terça-feira, 11 de outubro de 2016

O Ballet que desequilibra

imagem tirada da internet

Todas as danças são belas. Não vejo exceção. Mesmo aquelas cuja sintonia não bate com a nossa, ainda assim são belas. Têm a forma, o ritmo, a beleza, a história, o esforço, o trabalho.

Acredito que a beleza da dança também se reflita, além da questão coreográfica, por conta do amor à profissão, que é visível nos artistas. Aquela vontade de estar lá. Aquela presença da alma em tudo o que é feito.

Quando a nossa alma está presente, tudo o mais se realiza.

Dançar, para estas pessoas, passa a ser mais que passos e posturas: passa a ser uma forma de expressar felicidade, portanto. E isto é para tudo na nossa vida, não somente na dança. Quando conseguimos, de fato, nos enxergar de corpo e alma naquilo que fazemos, o trabalho, a dor e o cansaço ficam, de verdade, para segundo plano. E um segundo plano raramente visitado, frequentemente esquecido.

E o ballet é uma destas maravilhosas danças. Assistir a uma apresentação desta é se deixar conduzir pela leveza, ter certeza sobre o próximo passo e seguir adiante, de preferência sem errar...a perfeição é a ordem. O equilíbrio uma necessidade.

Toda aquela elegância e postura sob os pés dos bailarinos caem por terra caso não sejam respeitadas. E o que seria belo se torna desequilibrado e desarmônico. O ballet é uma das danças cujo erro é mais notado, mais visto. Em outras danças também. Mas aqui, os passos são tão calculados que não há espaços para tentativas, desvios e disfarces.

O ballet exige uma perfeição que a própria vida ainda não aprendeu.

Estudei com uma colega, no ensino fundamental, chamada Denise. Menina calada, muito inteligente, discreta e de movimentos controlados. Esguia, magra e alta, a pergunta a ela era inevitável: “você dança ballet”? “Sim, estudo, no Teatro Municipal”. Esta era a resposta da Denise, apenas isto. Nenhum sorriso, nenhuma pista. Respostas curtas talvez sinalizando a nós, crianças curiosas, que não caberiam mais perguntas.

Ainda bem que, como crianças, muitas vezes não entendemos os sinais que nos dão. Assim nossas buscas podem continuar. Como continuaram.

A Denise não falava que “dançava ballet”, mas sim que “estudava ballet”. Este já era um forte sinal. Aquele que sente prazer no que faz se deixa conduzir pela dança, pela emoção.

O tempo foi passando e a Denise foi se ambientando mais conosco, foi gostando da nossa companhia, foi se aproximando mais da gente. Foi quando começou a dizer que não gostava de fazer ballet, mas que tinha que fazer porque seus pais assim queriam. Dizia que era uma tortura ir para o Teatro Municipal e que seus pés doíam muito. Que até achava bonito aquilo, mas que não era para ela. E quando a questionávamos sobre dizer isto a seus pais, ela era categórica: “não adianta. Eles não vão aceitar que eu pare. Eles querem que eu seja uma bailarina. ”

Como crianças, não tínhamos muito como ajudar a Denise. Mas entendíamos a sua tristeza que agora, de forma mais próxima, ela compartilhava conosco. O sonho da Denise? Ser Psicóloga. Sempre dizia isto para nós. Mas seus pais diziam que “esta” profissão não dava futuro para ninguém.

A Denise chegou a se formar pelo Teatro Municipal. Foram sete anos de estudo e de dedicação forçados. Mas sem o principal: propósito. A professora dela chegou a conversar com os pais dizendo que a Denise não tinha prazer pela dança. E os pais disseram: “sabemos o que é melhor para ela. No futuro, ela vai nos agradecer por esta bela profissão. Quantos chegam a um Teatro Municipal? ” O propósito era dos pais, e não da Denise.

Sem propósito, tudo o que é feito é em vão.

Querer que o outro seja o que ele não quer é uma agressividade silenciosa. Há agressões morais mais duras que agressões físicas. Talvez este seja um exemplo.

O tempo passou. Adulta, a Denise ingressou numa segunda faculdade: a que sempre quis. Psicóloga formada, recuperou o seu “diploma” de bailarina, empoeirado na gaveta e o entregou a seus pais como uma forma de se acertar com os seus fantasmas.

Quando lembro desta história, penso que a Denise era só uma criança tentando se encontrar no mundo. Buscava equilibrar-se nas imposições que não compreendia. Buscava reconhecer-se e conhecer suas vontades e habilidades. Mas não teve chances.

Orientação é completamente diferente de imposição. A orientação é necessária àquele que inicia o caminho, como a criança. Mas a imposição é uma tirania disfarçada de educação.

É preciso respeitar o espaço do outro para que ele possa se encontrar.

A coordenação, a simetria, a postura, as regras e a rotina do ballet somente são válidas quando fazem sentido para aquele que faz. A perfeição do ballet só é perfeita para a dança. Para a vida, é preciso mais que passos, regras e rotinas. É preciso sentido.

Por que insistimos em desviar as rotas dos outros? Por que achamos que sabemos o que é melhor para o outro? Por que calamos a voz do outro para que somente a nossa seja ouvida? Por que a opinião do outro nos agride? Por que a escolha do outro é ridicularizada? Por que nossos talentos são questionáveis aos olhos do outro? Por que precisamos trilhar rotas que não quisemos construir?

Perguntas sem respostas. Talvez não haja respostas. Talvez as perguntas sejam mais que suficientes. Ou talvez a resposta esteja dentro da pergunta...

A Denise venceu seus medos e transgrediu. Disse-nos que foi “libertador” não precisar mais “dançar” aquela dança. Ela, finalmente, compreendeu, que o verdadeiro prazer pela dança não estava naquele caminho que ela trilhava. Que o verdadeiro sentido de tudo é fazer aquilo que vai ao encontro da essência de cada um. E neste novo caminho não cabem imposições.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, trazendo um pensamento da Companhia Cisne Negro, uma das mais respeitadas escolas de dança do mundo, inclusive, de ballet, ironicamente...

“A única coisa que está em seu caminho para a perfeição é você mesmo."

Trilhar o nosso caminho, aquele que faz sentido para nós, é a verdadeira essência, é o que nos levará à verdadeira perfeição. Nós somos o caminho que nos levará a ela. Neste nosso caminho haverá pedras, percalços, buracos. Mas ainda assim será o nosso caminho, verdadeiro e único.

Aquele que faz sentido.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A nossa estrada para Damasco

Independentemente da religião e crença de cada um, a história sobre a transformação do judeu Saulo, um terrível perseguidor dos cristãos, para o Apóstolo Paulo, um dos homens mais fortes e íntegros do Cristianismo primitivo, é bastante conhecida por todos nós.

A caminho de Damasco, capital da Síria, o então Saulo tinha, como principal objetivo, matar os seguidores de Jesus. Porém, na estrada que o levava à Damasco, Saulo é cercado por uma forte luz. A confusão dos sentidos de Saulo o faz tombar de seu animal. É nesta hora que vê a figura de um homem com a fisionomia iluminada. Sob forte emoção e espanto, se dá um dos diálogos mais conhecidos do Cristianismo:

- Saulo!...Saulo!... por que me persegues? disse o homem.

E Saulo responde:

- Quem sois Vós, Senhor?

E o homem responde:

- Eu sou Jesus.

E a partir daí, Saulo se transforma num dos homens mais fiéis aos ensinamentos de Jesus, além de tomar para si a responsabilidade de levar o amor a Jesus a todos os cantos do mundo. Mais adiante, adota seu outro nome, Paulo, sendo reconhecido como o Apóstolo dos Gentios.

Esta história, mais que resumidamente contada aqui, nos traz muitas reflexões. Se nos deixarmos guiar por ela e atentarmos para as sutilezas que a simbologia “desta estrada que leva à Damasco” nos oferece, acredito que seremos surpreendidos para o bem. Se abrirmos mão dos preconceitos, por se tratar de um fato religioso, e abrirmos mão de modelos mentais ultrapassados, muito poderemos aprender. É uma questão de escolha.

Um Historiador disse, certa vez, que não acreditava que Paulo havia caído do cavalo, e que este encontro com Jesus era uma fantasia daquele que tinha fé. Para aliviar o discurso, disse que era ateu e por isso, não acreditava. Mas que gostaria de ter uma fé, “isto facilitaria bastante as coisas”, ele disse.

Apesar de acompanhar e de gostar do trabalho deste Historiador, achei sua fala muito pequena para todo o cenário apresentado. De verdade: o que importa se o Apóstolo Paulo caiu ou não do cavalo? Isto é apenas um detalhe.

Enquanto nos prendemos no que não importa deixamos de fazer o que importa.

As opiniões devem ser respeitadas, mas penso que podemos ir além. É preciso refletir sobre a nossa estrada que nos leva à Damasco. Sobre o momento da nossa transformação, em que finalmente entendemos o que está sendo pedido para nós. Deixamos de brigar com a vida, de lutar contra nós mesmos, e fazemos a pergunta:

“Senhor, o que queres que eu faça? ” Porque foi esta a pergunta que o Apóstolo fez ao ter o encontro com Jesus.

Fazer esta pergunta não significa submissão, passividade, ociosidade ou ficar de braços cruzados esperando que digam a você o que fazer: pelo contrário: significa prontidão diante à vida. Shakespeare, na peça Hamlet, traz: “estar pronto é tudo”.

Esta prontidão significa aquele incômodo que nos acomete quando sabemos que precisamos organizar algo. Significa certa dor ou frustração. E a mudança de postura é a única saída. Para tanto, é preciso estarmos prontos. Só está pronto quem já entendeu que a vida nos pede posturas e reorganizações de rota o tempo todo. Reorganizações, inclusive, para se ter a certeza de ter tomado o caminho certo. Permanecer no caminho escolhido é manter a prontidão diante à vida.

É preciso coragem para percorrermos esta estrada. Mais que isto: atenção ao que será dito lá. Atenção e prontidão. Com isto, pouco importa, de verdade, se estamos caídos ou sobre o nosso cavalo. É preciso prestar atenção ao que realmente importa.

Esta estrada faz, acima de tudo, um convite para abandonarmos o que nos impede de sermos felizes. Faz um convite para a renovação, para a mudança de patamar. Ela traz uma oportunidade para refletirmos sobre nossas escolhas e se estamos dando a melhor versão de nós mesmos, para a vida.

Ter a coragem de perseguir a nossa estrada é, acima de tudo, ter uma atitude de mudança. O convite é para todos.

É preciso renunciar ao que colabora para que sejamos piores. Acreditar naquilo que nos faz melhores. E trilhar esta estrada nos fará pessoas melhores.

Imprescindível nos colocar na condição de aprendizes, que é o que somos. Quando nos colocamos nesta condição, todos vão querer ouvir o que teremos para contar.

Deixar a vida nos conduzir. Abrirmos mão do comando e do controle que achamos que temos. Numa Empresa, por exemplo, muito raro a pessoa que não quer assumir papel de comando, devido à arrogância e à vaidade. Mas o que ela talvez não saiba é que não há comando, de verdade, sem humildade.

Comando sem humildade é presunção. Para estes, se deixar conduzir pela vida é quase uma blasfêmia. Por isto, a estrada que conduz à Damasco, para muitos de nós, ainda está longe.

Deixar-se conduzir pela estrada que nos levará à Damasco é ser reconhecido pela vida. É o verdadeiro comando. É se reconhecer diariamente. É se olhar no espelho e sentir orgulho do que vê. É acreditar na sua capacidade de resolver.

Esta estrada não é algo físico, é uma transformação interna. Ela nos obriga a rever conceitos e paradigmas. Temos nossos princípios questionados neste caminho. E por conta, muitas vezes, de nossas fragilidades e medos construídos por nós e por aqueles que ganham às custas de nossos medos, deixamos o convite da estrada para depois. É conveniente que não o aceitemos. Assim, seremos presas fáceis dos manipuladores que nem de longe sabem o que significa a estrada que leva para Damasco.

Quando estamos na estrada, nos decompomos, encontramos coisas não elaboradas, perdemos o controle. Mas como estamos prontos, conseguimos enxergar caminhos menos dolorosos para andarmos, nela, de forma mais leve. Esta estrada nos apresenta aquilo que, até então, não estava disponível para nós. E agora está! Mas para isto, é preciso estarmos prontos e aceitarmos o convite. Abrir mão do falso controle para buscar o verdadeiro caminho.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Paulo Freire, um dos grandes nomes da nossa Educação:

“É preciso partir das nossas possibilidades para sermos nós mesmos”.

A estrada que nos levará à Damasco é uma destas possibilidades que a vida nos oferece todos os dias, com ou sem cavalo. Se ousarmos aceitar o convite, certamente conheceremos a felicidade de sermos nós mesmos.

E sermos nós mesmos é bastante ousado para um mundo que privilegia, muitas vezes, que “sejamos o que o outro quer que sejamos”.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O caminho simples que desprezamos

Trabalhei numa empresa que tinha, como um dos valores, ser ágil e descomplicada.

Com algumas e raras exceções, esta atitude simplesmente não acontecia por um motivo bem simples: apesar de este valor estar, pomposamente, descrito na cartilha interna, não havia mentalidade ágil e descomplicada. Nem por parte das pessoas e nem por parte dos processos. E sem a mentalidade, a atitude não acontece. Simples assim.

É preciso dizer que valor, muitas vezes, é uma aspiração, ou seja, estamos em busca disto, mas ainda não somos isto. Portanto, vamos errar muito até acertarmos e encontrarmos o caminho. Mas o que importa é que estamos na busca, na consciência de que algo é preciso mudar. As mangas, aqui, já foram arregaçadas. Começamos o caminho, mesmo que por meio de tropeços, desencontros e erros. O problema começa, porém, quando não se tem a mentalidade pronta para esta transformação, seja por vaidade, por egoísmo, por descuido, negligência, ignorância, ou, simplesmente, porque não se quer ter este trabalho de transformação.

Como não queremos transformar e fazer o que precisa ser feito, precisamos arrumar uma forma de fazer, só que de mentira, só para nos enganar e enganar o outro. Isto explica muitas placas nas paredes das empresas com belos parágrafos explícitos preenchidos com os valores os quais, nem de longe, são praticados. As placas, os valores, a missão e a visão sem atitude e mudança, de verdade, de mentalidade, são meros objetos de decoração que, aos olhos dos mais distraídos, nem serão percebidos. E aos olhos dos mais observadores serão alvos de questionamentos e de críticas veladas. Uma pena.

Era isto o que acontecia lá: muito discurso distanciado da prática. Além de muita política, por parte de muitos, para fazer de conta que era feito, e muita alienação por parte de tantos outros para acreditar que estava sendo feito. A alienação é uma forte aliada quando não se quer ter problemas, além de poupar questionamentos.

A alienação, acima de tudo, não te cobra posicionar-se diante à vida.

O Ágil e o Descomplicado era um dos valores que menos se conseguia praticar, exatamente por conta da mentalidade morosa, complicada e vaidosa. Não se aceitava, muitas vezes, respostas simples. O simples era visto como simplista. Não havia, de verdade, uma preocupação com a criação de um ambiente de confiança aonde se pudesse, realmente, dizer o que se pensava e ajudar a construir um espaço de todos. Complicar discursos e práticas alimentava o ego de muitos ali. Por isto o ágil e o descomplicado eram ilusórios. Apenas uma longe aspiração. Ser simples significa abrir mão da vaidade. E isto é impossível para muitos.

Ser simples significa falar uma língua que todos entendam. Mais que isto: significa que esta língua deva encurtar caminhos e não dar voltas desnecessárias só para impressionar.

Um belo exemplo disto foi o pagamento de mais de um milhão de reais para uma consultoria dizer o óbvio. Coisas que os próprios colaboradores saberiam dizer muito melhor do que qualquer consultoria. Mas certamente este óbvio veio pintado de muitas pompas e circunstâncias, o que ajudou a mascarar esta cifra vergonhosamente cobrada. E que foi paga por quem se deixou enganar com belos discursos e relatórios complexos que não foram lidos. E quando lidos, no máximo alguns, eram tão enfadonhos que foram postos de lado. Relatórios cheios de termos em inglês que para nada serviram. Colunas e mais colunas para justificar o injustificável. Excelente exemplo de desperdício de recurso, em todos os sentidos.

Enquanto nos preocuparmos somente com o ego, coisas mais importantes não terão vez.

Enfim, foram excelentes experiências que me provaram, mais uma vez, a grande distância que há entre o que se fala versus o que se pratica.

A historinha abaixo ilustra bem isto.

Duas pulgas conversando:

- Sabe qual é o nosso problema? Nós não voamos. Só sabemos saltar. A nossa chance de sobrevivermos, quando somos percebidas, é zero. É por isto que existem muito mais moscas que pulgas no mundo: elas voam.

As pulgas decidiram que aprenderiam a voar. Contrataram a consultoria de uma mosca. Um tempo depois, começaram a voar. Passado algum tempo...

- Voar não está sendo o suficiente porque ficamos grudadas ao corpo do cachorro. Quando ele se coça, por ser mais veloz que a gente, ficamos sem condição de reação. Temos que fazer como as abelhas: elas sugam e levantam voo rapidamente. Contrataram, então, a consultoria de uma abelha, com quem aprenderam a arte do “chega-suga-voa”. Funcionou...por um tempo...

- Nossa bolsa para armazenar sangue é muito pequena, o que nos obriga a sugar por muito tempo. Escapar do cachorro a gente até escapa, mas não estamos nos alimentando adequadamente. Temos que aprender, com os pernilongos, como eles conseguem se alimentar tão rápido. E contrataram a consultoria de um pernilongo que ensinou a elas a arte de incrementar o tamanho do abdômen.

As duas pulgas ficaram felizes, mas por poucos minutos. Como tinham ficado muito grandes, sua aproximação era facilmente percebida pelo cachorro. E elas começaram a ser espantadas com frequência.

Foi então que encontraram uma saltitante pulguinha dos velhos tempos:

- Ué, o que aconteceu com vocês? Estão enormes!

- Pois é, agora somos pulgas adaptadas aos desafios do século XXI. Voamos ao invés de saltar, picamos rapidamente e armazenamos muito mais alimento.

- E por que estão com estas caras de subnutridas?

- Isto é temporário. Estamos fazendo consultoria com um morcego, que vai nos ensinar a técnica do radar. E você, como está?

- Vou bem, obrigada. Forte e sacudida.

Era verdade. A pulguinha estava viçosa e bem alimentada. Mas as duas pulgonas não quiseram concordar por puro orgulho.

- Mas você não está preocupada com o futuro? Não pensou em uma consultoria?

- Ah, não senti necessidade. Sou amiga da lesma, que me deu ótimas dicas sobre meus problemas.

- Ah, mas o que a lesma tem a ver com as pulgas?

- Tudo. Eu tinha o mesmo problema que vocês. Mas ao invés de dizer a ela o que eu queria, deixei que ela avaliasse bem a situação e me sugerisse a melhor solução. E ela ficou ali, três dias, quietinha, só observando o cachorro, tomando notas e pensando. E então a lesma me deu o melhor diagnóstico que recebi na vida. Ela me disse:

“Você não precisa fazer nada radical para ser mais eficiente. Uma grande mudança, às vezes, é apenas uma simples questão de reposicionamento e de atenção ao seu redor. ”

- E isso quer dizer o quê, perguntaram as pulgonas?

- Que eu deveria me sentar no cocuruto do cachorro. Lá é o único lugar que o cachorro não consegue alcançar com a pata...

Pois é, as lesmas, excluindo-se o sentido pejorativo que receberam injustamente (lentidão, lerdeza), raramente são ouvidas numa organização por terem saídas e soluções simples demais. Mas que resolvem e que funcionam.

A nossa vaidade, muitas vezes, encobre a beleza de uma resposta simples e de um caminho mais curto, porém eficiente. Isto ainda nos alimenta, infelizmente. E enquanto ainda estivermos nos servindo deste tipo de alimento, vamos precisar trilhar longos caminhos para lá na frente descobrirmos, cansados, que a rota mais simples sempre esteve ao nosso lado, mas que não tivemos a coragem e a humildade de deixá-la se manifestar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Temos mais que bananas

Bem mais, aliás.  Apesar de todo o respeito que as bananas merecem, aqui há mais coisas. Mas parece que aquele nadador americano, que inventou ter sido assaltado durante as Olimpíadas, no Rio, não sabia disto. Ser mal informado na vida tem os seus custos. E a conta dele foi um pouquinho alta. Bem feito para ele. E sorte a nossa.

Bem feito para ele porque foi uma dura lição. Aprendeu, a duras penas, que tentar manipular o que quer que seja, nesta vida, é muito perigoso. Ele acreditou que pudesse manipular a bagunça que ele havia criado, a favor dele. E viu que não foi possível. Acreditou que pudesse manipular as aparências, mas a realidade prevaleceu.

E sorte a nossa porque, por meio deste triste acontecimento, pudemos agir de forma profissional, ética e justa. Nossa Justiça não manipulou aparências, mas trabalhou de forma autêntica e verdadeira. Assumiu uma postura firme, rápida e eficiente. Simples assim.

Aquele nadador quis colocar, literalmente, nas nossas costas, a culpa das irresponsabilidades dele. Aprontou durante a noite carioca e, depois, percebendo que poderia comprometer sua imagem, devido às algazarras realizadas, não pensou duas vezes: inventou uma história dizendo que tinha sido vítima de assalto. Disse ainda que tinha sido constrangido pela nossa polícia. E que por causa disto tinha chegado de madrugada.

Porém, o que ele não contava era que desconfiaríamos daquela história mal contada por ele mesmo, com requintes de exageros e de molecagem. Ele também não contava que praticamente toda a cidade estava rodeada de câmeras de segurança e que, portanto, as imagens de todo o seu trajeto estariam, rapidamente, nas mãos dos investigadores. A polícia, de forma integrada, conseguiu rapidamente mapear o que havida acontecido. E para piorar a situação dos farsantes, algumas testemunhas colaboraram com os policiais e a verdade veio à tona. Pois é, temos mais que bananas aqui.

Tudo esclarecido. Ao mesmo tempo, muito triste. Nada disto era necessário. Alguém, de caráter duvidoso como aquele rapaz, resolveu colocar na nossa conta mais uma culpa. Mas esta nós não tínhamos. Graças, enfim.

Percebendo, rapidamente, que podia ser desmascarado, o rapaz tentou voar imediatamente para os Estados Unidos. Mas, ainda dentro do avião, foi convidado, gentilmente, a se retirar para prestar esclarecimentos na delegacia.

Pois é, seria bom que aquele rapaz soubesse que aqui há mais que bananas, muito mais.

O triste de tudo isto é saber que se aquele rapaz fez o que fez foi porque acreditou que aqui não haveria punição. Que aqui, um País subdesenvolvido, violento e cheio de problemas, um a mais um a menos. Que diferença faria, não é mesmo? Ele apostou nisto. Mas o tiro saiu pela culatra. Não que ele não tivesse razão em pensar que somos violentos e cheio de problemas.  Infelizmente isto ainda é a nossa realidade. Mas daí a agir sem escrúpulos e sem caráter, fico me perguntando quem é o mais subdesenvolvido: nós, enquanto Nação, ou ele, enquanto ser humano? Queria fazer esta pergunta a ele, mas acho que não terei oportunidade...

Se a história teve o seu lado triste, a degradação do humano, teve, também, o seu lado feliz. O de percebermos que temos condições de agir, de fazer, de atuar, de colocar as coisas nos seus devidos lugares e eixos. Não somos um entra-e-sai sem ordem e sem norte. Temos uma rota, sabemos o caminho e o melhor: temos as ferramentas para trilharmos esta rota. Basta que queiramos trilhá-la, assim como fizemos com este caso.

Sabendo que não tinha saída, ele pediu desculpas “informais” ao Brasil, por meio das redes sociais. Pagou uma multa e foi embora. Mas a história ainda não tinha sido concluída. A juíza responsável, por meio de nota oficial à imprensa, inclusive internacional, despachou tudo o que havia acontecido, com os detalhes daquela história amadora criada por outro amador.

No texto ela disse que o país de origem do rapaz tomaria ciência de todo o ocorrido, para que tudo ficasse esclarecido. E a multa fixada por esta mesma juíza foi destinada a uma casa assistencial. Belo exemplo de cidadania utilizando o dinheiro de um impostor!

Importante lembrar que até tudo ficar esclarecido, a imprensa americana apoiava o esportista-amador, e nem estava se preocupando muito com o interesse que o Brasil tinha em esclarecer tudo. Um repórter de lá, tinha que ser, disse: “não sei porque tamanha repercussão. Lá (Brasil) é perigoso mesmo! É normal este tipo de coisa acontecer por lá (assalto) ”. O interessante é que eles falam isto como se fossem a referência da Paz mundial.

“Que atirem a primeira pedra”...já dizia Jesus há mais de 2000 anos...

Mas tudo bem, a vida ensina. Mesmo àqueles que não querem aprender.

Foi somente depois de tudo esclarecido que os Estados Unidos, com um misto de surpresa e de vergonha alheia pelo o que aquele rapaz havia feito, que se redimiram diante às câmeras e pediram desculpas ao Brasil dizendo ter sido abominável o comportamento do aprendiz de nadador.

Tudo esclarecido: fatos postos sobre a mesa. De um lado, aquele pseudonadador aprendeu que toda ação tem consequências. E que muitas vezes, estas consequências são bem diferentes das esperadas e que resultam no enfraquecimento de sua personalidade. Ele perdeu quatro contratos com patrocinadores. Uma vergonha. Uma lição dura que jamais ele se esquecerá. Percebeu, também, que por mais difícil que seja, é mais fácil assumir, de forma autêntica, nossa personalidade do que construí-la sem poder sustentá-la.

E do outro lado, também aprendemos uma dura lição: o quanto é difícil ter de conviver com pessoas que cometem atos para tripudiar sobre aqueles que já possuem problemas demais para serem resolvidos: no caso, nós. Mas também aprendemos que temos condições de mudar este cenário se quisermos. Está em nossas mãos.

Aquele nadador talvez tenha tido privilégios cedo demais na vida. Muito antes de ter tido responsabilidades. E isto é uma reflexão para levarmos para as nossas vidas. Importante aprendermos com os erros dos outros para que não sejamos os próximos a cometê-los.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provação de Confúcio, pensador e filósofo chinês, que viveu há 500 anos antes de Cristo:

“O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros. ”

Que possamos aproveitar nossos próprios exemplos de homens comuns que somos. E que eles nos sirvam de pontes para buscarmos nossa superioridade moral.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Nossa saudade nostálgica

Há poucos dias terminaram os jogos olímpicos. Foram dias intensos, cheios de notícias e de atividades. Uma correria boa para conseguir assistir aos jogos e nenhum descanso para o controle remoto da televisão. Dias de pouco sono. Tudo isto para que conseguíssemos dar conta de tudo e de todas as atividades.

Ao final destas duas semanas, ficamos com um gostinho de quero mais. De repente, no dia seguinte às Olimpíadas, demos de cara com reprises de disputas já vividas, cujo resultado já sabíamos. E aí o controle remoto começou a desfrutar de seu merecido descanso.

Algumas horas antes do término do evento, no domingo, tanto o público quanto os profissionais que cobriram os jogos começaram a ficar saudosos. Uma vontade, com explicação, para que aquele evento não terminasse, para que aquelas horas finais ao término se arrastassem o máximo possível.

Nossa saudade nostálgica. Esta talvez seja a explicação para o sentimento que tenha ficado em nós: uma saudade nostálgica.

Apesar da saudade inicial que sentimos ao ver o término dos jogos, porque queríamos mais, acredito que nossa saudade foi dando um forte espaço para a nostalgia, palavra esta que não tem absolutamente nada a ver com a primeira, saudade. Ficamos saudosos num primeiro momento, mas nostálgicos depois. E este foi o sentimento que tomou conta.

Sentimos saudades, mas nos tornamos nostálgicos. Por quê?

Saudade é saudável. Nutre a nossa alma e a nossa vida. Saudade nos move e nos conduz porque nos faz refletir sobre a nossa vida. Faz-nos refletir sobre quem somos. Certamente somos pessoas melhores por sentirmos saudades e por fazermos estas reflexões provocadas por ela. E estas reflexões nos tornam autônomos enquanto seres, acima de tudo. Sabemos o que queremos. Sabemos o que sentimos.

Sentir saudade é ação. É um querer. É um buscar. É um valorizar. A saudade nos faz felizes com a vida que temos, nem mais e nem menos. Como ela está. Sentir saudade significa que vale a pena viver a vida. Significa que há vida para ser vivida.

A saudade faz parte de quem somos. Ela ajuda a contar a nossa história.

A nostalgia, no entanto, é o contrário da saudade: nos faz parar no tempo.  Faz-nos querer viver num tempo que não se tem mais. É patológico. Sinaliza uma cegueira da alma. É um aprisionamento voluntário.

A saudade faz parte de quem somos e de quem gostamos e queremos ser. A nostalgia faz parte de quem gostaríamos de ser e de quem não gostamos de ser.

Na saudade, a base é a vitória. Na nostalgia, a base é a derrota.

Sentir saudade nos faz viver. Sentir nostalgia nos faz abrir mão, desistir.

A saudade nos remete à realização. A nostalgia nos remete à eterna promessa.

A primeira nos completa. A segunda nos incompleta.

Uma está ligada à lucidez. A outra à alienação.

Paulo Freire, um Educador imprescindível à liberdade do pensar, dizia que “o ser alienado não procura um mundo autêntico. E é isto o que provoca uma nostalgia: a alienação. Deseja outro país e lamenta ter nascido no seu, por exemplo. Envergonha-se de sua realidade. ”

Dizia, ainda, que “a alienação nos tira de nossa condição de existir. Uma sociedade alienada não se conhece. ”

Paulo Freire tinha pensamentos fortes que provocavam profundas reflexões. E o que ele trouxe, com sua “nostalgia ligada à alienação” foi o que vivemos um pouco ao final dos jogos olímpicos. Antes do evento, estávamos mergulhados em Lava-Jato, estouros de escândalos de corrupção de todos os níveis, acordos de delações premiadas, processo de impeachment, mandados de segurança por toda parte, inflação nas alturas, pedidos de condução coercitiva tão frequentes que pareciam brigadeiros em festa...tudo isto sem contar os outros problemas do País que, ao lado da operação Lava-Jato, ficam pequenos e recolhem-se redimidos. Mas de pequenos não têm nada. Estes são alguns dos exemplos. Mas se pesquisarmos, haverá mais.

Não que as Olimpíadas fossem resolver os nossos problemas. Óbvio que não. Mas de certa maneira nos fizeram, pelos menos nestas duas semanas, dar uma respirada, uma parada para uma água. Sabemos dos problemas. Mas respiramos um pouquinho.

Por tudo isto, acredito que esta “tristeza” que se abateu sobre nós, esta nostalgia, foi por conta desta falta que nos faz este clima de festa, de ordem, de harmonia, de sorrisos e de gente feliz. Nestas duas semanas, ouvimos outras coisas além de protestos e operação Lava-Jato. Protestar e investigar são fundamentais. Mas é preciso parar para respirar um pouco. E as Olimpíadas fizeram isto um pouco conosco: nos fizeram respirar e desacelerar um pouco. Cumpriram muito bem o seu papel.

Óbvio, também, que elas ofuscaram muitos problemas. Há os dois lados: tanto nos trouxeram momentos muito festivos como também cerraram os nossos olhos para várias barbaridades cometidas. Mas enfim, o evento, em si, e os atletas não são responsáveis. Eles merecem respeito, assim como nós também o merecemos.

Não sei se estamos mais saudosos ou nostálgicos, na vida. Não tenho esta resposta. O meu desejo é que estejamos sempre mais para saudosos do que para nostálgicos. Cabe a cada um buscar seu autoconhecimento, fundamental para uma vida mais feliz.  Mas certamente, nestas Olimpíadas, o nosso lado nostálgico falou mais alto. Não queríamos voltar para a programação normal da televisão falando sobre o que já sabíamos.

Ver as inúmeras operações deflagradas pela Polícia Federal tomarem conta dos canais onde estavam sendo exibidas competições emocionantes era, no mínimo, desanimador. Por isto a palavra “nostalgia” nos representou tão bem ao final dos Jogos. Durante as Olimpíadas, vivemos um pouco da harmonia que gostaríamos que houvesse sempre no nosso País. Pessoas leves, sorridentes e felizes o tempo todo seria a nossa escolha. O País estava festejando, apesar dos problemas que apenas aguardavam o passar dos jogos para voltarem à cena. E, como sabíamos que ver o nosso País festejando, nem sempre é possível, ficamos nostálgicos. Começamos a nos apegar aos jogos, antes mesmo de eles encerrarem.

Quero finalizar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Millôr Fernandes, escritor brasileiro, que diz:

“Neste momento, de repente, me bate a nostalgia do que um dia se chamou de Pátria. ”

Pois é, que este sentimento de harmonia, vivido entre os povos, esta sensação de alegria e de bem-estar, este sorriso leve e presente possam cada vez mais estarem presentes em nossas vidas. Pois se nas Olimpíadas isto foi possível, fora delas também será. Está nas nossas mãos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Vaias não são apenas vaias

imagem tirada da internet

Na semana passada, numa competição de esgrima, uma atleta brasileira lutava com uma francesa, nas Olimpíadas do Rio.

Durante a luta, ouve-se uma vaia do público: “Fura ela”. Em outras lutas também foram ouvidas vaias como “aqui é favela”, “se não der com a espada, vai com a faca mesmo”.

Vaiar, no sentido geral, é dizer, por meio de um barulho ensurdecedor, que não gostamos de alguma coisa, pessoa, atitude. Que não concordamos com determinadas situações.

Uma forma de protesto. Uma forma de expressão. Um traço cultural.

No lugar de vaias, nossa forma de protestar poderia ser a argumentação, o propósito e o ideal. Sem gritarias. Sem barulhos. Mas sim com silêncio, foco e determinação. Porém, ainda precisamos das vaias como representantes de nossos discursos, de nossos enunciados. O barulho ainda faz parte para que possamos ser ouvidos.

Quando trazemos o assunto para o esporte, a vaia toma proporções exageradas. Bem exageradas. Toma outro rumo de conversa. Saímos do escopo somente da expressão e do protesto. Tratamos o adversário como inimigo. Não somos capazes, pelo menos não temos sido, de simplesmente torcer por nossos atletas e respeitar o outro que disputa a mesma competição. Não somos capazes de valorizar este momento e o talento alheio.

Quando colocamos a nossa atenção no melhor do outro, sem querer destruí-lo, uma excelente oportunidade de melhorar as nossas marcas pessoais surge em nossas experiências.

Se o adversário não existisse, qual o sentido da competição? Ainda não somos uma sociedade de  cooperação, mas sim de competição. Portanto, ela ainda faz sentido desde que pautada na ética e no respeito. E respeitar o adversário é dar o melhor de nós, seja como competidores ou como expectadores.

Como competidores, estamos dando o nosso melhor. É visível. Porém, como expectadores, nem sempre. Muitos aplaudem e respeitam o trabalho do adversário. Mas, infelizmente, outros não. A falta de educação, em todos os níveis, ainda é fortemente presente na nossa sociedade. E no caso, agora, nas arquibancadas dos estádios.

Há limite entre o que pode ser dito x saber a hora de se calar? Há diferença entre torcida x vandalismo? Há diferença entre querer ganhar x desejar o mal do outro? Certamente sabemos todas estas respostas. Ninguém precisa nos dizer o que fazer. Resta-nos fazer.

Vaiar é algo antigo. Muito antigo. Não é criação nossa.

A questão toda é o equilíbrio. Palavra presente no discurso e ausente na atitude. E isto ainda nos falta e muito: equilíbrio. Saber a hora de se colocar, de falar e, principalmente, de se calar é uma arte. A placa com a inscrição “Silêncio” queimou, numa das competições, devido a tantos acionamentos da comissão organizadora. E mesmo assim, não fizemos silêncio.

Não queremos ser monges nas arquibancadas, sem absolutamente querer ofendê-los. Pelo contrário. Uma vaia saudável, se é que podemos chamá-la assim, faz parte da brincadeira. No entanto, desejar que uma de nossas nadadoras se afogasse, que o adversário de Arthur Zanetti caísse e desejos que a esgrimista brasileira furasse a adversária são o reflexo do que nos falta. E nos falta muito e de tudo.

Somos um povo que busca dar certo. Buscamos o acerto. Somos lutadores e desbravadores. Somos um povo que faz do riso uma ferramenta de vida. Somos um povo que não teme a reinvenção de si mesmo. Mas precisamos honrar nossas conquistas. Porém não é desta forma que conseguiremos. Um jornal americano só faltou nos chamar de selvagens. O restante ele fez. Sabemos que eles também têm os problemas deles, mas queremos saber dos nossos problemas que, a propósito, são muitos.

Precisamos aprender a nos calar quando a vida pede ou, no caso, quando o jogo pede. É respeitoso. É amável. É educado. É preciso.

Querer que a atleta fure os olhos da adversária me remete àqueles tempos dos gladiadores dos filmes romanos. Aqueles homens, no meio das arenas, tinham, como única opção, matarem os seus opositores. Caso contrário, eles morreriam. Um somente podia sair vivo.

O que mudou de lá para cá? Talvez as cadeiras das novas arenas. As de antigamente eram de concreto, nada confortáveis. As de hoje são mais confortáveis. Infelizmente, o sentimento de querer que o outro se machuque, se prejudique ainda é presente na nossa sociedade. Não há como negar isto. Muitos, felizmente, já mudaram de patamar. Mas é preciso mais.

Uma sociedade de competição cria estas realidades. E isto não é só aqui.

Torcer para ganhar é legítimo e verdadeiro. Mas desejar o mal do outro é desejar o nosso próprio mal. Cada um dá apenas o que tem. Vaiar de forma desrespeitosa e dizer absurdos  aos adversários não caracteriza empolgação, torcida.

Torcer está em outro patamar.

Querer furar os olhos do outro significa a degradação do humano. São pequenos infelizes em busca de um pouco de sonho. Apesar de não saberem disto. São pessoas que não sabem viver, que dirá torcer e respeitar o adversário. São pessoas que não possuem conhecimento de vida, que dirá esportivo. Há que se ter limite e equilíbrio. A vida pede isto de todos nós.

São pessoas que não sabem o significado de existência: que é sair de você para, de verdade, poder se enxergar e, neste momento, passar a existir. Quem deseja que o outro morra, como aquilo que foi dito, é porque este alguém já morreu. Morreu em suas esperanças, em suas lutas. Só desejamos o mal para o outro quando a maldade predomina em nós. Se fosse a felicidade que predominasse em nós, não diríamos tudo aquilo.

Quem está no centro das atenções não é aquele que vaia. E isto é motivo de inveja, muitas vezes. Mesmo não ganhando “medalhas”, como é bom realizar coisas e fazer o que se gosta. E estes atletas, por exemplo, realizam coisas e fazem o que gostam. Mas os que vaiam maldosamente não realizam coisas e não fazem o que gostam. Não são felizes. Por isto a felicidade do outro incomoda. O talento alheio é incômodo. O lugar que aquele que realiza ocupa jamais será ocupado por aquele que não realiza. Por isto ele vaia, xinga.

É muito mais fácil tentar desestabilizar o outro do que se espelhar nele. E isto tudo vai muito além do esporte.

Vaiar maldosamente o outro é colocar luzes na mediocridade trazida no coração. É não aceitar que há opiniões e posturas diferentes, assim como pessoas melhores que merecerão a medalha de ouro, seja nas Olimpíadas, seja na vida. Ou mesmo que as medalhas não venham, o esforço e o trabalho farão daquela pessoa alguém melhor. Na agenda desta pessoa não há espaço para a vaia, não deste tipo.

Vejo uma família de japoneses, numa das arenas. Todos enrolados em suas bandeiras. No centro da arena, um brasileiro e um japonês disputando algo. Em poucos minutos, o brasileiro faz o ponto. E a câmera focaliza aquela família. O que eles faziam? Aplaudiam os brasileiros.

Em um outro momento, num estádio de futebol, outra família de japoneses assistindo a uma partida. Após o término do jogo, a família se levanta, deposita o lixo deles numa sacolinha própria e leva embora. E como se isso não fosse o suficiente, um deles retira uma flanela do bolso e limpa os bancos que haviam se sentado durante a partida. Para quê? Para os próximos a se sentarem lá encontrarem lugares limpos para serem usados.

Confesso que ao ver esta cena fiquei envergonhada. Mas depois refleti: se eles podem ter este nível de respeito e de educação, nós também podemos. Tudo é uma questão de escolha.

Não temos vocação para a santidade e, portanto, não há necessidade de disputarmos lugares com os santos. Estamos longe disto tanto na vida como nos jogos. Mas a educação e o respeito deveriam ser as nossas primeiras escolhas.

Aqueles japoneses descobriram isto há tempos. Mas nós ainda estamos falando sobre a nossa recente velha conhecida: a educação. E a falta que ela nos faz...

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Qual é o tamanho da sua escada?

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Outro dia, passando perto de uma construção, vi uma escada bem comprida, daquelas de madeira, um tanto gasta pelo uso, mas ainda disposta a ajudar quem precisasse dela. Ela tinha vários degraus, todos irregulares, de tamanhos e alturas diferentes. Mas ainda assim era uma escada. Uma escada cansada em função do tempo percorrido, do servir, do esforço, mas firme o bastante para ainda aguentar mais algumas subidas e descidas. Firme o bastante para não ser confundida com nenhuma outra ferramenta, com nenhum outro utensílio.

Fiquei pensando em nossas escadas individuais que nos conduzem pela vida. São elas que nos cedem, gentilmente, seus degraus para subirmos ou para descermos. Ou, até mesmo, para ficarmos no meio do caminho, parados, estacionados, ou perdidos, mesmo. Isto dependerá de nossas escolhas e do nosso estar na vida.

Escadas podem ser de vidro, de madeira, de metal, de pedra...podem ou não terem corrimão. Diferentes nas medidas, nas alturas, nos materiais, nas cores. Pouco importa. O fato é que todas, independentemente de cores e afins, conduzem. Todas, sem exceção. E a nossa escada não seria diferente. Somos conduzidos pela vida por meio dela.

Portanto, a escada que temos faz toda a diferença para nós.

Qual é o tamanho da nossa escada?

Ela é suficientemente grande para nos levar aonde queremos? Ou para o que queremos, o tamanho dela basta? Ou então, como não sabemos aonde queremos chegar, o que importa o tamanho dela?

Nossas escadas podem estar enferrujadas ou tinindo ou paradas no fundo do quintal ou quebradas ou ultrapassadas ou velhas. Não importa quantos ous tenha em nossa história. Mas saber o estado da nossa escada, isto importa. E muito.

Há escadas tão altas que se perdem de vista. Há aquelas que nos derrubam porque seu piso é muito liso. Dependendo da queda, não nos levantamos mais. Mas há as quedas emocionais que também estão escondidas nos degraus de muitas escadas. Estas são as piores.

Qual é o tamanho da sua escada?

Depende de suas escolhas, ambições, perseguições, desistências e persistências...

Para desistências, escadas mais curtas. As grandes não serão necessárias uma vez que muitos dos degraus não serão utilizados.

Para busca incessante, escadas longas e desejo de longas pernas para alcançá-la. O tamanho de nossas pernas também é determinante para adequação da escada.

Para ambição além da conta, há as escadas que quebram as pernas. Aquele degrau que foi afrouxando no decorrer do tempo e que fizemos de conta que não vimos. E agora, ele veio cobrar a conta. Espatifou-se quando resolvemos pisar nele.

Para vaidade desmedida de querer ser o mais rápido na subida, cuidado: a vitória está no caminhar e no apreciar a vista. A chegada é só uma consequência para aqueles que acreditam. E apreciar a vista enquanto faz a caminhada nos ajuda a acreditar.

E se no meio do caminho descobrirmos que um dos degraus de nossa escada precisa de ajustes, por que não pedirmos ajuda? Aceitar ajuda nos faz livres para o recomeço...com a mesma escada...

Aceitar ajuda é para os fortes e para os que usam suas escadas.

Degraus próximos para os mais preguiçosos, de pernas curtas, e que fazem questão de não enxergarem que suas pernas dão conta disto.

Degraus próximos, muito próximos. Até uma criança sobe? A vida espera mais da gente.

Degraus distantes para aqueles que valorizam demais a dor, a dificuldade, o não alcançar. Por que não criamos um degrau intermediário? Ao mesmo tempo, degraus distantes fortalecem as nossas pernas enquanto subimos. Talvez este seja o nosso diferencial lá na frente. Talvez. O mundo nem sempre é justo.

Escadas servem para ajudarmos alguém a subir. Afinal, estamos no degrau acima.

Escadas servem para empurrarmos o outro. Afinal já chegamos, não é mesmo? Não precisamos de companhias...

Escadas são o nosso meio de transporte no decorrer da vida. São feitas sob medida para cada um de nós.

Há aqueles que preferem as rolantes. São rápidas, eficientes, deslizantes e muito, muito mais confortáveis...apenas enquanto funcionam. Pois na primeira parada, lá vamos nós engrossar a fila dos que precisam usar a escada manual.

Todo este tempo utilizando, apenas, as rolantes, corremos o risco de esquecer de como é subir degraus com os nossos pés. E este esquecimento vai atrofiando nossos demais saberes. Estas escadas têm este poder: vão minando nossas forças discretamente...mas com o nosso consentimento, mesmo que inconsciente.

Os pés superficiais das escadas rolantes só nos servem enquanto a escada funciona. Quando ela quebra, quebramos também. Para elas, há conserto; para nós, ainda não...

Nossas escadas foram feitas para serem usadas e marcadas com os nossos pés. Que ela envelheça pelo uso e não pela falta dele. O uso demarca o nosso espaço no mundo. Faz-nos donos das nossas vontades. Dos nossos saberes. E das nossas responsabilidades.

Eu quero. Eu subo. Eu quero. Eu desço. Eu quero. Eu paro. Eu não quero. Estaciono.

E muitos ficaram para trás, por conta de suas escadas não utilizadas ou subutilizadas. As marcas de nossos pés podem ajudar o outro a retomar o caminho.

E muitos vão lá na frente, por conta de suas escadas sujas, utilizadas, manchadas e marcadas. As marcas dos pés deles podem nos servir de inspiração dos lugares aonde podemos chegar.

Muitas podem ser as reflexões e metáforas acerca de escada. Muitos são os significados. E todos estarão certos porque serão reflexões sobre cada um de nós.

Não importa a cor da sua escada, o formato, o tamanho, o material. O que importa é que ela existe e está a sua espera, ou melhor, a espera de seus pés.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Franz Kafka, escritor alemão do século XIX, que diz:

“Um degrau de escada que não foi desgastado a fundo é, do seu próprio ponto de vista, apenas algo de madeira montado no ermo. ”

Que possamos olhar para nossas escadas e reconhecermos, nelas, nossos passos e nossas marcas. E que, envelhecidas, nossas escadas nos sirvam de espelhos de nós mesmos. E assim, nos orgulharmos de um dia termos tido a coragem de iniciarmos a nossa caminhada.