segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Temos mais que bananas

Bem mais, aliás.  Apesar de todo o respeito que as bananas merecem, aqui há mais coisas. Mas parece que aquele nadador americano, que inventou ter sido assaltado durante as Olimpíadas, no Rio, não sabia disto. Ser mal informado na vida tem os seus custos. E a conta dele foi um pouquinho alta. Bem feito para ele. E sorte a nossa.

Bem feito para ele porque foi uma dura lição. Aprendeu, a duras penas, que tentar manipular o que quer que seja, nesta vida, é muito perigoso. Ele acreditou que pudesse manipular a bagunça que ele havia criado, a favor dele. E viu que não foi possível. Acreditou que pudesse manipular as aparências, mas a realidade prevaleceu.

E sorte a nossa porque, por meio deste triste acontecimento, pudemos agir de forma profissional, ética e justa. Nossa Justiça não manipulou aparências, mas trabalhou de forma autêntica e verdadeira. Assumiu uma postura firme, rápida e eficiente. Simples assim.

Aquele nadador quis colocar, literalmente, nas nossas costas, a culpa das irresponsabilidades dele. Aprontou durante a noite carioca e, depois, percebendo que poderia comprometer sua imagem, devido às algazarras realizadas, não pensou duas vezes: inventou uma história dizendo que tinha sido vítima de assalto. Disse ainda que tinha sido constrangido pela nossa polícia. E que por causa disto tinha chegado de madrugada.

Porém, o que ele não contava era que desconfiaríamos daquela história mal contada por ele mesmo, com requintes de exageros e de molecagem. Ele também não contava que praticamente toda a cidade estava rodeada de câmeras de segurança e que, portanto, as imagens de todo o seu trajeto estariam, rapidamente, nas mãos dos investigadores. A polícia, de forma integrada, conseguiu rapidamente mapear o que havida acontecido. E para piorar a situação dos farsantes, algumas testemunhas colaboraram com os policiais e a verdade veio à tona. Pois é, temos mais que bananas aqui.

Tudo esclarecido. Ao mesmo tempo, muito triste. Nada disto era necessário. Alguém, de caráter duvidoso como aquele rapaz, resolveu colocar na nossa conta mais uma culpa. Mas esta nós não tínhamos. Graças, enfim.

Percebendo, rapidamente, que podia ser desmascarado, o rapaz tentou voar imediatamente para os Estados Unidos. Mas, ainda dentro do avião, foi convidado, gentilmente, a se retirar para prestar esclarecimentos na delegacia.

Pois é, seria bom que aquele rapaz soubesse que aqui há mais que bananas, muito mais.

O triste de tudo isto é saber que se aquele rapaz fez o que fez foi porque acreditou que aqui não haveria punição. Que aqui, um País subdesenvolvido, violento e cheio de problemas, um a mais um a menos. Que diferença faria, não é mesmo? Ele apostou nisto. Mas o tiro saiu pela culatra. Não que ele não tivesse razão em pensar que somos violentos e cheio de problemas.  Infelizmente isto ainda é a nossa realidade. Mas daí a agir sem escrúpulos e sem caráter, fico me perguntando quem é o mais subdesenvolvido: nós, enquanto Nação, ou ele, enquanto ser humano? Queria fazer esta pergunta a ele, mas acho que não terei oportunidade...

Se a história teve o seu lado triste, a degradação do humano, teve, também, o seu lado feliz. O de percebermos que temos condições de agir, de fazer, de atuar, de colocar as coisas nos seus devidos lugares e eixos. Não somos um entra-e-sai sem ordem e sem norte. Temos uma rota, sabemos o caminho e o melhor: temos as ferramentas para trilharmos esta rota. Basta que queiramos trilhá-la, assim como fizemos com este caso.

Sabendo que não tinha saída, ele pediu desculpas “informais” ao Brasil, por meio das redes sociais. Pagou uma multa e foi embora. Mas a história ainda não tinha sido concluída. A juíza responsável, por meio de nota oficial à imprensa, inclusive internacional, despachou tudo o que havia acontecido, com os detalhes daquela história amadora criada por outro amador.

No texto ela disse que o país de origem do rapaz tomaria ciência de todo o ocorrido, para que tudo ficasse esclarecido. E a multa fixada por esta mesma juíza foi destinada a uma casa assistencial. Belo exemplo de cidadania utilizando o dinheiro de um impostor!

Importante lembrar que até tudo ficar esclarecido, a imprensa americana apoiava o esportista-amador, e nem estava se preocupando muito com o interesse que o Brasil tinha em esclarecer tudo. Um repórter de lá, tinha que ser, disse: “não sei porque tamanha repercussão. Lá (Brasil) é perigoso mesmo! É normal este tipo de coisa acontecer por lá (assalto) ”. O interessante é que eles falam isto como se fossem a referência da Paz mundial.

“Que atirem a primeira pedra”...já dizia Jesus há mais de 2000 anos...

Mas tudo bem, a vida ensina. Mesmo àqueles que não querem aprender.

Foi somente depois de tudo esclarecido que os Estados Unidos, com um misto de surpresa e de vergonha alheia pelo o que aquele rapaz havia feito, que se redimiram diante às câmeras e pediram desculpas ao Brasil dizendo ter sido abominável o comportamento do aprendiz de nadador.

Tudo esclarecido: fatos postos sobre a mesa. De um lado, aquele pseudonadador aprendeu que toda ação tem consequências. E que muitas vezes, estas consequências são bem diferentes das esperadas e que resultam no enfraquecimento de sua personalidade. Ele perdeu quatro contratos com patrocinadores. Uma vergonha. Uma lição dura que jamais ele se esquecerá. Percebeu, também, que por mais difícil que seja, é mais fácil assumir, de forma autêntica, nossa personalidade do que construí-la sem poder sustentá-la.

E do outro lado, também aprendemos uma dura lição: o quanto é difícil ter de conviver com pessoas que cometem atos para tripudiar sobre aqueles que já possuem problemas demais para serem resolvidos: no caso, nós. Mas também aprendemos que temos condições de mudar este cenário se quisermos. Está em nossas mãos.

Aquele nadador talvez tenha tido privilégios cedo demais na vida. Muito antes de ter tido responsabilidades. E isto é uma reflexão para levarmos para as nossas vidas. Importante aprendermos com os erros dos outros para que não sejamos os próximos a cometê-los.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provação de Confúcio, pensador e filósofo chinês, que viveu há 500 anos antes de Cristo:

“O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros. ”

Que possamos aproveitar nossos próprios exemplos de homens comuns que somos. E que eles nos sirvam de pontes para buscarmos nossa superioridade moral.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Nossa saudade nostálgica

Há poucos dias terminaram os jogos olímpicos. Foram dias intensos, cheios de notícias e de atividades. Uma correria boa para conseguir assistir aos jogos e nenhum descanso para o controle remoto da televisão. Dias de pouco sono. Tudo isto para que conseguíssemos dar conta de tudo e de todas as atividades.

Ao final destas duas semanas, ficamos com um gostinho de quero mais. De repente, no dia seguinte às Olimpíadas, demos de cara com reprises de disputas já vividas, cujo resultado já sabíamos. E aí o controle remoto começou a desfrutar de seu merecido descanso.

Algumas horas antes do término do evento, no domingo, tanto o público quanto os profissionais que cobriram os jogos começaram a ficar saudosos. Uma vontade, com explicação, para que aquele evento não terminasse, para que aquelas horas finais ao término se arrastassem o máximo possível.

Nossa saudade nostálgica. Esta talvez seja a explicação para o sentimento que tenha ficado em nós: uma saudade nostálgica.

Apesar da saudade inicial que sentimos ao ver o término dos jogos, porque queríamos mais, acredito que nossa saudade foi dando um forte espaço para a nostalgia, palavra esta que não tem absolutamente nada a ver com a primeira, saudade. Ficamos saudosos num primeiro momento, mas nostálgicos depois. E este foi o sentimento que tomou conta.

Sentimos saudades, mas nos tornamos nostálgicos. Por quê?

Saudade é saudável. Nutre a nossa alma e a nossa vida. Saudade nos move e nos conduz porque nos faz refletir sobre a nossa vida. Faz-nos refletir sobre quem somos. Certamente somos pessoas melhores por sentirmos saudades e por fazermos estas reflexões provocadas por ela. E estas reflexões nos tornam autônomos enquanto seres, acima de tudo. Sabemos o que queremos. Sabemos o que sentimos.

Sentir saudade é ação. É um querer. É um buscar. É um valorizar. A saudade nos faz felizes com a vida que temos, nem mais e nem menos. Como ela está. Sentir saudade significa que vale a pena viver a vida. Significa que há vida para ser vivida.

A saudade faz parte de quem somos. Ela ajuda a contar a nossa história.

A nostalgia, no entanto, é o contrário da saudade: nos faz parar no tempo.  Faz-nos querer viver num tempo que não se tem mais. É patológico. Sinaliza uma cegueira da alma. É um aprisionamento voluntário.

A saudade faz parte de quem somos e de quem gostamos e queremos ser. A nostalgia faz parte de quem gostaríamos de ser e de quem não gostamos de ser.

Na saudade, a base é a vitória. Na nostalgia, a base é a derrota.

Sentir saudade nos faz viver. Sentir nostalgia nos faz abrir mão, desistir.

A saudade nos remete à realização. A nostalgia nos remete à eterna promessa.

A primeira nos completa. A segunda nos incompleta.

Uma está ligada à lucidez. A outra à alienação.

Paulo Freire, um Educador imprescindível à liberdade do pensar, dizia que “o ser alienado não procura um mundo autêntico. E é isto o que provoca uma nostalgia: a alienação. Deseja outro país e lamenta ter nascido no seu, por exemplo. Envergonha-se de sua realidade. ”

Dizia, ainda, que “a alienação nos tira de nossa condição de existir. Uma sociedade alienada não se conhece. ”

Paulo Freire tinha pensamentos fortes que provocavam profundas reflexões. E o que ele trouxe, com sua “nostalgia ligada à alienação” foi o que vivemos um pouco ao final dos jogos olímpicos. Antes do evento, estávamos mergulhados em Lava-Jato, estouros de escândalos de corrupção de todos os níveis, acordos de delações premiadas, processo de impeachment, mandados de segurança por toda parte, inflação nas alturas, pedidos de condução coercitiva tão frequentes que pareciam brigadeiros em festa...tudo isto sem contar os outros problemas do País que, ao lado da operação Lava-Jato, ficam pequenos e recolhem-se redimidos. Mas de pequenos não têm nada. Estes são alguns dos exemplos. Mas se pesquisarmos, haverá mais.

Não que as Olimpíadas fossem resolver os nossos problemas. Óbvio que não. Mas de certa maneira nos fizeram, pelos menos nestas duas semanas, dar uma respirada, uma parada para uma água. Sabemos dos problemas. Mas respiramos um pouquinho.

Por tudo isto, acredito que esta “tristeza” que se abateu sobre nós, esta nostalgia, foi por conta desta falta que nos faz este clima de festa, de ordem, de harmonia, de sorrisos e de gente feliz. Nestas duas semanas, ouvimos outras coisas além de protestos e operação Lava-Jato. Protestar e investigar são fundamentais. Mas é preciso parar para respirar um pouco. E as Olimpíadas fizeram isto um pouco conosco: nos fizeram respirar e desacelerar um pouco. Cumpriram muito bem o seu papel.

Óbvio, também, que elas ofuscaram muitos problemas. Há os dois lados: tanto nos trouxeram momentos muito festivos como também cerraram os nossos olhos para várias barbaridades cometidas. Mas enfim, o evento, em si, e os atletas não são responsáveis. Eles merecem respeito, assim como nós também o merecemos.

Não sei se estamos mais saudosos ou nostálgicos, na vida. Não tenho esta resposta. O meu desejo é que estejamos sempre mais para saudosos do que para nostálgicos. Cabe a cada um buscar seu autoconhecimento, fundamental para uma vida mais feliz.  Mas certamente, nestas Olimpíadas, o nosso lado nostálgico falou mais alto. Não queríamos voltar para a programação normal da televisão falando sobre o que já sabíamos.

Ver as inúmeras operações deflagradas pela Polícia Federal tomarem conta dos canais onde estavam sendo exibidas competições emocionantes era, no mínimo, desanimador. Por isto a palavra “nostalgia” nos representou tão bem ao final dos Jogos. Durante as Olimpíadas, vivemos um pouco da harmonia que gostaríamos que houvesse sempre no nosso País. Pessoas leves, sorridentes e felizes o tempo todo seria a nossa escolha. O País estava festejando, apesar dos problemas que apenas aguardavam o passar dos jogos para voltarem à cena. E, como sabíamos que ver o nosso País festejando, nem sempre é possível, ficamos nostálgicos. Começamos a nos apegar aos jogos, antes mesmo de eles encerrarem.

Quero finalizar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Millôr Fernandes, escritor brasileiro, que diz:

“Neste momento, de repente, me bate a nostalgia do que um dia se chamou de Pátria. ”

Pois é, que este sentimento de harmonia, vivido entre os povos, esta sensação de alegria e de bem-estar, este sorriso leve e presente possam cada vez mais estarem presentes em nossas vidas. Pois se nas Olimpíadas isto foi possível, fora delas também será. Está nas nossas mãos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Vaias não são apenas vaias

imagem tirada da internet

Na semana passada, numa competição de esgrima, uma atleta brasileira lutava com uma francesa, nas Olimpíadas do Rio.

Durante a luta, ouve-se uma vaia do público: “Fura ela”. Em outras lutas também foram ouvidas vaias como “aqui é favela”, “se não der com a espada, vai com a faca mesmo”.

Vaiar, no sentido geral, é dizer, por meio de um barulho ensurdecedor, que não gostamos de alguma coisa, pessoa, atitude. Que não concordamos com determinadas situações.

Uma forma de protesto. Uma forma de expressão. Um traço cultural.

No lugar de vaias, nossa forma de protestar poderia ser a argumentação, o propósito e o ideal. Sem gritarias. Sem barulhos. Mas sim com silêncio, foco e determinação. Porém, ainda precisamos das vaias como representantes de nossos discursos, de nossos enunciados. O barulho ainda faz parte para que possamos ser ouvidos.

Quando trazemos o assunto para o esporte, a vaia toma proporções exageradas. Bem exageradas. Toma outro rumo de conversa. Saímos do escopo somente da expressão e do protesto. Tratamos o adversário como inimigo. Não somos capazes, pelo menos não temos sido, de simplesmente torcer por nossos atletas e respeitar o outro que disputa a mesma competição. Não somos capazes de valorizar este momento e o talento alheio.

Quando colocamos a nossa atenção no melhor do outro, sem querer destruí-lo, uma excelente oportunidade de melhorar as nossas marcas pessoais surge em nossas experiências.

Se o adversário não existisse, qual o sentido da competição? Ainda não somos uma sociedade de  cooperação, mas sim de competição. Portanto, ela ainda faz sentido desde que pautada na ética e no respeito. E respeitar o adversário é dar o melhor de nós, seja como competidores ou como expectadores.

Como competidores, estamos dando o nosso melhor. É visível. Porém, como expectadores, nem sempre. Muitos aplaudem e respeitam o trabalho do adversário. Mas, infelizmente, outros não. A falta de educação, em todos os níveis, ainda é fortemente presente na nossa sociedade. E no caso, agora, nas arquibancadas dos estádios.

Há limite entre o que pode ser dito x saber a hora de se calar? Há diferença entre torcida x vandalismo? Há diferença entre querer ganhar x desejar o mal do outro? Certamente sabemos todas estas respostas. Ninguém precisa nos dizer o que fazer. Resta-nos fazer.

Vaiar é algo antigo. Muito antigo. Não é criação nossa.

A questão toda é o equilíbrio. Palavra presente no discurso e ausente na atitude. E isto ainda nos falta e muito: equilíbrio. Saber a hora de se colocar, de falar e, principalmente, de se calar é uma arte. A placa com a inscrição “Silêncio” queimou, numa das competições, devido a tantos acionamentos da comissão organizadora. E mesmo assim, não fizemos silêncio.

Não queremos ser monges nas arquibancadas, sem absolutamente querer ofendê-los. Pelo contrário. Uma vaia saudável, se é que podemos chamá-la assim, faz parte da brincadeira. No entanto, desejar que uma de nossas nadadoras se afogasse, que o adversário de Arthur Zanetti caísse e desejos que a esgrimista brasileira furasse a adversária são o reflexo do que nos falta. E nos falta muito e de tudo.

Somos um povo que busca dar certo. Buscamos o acerto. Somos lutadores e desbravadores. Somos um povo que faz do riso uma ferramenta de vida. Somos um povo que não teme a reinvenção de si mesmo. Mas precisamos honrar nossas conquistas. Porém não é desta forma que conseguiremos. Um jornal americano só faltou nos chamar de selvagens. O restante ele fez. Sabemos que eles também têm os problemas deles, mas queremos saber dos nossos problemas que, a propósito, são muitos.

Precisamos aprender a nos calar quando a vida pede ou, no caso, quando o jogo pede. É respeitoso. É amável. É educado. É preciso.

Querer que a atleta fure os olhos da adversária me remete àqueles tempos dos gladiadores dos filmes romanos. Aqueles homens, no meio das arenas, tinham, como única opção, matarem os seus opositores. Caso contrário, eles morreriam. Um somente podia sair vivo.

O que mudou de lá para cá? Talvez as cadeiras das novas arenas. As de antigamente eram de concreto, nada confortáveis. As de hoje são mais confortáveis. Infelizmente, o sentimento de querer que o outro se machuque, se prejudique ainda é presente na nossa sociedade. Não há como negar isto. Muitos, felizmente, já mudaram de patamar. Mas é preciso mais.

Uma sociedade de competição cria estas realidades. E isto não é só aqui.

Torcer para ganhar é legítimo e verdadeiro. Mas desejar o mal do outro é desejar o nosso próprio mal. Cada um dá apenas o que tem. Vaiar de forma desrespeitosa e dizer absurdos  aos adversários não caracteriza empolgação, torcida.

Torcer está em outro patamar.

Querer furar os olhos do outro significa a degradação do humano. São pequenos infelizes em busca de um pouco de sonho. Apesar de não saberem disto. São pessoas que não sabem viver, que dirá torcer e respeitar o adversário. São pessoas que não possuem conhecimento de vida, que dirá esportivo. Há que se ter limite e equilíbrio. A vida pede isto de todos nós.

São pessoas que não sabem o significado de existência: que é sair de você para, de verdade, poder se enxergar e, neste momento, passar a existir. Quem deseja que o outro morra, como aquilo que foi dito, é porque este alguém já morreu. Morreu em suas esperanças, em suas lutas. Só desejamos o mal para o outro quando a maldade predomina em nós. Se fosse a felicidade que predominasse em nós, não diríamos tudo aquilo.

Quem está no centro das atenções não é aquele que vaia. E isto é motivo de inveja, muitas vezes. Mesmo não ganhando “medalhas”, como é bom realizar coisas e fazer o que se gosta. E estes atletas, por exemplo, realizam coisas e fazem o que gostam. Mas os que vaiam maldosamente não realizam coisas e não fazem o que gostam. Não são felizes. Por isto a felicidade do outro incomoda. O talento alheio é incômodo. O lugar que aquele que realiza ocupa jamais será ocupado por aquele que não realiza. Por isto ele vaia, xinga.

É muito mais fácil tentar desestabilizar o outro do que se espelhar nele. E isto tudo vai muito além do esporte.

Vaiar maldosamente o outro é colocar luzes na mediocridade trazida no coração. É não aceitar que há opiniões e posturas diferentes, assim como pessoas melhores que merecerão a medalha de ouro, seja nas Olimpíadas, seja na vida. Ou mesmo que as medalhas não venham, o esforço e o trabalho farão daquela pessoa alguém melhor. Na agenda desta pessoa não há espaço para a vaia, não deste tipo.

Vejo uma família de japoneses, numa das arenas. Todos enrolados em suas bandeiras. No centro da arena, um brasileiro e um japonês disputando algo. Em poucos minutos, o brasileiro faz o ponto. E a câmera focaliza aquela família. O que eles faziam? Aplaudiam os brasileiros.

Em um outro momento, num estádio de futebol, outra família de japoneses assistindo a uma partida. Após o término do jogo, a família se levanta, deposita o lixo deles numa sacolinha própria e leva embora. E como se isso não fosse o suficiente, um deles retira uma flanela do bolso e limpa os bancos que haviam se sentado durante a partida. Para quê? Para os próximos a se sentarem lá encontrarem lugares limpos para serem usados.

Confesso que ao ver esta cena fiquei envergonhada. Mas depois refleti: se eles podem ter este nível de respeito e de educação, nós também podemos. Tudo é uma questão de escolha.

Não temos vocação para a santidade e, portanto, não há necessidade de disputarmos lugares com os santos. Estamos longe disto tanto na vida como nos jogos. Mas a educação e o respeito deveriam ser as nossas primeiras escolhas.

Aqueles japoneses descobriram isto há tempos. Mas nós ainda estamos falando sobre a nossa recente velha conhecida: a educação. E a falta que ela nos faz...

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Qual é o tamanho da sua escada?

imagem tirada da internet

Outro dia, passando perto de uma construção, vi uma escada bem comprida, daquelas de madeira, um tanto gasta pelo uso, mas ainda disposta a ajudar quem precisasse dela. Ela tinha vários degraus, todos irregulares, de tamanhos e alturas diferentes. Mas ainda assim era uma escada. Uma escada cansada em função do tempo percorrido, do servir, do esforço, mas firme o bastante para ainda aguentar mais algumas subidas e descidas. Firme o bastante para não ser confundida com nenhuma outra ferramenta, com nenhum outro utensílio.

Fiquei pensando em nossas escadas individuais que nos conduzem pela vida. São elas que nos cedem, gentilmente, seus degraus para subirmos ou para descermos. Ou, até mesmo, para ficarmos no meio do caminho, parados, estacionados, ou perdidos, mesmo. Isto dependerá de nossas escolhas e do nosso estar na vida.

Escadas podem ser de vidro, de madeira, de metal, de pedra...podem ou não terem corrimão. Diferentes nas medidas, nas alturas, nos materiais, nas cores. Pouco importa. O fato é que todas, independentemente de cores e afins, conduzem. Todas, sem exceção. E a nossa escada não seria diferente. Somos conduzidos pela vida por meio dela.

Portanto, a escada que temos faz toda a diferença para nós.

Qual é o tamanho da nossa escada?

Ela é suficientemente grande para nos levar aonde queremos? Ou para o que queremos, o tamanho dela basta? Ou então, como não sabemos aonde queremos chegar, o que importa o tamanho dela?

Nossas escadas podem estar enferrujadas ou tinindo ou paradas no fundo do quintal ou quebradas ou ultrapassadas ou velhas. Não importa quantos ous tenha em nossa história. Mas saber o estado da nossa escada, isto importa. E muito.

Há escadas tão altas que se perdem de vista. Há aquelas que nos derrubam porque seu piso é muito liso. Dependendo da queda, não nos levantamos mais. Mas há as quedas emocionais que também estão escondidas nos degraus de muitas escadas. Estas são as piores.

Qual é o tamanho da sua escada?

Depende de suas escolhas, ambições, perseguições, desistências e persistências...

Para desistências, escadas mais curtas. As grandes não serão necessárias uma vez que muitos dos degraus não serão utilizados.

Para busca incessante, escadas longas e desejo de longas pernas para alcançá-la. O tamanho de nossas pernas também é determinante para adequação da escada.

Para ambição além da conta, há as escadas que quebram as pernas. Aquele degrau que foi afrouxando no decorrer do tempo e que fizemos de conta que não vimos. E agora, ele veio cobrar a conta. Espatifou-se quando resolvemos pisar nele.

Para vaidade desmedida de querer ser o mais rápido na subida, cuidado: a vitória está no caminhar e no apreciar a vista. A chegada é só uma consequência para aqueles que acreditam. E apreciar a vista enquanto faz a caminhada nos ajuda a acreditar.

E se no meio do caminho descobrirmos que um dos degraus de nossa escada precisa de ajustes, por que não pedirmos ajuda? Aceitar ajuda nos faz livres para o recomeço...com a mesma escada...

Aceitar ajuda é para os fortes e para os que usam suas escadas.

Degraus próximos para os mais preguiçosos, de pernas curtas, e que fazem questão de não enxergarem que suas pernas dão conta disto.

Degraus próximos, muito próximos. Até uma criança sobe? A vida espera mais da gente.

Degraus distantes para aqueles que valorizam demais a dor, a dificuldade, o não alcançar. Por que não criamos um degrau intermediário? Ao mesmo tempo, degraus distantes fortalecem as nossas pernas enquanto subimos. Talvez este seja o nosso diferencial lá na frente. Talvez. O mundo nem sempre é justo.

Escadas servem para ajudarmos alguém a subir. Afinal, estamos no degrau acima.

Escadas servem para empurrarmos o outro. Afinal já chegamos, não é mesmo? Não precisamos de companhias...

Escadas são o nosso meio de transporte no decorrer da vida. São feitas sob medida para cada um de nós.

Há aqueles que preferem as rolantes. São rápidas, eficientes, deslizantes e muito, muito mais confortáveis...apenas enquanto funcionam. Pois na primeira parada, lá vamos nós engrossar a fila dos que precisam usar a escada manual.

Todo este tempo utilizando, apenas, as rolantes, corremos o risco de esquecer de como é subir degraus com os nossos pés. E este esquecimento vai atrofiando nossos demais saberes. Estas escadas têm este poder: vão minando nossas forças discretamente...mas com o nosso consentimento, mesmo que inconsciente.

Os pés superficiais das escadas rolantes só nos servem enquanto a escada funciona. Quando ela quebra, quebramos também. Para elas, há conserto; para nós, ainda não...

Nossas escadas foram feitas para serem usadas e marcadas com os nossos pés. Que ela envelheça pelo uso e não pela falta dele. O uso demarca o nosso espaço no mundo. Faz-nos donos das nossas vontades. Dos nossos saberes. E das nossas responsabilidades.

Eu quero. Eu subo. Eu quero. Eu desço. Eu quero. Eu paro. Eu não quero. Estaciono.

E muitos ficaram para trás, por conta de suas escadas não utilizadas ou subutilizadas. As marcas de nossos pés podem ajudar o outro a retomar o caminho.

E muitos vão lá na frente, por conta de suas escadas sujas, utilizadas, manchadas e marcadas. As marcas dos pés deles podem nos servir de inspiração dos lugares aonde podemos chegar.

Muitas podem ser as reflexões e metáforas acerca de escada. Muitos são os significados. E todos estarão certos porque serão reflexões sobre cada um de nós.

Não importa a cor da sua escada, o formato, o tamanho, o material. O que importa é que ela existe e está a sua espera, ou melhor, a espera de seus pés.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Franz Kafka, escritor alemão do século XIX, que diz:

“Um degrau de escada que não foi desgastado a fundo é, do seu próprio ponto de vista, apenas algo de madeira montado no ermo. ”

Que possamos olhar para nossas escadas e reconhecermos, nelas, nossos passos e nossas marcas. E que, envelhecidas, nossas escadas nos sirvam de espelhos de nós mesmos. E assim, nos orgulharmos de um dia termos tido a coragem de iniciarmos a nossa caminhada.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Foco significa tempo

Foi-se o tempo que tínhamos tempo. Se é que ele existiu um dia. Talvez na infância, o que também faz tempo.

Lá, o tempo nos sobrava; hoje ele nos falta. Na infância, usávamos o tempo com sabedoria e fazíamos o que precisava; hoje, este mesmo tempo talvez esteja sendo utilizado sem sabedoria, e muitas vezes desperdiçado. Por isto ele nos falta. E muito.

Foi-se o tempo que parávamos para conversar. A velha pergunta: “Olá, tudo bem? ” refletia sinceridade e interesse em saber do outro. Hoje perguntamos apenas por educação: “Olá, tudo bem? Desculpa, estou correndo...depois a gente se fala...me liga...me passa um zap..., #partiu...”

O que nos faz achar que hoje não temos tempo? O que nos faz achar que antigamente tínhamos mais tempo? O que nos faz achar que hoje as coisas andam corridas mais que ontem? O que nos faz acreditar nestas conclusões a que chegamos?

Arrogâncias de nossos tempos. Quanto mais ocupado estivermos, menos tempo teremos para nos conhecer, para nos revisitar, para nos reconectar. Quanto mais para o externo estivermos, menos foco teremos. E quanto menos foco, mais à deriva pela vida...

Ter foco é questionar as máscaras que vestimos.

Será que antigamente fazíamos menos coisas ou fazíamos, apenas, o que era necessário e importante?

Revisitar os nossos comportamentos e escolhas nos ajudará a descobrir os motivos para a nossa falta de tempo. Inúmeras podem ser as explicações para esta nossa envaidecida falta de tempo. Mas para este texto, escolhi apenas um motivo para explorar: o foco.

Foco como sinônimo do que importa. Da essência. Do verdadeiro. Do que é preciso.

vídeo tirado da internet

Pessoas com foco têm tempo. São pessoas que fazem o que precisa e fazem o que é certo. Fazem muitas coisas. Iniciam e terminam. São excelentes começadores e finalizadores. Não deixam as coisas pela metade. Não desviam a sua atenção. São pessoas que acreditam no que fazem e seguem o caminho que escolheram. E quando olham para trás, é apenas para ver se nada ficou esquecido. Mas logo retomam o caminho. São pessoas firmes, que não perdem tempo com bobagens. E por quê? Porque têm foco.

Uma escolha de vida. Uma escolha difícil. Uma forma de caminhar.

Ter foco é saber dizer não. É valorizar a sua opinião, sem desprezar a do outro.

Ter foco é participar do que importa e não do que te autopromoverá.

Parece óbvio dizer que ter foco significa saber o que se quer. Mas isto não basta: é preciso, também, buscar o que se quer. Merecer o que se quer. Conquistar o que se quer. Criar oportunidades para se ter o que se quer. Criar atalhos sustentáveis para trilhar o caminho até chegar aonde se quer.

Por tudo isto, ter foco não é das tarefas mais fáceis. Não é uma escolha fácil. Ainda mais que durante o trajeto, muitas serão as interrupções e os problemas que somente aquele que aceitar a caminhada saberá dizer.

Deixar a vaidade e o orgulho de lado, durante o trajeto, será determinante para aquele que quiser ter foco. Foco, muitas vezes, significa rever conceitos, duvidar e questionar.

Ressignificar. Foco significa fazer as escolhas certas.

Somos apressados. Somos ansiosos. Estamos num tempo que ainda não chegou e não sabemos se chegará. Queremos estar no amanhã sem ainda termos vivido o hoje.

Queremos ver o final da história, o final do filme, interrompemos a fala do outro, completamos frases, tudo isto em nome de uma pressa construída por terceiros que, por meio de nossos comportamentos, ajudamos a manter. Tudo isto nos faz perder o foco.

Perdemos o foco porque fugimos do essencial. Ter foco significa saber o que importa.

Estamos sempre com as agendas cheias e cheios de compromissos, muitas vezes, adiáveis. Se abrirmos mão de estarmos e de sermos disponíveis o tempo todo, teremos foco e, consequentemente, tempo.

A nossa falta de foco nos transforma em expectadores diante à vida. Mas é preciso mais. A vida pede mais da gente. Podemos fazer mais.

Pessoas nos fazem perder tempo por falta de foco.

Pessoas perdem seu tempo por nossa falta de foco. É preciso pensar sobre isto.

Ter foco é delegar quando se pode. É pedir ajuda sem sentir vergonha.

Ter foco é pedir desculpas sem constrangimentos tolos. É abrir mão de respostas prontas.

É acreditar no simples. É ter atitudes simples. É valorizar o pequeno.

Acima de tudo, ter foco é olhar a minoria e saber que fazemos parte dela. E quando este dia chegar, a nossa arrogância e o nosso orgulho terão ficado para trás.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, trazendo um pensamento provocador de John Carmack, programador americano, que diz:

“Foco é muitas vezes uma questão de decidir o que você não vai fazer. ”

E decidir o que não vamos fazer muitas vezes nos coloca no final da fila. Significa abrir mão, muitas vezes, de vantagens ilusórias, de aparecermos na foto.

Em tempos de excessos, de exageros, de exposições e de palco que escondem as nossas pequenezas e a nossa total falta de foco, decidir o que não fazer é uma difícil tarefa. Se algo não trouxer tanta exposição e palco, será mais fácil abrirmos mão e não o fazer. Porém, abrirmos mão de algo que nos trará exposição, luzes e palco será praticamente impossível.

Que o foco seja mais que uma palavra em nosso vocabulário: que ele se transforme em comportamento, em um ideal de vida, em uma ferramenta de construção.

domingo, 24 de julho de 2016

Ainda sobre o machismo...

O “ainda” do título mostra um certo cansaço, um certo desgaste. Ele me remete àquele disco riscado que tocava na vitrola do meu pai. O mesmo trecho, a mesma faixa. A música não era só aquilo, mas era só aquilo que tocava.

O ainda traz cansaço e desgaste. E as reticências dizem que há muito o que fazer e que este assunto, pelo jeito, vai longe...

Vai longe e vem de longe. Não é de hoje que falamos sobre isto. Que ouvimos sobre isto. Que sofremos as consequências disto. Todos nós sofremos. Não somente as mulheres. Todos, sem exceções. Acredito que enquanto não nos apropriarmos deste assunto, independentemente do nosso sexo, ele não será resolvido.

Há machismo em todo o mundo, não somente aqui. É que como vivemos aqui, presenciamos muitos exemplos machistas e isto se torna mais forte para nós. Mas ele é presente em todo o mundo. Importante ressaltar que a História do mundo foi, essencialmente, escrita por homens, e não por mulheres. E o Brasil não foi exceção. Isto já explica muitas coisas. Mas as mulheres sempre existiram e sempre construíram. Onde elas estavam, então, quando a história foi escrita e construída? Simplesmente elas não foram convidadas para esta conversa. Por isto elas não estão nos livros e nem nas grades curriculares das escolas. Mas elas sempre existiram. Poucas são as lutadoras e guerreiras que são lembradas. Pouquíssimas. Se quisermos conhecê-las, somente por meio de documentários e livros específicos. Será necessário querer saber sobre elas e buscar este saber, porque isto dificilmente será ensinado.

As mulheres, ao longo de toda a história, sempre foram excluídas e desvalorizadas. Sempre precisaram lutar e provar sua existência o tempo todo.

Passados anos, décadas e até séculos, muitas coisas mudaram. Algumas para melhor, outras para pior. Mas a luta contra o machismo atravessa os tempos e continua. Muitas conquistas foram alcançadas às custas de vidas e tempo de outras mulheres. Avanços foram atingidos graças à coragem de muitas delas, graças aos movimentos feministas que tiveram sua força, sua expressão e sua necessidade muito bem representados.

Porém mesmo com estes avanços, que não foram poucos, por que ainda retrocedemos em muitas circunstâncias? Por que ainda nos demoramos com este assunto? Por que ainda valorizamos e fortalecemos o machismo para que ele continue existindo?

O assunto é complexo e delicado para acharmos que sabemos as respostas. Para acharmos que vamos resolver isto de forma rápida. O machismo é, antes de tudo, um valor de uma sociedade (no caso, a nossa) que está traduzido em atitudes e em comportamentos. E isto vem de longe. Não é tão simples mudarmos um valor, um paradigma. Se machismo é um valor, porque se assim não fosse não o praticaríamos, como mudá-lo? Como se altera um valor? Ninguém tem esta fórmula. Mas uma direção, mesmo que remota, para que um valor seja alterado é mudarmos as referências deste valor. E qual é a referência do machismo? Em que ele se apoia? Qual é a sua base de referência?

imagem tirada da internet

A base de referência no qual o machismo se apoia é a nossa sociedade. Somos machistas. Ponto. Precisamos quebrar este modelo para outro ser escrito e reinventado. Só que mudar é muito difícil. Implica conscientizar-nos a respeito e, acima de tudo, querermos esta mudança. Criar outros modelos dá muito trabalho. Alguém precisa começar. E há tempos que muitas mulheres começaram este belo trabalho. Muitas foram valorizadas, outras preteridas e outras esquecidas. Mas todas iniciaram e é preciso continuar este trabalho, que é de todos.

É preciso enfrentar o modelo que não funciona e lutar pelo que funciona. Mas dá trabalho.

Nise da Silveira, a primeira médica brasileira, nascida no século passado, foi uma mulher brilhante. Lutou contra a forma agressiva como os pacientes eram tratados pela Psiquiatria e revolucionou o tratamento dos doentes mentais, no Brasil. Em um documentário sobre a vida dela, ainda estudante de medicina, ela conta que não havia banheiro feminino na faculdade porque “ali” não era lugar para mulheres. Então, para que banheiros? Os professores, todos homens, obviamente, não a deixavam participar da aula de anatomia com os demais alunos porque diziam que aquela não era profissão para mulheres. Ela precisou lutar por uma autorização e assim, prosseguir seus estudos. E conseguiu.

Mulher firme e, acima de tudo, com propósito e destemida.  E isto tudo na década de vinte! Este foi só um dos exemplos do que, com eficiência, dedicação e propósito, aonde se pode chegar. E ela chegou muito longe. E muito devemos a ela.

Um dos caminhos para que esta reinvenção de modelo possa começar é pela educação. É redundante falarmos sobre a relevância da educação. E não falo, apenas, da educação curricular, mas daquela recebida em casa. Por que bola ainda é coisa de menino? Por que, ainda, é a menina quem vai para a cozinha ajudar a mãe lavar louças? Por que é o pai quem leva o menino para o futebol? Por que todos não lavam a louça e depois vão ao futebol juntos?

Este é somente um exemplo para incentivarmos o aprofundamento do tema. Mas há diversos exemplos e tantos outros bem mais tensos e complexos. É só prestarmos atenção.

A pergunta é: quais cidadãos queremos? Quais cidadãos estamos formando?

Ajudamos a resolver. Ajudamos a destruir.

Ajudamos a cobrar. Ajudamos a esconder.

Ajudamos a avançar. Ajudamos a estagnar. Ora uma coisa. Ora outra coisa. Ora as duas coisas juntas. Queremos mudanças, porém não queremos mudar. Que paradoxo, não? A mudança é sempre necessária para o outro, mas não para mim. Eu não preciso mudar. O outro sim.

Aos homens foi dada uma autonomia e um direito que explica, muito, as desigualdades e os caminhos tortos existentes até hoje.

O machismo é somente uma consequência da falta de educação, e não a causa em si. Somos mal-educados. Nossa educação não é priorizada. Nunca foi. E o machismo tem as suas raízes aí, fortemente construídas, mesmo que às escondidas. E quando chegamos à fase adulta, quando somos colocados à prova, a nossa educação ou a falta dela vem à tona. E o machismo é somente um dos reflexos da má educação que demos, que recebemos ou que não tivemos acesso. Que tipo de educação estou dando? Qual recebi? Quais são os meus valores?

Precisamos de políticas públicas que ajudem a melhorar este caminho construído indevidamente, este caminho torto, ineficiente e insustentável. Mas antes disto, precisamos de uma educação que agregue, que englobe, que envolva e não uma educação que desagregue, que exclua e que não envolva a todos. Mas a educação que não agrega ainda é a vigente, ainda é a que se observa. Não na totalidade, mas ainda é fortemente presente.

Enfim, o tema é vasto. Há muito o que dizer. Muitos são os caminhos possíveis para mudarmos de patamar. Mas penso que a educação seja o caminho mais lúcido para tal caminhada.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um maravilhoso ensinamento de Nise da Silveira, esta mulher que fez da ousadia sua ferramenta de luta.

"É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade".

Que a história desta Mulher nos sirva como novas bases de referências para que possamos criar uma sociedade mais justa, mais sólida, mais ética. E, assim, sustentável.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Saber esperar é uma arte


vídeo tirado da internet

Várias são as leituras que podemos fazer sobre este vídeo. Reflexões podem nos fazer um convite para o pensar, se dedicarmos um tempinho para isto. Tudo aquilo que nos chama a um patamar acima requer paciência e disposição.

Existem caminhos mais curtos, é verdade. Mas logo ali eles se mostram, e somos obrigados a pegarmos um retorno e refazermos o caminho.

O vídeo fala muito mais do que condicionamento: sabemos que os animais obedecem devido ao condicionamento adquirido por meio de treinamento. Mas se arriscarmos sair do óbvio, veremos que o vídeo traz muito mais que isto.

O vídeo traz reflexões. Muitas.

Uma delas foi, literalmente, a paciência de saber esperar. Sim, esperar é uma arte.

Numa rápida consulta ao dicionário, a palavra “arte” vem do latim “ars”, que significa habilidade construída a partir da percepção, das emoções e das ideias de quem a criou.

Então, se esperar é uma arte, e se arte é uma habilidade, isto significa que podemos desenvolvê-la. A questão que fica é: queremos desenvolvê-la?

Toda construção se dá por meio de etapas. Mas os caminhos mais curtos nos chamam mais a atenção. A obra pronta é sempre mais atrativa. A habilidade de construir não me interessa, muitas vezes, porque somente será visível para mim e não para o outro. E se não for visível também para o outro não me interessa.

A habilidade de construir requer percepção, emoção e ideias, como dito acima: percepção para saber a hora de esperar e de avançar; emoção para reconhecer quem somos e ideias para vislumbrarmos os nossos caminhos.

Aqueles cães, portanto, nos deram uma grande lição: saber esperar é uma arte. Mas como tal, é preciso desenvolver esta habilidade que se dá por meio da percepção, da emoção e da ideia. Sábios eles.

Mas como estamos, muitas vezes, voltados para o autocentrismo, achando que o mundo gira ao nosso redor, não tivemos tempo, ainda, de desenvolvermos tal habilidade da espera...

Ninguém consegue dar o melhor de si quando está mais preocupado em aparecer. Seria este o nosso caso? Talvez.

Excesso de visibilidade atrapalha. Por que queremos, tanto, aparecer? O que nos falta que achamos que encontraremos num palco qualquer construído por desconhecidos? Por isto não sabemos esperar...

Quando ficamos desesperadamente lutando por atenção, estamos perdidos num caminho construído por nós mesmos. O excesso não deveria nos representar.

Uma segunda reflexão foi sobre a confiança. Aqueles cães confiaram que o alimento viria. Simples assim. Obviamente que precisamos realizar o trabalho de bastidor para que a coisa aconteça. Mas mesmo quando realizamos, acreditamos? Muitas vezes não. Somos nossos próprios algozes em muitos momentos das nossas vidas.

Não acreditamos em nós porque não valorizamos quem somos. Crença tem absolutamente tudo a ver com valor. Se não creio em algo é porque este algo nada tem de valor para mim. Simples assim.

É preciso resgatar a nossa confiança. Buscar e acreditar que virá. E esperar um pouco, sem sofrimentos, sem angústia, sem ansiedade. Percorremos, já, um grande caminho.

Não há a angústia da descrença no olhar daqueles cães. Mas há foco numa determinada direção. Crença e espera porque sabem do caminho trilhado.

Portanto, é preciso mudar a nossa percepção sobre a nossa condição de ser. E desta forma, passarmos a existir na totalidade. Deixamos de existir quando não acreditamos em nós, quando achamos que não receberemos, que a nossa hora não virá, quando não sabemos esperar. Deixamos de existir quando avançamos o sinal, ainda vermelho, e, envergonhados, damos aquela paradinha sobre a faixa de pedestres aguardando, impacientemente, a abertura do sinal. E ainda torcemos para que nenhuma autoridade apareça para nos lembrar de algo que sabemos. Mas enfim...queimamos, sempre, na largada...

Uma terceira reflexão foi observar o último cão: aguardou, pacientemente, ser chamado. Aquela angustiante sensação de todos serem chamados e ele ainda não. Quem já não passou por isto? E se ele não fosse chamado? Qual teria sido a reação? A dele não sabemos. Mas a nossa certamente sabemos dizer, mesmo que a gente não queira compartilhar a resposta com o outro. Não importa. O que importa é a reflexão sobre isto.

Muitas são as reflexões que o vídeo traz:

- paciência para saber esperar a sua vez;

- humildade para aceitar ser o último a ser chamado;

- renúncia para dar passagem ao outro que foi chamado antes que você;

- saber se calar para que o outro ouça ser chamado;

- ter resignação para saber que nem sempre você será chamado;

- olhar o outro se divertir e se alimentar, enquanto você tem fome;

- ficar feliz com a felicidade do outro;

- entender que ser o primeiro ou o último é só uma questão de ponto de vista.


imagem tirada da internet

Enfim, a tela da nossa vida está aí. É só termos a coragem de tomá-la nas mãos e de usá-la. E que a nossa pintura seja a representatividade do que esperamos e do que buscamos. E por que não, do que já encontramos?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Rachel de Queiroz, romancista brasileira, que lutou bravamente pelos seus ideais e pelos seus sonhos. E que, certamente, soube esperar...

Em qualquer momento difícil, no qual desistir fosse o caminho mais fácil, ela dizia:

“Jamais desisto. Como boa cearense, arredondo os ombros e aguento a pancada. ”

Que a persistência seja uma de nossas referências. Mas para isto, é preciso saber esperar. E esperar é uma arte...