terça-feira, 28 de março de 2017

O caminho escolhido nos revela

Quem vê aquele senhor, parado próximo à guia, verificando o celular, não diz que há poucos minutos ele descia de um carro que estava em fila dupla. A fila dupla que duplica o que não precisa: os entraves do caminho escolhido por aquele que faz errado e por aquele que acata o que o outro faz de errado.

Os pés descalços daquele que não tem o que entrar pela boca, muito menos o que vestir nos pés. Os pés descalços daquele que sente a terra para acordar os seus sentidos. O descalçar para estabelecer uma conexão sem intermediários: os sapatos que escondem as marcas daquele que anda, que busca, com ou sem calçado.

A mãe que veste um agasalho no filho mais novo porque começou a esfriar. O mais velho puxa a planta do jardim de um prédio e ainda pisa na grama. Mas o filho mais novo está agasalhado, mesmo que às custas de gramas e plantas machucadas.

O homem que passa, e que buzina, e que xinga, e que gesticula, e que fala alto. Mas ele acabou de sair da missa e de comungar. É possível, ainda, verificar o pequeno terço que vai no espelho do retrovisor do carro dele.

O menino que passa verificando uma mensagem no celular. Tropeça na pessoa que vem na direção contrária. Mas que não levanta a cabeça porque está verificando a mensagem.

A moça passa gravando um áudio, também, no celular. Caminha contornando os obstáculos, no caso, pessoas, e se apressa para chegar a um lugar que talvez nem saiba onde fica. Mas a pressa a fará chegar mais depressa ao lugar desconhecido.

A mãe que passa de mãos dadas com a criança. Mas a velocidade do caminhar não é a da criança, mas sim a da mãe, que, no caso, é a que menos precisa.

O caminho que escolhemos nos revela.

As especializações que dificultam o aprendizado. A simplicidade que constrói, porém não é valorizada por ser simples demais.

O mau gestor que rouba a energia de quem está perto. A incompetência disfarçada é pior que a incompetência declarada. Habilidades e competências não fazem parte de seu atuar. Querem ser servidos. Mas fingem que servem. As necessidades reais sendo sobrepostas por necessidades criadas sob o comando da arrogância e da vaidade. Doentes morais. Ele não deveria estar lá. Mas quem o colocou lá? Aquele que compartilha disto.

O bom líder que não tem muitas chances por não compartilhar da ausência de ética de muitos.

O bêbado que está sóbrio. O lúcido que vê coisas.

A criança que grita para chamar a atenção. E que consegue. Se ela gritar com a vida, será que ela para, também? Pode ser que sim, se ela estiver de bom humor...

Os acordes desafinados tocados pelo mestre. A afinação é coisa do passado. Quem perceberá o desafinar, no espetáculo, se as luzes do palco concorrem com as luzes dos celulares e dos computadores?

O analfabetismo necessário para a manipulação que se deseja. Manipular aquele que não sabe é covardia. Mas manipulação me parece que tem sido sinônimo de uma espécie de “cidadania”. O manipular cria uma situação de necessidade, para o mais fraco. Assim, aquele que manipula terá espaço para despejar suas sombras no outro.

Os trechos ditos pelo padre, durante a missa. Minutos depois, este mesmo padre dormiu enquanto os demais rituais eram seguidos e presenciados por pessoas que não estavam lá. Mas que estavam comodamente sentadas nos bancos.

A fala repetida não porque faz sentido, mas pela simples rotina da repetição.

Mais uma pessoa passa verificando seus e-mails. Conectados cada vez mais com algo que nos desconecta de nós mesmos. A conexão com a máquina facilita o distanciamento nosso de cada dia, e estamos longe de encontrarmos o pão, como diz a oração. Ele está próximo de nós, talvez por isto não o encontramos.

Para encontrarmos o pão, será necessário dividi-lo. E para dividi-lo, será necessário sentar-se ao lado do outro, para ficarmos do mesmo tamanho dele. Ainda não encontramos este pão. Nem em aplicativos, porque foram criados por quem evita massas e glúten.

O cachorro puxa firme a coleira. Quer andar mais rápido para poder aproveitar bem o passeio. Não sabe quando sairá de novo.

O correr é um sinalizador de ausência.

O sofrer é um sinalizador do conhecer.

Aquele que passa falando muito, porque as vozes da sua mente são insuportáveis. Aquele que é calado porque já fez as pazes com a sua consciência.

O choro misturado ao riso. Uma mistura chamada vida.

O grito misturado ao silêncio. Um exercício de inclusão em nós mesmos.

Reconhecemo-nos inclusivos, desde que a gente não precise fazer parte disto. A inclusão está no discurso e a exclusão na nossa prática. Somente incluímos aquilo que traz inclusões para nós. Do contrário, a exclusão é a regra. Se assim não fosse, por que ainda discutimos as velhas e mesmas coisas?

Discurso e prática: a melhor forma de conhecer alguém. O caminho escolhido nos revela.

Somos reconhecidos pelas nossas escolhas, discursos, ações e reações.

Aquele mesmo senhor que vai, novamente, à missa, reza a oração junto ao padre. Todos se levantam como sinal de respeito. Logo adiante, o sinal do semáforo não é respeitado pelos mesmos integrantes da missa. Seriam situações distintas?

A comunhão é a simbologia da divisão, do partilhar. Mas ainda temos dificuldades de partilharmos o que vai em nossos excessos.

A mesma fila dupla. Agora outra pessoa. Vários carros passam e buzinam. Pedem licença para passarem. O homem assiste a tudo passivamente. Como se não fosse com ele. Mas é. E ironicamente, um adesivo no carro deste mesmo homem que faz da fila dupla uma extensão da sua existência, diz: “que Deus te acompanhe”.

A ironia que nos sustenta, mas que não somos capazes de compreendê-la. As contradições que nos formam, mas que juramos que não somos assim, tão contraditórios. Os paradoxos que escondem nossos valores e que, ao serem revelados, nos dão espelhos de presente.

Criamos espetáculos porque acreditamos na ilusão. Mas o que, muitas vezes, não percebemos, é que a plateia que nos assiste está sedenta por nossa queda. E imediatamente a nossa queda, aquele que nos ajuda é o que não está na plateia, e sim, nos bastidores nos aguardando. Porque lá é o lugar aonde tudo é construído e sustentado.

O palco é um lugar de ilusões e de representações. A vida, de verdade, se faz antes dele.

O dia em que ampliarmos a nossa compreensão sobre quem, verdadeiramente, somos, e não sobre quem queremos aparentar ser, as ironias, os paradoxos e as contradições serão remotas lembranças. Os recados já terão sido todos dados.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com a imagem abaixo:

imagem tirada da internet

Que nós sejamos o pássaro da imagem que, com o seu atrevimento de pousar em um lugar proibido, pelo menos para ele, ousa questionar as regras e mais, transgredi-las com argumento sólido. Que sejamos nós, este pássaro, fazendo reflexões sobre nossas contradições e limitações para que possamos ser mais, muito mais.

Nossos caminhos escolhidos nos revelam quem somos.

Que estejamos em paz com os nossos caminhos escolhidos e com a revelação que eles fizerem. Mas se não estivermos, que saibamos que ainda há tempo de tirarmos o nosso carro da fila dupla e de irmos à missa de verdade e por vontade. E mais: que o terço em nosso retrovisor seja, de verdade, um reflexo da nossa crença e escolha de vida. E não um objeto que decora um espelho no qual não reconhecemos a imagem nele refletida.

terça-feira, 21 de março de 2017

A fôrma que nos forma

Um pai, em companhia do filho, arrumava o peixe, sem a cabeça, na fôrma. O assado sairia num instante. O filho, observando o pai, perguntou:

- Pai, por que o senhor cortou a cabeça do peixe? Por que não podemos assar todo o peixe?

- Não sei, exatamente, meu filho. Por que a pergunta? Sempre fizemos desta forma. Além disto, esta é uma receita antiga. Aprendi com o seu avô.

O menino inquieto e insatisfeito, continuou:

- Mas por que, então, o vovô também corta a cabeça do peixe?

- Não sei, meu filho. Vamos até ele perguntar. E assim foram os dois até o avô do menino.

- Vovô, por que o senhor corta a cabeça do peixe? Por que não o assamos inteiro?

- Eu não sei, meu neto. Esta receita é tão antiga. Aprendi com o meu pai. Só sei que sempre fiz assim.

- Mas o senhor nunca perguntou o motivo? disse o neto.

- Não, nunca perguntei. Sempre foi feito assim. Mas se quiser, podemos ir até o seu bisavô perguntar. E assim foram. Chegando lá, o menino perguntou:

- Biso, por que o senhor corta a cabeça do peixe para assá-lo? Por que não podemos assá-lo inteiro? O bisavô olhou para o menino, um tanto indiferente, e disse:

- Não sei, meu filho. Isto é tão antigo. Nem me lembro mais do motivo, para ser sincero. Só sei que aprendi com meu pai, seu trisavô. Vamos até ele perguntar? E assim foram.

Quando chegaram lá, encontraram um senhor de aparência serena e tranquila. O menino se aproximou dele e perguntou:

- O senhor poderia me dizer o motivo de cortarem a cabeça do peixe, antes de assá-lo? Por que precisamos fazer isto e não o assar inteiro?

O trisavô, no auge da sua sabedoria, respondeu:

- Ah, sim, claro, realmente quando fiz este peixe pela primeira vez cortei a cabeça dele, sim. Mas foi só a primeira vez. Nas demais, eu o fiz inteiro, com a cabeça.

O menino, intrigado, diz ao trisavô:

- Ué, mas o meu bisavô, o meu vô e o meu pai cortam a cabeça do peixe todas as vezes que fazem este prato. Por que, então, o senhor não falou para eles que poderiam assar o peixe também com a cabeça?

O trisavô respondeu:

- Simplesmente porque eles não me perguntaram. E eu nem sabia que eles estavam fazendo este peixe desta forma. Eu só cortei a cabeça do peixe uma vez porque a minha fôrma era pequena, e a cabeça do peixe não cabia. Se eu tivesse, naquele momento, uma fôrma maior, certamente eu assaria o peixe com a cabeça...

A fôrma que nos forma. Estamos todos em uma. Mas será que ela cabe em nós?

Quando estamos numa fôrma, a medida deve ser justa e certa. Nem mais nem menos. O que sobrar desta fôrma deverá ficar do lado de fora. E como não temos a coragem de nos desinformar, muitas vezes, vamos sobrepondo camadas sobre a nossa essência e assim, perdemos grandes oportunidades de nos conhecer e de saber por qual motivo estamos dentro de fôrmas sendo formatados.

A fôrma que nos forma a seguirmos modelos existentes, mesmo que não façam sentido para nós. E por comodidade, orgulho, medo, negligência, ausência e falsa presença não perguntamos o motivo pelo qual assamos o peixe sem a cabeça.

As perguntas precisam ser feitas, mesmo que tenhamos medo das respostas. Mesmo que não seja compreensível, ainda, a nós, as perguntas precisam ser feitas. Mas quem ousa fazê-las? Cortar a cabeça do peixe parece ser tão mais fácil...

Perguntas bem-feitas nos colocam num outro patamar. Não num patamar arrogante, do inalcançável, daquele que acha que sabe, mas num patamar que pertence àquele que não teme, que enfrenta, que luta e que constrói. O “sempre foi feito assim” é um espaço pequeno e apertado para aquele que não tem medo de assar o peixe com a cabeça.

Não o fazer pelo fazer. Mas o fazer para o fazer.

Não a pergunta pela pergunta. Mas a pergunta para o sentido da pergunta.

Perguntar significa abrir portas mesmo que não tenhamos sido convidados para a festa. A inércia, o orgulho e a preguiça do “sempre foi feito assim” nos aprisionam em nossas próprias inferioridades.

Nossas assadeiras serão do tamanho de nossas perguntas.

Enfrentar e perguntar é amedrontador, mas libertador. E liberdade é o caminho para a felicidade. Uma felicidade verdadeira, livre, de poucas necessidades.

Acatar a passividade da ausência de perguntas traz retrocesso e submissão. Uma servidão voluntária, como provocou Etienne la Boétie, filósofo francês.

Por que obedecemos? Por que abrimos mão da nossa capacidade de decidir? Por que seguimos o que não tem sentido? Por que não questionamos?

Questionar implica construir caminhos.  E construção é sempre trabalhosa e cansativa.

Seguir respostas dadas e caminhos percorridos é acessível a todos. A construção foi feita por outros que não eu. O trabalho foi do outro. Eu só preciso seguir. É mais fácil e menos doloroso.

Quando perguntamos nos expomos ao mundo. Todos vão saber o que pensamos. E se ficarmos sozinhos no caminho após saberem o que pensamos? Após ouvirem as nossas perguntas?

Um monte de conversa só com um fiozinho de ação: nosso habitual.

Falas mais espaçadas com enormes caminhos de ação: o convite da vida. Alguém já o aceitou?

Temos uma altíssima disposição para a adaptabilidade. Somos excessivamente adaptados. E por quê? Porque também cortamos a cabeça do peixe para assá-lo, sem perguntarmos o motivo.

Se cortar a cabeça do peixe fizer sentido e coerência, devemos seguir. Afinal, comer uma cabeça de peixe não deve ser algo agradável. Mas se não fizer sentido cortá-la, por que o fazemos, então? Para seguirmos os passos que o outro já deu antes.

Seguimos o conhecido para não nos perdermos no caminho. Mas será que já não estamos perdidos no caminho trilhado? Afinal, ele foi trilhado pelo outro e não por nós.

Não precisamos seguir rotas que nos foram ensinadas.

Não precisamos concordar, se discordamos.

Não precisamos querer o que o outro quer que a gente queira.

Não precisamos seguir necessidades impostas por pessoas que nos desconhecem.

Questionar o motivo de cortar a cabeça do peixe é dedicar tempo para a vivência, para a experiência, para o que está por vir. Para uma vida com sentido.

Quando não questionamos o motivo de cortarmos a cabeça do peixe começamos a perder a nossa conexão com a vida e com nós mesmos. O questionar constrói. O seguir sem sentido destrói. Aquele que questiona justifica sua estada aqui. Aquele que somente segue e serve a ignorância precisará sempre se explicar. Sua estada aqui parece ser um favor.

A fôrma que nos forma deve ser posta em xeque. Qual é a fôrma que nos forma? Como entramos nessa fôrma? Queremos estar lá?

Mais do que estar e entrar em fôrmas, é saber sairmos delas, mesmo que ao desinformarmos a massa, ela quebre e esfarele um pouco. Quebrar um pedacinho da massa, no momento de desinformar, é o que trará conhecimento para os próximos desinformes.

A ousadia do disforme. A passividade da forma. Duas formas que lutam e vivem juntas.

Aquele que pergunta segue. Aquele que somente segue não valoriza o tamanho de suas pernas e o quanto elas poderiam contribuir para o avanço. O que pergunta, caminha. O que segue, aguarda uma carona de um desconhecido para levá-lo a um lugar qualquer.

Aquele que pergunta é desprovido de disfarces. Aquele que segue o que não faz sentido e não pergunta porque tem medo e preguiça é o que mais precisa disfarçar.

Coragem, ousadia e conhecimento são ingredientes que colaboram para o desinformar e para a rejeição de fôrmas sem sentido e medíocres. Orgulho, preguiça, comodismo e medo são ingredientes que colaboram, e muito, para nos moldarmos perfeitamente às fôrmas que colocam em nossos caminhos ou, até mesmo, em fôrmas que nós próprios criamos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Winston Churchill, que diz: “O orgulhoso prefere perder-se a perguntar qual é o seu caminho. ”

Que a gente não se perca em fôrmas pré-concebidas pelo simples orgulho de não querermos perguntar ou pelo medo de colocarmos uma questão sobre a mesa. E que, se formos assar um peixe, sejamos nós os autores da nossa própria receita, com ou sem a cabeça.

terça-feira, 14 de março de 2017

Nossa velha conhecida

Um corvo, com um belo pedaço de queijo no bico, pousou em uma árvore. Estava sossegado. Mas como todo o sossego dura pouco, uma raposa se aproxima dali atraída pelo cheiro do pedaço de queijo. Com muita vontade de comê-lo, mas sem condições de subir na árvore para pegá-lo, pensou em outra estratégia...

- Bom dia, amigo Corvo! - disse ela.

O corvo a observou e fez uma saudação balançando a cabeça.

- Ouvi falar que o rouxinol tem o canto mais belo de toda a floresta. Mas eu aposto que você, meu amigo, se cantasse, o faria melhor que qualquer outro animal.

Sentindo-se desafiado e querendo provar o seu valor, o corvo abriu o bico para cantar. E imediatamente o pedaço de queijo caiu e foi direto para o chão.

A raposa apanhou o queijo e, irônica, ainda disse: Obrigada, amigo, pelo pedaço de queijo. Mas da próxima vez, desconfie das bajulações...

Moral da história: os bajuladores estão sempre de plantão aguardando a sua queda.

imagem tirada da internet

Lendo esta ingênua fábula, que de ingênua não tem nada, ficou fácil descobrir que o corvo perderia o pedaço de queijo. Assim como estavam claras, para nós, as más intenções da raposa.

Olhando e observando do lado de fora, tudo fica mais fácil e mais claro. Mas quando somos nós os protagonistas da história sendo contada, aonde vai parar aquela nossa facilidade?

O corvo e a raposa são representações do humano que há em nós. Somos um. Somos o outro. Somos os dois. Representado, aqui, por meio de uma fábula, este texto é um convite para descortinarmos algumas janelas que existem em nós. De tempos em tempos, é importante afastarmos as cortinas para podermos enxergar o que a paisagem tem a nos dizer.

O desejo a qualquer custo de ser o melhor, de ser reconhecido e de ser um destaque é o que nos leva ao declínio. Buscar nosso aperfeiçoamento é genuíno e necessário. Deve ser um desejo nosso. Sem isto, pararíamos e perderíamos a chance de irmos além. Um desperdício, portanto. Mas ultrapassarmos a linha do equilíbrio e querermos ser mais do que somos é buscarmos companhia e aconchego na arrogância, na prepotência e na alienação. Sabemos que não são boas companhias. Por que insistimos nisto, então?

Quantos pedaços de queijo ainda perderemos?

Os excessos nos completam, mas não deveriam. Os equilíbrios nos desequilibram. Buscamos a corda bamba. Buscamos o perigo desnecessário. Buscamos a alienação. Buscamos o problema.

Rejeitamos o acerto. Andamos pelo caminho mais difícil. Complicamos o que a vida tenta, a todo custo, descomplicar. Se não há problemas, desconfiamos, e criamos um. Habituamo-nos à falta, à escassez, e não à abundância e à simplicidade.

E quando a solução se apresenta, não a reconhecemos.

O corvo representa a vaidade, nossa velha e conhecida amiga. Somos tão frágeis, que uma bajulação foi confundida com elogio. E como somos ávidos e carentes de elogios, caímos na armadilha da raposa.

imagem tirada da internet

Como são caçadoras oportunistas e ardilosas, usam a inteligência apenas para benefício próprio, e assim, conseguem apanhar as suas presas facilmente. Sabem que o nosso ponto fraco é o desejo do confete a qualquer custo, é a vontade de estarmos sempre no palco, sendo aplaudidos e reconhecidos como os melhores. Qualquer coisa exceto ser o melhor não nos interessa.

Somos o corvo: buscamos o constante elogio. Somos incapazes de distinguimos um elogio sincero de uma bajulação. A falsidade explícita que há nisso cega os nossos olhos.

Queremos tanto o palco, que ele mesmo será o motivo da nossa queda. Queremos tanto as luzes, que elas mesmas nos cegarão. Queremos tanto o brilho, que ele próprio nos ofuscará.

Ironia, não? Mas temos opções. Temos outras escolhas. As raposas de plantão sabem que temos escolhas. Mas elas também sabem que temos dificuldades de compreender estas escolhas. Muito providencial, para elas, a nossa alienação. Que, no fundo, só as alimenta.

É preciso saber receber elogios, sinceros, claro. Um elogio nos fortalece para seguirmos. Um elogio é um eco do outro reconhecendo o nosso valor. É uma voz que contribui para o nosso caminhar. Quando nos elogiamos, quando somos elogiados, de verdade, compreendemos o sentido e o que fazemos aqui. É um norte. Uma direção que, verdadeiramente, nos guia.

No entanto, é preciso saber diferenciar um elogio da bajulação. O elogio foi construído na verdade; a bajulação, na mentira. O elogio é discreto, sem sobreposições, sem excessos. A bajulação é sempre excessiva, desconfortante, constrangedora. O elogio não é tendencioso. A bajulação é pegajosa e desonesta. Só serve para alimentar as nossas misérias que tentamos esconder de nós mesmos.

O papel do elogio é alimentar aquilo que constrói. O papel da bajulação é destruir tudo e todos que atrapalham o caminho daquele que acredita que deve ser servido, daquele que acredita que o palco é o mínimo que a vida deve a ele. Daquele que acredita que o outro é mero equívoco da natureza.

Aquele que elogia é livre e feliz porque não está preso a convenções. Possui poucas necessidades porque seu caminho é reto, transparente. Tem foco e direção.

Aquele que bajula está preso em suas próprias teias e, dificilmente, conseguirá sair delas. Será refém de sua própria trama. Deve possuir uma excelente memória para poder se lembrar de todas as mentiras contadas. Sua vida é triste porque desconhece o caminho da liberdade. Desconhece formas de vida eficazes e sustentáveis.

Os corvos que há em nós não nos deixam dúvidas sobre a arrogância e sobre a vaidade que nos alimentam. Enquanto dermos vozes às nossas vaidades desmedidas, as raposas serão sempre muito bem alimentadas. E as raposas que há em nós também não nos deixam dúvidas sobre a certeza de, muitas vezes, utilizarmos a nossa inteligência para aquilo que nos aprisiona e não para aquilo que nos liberta. Enquanto dermos vozes às raposas que há em nós, a base do mundo ainda será a felicidade com a infelicidade do outro. A satisfação porque o outro perdeu o seu pedaço de queijo.

Os corvos que há em nós são tristes porque desconhecem a possibilidade do elogio verdadeiro. Não há a necessidade de bajulações.

As raposas que há em nós são tristes porque desconhecem que o vencer se dá quando o valor e o direito do outro também são reconhecidos.

Quando as mesquinharias deixarem de existir, as raposas entrarão em extinção.

Quando acreditarmos no potencial que habita em nós, sem vaidades, os corvos baterão suas asas em direção oposta a nós.

Não podemos exigir muito discernimento de um corvo e de uma raposa, na realidade. São animais movidos pelo instinto de sobrevivência. Mas de nós, o que já podemos exigir?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma bela provocação de François La Rochefoucauld, pensador do século XVI, que diz:

“A bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana.”

Portanto, se ela existe é porque a alimentamos, seja como corvos, seja como raposas.

Que o nosso próximo pedaço de queijo, se caído de nossas bocas, tenha sido derrubado para alimento do próximo, e não para alimento de nossa vaidade e alienação. Desta forma, as bajulações feitas pelas raposas que aparecerem em nossos caminhos perderão, completamente, o sentido.

terça-feira, 7 de março de 2017

O Mas que constrói

Há uma música escrita por Guilherme Arantes e interpretada por Elis Regina, Aprendendo a Jogar, que diz:

“Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas aprendendo a jogar...”

Esta música somos nós. Vivemos e aprendemos o tempo todo. Ora ganhamos, ora perdemos. E o gerúndio, presente no vivendo e no aprendendo, vem nos mostrar que o processo da vida é contínuo e que está sempre em construção. Portanto, o caminhar é uma certeza. E assim sendo, enxergar e identificar os aprendizados deste caminhar para que eles facilitem os nossos próximos passos é, no mínimo, fundamental para nós. E este é o papel dos aprendizados: nos recolocar na rota, nos fazer enxergar as placas do caminho que, com pressa, passamos sem observá-las. Talvez nos falte descobrir isto. Por isso ainda estamos vivendo e aprendendo...

Esta música é um migrar em nós mesmos. A migração em nós é imprescindível se quisermos aprender a jogar. Não há como aprender sem conhecer e navegar em nós.

A nossa escolha não está no viver e no aprender. Mas como realizar este viver e este aprender.

Vivendo e aprendendo a jogar é uma condição imposta pela vida. Não há como fugirmos disto. Mesmo que ficássemos parados diante à vida, ainda assim, estaríamos vivendo e aprendendo.

Nem sempre ganhando nem sempre perdendo é uma consequência da nossa condição de viver e de aprender. Também não há como fugirmos desta realidade. Quando ganhamos é porque agimos de acordo com a vida; quando perdemos, é porque agimos contra a vida. Simples assim. O difícil é colocarmos isto em prática.

Mas aprendendo a jogar é a nossa escolha neste nosso caminhar chamado Vida. Quando aceitamos a condição da vida, que é viver e aprender, assumimos as consequências desta condição, que são nem sempre ganhando e nem sempre perdendo, conquistamos o direito de escolher, que é aprender a jogar. E a partir deste momento nos tornamos autônomos e livres.

Autônomos para que as influências externas não nos atinjam. Autônomos para sermos os criadores da nossa trajetória. Autônomos para agirmos e não somente reagirmos.

Livres para não nos colocarmos em prisões impostas e criadas por nós. Livres para estarmos e sermos felizes mesmo que não estejamos no palco. Livres para desejarmos desejar a liberdade.

Quando aprendemos a jogar, de verdade, é porque, com ou sem a bola, sabemos o que fazer. Aprendemos a jogar mesmo sem bola. E é preciso valorizarmos isto.

A conquista do aprender a jogar, que é uma metáfora de aprender a viver, somente se dará no momento em que valorizarmos e dermos vozes às nossas gavetas e aos nossos bastidores. Eles representam a essência que há em nós. Mas os escondemos porque não dão ibope e porque temos a tendência de escondermos as bases de nossa formação. Afinal, quem vai querer saber o que vão nas nossas gavetas? O que há em nossos bastidores?

As nossas gavetas e os nossos bastidores nos constroem. Eles estão cheios de Mas.

O mas de “mas aprendendo a jogar” é o momento no qual reconhecemos a nossa imagem nos nossos bastidores. Quando chegamos neste momento, mas aprendendo a jogar, a vida terá valido a pena. As máscaras não nos servirão mais, e o servir será um desejo nosso, e não uma imposição da vida.

Somos cobrados, pela vida, a aprendermos a jogar. Mesmo que ela não permita ensaios, como disse Chaplin, ainda assim ela nos oferece oportunidades e chances de acertarmos e de começarmos de novo, mesmo que seja de forma mais acelerada porque o tempo terá passado. Como se fosse um “Genius”...

imagem tirada da internet

Erramos, percebemos. Saímos do tom. Desafinamos. Este é o aprendizado. E aí recomeçamos e buscamos ouvir a música que toca no “Genius” com mais atenção para não desafinarmos novamente. Este é o aprendizado. Este é o aprender. Este é o viver. Este é o convite que, dependendo de nossas respostas, se tornará uma convocação.

A música do “Genius” toca novamente. Mais atentos, seguimos e acertamos. Pegamos o jeito porque vivemos e aprendemos. Ganhamos e perdemos muitas vezes. Recomeçamos. Aprendemos, de verdade.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Guimarães Rosa, que diz:

“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Uma travessia bela e recompensadora. Somente ela, acredito, nos levará a aprender a jogar, ou melhor, a viver. E nesta hora, seremos livres e autônomos para verdadeiramente ouvirmos a música que toca, na vida ou no “Genius”. E o melhor: seremos capazes de entendermos a letra e o que ela, o tempo todo, quis nos dizer, mas que, por ineficiência de nossos sentidos, não fomos capazes de entender.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A máscara que mostra

Há um poema de Fernando Pessoa, poeta português do século XIX, chamado Tabacaria, que traz um verso belíssimo:

...”e quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. ”

Fernando Pessoa é um destes essenciais escritores que dizem coisas para nos tirar do lugar comum no qual, muitas vezes, nos colocamos. Por meio deste verso, que nada há de ingênuo, ele revela a angústia de sermos humanos, principalmente quando o nosso mundo interior oscila com o mundo exterior. A realidade, muitas vezes decadente, confronta com o que há dentro de nós e pede respostas. Não há como ficarmos indiferentes.

Este poema fala disto: das angústias inerentes ao ser humano. Do confronto da realidade versus aquilo que se quer. Muitas respostas serão encontradas; muitas não. E lidar com as respostas encontradas, mesmo que não tenhamos gostado, ainda assim será mais fácil do que lidar com respostas não encontradas. A angústia nasce disto. Desta resposta que não veio, do sonho não realizado, das experiências vividas no isolamento e no anonimato, dos saberes não aplicados.

Carl Jung, psiquiatra suíço, falecido em 1961, nos ensina que as máscaras são, na linguagem trazida por ele, uma forma de conformidade, uma maneira de cessarmos a nossa guerra com a vida e aceitarmos as suas condições. Baixarmos a guarda. Quando nos conformamos, por pior que pareça este conceito, nos acalmamos. Parece que a vida nos deu uma trégua. Por isso Jung nos diz que a máscara não possui, portanto, somente aspectos negativos. E a ironia está exatamente nisto. Ver o lado bom delas.

Tirar as máscaras é aceitar a nossa condição de inacabados e, portanto, imperfeitos. Quando abrirmos mão da necessidade neurótica que temos de poder e de estatus, as máscaras entrarão em desuso. Mas talvez como ainda não estejamos prontos para enfrentarmos esta nossa condição de inacabados, vestimos máscaras para fazermos de conta que estamos. Afinal, quem irá nos questionar se nossas máscaras são perfeitas?

As máscaras, na época grega, eram utilizadas pelos atores, no palco. A ideia era mostrar, ao público, o distanciamento entre o personagem versus o ator. Era deixar claro que aquela encenação no palco era alheia à vida do ator. Uma coisa era o personagem; outra coisa era o ator. Duas realidades distintas, portanto.

A máscara, em si, nada mais é do que um adereço. Simples assim. Um objeto inanimado. O perigo está justamente na função dada a ela, que é construída por nós. A máscara será o resultado dos nossos desejos e das nossas intenções. Ela pode servir para trabalhar o nosso lado lúdico (brincadeiras de crianças), para participar de uma festa (carnaval), disfarçar o que eu não quero mostrar e outros exemplos.

Por que usamos máscaras se não somos atores encenando uma peça? Podemos não ser atores de teatro, mas somos atores da vida e na vida. Não há como negarmos esta realidade. Por isso, adaptar-se às vezes é necessário. Usar máscaras é necessário. Elas são uma espécie de ferramenta de convívio social. Ou será que podemos ser quem somos o tempo todo e dizer o que queremos o tempo todo? Não. Portanto, as máscaras nos ajudam a conduzir melhor esta dinâmica chamada Vida.

O ideal seria vivermos livres, educados para dizermos a verdade, sempre, e não para sermos aceitos, cordatos e agradáveis. Mas e o limite disto? Quando saber o momento de retirar a máscara antes que ela se confunda com o nosso rosto? Vejo dois caminhos: o primeiro é se observar sem máscaras ou, pelo menos, com menos máscaras. Assim, a visão ficará mais limpa do que há atrás das cortinas. E um segundo caminho: revisitando, frequentemente, conceitos que podem, hoje, não fazer mais sentido. Deveríamos aprender a descontruir máscaras e não incentivados a vesti-las e, assim, perpetuarmos um modelo falido. Acusamos os mascarados. Mas fazemos parte deste mesmo grupo.

É preciso questionar o poder que damos a quem nos obrigada a colocar máscaras. Caímos em profundo esquecimento de nós mesmos quando as usamos. E depois, quando tentarmos acordar, não será mais possível. Estamos tão acostumados a usá-las porque desconhecemos o que é viver sem elas. E cá entre nós, usar máscaras é muito mais confortável que não a usar. Elas nos tornam as pessoas ideias. Que maravilha não precisar explicar quem somos! As máscaras fazem este papel por nós.

A máscara é usada por aquele que perdeu a medida e acabou se perdendo no caminho da própria mediocridade.

imagem tirada da internet

Enxergar a nossa essência requer ausência de máscaras, desprovida de disfarces.

Com elas, os caminhos percorridos são curtos e insustentáveis; sem elas, longos e sustentáveis. Qual caminho escolheremos?

A nossa vaidade é tão grande que, mesmo sabendo não ser ideal o uso constante de máscaras, ainda assim comparamos as nossas com as do nosso vizinho.

A máscara é uma ferramenta do convívio social. A dependência dela não nos traz opções, muitas vezes. Mas acima de tudo, questionar o uso da máscara é fundamental. Usá-la é necessário; mas transformá-la em pele é abrir mão do direito de estar no mundo. A máscara tem o poder (que damos a ela) de esconder a nossa identidade. E o que é pior: tem o poder de transformar a nossa identidade. O super-herói se transforma em alguém que ele não é e cria uma expectativa de que aquele personagem seja ele mesmo. E sabemos que não. A máscara, portanto, é uma maneira de disfarçar, mudar e/ou transformar quem somos. Nos gibis, isto é inofensivo. Mas na vida como ela é, não saber lidar com as máscaras poderá nos tornar reféns dela.

Máscaras perfeitas são máscaras desmedidas num mundo desenhado para ser perfeito, mas que é imperfeito. Vestimos máscaras para podermos exercer a nossa convivência.

Mascarados, fazemos de conta que somos o que não somos para correspondermos às expectativas daqueles que não nos representam. Porque aqueles que nos representam não nos cobram máscaras e expectativas.

A aparência que aparenta aquilo que aparentemente aparentamos. Frase ambígua e redundante. Mas quem é o que veste máscaras? Linguagem redundante nos confunde. Assim como os mascarados, que confundem o ouvinte menos atento.

Aquele que não usa máscara é livre. Livre é aquele que tem responsabilidades, porém com cada vez menos necessidades. Não é para qualquer um.

A máscara aponta o erro, a falha.

Às máscaras, a resposta pronta. Aos desmascarados, a pergunta que importa (im + porta) = trazer para dentro, para aquilo que, verdadeiramente, importa.

Quem se importa com o que importa? Se nos importássemos com o que importa, as máscaras estariam em desuso, no máximo seriam usadas, como brincadeiras, num sábado de carnaval.

Enfim, vestir, para sempre, uma máscara nos torna marionetes da vontade alheia.

A propósito, você já tirou a sua máscara hoje? O que viu no espelho? Ou ainda está vestido com ela? Se soubermos esta resposta, a lucidez ainda está fazendo parte das nossas escolhas. Sabemos que usamos máscaras. Mas se não soubermos se ainda estamos vestindo ou não, certamente a máscara vestida já está se confundindo com o nosso próprio rosto.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma inquietante frase de Lêdo Ivo, jornalista e poeta brasileiro, que diz:

“Na vida, precisamos sempre de usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria se nos apresentássemos de rosto nu. ”

Acusação grave, mas quem ousa rebatê-la?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A retidão que mente

Fernando Pessoa, um dos grandes poetas da literatura mundial, por meio do seu heterônimo Álvaro de Campos, escreveu:

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Heterônimo é uma “pessoa” com vida própria, criada pelo autor. E Fernando Pessoa foi um mestre nesta arte, também. Seus heterônimos tinham biografias e definições próprias como se fossem pessoas reais. Um recurso para ter a liberdade de dialogar melhor, e com mais liberdade, sobre certos assuntos. É como se o escritor desse voz a várias personalidades que habitam nele. Neste poema, Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos, faz uma dura crítica a era das aparências, que me parece se estender até hoje.

Um poema que incomoda e que nos faz refletir sobre a imposição de sermos felizes o tempo todo. A obrigação de mostrarmos que estamos bem e que estamos e somos felizes.

De onde vem isto?

De longe, muito longe. Se mergulharmos na nossa história, na história da Humanidade, encontraremos alguns caminhos que explicarão as razões desta nossa alienação. Descobriremos que, ao longo da nossa jornada, as noções de fracasso e de sucesso foram sendo modificadas e construídas com base nos valores e na cultura existentes.

O nosso conceito de sucesso atualizado, com raríssimas exceções, está ligado ao dinheiro, ao estatus, ao cargo e à posição social. E o contrário disto, o fracasso.

Mesmo tendo sido escrito no início do século XX, Fernando Pessoa traz esta provocação e esta reflexão. Logo no início do poema ele diz:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Temos muitas dificuldades de falarmos e de assumirmos os nossos problemas. Não queremos falar sobre os nossos fracassos porque nos comparamos a eles.

O próprio poema foi construído e escrito pelo autor de forma irregular para os padrões métricos. Utiliza esta irregularidade como forma de criticar a retidão que mente, a métrica que não funciona e pior, que aprisiona.

Por que, até um poema, precisa seguir regras métricas? Por que o nosso pensar e a nossa inspiração precisam se encaixar em regras, muitas vezes, sem sentido? Por isto ele faz e constrói um poema fora da regra, não linear, não reto.

O conteúdo do poema é uma ironia àquilo que não é possível.

Tudo certinho, no lugar, em perfeita ordem, sem arranhões. Como passar pela vida sem arranhões? Como viver sem o caos? Como viver sempre na ordem?

Os amigos de Pessoa, aqueles que viviam em linha reta, estavam numa retidão inexistente. Irônica. São fracassados por não assumirem os seus fracassos. Aquele que assume o seu fracasso deu o primeiro passo para a vitória.

Somos vulneráveis na nossa própria condição. A imposição da felicidade nos é feita por pessoas desordenadas que somente acreditam numa forma de felicidade: a impossível.

Somos contraditórios na nossa própria essência. O fracasso e a vitória caminham juntos. A fronteira entre eles é quase inexistente. Portanto, é preciso aprender a dialogar tanto com os nossos fracassos como quanto com as nossas vitórias. É preciso dialogar, inclusive, com a possibilidade do fracasso e com a possibilidade da vitória. Nem uma coisa nem outra está garantida. Por que tanta arrogância, então?

O diálogo com o fracasso nos faz fortes. O diálogo com a vitória nos torna humanos e atentos.

Admitir a nossa infelicidade é acreditarmos ser pequenos. Mas não somos.

O medo de nos expor nos fragiliza. Estamos perdendo o direito à fragilidade, à insegurança. Como o imperativo da felicidade não permite deslizes, a dor está ficando fora de moda.

Estamos perdendo espaço para falarmos do que não vai bem. Estamos perdendo tempo divulgando fotos felizes. Isto é verdadeiro?

Escondemos o que deve ser mostrado. Mostramos o que não interessa ao outro.

A felicidade de uns agride o outro porque ele não se sente representado. Quem vai ouvi-lo? Por isto a simples ideia de felicidade o incomoda e o agride.

Estamos confundindo o conceito de fracasso com os nossos problemas. Tê-los não é sinônimo de fracasso. O que determinará o fracasso e a felicidade é o uso e a atitude que se fizer disto.

O homem de sucesso, o homem em linha reta, é aquele que responde e corresponde aos imperativos da performance, do desempenho e da felicidade.

Por que criamos grades para nós mesmos? Por que criamos prisões e nos colocamos lá?

Mais que receitas de como vencer, precisamos criar formas normais e saudáveis para enfrentarmos os nossos fracassos. Por que somos educados para somente acertarmos e não somos educados para encararmos os nossos fracassos? Por que a educação se cala frente a esta necessidade?

É preciso enxergar o fracasso como integrante da nossa formação.

Sem fracasso não há sucesso. Sem linhas tortas não há linhas retas.

Não deixamos espaço para falarmos sobre a dor, suas consequências e sintomas. Apenas para o riso, mesmo que frouxo e sem sentido.

A felicidade está se tornando um produto padronizado. Aonde compramos, mesmo?

Somos seres inacabados, imperfeitos. Reconhecermos a existência da tristeza é reconhecermo-nos humanos. A sensação de infelicidade, de angústia, de incompletude nos acompanhará, querendo a gente ou não. E, ironicamente, se quisermos reduzir esta sensação, somente aceitando e assumindo os nossos fracassos e as nossas linhas tortas trilhadas por nós.

Nossas falhas e nossos avessos existem para nos servirem e para nos mostrarem quem, verdadeiramente, somos. É preciso, portanto, trabalhá-los.

Talvez fracasso seja, apenas, tarefas inacabadas deixadas por nós, no caminho. Talvez sucesso seja, apenas, o convite da vida para servirmos, aonde reside o prazer e a verdadeira sabedoria.

O fracasso pode ser um ponto de partida. O sucesso, um acerto de contas com a vida.

Fracassar é doloroso. Mas é preciso. Fugir do fracasso é se render ao discurso falido e insustentável da perfeição, do “não erre” e do “acerte sempre”.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Fernando Pessoa:

“A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. ”

A ironia, fortemente utilizada neste poema, demonstra a profunda consciência do autor em nos propor estas reflexões. Que a ironia seja, em parceria com o questionamento, sempre as nossas melhores armas para combatermos a alienação e o pensar submisso.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Saia do script

Há algumas semanas, o controle remoto da televisão parou de funcionar. Simples assim. Com pouco mais de 05 anos de utilização, muito bem conservado e utilizado, ele resolveu se aposentar. É preciso respeitar.

Após tentativas de fazê-lo funcionar (troca de pilha e demais opções que estavam ao alcance), não tive sucesso. Como a televisão é nova, liguei para a assistência técnica para encomendar outro controle remoto. Original. Ao ligar para lá, apesar do bom atendimento, me informaram que o controle que eu buscava não estava disponível no site da Empresa, estava em falta no mercado. Mas a assistência não sabia me dizer se era uma falta de produto, apenas, ou se o controle havia saído de linha. Eu tinha, então, duas opções: fazer o pedido, mesmo assim, e aguardar uma resposta do fabricante, ou ligar diretamente para ele e ter mais informações. E foi o que fiz.

Ao ligar para lá, após ouvir todo o script automático e obrigatório (disque 1, disque 2, disque 3...), fui para a sexta opção que era o meu caso (disque 6 para falar com um dos nossos atendentes). Ao ser atendida, pediram meu nome completo e o meu CPF?!

Qual o motivo para alguém pedir o nome completo e numeração de CPF para uma simples pergunta sobre um controle remoto? Não é mais ético deixar o cliente falar antes? Há casos em que o CPF é necessário (uma compra, por exemplo). Mas este não era o meu caso.

Não forneci o meu CPF e nem o meu nome completo. Para o que eu precisava saber, o meu primeiro nome bastava. E percebi que a atendente não gostou da minha atitude. Disse: “preciso do número, senhora, é norma da empresa. ”

Norma?

Continuei não fornecendo os dados. Disse a ela o motivo da minha ligação. Que apenas gostaria de saber se o controle remoto modelo X ainda era fabricado. Se sim, quando ele estaria disponível para compra. Caso contrário, eu compraria o outro oferecido pela assistência técnica.

E aí, o diálogo abaixo se desenrolou:

- Mas eu não tenho esta informação, senhora. Aqui não é logística para eu saber sobre aparelhos. Sou uma Central de Atendimento. A senhora precisa falar diretamente na assistência técnica. Mais alguma informação?

- Mas eu já falei com eles. E eles me pediram para falar diretamente com vocês, os fabricantes. Sei que você é uma Central de Atendimento (!) e é por isso mesmo que estou ligando. Preciso saber se este acessório continuará sendo fabricado.

- Só um minuto... (aqui entrou a música).

após um intervalo de quase dois minutos...

- Obrigada por aguardar...então, eu vi com o meu supervisor, e é isto mesmo: aqui não é logística. Não temos como saber isto. Mais alguma informação, senhora?

- Meu Deus, não há uma área aí com quem eu possa ter esta informação? Não é possível que eu esteja ligando para o Fabricante e não consiga esta informação. Se não é com você, com quem eu posso falar, então?

- Não sei informar, senhora. Aqui é só uma Central de Atendimento ao cliente. Mais alguma informação?

- Eu sei que aí é a Central, meu Deus, e que eu sou o cliente. Quero falar, então, com o seu supervisor. Você, me passa, por favor?

- Senhora, não estou autorizada. Mas já informei a senhora que não temos este tipo de informação. Posso ajudá-la em algo mais?

(Ajudá-la? Ela não me ajudou…)

- Sim, claro, você pode me ajudar, sim. Vocês possuem um canal de reclamação e uma Ouvidoria, eu acredito.

- Ah, sim, senhora, temos sim.

- Ah, que ótimo. Você pode me falar, então, se posso registrar a reclamação pela internet ou se preciso ligar?

- Pois não, senhora, a senhora poderá estar fazendo a reclamação pela internet, mesmo. Posso ajudá-la com algo mais?

- Não, obrigada.

- A LG agradece a sua ligação. Por favor, fique na linha para avaliar o nosso atendimento...

imagem tirada da internet

É no mínimo irônico. Depois disto ainda me pedem para aguardar para avaliar o atendimento? Confesso que ri ao desligar o telefone. Impossível não rir. Como assim pedir para eu ficar “na linha” para avaliar o atendimento? De qual atendimento ela se referia? Não houve atendimento, simplesmente. E quando eu disse que registraria uma reclamação, ela, prontamente, me falou, “pois não”?

A alienação é um preço muito alto que pagamos pela nossa completa ausência de bom senso. Ela atrofia a nossa inteligência e nos embrutece. Diminuímos de tamanho quando, ao lado dela, nos colocamos.

Ao passar por isso, a palavra script veio fortemente à minha mente. O mau atendimento ficou evidenciado, e cheguei a sentir dó da atendente pela completa falta de autonomia e discernimento dela. Ela tinha outras opções. Mas acho que ela não sabia. Ou se sabia, não quis fazer uso disto.

Lançar mão de outras opções na vida, que não o script, é sempre mais trabalhoso.

Seguir o que já foi escrito e roteirizado, com falas frias e sem sentido, nos transformam em anônimos e despercebidos na multidão de iguais. Ela tinha opções. Mas não teve alcance para ir além da fala pronta, para ler a situação e entender que, ali, era preciso um pouco mais que roteiros previamente construídos por pessoas despreparadas.

Padrão de atendimento não deve ser confundido com mecanização e robotização. Estar e atuar dentro do script é necessário. Mas o mais importante é saber o momento de atuar além dele.

Num mundo onde há muito de tudo, estabelecer regras e instruções é necessário para que se tenha uma certa ordem, controle e padrão. Caso contrário, cada um de nós sairá fazendo o que bem entender, o que achar o certo. Portanto, um pouco de ordem é imprescindível para que possamos conviver com a nossa desordem. Porém com equilíbrio e sem exageros.

Sair do script requer tempo de estrada percorrido, disposição e vontade. A vida não segue um script. Por que, então, insistimos em transformar tudo num padrão? Estamos ficando sem espaço para o improviso, para o autônomo, para a criação.

Executar algo requer um conjunto de instruções. Mas é preciso criar uma gordura de atuação para os momentos que este conjunto de instruções não funcionar.

Trabalhei numa empresa que dizia sempre: “errem dentro da circular, mas não acertem fora dela”. Um conceito retrógrado e ultrapassado. Os erros realmente lá eram poucos do ponto de vista técnico. Mas a opressão, a falta de criatividade e a completa falta de autonomia eram evidentes. Muito se perde com este tipo de gestão pobre, que só fazem ganhar dinheiro e estatus. E só. Mas tudo é uma escolha.

Criamos scripts e roteiros para ficarmos no comando e no controle. É isto o que precisa ser dito. Ponto. Um simples controle remoto é um instrumento que comanda a distância. E o que é o script senão a crença infundada do comando de algo ou de alguém, a distância? O script nos treina para o óbvio, mas não para o mais difícil que é identificar as perguntas que não estão sendo feitas e buscar resolvê-las.

O roteiro nos impõe um limite, nos leva a uma subordinação, ao imobilismo. Mas é preciso saber a razão deste limite e avançar.

Aonde está o nosso senso crítico? Não encontraremos a resposta no script.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Ingmar Bergman, dramaturgo e cineasta sueco, falecido em 2007, que diz:

“Eu escrevo scripts para servir como esqueletos aguardando a carne e o tendão de imagens. ”

Que saibamos seguir os scripts quando forem necessários. Mas que saibamos o mais importante: que eles são, realmente, apenas estruturas e esqueletos. Portanto, que o nosso discernimento e a nossa razão sejam a base, a carne e a imagem. Somos e sempre seremos os condutores e os responsáveis pela decisão de usarmos ou não um script.

Scripts são domesticadores. E não incentivadores de um novo patamar de pensamento.