terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A retidão que mente

Fernando Pessoa, um dos grandes poetas da literatura mundial, por meio do seu heterônimo Álvaro de Campos, escreveu:

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Heterônimo é uma “pessoa” com vida própria, criada pelo autor. E Fernando Pessoa foi um mestre nesta arte, também. Seus heterônimos tinham biografias e definições próprias como se fossem pessoas reais. Um recurso para ter a liberdade de dialogar melhor, e com mais liberdade, sobre certos assuntos. É como se o escritor desse voz a várias personalidades que habitam nele. Neste poema, Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos, faz uma dura crítica a era das aparências, que me parece se estender até hoje.

Um poema que incomoda e que nos faz refletir sobre a imposição de sermos felizes o tempo todo. A obrigação de mostrarmos que estamos bem e que estamos e somos felizes.

De onde vem isto?

De longe, muito longe. Se mergulharmos na nossa história, na história da Humanidade, encontraremos alguns caminhos que explicarão as razões desta nossa alienação. Descobriremos que, ao longo da nossa jornada, as noções de fracasso e de sucesso foram sendo modificadas e construídas com base nos valores e na cultura existentes.

O nosso conceito de sucesso atualizado, com raríssimas exceções, está ligado ao dinheiro, ao estatus, ao cargo e à posição social. E o contrário disto, o fracasso.

Mesmo tendo sido escrito no início do século XX, Fernando Pessoa traz esta provocação e esta reflexão. Logo no início do poema ele diz:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Temos muitas dificuldades de falarmos e de assumirmos os nossos problemas. Não queremos falar sobre os nossos fracassos porque nos comparamos a eles.

O próprio poema foi construído e escrito pelo autor de forma irregular para os padrões métricos. Utiliza esta irregularidade como forma de criticar a retidão que mente, a métrica que não funciona e pior, que aprisiona.

Por que, até um poema, precisa seguir regras métricas? Por que o nosso pensar e a nossa inspiração precisam se encaixar em regras, muitas vezes, sem sentido? Por isto ele faz e constrói um poema fora da regra, não linear, não reto.

O conteúdo do poema é uma ironia àquilo que não é possível.

Tudo certinho, no lugar, em perfeita ordem, sem arranhões. Como passar pela vida sem arranhões? Como viver sem o caos? Como viver sempre na ordem?

Os amigos de Pessoa, aqueles que viviam em linha reta, estavam numa retidão inexistente. Irônica. São fracassados por não assumirem os seus fracassos. Aquele que assume o seu fracasso deu o primeiro passo para a vitória.

Somos vulneráveis na nossa própria condição. A imposição da felicidade nos é feita por pessoas desordenadas que somente acreditam numa forma de felicidade: a impossível.

Somos contraditórios na nossa própria essência. O fracasso e a vitória caminham juntos. A fronteira entre eles é quase inexistente. Portanto, é preciso aprender a dialogar tanto com os nossos fracassos como quanto com as nossas vitórias. É preciso dialogar, inclusive, com a possibilidade do fracasso e com a possibilidade da vitória. Nem uma coisa nem outra está garantida. Por que tanta arrogância, então?

O diálogo com o fracasso nos faz fortes. O diálogo com a vitória nos torna humanos e atentos.

Admitir a nossa infelicidade é acreditarmos ser pequenos. Mas não somos.

O medo de nos expor nos fragiliza. Estamos perdendo o direito à fragilidade, à insegurança. Como o imperativo da felicidade não permite deslizes, a dor está ficando fora de moda.

Estamos perdendo espaço para falarmos do que não vai bem. Estamos perdendo tempo divulgando fotos felizes. Isto é verdadeiro?

Escondemos o que deve ser mostrado. Mostramos o que não interessa ao outro.

A felicidade de uns agride o outro porque ele não se sente representado. Quem vai ouvi-lo? Por isto a simples ideia de felicidade o incomoda e o agride.

Estamos confundindo o conceito de fracasso com os nossos problemas. Tê-los não é sinônimo de fracasso. O que determinará o fracasso e a felicidade é o uso e a atitude que se fizer disto.

O homem de sucesso, o homem em linha reta, é aquele que responde e corresponde aos imperativos da performance, do desempenho e da felicidade.

Por que criamos grades para nós mesmos? Por que criamos prisões e nos colocamos lá?

Mais que receitas de como vencer, precisamos criar formas normais e saudáveis para enfrentarmos os nossos fracassos. Por que somos educados para somente acertarmos e não somos educados para encararmos os nossos fracassos? Por que a educação se cala frente a esta necessidade?

É preciso enxergar o fracasso como integrante da nossa formação.

Sem fracasso não há sucesso. Sem linhas tortas não há linhas retas.

Não deixamos espaço para falarmos sobre a dor, suas consequências e sintomas. Apenas para o riso, mesmo que frouxo e sem sentido.

A felicidade está se tornando um produto padronizado. Aonde compramos, mesmo?

Somos seres inacabados, imperfeitos. Reconhecermos a existência da tristeza é reconhecermo-nos humanos. A sensação de infelicidade, de angústia, de incompletude nos acompanhará, querendo a gente ou não. E, ironicamente, se quisermos reduzir esta sensação, somente aceitando e assumindo os nossos fracassos e as nossas linhas tortas trilhadas por nós.

Nossas falhas e nossos avessos existem para nos servirem e para nos mostrarem quem, verdadeiramente, somos. É preciso, portanto, trabalhá-los.

Talvez fracasso seja, apenas, tarefas inacabadas deixadas por nós, no caminho. Talvez sucesso seja, apenas, o convite da vida para servirmos, aonde reside o prazer e a verdadeira sabedoria.

O fracasso pode ser um ponto de partida. O sucesso, um acerto de contas com a vida.

Fracassar é doloroso. Mas é preciso. Fugir do fracasso é se render ao discurso falido e insustentável da perfeição, do “não erre” e do “acerte sempre”.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Fernando Pessoa:

“A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. ”

A ironia, fortemente utilizada neste poema, demonstra a profunda consciência do autor em nos propor estas reflexões. Que a ironia seja, em parceria com o questionamento, sempre as nossas melhores armas para combatermos a alienação e o pensar submisso.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Saia do script

Há algumas semanas, o controle remoto da televisão parou de funcionar. Simples assim. Com pouco mais de 05 anos de utilização, muito bem conservado e utilizado, ele resolveu se aposentar. É preciso respeitar.

Após tentativas de fazê-lo funcionar (troca de pilha e demais opções que estavam ao alcance), não tive sucesso. Como a televisão é nova, liguei para a assistência técnica para encomendar outro controle remoto. Original. Ao ligar para lá, apesar do bom atendimento, me informaram que o controle que eu buscava não estava disponível no site da Empresa, estava em falta no mercado. Mas a assistência não sabia me dizer se era uma falta de produto, apenas, ou se o controle havia saído de linha. Eu tinha, então, duas opções: fazer o pedido, mesmo assim, e aguardar uma resposta do fabricante, ou ligar diretamente para ele e ter mais informações. E foi o que fiz.

Ao ligar para lá, após ouvir todo o script automático e obrigatório (disque 1, disque 2, disque 3...), fui para a sexta opção que era o meu caso (disque 6 para falar com um dos nossos atendentes). Ao ser atendida, pediram meu nome completo e o meu CPF?!

Qual o motivo para alguém pedir o nome completo e numeração de CPF para uma simples pergunta sobre um controle remoto? Não é mais ético deixar o cliente falar antes? Há casos em que o CPF é necessário (uma compra, por exemplo). Mas este não era o meu caso.

Não forneci o meu CPF e nem o meu nome completo. Para o que eu precisava saber, o meu primeiro nome bastava. E percebi que a atendente não gostou da minha atitude. Disse: “preciso do número, senhora, é norma da empresa. ”

Norma?

Continuei não fornecendo os dados. Disse a ela o motivo da minha ligação. Que apenas gostaria de saber se o controle remoto modelo X ainda era fabricado. Se sim, quando ele estaria disponível para compra. Caso contrário, eu compraria o outro oferecido pela assistência técnica.

E aí, o diálogo abaixo se desenrolou:

- Mas eu não tenho esta informação, senhora. Aqui não é logística para eu saber sobre aparelhos. Sou uma Central de Atendimento. A senhora precisa falar diretamente na assistência técnica. Mais alguma informação?

- Mas eu já falei com eles. E eles me pediram para falar diretamente com vocês, os fabricantes. Sei que você é uma Central de Atendimento (!) e é por isso mesmo que estou ligando. Preciso saber se este acessório continuará sendo fabricado.

- Só um minuto... (aqui entrou a música).

após um intervalo de quase dois minutos...

- Obrigada por aguardar...então, eu vi com o meu supervisor, e é isto mesmo: aqui não é logística. Não temos como saber isto. Mais alguma informação, senhora?

- Meu Deus, não há uma área aí com quem eu possa ter esta informação? Não é possível que eu esteja ligando para o Fabricante e não consiga esta informação. Se não é com você, com quem eu posso falar, então?

- Não sei informar, senhora. Aqui é só uma Central de Atendimento ao cliente. Mais alguma informação?

- Eu sei que aí é a Central, meu Deus, e que eu sou o cliente. Quero falar, então, com o seu supervisor. Você, me passa, por favor?

- Senhora, não estou autorizada. Mas já informei a senhora que não temos este tipo de informação. Posso ajudá-la em algo mais?

(Ajudá-la? Ela não me ajudou…)

- Sim, claro, você pode me ajudar, sim. Vocês possuem um canal de reclamação e uma Ouvidoria, eu acredito.

- Ah, sim, senhora, temos sim.

- Ah, que ótimo. Você pode me falar, então, se posso registrar a reclamação pela internet ou se preciso ligar?

- Pois não, senhora, a senhora poderá estar fazendo a reclamação pela internet, mesmo. Posso ajudá-la com algo mais?

- Não, obrigada.

- A LG agradece a sua ligação. Por favor, fique na linha para avaliar o nosso atendimento...

imagem tirada da internet

É no mínimo irônico. Depois disto ainda me pedem para aguardar para avaliar o atendimento? Confesso que ri ao desligar o telefone. Impossível não rir. Como assim pedir para eu ficar “na linha” para avaliar o atendimento? De qual atendimento ela se referia? Não houve atendimento, simplesmente. E quando eu disse que registraria uma reclamação, ela, prontamente, me falou, “pois não”?

A alienação é um preço muito alto que pagamos pela nossa completa ausência de bom senso. Ela atrofia a nossa inteligência e nos embrutece. Diminuímos de tamanho quando, ao lado dela, nos colocamos.

Ao passar por isso, a palavra script veio fortemente à minha mente. O mau atendimento ficou evidenciado, e cheguei a sentir dó da atendente pela completa falta de autonomia e discernimento dela. Ela tinha outras opções. Mas acho que ela não sabia. Ou se sabia, não quis fazer uso disto.

Lançar mão de outras opções na vida, que não o script, é sempre mais trabalhoso.

Seguir o que já foi escrito e roteirizado, com falas frias e sem sentido, nos transformam em anônimos e despercebidos na multidão de iguais. Ela tinha opções. Mas não teve alcance para ir além da fala pronta, para ler a situação e entender que, ali, era preciso um pouco mais que roteiros previamente construídos por pessoas despreparadas.

Padrão de atendimento não deve ser confundido com mecanização e robotização. Estar e atuar dentro do script é necessário. Mas o mais importante é saber o momento de atuar além dele.

Num mundo onde há muito de tudo, estabelecer regras e instruções é necessário para que se tenha uma certa ordem, controle e padrão. Caso contrário, cada um de nós sairá fazendo o que bem entender, o que achar o certo. Portanto, um pouco de ordem é imprescindível para que possamos conviver com a nossa desordem. Porém com equilíbrio e sem exageros.

Sair do script requer tempo de estrada percorrido, disposição e vontade. A vida não segue um script. Por que, então, insistimos em transformar tudo num padrão? Estamos ficando sem espaço para o improviso, para o autônomo, para a criação.

Executar algo requer um conjunto de instruções. Mas é preciso criar uma gordura de atuação para os momentos que este conjunto de instruções não funcionar.

Trabalhei numa empresa que dizia sempre: “errem dentro da circular, mas não acertem fora dela”. Um conceito retrógrado e ultrapassado. Os erros realmente lá eram poucos do ponto de vista técnico. Mas a opressão, a falta de criatividade e a completa falta de autonomia eram evidentes. Muito se perde com este tipo de gestão pobre, que só fazem ganhar dinheiro e estatus. E só. Mas tudo é uma escolha.

Criamos scripts e roteiros para ficarmos no comando e no controle. É isto o que precisa ser dito. Ponto. Um simples controle remoto é um instrumento que comanda a distância. E o que é o script senão a crença infundada do comando de algo ou de alguém, a distância? O script nos treina para o óbvio, mas não para o mais difícil que é identificar as perguntas que não estão sendo feitas e buscar resolvê-las.

O roteiro nos impõe um limite, nos leva a uma subordinação, ao imobilismo. Mas é preciso saber a razão deste limite e avançar.

Aonde está o nosso senso crítico? Não encontraremos a resposta no script.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Ingmar Bergman, dramaturgo e cineasta sueco, falecido em 2007, que diz:

“Eu escrevo scripts para servir como esqueletos aguardando a carne e o tendão de imagens. ”

Que saibamos seguir os scripts quando forem necessários. Mas que saibamos o mais importante: que eles são, realmente, apenas estruturas e esqueletos. Portanto, que o nosso discernimento e a nossa razão sejam a base, a carne e a imagem. Somos e sempre seremos os condutores e os responsáveis pela decisão de usarmos ou não um script.

Scripts são domesticadores. E não incentivadores de um novo patamar de pensamento.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Nossos penhascos diários

imagem tirada da internet

Um comentarista esportivo, ao se referir a um comportamento de um atleta, disse a palavra medíocre. Fiquei com esta palavra passeando na minha cabeça durante a semana, e resolvi escrever sobre ela.

De origem latina, mediocris, tinha o significado inicial do que estava no meio, na média, mediano. Significava, também, o que estava no meio de duas coisas. Aquele que ligava uma coisa à outra. E o termo ocris, uma antiga palavra que significava penhasco ou montanha.  Portanto, mediocris era, simplesmente, aquele que estava no meio da montanha, do penhasco, da rocha. Aquele que estava no meio do caminho.

Mais tarde o termo evoluiu para medíocre, na língua portuguesa, como grafada até hoje.

Por conta da evolução (ou involução?) da nossa história, muitas palavras perderam o significado inicial no longo caminho que percorreram até aqui. E a palavra medíocre faz parte deste seleto grupo de palavras que perdeu o seu significado inicial por conta da nossa atuação.

Aonde a ação do homem chega, somente a incerteza será a nossa certeza.

Se antigamente ser medíocre não era ofensivo, hoje, se somos chamados disto ou se chamamos alguém desta forma, nos sentiremos ofendidos e ofenderemos. Certamente. O sentido da palavra mudou e o que era suficiente num passado, não mais o é de algum tempo para cá. Se antes ser medíocre apenas era estar no meio dos nossos penhascos, com direito a nos sentir completos por conta disto, hoje isto não basta mais. É preciso subir cada vez mais em nosso penhasco para que a mediocridade não seja impressa em nós, como um rótulo imposto pela sociedade ou, até mesmo, por nós.

Obviamente, subir os nossos penhascos e sairmos do lugar comum, do lugar aonde está a maioria, é recompensador desde que haja sentido na caminhada e rota para esta escalada. Caso contrário, será a subida pela subida. A ida a um lugar que não foi desejado por nós.

Mesmo sabendo que o sentido original da palavra mediocridade não carrega o pejorativo que há hoje, não tem jeito: o “novo” sentido dado a ela veio para ficar e, claramente, não queremos estar na categoria dos medíocres.

A mediocridade, no sentido atual, é uma inimiga silenciosa e astuta. Ela parte, essencialmente, da forte crença de que não é possível fazer, e que, portanto, não vale a pena insistir. Este é o caminho, o trajeto da mediocridade como a conhecemos hoje. Mas nem sempre é fácil reconhecê-la. Ela está arraigada na ausência do querer. A vontade é nula. A existência é só mera coincidência do Universo, para o medíocre.

A bravura, a coragem e a intolerância ao pequeno, sem menosprezá-lo, é, definitivamente, uma linguagem que a mediocridade não entende.

O escritor Paulo Coelho traz um texto que bem exemplifica o sentido da mediocridade “atual”:

Só os medíocres agradam a todos

Quando você começa a fazer alguma coisa, sempre tem alguém torcendo contra. Se você consegue ultrapassar as primeiras dificuldades, a “torcida contra” aumenta.

É preciso saber aproveitar isso. Não adianta querer agradar a todo mundo. Só os medíocres conseguem isso e, mesmo assim, à custa de muito sacrifício pessoal.

Tampouco adianta ficar ressentido ou odiar quem não o ama. Convença-se que isso faz parte do trabalho. Use a energia da “torcida contra” para adestrar a sua vontade, para ser mais profundo e mais sério no que está fazendo. Aproveite.

Entretanto, se este tipo de torcida afastar você do seu caminho, é porque este não era o seu caminho. Se fosse, só mesmo a mão de Deus poderia ter feito alguma coisa contra.

Bela reflexão. O medíocre de hoje é diferente do medíocre de ontem, como disse Max Gehringer. Portanto, com o medíocre do passado, mesmo que tenha sido a gente mesmo, não havia com o que se preocupar. Mas com o medíocre de hoje, principalmente se for a gente mesmo, este sim é preciso cautela e muito cuidado. O silêncio dele é assustador, imperceptível. E é exatamente esta a intenção: fazer que a gente não o perceba ali.

O medíocre de hoje é aquele que torce pelo seu insucesso. Desta forma, o dele não ficará tão evidente. Ele terá com quem discutir os infortúnios da “falta de sorte”. E quando você buscar outros caminhos para atingir o seu objetivo, o medíocre, de plantão, estará lá firme, te desencorajando. Como seu amigo, ele acredita que assim te ajudará a poupar mais dores.

Ele se compraz da sua infelicidade porque ele não é feliz. Esta é a linguagem dele.

O medíocre de hoje possui a régua muito abaixo do limite do aceitável. É aquela pessoa que não se esforça pelo simples fato de não enxergar valor no esforço. E isto pode ser consciente ou inconsciente. E quando você se esforça, mesmo com poucas chances de acerto, você parece ridículo para ele. Um ser à parte. Uma pessoa que incomoda. Uma pessoa que obriga, sem perceber, o medíocre a sair do lugar comum porque você demonstra que há outras possibilidades e formas de ver a vida. Por isto, ele tenta, desesperadamente, te desanimar na esperança de que você deixe as coisas como estão.

Ser medíocre não é uma escolha. É uma condição. Para sair dela, o autoconhecimento e o amadurecimento são caminhos transformadores. Mas o caminho mais rápido e eficiente é quando a dor, pelos prejuízos causados pela mediocridade, começa a ser sentida por quem a pratica.

O medíocre de hoje é sempre aquele que tentará puxar você para baixo, para o nível da régua onde ele está. Ele está cansado de sonhar e de acreditar na caminhada. Ele se cansou de lutar. E o mais crítico: ele não possui lutas a serem conquistadas. E todo medíocre gosta de uma companhia. Por isto é preciso tomar cuidado.

Fazer o melhor que podemos, sempre, mesmo que longe da perfeição, é abrirmos mão da mediocridade.

Às vezes somos exigidos, pela vida, a buscarmos opções de outras rotas para a realização de nossos sonhos. Mas somente a vida tem este direito de nos desviar, temporariamente, deles. Ela certamente nos desviou para nos fortalecer. Mais adiante ela tratará de nos colocar no caminho, de novo, em busca dos mesmos sonhos. O medíocre não tem este direito. Mas ele acha que tem. Por isto, todo o cuidado com ele é pouco.

O medíocre mina as nossas forças. Ele busca nos desestabilizar. Sentimo-nos enfraquecidos em nossos desejos, quando damos ouvidos a ele.

A submissão é a linguagem do medíocre. O pensar e o agir são dispensáveis num mundo em que o pensar e o agir são indispensáveis.

Definitivamente o medíocre de hoje é incompatível. Uma pessoa perdida que busca parceria. O questionamento, para ele, é irrelevante. É uma pessoa que segue o caminho trilhado, valoriza a conveniência e não a competência. Os interesses do outro, mesmo que inoportunos, são a base do fazer do medíocre. Ele se contenta com a escada pronta, não sente prazer em construí-la. A construção não faz parte do dicionário do medíocre.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de José Ingenieros, escritor, médico, professor que diz:

“O homem medíocre é sinônimo de homem domesticado, se alinhando com exatidão às filas do convencionalismo social. A opinião dos outros é o que importa, são os escravos das sombras, vivem para o fantasma que projetam na opinião de seus similares. Porque pensam sempre com a cabeça social e não com a própria, são a escora mais firme de todos os preconceitos políticos, religiosos, morais e sociais. Associa-se aos milhares para oprimir os que não comungam com a sua rotina. ”

Este pensamento foi dito em 1913, pelo escritor. Mas parece que ele acabou de escrevê-lo...

Que sejamos dignos da subida em nossos penhascos. Firmes e justos com o nosso propósito, com o nosso sentido. E que os medíocres do caminho apenas nos sirvam para fortalecer as cordas que apoiarão a nossa subida. E se cansarmos e quisermos parar no meio de nossa caminhada para descansarmos, que esta decisão seja nossa. Apenas nossa.

Boa caminhada a todos nós.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

De verdade, Feliz Ano Novo

imagem tirada da internet

Um ano se foi. O outro chegou. Que a gente o receba de braços abertos. Porque braços fechados também recebem, mas que este não seja o nosso caso.

Para que de verdade seja um Feliz Ano é preciso vontade e disposição. Apesar de difícil, está ao alcance de todos nós.

Para muitos, o ano de 2016 passou muito depressa. Somente o depressa não expressa. Mas o muito junto do depressa expressa o real sentimento que ficou sobre 2016, para muitos. Prefiro acreditar que a pressa na qual vivemos é o que fez de 2016 um ano corrido. Uma pressa construída por nós, não pelo ano que se foi. E se não mudarmos esta pressa, que alguém um dia nos disse ser necessária e que, infelizmente acreditamos, o próximo ano, 2017, passará rápido também. Tudo é uma questão de escolha.

O tempo passa normalmente. Mas nós insistimos em apressá-lo. Por isto esta sensação.

Outros se despediram de 2016 com alívio. Afinal, “o ano não foi bom, disseram”. Não é justo responsabilizá-lo por nossas falhas e culpas. Ele nos ofereceu 365 oportunidades de acertarmos. E se assim não se fez, injusto seria culpá-lo.

Independentemente do motivo que nos fez querer que o ano se encerrasse ou não, temos, novamente, 365 novas chances de fazer o que é preciso, de parar de fazer algumas coisas e de continuar a fazer tantas outras. Que possamos sempre esperar o melhor de todo o ano que começa, mas que também, como disse a Mafalda, tenhamos a humildade de entender que o ano também espera o melhor de nós. E qual é o melhor de nós? Somente a gente sabe, mais ninguém. Que possamos, então, colocar tudo isto em prática.

O ano novo, de verdade, é a todo o momento. Não podemos esperar que dezembro e janeiro resolvam todas as nossas questões.

Viver, de verdade, um ano novo é vivê-lo com responsabilidade, sem pressa. Não ter pressa não significa que não estamos fazendo, que não estamos construindo. A construção se dá na calma, na paciência e na contemplação. Mas ter pressa significa passar sem objetividade pelas coisas, sem conteúdo, superficialmente.

Aquele que tem tempo para tudo é quem constrói e realiza. Aquele que corre o tempo todo nada constrói. Apenas fica de olho no relógio.

Carlos Drummond de Andrade, no seu conhecidíssimo poema Receita de Ano Novo, diz:

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo...não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, ...

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-la na gaveta...

...nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem...

Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.  É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. ”

Algumas passagens deste belo poema que destaquei mostram o quão complexa e árdua é a tarefa de construir um ano novo de verdade.

Do que adianta fazer lista de boas intenções e arquivá-la na gaveta, como ele diz? Esta é uma das mais belas reflexões, na minha opinião. Além do encerramento que, lindamente, ele diz que para que o ano novo seja, verdadeiramente, novo, vamos ter de merecê-lo porque, antes de tudo, o ano novo cochila dentro de cada um de nós.

É preciso, portanto, irmos além dos cumprimentos da meia-noite. Há muito o que fazer.

Apesar de os bocejos, um tempo após os cumprimentos, indicarem que está na hora de retirar os pratos da mesa, sabemos que há muito o que fazer.

Quando entendermos que a vida é uma via de mão dupla, que ela dá, mas cobra, e que o trabalho precede o resultado, aí sim, iniciaremos um ano novo.

Que possamos entender que paradigmas existem para serem questionados.

Que possamos pensar melhor. Desta forma, não compraremos gatos por lebres.

Que sejamos impedidos, por nós mesmos, de burocratizarmos as nossas emoções para que elas possam ser sentidas.

Que sejamos autônomos para que possamos, assim, questionarmos as muitas bases hipócritas nas quais nos apoiamos para defendermos o indefensável.

Que aprendamos a não atrapalhar. Assim ajudaremos e muito.

Que sejamos representativos para nós mesmos.

Que a gente não reclame da cobrança se, de verdade, tivemos mais chances e condições.

Que a nossa voz baixa prevaleça em 2017, para que aquele que realmente precisar falar tenha vez e seja ouvido.

Que a palavra renúncia faça mais parte do nosso dia a dia.

Que o palco não seja a nossa única aspiração. Que assistir, muitas vezes, ao espetáculo da vida, da plateia, também nos proporcionará alegrias e realizações.

Que nossas conquistas sejam mais morais do que materiais.

Que o grito ceda lugar à paz.

Que a gente se canse de guerrear.

Que a crueldade comece, de verdade, a nos incomodar. E que o “fazer o quê?” não faça mais parte da nossa fala.

Que a violência passe a ser compreendida como a voz dos incompetentes.

Que a gente não acredite em todos os elogios. E também nem em todas as críticas.

Que sejamos justos com o tempo. Ele sempre comparece. Nós é que insistimos em administrá-lo mal. E depois dizemos que não temos tempo.

Que o nosso tempo também sirva para ouvir a história do outro. Quem sabe, assim, a gente pare de falar somente da gente?

Que a gente se esforce para se lembrar de que criticar é, muitas vezes, destruir.

Que o ano seja de construção forte e resistente, com tijolos que, de verdade, existam.

Que nossas atenções estejam voltadas para o bom combate, como dizia o apóstolo São Paulo.

Que a gente abra mão do ridículo. Pararmos de fingir que estamos dormindo para não cedermos o banco, no metrô, servirá de começo.

Que possamos colocar nossos sonhos nas primeiras prateleiras das nossas vidas. Somente desta forma eles terão espaço para concretização.

Que possamos nos centrar em nós para sabermos o básico, pelo menos.

Que possamos reconhecer as nossas hipocrisias disfarçadas de boas intenções.

Ao ano de 2016, somente nos resta agradecer pela paciência, tolerância e compreensão. Demos muito trabalho a ele. Ao ano de 2017, obrigada por confiar na gente e nos dar mais uma chance para acertarmos. Vamos nos esforçar para não o decepcionar.

Afinal, como diz, novamente, Carlos Drummond de Andrade:

“Mas se desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor...

O melhor vai se instalar em nossa vida. Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura. ”

Que tenhamos uma larga visão sempre sobre o melhor para que ele se sinta confortável de se aproximar da gente e, mais que isto, se instalar em nós, como disse o poeta.

Um ano novo, de verdade, a todos!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

E...E...E...Vamo, Vamo, Chape

É com muita tristeza que escrevo este texto. De verdade, não queria fazê-lo. Não sobre isto. Não sobre este tema. Mas foi a forma simples que encontrei para homenagear os que se foram na última semana, o dia em que todos acordamos com aquela triste notícia.

imagem tirada da internet

Em situações como esta, o velho ditado “Deus dá o frio conforme o cobertor” é posto em xeque. Nossa fé é testada. Nossa força é chamada. Nossa coragem se desencoraja frente à crueldade como tudo aconteceu. Nossos medos se agigantam e ficamos pequenos, muito pequenos. Tomamos pé de nossa pequenez e talvez, nesta hora, caibamos naquele cobertor do ditado. Em momentos assim, o chão é algo que não se encontra e as referências, urgências e pendências perdem o sentido.

O silêncio é a única necessidade. Ele ameniza o cansaço. As palavras ocupam espaço demais nesta hora. O recolhimento é o esconderijo ideal.

Nestas horas costumo ficar de mal com Deus. Fiquei algumas vezes de mal dele durante a minha vida. É como se ele não tivesse cumprido a promessa que nos fez de que seríamos todos felizes. E nas minhas conversas com ele, costumo cobrar isto. Na maior parte das vezes, ele silencia. Acho que esperando que eu recobre minha lucidez. Ele espera. Sempre espera.

E logo a frente, peço desculpas a ele, e fazemos as pazes. Preciso dele e do entendimento que somente ele poderá trazer. A isto chamamos fé. A fé não se explica, se sente. E num momento como este, para aquele que tem fé, a caminhada fica menos dolorosa.

A fé nos faz acreditar naquilo que não encontramos explicação lógica. E o que aconteceu foi um exemplo clássico. Como explicar o que aconteceu? Não há como explicar.

Não há como ficar indiferente. Aquele que não se emocionou e não se sensibilizou com o que ocorreu deve se perguntar o que faz no mundo. Uma pergunta importante para se fazer. E aquele que tenta pegar carona nesta tragédia para resolver incompetências pessoais, o título de ser humano não é merecido. Deveria se recolher ao lugar de insignificante.

As homenagens feitas a todos aqueles que se foram (jogadores, profissionais do clube e jornalistas) foram dignas e justas.

Aquele grito “E...E...E...! Vamo, Vamo, Chape! ” ficará marcado em nossas memórias. O grito era, nas arquibancadas da Arena Condá, em Chapecó, e no estádio Atanasio Girardot, na Colômbia, uma triste tentativa de manter viva a esperança no amanhã, além da gratidão expressa na palavra Heróis, estampada nos telões. E na contagem regressiva, o grito de “é campeão” também se misturava à dor de todos.

Um título mais que merecido: serão sempre lembrados como Heróis.

Em seu Hino, a Chapecoense traz na letra: “...são tantos títulos outrora conquistados com bravura, muita raça e fervor. Leva consigo o coração de uma cidade...”.

E será nesta bravura, raça e fervor que ela precisará se apoiar para se reerguer. E este reerguer começou no choro inconsolável dos meninos da base, que a partir de agora carregam a missão de levantarem o time e o colocarem, novamente, numa posição de destaque.

Muito triste. Uma perda irreparável.

O Brasil parou. O mundo se comoveu. E todos prestaram as suas homenagens. Todos unidos num só coro: “Força, Chape! ”. A beleza deste coro seria ainda maior se não fosse pelo motivo que a causou. A união de forças que se deu foi uma demonstração de que ainda temos a bondade e o amor dentro de nós. Infelizmente ainda temos a dificuldade de expressar tal sentimento de bondade e de amor fora das tragédias. Mas ainda há chance. Mas ainda há esperança. Mas ainda há motivos.

A união e a solidariedade vistas foram emocionantes.

Ainda somos capazes de amar. Mesmo que seja num momento ímpar e de dor. Ainda assim somos capazes.

A dor nos causa uma sensação como se estivéssemos anestesiados. O problema é que o efeito da anestesia, ao passar, nos colocará, novamente, nos pódios criados por nós para servirem as nossas vaidades.

A dor nos anestesia. Faz-nos baixar a guarda, baixar as nossas armas e nos colocar ao lado do outro e não acima dele. A dor do outro nos comove porque sentimos dor também. Frente àquilo, não há o que fazer. Somos impotentes, frágeis, pequenos. Somos humanos.

Por que precisamos de uma tragédia como esta para expressarmos amor, caridade e solidariedade?

Por que na hora da dor temos tempo de estarmos juntos?

Por que na hora da dor abraçamos quem nos é desconhecido? Mas não sabemos sequer o nome do nosso vizinho?

Por que na hora da dor acolhemos o nosso adversário?

Por que num momento de dor nos unimos? Por que neste momento não temos cor, raça e religião? Por que num momento de dor abrimos mão de nossos compromissos imprescindíveis? Mas ao passar este momento, voltamos para os nossos compromissos adiáveis, cuja presença é fundamental.

A morte traz reflexões que a alegria busca esconder. Por que precisam nos lembrar, por meio de tristes acontecimentos, que a união e a fraternidade são, de fato, fundamentais? Por que a tristeza aproxima e a alegria afasta, muitas vezes? No mínimo, irônico.

São muitas as perguntas. E poucas as respostas. E precisamos nos acostumar com o fato de que nem sempre teremos acesso às respostas de que gostaríamos. Ainda ficaremos por muito tempo sentindo o incômodo de termos perguntas sem respostas.

O Atletico Nacional propôs que o título fosse dado ao time da Chapecoense. Que linda atitude.

Uma atitude de campeões e de pessoas que já entenderam o verdadeiro sentido da vida.

O mundo precisa de mais atitudes como esta. Pessoas que agem desta forma, certamente, já encontraram muitas respostas para as suas perguntas.

O tempo vai passar. A dor daquelas pessoas que perderam seus amigos e parentes se transformará em saudade. Uma saudade sofrida e inesquecível.

Um choque para todos nós. Um duro aprendizado. Um golpe violento. A vida tem seus dias felizes e seus dias tristes.

Ela também fica de mau humor.

A morte tem o poder de nos calar e de nos colocar no nosso lugar. Ela não deixa dúvidas sobre o que fazer: por isto expressamos todos aqueles sentimentos de compaixão, de amor, de fé e de solidariedade. Neste momento, sabemos exatamente o que precisa ser feito. Parece um choque de realidade.

O silêncio que ela provoca rompe padrões estabelecidos. Não há regras. As máscaras caem.

Aquela mesma fé que tenho me faz crer que a vida continua. O jogo foi interrompido apenas por um tempo. Mas logo ele retomará. Não demora e eles colocarão novamente suas camisas verdes e voltarão ao campo. É só uma questão de tempo. Foi só uma parada técnica, num dia de muito sol, para um copo de água.

A trajetória destas pessoas e deste time não merece o vice-campeonato. Por isto o grito de “é campeão “ foi cantado justamente.

Parabéns a todos! Vocês todos são campeões! E sempre serão lembrados como Heróis.

Heróis de um tempo, de uma época, de um povo.

#somostodoschapecoense

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Jean de La Fontaine, poeta e fabulista do século XVII, que diz:

“Nas asas do tempo, a tristeza voa”.

Uma frase curta, mas que expressa muito do que sentimos na última semana e que, certamente, ficará em nossas memórias.

E...E...E...! Vamo, Vamo, Chape!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Os crocodilos incompreendidos

imagem tirada da internet
Diz a história que um milionário promoveu uma festa em uma de suas mansões. Num determinado momento, ele pediu para baixar o som para poder falar com os convidados. Ao lado da piscina, aonde criava crocodilos, ele disse:
- Quem pular na piscina e conseguir atravessá-la até o outro lado ganhará todos os meus carros. Alguém se habilita?
Espantados, os convidados ficaram em silêncio. E o milionário insistiu:
- Quem pular na piscina e conseguir atravessá-la até o outro lado ganhará todos os meus carros e os meus aviões. Alguém se habilita?
O silêncio foi desconcertante.
Mais uma vez, então, o milionário disse:
- Quem pular na piscina e conseguir atravessá-la até o outro lado ganhará todos os meus carros, os meus aviões e as minhas mansões.
Foi neste momento que alguém saltou na piscina. A cena era impressionante. Uma intensa luta. O rapaz que saltou na piscina se defendia como podia. Segurava a boca dos crocodilos com pés e mãos. Tentava torcer o rabo dos animais. Muita violência e emoção. Após alguns minutos de terror e de pânico, o corajoso homem, cheio de feridas, saiu da piscina. Vivo.
O milionário se aproximou dele, o parabenizou e perguntou:
- Aonde você deseja que os meus carros sejam entregues?
- Obrigado, mas não quero os seus carros, respondeu o rapaz.
Surpreso, o milionário perguntou:
- Então você aceita os meus aviões? Aonde posso entregá-los?
- Obrigado, mas também não quero os seus aviões.
Estranhando a reação do homem, o milionário fez mais uma pergunta:
- E as minhas mansões? Agora elas pertencem a você!
- Eu tenho uma bela casa, não preciso das suas, respondeu o rapaz.
Impressionado, o milionário perguntou:
- Mas se você não quer nada do que ofereci, o que quer então?
- Apenas encontrar o imbecil que me empurrou para dentro da piscina!
Humor à parte, ninguém, em sã consciência, se atiraria, literalmente, numa piscina com crocodilos. A aparência amiga que a imagem deste texto sugere está presente só nos desenhos. Na vida, queremos ficar longe deles, mas nem sempre é possível.
Sempre escrevo que são várias leituras que podem ser feitas a partir de um texto. E com este não poderia ser diferente. Toda e qualquer leitura que fazemos sempre trará a verdade de cada um.
Lendo esta história, me lembrei das piscinas com crocodilos pelas quais já passei, e com as quais fui convidada a lidar e a mergulhar. O convite, muitas vezes, vinha mascarado de oportunidade na fala de um mau gestor, no erro por escolhas mal pensadas, no comportamento dos hipócritas, no discurso pronto e hostil e aquele comprado por pessoas que não faziam da ética, a sua primeira opção de vida. Piscinas não me faltaram. Algumas fundas, que me ensinaram a nadar, e outras rasas que, apesar de eu não ter o problema da profundidade, outros crocodilos eram colocados lá a todo momento. O convite vinha por todos os lados.
Nunca entramos, por querer, em piscinas com crocodilos. No máximo, sabemos que estamos entrando num lugar com animais ferozes, mas o nosso otimismo natural sempre nos faz crer que o bicho “não é tão feio assim como pintam”. E aí, esperançosos, colocamos parte dos nossos pés na água, e quando nos damos conta, o crocodilo já está atrás de nós. Na maioria das vezes, o que ocorre, exatamente como na história, somos convidados a dar um mergulho numa piscina com integrantes bem acessíveis e generosos.
Entrar em piscinas com crocodilos não depende apenas de nós. Permanecer nelas, sim.
Os crocodilos, apesar de sua aparência repugnante e do perigo que representam, nos fazem um serviço que anos de estudos não seriam suficientes: eles nos fazem, como na história, lutar como guerreiros, desejar a nossa sobrevivência, descobrir o nosso lado estrategista, planejar, confiar, desenvolver o foco e a atenção, ter um objetivo e persegui-lo.
Com um crocodilo atrás da gente, o tempo e a vida são mais valorizados.
Eles nos elevam a um patamar de excelência que levaríamos anos para descobrir e para colocar em prática.
Na história, mesmo à força, aquele homem descobriu que “o outro lado da piscina” é para todos, inclusive para ele. Que chegar “do lado de lá” dependia, entre outras coisas, dele.
Metáforas e proporções à parte, estarmos mergulhados numa piscina com crocodilos é sinônimo de testar nossas forças, de não desistir e de, acima de tudo, rever planos e objetivos. Os crocodilos são excelentes anfitriões. Eles não nos dão muito tempo para firulas. Forçam-nos a nos enxergar dentro da piscina e saber quem somos. Estar lá é um convite para saber se o rumo tomado está certo.
Os crocodilos sempre indicam caminhos. É preciso saber reconhecê-los e trilhá-los.
Eles sempre foram presentes em nossas vidas. Como são quietos e lentos não percebemos a sua presença. Mas eles estão lá.
Com ou sem o nosso consentimento, eles têm vida própria e sempre nos visitam ao longo de nossas vidas, e de formas variadas. Eles chegam, se acomodam e ainda nos pedem um café, porque não têm hora para irem. Mas quando eles se vão, nos agigantamos. Olhamos para trás, para a piscina na qual estávamos mergulhados e, de forma irônica, agradecemos aos crocodilos pela visita, até então incompreendidos por nós. Reconhecemo-nos vivos e munidos de ferramentas até então desconhecidas por nós. Ferramentas nos dadas por eles.
Ferramentas que descobrimos ao longo de nossa jornada até o outro lado da piscina. Ferramentas que descobrimos enquanto lutávamos com os crocodilos.
Eles existem para despertar a força que há em nós, cuja capacidade não tivemos para fazê-la. Mas eles tiveram e fizeram o trabalho por nós. Os crocodilos são ágeis e atentos.
Dentro de uma piscina com crocodilos, o “não posso” não existe, mas sim o “como”. Somente isto nos fará sobreviver a eles. O como abre caminhos para o outro lado da piscina; o não posso nos faz ser engolidos.
Enquanto nadamos até o outro lado, o crocodilo vai nos obrigando a descortinar nossos saberes. É uma questão de sobrevivência. Não temos saídas e opções. E a medida que avançamos e chegamos do outro lado, o crocodilo vai se despedindo de nós. Vencer é uma questão de escolha e de criar possibilidades.
Sem eles, poderíamos ter ficado pelo caminho. Muitos de nós, por não terem tido crocodilos em suas vidas, viveram às margens da paisagem vista da janela. Mas os que tiveram a grande sorte de terem sido jogados dentro de piscinas com crocodilos, hoje ajudam a pintar a paisagem, e não apenas a contemplam.
Portanto, gratidão aos crocodilos do caminho, antes que os convites para novos mergulhos cheguem a nós.
Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Horácio, Filósofo e Poeta da Roma Antiga, que diz:
“A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. ”
Bendito sejam os crocodilos do caminho.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Os elefantes invisíveis

Durante minha trajetória profissional, trabalhei na equipe de um grande Líder com quem aprendi muito. Quando acontecia algo absurdo que, na visão dele, representava uma grande perda de foco e de tempo, ele dizia: “prestamos tanta atenção às formigas, que não percebemos a passagem dos elefantes. ”

Fico imaginando como não perceber a passagem de elefantes..., mas o fato é que eles passam, estão passando e já passaram. E a gente nem percebeu, realmente.

Obviamente que dar atenção às formigas é fundamental. Elas também fazem a diferença. E apesar de seu pequeno tamanho, suas obras são imensas. Mas naquele momento, ele chamava a atenção para o fato de que as formigas estavam bem cuidadas e encaminhadas, mas os elefantes não. As formigas estavam à mostra. Mas os elefantes não. As formigas se mostravam e faziam questão de dizer que estavam passando. Mas os elefantes não.

Formigas e elefantes: dois lados que dão conta das nossas questões e nos chamam a refletir. Mas quem está com boa vontade e disposição para esta conversa?

Ver e perceber as formigas é muito mais fácil. Organizadas, perfeccionistas e previsíveis, no bom sentido. Então, como não perceber que elas estão lá?

As formigas não se escondem. Mostram-se e o caminho delas é conhecido.

No entanto, os elefantes, mudam suas rotas ao primeiro sinal de perigo. São fortes. Atacam e constroem caminhos alternativos para despistarem os inimigos. Vivem em localidades de difícil acesso e dificultam, ao máximo, a proximidade com o homem.

Os elefantes não se mostram. Escondem-se e isolam-se. O caminho deles não é conhecido.

Por tudo isto é que aquele Líder, de verdade, com quem trabalhei, dizia isto com frequência.

Ter atenção para perceber o que realmente importa é para poucos. Perceber formigas é essencial. Mas perceber elefantes é imprescindível. Mas isto é para poucos. Apenas para aqueles cujo olhar se despojou de percepções inúteis e desnecessárias, livres do preconceito e das vaidades. E este olhar é para poucos.

A história abaixo, aparentemente inofensiva e divertida, escrita pelo cronista Sérgio Marcus Rangel Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, traduz o que trago neste texto. A história é sobre a Velha Contrabandista...

imagem tirada da internet

Havia uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira, montada na lambreta, e carregava um saco atrás. Todos da Alfândega, experientes, começaram a desconfiar dela.

Um dia, quando ela vinha em sua lambreta, e carregando o saco atrás, o fiscal pediu para ela parar e perguntou:

- Escuta, aqui, vovozinha. A senhora passa aqui todos os dias, com esse saco atrás. O que a senhora carrega dentro dele?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que ainda restavam e mais outros que adquirira no odontólogo, e respondeu:

- Carrego areia!

O fiscal sorriu e não acreditou nela. Teve a certeza de que ela não carregava areia alguma naquele saco, e mandou que ela descesse da lambreta para examiná-lo. O fiscal, então, esvaziou o saco e dentro, realmente, só havia areia. Envergonhado, ordenou à velhinha que seguisse. E assim ela foi embora.

Mas o fiscal, mesmo assim, continuou desconfiado. Pensou que ela estivesse passando num dia com areia e no outro com muambas, dentro daquele saco. No dia seguinte, quando ela passou em sua lambreta com o saco atrás, o fiscal pediu para ela parar novamente. Perguntou o que ela levava no saco. E, de novo, ela respondeu que era areia. O fiscal examinou e confirmou. Durante um mês o fiscal parou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Aí o fiscal se chateou e disse:

- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega há 40 anos. Reconheço de longe esta coisa de contrabando. Ninguém me convence de que a senhora não seja contrabandista.

- Mas no saco só tem areia, insistiu.

Quando ela ameaçou seguir com a sua lambreta, o fiscal propôs:

- Eu prometo que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai ter que me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

- O senhor promete que não "espaia"?

- Juro, respondeu o fiscal.

- Meu contrabando é a lambreta...

Pois é, quantas lambretas não deixamos passar por estarmos tão obstinados em descobrirmos o que havia no saco.

Sabermos onde estão as formigas e o que há no saco é importante. Faz parte do processo. Mas enquanto estivermos destinando o nosso olhar apenas para isto, nossos elefantes invisíveis passarão, montados em lambretas, sem que percebamos a sua passagem. No máximo, acenaremos para eles, enquanto passarem por nós, como ilustres desconhecidos, sem sabermos o porquê os cumprimentamos e sem sabermos quem eles são...