprender a jogar sem a bola é não esperar aplausos. Porque eles não virão, muitas vezes. Caso eles venham, será um curto aplauso porque os aplausos principais serão para quem está com a bola. Este é o nosso mundo. Se é justo? Eu acho que não. Mas, enquanto isto não muda, bom será aprender a jogarmos sem a bola num mundo em que não há bolas para todos.

É preciso conquistá-las, o que significa passar um tempo nos bastidores vendo como se constrói uma bola, como se chuta, como se faz, como se lança. E os bastidores também servirão para você descobrir que o seu lugar é lá mesmo, que não quer estar no palco.

Jogar sem a bola é muitas vezes ter de dar satisfações sobre algo que você não queria: “Por que você não passou a bola? ”, perguntarão para você.

É sujeitar-se a não ser reconhecido, a cair no esquecimento.

É escrever uma música que fará sucesso em outra voz, que não a sua.

É sujeitar-se a receber um tapinha nas costas: “Parabéns, você fez um belo trabalho. ” Mas a promoção não veio para você. Sabe por quê? Porque o trabalho que o outro fez, embora infinitamente menos importante, tem mais visibilidade, e, portanto, aparecerá mais que o seu.  Então quem vai para o palco será o outro. E você? Você deverá aplaudi-lo senão quiser passar por invejoso e sem “espírito de equipe”.

Deixar que o outro brilhe é um difícil exercício de grandeza de espírito, de humildade.

Aprender a jogar sem a bola é assumir o seu lugar nos bastidores da vida, enquanto o outro brilha no palco. Você já pensou que o seu talento seja o de fazer o outro brilhar? E mesmo você insistindo em subir no palco a vida insistirá em te recolocar nos bastidores?

Aceitar que somos pequenos nos fará nos sentir muito confortáveis nos bastidores. Lá é um lugar pequeno.

A nossa trajetória diz muito sobre nós e sobre qual lugar ocuparemos na vida. Seja no palco, com a bola na mão; seja nos bastidores, aprendendo a viver sem a bola, aprendendo a passar a bola para o outro brilhar.

E que a gente não pense que viver no palco, de posse da bola, a nossa vida será simples: mesmo quando estivermos lá, ouviremos alguém dizer: “os seus cinco minutos já acabaram. ”

Vivemos numa efemeridade sem precedentes. “Quem é o próximo, por favor? ” Aí você dirá: mas eu ainda não acabei. E dirão a você: “desculpe, mas o seu tempo se esgotou. ” E neste momento, se você construiu um sólido bastidor, você terá um lugar bem seguro para se recompor e certamente ele te devolverá o que o palco te tirou.

O bastidor te esconde, mas te oferece coisas sustentáveis como a humildade. O palco te expõe, mas te oferece teias que talvez você nem perceba que caiu. A vaidade é um exemplo clássico: “Imagina, não precisava. ” “Imagina, eu nem me preparei tanto assim? ” A vaidade traz uma pseudonormalidade para coisas que não deveríamos aceitar como normais.

Os vaidosos dizem que o palco é para poucos. Na verdade, os bastidores são para poucos. Bastidores são para pessoas que não precisam de aplausos.

O bastidor pode revelar talentos escondidos; o palco pode apagar a luz de repente. O palco é o lugar típico para o ego. Tem uma frase que diz: “Não deixe o seu ego acompanhar a sua ascensão. O perigo é se você perdê-la, para onde irá o seu ego? ”

Como saber o caminho? Não há como sabê-lo.

Há uma belíssima frase de Clarice Lispector, que trago para encerrar o texto, mas não a reflexão, que diz:

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. ”

Que cada um de nós possa viver, com sabedoria, nos palcos e nos bastidores de suas vidas.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os paradoxos que não são nossos

Como assim, paradoxos que não são nossos? No mínimo contraditório...

Somos seres contraditórios, paradoxos, em constante movimento de descobertas sobre nós. Fazem parte de nossa essência. Mas como são contraditórias as nossas contradições e contraditórios os nossos paradoxos, fazemos de conta que não são nossos. E assim vamos.

Quero dormir, mas não posso. E quando posso não tenho sono.

Quero falar, mas não me perguntaram nada. E quando me perguntam, não sei o que dizer.

George Carlin, humorista norte-americano, tem uma frase que diz:

“O paradoxo dos nossos tempos é que temos edifícios mais altos e pavios mais curtos; estradas mais largas e pontos de vista mais estreitos. ” E ele tem toda razão.

A questão é que dificilmente assumimos que os pavios mais curtos são os nossos; achamos que as estradas não estão tão largas assim, e o nosso ponto de vista sempre é dado de uma altura que a vista do outro não alcança. Então o nosso está sempre certo!

Figura retirada da internet

Porém, o que não percebemos é que o nosso ponto de vista nos aprisiona da nossa vista. E aí, o ponto de vista do outro pode estar certo. E em muitas vezes está.

Quando pensamos que estamos indo, voltamos; e quando voltamos, está na hora de recomeçar. Esta é a vida: paradoxos, contradições, dúvidas e certezas.

Uma vez perguntaram para a atriz Fernanda Montenegro quantos pregos ela tinha visto naquele dia. Estranhando a pergunta, ela respondeu: “Não sei, acho que nenhum. É difícil encontrar um prego.” Responderam a ela: “Difícil porque você não observou. Tente observar, a partir de agora, e veja quantos pregos você encontrará. “ E assim ela fez. E no dia dessa entrevista ela disse, rindo, que realmente passou a encontrar mais pregos em sua vida.

Utilizando este raciocínio, passei a observar exemplos de contradições e paradoxos que existem. E realmente foram muitos os que encontrei:

- sobre o juramento dos médicos ao receberem os diplomas: “…Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação...”. Sem generalizações, não é isto o que encontramos.  Recentemente foi descoberta uma quadrilha de médicos que forjava pedidos de cirurgias desnecessárias, referentes a pacientes saudáveis. Desta forma, estes “profissionais” recebiam o valor do convênio e de instituições públicas. Há outros que pedem os exames aos poucos, aos pacientes. Desta forma, podem cobrar novas consultas. Triste contradição: aquele que deveria zelar pela nossa vida, a transforma num comércio;

- paramos o nosso carro na vaga do idoso porque vamos “só até ali”. Uma vez um repórter flagrou uma motorista cometendo esta infração e ao ser questionada, respondeu: “Ué, mas não tem vaga para mim…o idoso tem mais tempo do que eu…”;

- a escola que deveria educar, mas não educa; a rua, que não tem este papel, educa. Tortamente, mas educa;

- muitos frequentam a escola, mas saem quase analfabetos: ainda temos milhões de analfabetos num País cuja Educação é um direito, porém não exercido;

- a mentira que de tanto ser contada torna-se verdade;

- a novela das nove perdeu audiência porque a homossexualidade de duas personagens mais velhas foi rejeitada. Por que esta rejeição? Por que são atrizes de mais idade? Por que são consagradas? Por que achamos feio? Qual é o problema senão o paradoxo do nosso SER?;

- o carro que tem tantos cavalos, mas de verdade, como e aonde usá-lo?;

- o nosso celular que é tão veloz, mas que nunca temos aquele “minutinho” para falar com um amigo. “Está uma correria. Eu ia te ligar, você acredita?” Falamos isto, não falamos?;

- a rapidez que paralisa;

- aquela promoção de uma pessoa a um cargo de liderança, que não possui um traço de liderança, e que foi promovida por uma outra pessoa que não entende nada de Liderança…

São muitas as reflexões…

Vivemos cada vez mais trancafiados, mesmo com o sol nos convidando para um passeio.

Vivemos num País de fartura em meio à pobreza. Poucos com tanto; muitos sem nada.

Uma dona-de-casa, do Rio de Janeiro, foi entrevistada no momento em que comprava tomates, na feira. E ao ser questionada sobre os preços, disse: “às vezes recorro à xepa”. Mas o Congresso continua andando com carros importados e com motoristas particulares, que, acredito, não conhecem a “xepa”. Eles podem? Não. O dinheiro que eles usam é nosso.

Somente o setor bancário lucrou vários bilhões de reais neste semestre, e no outro, no outro…

Somos um povo endividado e que permite se deixar estimular para o endividamento. Isto explica este assombroso e vergonhoso lucro. Uma vez perguntaram a um conhecido banqueiro brasileiro: “ O Senhor não acha que lucra muito?” E ele respondeu: “Vocês, jornalistas, só olham para os nossos ganhos. Mas temos muitos gastos, também.” Confesso que fiquei até com pena! Estes, também, não conhecem a “xepa”, daquela dona-de-casa.

Nossa sociedade é produtora de medos. Depois ela vem com a solução para vendê-la a nós. E a gente compra em dez vezes no cartão.

O governo utiliza a palavra manobra como sinônimo de adequação às necessidades do cenário. Mas acho que eles têm um dicionário próprio. No nosso, manobra, significa dar outro destino para uma promessa que eles não cumpriram.

O ponto final encerra um raciocínio; a vírgula é uma breve pausa; e o ponto-e-vírgula é uma pausa maior. Assim é. Mas teve um jornalista famoso que disse que “na dúvida quando utilizar estes três, utilize o ponto”. Isto é o que dá se meter naquilo que não conhece. Por que ele não cuida só das matérias dele? Estaria de bom tamanho, não?

Os americanos orgulham-se da educação que possuem, mas não conseguem dar conta do racismo. Que só vai ser extinto quando nos preocuparmos menos com Harvard e Stanford, e mais com o que bate a nossa porta, mas insistimos em não abri-la. Há muitas coisas relevantes se passando fora dos portões de Harvard e de Stanford.

Harvard é importante, mas quem tem acesso a ela? Harvard é para poucos. No máximo, conhecimento sobre pesquisas que são feitas e mesmo assim, depois do filtro que os jornais locais fazem.

Os intelectuais do Vale do Silício restringem o uso de eletrônicos de seus filhos. Este é o melhor e mais provocador de todos os paradoxos.

Um garoto de 15 anos, brasileiro, ganhou medalha de ouro na Olimpíadas de Matemática, e está a caminho dos EUA para estudar. E o Josenildo, um cidadão do Piauí, que chorou ao conseguir ler o letreiro do ônibus, pela primeira vez, como recompensa por participar do Programa de Alfabetização de Adultos, da Igreja de seu bairro.

Queremos as medalhas, mas tropeçamos no verbo to be. Que não significa somente ser e estar, mas a dúvida sobre “queremos ser ou não. ” Esta é a questão. Foi isto que Shakespeare disse, já naquela época. Gênio. E ele nunca se preocupou em ganhar medalhas. Quando se é bom, as medalhas chegam até você, não precisa se preocupar com elas.

Precisamos acordar cedo mas vamos dormir tarde.

Achamos que somos solidários, mas por que não doamos nem o nosso supérfluo?

Há um abismo entre o querer ser e o que realmente é. Fazemos questão de esconder o abismo. No mínimo, se ele insistir em aparecer, diremos que é uma pequena rachadura que se deu devido à chuva.

Um chefe de poder do nosso País, ao ser investigado, disse que “não vai admitir que uma AUTORIDADE, como ele, seja tratada desta forma. ” A pergunta que fica é: que forma? Por que ele não pode ser investigado? Ele não deve conhecer a tal da “xepa”.

Somos paradoxos. Temos paradoxos. Criamos paradoxos. Sustentamos paradoxos. Perpetuamos paradoxos.

“Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas”, diz a música.

O estilista que disse, numa palestra, que a marca dele não fazia numeração acima do 42 porque era feio. “Não veste bem”, disse.

Um turista disse que somos “acolhedores”. Mas e a “Gordofobia”? E a Homofobia? Ainda bem que ele ficou tempo insuficiente aqui para descobrir...

Difícil andar quando o cansaço das pernas não te permite dar um passo além.

Mover-se quando a vontade é de se recolher. Falar quando a vontade é se calar.

Quem está lá fora? Quem será? Ligou antes para dizer que vinha?

Querer respostas, mas não saber uma palavra depois do “e agora? ”

A velhice não valorizada. O culto à juventude se dá numa sociedade de curto prazo. Somente fica jovem quem morre cedo. A juventude é jovem demais para saber disso.

Mas o saber requer tempo, que somente quem viver terá oportunidade de desfrutá-lo.

Conseguir ver o sol, apesar do cinza, é para poucos.

A promessa sem promessa de ser cumprida. “Passa lá. ” “A gente se vê. ” “A gente se fala. ”

A informação que parece desinformação. De que adianta tanta informação se não sabemos o trajeto?

A consistência e a regularidade viraram caretas e ultrapassadas.

O desafio é conseguir ser rápido, porém sem tanta pressa. E assim, nos disciplinarmos para que tenhamos a liberdade de desobedecer.

Enfim, o paradoxo dos nossos dias, dos dias de ontem, de anteontem, os de amanhã e os de depois de amanhã. E os que virão.

Aceitar que nem sempre vão pedir a sua opinião. E se pedirem, muitas vezes será somente por educação, e não por interesse verdadeiro.

Como dar conta disso tudo? Eis a questão, como disse Shakespeare.

Um caminho talvez seja o de aceitar que a gente não vai dar conta de tudo. Ou você achou que daria? Somente aquele que assume sua pequenez pode se dizer grande.

Está aí outro paradoxo que merece uma boa reflexão.

domingo, 19 de julho de 2015

Os gigantes vão ao longe

"Se cheguei até aqui foi porque me apoiei nos ombros dos gigantes".

Em minhas pesquisas, encontrei variações desta frase como:  “Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes” e "Se vi ao longe é porque estava nos ombros dos gigantes”. São creditadas ora a Isaac Newton, ora a Aristóteles. Como não encontrei um consenso, pedi licença para eles para utilizar a frase em meu texto. Eles concordaram desde que eu dividisse os créditos entre eles.

Enfim, tudo esclarecido, créditos dados. Penso que esta frase encerra reflexões atemporais e pode ser pensada sob vários aspectos. Escolhi falar sobre o poder que a alienação tem sobre nós, quando optamos por este caminho, ao mesmo tempo o poder que o conhecimento tem sobre nós, quando optamos por este caminho.

Alienação e Conhecimento. Caminhos inversos. Caminhos opostos. Caminhos que caminhamos. Caminhos que pertencem a nós. Caminhos que ajudamos a construir. Caminhos que só existem porque passamos por eles e deixamos as nossas marcas.

Muitas de nossas alienações vêm, obviamente, do desconhecimento, do não saber, daquele saber que nos foi ocultado, ou seja, mesmo que queiramos, não vamos saber. Pelo menos, não agora. Mas há aquele tipo de alienação que habita em nós e que alimentamos diariamente. É o tipo de alienação que nos corrói e mina a nossa capacidade de crescer como seres autônomos que deveríamos ser. Mas que ainda não somos, pelo menos não no nível que deveríamos.

Esta alienação que alimentamos colabora, e muito, para que esta autonomia se distancie de nós a cada dia. É uma alienação confortável, quentinha, preguiçosa, que nos protege e corrobora com a nossa máxima: “Sério? ” “Quando? ” “Ah, eu não sabia...” “Se eu soubesse...”.

No fundo no fundo, bem lá no fundo, a gente sabe que deveria saber, mas os desdobramentos do saber nem sempre são confortáveis e quentinhos. E o pior: depois que descobrimos que sabemos, não dá mais para dizermos “Sério? Quando? ”.

E a preguiça? Ah esta companheira de todas as horas...que acolhe a nossa cômoda ignorância..., mas você pode dar adeus a ela depois do saber, do caminho descoberto, do arregaçar de mangas.

A alienação, portanto, tem o seu valor: nos esconder de um mundo que terá cada vez menos respostas e que fará cada vez mais perguntas. Um mundo que terá cada vez menos muros e que te convidará a derrubá-los, se você tiver a ferramenta certa para isto. Para derrubar muros, a alienação não será necessária. Aliás ela é ótima para construí-los. Mas para derrubá-los, um bom martelo para descortinar o que estiver será muito bem-vindo.

Platão, filósofo grego, da antiguidade, mas que de antigo não tem absolutamente nada, escreveu um livro conhecido mundialmente: “A República”, e nele consta uma passagem muito estudada, chamada “O mito da caverna”, que talvez seja um dos textos filosóficos mais lidos e comentados, no mundo.

O mito diz que, numa caverna, viviam homens amarrados e acorrentados que não podiam mudar de posição. A única coisa que conseguiam fazer era olharem para a parede do fundo da caverna. A frente da caverna possuía uma pequena abertura e abrigava uma fogueira, mas os habitantes da caverna não podiam vê-la porque estavam de costas.  Em frente à entrada da caverna havia um muro de tamanho médio e, por trás dele, alguns homens se movimentavam carregando, sobre os ombros, estátuas trabalhadas que representavam várias figuras e imagens. Isto criava sombras no interior da caverna, projetadas pela luz da fogueira. Além disto, as vozes destes homens ecoavam e os habitantes podiam ouvi-las.

Como aqueles habitantes não conheciam o mundo externo e as únicas coisas que tinham eram as sombras projetadas e as vozes, começaram a acreditar que aquelas sombras eram a única e verdadeira realidade. E que o eco das vozes seria o som real das vozes emitidas pelas sombras.

O mito traz, ainda, uma suposição: de que se um dos habitantes conseguisse se soltar das correntes, ele buscaria esta luz, esta claridade que viria de fora e se habituaria a este novo mundo que se apresentava para ele. E de posse desta nova realidade, começaria a entender o que significavam aquelas sombras, aquelas imagens. Desta forma, ele voltaria à caverna para contar a novidade aos que ficaram ali e, assim, ajudá-los a se libertarem. Mas quando ele volta, é chamado de louco e é morto por seus companheiros.

Este texto é bastante utilizado e muito já se debateu sobre ele. Um dos pontos importantes de interpretação é que nós (representados pelos prisioneiros da caverna) acreditamos muito naquilo que nos é dito, acreditamos em imagens criadas que nem sempre refletem a realidade. E o mais crítico: replicamos modelos ineficientes que aprendemos e que nem sempre promovem o bem, o aprendizado, o desenvolvimento, a autonomia.

Todos daquela caverna tinham o mesmo comportamento: o de olharem para a parede e acreditarem naquilo que viam. Mas aquilo que viam (imagens distorcidas da realidade) não era o verdadeiro, o real. E mesmo depois, quando um dos habitantes libertos volta para trazer a luz para aquela caverna e para eles, este homem é morto. Morto porque trouxe a luz, quis levá-los para outro patamar de existência.

Replicar modelos ineficientes, como o de acreditar em falsas imagens projetadas na parede, é sinônimo de alienação, como escrito anteriormente. Alienação é uma forma de acreditar em falsas imagens, em falsas sombras. Obviamente que não se podia exigir que aqueles habitantes tivessem alcance para desconfiarem daquelas sombras e, desta forma, questionarem.

Portanto, até aquele momento, a alienação deles estava explicada. Porém, a partir do momento que o outro habitante quis trazer a luz, por que recusá-la?

Assim fazemos. Tudo por conta da alienação, do medo de sair da caverna, desta falsa proteção que achamos que temos. É preciso desconstruir a forma como nos ensinaram a pensar. Pensar? Não sei se nos ensinaram a pensar ou se nos ensinaram a replicar modelos e regras. Assim fica mais fácil controlar e saber quem errou e, desta forma, puni-lo.

Fomos criados no sistema punição x recompensa. Já disse isto em algum outro texto.

Acertamos, somos recompensados. Erramos, somos punidos. Trata-se de um sistema que cria seguidores e não desbravadores. Trata-se de um sistema que faz o ser humano andar por caminhos já trilhados e construídos, e não a criar o seu caminho, a trilhar o seu andar. E a alienação está no caminho da punição x recompensa. Como fomos educados neste sistema, ali estamos alimentando a alienação. E quando nos desvinculamos, nos chamam de loucos.

E não foi o que fizeram com aquele habitante que conseguiu se desamarrar das correntes?

Seguir no caminho da alienação é perpetuar estereótipos ineficientes.  E o pior é que muitos deles estão se perpetuando e se renovando.  E por que isto?

Porque o comportamento é algo construído socialmente. Portanto, o lado bom disto é que muitas coisas boas serão exemplificadas e replicadas. Porém, os estereótipos ultrapassados também serão renovados por meio do nosso comportamento. E numa sociedade complexa como a nossa, a mudança de patamar é um desafio diário.

Penso que os tais gigantes sobre os quais Isaac Newton e Aristóteles se apoiaram tenham sido estas pessoas que ousaram sair da caverna. Estes desbravadores enxergaram longe e se desacorrentaram em busca da luz. O caminho deve ter sido árduo. Mas o que pode ser mais árduo que ficar condenado a olhar somente para uma parede, com imagens e sombras sendo projetadas o tempo todo? E o pior: acreditar nisto.

Quantas tradições, hábitos e crenças acabaram criando desavenças e guerras no mundo? As tais sombras nas paredes...

Nossa visão está ofuscada. E este ofuscamento é porque não queremos enxergar a luz. Temos dificuldades de assimilar outras posições, assumir que erramos, nos abrir a outros conhecimentos. Quando nos colocamos na posição de aprendizes, que é o que somos e o que sempre seremos, precisamos dizer uma frase mágica: “Eu não sei. Por favor, me ajude”. E como é difícil dizer “eu não sei” no mundo dos que acham que sabem, no mundo que não dá espaço para o “não saber”. Como é ilusório dizer que sabemos!

Para aqueles moradores da caverna tudo estava no lugar, tudo estava certo, tinham as respostas. Para que ir lá para fora? Bobagem...

As imagens projetadas na parede da caverna não poderiam ser sobrepostas ao que era verdadeiro. Mas foram e são assim ainda hoje. E convivemos com isto.

Estamos subindo cada vez mais os nossos muros, além das cercas elétricas. Isto só reforça a nossa alienação. O outro que não tem sequer a casa para ter muros, que dirá uma cerca elétrica, embrutecido, agride o dono da casa que tem muros.

Com estes muros tão altos, como vamos nos apoiar nos ombros dos gigantes?

Os gigantes vão lá na frente..., mas os muros altos nos impedem de vê-los.

Os meninos pobres e sem muros em suas casas, vulgarmente chamados de menores, brincam de carrinho de rolimã na rua porque querem, podem e também porque não têm acesso ao tablet e nem aos livros.

Os meninos ricos e com muros em suas casas, educadamente chamados de crianças, brincam nos seus tablets porque querem, podem e também porque não conhecem o carrinho de rolimã. Ah, mas eles têm livros...

A falência de nossos valores, a crença desmedida naquilo que não faz sentido. O ir com o fluxo sem perguntar para onde se vai. Isto é alienação. Isto é construir e fazer a sua morada numa caverna.

Meus avós dormiam de janelas e de portas abertas. Por que hoje uma tranca só não é suficiente? Nem a nossa impressão digital mais dá conta da segurança. A ordem agora é mapear a nossa corrente sanguínea. Aí sim ninguém poderá se passar por nós. Socorro!

É preciso saber quando a alienação passou dos limites. O limite é necessário para nos libertarmos das nossas cavernas.

Temos medo de mudar porque isto nos desequilibra. Mudar é desequilibrar. Andar para frente requer desequilíbrio momentâneo. Mas quem quer se desequilibrar no mundo em que o equilíbrio é uma constante para os vaidosos?

Atitude transformadora é para quem quer sair da caverna. Mas precisa ter coragem de enfrentar o que estiver lá fora. Caverna é para muitos. Sair da caverna é para poucos e para os gigantes que tiverem a coragem de crescer.

Por isto penso que sair da caverna é uma escolha. Difícil, mas certamente recompensadora. A escolha é nossa. Ninguém poderá fazê-la por nós. Mas penso que se ousarmos sair dela, voltar lá será obrigatório para resgatar ou, pelo menos, tentar resgatar quem ficou lá dentro.

Mas só conseguiremos fazer isto se nos apoiarmos sobre ombros de gigantes, como disse Isaac Newton ou Aristóteles, que viram isto tudo antes da gente porque ousaram sair, bem cedo, de suas cavernas.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ei, McBarker...



Quem está aqui há algum tempo, certamente se lembra do Mr. Magoo: um velhinho simpático, “quase” cego e que vivia em confusão por conta disto. Sempre acompanhado de seu cão McBarker que ficava aflito quando via seu dono dirigindo na contramão. Uma das frases mais famosas do Mr. Magoo era: “Ei, McBarker...” e lá ia ele se meter em encrencas!

Como estou aqui há algum tempo, me lembrei com saudades deste desenho. E como era bom assisti-lo apenas como um desenho! Porque era isto o que ele representava para mim: apenas um desenho. Não era preciso pensar e nem refletir sobre coisa alguma.

A infância traz isto de bom: o riso frouxo, a inocência que nos isenta e nos protege do saber, e o descompromisso com a obrigatoriedade de olhar além, algo que a maturidade nos exige.

Esta inocência da infância, que nos convida apenas para viver e brincar, vai ficando distante na medida em que vamos amadurecendo e percebendo a complexidade das coisas, da vida e sobre esta necessidade de olhar além, enxergar o imperceptível, o óbvio. Olhar além é imprescindível se não quisermos ser atropelados pelos míopes de plantão.

A miopia só é engraçada na pele do Mr. Magoo, e ainda assim, apenas quando somos crianças.

Hoje, com a infância tendo se despedido de mim há algum tempo, descobri que o Mr. Magoo não era tão cego assim. Era uma estratégia dele para passar pela vida sem se aprofundar sobre as grandes questões. Sem responsabilidades. Ele era míope, claro, mas não cego como eu acreditava na minha infância. E mesmo esta miopia que ele tinha era discutível: em ocasiões que o interessavam, bem que ele enxergava. Mas como ele queria que os outros acreditassem que era cego ou, no mínimo, míope, assim ele fazia.

Quantos recados Mr. Magoo já nos dava naquela época. Mas não era possível percebê-los.

Um episódio clássico que me lembro é aquela cena de um grande fluxo de carros e ele, claro, dirigindo na contramão. Muitos carros bateram por causa disto, mas ele, que foi quem causou todo o transtorno, saiu ileso.

Rimos por causa do absurdo. Como alguém, dirigindo na contramão, pode se sair bem? Mr. Magoo conseguia. Mas na vida real, sabemos que não é bem assim.

Ele tinha sorte? Pode ser. Mas não era só isto. Existia uma crítica por trás daquele comportamento: a de não enxergar o que importava, a de delegar aquilo que não era possível, a de ser irresponsável, a de ser inconsequente. Coisas que a infância não nos permitiria enxergar, certamente.

Passada a infância, percebemos que o Mr. Magoo continua ativo, dentro e fora de nós.

Somos míopes em enxergar as nossas questões, mas enxergamos muitíssimo bem quando o assunto é apontar o dedo para o outro. Somos especialistas no assunto. Este é o Mr. Magoo de hoje. E acho que ele sempre existiu.

Quando apontam o dedo para nós nos sentimos injustiçados. Mas quando apontamos o dedo para o outro temos uma listinha de razões. Caso ele não concordar com o primeiro item da nossa lista, teremos o segundo, o terceiro...

A miopia nos faz orgulhosos, vaidosos, arrogantes. “Eu sei”. “Eu faço”. “Eu ganhei”. São tantos os “eus” que nem sei como não tropeçamos em nós próprios.

Somos míopes para o que realmente importa. Dá trabalho enxergar, dizer que viu. Quando dizemos que vimos, precisamos nos posicionar, opinar, descer do muro. Só que ficar sobre o muro é bem mais confortável que descer dele. Quando descemos, precisamos tomar partido, escolher um lado, o que, obviamente, implica abrir mão do outro. Isto, muitas vezes, pode se traduzir em desavenças, desentendimentos. Então é mais fácil dizer que não vimos. Pronto. Vamos nos escondendo na nossa miopia criada de forma tão conveniente. Criamos conveniências para atender a nossa vaidade. É este o nosso mundo.

Temos, claro, os que enxergam, e enxergam longe. Mas o mundo não é tão gentil com os que enxergam.

“Quem você pensa que é”? “Sabe com quem você está falando”? São perguntas clássicas dos míopes. E os que enxergam precisam, o tempo todo, respondê-las. Cansativas e exaustivas, mas precisam ser respondidas.

O míope é um limitador da linguagem. Acha que sempre tem resposta para tudo. Mas não tem. E nunca vai ter. Aliás nunca teremos. Eles querem, mas entre o querer e o poder, há uma longa distância. O míope quer saber tudo, quer ter tudo à mão, quer que façam por ele e para ele. Pobres míopes. Não querem o trabalho da construção, do processo, do caminhar. Têm dificuldades de enxergar além porque o seu umbigo está muito próximo dele. Acham que possuem as informações da vida, sabem a verdade. Eu sou... é a máxima do dicionário deles.

Manoel de Barros, um maravilhoso escritor que nos deixou há pouco tempo, dizia que quem acumula muita informação perde a oportunidade de adivinhar. E dizia, também, que precisamos nos tornar pessoas de conhecimento e não pessoas com informações. Por isto Manoel de Barros é considerado um dos imortais de nossa Literatura. Sabe das coisas.

A capacidade de adivinhação nos permite enxergar além, aquilo que falei que a maturidade nos exige diariamente. Mas isto ficou para trás porque estamos muito preocupados com o ter, com a posição, com o estatus.

Adivinhar é coisa de gente fraca. Eu tenho as respostas.

Tem uma frase que diz: “quando decorei todas as respostas, a vida mudou as perguntas. ” Pois é, ironias da vida. Não podemos perder o nosso prazer pela adivinhação, pela descoberta da vida. Caso contrário, ela vai mudar as perguntas. Estejamos certos.  Ela ensina de forma amarga, muitas vezes, mas quem mandou desprezarmos o açúcar?

O míope é aquele que não quer saber do contexto, e tira conclusões baseado apenas no texto. O míope está sempre apressado. Acha que nunca tem tempo. Está sempre correndo.

Você já conversou com algum míope? Você começa a falar e ele, sem pensar, te interrompe e conclui o que você estava tentando dizer. E aí você diz: “mas não era isto o que eu ia falar. ”

Ao passo que aquele que vê, que enxerga, tem tempo, tem espaço para o outro. Tem tempo porque sabe usá-lo e não vai na contramão dirigindo como louco atrapalhando os outros. Respeito e moderação são atributos dos que enxergam. Arrogância e prepotência são características dos que acham que enxergam.

Respeito e moderação trazem liberdade. Arrogância e prepotência trazem alienação. Prezamos tanto a liberdade, mas quando a temos em mãos, não sabemos o que fazer com ela. A liberdade nasce a partir da criticidade, da autenticidade, da autonomia. Mas como ser autônomo dirigindo na contramão?

Trabalhei numa Empresa que dizia que ela era o próprio benchmarking. Dizia que não existiam outras empresas que poderiam servir de benchmarking para ela. Participando de uma reunião, disse, para nós, o Diretor: “para quê fazer benchmarking? Somos o maior e o melhor benchmarking do mercado. Eles é quem deveriam aprender conosco e não o contrário. ” Enfim, acho que a miopia do Mr. Magoo passou por lá.

Com esta miopia latente, é melhor nem falarmos sobre ética. Aliás, o que é isto mesmo? Num mundo aonde a miopia aumenta consideravelmente, quem vai sair desta contramão?

Mas a conta da miopia chega para todos. E não vai dar para parcelar o débito.

Em outra reunião, na mesma Empresa, ouvi a seguinte colocação: “errem dentro da política, mas não acertem fora dela. ” Socorro! Quanta miopia e arrogância!

As regras e as políticas são necessárias, porém desde que façam sentido.  Dizer para errar, porém dentro de uma regra, mas jamais acertar fora dela é assassinar qualquer poder de iniciativa que pudesse nascer ali. Se alguém, naquela reunião, tivesse alguma ideia para dar, certamente ficaria calado. E foi o que aconteceu. Enfim, Mr. Magoo fez escola...

A miopia é uma forma de nos colocar como vítima diante à vida. Somos vítimas de nossa própria falta de limites e de educação. Somos nossos próprios reféns.

Somos míopes para enxergar o que deveria ser visto. O míope tem dificuldade de enxergar de longe porque não sabe lidar nem com o que está próximo dele.

Temos uma relação difícil entre o desejo pelo poder e o não direito a este poder que achamos que temos.

Esta miopia está nos tirando a esperança de acharmos uma solução. E isto está nos tornando insensíveis e frios. A dor do outro não me dói mais. Não sei se um dia chegou a doer, mas o fato é que a miopia está aumentando.

Nossas emoções estão míopes porque só queremos as boas emoções. As más e as difíceis, medicalizamos. Deixa que o remédio dê conta disto.

Estamos, como o Mr. Magoo, andando na contramão de coisas importantes. Mas lá era só um desenho, aqui não. Lá era engraçado, aqui não.

A miopia é exatamente esta deficiência de se enxergar além, ir adiante, mais longe.

A conveniência de ser míope: “puxa, não vi, me desculpe”. A miopia te camufla, te protege.

Medir o outro pela sua régua é um grande sinal de cegueira, de miopia. Os míopes enxergam as diferenças como divergências. E isto é andar na contramão da vida. É atropelar o outro. É não deixar o outro falar.

A miopia se dá quando nos escondemos na submissão, quando não assumimos a nossa posição, quando temos medo de dar a nossa opinião.

A miopia se dá quando fazemos de conta que não sabemos, nos escondemos em medos que criamos só para nos fazer de fracos e alguém ficar com pena da gente.

Vi uma criança de não mais de 07 anos vender limão no farol. Isto acontece ao mesmo tempo que algum marmanjo ganha algum dos auxílios do governo. Isto me faz entender o porquê este menino precisa vender limão no farol.

Os auxílios financeiros são importantes desde que sejam pontuais, e não como uma forma de sustento fixo para quem pode e deve se sustentar.

Ajuda não pode ser confundida com assistencialismo. Uma coisa é ajudar; outra coisa é sustentar. Uma coisa é dar condições para. Outra coisa é fazer pelo outro. Agora entendo porque o menino de 07 anos vende limão no farol e mais de 140 milhões de adolescentes estão fora da escola, no mundo. A miopia do Mr. Magoo já sinalizava estas coisas, mas era preciso entendê-las. Os desenhos animados, de ingênuos, não têm nada.

Miopia é esta dissociação, este paradoxo do outro. O outro está sempre errado, o preconceito é sempre do outro. Queremos ser aceitos. Então fazemos de tudo para tal, mesmo que isto custe a nossa dignidade.

Precisamos sair de nós e olhar de um ponto de vista neutro para que possamos amadurecer. Mas quem se habilita?

O míope não quer ver o contexto, não quer saber do todo. Diz que não tem tempo.

Quem vê quer saber do contexto, quer saber do todo. Sempre tem tempo.

O míope enxerga a conveniência. O que vê enxerga a totalidade.

O míope enxerga o micro. O que vê enxerga o macro.

O míope quer a resposta. O que vê faz sempre perguntas.

Penso que os míopes tenham sido elogiados demais na infância. Muitos elogios nos fazem perder a medida das coisas, nos fazem perder o tamanho de quem realmente somos, nos tiram da realidade. Por isto nos tornamos míopes: queremos ser maiores do que verdadeiramente somos. O elogio em excesso nos faz olhar somente para nós e deixar de olhar para o outro. Quando olhamos para o outro e enxergamos nele habilidades diferentes das nossas, isto vai nos trazendo medidas para a vida. Mas com tantos elogios, como enxergar estas medidas e estas habilidades diferentes no outro, que nós não temos? Por isto somos míopes.

E o que pode nos tirar desta miopia?

Sabemos que não há receita, não estamos fazendo um bolo. Portanto não é simples. Mas acredito que um caminho que se desenha é trabalhar a nossa autoestima, construirmos e desenvolvermos a nossa autonomia como seres humanos. Desta forma, reduziríamos os nossos níveis de narcisismo uma vez que não estaríamos mais no pedestal da vida. É preciso conhecer as nossas medidas, conhecer as medidas da vida. Elas existem, apesar de insistirmos em não as conhecer. Aquele que quer tudo somente para si é um narcisista, e isto traz um distanciamento do que realmente importa. Se o narcisista não consegue toda a admiração de que precisa ele se torna agressivo quando criticado e rejeitado.

Quando olharmos para as necessidades do outro a nossa miopia começará a dar lugar à claridade, à lucidez.

Num mundo que valoriza a miopia em vários aspectos, realmente é difícil enxergar o que ninguém vê. Enxergar além. Vão tentar nos impedir a todo custo. “Tolo”, dirão para nós. Mas é fundamental, se quisermos dar um passo além.

Como disse Isaac Newton:

“Construímos muros demais e pontes de menos. ”

Talvez seja este o principal motivo de nossa miopia.

domingo, 5 de julho de 2015

As pessoas vão e vêm

As pessoas vão

As pessoas vêm

Vão a todos os lugares. Vêm nem sempre de todos eles

Vão porque precisam. Vão porque querem

Vêm porque não querem. Vêm porque alguém mandou

Vão para fazer

Vêm para saber

Vão para obedecer

Vêm para entristecer

Vão para começar

Vêm para esquecer

Tem gente que vem para que o outro chegue. Tem gente que sai para que alguém entre

Tem gente que dá passagem; tem gente que emperra a passagem. Tem gente que finge dormir para fazer “de conta” que não viu

Mas alguém avisou que o faz-de-conta é só para os livros e memórias de Emília?

Tem gente que sai, tranca a porta e leva a chave. Mas tem gente que deixa a chave embaixo do tapete

Tem gente que quer que você entre. Tem gente que finge não estar em casa

Outros chegam porque outros foram embora. Às vezes em boa hora; às vezes, não

Talvez os que foram não deveriam ter ido. Tem espaço para todos. Será?

A pergunta sem resposta; a resposta sem pergunta. A pergunta que não terá resposta. E a resposta que precisa de perguntas certas. E qual é a pergunta certa? Será que ela existe?

O movimento paralisa. O excesso nos priva do pensar

As pessoas acordam enquanto outras dormem

As pessoas estudam enquanto outras tentam sobreviver

Tem gente que aprendeu a escrever o nome bem tarde; tem gente que nunca aprenderá

Tem gente que ajuda a significar. Tem gente que só atrapalha

Acordar para poder levantar. Deitar para acordar

Tem gente que não sai e, portanto, o outro não consegue entrar

Tem gente que não sai porque acha que o lugar é dele. Mas ele ainda não se achou nem dentro dele

Tem gente que grita para esconder o medo da sua insignificância

Tem gente que fala manso e sua mansidão ganha significado longe

O movimento paralisa. A inércia faz pensar. O falar às vezes é inoportuno. O silêncio é uma oração. A ferrugem denuncia a ausência

O silêncio é ausente nos dicionários da arrogância

Tem gente que fala quando deveria se calar

Tem gente que silencia quando deveria falar

As pessoas vão e vêm

O barulho dos passos ensurdece o som dos pássaros. Mas quem os ouve?

Porque as pessoas vão e vêm, os pássaros vão precisar esperar. Mas eles sabem. A gente não

As pessoas vão e vêm como figurantes pela vida: o figurante não fala

O barulho dos pensamentos das pessoas é interrompido pela pressa das buzinas

A vontade dos pensamentos das pessoas é interrompida por mais uma meta a ser cumprida

As buzinas fazem vozes e escondem a tristeza que vai dentro de cada um

A pressa das pessoas é um santo remédio para esconder a tristeza

A tristeza resgata a gente para o nosso íntimo: um lugar que há tempos não passamos. Onde fica o nosso íntimo, mesmo?

A inteligência tem reclamado seu estado de burrice frente à forte obediência

As pessoas vão para aparecer

As pessoas vão para desaparecer

A figuração pela vida é um reflexo da toalha que jogamos no chão e deixamos que o outro ganhasse a parada

As pessoas vão para destratar

As pessoas vêm para retratar

O destrato é a arte do descaso

Descaso para com a vida

A vida. A minha, a sua a nossa vida. Uma vida que está sofrendo uma medicalização porque queremos controlar, com químicas, os nossos sentimentos e as nossas dores

Nem os sentimentos e dores ganham espaço neste ir e vir

Estamos com pressa

Não dá tempo de sofrer

Não dá tempo de ficar triste

Não podemos parar a máquina das vaidades

Bendito seja o remédio que esconde o que o nosso íntimo tenta nos mostrar

Por isso as pessoas vão e vêm

Para não verem as dores e nem os sentimentos seus, que dirá os alheios

O remédio sendo feito de Deus: tomo e espero a cura

As pessoas vão e vêm

As pessoas vão para ajudar

As pessoas vão para atrapalhar

As pessoas vão e vêm sem saber para onde estão indo e nem onde estão chegando

As pessoas vão e vêm

Vão para entender a fundo e o fundo das coisas

Vêm para ficar no raso: a superfície é sempre mais segura. O que me perguntarem ali, vou saber responder

A mulher oprimida pela educação. O homem oprimido pela obrigação

As pedras menores que há no caminho não podem ser retiradas porque alguém as eternizou

As pedras maiores que há no caminho podem ser retiradas, mas alguém não viu porque as pequenas impedem a visão das maiores

Tem gente que caminha em círculos e nem sabe

Tem gente que anda bem, mas somente sozinho

Tem gente que está perguntando, ainda, qual é o caminho

Tem gente que aprendeu faz tempo e já está fazendo pontes para outros

Tem gente que anda bem no caminho que o outro trilhou

Tem gente que se perdeu faz tempo, e não sei se vai se achar. Talvez ele se ache se recolher a toalha que ele mesmo lançou no chão

Tem gente que tem o que dizer, mas ninguém pergunta e nem quer ouvir

Tem gente que não tem o que dizer, mas há muitos perguntando o que ele acha, somente para servir de alimento para a vaidade e presunção de alguns tantos que acreditam nisto. Coitados!

As pessoas vão e vêm

Para aonde vão? Não sei se elas sabem

O sinal tocou. Alguém tocou este sinal. Portanto é preciso entrar

Mas o aprendizado se dá sem toques de sinais. Mas é preciso entrar porque alguém mandou

E é este alguém que certamente faz parte daquele grupo de pessoas que vão e que vêm