terça-feira, 29 de setembro de 2015

Tirando satisfações com La Fontaine

Era uma vez...

...uma formiga e uma cigarra muito amigas. Durante o outono, a formiga trabalhou sem parar, armazenando comida para o inverno. Não aproveitou o sol, a brisa suave do fim da tarde e nem o papo com os amigos.

Enquanto isto, a cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos e nos bares da cidade. Cantou durante todo o outono, dançou, aproveitou o sol e curtiu para valer, mesmo sabendo da proximidade do inverno.

Alguns dias se passaram, e o tempo começou a esfriar. Era o inverno começando.

A formiga, exausta, entrou para a sua singela e aconchegante toca, repleta de comida.

Mas alguém a chamava do lado de fora da toca.

Quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu. Sua amiga cigarra estava dentro de uma Ferrari com um aconchegante casaco de vison. E disse para a formiga:

- Olá, amiga, vou passar o inverno em Paris. Será que você poderia cuidar da minha toca? E a formiga respondeu:

- Claro, sem problemas! Mas o que aconteceu? Como você conseguiu dinheiro para ir a Paris, ter este carro e estas roupas?

E a cigarra respondeu:

-Imagine você que eu estava cantando em um bar na semana passada, e um produtor gostou da minha voz. Fechei um contrato de seis meses para fazer show em Paris. Foi isto o que aconteceu. A propósito: você quer alguma coisa de lá?

- Sim, claro, quero sim, respondeu a formiga. Caso você encontrar o La Fontaine por lá, manda ele ir para...!

Após o momento “riso”, sabemos que esta não é a história original escrita por La Fontaine, um famoso poeta e fabulista francês que viveu no século XVII. Na história original, quando o inverno chega, a cigarra, sem abrigo e sem alimento, pede ajuda à formiga que, ao contrário dela, tudo fez para se preparar. Por isto ela tinha abrigo e alimento. E o ensinamento é este: a de que precisamos nos preparar para os invernos da vida. Concordamos com isto. E apesar de sabermos que o ensinamento da fábula está correto (preparar-se, ter foco e planejamento), é muito importante que a gente não se esqueça de que não vivemos num mundo perfeito, ou seja, em muitos momentos vamos nos preparar, vamos nos planejar, e simplesmente alguém mudará as regras. E aí? O que faremos com todo o nosso planejamento? E se o inverno não chegar? O que faremos com todo o estoque da nossa comida? Se a dividirmos com alguém será um bom começo...

Ao lermos esta divertida versão moderna da fábula, muitas reflexões podem ser feitas. Eu diria até que esta nova versão foi bastante irônica, muito além de divertida.

A formiga se preparou demais, lutou, estabeleceu metas, abriu mão do descanso, da diversão, teve foco e planejamento. Ao chegar o inverno, foi recompensada: tinha abrigo quente e armários cheios de alimentos. Por que, então, ela se revoltou, se ela fez tudo certinho e, ao chegar o inverno, estava com tudo pronto? Ela não deveria estar feliz por ter dado certo o seu planejamento, cuidadosamente dividido em etapas?

Ela se revoltou porque, apesar de todo o seu esforço, cansaço e trabalho terem permitido que ela construísse uma base sólida para o seu inverno, a cigarra fez absolutamente tudo ao contrário, e simplesmente tirou a “sorte grande”, na visão da formiga. No fundo, lá no fundinho, a formiga acreditou que estava fazendo o que era certo. Ela esperava que a cigarra se desse mal por não ter se preparado o tanto que ela se preparou. Portanto, criou a falsa expectativa de que se sairia melhor do que a cigarra por ter seguido as regras, a ordem, o planejamento. Afinal não é o correto? Pode até ser, mas não foi o que aconteceu.

Fiquei pensando na palavra expectativa: espera. Expectativa é esperar por algo. Mas este “algo” pode não ocorrer. Acho que foi isto o que fez a formiga se revoltar. Se ela tivesse feito todo o seu trabalho com convicção e acreditando ser este o melhor, e não somente por obrigação, como foi o caso, talvez ela tivesse se revoltado menos. Inúmeras serão as vezes as quais nos sacrificaremos por algo, e simplesmente alguém irá nos dizer: “ah, te agradeço, mas não será mais preciso...”.

Preparar-se é fundamental, e neste preparo, infelizmente, vamos precisar abrir mão de muitas coisas. Faz parte do processo. Porém, é preciso conscientizar-se de que abrir mão de coisas na vida em prol de outras é arriscar-se ao engano, ao erro, ao não dar certo. Nem sempre o fato de seguirmos as regras, seguirmos o planejado fará que nosso plano dê certo. Pode ser que sim, pode ser que não. Porém se tivermos esta consciência de que correr riscos é inerente a qualquer processo da vida, e nos preparar para minimizá-los, termos planos alternativos e saídas “de emergência”, certamente se alguém, repentinamente, mudar as regras do jogo, estaremos fortalecidos para seguirmos para o nosso próximo plano. E foi o que faltou à formiga. Ela não tinha um próximo plano. Ela acreditou, exclusivamente, numa execução de um plano que sempre vinha dando certo. E ver alguém se “dando bem” sem fazer muito esforço foi motivo de revolta. A formiga tinha razão nesta parte. Mas na vida nem tudo acontece com a justiça que esperamos. Portanto é preciso estar preparado.

Um outro ponto que também faltou à formiga foi ficar extremamente apegada ao processo, às regras. É muito importante ter uma visão do todo, delegar, acreditar no intangível, no mágico, naquele “milagre” que acontece nas nossas vidas, e que não sabemos explicá-lo. É preciso acreditar naquela mão que nos alcança, mas que não sabemos de onde ela veio. Dar um pouco de leveza à vida, que foi o que a cigarra fez.

A cigarra, apesar da sua irresponsabilidade de deixar tudo na mão do acaso, uma coisa fez de certo: acreditou nela (sabia cantar) e expôs o seu talento acreditando que alguém pudesse descobri-lo, que foi o que aconteceu. Isto é fundamental. Acreditar na gente, mesmo que todos digam o contrário e que tudo esteja contra nós. Nunca podemos deixar de acreditar em nós. A cigarra acreditou nela; a formiga acreditou no processo. Estes dois pontos são essenciais para que as coisas funcionem, e funcionem bem. Porém estes dois itens precisam caminhar juntos, e não apartados. Portanto, se a formiga tivesse acreditado nela e no seu talento, além de tudo já realizado, talvez não tivesse se revoltado.

A formiga e a cigarra somos nós. Sempre. Temos as duas dentro de nós. Ora uma, ora outra. O bem e o mal. A questão é: a quem alimentamos mais? Acredito que o mais importante seja a consciência sobre isto, para que possamos aproveitar o melhor que cada uma delas poderá nos proporcionar.

Reflexões sobre o texto:

- nem sempre, ao nos esforçar, seremos reconhecidos e recompensados;

- saber lidar com a frustração é uma sabedoria. O grau da nossa frustração está totalmente ligado ao tamanho da nossa expectativa. A nossa expectativa deve ser realista. Pense nisto;

- quanto mais realista for a nossa expectativa, o nosso objetivo, a nossa meta, o nosso plano, menor será a nossa frustração. O realista considera os riscos e as chances de aquilo não acontecer ou de não dar certo;

- lembre-se: risco não se evita, se administra. Seria importante as Empresas saberem disto também. Querem inovação e criatividade, porém sem erros, sem riscos, de preferência;

- buscar o equilíbrio: nem a escassez (formiga) e nem o excesso (cigarra);

- o texto faz uma sátira ao padrão existente: isto é certo; isto é errado. É preciso se lembrar do contexto que transforma o certo em errado e vice-versa;

- fundamental andar por caminhos não trilhados e aceitar que não podemos controlar tudo na vida. Acreditar nos “milagres” e principalmente em nós;

- a formiga, na sociedade, é vista como a mocinha, o modelo correto a se seguir; a cigarra como a vilã, a irresponsável, o modelo a não se seguir. Não há esta segmentação: mocinho e bandido. Somos esta dualidade. O mocinho, por si só, não consegue se sustentar; idem para o vilão. Trafegamos pela bondade e pela vilania, mesmo que disfarçadamente;

- é fundamental colocar o lúdico em nossas interações, na nossa vida. O humor dá cor e nos ajuda a pensar e a refletir sobre as nossas sombras. Se não tivéssemos lido esta sátira em forma de fábula, talvez não pensássemos em todas estas reflexões;

- precisamos mergulhar nas nossas sombras. E estes textos nos fazem conversar com elas;

- essencial dar mais leveza para as nossas relações conosco e com o nosso próximo;

- a formiga é silenciosa; a cigarra faz questão de que todos ouçam o seu canto. Silêncio e voz: duas forças que se misturam e que nos formam. É preciso pensar nisto, também;

- é preciso cuidar do caminho a ser percorrido, porém valorizar o tanto que já se andou.

Enfim, muitos foram os aprendizados, as reflexões e as lições. E é preciso enfrentá-los, nem sempre com facilidade, nem sempre com bússola, nem sempre com coragem. Mas, como diz um maravilhoso provérbio africano:

“Mares tranquilos não produzem bons marinheiros. ”

Que nos lembremos das nossas formigas e das nossas cigarras internas em nossas viagens pela vida, seja por terra ou por mar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Você tem um bom alfaiate para indicar?

Algumas pessoas podem te olhar de forma estranha se ouvirem você dizer que frequenta boas alfaiatarias. Ainda mais em tempos de fast, likes, zap-zap e afins. É tudo tão corrido, tão irritantemente urgente que dizer que vai a um alfaiate é, no mínimo, sujeitar-se a receber um maldoso comentário: “nossa, isso ainda existe? ” ou “por que você não compra uma roupa pronta? É mais fácil. ”

Claro que é mais fácil, e mais descartável também. Mas somente aprendemos esta lição quando a roupa se desgasta.

Comprar roupas prontas é bom e necessário. Já imaginou fazer todas as suas roupas com uma costureira ou com um alfaiate? Inviável em todos os sentidos.

Mas eu diria que, em momentos ímpares de nossas vidas, fazer algumas roupas com a costureira ou com um excelente alfaiate seria imprescindível para todos nós.

Mas quem está preocupado com isso, se é tão chique ter uma agenda cheia de compromissos? Muitas pessoas se sentem bem com agendas cheias. Há um falso paradigma de que, desta forma, serão consideradas necessárias e importantes: #façopartedacorreria!

Falando sobre isto, me lembro de duas palavras: poder e vaidade. Mais do que palavras, elas ditam costumes e culturas desde a antiguidade. Fazem parte de nós. Em alguns mais; em outros menos. Mas fazem parte de nós. Acho que história abaixo ilustra bem este raciocínio:

O Mandarim e o Alfaiate
Um dia, um homem recebeu a notícia de que tinha sido nomeado mandarim.

Ficou tão eufórico que quase não se conteve.

- Serei um grande homem agora, disse a um amigo. Preciso de roupas novas imediatamente. Roupas que façam jus à minha nova posição na vida.

- Conheço o alfaiate perfeito para você, replicou o amigo. É um velho sábio que sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Vou lhe dar o endereço.

E o novo mandarim foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou as suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o homem disse:

- Há mais uma informação que preciso ter. Há quanto tempo o senhor é mandarim?

- Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu manto? Perguntou o cliente surpreso.

- Não posso fazê-lo sem obter esta informação, senhor. É que mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, quando está ocupado com seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, e ele olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir, aí então eu costuro o manto de modo que a parte da frente e a de trás tenham o mesmo comprimento. E mais tarde, depois que seu corpo está curvado pela idade e pelos anos de trabalho cansativo, sem mencionar a humildade adquirida por meio de uma vida de esforços, então faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto, tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente.

O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais no motivo que levara seu amigo a mandá-lo procurar exatamente aquele alfaiate.

Esta história foi retirada do livro “O livro das Virtudes II - O Compasso Moral”, de William J. Bennett, cuja reflexão cabe a todos nós e é de uma mensagem atemporal.

O mandarim vivia nos antigos impérios da China, pertencia à classe dos letrados. Era geralmente uma pessoa importante e influente. Agora começamos a entender porque ele queria roupas novas...

imagem tirada da internet

...ainda bem que ele foi a um sábio alfaiate que ensinou a ele valiosas lições sobre a inutilidade da vaidade para as nossas vidas. Além da cegueira que o poder nos traz, se mal utilizado.

imagem tirada da internet

Aliás, se pesquisarmos a origem da palavra vaidade, ela possui uma raiz latina, que se escreve vanus, e que significa “vazio, ocioso”; e outra raiz indo-europeia (que era utilizada antes do latim, em tempos remotíssimos), que se escreve wa-no-, que significa “deixar, abandonar, desistir”. Esta palavra também traz outro significado, agora em hebraico, que é: qualquer coisa invisível que logo desaparece.

Por essas e outras, ainda bem que, mesmo em tempos de fast, o alfaiate e a costureira persistem. Sábios eles. Todos precisam de alfaiates e de costureiras porque a vaidade está presente em todos nós, sem exceções.

E para aqueles que se julgam modestos, sem vaidades, Mário Quintana, um dos maiores poetas da Literatura, tem uma resposta:

“A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta. ”

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Melhores Empresas para se trabalhar. Mas para quem?

Existem pesquisas que medem o clima interno de uma organização, o ambiente de trabalho, a cultura e a marca. O resultado, chamado de diagnóstico, é uma “foto” que mostra, em números e em comentários, o que vai bem e o que não vai tão bem assim. Mostra possíveis falhas de processos, distorções da liderança, distorções comportamentais, aquilo que deve ser mantido e o que deve ser mudado para que a empresa, de verdade, se torne um dos melhores lugares para se trabalhar, e não somente no título.

É imprescindível medir, avaliar. Somente aquilo que se mede pode ser gerenciado. Portanto, não há nada de errado com as pesquisas nem com os institutos responsáveis.

Questiono, no entanto, até que ponto somos sinceros ao respondê-la? Estamos falando o que precisa ser dito, ou por medo de retaliação suavizamos as nossas respostas?

Dependendo do ambiente no qual se trabalha, dizer a verdade, nestas pesquisas, assim como fora dela, é assinar a carta de demissão. É ser bombardeado, injustamente, num feedback. É sujeitar-se a ser colocado de lado na próxima promoção, é ser incluído em projetos irrelevantes. Além do clássico assédio moral, que sempre existiu. Apesar da confidencialidade das respostas, dependendo da índole do gestor, ele poderá travar uma perseguição aos colaboradores se ele teve a sua área mal avaliada, inclusive a sua própria gestão. Assédios e desconfianças são métodos bem utilizados por este tipo de gestor.

Em empresas preocupadas em aparecerem nas revistas como uma das melhores para se trabalhar, que privilegiam maus líderes, que dão autonomia e poder para as pessoas erradas e que querem manter o estatus de empresa “sólida” perante à sociedade, como dizer a verdade? A pressão que a vaidade exerce sobre estas empresas obrigará, indiretamente, a equipe se posicionar de forma cética, o que comprometerá o resultado por meio de respostas que não correspondam à realidade. Dar apenas respostas positivas sobre a empresa e sobre o gestor passará a ser uma constante.

Caso a verdade fosse, de verdade, dita, que riqueza de diagnóstico estas empresas teriam. Porém, a vaidade as impede de olharem para os “números ruins e baixos” como uma forte contribuição para o fortalecimento da empresa, para a sustentabilidade do negócio.

Em minha experiência profissional, estas pesquisas sempre foram realizadas, porém com baixo aproveitamento. A cada ano, tanto pesquisas internas (para verificar o clima organizacional) quanto externas (para a participação no ranking das melhores para trabalhar) eram realizadas.

Curiosamente, a empresa sempre apresentava, na maior parte do resultado, um bom clima organizacional, e quanto à pesquisa externa, sempre figurava entre as melhores para se trabalhar. Mas internamente os problemas eram inúmeros e a insatisfação era muito grande também. No mínimo, paradoxal.  Na mesma semana em que a Empresa figurava no ranking das melhores, ela engordava a fila dos doentes ou demitia vários injustamente, mal avaliados por mau gestores. E por quê? Porque existia e ainda existe um abismo entre aquilo que se diz versus aquilo que se pratica. A velha máxima “para Inglês ver”, tristemente, ainda impera e muito.

Uma vez uma área apresentou índice de satisfação de 90% em relação ao gestor, na pesquisa interna de clima. Porém, esta era uma das áreas que mais apresentava desarmonia e reclamações. Como isto foi possível? Permitindo que maus Líderes e gestores ocupassem cadeiras de liderança.

Conversando reservadamente com cada colaborador da equipe, descobrimos que o “Líder” ameaçava, veladamente, as pessoas, para que respondessem coisas positivas. E como é difícil desligar um mau Líder. A gestão de consequência existe, mas o processo é lento, insuficiente e muitas vezes injusto. Por medo e por sobrevivência, as pessoas respondiam ao que aquele gestor queria ouvir: que sua área estava ótima e que todos estavam felizes e satisfeitos. Este falso resultado teve uma série de impactos:

- planos de ação foram tomados com base em resultados falsos;

- a área e o gestor foram considerados benchmarks;

- o Diretor e o Vice-Presidente ganharam mais bônus em função dos resultados;

- ceticismo por parte de colaboradores que conheciam a realidade desta área. Começaram a questionar os resultados e a própria pesquisa. As áreas que visivelmente diziam a verdade, nos falavam: “então a área que mente é quem ganha o destaque? ” ou “o jeito, então, é dizer que está tudo bem. Assim ninguém vem atrás da gente. ”

Infelizmente foram muitos os exemplos presenciados.  Como denunciar isto se o sistema interno é falido e privilegia o estatus e a vaidade? Não podemos responsabilizar somente aquele que não fala a verdade, por medo e por retaliação. A pesquisa, em si, é isenta. Mas ela vai apresentar um diagnóstico com base nas respostas trazidas, ou seja, se as respostas não corresponderem à realidade, o resultado também não corresponderá. Quer exemplo maior de contrassenso? E isto é uma realidade em muitas empresas.

Muitas empresas e falsos Líderes não estão dispostos a ouvirem a verdade. O ambiente interno não é saudável, é constrangedor, sufocante, opressor, o que faz que os colaboradores tenham medo de dizer a verdade.

Num ambiente opressor, é natural buscarmos nossa sobrevivência, e um dos métodos que utilizamos para sobreviver é ...mentir. Não é o certo, claro, mas ele existe e fazemos parte disto. Mentimos porque precisamos do salário, por conveniência, porque não queremos nos expor e por sobrevivência.

Outro exemplo: uma diretoria teve um resultado ruim. Ao receber os resultados, o Diretor simplesmente disse que a pesquisa estava errada. E queria, de todas as formas, identificar quem havia respondido tão mal assim. Obviamente as respostas não foram abertas devido à confidencialidade, mas a perseguição que os colaboradores daquela área sofreram foi desumana. E aquele Líder? Deve estar lá até hoje, infelizmente.

Misteriosamente, no ano seguinte, a área dele foi para 80% de aprovação. Por isso fiz a pergunta: melhores empresas para se trabalhar. Mas para quem?

Outras péssimas atitudes de gestores que presenciei em épocas de pesquisas de clima organizacional e demais pesquisas externas:

- inibir a liberdade de expressão: “Alguém quer ajuda para responder a pesquisa? ”;

- sentar-se ao lado do colaborador e dizer que irá ajudá-lo a responder, e assim, “terminamos logo com isto”;

- dizer à equipe: “olhem lá, se a gente tiver um resultado ruim, já sabem...”;

- dizer à equipe: “pessoal, notas 4 e 5 em tudo...” (e dava aquela risada...). Lembrando que notas 4 e 5 são as melhores, numa escala de 1 a 5 em ordem crescente;

- dizer à equipe: “se vocês me avaliarem mal, nossa área ficará mal colocada e talvez seja necessário demitir pessoas...”

Presenciei tanto situações nas quais os gestores aceitaram a verdade, e mesmo com resultados ruins fizeram um brilhante trabalho. E casos tenebrosos de ameaças, assédios morais e retaliações, acarretando o adoecimento de muitas pessoas.

E aí você poderá dizer: “mas por que estas pessoas não denunciaram isto? ” É fácil falar do outro lado da tela... ainda mais com a subjetividade que impede de provar tantas coisas.

Isto tudo me remete a duas coisas: à falta da verdadeira Liderança e à forte valorização da vaidade e do estatus, que cegam as organizações. Muitos maus líderes são excelentes técnicos, conhecem muito do trabalho, mas são vaidosos, prepotentes, arrogantes, não servem para liderar pessoas. Porém, em função das elevadas performances técnicas e financeiras que estas pessoas muitas vezes têm, perpetuam maus exemplos. E os líderes que estão acima destes fazem “vistas grossas” porque, no fundo, lá no fundo, também acreditam neste modelo.

O verdadeiro Líder é um servidor. Usa o seu poder e a sua autoridade para servir e para fazer melhor o ambiente para todos. O mau Líder está mais preocupado com o bom resultado da pesquisa (assim a sua imagem é preservada) do que com o bem-estar, o bom ambiente. Esta imaturidade é danosa a qualquer organização.

“Cuidar de gente dá muito trabalho”, cansei de ouvir isto de Líderes que apenas eram no título, muito longe da atitude. Como ser um Líder se não gostar de gente? A pergunta que fica é: quem colocou esta pessoa lá? Ouvia sempre a frase: “o negócio é performance. Se der tempo, cuidamos de gente. ”

Isto explica porque, ano após ano, muitas empresas gastam dinheiro, tempo e energia em pesquisas, que sempre, ou quase, apresentam os mesmos problemas. Enquanto o medo e a desconfiança estiverem presentes nos ambientes das empresas e forem mais fortes do que a vontade e disposição para, de verdade, construir um ambiente saudável de se trabalhar, arrisco em dizer que estas pesquisas pouco poderão contribuir.

Num outro exemplo que vivi, numa das pesquisas, a empresa não tinha tido o mínimo de respostas para poder passar para a próxima fase. E as pessoas não responderam porque não quiseram responder. Aquilo era falso. Quer diagnóstico melhor? Foi então que o Diretor entrou na área e disse para pararmos tudo o que estávamos fazendo e respondermos a pesquisa. Disse que seria “vergonhoso” a Empresa X (disse o nome da Empresa) não fazer parte das melhores.

Preciso dizer o que fizemos? Paramos o que estávamos fazendo e respondemos. Nunca respondi a um questionário de forma tão rápida e me sentindo tão pequena. Pequena por não poder fazer absolutamente nada, pelo menos não naquele momento.

Há um custo de imagem e de vaidade para a Empresa que não participa do “seleto” grupo das melhores. Depois entendi a atitude daquele Diretor que até hoje me pergunto o que ele fazia lá. Mas enfim...

Estar em uma das melhores empresas para se trabalhar vai muito além de benefícios e questões materiais: estamos falando de respeito, de felicidade, engajamento, querer estar lá, coisas muito difíceis de se medir. Estamos falando de subjetividade. Por isto questiono.

Ser uma das melhores empresas para se trabalhar está muito além de uma pesquisa. O diagnóstico deve ser diário, e não anual. Num mundo no qual se prevalece a cultura do parecer e não a do ser, não é de se espantar a enorme preocupação em fazer parte destes números.

Melhores Empresas para se trabalhar. Mas para quem?

Teremos diversas respostas, menos “Para todos”. E se ainda não temos como resposta “Para todos”, a empresa pode até ter seus méritos, mas daí a dizer que é uma das melhores para se trabalhar, existe uma longa distância.

domingo, 6 de setembro de 2015

O homem sábio

O homem sábio é um homem de bem. Não se preocupa com o perdão porque nunca se ofende. Sempre tem tempo porque faz o que precisa.

Contrata pela competência e não pelo marketing pessoal. Não fala o seu cargo porque, de verdade, isto pouco importa. O homem de bem sabe disto.

O homem sábio não faz questão de chegar primeiro porque sabe que isto não quer dizer muita coisa. Não menospreza o seu semelhante. Valoriza o conhecimento alheio e busca aprender com ele.

O homem sábio pede desculpas quando erra; o homem arrogante diz: “não foi minha culpa”.

O homem sábio dá a passagem e, às vezes, pede passagem; o homem arrogante só pede passagem.

O homem sábio não se vangloria de suas conquistas porque sabe que elas não são somente suas; o homem arrogante se esbarra com outro arrogante para ver quem fica com os louros de uma vitória que pouco ou nada ele participou.

O homem sábio se coloca pequeno para poder se tornar grande; o homem arrogante se enxerga grande dentro de sua pequenez.

O homem sábio enaltece a qualidade do outro; o homem arrogante só consegue enxergar qualidades nele. A qualidade do outro é sempre menor ou foi “pura sorte”.

O homem sábio se engrandece a cada dia; o homem arrogante se embrutece a cada dia.

O homem sábio constrói pontes para permitir que outras pessoas passem; o homem arrogante destrói a ponte que o ajudou a caminhar e a chegar até ali.

O homem sábio serve; o homem arrogante quer ser servido.

O homem sábio sobe a escada e dá a mão para quem está lá embaixo; o homem arrogante sobe a escada e a empurra para que ninguém mais suba.

O homem sábio pergunta e valoriza a pergunta; o homem arrogante acha que responde porque só valoriza as respostas.

O homem sábio descomplica o que o homem arrogante complica.

O homem sábio, quando líder, eleva o seu time e ressalta o que de melhor cada um tem e pode oferecer. Sua conjugação preferida é: “nós fizemos; nós conquistamos. ”

O homem arrogante, que não deveria ser líder, impõe pelo medo, ressalta os erros e expõe o time a retaliações. Sua conjugação preferida é: “eu fiz”; “a equipe errou”.

O homem sábio valoriza a essência; o homem arrogante valoriza a aparência.

Sabedoria e arrogância: duas faces da mesma moeda.

O homem sábio alimenta os sonhos do próximo; o homem arrogante exige que os seus sonhos sejam realizados e os de mais ninguém.

O homem sábio enxerga o que ninguém vê; ouve o que não é dito; sente o que não se expressa; o arrogante é alheio à sensibilidade dos atos, palavras e sentimentos dos outros.

O homem sábio diz: “um por todos, todos por um”. O homem arrogante diz: “cada um por si e Deus por todos”.

O homem sábio sabe. O homem arrogante não sabe, mas diz que sabe. E o pior é que tem gente que acredita.

O homem sábio é verdadeiro. O homem arrogante se sustenta na ilusão de que nunca será pego de calças curtas.

O homem sábio aperta a mão do outro e olha nos olhos. O homem arrogante analisa de quem é a mão para ver se compensa apertá-la.

O homem sábio preza a educação e perpetua exemplos edificantes. O homem arrogante preza o nome da faculdade e perpetua exemplos destrutivos.

O homem sábio diz: “como posso ajudar? ”. O homem arrogante diz: “faça isto para mim”.

O homem sábio é livre e por ser livre é feliz. Ele já entendeu que a liberdade é instrumento de felicidade: da verdadeira felicidade.

O homem arrogante é prisioneiro. E por ser prisioneiro de falsos modelos, é infeliz.

O homem sábio ajuda a construir, valoriza a travessia e acende a luz, ao anoitecer, para clarear o caminho de quem passar.

O homem arrogante valoriza a construção pronta, tem aversão à travessia e não acende a luz porque não sabe o que é isto.

O homem sábio não se deixa levar pelos elogios porque sabe que amanhã virão as críticas. O homem sábio fortalece o seu Ser no mundo para ter ainda mais sabedoria.

O homem sábio é aquele que anda no pântano, mas não se suja. É aquele que compreende. O arrogante se suja, mas não consegue enxergar aonde a sujeira começou.

O homem sábio não se vende porque sabe o seu valor. O homem arrogante se vende porque não conhece a diferença entre preço e valor.

O homem sábio se comunica de forma que todos o compreendam. O homem arrogante fala difícil porque quer aparecer.

A arrogância faz você andar em círculos, não te deixa livre porque você precisará sempre estar preso às fontes que te iniciaram na arrogância. E se você deixar de alimentá-las, simplesmente por presunção, esteja certo de que elas vão te cobrar.

A sabedoria faz você andar livre e em linha reta. Deixa você livre para se conectar com as fontes que fazem sentido para você. O sábio sabe que o alimento dele vem do outro e dele também.

O homem sábio não briga pelos confetes porque sabe que eles vão se desfazer com a mesma facilidade de uma bolinha de sabão.

O arrogante dá trombada no outro para que os confetes caiam sobre a cabeça dele. E quando não restar mais um confete para contar história, ele estará tão perdido que precisará, ainda, de mais confetes para dar conta da sua insignificância.

O confete constrói um castelo de areia. Somente o caráter fortalecido pela luta de não acreditar nos confetes sabe disto.

O reconhecimento é importante desde que não venha em formato de confetes.

O homem sábio aproveita a sua vida e o seu tempo. Sempre tem tempo porque faz o que precisa.

O arrogante está longe de pensar assim. Está sempre ocupado demais para se enxergar. Quer que os outros o enxerguem. Nunca tem tempo e está fazendo somente o que não precisa.

O homem sábio sempre sabe a saída. O arrogante, numa bifurcação, se sente um injustiçado.

A sabedoria é construída. Cada passo e cada degrau são fundamentais para esta construção. Subir estes degraus é o convite da vida. Não dá para pulá-los. Só mesmo colocando um calçado leve, uma roupa confortável e encarar a subida.

Não há outro caminho para a sabedoria.

E o arrogante? Ah, sim, ele está na escada rolante ao lado da escada, com degraus, que você está subindo. E quem será que, de verdade, chegará primeiro? Quem estiver subindo a escada, com degraus, saberá a resposta.

domingo, 30 de agosto de 2015

Filosofia do Camelo

Uma mãe-camela e um bebê-camelo estavam à toa, quando, de repente, o bebê perguntou:

-  Mãe, por que os camelos têm corcovas?

- Bem, meu filho, somos animais do deserto. Precisamos delas para reservarmos água. E exatamente por isto, somos conhecidos por sobrevivermos sem água.

- Certo. E por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?

- Filho, certamente elas são assim para permitir caminharmos no deserto. Sabe, com essas pernas longas, mantemos o nosso corpo mais longe do chão do deserto, que é mais quente que a temperatura do ar. Desta forma, ficamos mais longe do calor. Quanto às patas arredondadas, podemos nos movimentar melhor devido à consistência da areia.

- Certo. Por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão!

- Filho, esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto, respondeu a mãe.

- Deixa ver se eu entendi: a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto, e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então, o que estamos fazendo, aqui, no Zoológico?

Esta história, de autoria desconhecida, é muito sábia e vale refletirmos sobre ela.

Lembrei-me dela ao passar por um comércio, que há perto da minha casa, cujo dono possui um passarinho preso numa gaiola. Ele é lindo: pequeno, gordinho, amarelinho e tem um canto delicioso de se ouvir. Ele fica sozinho, pulando ali dentro, sem perspectiva alguma de vida. Apenas a de servir ao egoísmo do dono. E que bom que aquele passarinho não tem consciência disto. De que adianta toda a habilidade e a capacidade de cantar daquele pássaro se infelizmente, ele está no lugar errado?

Penso que o bebê-camelo e o pássaro possuem várias coisas em comum. Questionar sua sorte, como fez o bebê-camelo, pelo menos no mundo animal, ainda não presenciei. Então, eles ainda vão depender, durante um bom tempo, do bom senso do ser humano em respeitar a natureza e as necessidades de cada espécie.

E conosco? Acredito que pelo menos uma vez na vida já nos sentimos ora bebê-camelo, ora pássaro. Por mais duro que sejam estas experiências, e só quem já passou por elas pode dizer o quão difícil são, com tudo aprendemos na vida. E se soubermos absorver todo o aprendizado que esta experiência nos deu e aplicá-lo efetivamente em nossa vida, certamente será difícil voltarmos a nos sentir bebês-camelo ou pássaros, dentro de gaiolas.

Aquela mãe-camela se orgulhava de responder a todas as perguntas do filho realçando a habilidade, o conhecimento, a capacidade e a experiências adquiridos ao longo de sua vida, e também realçando as qualidades da espécie, para o filho. Mas não conseguiu responder a pergunta mais importante: “Então, o que estamos fazendo, aqui, no Zoológico? ”

E por que ela não conseguiu responder? Porque aquela mãe-camela deixou enferrujar, nela, uma qualidade fundamental que todos nós temos: a capacidade de perguntar, de criticar, de não aceitar o senso comum. Esta capacidade deve ser usada diariamente e ela é uma das ferramentas poderosas que não permitirá a nossa entrada em gaiolas ou zoológicos. E se por descuido entrarmos, o questionamento nos fará sair dele rapidamente. Mas é preciso agir rapidamente, porque a ferrugem é difícil de sair. E se você deixá-la criar espaço e se estabelecer, ela poderá arranhar as suas estruturas e também coisas fundamentais como valores, crenças e propósito de vida. E quando você perceber que a ferrugem tomou conta, tentará usar aquele produto que disseram que limpa, mas poderá ser tarde demais.

Este é um cuidado muito especial que devemos ter. É preciso lembrar que a ferrugem se instala de forma silenciosa, quieta. Ela vai tomando uma cor alaranjada e se esfarela.

Estar e permanecer no zoológico ou nas gaiolas são escolhas. Escolhas nossas e que ninguém poderá fazê-las por nós. Muitas vezes nos enxergaremos e nos encontraremos em gaiolas ou em zoológicos, mas ainda não teremos forças e condições para sairmos de lá. Tudo bem. O nosso tempo vai chegar. O mais importante é descobrir se queremos ou não estar lá. Se descobrirmos que não queremos estar ali, é só uma questão de oportunidade e de tempo: na hora certa, daremos adeus às gaiolas e aos zoológicos. E o mundo se beneficiará de nossas habilidades e de nosso talento.

Mas há o grupo dos que gostam das gaiolas e dos zoológicos. Pelo menos, aparentemente. Eu conheci algumas pessoas deste grupo. Convivi bem de perto com elas. Aliás, passei tempos longos em alguns zoológicos, por isto tive a chance de conviver com muitos habitantes de lá. Aprendi muito. A convivência nestes ambientes me fez valorizar ainda mais minhas escolhas e a decidir de qual lado gostaria de estar. O processo é moroso e lento. Mas não há outro caminho. Só a construção sólida te dá a segurança de poder abrir a janela e deixar o sol entrar.

Estas pessoas que conheci, e que aparentemente diziam que gostavam dos zoológicos e das gaiolas, acreditavam que era mais fácil a convivência num zoológico: as regras estavam prontas, os horários criados e a rotina reinava. Quando eram perguntados: “vocês são felizes? ”, as suas respostas eram sempre seguidas de um longo silêncio e de um tímido gaguejar: “ah, si... sim, sou, quer dizer, acho que sou. Mas quem é de verdade? ”, logo argumentavam isto.

Mas eu sabia que no fundo não eram. Flagrei-os, muitas vezes e escondidos, procurando a chave para abrirem a porta do zoológico e saírem, mas ainda não estavam prontos. Tiveram de devolver a chave para o administrador, assim que foram pegos em flagrante. Eu mesma tive de devolver a chave inúmeras vezes, também. Estar pronto é uma construção. É uma conquista diária.

Esta construção e esta conquista poderão ser iniciadas dentro do zoológico, estejamos atentos. Lá dentro é muito comum nos darem muitas e muitas munições, e tentarem nos convencer de que lá é o lugar certo para nós. E se não concordarmos, ainda nos acharão um tanto esquisitos. “Como assim você não quer ficar aqui, neste zoológico? Tem tanta gente lá fora querendo estar aqui? Como você não enxerga isto? ” E ainda passaremos por mal-agradecidos. Mas Paulo Coelho já dizia: “só os medíocres agradam a todos. ”

Existem políticas dentro de um zoológico. Existem regras dentro de uma gaiola. E se queremos sobreviver lá ou ainda ficarmos por lá mais um tempo, será preciso segui-las. Se tivermos a coragem de questionar estas regras, estejamos preparados para sermos vistos como problemas para aquele zoológico. E consequências virão: boas ou não, o risco será nosso. Por isto nos calamos, na maior parte das vezes, dentro de um zoológico ou dentro de uma gaiola.

E se tentarmos falar mesmo sabendo das regras e das políticas, estejamos certos de que alguém, gentilmente, nos lembrará das regras e das políticas. Além disto, nos convidará a nos recolher porque estará tarde, e será preciso trancar os portões do zoológico, e colocar a manta sobre a gaiola.

Há tanto o que dizer! É preciso ouvir os silêncios. Mas como ouvir o silêncio se não o aprendemos? Não há este curso na grade corporativa de um zoológico. Muito menos na grade de uma gaiola, porque lá é menor e não tem orçamento para isto. Talvez no ano que vem, caso melhorar a economia e caso a inflação se estabilizar.

Desengavetar nossos talentos, habilidades, conhecimentos é fundamental para sermos felizes. Colocá-los em uso próprio e do próximo é o que dá sentido à vida, é o que dá sentido ao propósito. Por isto aquele camelo-bebê estava perdido. E sua mãe, mais ainda.

É preciso preparo e coragem para sair do zoológico ou da gaiola. E mais: saber se queremos sair, que é o mais importante. E depois disto, decidir e fazer, seja dentro ou fora do zoológico.

O nosso dom, talento, habilidades, missão, conhecimento são caros demais para nós. Somente nós, e ninguém mais, sabe o quão difícil foi chegarmos até aqui. É imprescindível que saibamos o valor das coisas, e não o seu preço, que é algo bem diferente. O valor das coisas, das nossas coisas, só a gente sabe. Mas o preço, ah...o preço, este está bem claro na plaquinha dentro do zoológico. Há o preço de tudo ali dentro.

E quando aprendermos, na vida, a diferenciar valor de preço, e a viver de acordo com isto, certamente não precisaremos mais devolver a chave do portão do zoológico para o administrador, se a nossa escolha foi a de sairmos de lá, porque teremos a certeza de qual lado vamos querer estar.

Para concluir este texto, deixo uma frase de Fernando Sabino, escritor brasileiro, que diz, sabiamente:

“Liberdade é o espaço que a felicidade precisa. ”

Penso que seja isto o que aquele lindo pássaro e aquele bebê-camelo precisassem. E nós também. A liberdade é umas das ferramentas que nos levará à felicidade.

A única diferença entre eles e nós é que, no caso do pássaro e do bebê-camelo, infelizmente, não tinham acesso às chaves dos portões e das gaiolas. Porém, no nosso caso, temos acesso às chaves. Basta observarmos aonde elas foram guardadas e conquistarmos o direito de possui-las e de usá-las.

O caminho é longo, mas divino.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Elementar, meu caro Watson...

Sherlock Holmes e Dr. Watson vão acampar.

Montam uma barraca e, depois de uma boa refeição e uma garrafa de vinho, deitam-se para dormir. Algumas horas depois, Holmes acorda e cutuca seu fiel amigo:

- Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê.

Watson responde:

- Vejo milhares e milhares de estrelas.

Holmes então pergunta:

- E o que isto significa?

Watson pondera por um minuto, depois enumera:

1) astronomicamente, significa que há milhares e milhares de galáxias e, potencialmente, bilhões de planetas;

2) astrologicamente, observo que Saturno está em Leão e teremos um dia de sorte;

3) temporalmente, deduzo que são aproximadamente 03h15, pela altura em que se encontra a estrela polar;

4) teologicamente, posso ver que Deus é todo poderoso e somos pequenos e insignificantes; e

5) meteorologicamente, suspeito que teremos um lindo dia amanhã. Correto?

Holmes fica um minuto em silêncio, então responde:

- Watson, nada disso! Significa apenas que roubaram nossa barraca!

Portanto, emprestando o termo de Sherlock, elementar, também, é a arte de simplificar as coisas. A vida, acredito, é mais simples do que fazemos dela.



Sherlock Holmes dizia: “Você vê, mas não observa. ” E realmente a observação está ficando para segundo plano. Observamos pouco. Conhecemo-nos pouco. Interagimos pouco.

O descomplicar as coisas passa pela observação, pelo pensar, pelo refletir, pelo conhecer, pelo interagir. Se fizéssemos isto mais e frequentemente, seria possível aparar as nossas arestas mais facilmente e, sem arestas, enxergaríamos realmente o que precisa ser visto.

Descomplicar é complicado. É complicado ser simples. Porque o simples não tem respaldo na vaidade, nas falsas verdades. Ele é simples e pronto. Visível, aparente e transparente. No entanto, o complicado e o prolixo têm respaldos que a simplicidade, há muito tempo, abriu mão. E abrir mão tem o seu preço: o olhar descrente daquele que te critica, e diz: “mas é só isso? ” Só que este “só isso” já disse tudo e demorou um longo tempo para ser construído.  Então para que mais?

Ser simples é estar exposto a um mundo que complica demais as coisas, que vê valor no complicado. Simplificar é favorecer o acesso, a participação, o grupo, o avanço.

Ser simples significa descortinar, mostrar. Descortinar significa deixar mais pessoas entrarem na sua conversa, e não somente aqueles que fizeram um curso na faculdade de primeira linha, e que, portanto, têm visibilidade na sociedade dos vaidosos.

Ser simples é o contrário de ser complicado, que é aquele que adora uma extravagância e que faz questão de dizer coisas que as pessoas não entendem. Foi uma das maneiras que ele encontrou, na vida, de se sentir importante e melhor do que o outro.

Aquele que é simples favorece o que tem valor e significado; aquele que é complicado favorece os números, a quantidade, a propaganda, o cargo, a primeira página.

Confundimos, ainda, ser simples com ser simplista. Ser simples, como dizia Leonardo da Vinci, é “o último grau de sofisticação”, ou seja, um lugar aonde poucos vão chegar. Ser simplista é menosprezar o fundamental, o imprescindível para que todos o compreendam.

Ir direto ao ponto, sem voltas e sem rodeios, é uma construção. Não conseguiremos isto da noite para o dia. É um processo. Não dar voltas e descomplicar as coisas, o nosso trabalho e tudo o que nos cerca são pontos fundamentais se queremos ser eficientes.

Complicamos, também, porque achamos que isto nos fará ser mais respeitados. Mas o respeito nasce da admiração que se tem. E só admiramos a quem respeitamos.

Simplificar é um convite para rever etapas desnecessárias e, assim, se ter mais tempo para o que realmente importa. É destituir-se da vaidade de que somente os complicados e os muito complicados enxergam valor.

Simplificar é não ocupar o tempo do outro com as nossas prioridades, com as nossas complicações, com as nossas vaidades. Simplificar é sentir um profundo alívio ao dizer: “não sei”.

Dizer “Eu não sei” é libertador. E perigoso, também. Porque esta liberdade de dizer que não sabe fará de nós, muitas vezes, solitários no caminho. Por isto devemos escolher o nosso caminho sem olharmos para trás. E como diz a música: “não fique procurando o que perder”.

Ser simples é diminuir as etapas para se ter qualidade nas que ficarem. É preocupar-se com a qualidade e não com a quantidade. Se somente a quantidade brilhar os nossos olhos, estejamos certos de que a qualidade de tudo o que fizermos estará comprometida.

A quantidade, portanto, altera a qualidade.

Ser simples é ser eficiente. É fazer a reunião quando realmente ela for necessária, e não porque a prolixidade e a ineficiência são nossas parceiras.

Marcamos uma reunião para falarmos sobre outra reunião. Quem nunca fez isto, pode, por favor, atirar a primeira pedra?

Ser simples é ter uma linguagem cujo significado todos entendam. E ter uma linguagem simples não é falar errado, não é utilizar termos vulgares e populares. Mas sim, dizer o que precisa ser dito, é ser acessível a todos e não somente àqueles de interesses pessoais. Falar difícil e complicado cria uma barreira e afasta o outro.

Ser simples e, consequentemente, ter uma vida simples e eficiente implica uma mudança. E mudar requer uma capacidade de compreensão, de desejo de transformação e de desenvolvimento. Implica uma mudança na postura do pensamento.

A vida não é para ser vivida linearmente, alguém já disse isto.

O sucinto escorrega na falta; o prolixo no excesso.

Por que, então, complicamos? Vários são os motivos: desconhecimento, medo, vaidade, procrastinação, prolixidade, burocracia, falta de humildade, etc. Portanto, encontrar a causa do problema fará toda a diferença em nossa vida. Parece óbvio, mas não fazemos.

Por onde começar, então? Questionando-nos e buscando conhecimento. Quem não se conhece vive à deriva e viver à deriva é um convite a complicações. Precisamos ter foco e nos perguntar:  “Por que complicamos? Por que não conseguimos decidir? ”

O diálogo conosco nos levará para uma conscientização do nosso erro, das nossas negações. Porém, será preciso aceitá-los. Aceitar que complicamos as coisas ajudará bastante para iniciarmos o nosso processo de mudança. Portanto, o dialogar conosco é crucial. Precisamos nos ouvir e conversar com pessoas da nossa confiança. Aceitar opiniões diferentes. E lembrar-nos de que o diferente não é errado. É só diferente. Simples assim.

Precisamos saber qual é o nosso diferencial. Isto nos ajudará a seguir nos momentos da travessia, da mudança. O nosso diferencial não nos deixará desistir.

Para encerrar o texto, mas não a reflexão, deixo aqui uma frase do próprio Sherlock, que diz:

“O mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direção para a qual nos movemos. ”

Portanto, se quisermos nos mover para a direção correta, certamente a simplicidade deverá fazer parte do nosso caminho.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Os Medalhões do Machado continuam vivos

Machado de Assis é considerado o maior escritor da nossa Literatura. Falar sobre a obra dele seria uma redundância.

Foi uma pessoa além do seu tempo. Atemporal. Viveu no século XIX e faleceu no início do século XX. Mas ele se encaixa em todas as épocas e contextos. Uma pessoa que escrevia, abertamente, sobre temas polêmicos e pouco discutidos. Não tinha medo de se expor e, por meio de suas obras, colocava o dedo em várias feridas.

Certamente fazia muitos vestirem as devidas carapuças.

Sua forma inovadora de escrever e, principalmente, sua audácia na ausência do medo de se expor, fez dele uma pessoa admirada por críticos, estudiosos e leitores do mundo todo. A obra dele foi equiparada a obras de Shakespeare e Camões.

Escreveu um conto chamado: “O Medalhão”, bastante conhecido e de leitura obrigatória nos meios acadêmicos. Trata-se de uma ironia, de uma sátira do comportamento da sociedade da época, mas que cabe perfeitamente para nossa reflexão.

Neste texto, ele pontua todas as fraquezas humanas, todos os vícios, os falsos atalhos, as pequenezas de todos nós. Fraquezas que não são consideradas fraquezas, pelos personagens do conto, mas sim como recursos poderosos para o “se dar bem na vida”.

E o que é “se dar bem na vida? ”

As diversas passagens do conto vão dar as respostas. Falsas, obviamente, mas vão dar estas respostas, estas pistas para “se dar bem”, “ser bem-sucedido”, “ser um notável”. Respostas atuais, contemporâneas, familiares.

O conto relata uma conversa entre pai e filho, na noite em que o rapaz completa 21 anos. Terminado o jantar de comemoração, o pai diz ao filho que precisa dizer coisas importantes a ele. E aí todo o conto será uma grande ironia disfarçada desta conversa, supostamente, inocente com o filho.

Logo no início, o pai diz ao rapaz que ele poderá escolher uma entre as muitas carreiras existentes. Mas, diz o pai, “qualquer que seja a profissão de tua escolha, o meu desejo é que você se torne grande e ilustre, ou pelo menos, notável. A vida é uma enorme loteria...isto é a vida. ” E aconselha o filho a “aceitar as coisas integralmente. ”

A valorização do parecer acima do ser. Como não é de hoje esta conversa!

O pai continua dizendo ao filho que nenhum outro ofício parece mais apropriado do que o de ser um Medalhão. “Ser medalhão foi o sonho de minha mocidade. Mas me faltaram instruções de meu Pai. ”

“Uma vez entrado na carreira, o melhor é não ter ideias. Você, meu filho, se não me engano, parece dotado de perfeita inópia mental (aquele que não é muito inteligente), conveniente ao uso deste nobre ofício. ”

A perpetuação dos maus exemplos (“mas me faltaram instruções de meu Pai”). Chama o filho de “pouco inteligente”. Por isto o aconselha a ser um Medalhão.

“O passeio nas ruas é utilíssimo, com a condição de você não andar desacompanhado, porque a solidão é oficina de ideias”, diz o pai.

E o filho diz: “mas e se eu não tiver um amigo para me acompanhar? ”

E o pai responde: “você pode resolver isto de modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, um contrabando, uma calúnia. Desta forma, dentro de algum tempo, reduzirá o seu intelecto ao equilíbrio comum. Seu vocabulário deverá ser simples, morno e reduzido. Melhor do que tudo isto, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, que têm a vantagem de não obrigarem os outros a um esforço. De resto, o mesmo ofício te ensinará os elementos desta arte difícil de pensar o pensado. ”

Pensei na mediocridade construída às escuras, às avessas, na nossa sociedade que ajudamos a construir e da qual fazemos parte.

Tudo o que Machado de Assis explora neste conto são “regras” estabelecidas pela hipocrisia e pela mediocridade. “Seja assim e se dará bem. ” E não fazer parte disto é conscientizar-se de que se pagará um alto preço por ir na contramão do estabelecido, do ajustado, do azulejado.

Questionar é para poucos. Seguir o fluxo é para muitos. Trilhar o caminho já trilhado estraga menos o calçado, mas, de verdade, não te ensina a caminhar.

A sociedade é assim. Todos fazem isto. Por que você quer fazer diferente? “Pare de ser bobo”, dirão para você.

A ironia está fortemente presente nessa última fala do pai: “...desta arte difícil de pensar o pensado. ” Como pode ser difícil pensar sobre algo que já foi pensado por alguém? Machado de Assis estava se referindo aos medíocres, aqueles que se estabelecem no meio, no trivial, naquilo que todo mundo já viu, já conheceu e já aceitou.

E o rapaz diz: “vejo que o senhor condena toda e qualquer aplicação do que é moderno. ” E o pai respondeu: “condeno a aplicação. Louvo a denominação. O mesmo direi de toda a terminologia científica: você deve decorá-la. Porque o método de interrogar os mestres, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inserir ideias novas. ”

E o filho, ironicamente, diz:

“Nossa, que profissão difícil. ” E o pai diz: “Mas eu ainda nem te falei sobre os benefícios da publicidade, que você deve requerer à força de pequenos agrados. O verdadeiro Medalhão, longe de inventar um tratado científico sobre a criação de carneiros, compra logo um carneiro e dá de presente aos amigos na forma de um jantar, cuja notícia não poderá ficar indiferente aos convidados. Uma notícia traz outra. E aí o teu nome estará nos olhos do mundo. Não recuse um lugar à mesa para os repórteres. Se eles estiverem muito ocupados e não puderem dar a sua notícia nos jornais, ajude-os e redija você, mesmo, a notícia da festa. E se por causa de algum escrúpulo você não quiser anexar os elogios ao teu nome, peça para que um amigo o faça. ”

E o filho diz: “O que me ensina não é nada fácil. ” E o pai diz: “É difícil, leva tempo, anos. É preciso paciência e trabalho. Felizes os que conseguem. Mas você triunfará. Creia em mim. Somente neste momento você poderá dizer que está estabelecido na vida. Começará neste dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões. Elas virão até você.  Toda questão é não infringir as regras. Prefira falar sobre metafísica política porque não obriga a pensar e a descobrir. Nesse ramo tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado. Em todo o caso, nunca ultrapasse os limites de uma invejável vulgaridade. ”

“Farei o que puder”, disse o filho. “Nenhuma filosofia? ”  E o pai responde: “ no papel e na língua, alguma; na realidade nada. Proíbo você de chegar a outras conclusões que não sejam as já encontradas por outros. Foge a tudo o que possa cheirar a reflexão, originalidade. Use o escárnio e a zombaria. Mas não use a ironia. ”

O conto é finalizado com o pai dizendo ao filho que, por ser já bem tarde, precisam ir dormir. Mas pede a ele que reflita bem sobre os conselhos recebidos.

Destaquei as passagens que mais me chamaram a atenção, mas ele vale uma leitura completa. Ele trata de questões atualíssimas como:

- ascender socialmente sem grandes esforços. “Faça isto e você se dará bem. ”;

- cinismo (“é preciso paciência e muito trabalho para dar certo. Mas você triunfará. ”);

- enriquecimento às custas do empobrecimento intelectual e moral (“fuja da originalidade”);

- o esforço é inútil (“compre o carneiro pronto e dê de presente”);

- vá com a maioria (assim ficará mais fácil ser aceito. E o melhor: dificilmente você será questionado na vida);

O discurso deste pai é para a visibilidade do filho, e não para a profundidade. O senso comum, o esvaziamento do valor e do sentido e o entretenimento em detrimento do conhecimento são imprescindíveis para quem quer se tornar um Medalhão.

Você não precisa pensar. Anule-se como pessoa, e tudo estará certo para você. Jogue fora suas opiniões e hábitos. Goste do gosto dos outros.

Mantenha-se neutro. A neutralidade é invisível.

Faça um MBA em aprender a jogar o jogo das relações e a arte das dissimulações. Seu currículo será priorizado. E sempre se lembre de tomar as ideias emprestado, não perca tempo pensando sobre isto. Vá em busca do que já foi criado e use o que já foi usado.

Evite dar a sua opinião, a menos que seja para concordar com o outro. E não queira entender muito bem como funciona uma coisa.

Agrade e faça elogios. Vivemos na sociedade do espetáculo. Torne-se visível, mas cuidado para não ser transparente. Lembre-se de que isto não será bem visto na sociedade do espetáculo.

Tive uma Gestora, que fez aquele MBA ao qual me referi acima, que nos pedia para “nos vender mais”. Até hoje estou tentando entender o que ela queria dizer com aquilo. Quando se faz bem algo ou alguma coisa, o reconhecimento chega. Não precisa se preocupar com ele.

A sociedade do espetáculo é excelente para criar estratégias que estejam acima da competência. A competência leva tempo para ser construída e para surgir. O espetáculo desta sociedade é imediato e instantâneo. Leva só três minutinhos. E se esfriar, é só requentar.

Decidimos para agradar ou porque é o certo e o ético?

Não precisamos pensar: apenas nos preocupar em reproduzir será o suficiente. O problema é que estamos replicando modelos ineficientes. Ainda bem que não podemos generalizar.

Faça o trivial. O refinamento não me interessa. Aonde eu compro um carneiro?

Este conto, portanto, é um paradoxo. E se há o paradoxo é porque a base ainda não está sólida, ou seja, nossos valores, nossas crenças. Quem somos?

Se os medalhões existem é porque os alimentamos. Mesmo que seja por sobrevivência. Mas os alimentamos. Ou alguém discorda?

Clarice Lispector tem uma frase que diz:

“...passava o resto do dia representando, com obediência, o papel de ser.”

Que saibamos identificar estes medalhões a quem servimos, com obediência, o nosso papel de ser. E que possamos sair do nosso papel de ser para nos transformarmos no nosso papel do ser, de preferência, com os medalhões bem longe da gente, morrendo de fome.