terça-feira, 14 de junho de 2016

O destino somos nós

É inacreditável o quanto acreditamos no inacreditável: o elogio que mente, a fama que corrompe, o sonho interrompido.

É inaceitável o quanto aceitamos o inaceitável: a mentira deslavada, o ego exacerbado, o descabido que nos convida a abrir mão de nosso senso crítico.

O inacreditável e o inaceitável: duas faces da mesma moeda. Porque a outra face ainda não a conhecemos.

Aceitar o inaceitável. Acreditar no inacreditável. Aceitamos e acreditamos. E assim somos misturas da mesma massa. E assim não precisamos explicar nossas escolhas. E assim não precisamos falar porque já sabem a nossa opinião. E assim somos iguais num mundo de desconhecidos e de viajantes. E assim somos invisíveis num mundo ávido por se mostrar.

Aquele que muito se mostra não é visto. E também tem medo de ser visto de verdade.

Aquele que muito busca não encontra. É preciso deixar espaços para ser encontrado.

A busca incessante desequilibra. É preciso saber a hora de parar. E de recomeçar, também. Mas parar é imprescindível.

Buscar incessantemente é perseguir algo. E perseguir é não respeitar o tempo. Toda busca precisa de espaços e de tempo. A ociosidade é indispensável no movimento de busca.

É preciso nos encontrar para que a nossa condição de ser seja ampliada.

O cristalizado tornou-se naturalizado. Aceitamos. E por quê? Porque aquilo que se tornou natural não precisa mais ser aprendido. A nossa rotina agradece. O cristalizado precisa ser repensado e retirado da prateleira do natural.

Natural devia ser o aceitável e não o inaceitável. Começamos a refletir sobre isto, mas por qual motivo paramos? Natural deveria ser acreditar e não o inacreditável. Afinal, chegamos até aqui, não?

Abrimos mão da amizade, mas não do preconceito.

Somos felizes quando concordam com a gente e quando somos elogiados. Não somos capazes de enxergarmos avanços na crítica.

Crescemos mais na dor porque nela prestamos atenção. Na dor, somos todos muito parecidos. A dor aguça os nossos sentidos e amplia os nossos horizontes. Parece que na dor a nossa visão alcança lugares, até então, não visitados.

Somos capazes de fingir um falso sono para não nos levantarmos do banco sujo que sujamos, no metrô. Mas não somos capazes de enxergarmos a necessidade do outro.

O sonho do outro nos representa porque o sonho do outro já foi detalhadamente trabalhado na sociedade de iguais. Mas o nosso sonho não nos representa porque ele é diferente, impensado e inédito.

Aquilo que não foi pensado está arriscado ao fracasso.

O diferente precisa encarar o riso do deboche e o olhar cínico daquele que chegou antes da gente e conseguiu um lugar bom para se sentar. E do lugar dele, tem uma visão privilegiada do irrelevante. Que é o valorizado pelos que acreditam no inacreditável.

Aquilo que não se vê deveria ser debatido. Aceitar o invisível é o primeiro passo para reencontrarmos o que perdemos, mas que não poderíamos ter perdido.

O preconceito é um exemplo do invisível. Corrompe às escondidas.

O excesso que camufla a carência.

O riso triste que esconde a tristeza.

A fala sem parar que mostra a necessidade do silêncio.

Os títulos no lugar das atitudes.

A falácia no lugar da verdade.

O palhaço que deveria fazer rir, agora chora.

E aquele que deveria chorar para identificar a dor, ri pela simples falta de quem o acolha em sua dor e em suas misérias.

As misérias humanas disfarçadas nos imediatismos dos 140 caracteres.

Fronteiras construídas no lugar de pontes.

Aquilo que foi proscrito, mas não poderia. Aquilo que não foi prescrito, mas deveria.

Proscrito. Prescrito. Reescrito não seria melhor? Mas aceitamos o proscrito e acreditamos no prescrito. A reescrita não faz parte da nossa rotina.

Estamos exilados dentro de nós por acreditarmos em conceitos estreitos. Ampliarmos a nossa visão e querer não acreditar no inacreditável. É preciso remontar sistemas e romper com as linhas mestras que nada mais dizem.

É preciso entender a construção para realizar a desconstrução. E assim mudarmos as percepções da nossa condição.

A nossa percepção das coisas e do mundo nos impede de ver a realidade.

Existimos, muitas vezes, pela imposição e não pelo direito que temos de existirmos.

Não reservamos lugares para a diversidade. Ela não é bem-vinda.

Inaceitável e inacreditável: o aceitar e o acreditar em melhores destinos. Mas para isto, é preciso aceitar o diferente. Somente desta forma vivenciaremos a nós próprios.

Rejeitar o inaceitável é aceitar o outro e, consequentemente, viver a melhor versão de nós mesmos. Rejeitar o inacreditável é se colocar no mundo, mesmo que às custas de uma caminhada sozinha e solitária.

Rejeitar o inaceitável é se reconhecer como um igual. É mergulhar nos nossos conhecimentos e ir ao encontro de nós mesmos.

Abrir mão do inaceitável é reconhecer que vivemos numa sociedade que produz excluídos. Que produz hierarquias, que produz quem pode e quem não pode.

Criar diferenças é uma das nossas especialidades. E as diferenças criam as injustiças, aqueles que carregarão o piano e aqueles que tocarão o piano, mesmo que desafinados. Muito desafinados. Mas como aqueles que ouvem nada entendem, não compreendem aquele desafinar...

Os absurdos que nos movem. Os acertos que questionamos.

As incorreções que justificamos. As correções subestimadas.

A vaidade valorizada pelos que aceitam o inaceitável. A humildade valorizada pelos que não acreditam no inacreditável, mas que lutam num mundo onde são desacreditados.

O dinheiro que deveria ser o meio, mas é o fim em si.

E o fim em si que ninguém conhece porque falta coragem para a caminhada.

Respostas e perguntas que lutam para serem perguntadas e ouvidas. Mas é preciso mais que simples caracteres. No mínimo, palavras, bem diferente de caracteres que na época das grandes guerras eram utilizados. Velhos conhecidos. Nada disto é novo.

Assim como nossas perguntas e respostas: nada de novo, apenas com nova roupagem, talvez.

Enfim, somos velhos desconhecidos de nós mesmos. Um pouco de tempo disponível para viajarmos em nós e para nós talvez nos fizesse muito bem. No mínimo, revisitaríamos o que acreditamos e o que aceitamos e perceberíamos que muitas coisas estão fora de lugar.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de George Moore, romancista irlandês, que diz:

“Um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta para casa para encontrá-lo. ”

Pois é, títulos são importantes, mas não para sabermos o essencial da vida, que sempre esteve e sempre estará dentro de nós.

domingo, 5 de junho de 2016

Na travessia ou às margens?

imagem tirada da internet

A Literatura é um destes lugares infinitos cujo aprendizado não se esgota. E ler este pensamento de Fernando Pessoa me faz pensar desta forma. Sempre há algo a dizer. Nunca o tudo já foi dito. Sempre há algo a falar, a pensar, a construir.

Duas palavras chamam a minha atenção neste pensamento: ousarmos e margem.

Ousar é ir além. É acreditar em algo. É arriscar.

Estar à margem é exatamente o oposto: é o não ousar, é o não acreditar, é o não arriscar.

Sem ousadia a vida não passa das arquibancadas. O viver dá lugar ao vazio, dá lugar para as margens da vida. Colocar algo às margens é esquecê-lo.

Eu estava numa reunião de trabalho, e uma pessoa, me vendo fazer anotações no meu velho e bom caderno, disse:

“que bom que você trouxe seu caderninho para fazer anotações, porque eu esqueci o meu tablet. Você, pode, por favor, anotar no cantinho da margem este dado para depois, quando der, eu verificar melhor? ”

...caderninho, cantinho, depois, quando der... mesmo sem perceber, aquilo que ela havia me pedido para anotar certamente ficaria para segundo plano. Tudo aquilo que colocamos às margens é porque não damos a importância que deveríamos. Aquilo que pode ficar para depois. Mas no fundo, não pode, mas colocamos às margens. São tantas as anotações que envelhecem às margens...e ficam só a nossa espera.

Num mundo repleto de tecnologia, escrever à mão, ainda, parece ultrapassado. Mas de posse de um tablet, tenho dúvidas se perceberíamos as margens da tela e, pior, se perceberíamos o que estamos colocando às margens da tela.

Fernando Pessoa nos chama a atenção para estas margens esquecidas, com anotações e lembretes para nós mesmos, mas que não lemos. Não lemos porque o caderno acabou e o jogamos, porque o dia se encerrou, porque o telefone tocou, porque alguém nos chamou em alguma das redes sociais, porque nos esquecemos de ler as anotações, porque, porque, porque, e quando nos damos conta, estamos às margens de nós mesmos.

Realizar a travessia é uma das formas de se ter atenção ao que se está às margens e trazer para o centro. Quem está às margens assiste; quem está no centro participa.

Quem está às margens não tem direito de questionar porque ninguém o deixa falar. E quando consegue um raro momento para falar, todos foram embora.

Quem está no centro constrói a própria história e vive a própria história.

Às margens, alguém que não existe, que vive das sobras dos que não o enxergam.

No centro, alguém que faz a sua existência ter valor. Que cria valor para si e para o outro.

Às margens, sem direito à travessia.

No centro, na travessia.

Não é preciso grandes planejamentos para realizar a travessia, apenas aceitar o convite da vida. E aceitá-lo significa, algumas vezes, dizer sim para ela e não para nós. Está aí um excelente exercício de desprendimento...

Aceitar o convite da vida significa aceitar que a travessia é necessária e urgente. Um processo complexo de se realizar, porém transformador e prazeroso.

Significa, também, deixar de travar embates com a vida. Aceite o convite. Pronto. Ela saberá ouvi-lo no momento certo. De nada adianta brigar com a vida. Ela sempre ganha, mesmo!

Mais inteligente é aceitar o convite, amansar a vida. Assim ela sossega. E depois, quando ela der um leve cochilo, vamos contornando a travessia, vamos colocando nossas regras e limites também. Afinal, a travessia é nossa, não? Portanto, ela deverá ter a nossa cara...

Ficar à margem de nós mesmos é ficar teimando em realizar a travessia que não é a nossa. Mas é a que gostariam que fizéssemos. Ficar à margem de nós mesmos é como se fôssemos expectadores de nós mesmos só que o controle remoto está nas mãos do outro.

Realizar a travessia significa parar um pouco para descansar, tomar uma água, mas ver que muitos já estão lá na frente. Tudo bem. Uma hora chegamos. E que seja na nossa hora e não na hora do outro. Quanto mais olharmos para onde o outro está, mais tropeçamos nas nossas próprias pernas e o caminho, certamente, ficará mais longo e árduo.

Realizar a travessia significa encontrar ventos fortes contrários à navegação. E como navegar? Navegando...

O nosso passado dirá como faremos a nossa travessia. E o nosso futuro foi o resultado da travessia que escolhemos. Sem erros de concordância aqui...

A travessia nos obriga a fazermos paradas obrigatórias. O caminhar é a vida. A vida se dá na travessia. A travessia revela as nossas escolhas, nossas decisões, e também nos dá pistas das nossas próximas esquinas.

Quem não nos conhece não nos estranha. O estranhamento se dá quando iniciamos o processo do conhecimento. E nas esquinas somos todos desconhecidos mesmo tendo as mesmas questões.

A travessia nunca está concluída. Quem acha que concluiu, o que faz aqui, ainda?

Fazer a travessia nos concede o direito de desejarmos a liberdade. Mas antes será preciso passarmos pelos buracos e sujeiras da pista. Travessia é essencialmente falar sobre busca.

O que significa buscar? Significa particularizar os nossos caminhos. Individualizá-los.

Sair das margens de si mesmo é ter a coragem de arrancar os sapatos e pisar sobre pedras e trilhos lisos.

A travessia se constrói sem apelos de imagens e de informações prontas. Aprovamos o excesso de informações porque isto nos torna ocupados demais com o desnecessário. Não queremos saber se o excesso nos cegará. O que importa isto? Quanto mais informação melhor.

O relatório extenso sobre a mesa do diretor. Nunca conheci um Diretor que lesse todo aquele relatório. Nem um gerente e também algum supervisor. Para que ele é feito, então? Apenas para aparecer sobre a mesa. Apenas para aparecer, mesmo que às custas de alguém.

Queremos informações prontas. Mas só isto não basta para a travessia. É preciso mais.

Vontade. Tempo. Conhecimento. É disto que precisamos.

Disposição. Mansidão. Humildade. É disto que carecemos.

“Precisamos alargar a nossa consciência”, disse Hannah Arendt, Filósofa Alemã. Quanta sabedoria numa frase tão curta.

Conseguiremos fazer a travessia quando descobrirmos de onde estamos partindo. Quando aprendermos a migrar dentro de nós mesmos, caminharmos dentro de nós. E assim, compreendermos o mundo do próximo e convivermos no mundo dele sem sermos do mundo dele. E para isto, é preciso estar no centro e não às margens de nós mesmos...

A travessia é isto: transição. É o ir para.

É o chegar lá. É o começar e não saber se vai chegar.

É o arriscar sem garantias. É o sair de. É o atravessar. É o recomeço.

É o orgulho de ter aceitado o convite para realizar a travessia.

É o transitar entre estrutura e risco, sem a menor garantia.

É o seguir pistas falsas e descobrir, só lá na frente, que o caminho estava errado.

Quero encerrar o texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Guimarães Rosa, que diz:

“Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia. ”

Um ensinamento sem rodeios. E eleger a busca como meta de vida é arriscar-se a se reencontrar.

domingo, 22 de maio de 2016

O espelho traduzido

“Quem me detesta tanto assim, para me atacar até em sonho? Quis saber. E neste instante, vi minha imagem refletida no espelho. ”

imagem tirada da internet

A autoria deste pensamento é de Lygia Fagundes Telles, uma das mais importantes escritoras brasileiras. Por meio de sua obra vasta, rica e profunda, ela aborda, sem rodeios, os vários e complexos mundos do humano. Sem meias palavras. Sem demora.

Lygia Fagundes Telles, no meu entendimento, é uma destas autoras e escritoras que nos tira do lugar comum. Que nos convida a nos levantar.

A reflexão proposta por ela é real e imprescindível, se quisermos nos conhecer e buscar sermos a melhor versão de nós mesmos. Porém, é preciso nos levantar e caminharmos até o espelho para conhecermos o que nele há refletido.

O que vamos enxergar no espelho? Só a gente poderá saber. Ninguém mais.

Vivemos num mundo construído por nós. Vivemos o que criamos. Tanto por nós quanto pelo outro. E a nossa criação nem sempre é merecedora de aplausos. Assim como a criação do outro também. Muitas vezes nos envergonhamos de nossas atitudes, de nossas criações. E em outros momentos, nos sentimos orgulhosos do que fizemos, do que causamos, do que criamos.

A nossa boa criação afeta o outro. A nossa má conduta afeta o outro. E a nós também.

A boa criação do outro nos afeta. A má conduta do outro nos afeta. E a ele também.

E em meio a este caos de todas as ordens, vamos nos equilibrando numa fina corda invisível que vai se ajustando e se moldando frente às questões que se abrem. Enquanto esta nossa fina corda vai nos sustentando, nossos diversos e diferentes papéis, na condição de humanos, vão sendo mantidos e vividos. Porém, quando esta fina corda se rompe por inúmeras razões, a nossa sustentação fica à deriva. Ficamos desequilibrados. Caímos.

É como se esta fina corda rompesse o silêncio e rompesse com o silêncio. Um silêncio vazio, cheio de perguntas e com poucas respostas. E mesmo as que há, são questionáveis. E é nessa hora que vamos ao espelho. E para a nossa surpresa, nos enxergamos lá. Estamos do lado de lá do espelho.

Deveríamos ficar felizes ao nos reencontrarmos no espelho. Deveríamos nos enxergar lá e nos ver de verdade. Deveríamos nos cumprimentar e nos interessar por nós. Deveríamos querer investigar o motivo pelo qual aquela fina corda nos derrubou.

Deveríamos...deveríamos...deveríamos...são tantos os deveríamos que o que deveríamos, acabamos deixando para depois. Só que o depois não nos espera. Não importa o seu motivo, nem o meu e nem o nosso. Muito menos não importa o motivo do outro...

E neste esquecer de fazermos o que deveríamos, o nosso espelho se torna o nosso inimigo. Torna-se uma ferramenta poderosa para perseguirmos a nós mesmos. Olhamo-nos no espelho e simplesmente não gostamos do que há lá. Mas por quê?

É preciso buscar estas respostas. E os caminhos para esta busca somente nós sabemos.

Atacamos a nossa imagem porque assim fica mais fácil. Quando atacamos e agredimos algo é porque estamos desistindo da luta. A agressão é uma forma mais rápida de não precisar lidar com as nossas questões. Sou agressiva para dizer que tenho medo. Sou agressiva para afastar o inimigo. Sou agressiva para me fazer de forte e não precisar explicar.

Toda pessoa agressiva é carente de ferramentas para lidar com o mundo, e consequentemente com as suas questões. A agressividade não deveria nos representar. Mas como nos atacamos até em sonho, como disse Lygia Fagundes Telles, como dizer que a agressividade não nos representa?

Rejeitamos, muitas vezes, a nossa imagem refletida no espelho e a atacamos para que nossas fraquezas sejam justificáveis.

O outro pode não gostar da gente. Podemos ser ridicularizados pelo outro. A sociedade pode nos rechaçar, pode nos forçar a saída. Mas isto não poderia ser o estopim para nos atacarmos frente ao espelho e nos colocarmos no fim da fila.

Precisamos aprofundar as nossas questões morais e íntimas. Somente desta forma, acredito, poderemos entender os motivos de recusarmos a nós mesmos. Precisamos perseguir as nossas questões. São elas que nos estimulam a irmos para o espelho.

Adélia Prado, outra escritora imprescindível, dizia que “a mulher é desdobrável”, no sentido de multiplicidade. Roubo esta frase para dizer que “somos todos desdobráveis”. É preciso enxergar todas estas nossas multiplicidades e investirmos tempo para conhecê-las. E o espelho é um excelente começo.

É preciso sair da horizontalidade do pensamento e partirmos para a verticalidade. A linearidade do horizontal não nos representa. Somos por demais complexos para nos contentarmos com o reto, sem curvas. O vertical sim, nos representa. No mínimo, no trajeto vertical, teremos de lidar com as inconstâncias.

Precisamos nos reconhecer nos papéis que assumimos na vida. E um deles deveria ser o de ter maturidade para se olhar no espelho sem se atacar. Somos dotados de histórias e é preciso respeitá-las porque elas nos constroem.

O que se vê no espelho não é um espaço construído, mas em construção. E uma construção sólida somente se dá quando aprendemos a andar pelas estradas esburacadas da vida.

São muitas as hipóteses que podem explicar os motivos que nos levam a nos atacar. E creio que uma delas seja o desejo de sermos sempre o protagonista na vida. Não o protagonismo que assume para si a responsabilidade e segue. Refiro-me àquele protagonismo criado por esta sociedade (no caso, todos nós) que acredita nas falsas ilusões, nos velhos chavões e tem, nas luzes e no palco, suas referências de vida. Então, quando não somos estes protagonistas criados, a nossa imagem fica distorcida, para nós, no espelho. Não nos reconhecemos.

Ser sempre o protagonista não significa ser vitorioso. Só significa que você é o centro das atenções da vez, está no palco e alguém acendeu as luzes para você. Somente isto. Mas daí a ser um vitorioso há larga distância. Buscar ser sempre o protagonista é muito diferente de buscar sempre conquistas na vida.

Querer sempre ser o protagonista nos levará para um caminho sem volta. Um caminho solitário e triste de competições, angústias e aparências. Não há como sempre ser o protagonista.

Querer sempre conquistas na vida nos levará para um caminho de redescobrimento de nós mesmos. Conquistas. Simples assim.

Quando perseguimos o caminho de conquistas, competimos com nós mesmos, e não com o outro. Querer conquistas é genuíno, legítimo, nos traz um movimento que produz e que cria.

O caminho do protagonista nem sempre tem conquistas.

O contrário do protagonista é o estar ofuscado e ausente. Anônimo. E quem diz que os anônimos não têm conquistas? A conquista se dá pelo percorrer, pelo avançar. E não pelo aparecer, pelo se mostrar, pelo ser reconhecido, pelo ego. E o protagonismo criado ocorre porque alguém colocou você no palco. E você acreditou que ali era o seu lugar.

Olharmo-nos no espelho não deveria nos fazer mal. Mas em algumas vezes faz, e muito. Precisamos mergulhar em nossas subjetividades para buscarmos estas respostas. E isto é um exercício individual. Difícil, porém prazeroso. Redescobrir-se é caminhar por caminhos construídos pelos seus pés e não pelos pés dos outros. Isto já valerá a pena.

Enfim, são tantas as reflexões, porém único é o caminho: o espelho. Que tanto pode ser concreto e visível, como interno e subjetivo. Ou os dois juntos. Não importa. O que importa é passarmos a nos enxergar neste espelho, seja ele interno ou externo. Quando nos enxergarmos, inevitavelmente enxergaremos o outro. E enxergar o outro é uma forma de se enxergar e de trilhar um caminho de conquistas.

O convite está feito. Mas é preciso se levantar e caminhar. Caminhando aumentamos de tamanho.

Para encerrar o texto, mas não a reflexão, quero compartilhar um pensamento de Carlos Drummond de Andrade, que diz:

“Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que as pessoas me enxergam. ”

Sábias palavras. Somente quem se respeita e persegue conquistas e não protagonismo, sabe o seu tamanho. E pode olhar corajosa e respeitosamente a sua imagem no espelho e reconhecer-se nela.

terça-feira, 3 de maio de 2016

O voluntariado obrigatório

O título deste texto foi, propositadamente, pensado e escolhido. Apesar de contraditório, é real. Irônico? Sim. Mas quem está preocupado com isto?

Em todos os tempos vivemos e presenciamos coisas e situações. Ora boas. Ora não. Às vezes concordamos; às vezes não. Muitas vezes queremos gritar, mas nossas vozes são caladas. Outras vezes somos convidados a falar, mas não sabemos o que dizer. Há vezes em que os absurdos tomam conta e fazemos de conta que não sabemos; às vezes nos metemos e saímos mais complicados do que quando entramos. Fazemos parte disto. Ninguém nos perguntou se queríamos. Mas já que estamos aqui, o jeito é abrir o guarda-chuva, que também serve como guarda-sol, e vivermos. Ora com chuva; ora com sol. A velha sombrinha servirá para os dois momentos. E para os dias de vento e de poucas nuvens, com sol fraco, não precisaremos dela.

O que tudo isto tem a ver com o voluntariado obrigatório? Tudo. Trata-se de mais uma destas coisas destes tempos e de outros. Coisas que são de nossa época, mas de outras também.

O voluntariado, no Brasil e no mundo, é antigo. Há tempos que este tema tem espaço e vivência na sociedade. No Brasil, inúmeros são os exemplos de ações e de pessoas que, de verdade, querem ajudar, contribuir e proporcionar uma vida digna a quem precisa. Atitudes de pessoas brilhantes que, discreta e anonimamente, fizeram e fazem da vida do próximo, um caminho de esperança e de dignidade.

Porém nem sempre os rios correm para o mar. Deveriam. Mas nem sempre acontece isto. E com este assunto não seria diferente.

Muitas empresas, camufladas sob uma imagem de “responsável socialmente”, abraçam uma causa e seguem realizando ações que, de longe, poderiam ser chamadas de solidárias e voluntárias. No fundo o que estas empresas querem é uma imagem que esteja acima de qualquer suspeita. E o que melhor a qualifica? O bem que fazem à sociedade.

A pergunta é: por que estas empresas fazem isto? Por aparência e por obrigação. Não é a real intenção delas ajudar o próximo. As empresas que realmente querem e fazem um trabalho voluntário, tendo como base a solidariedade, não divulgam suas obras. Quem realmente quer fazer o bem e aliviar a dor alheia não faz propaganda. Não é preciso.

Mas, também, há muitas empresas e pessoas que agem no anonimato. As obras delas são descobertas muito tempo depois, exatamente como tem que ser. Quem faz alarde de obras realizadas mostra excessiva necessidade de reconhecimento e de devoção. É como se a sociedade devesse reverenciá-las.

Além desta distorção do conceito do que é ser voluntário, existem aquelas empresas que “convidam” os funcionários para serem voluntários (?). Quer dizer, além de fazerem propagandas de suas obras tentando vender falsas imagens de bondade para a sociedade, ainda coagem colaboradores a participarem disto. Mas claro, “é só um convite. Ninguém é obrigado a participar”. Mas se você for...ganhará pontinhos na próxima avaliação, será melhor visto pelos gestores. Isto seria uma forma de coação e de um constrangimento ou precisamos rever alguns conceitos? Por meio de um discurso bonito, a empresa convida o colaborador a participar destas ações, mascarado de convite. Será que, na prática, é realmente um convite ou uma obrigação escrita nas entrelinhas? Será que aquele que faz trabalho voluntário é melhor visto pelo selecionador, pelo gestor, pelo diretor? Se sim, não deveria. Desde quando fazer trabalho voluntário é pré-requisito para alguma coisa?

Somos todos voluntários a nossa maneira. Quando nos calamos, quando falamos, quando cedemos o nosso lugar. O voluntariado não se dá em apenas ir até a algum lugar e fazer algo. É um ser em detrimento do ter. É um ser, é um estar junto de. Por isto não podemos obrigar as pessoas a fazerem isto. Cada um é voluntário a sua forma, a sua maneira. O voluntariado que se obriga é um disfarce para esconder as falsas aparências.

Temos dificuldades de entendermos os conceitos das palavras.

O termo voluntário vem do latim voluntarius, ou seja, de própria vontade, sem coações, sem constrangimentos. Ter desejo por fazer o bem. Aquele que não faz por imposição do outro; que depende de nossa vontade. Feito espontaneamente. O dicionário é ainda mais claro: é praticar algo de forma instintiva, sem reflexão, do que não precisa de estímulo. E por último, aquilo que se faz por opção. Portanto, não é uma imagem, uma foto se mostrando ao mundo, mas sim uma atitude, uma postura. É uma ação. Um querer.

Infelizmente, há um profundo distanciamento entre o que se diz versus o que se pratica. Estamos longe de praticarmos, neste caso do voluntariado, o que diz o dicionário. Ainda fazemos o bem porque dá ibope, e não o fazemos pela atitude em si. Ainda olhamos com bons olhos o colaborador que participa destas ações porque, desta forma, nos beneficiaremos.

O voluntariado que mente. O voluntariado que se mostra. O voluntariado que aparece.

O voluntariado que corrompe. O voluntariado que não é voluntariado.

Ser voluntário e não estar voluntário é uma questão de maturidade. É um sentimento genuíno de querer ajudar o próximo a se levantar. Ser voluntário é ter compaixão, que não é ter dó e pena do próximo, mas sim se solidarizar com a dor dele e ajudá-lo. Ser voluntário é enxergar o outro com o mesmo direito de ter dignidade de viver e de evoluir que todos.

Ser voluntário não é, definitivamente, fazer as coisas por obrigação.

O que se vê, muitas vezes, é um aproveitamento da dor alheia como meio de promoção. A hipocrisia é a base do falso voluntariado; o anonimato é a base do verdadeiro voluntariado.

A propaganda só existe com a finalidade primeira de se vender algo. E a pergunta que fica é: se, de verdade, somos voluntários, qual é a razão da propaganda? O que queremos vender? A dor alheia ou a nossa sincera vontade e disposição de sermos bons e assim mostrarmos uma imagem politicamente correta?

Qual é a razão para este invadir de boas atitudes além de se mostrar e de abater o imposto de renda? São muitas as respostas.

Somos cegos da alma. Acreditamos no externo. Temos dificuldades de questionar porque não saberemos lidar com as respostas.

Aqueles que têm segundas intenções e se utilizam do voluntariado querem os louros de uma imagem construída sem ética e sem escrúpulos.

Como pode uma instituição financeira, por exemplo, ter várias causas sociais abraçadas na sociedade, e, ao mesmo tempo, sufocar esta mesma sociedade com juros abusivos? A extorsão fica em qual patamar? Como podemos acreditar numa empresa que abraçou uma causa social para ter o que mostrar no power point, mas ao mesmo tempo não conseguir construir lideranças sólidas e ambientes de confiança para seus colaboradores?

A solidariedade e o voluntariado verdadeiros não se mostram e não se envaidecem. A linguagem do voluntariado é a discrição, o anonimato, a servidão, a humildade. O verdadeiro voluntariado aproveita as forças dele para levantar o próximo e não para se apoiar nele para se elevar. Quem faz isto não é voluntário e nem de longe solidário.

Não somos produtos. Somos seres humanos. Não somos vendáveis. E, por consequência, nosso espírito de voluntariado e de solidariedade também não está à venda. Deveríamos ter liberdade para usá-lo quando assim achássemos apropriado. A solidariedade é sentida e não comprada, muito menos oprimida.  E aqueles que se vendem, seja por obrigação ou por opressão, infelizmente, receberão aplausos sobre um caminho falsamente construído.

Que sejam poucas as nossas ações ou até nenhuma, mas que haja veracidade. Mas se ainda queremos e buscamos aplausos, nos deslumbramos com os falsos elogios, e se ainda o próximo é visto por nós como escada para as nossas idealizações, o voluntariado, definitivamente, não é o nosso lugar.

Ser solidário e voluntário é mais que fazer companhia para um idoso, numa tarde de domingo, e depois da foto tirada com ele, colocá-la no instagram: é ser capaz de compreender a solidão que ele sente.

É mais que doar coisas dos nossos excessos. É ajudar a construir um possível caminho para que ele não tenha mais necessidades de pedir doações.

É mais que contar uma história para uma criança. É fazê-la compreender e se orgulhar da história dela.

Mostrar-se é desprezível e torpe. Confirmamos a nossa ausência de caráter e de escrúpulos, enfatizamos a dor do próximo. Colocamos luz sobre algo que ele quer apagar. Destacamos as necessidades e privações do outro, as misérias dele. Aquilo que tanto ele quer esconder, mostramos. Isto não é ajudar o próximo, mas sim se ajudar. De forma mesquinha e cruel. Somos tão pequenos que precisamos usar a fraqueza do outro para aumentarmos o nosso diminuto tamanho. É preciso conhecer outras formas de crescermos.

Ser voluntário e solidário é uma completa compreensão da dor alheia. É uma completa lucidez frente às misérias do próximo porque também entendemos e conhecemos as nossas misérias.

O mundo está cheio de falsos bons. Empresas que adoram abraçar causas sociais porque isto “pega bem”, porque isto mostra responsabilidade, mostra que esta empresa está preocupada com a dor alheia. Dor alheia?

Mas o imposto de renda destas pessoas agradece. O leão é sempre mais amigo de quem faz o bem. De coração, claro...

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, trazendo uma frase de Francis Bacon, um filósofo do século XVI, que diz:

Na caridade não há excesso.

Sábio ensinamento. Só nos falta o principal: aplicá-lo.

domingo, 17 de abril de 2016

A insistência como excelência

vídeo tirado da internet

Rimos, ao assistirmos a este filme. Realmente é divertido e, no mínimo, inusitado, ver uma porquinha lutando bravamente por um pote de biscoitos! Rimos por causa do inusitado, do improvável, da situação atípica. Mas quando paramos para observarmos a mensagem da entrelinha, o riso cai, um pouco, para segundo plano.

É assim em nossas vidas. O humor faz parte, ainda bem. Se ele não existisse, muitos caminhos ficariam mais difíceis do que já são ou, até mesmo, impossível de trilhá-los. O humor favorece o caminhar, mesmo que a duras penas. Mas é preciso reconhecer a hora de o riso se aquietar. As reflexões precisam de silêncio. O pensar exige um esvaziamento de falas e de barulhos. É preciso aquietar a mente para ouvir o que, de verdade, importa.

Observando a porquinha, me lembro de um pensamento de Henry Ford que diz: “há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam. ”

Sábio ele. Ninguém fracassa. Mas muitos desistem. O fracasso é relativo. Ele só será, de verdade, um fracasso, se pararmos no meio do caminho, no meio do trajeto de nossas buscas, no meio do trajeto de nossas descobertas. Mas se seguirmos viagem, independentemente dos empecilhos, talvez não consigamos alcançar o nosso pote de biscoitos, mas certamente estaremos mais próximos dele do que muitos que ficaram no meio do caminho.

E a porquinha não desistiu. Isto a fez mais forte e mais confiante. Seus planos e estratégia foram estudados e executados, apesar dos divertidos exageros. E ao final, mesmo não tendo conseguido saborear os deliciosos biscoitos, pelo menos por enquanto, ela atingiu um patamar que poucos atingem: o patamar de saber que se é capaz. O patamar de saber que se pode ir, que o objetivo é possível de ser alcançado.

Porém, este patamar só é ocupado por aqueles que não desistem. O patamar do real, do possível, precisa ser construído. E o não desistir é o principal ingrediente. O caminho desenhado só existe quando pegamos caneta e papel para desenhá-lo. E nem me venha com o tablet nestas horas! Os riscados prontos e a frieza dele não podem substituir a destreza da mão que desenha o caminho que se quer.

Deixa o tablet para os arremates. Quando estamos na fase dos arremates, a obra já pode ser vista, mesmo inacabada. Aí sim o tablet deve ser usado. Aliás, o seu está carregado? Ele não funciona com o pensar. Ele funciona se for colocado na tomada, algo que fazemos de forma mecânica e sem pensar. Ah, puxa, está descarregado? Não tem problema. Basta colocá-lo na tomada. Assim que ele acusar “100%”, você poderá tirar a tomada. Que prático, não?

Ainda bem que nem sempre a praticidade resolve os nossos problemas. Imagine colocar os nossos cérebros nas tomadas? Nosso pensar no carregador? O difícil será se nos esquecermos de nossos carregadores em nossas casas. Mas isto foi só um devaneio...estamos longe disto...pelo menos até a semana que vem.

O plano desenhado pela porquinha põe em prática tudo o que os pensadores de universidades renomadas e influentes dizem e escrevem em seus rebuscados artigos.  A personagem do nosso vídeo talvez não tenha uma formação acadêmica de ponta, como se diz por aí, mas certamente ela tem o principal: a sede pela busca. A sede pela luta. A sede pelo inconformismo. A sede pela sabedoria. A sede pelo acreditar que se pode. Coisas que talvez estes renomados destas renomadas universidades não têm. Aliás desconfio de que muitos destes, espalhados pelo mundo das aparências, vivem uma espécie de excesso de adaptabilidade. Aquele que é excessivamente adaptado não questiona, não critica, não busca...desiste. Acha tudo normal. Afinal, ou a coisa não é com ele ou acha-se incapaz.

Acredito que isto seja algo em que se pensar.

Tenho verdadeiro horror quando ouço alguém dizer, principalmente em programas de televisão, que determinada pessoa é autoridade no assunto. Como assim, autoridade no assunto? Fulano de tal é autoridade em gestão de pessoas, Beltrano é autoridade em liderança, Sicrano é autoridade em desenvolvimento de projetos...

Autoridade em liderança? O fato de sermos estudiosos sobre Liderança não nos faz Líderes. O fato de sermos estudiosos sobre desenvolvimento de projetos não significa que todos os nossos projetos terão sucesso. Então, quem deu autoridade a eles de se intitularem “autoridades”? Quem, de verdade, conhece, não precisa do título de autoridade. O título não o representa, mas sim o espaço para fazer a vida do outro melhor, por meio do servir.

Fazendo uma leitura das etapas desenvolvidas e realizadas pela personagem, muitos livros rebuscados sobre métodos e ferramentas organizacionais são postos em xeque. Livros complexos que só servem para falarem mais do mesmo e para darem nomes distintos a coisas iguais. Somente desta forma, talvez, eles consigam participar de uma sociedade que vive ávida por fórmulas mágicas e métodos que só nos livros funcionam.

Ela realizou etapas e passos fundamentais na realidade de quem é um especialista em não desistir:

1) conhecia-se e sabia seus desejos e vontades. Conhecia o seu objetivo. Sabia aonde queria chegar. Tinha uma missão clara e assertiva;

2) seus passos, apesar de exagerados, foram compatíveis com o objetivo: foco x visão. Sabia onde estava e aonde queria chegar;

3) mapeou seus riscos e oportunidades. Como valia a pena, confiou e partiu para a ação;

4) teve foco o tempo todo e não teve medo de assumir riscos. O medo não a paralisou e sabia que o risco seria inerente ao processo;

5) não se culpou pelos erros e não ficou procurando culpados para as suas frustrações. Investiu seu tempo e sua energia na criação de estratégias para atingir o objetivo;

6) mapeou os seus stakeholders, ou seja, todos aqueles a quem poderia recorrer para ajudá-la, assim como aqueles que poderiam atrapalhá-la;

7) teve prontidão: não adiou para amanhã sua busca pelos biscoitos. A oportunidade surgiu hoje e ela estava pronta. Estar pronto é essencial para uma vida de excelência;

8) e fez o principal: não desistiu e não responsabilizou terceiros por sua suposta derrota. Isto a fez se diferenciar dos demais.

Penso que estes deveriam ser os comportamentos a serem analisados pelos Líderes, em todos os momentos de convivência com colaboradores e pares. Todos nós deveríamos ser reconhecidos por causa destes comportamentos, e não somente pela entrega. O não desistir deveria ser mais valorizado que a entrega. A entrega, em si, é pontual, perecível e até questionada. Mas o ato de não desistir é que faz de um indivíduo, seja colaborador ou não, um vencedor, uma pessoa que não se curva diante às dificuldades, diante aos nãos que a vida traz.

Isto sim deveria ser visto com mais cuidado numa avaliação, e não supervalorizar aquele que mais faz marketing de si. Lembrando que uma das funções do marketing é criar necessidades desnecessárias e nos fazer acreditar no ilusório, no supérfluo, no tangível, no perecível. Ou alguém já viu alguma propaganda nos induzindo a comprar um produto que nos transformará em éticos e responsáveis? Poderia ter, mas não sei se venderia...

Quem faz marketing de si é porque desistiu de si. Eu não preciso fazer propaganda de mim. Minha obra deverá ser a minha propaganda. Simples assim.

Claro que é importante saber a hora de parar, a hora de nos darmos por satisfeitos. Porém, não por acomodação e desistência, mais sim por excelência, por inteligência. Aquele que carrega a excelência dentro de si sabe o momento de parar. Mas não porque alguém pediu, mas porque ele assumiu o risco de parar. Sem culpas. Sem discursos. Sem demoras.

Desistir é uma forma de não existir. E existir significa “ex-sistere", ex (negação, fora, sair) e sistere (estar em pé, fora de). Ou seja, para existirmos, precisamos sair de nós para nos enxergarmos, para nos ver. Por isto, ter um espelho em casa pode ser um exercício revelador de percepção...

Somente podemos dizer que nos conhecemos quando nos distanciamos de nós. Somente desta forma poderemos nos enxergar e, assim, existirmos. Quando desistimos, deixamos de fazer este processo, de irmos para fora para nos ver, perdemos uma excelente oportunidade de nos conhecermos e de irmos mais longe.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase que sempre ouvi durante a minha vida. Uma frase que sempre me acompanhou apesar de eu não saber o autor. A frase diz: “nunca permita que aqueles que não sabem ou não aprenderam sonhar te façam desistir dos teus sonhos”.

Sábio quem disse isto. E aliás, a palavra “sábio” vem de “sapiens”, que deriva de “sapere” (saborear, ter entendimento). E o que é a vida senão esta busca pelo não desistir e pelo compreender o que, ainda, nos é incompreensível? Aquele que entra, de verdade, em contato com as coisas se torna sábio porque saboreia, experimenta, vive. Aquele que não tem medo, que não desiste, se torna sábio.

Portanto, só aquele que sonha e não desiste, pode dizer que vive.

domingo, 10 de abril de 2016

O não saber é uma forma de saber

São tantas coisas para aprender, para conhecer, para saber.

Às vezes, a gente acha que sabe. E depois, logo ali, descobrimos que não sabemos. E o pior: descobrimos que não sabemos por meio de uma pessoa que talvez saiba menos do que a gente. Irônico, não? Mas é assim.

São tantas coisas para darmos conta, que não fazemos mais contas. Muitos as fazem de cabeça; mas outros ainda não sabem que podem fazê-las de cabeça. E outros estão tentando ainda entender como se faz uma conta, que dirá de cabeça...

Às vezes, a gente se perde na nossa conta. Conta de coisas contáveis e conta de coisas incontáveis. Coisas tangíveis e coisas intangíveis. E se esquecermos de contá-las? Com os tangíveis não corremos este risco. Porém com os intangíveis, estes sim merecem uma especial atenção. Passam despercebidos, quietos, inexpressivos. Talvez eles devessem estar contemplados em contas específicas. Desta forma, não nos esqueceríamos deles. Mas enfim, são tantas as contas para darmos conta, que esta acaba sendo só mais uma...

Será que teremos tempo para darmos conta de tudo? Talvez. O problema do talvez é que ele tenta ser amigo dos dois lados: do sim e do não. Ele deveria escolher um lado. Mas não. Fica ali e lá, aqui e acolá, à esquerda e à direita, só reforçando nossas dúvidas. Ele indica tendência e possibilidade, mas sem nos dar certeza alguma.

O talvez nos coloca como participantes de um jogo de xadrez: pensamos, estudamos a próxima jogada, observamos a jogada do outro, vamos em busca de uma nitidez de movimento de peças sem nos darmos conta da nossa estupidez. Nitidez de movimento? Que nitidez? O que sabemos sobre isto? A mesquinhez de nossos passos quando não nos damos conta de um vasto caminho que se mostra a nossa frente. A nitidez da jogada que buscamos somente será encontrada mediante erros cometidos por causa de nossa pequenez.

Nossos erros nos fazem grandes se tivermos a coragem de trilhá-los e de assumi-los.

Nossas dúvidas são somente caminhos de certezas não ouvidas.

Dúvidas são certezas analisadas.

Quando ouvimos as dúvidas elas mudam de lugar. Vão para o campo das certezas. Saem da pequenez. Mas é preciso ouvi-las.

Escuridão. Densidão. Só depois da escuridão é que o dia começa a clarear.

Da forma inconstante surge a forma. Mas é preciso acreditar nela, mesmo que, aparentemente, disforme. Quem falou que ela está fora do padrão?

Da ausência do que nunca foi dito surgem os silêncios que constroem. Mas é preciso ouvi-los.

Da aparente lucidez surge a escuridão que traz à tona o falso e o palco.

Este palco cujo piso foi inaugurado pelos vaidosos. E os outros? Os outros vivem. Eles não precisam do palco para se sentirem vivos.

O barulho que ocupa o lugar deixado pelo silêncio cansado.

O aposento que se aposentou porque deixou de existir.

O sol que chegou à noite porque se atrasou conversando com a lua.

A contradição absolutamente correta porque o mundo é desigual. Aliás, não o mundo, mas sim nós. Isto. Nós somos desiguais. Não o mundo.

Injustiça? Somente para quem convive com ela. Quem não convive, certamente nunca a conheceu, nem num dicionário.

Quem atravessou a rua perde grande parte da visão ou brinca de faz-de-contas. Assim fica mais fácil.

Da anestesia dos nossos tempos. Foi-se o tempo em que anestesiar era tomar uma injeção para não sentir dor. Estamos anestesiados frente à dor alheia porque também já não a sentimos em nós. São tantas dores que elas próprias se perdem dentro de nós. Quando as dores são muitas, anestesiar pode ser um forte aliado. Mas tomamos demais deste tal remédio, porque a dor, além de anestesiada está banalizada.

Hoje morreram muitos num conflito aqui, ontem uma pessoa morreu lá, anteontem foi lá não sei onde. E assim vamos. Para onde? Não sei. Mais uma coisa para nos darmos conta. Não sei se isto também está naquela conta lá de cima. Deveria. Mas não sei se está. De qualquer forma, se esquecermos de colocar o custo da anestesia também na nossa conta, alguém a enviará para nós. Estejamos certos.

Vivemos como se nunca fôssemos ser descobertos.

A hipocrisia que sustenta a alienação das mentes. Esta é outra conta que virá alta, bem alta.

Mentes que mentem.

Mentes que matam.

Mentes que mandam.

Mas quem se importa? Só os que têm mentes verdadeiras, mas que agora choram.

A sujeira que a luz traz, mas que precisa ser limpa.

O limpo aguarda a sua chance. Enquanto isto, ele vai se sujando. É uma pena. Mas se olharmos com olhos atentos, encontraremos partes ainda limpas. Mas é preciso apressar o passo.

Um peso e duas medidas. Ainda se usa este ditado? O desuso é atual.

Pesos desiguais, medidas também. Mas quem toma conta disto? Desculpe, a balança está no conserto...está quebrada há tempos...venceu o prazo. Ninguém foi pegá-la. E o dono vendeu a balança para pagar o conserto... é uma pena.

A fila é grande, mas a senha foi entregue. Poucas. Mas foram entregues. Já é um começo.

Não reclame: muitos nem senha conseguiram! Você teve sorte! Viu como valeu a pena dormir dois dias na fila e tomar chuva?

A paciência que não espera mais. Nem ela teve paciência.

O grito sufocado que liberta a voz que cala. Que de tão calada, nem se lembrava mais que podia falar. E falou. E falou. E falou.

Alguém nos ensina a gritar de novo, por favor?

Os pés caminham por direções tortas.

Alguém sabe o caminho?

Só os rios sabem o caminho. Mas quem os ouve com este silêncio desconcertante?

O silêncio angustia. Fale alguma coisa, por favor. Nem que seja para discordar do que digo. Ninguém vai notar. Que diferença isto faz? Ninguém quer saber a sua opinião mesmo. O que importa é parecer que falou, parecer que pensou, parecer que entendeu, parecer que dançou, parecer que viveu...

E quando você se der conta disto, será preciso recomeçar... E com as contas sobre os ombros.

O silêncio não nos representa. O falar sem parar sim.

Queremos as luzes da ribalta, o palco do palhaço, os aplausos do artista, os confetes do carnaval. Mas não a ribalta que apresenta, mas a que ostenta; não o palco do palhaço que chora a dor conhecida, mas o que ri sem sentido; não o aplauso sincero, mas o que corrói a alma e empobrece o encanto; não os confetes que brincam, mas os que mostram a nossa pobreza moral que de tão fraca se despedaçou na avenida.

Acendam as luzes! A dor tira as suas máscaras!

Por que a inteligência é obrigada a ceder o seu lugar à ignorância? Por que a educação não tem voz? Por que não queremos sair do anonimato da dor?

Nossos silêncios deveriam nos construir. Nossas lacunas deveriam ter seus espaços respeitados. Mas tudo está ocupado porque nossa conveniência condena a nossa expansão.

Nossos silêncios e nossas lacunas nos incomodam. Acabamos de tomar um remedinho para curar tudo isto. A medicalização daquilo que é natural tem sido o norte da nossa sociedade. Deveríamos sentir os nossos silêncios. Viver as nossas lacunas. Mas tomar um remédio é mais fácil, não é? Ainda mais com tantos médicos dispostos a nos ajudar com isto.

Somos seres com espinhos, muitos espinhos. Mas são eles que criam a espinha dorsal da vida de sentido, sem beatices. Mas os espinhos machucam. Isolamo-nos por conta deles.

A convivência que tem sido substituída pela conveniência. Alguém já acessou o whatsapp hoje?

O abandono de nossas ideias e de nossos ideais em nome da submissão, da anulação e da bajulação.

São tantas as contas...

Quero concluir este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, que diz:

“Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências. ”

Bela provocação. Num mundo impregnado pela cultura do fast, aceitar a dúvida e a experiência, o não saber e o caminhar, são, no mínimo, exercícios para um redescobrimento da vida e de seu real valor.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

OIBNLTIAR

Perder-se ou reencontrar-se? Não sei. Podem ser as duas coisas. Perder-se e reencontrar-se são as duas possibilidades de um labirinto. Não vejo meio termo. Ora perdemos. Ora reencontramos aquilo que perdemos. Ora descobrimos que não perdemos coisa alguma. Estava tudo lá, só espiando o nosso desespero.

Ficamos confusos num labirinto, refazemos caminhos, passamos pelos mesmos lugares e uma sensação de incompetência, ineficiência e perda de tempo toma conta da gente. Tudo parece igual. Tudo parece confuso e embaralhado, como o título deste texto.

imagem tirada da internet

Quando eu era criança, um dos meus passeios preferidos era visitar a Cidade das Crianças, que inclusive ainda existe. Meus pais levavam a mim e a minha irmã e nos divertíamos muito.

Numa destas vezes, um brinquedo me chamou a atenção: o labirinto. Meu pai, então, comprou os ingressos e fomos todos.

Ao entrar ali, cada um foi para um lado (meus pais, minha irmã e eu) e a brincadeira começou: cabeçadas nos espelhos, tropeços, risadas e certas aflições porque não conseguíamos nos reencontrar, muito menos acharmos a saída. Uma sensação divertida e aflitiva, ao mesmo tempo. Mas como a ideia lá era diversão, aquilo não me assustou.

Porém, muito próxima a mim, uma criança começou a chorar e a dizer que não queria “mais brincar”, “que queria sair dali”.

O responsável pelo local foi até a criança, pediu que se acalmasse, que seus pais já chegariam. E assim aconteceu.

O tempo passou. E quando se é criança, muitas reflexões ficam à espera de oportunidades para serem discutidas e debatidas. E com esta não seria diferente: durante muito tempo não pensei sobre isto. Mas com o passar do tempo e com a chegada da maturidade, estas experiências vão tomando forma e reivindicando o seu direito à expressão. Por isto, acredito, surgiu a ideia deste texto.

Fazendo um passeio pela História, vamos encontrar diversas informações sobre a origem dos labirintos. São, de fato, muito antigos, desde a época das cavernas. Segundo consta nos livros, o primeiro labirinto foi construído por um arquiteto grego chamado Dédalo, na ilha de Creta, a pedido do Rei Minos. Na Mitologia, este Rei queria prender, no labirinto, um monstro que levava o nome de Minotauro, cujo corpo era metade homem e metade touro. Todos que tentassem entrar no labirinto, morriam. Exceto Teseu, um jovem heroi que consegue escapar do labirinto graças a filha de Minos, Ariadne, que dá ao jovem um fio de lã de um novelo.

Fantasias à parte, a Mitologia é imprescindível para aguçarmos os nossos olhos e ouvidos e observarmos o que a vida quer e tem a nos dizer. Mas é preciso ter atenção.

Esta história nos mostra, acredito, que nem sempre terá alguém do lado de fora, no caso o labirinto, nos dando a mão ou um fio de lã. Vamos até torcer para que ele venha, mas ele não virá. Ou até terá uma mão do lado de fora tentando nos ajudar, mas como esta mão talvez não seja da filha do rei, talvez a entrada dela ou a ajuda dela não nos seja autorizada. E aí precisaremos buscar as saídas por nós mesmos. Mas e se chorarmos pedindo a presença de nossos pais lá dentro? Ficaria inconveniente, você não acha?

A palavra labirinto, do grego, “labyrinthos”, significa “prédio com passagens complicadas”. Também origina-se de “labrys”, ou seja, “machado de dois gumes”, sendo este machado o símbolo real de Creta, lugar cujo Mito aconteceu, como contei acima.

Este “prédio com passagens complicadas”, no decorrer da História, também foi a intenção dos criadores dos labirintos, cuja finalidade era atrapalhar o avanço de tropas inimigas, dificultar a fuga de alguém ou, até mesmo, esconder algum tesouro. Ou seja, os labirintos tinham uma razão de existirem. Arrisco a dizer que é assim até hoje. E conhecemos bem estes labirintos.

E sobre os nossos labirintos?

- aqueles nos quais nos colocamos sem querer ou por querer;

- aqueles nos quais nos colocamos para bucarmos perder algo, sem a mínima necessidade. Afinal, quando estamos perdidos alguém sempre toma conta da gente e facilita, bem, o nosso trabalho;

- aqueles nos quais nos colocamos por puro medo de nos reencontrar, de nos entregar aos nossos sonhos e à nossa essência;

- aqueles nos quais nos colocamos por achar que precisamos sofrer. A propósito, o sofrimento precisa ser vivido, ser falado, ser elaborado. Caso contrário ele se tornará uma angústia. Mas é preciso fazer tudo isto apenas quando ele chegar e não ficar procurando por ele a vida toda, certo? Como se a felicidade fosse uma afronta à nossa realidade e ao nosso merecimento.

Enfim, certamente cada um de nós tem uma história para contar a respeito.

O labirinto existe para deixar a nossa visão turva, nos atrapalhar no avançar, nos fazer não acreditar na gente. Este é o papel dele. Ele está ali para nos testar. Mas ao mesmo tempo, por causa do espelho, nos obriga a nos olhar. Não há como estar num labirinto e não se olhar. Mas para funcionar deverá ser um olhar sincero e não um olhar que seja produto de uma selfie. Este não conta. Afinal estamos sempre bem neste...

O labirinto existe para nos distanciar do objetivo. Ele é um excelente comparsa porque enquanto estivermos presos nele, teremos quem culpar por nossa inércia. Ele acolhe as nossas pequenezas. Mas ao mesmo tempo nos expõe e, no meio de tantos espelhos, não há como não nos incomodarmos com tantas evidências.

O labirinto está com a porta aberta, mas é preciso encontrá-la. Ou melhor, querer encontrá-la. É bom estar nele para que possamos, depois, ter um reencontro conosco. Só valorizamos o reencontro quando passamos pela experiência da perda ou quando, no mínimo, sabemos o que isto significa. Isto é a vida. Só sabemos o que é a felicidade, pelo menos um pouco, porque já estivemos infelizes em algum momento.

Os contrastes nos constroem e nos dizem quem verdadeiramente somos. Como falar da fome de barriga cheia?

Estar num labirinto é uma experiência libertadora porque sabemos que saíremos melhores. É preciso saber andar por todos os corredores de espelhos e viver aquela experiência. Mas também é preciso saber a hora de buscar a saída, a hora de dizer “não quero mais brincar disto”, como disse aquela criança, naquela dia.

Simone de Beauvoir, escritora francesa, brilhante em seus escritos, tem um pensamento que gostaria de compartilhar aqui, neste texto cheio de espelhos. O pensamento diz assim:

“Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

Penso que para atingirmos esta liberdade que tão lindamente Simone de Beauvoir coloca, somente se nos responsabilizarmos por nossos labirintos, segurarmos bem o ticket de entrada (porque ele será necessário), mas, ao estarmos lá dentro, já observarmos a seta indicando a saída. Sem pressa para sair de lá porque será preciso experimentar todo o labirinto e vivê-lo, mas por que ficar ali dentro mais tempo que o necessário? Viva, e quando achar que deve, saia. E saia rápido antes que alguém da fila te puxe para dentro, novamente.

A seta da saída existe. Ela está lá. Mas é preciso enxergá-la entre os espelhos. Procure-a.

A saída poderá estar na forma de um fio de lã ou escrita na parede, mesmo, que enxergaremos sozinhos por causa de nossa visão que foi limpa enquanto caminhávamos naqueles imensos corredores do labirinto. O caminho é exaustivo, mas a chegada é recompensadora.

Que todos nós possamos nos reencontrar por meio dos labirintos que a vida nos impõe. E nos reencontrando, reconheceremos, no nosso próximo, um merecedor de um pedaço de um fio de lã, mesmo que não sejamos a filha do Rei...