terça-feira, 1 de agosto de 2017

Inversões necessárias

Frases soltas que muito dizem. Palavras isoladas, mas não no contexto. Falas longas, vazias e sem sentido, que muito espaço ocupam. O cansaço vem da valorização do vazio. A animação e o dinamismo surgem do valor e do sentido.

A economia inteligente que poupa o falar quando ele não se faz mais necessário. O desgaste se dá no excesso e na ausência. O equilíbrio é luxo.

Não se trata de brigar com quem pensa diferente da gente, mas sim de entender o motivo que o fez começar a lutar. Não se trata de punir os corruptos, mas de chegar antes deles. Por que não estávamos lá para termos fechado a porta?

Deixamos muitas portas indevidas abertas, e depois reclamamos que a visita demora a se retirar. O incômodo que se instalou com a nossa permissividade e com a nossa conivência. As coisas estão invertidas porque não cuidamos, não concedemos tempo para isto.

Os contrários também dizem. E é preciso ouvi-los. As inversões que não queremos perceber. Fomos ensinados a olhar o externo, e não o interno. E as inversões estão no interno, sob os tapetes que pisamos cujo tecido nem percebemos. É preciso dar conta dos nossos inversos, dos nossos avessos, dos nossos contrários. O tapete está bem alto, já. O que eles dizem incomoda, mas acomoda muitas coisas que estavam fora dos lugares.

A ordem doente cria a desordem. A desordem da vida e do viver retomam a ordem.

A parada obrigatória para apreciarmos a nossa estada aqui. Parar é uma condição para reequilibrar o nosso inapropriado agir.

Transformamos o incômodo em transtorno. Somos eficientes em fazer do saudável algo insalubre. Assim fica mais fácil remediar. Somos um dos fãs do Rivotril. Está certo isto? Por que não questionamos? Por que aceitamos este sequestro do nosso pensar? Por que o remédio tem mais espaço do que o alimento? Por que nos achamos sem saída? Por que ser um questionador, um perguntador e ter uma inquietude genuína é estar sujeito a ser diagnosticado com algum transtorno? Por que ser quieto é ser doente? Por que ser introvertido é dúvida para um possível problema? Por que medicamos os nossos sentimentos e as nossas angústias? Por que a tristeza, as angústias e o medo têm sido marginalizados? Por que tê-los nos faz menores?

A grandeza de um Homem está na sua capacidade e coragem de sentir e de expressar os seus sentimentos. Este deveria ser o nosso verdadeiro tamanho.

O remédio é fundamental quando o principal tiver sido proposto. Até lá, há vários passos e todos precisam ser dados. Não há atalhos. E se houver, foram criados por manipuladores.

Não se trata de resolver coisas previsíveis, mas de saber os motivos de não termos chegado antes. Não se trata de ensinar a ler e a escrever o idoso, mas de saber o motivo de ele não ter feito isto há mais tempo.

Vivemos uma era fragmentada de inteirezas sem sentido. Nossas vozes internas querem falar, mas ouvimos apenas as externas que pouco ou nada dizem. Mas ocupam espaços e preenchem vazios que ajudamos a construir. O barulho delas nos dá a sensação de estarmos fazendo muito. Mas o fato é que temos muitas informações e pouco conhecimento.

O problema do outro também deveria ser o nosso. Apreciamos a mão que se estende a nós, mas o nosso braço tem dificuldades de alcançar o próximo. “Estou sem tempo, agora”.

Sem generalizações, é preciso dizer que a nossa solidariedade é seletiva. Ajudamos o outro quando algo de nossos excessos sobra, ou quando temos pena. Mas não porque ele poderia ser a gente, literalmente. Não porque enxergamos potencial naquele marginalizado. Não porque a ajuda, sem interesses, está em nós. O fato de o outro estar numa condição precária alivia o nosso medo de estarmos lá. Como não estamos, a dor dele nos alivia e aí, livre deste medo, o ajudamos. Mas ainda é preciso limpar bem o caminho para avançarmos.

Enxergamos o problema do outro, muitas vezes, apenas quando ele nos serve de escada para atingirmos nossos questionáveis objetivos. E satisfeitos em nossas bases de areia, ainda somos vistos como aquele que faz o bem. Dar satisfações para uma sociedade que, de verdade, nem sabe quem somos, é relevante para muitos.

A irrelevância que sustenta vazios. O que verdadeiramente importa muitas vezes nem é percebido por nós. Aquele que já percebeu e faz de suas inversões um avanço, o problema do outro também é o seu. Este é solidário de verdade. E o mais importante: poucos sabem disto.

O silêncio e o anonimato são as armas preferidas dos que fazem o que precisa, dos que enxergam os próprios avessos, dos que constroem relevâncias por meio das próprias mãos e se recusam a assinar as obras. A assinatura deles não necessita ser vista.

Não se trata de valorizar a quantidade de likes, mas de se ter a certeza de ter feito um bom trabalho. Os likes são importantes, mas não deveriam ser determinantes.

O líder que se nomeia Líder, mas que não é reconhecido pela equipe.

Não se trata de tornar-se Líder de uma equipe, em dois anos, porque participou de um processo de Trainee de uma Empresa. Um Líder, em primeiro lugar, não é formado, mas sim reconhecido. E o desenvolvimento da própria formação se dá durante toda a vida e não num período de dois anos. Dois anos são suficientes, somente, para ratificar a nossa arrogância de achar que sabemos. Acreditar que dois anos seja o suficiente para alguém se tornar líder é, no mínimo, debochar da vida. Enquanto isto, as Empresas fingem que formam e os colaboradores fingem que acreditam.

Acreditar em caminhos fáceis e tendenciosos é ser parceiro da mediocridade.

O pai que chama a atenção do filho, mas que não dá atenção ao filho.

O tempo que nos falta para a leitura, mas que damos às redes sociais. O tempo dedicado a elas seria o suficiente para lermos bons livros que, inclusive, nos fariam entender o motivo de tamanha subserviência e servidão.

Bajulamos as novas gerações porque são arrojadas, destemidas, desbravadoras e dominam a tecnologia como ninguém. Será?! Quem é mais desbravador: aquele que constrói o caminho ou aquele que apenas o percorre? Quem é mais arrojado: aquele que usa, como ninguém, a tecnologia ou aquele que a criou? Quem é mais destemido: aquele que vai para as ruas pedir a prisão dos corruptos ou aquele que, de verdade, enfrentou os militares nas ruas e, literalmente, deu a vida por um País mais justo? Gritar a palavra “bandido”, na Paulista, como muito de nós fizemos é fácil quando se sabe que não se pode ser preso por isso. Mas enfrentar o Exército, de peito aberto, sofrer e dizer o que se pensa, como os verdadeiros arrojados fizeram, será que faríamos?

Se saber usar a tecnologia como ninguém, principalmente pelos mais jovens, tem sido motivo de vaidade para nós, no que nos tornaríamos se tivéssemos criado a tecnologia, então? Se somente saber usá-la (o que, de verdade, não fazemos mais do que a nossa obrigação) tem sido motivo de tanto barulho, o que seríamos se tivéssemos contribuído para a construção desta revolução? Portanto, quem é mesmo o revolucionário: aquele que cria ou aquele que somente usa? E aquele que criou certamente não faz parte das novas gerações...

Ser destemido numa sociedade que te cobra isto é fácil. Hoje somos convidados a expor a nossa opinião o tempo todo. Temos espaços para falar. Podemos protestar e hastear as nossas bandeiras diversas. Mas o verdadeiro desbravador é aquele que hasteia a sua bandeira quando é obrigado a recolhê-la. O verdadeiro destemido é aquele que enfrenta o preconceito sozinho, muitas vezes sem apoio. O verdadeiro arrojado é aquele que cria algo do nada, aquele que arrisca em condições completamente adversas.

Deveríamos nos envergonhar de achar que somos o que não somos. Por isso temos tantas dificuldades de olhar para os nossos avessos e contrários que, muito falam, mas que não são ouvidos. Somos importantes para o mundo, sim. Fazemos e fizemos boas coisas, sim. Mas é preciso nivelar a nossa régua e acomodar as nossas inquietações. Estamos muito arrogantes por conquistas que não conquistamos. Falamos três línguas e temos Pós no exterior, mas não sabemos lidar com as nossas frustrações.

Se o machismo tem sido posto em xeque, o mérito não é só nosso. Estamos dando sequência em assuntos iniciados. Iniciar um trabalho é muito mais crítico que sequenciá-lo. Caminhar por caminhos já pisados facilita mais da metade do caminho. É preciso, portanto, valorizar e reconhecer os verdadeiros. E não os que pegam caronas e que adoram colocar as suas assinaturas em obras cuja participação tem sido mínima, frente ao que foi iniciado e concluído pelos verdadeiros desbravadores.

Reconhecer a nossa participação e valorizar o nosso esforço é importante e merecedor. Mas daí a reivindicarmos os méritos e louros é, no mínimo, atestar a nossa pequenez.

Quem são os Heróis de hoje? Quem são os desbravadores de hoje? Quem são os destemidos de hoje? Importante antes de dizer, darmos uma passadinha na História...

Aquele que cria, que corre o risco, que enfrenta: este é o desbravador. O que usa tem o dever de levar adiante a obra, e não requerer elogios falaciosos.

Não podemos ser dignos de méritos que não merecemos. A dignidade se inicia no reconhecimento de quem sou e se desenvolve no espaço que me cabe, e não no espaço que invado por vaidade e despropósito.

Há um pensamento que diz: “pegue a sua caneta, a sua autonomia e o seu poder e assine coisas para o coletivo, e não apenas para si. ”

Não sei quem disse isto, mas traz reflexões. Acredito que seja isto o que nos falta: assinar coisas para o coletivo, como fizeram muitos dos que estiveram aqui, e não apenas para si. Atualmente há muitos também que assinam coisas para o coletivo, mas poderíamos ser um grupo de mais se não fosse a nossa teimosia num individualismo que não deu certo, num palco que só tem espaço para quem nos interessa e numa ajuda coletiva que ofertamos a quem nos dá algo em troca. Novamente, sem generalizações. Mas que é uma realidade, infelizmente, é.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O recesso envergonhado

Na semana passada, o recesso parlamentar teve início. Durante o ano, são 50 dias de recesso: de 22 de dezembro a dois de fevereiro, e de 17 de julho a primeiro de agosto. Está na Constituição Federal. É da lei. É um direito. É meu direito.

Mas porque é meu direito, isso me dá o direito de exercê-lo e de não pensar nas consequências?

Fiquei com esta pergunta na cabeça. Não há respostas prontas, como sempre. Afinal, se é meu direito, qual é o problema em exercê-lo? Por que eu não deveria exercê-lo? Por que não o fazer valer ao meu favor? Ao mesmo tempo, um direito que me favoreça, mas que impacta, negativamente, o outro, é, de verdade, um direito? Do ponto de vista legal, sim, é um direito, mesmo que isto acarrete impactos negativos para o outro. Mas do ponto de vista ético e moral, qual é o meu direito de exercer o meu direito em detrimento do próximo? Só porque está na lei? Mas o que pensamos sobre isto? Por que acatamos respostas prontas como esta: “é porque está na lei? ”

Geralmente quando as respostas que se têm não são suficientes para as perguntas que se faz, ficamos mergulhados na superfície. Porém, já poderíamos nadar em outros mares e aprofundar outras questões, e aprender velhas coisas que já deveríamos ter aprendido. Ainda discutimos as mesmas coisas porque isto nos permite navegar nos mesmos mares. É confortável e não exige do nosso pensar e do nosso agir.

Acomodar-se com “é porque está na lei” é abrir mão da nossa capacidade de pensar e de repensar nossa estada aqui. É abrir mão da possibilidade de fazer a diferença na vida do outro. Quando repensamos nossas atitudes, quando abrimos mão de “um direito” porque este mesmo direito prejudicaria o próximo, abrimos espaço para navegar em outros mares e subimos um degrau na nossa jornada. É uma escolha.

Há tempos, na vida, que ficarmos mergulhados na superfície é conveniente como desculpa para não precisarmos nos investigar e aprender o novo. Este mesmo novo que é velho aos olhos dos que vão à frente de nós.

O recesso parlamentar é um direito. Os políticos não estão gozando de férias irregularmente. Mas é moral e ético interromperem os trabalhos após inúmeros problemas criados, inclusive, por eles próprios, a todos nós? Temos de fazer valer, sim, os nossos direitos, mas desde que estes mesmos direitos não interfiram no direito do próximo. Exceto isto, não são direitos, mas sim, egoísmos disfarçados.

Um recesso com vergonha. Envergonhado e impotente.

O País está com inúmeros problemas de ordem moral e milhares de pessoas sofrem com estas consequências. Mas a lei permite o recesso e nos escondemos na lei para usufruí-lo.

Obviamente que não serão estes quinze dias que resolverão todos os problemas do País. No entanto, se cada um de nós abrir mão destes nossos direitos questionáveis, estes quinze dias se tornarão milhares de dias eficientes. Direitos são muito bem-vindos e devem ser usufruídos. Mas me refiro, neste texto, exclusivamente aos direitos questionáveis, aqueles direitos que, se exercidos, prejudicarão e muito o próximo. A probabilidade de isto acontecer é bem elevada. Estes direitos devem ser repensados por nós e, se necessário for, abrirmos mão deles sem que, por isso, tenhamos de fazer propagandas a respeito a nosso favor. Marketing pessoal não foi uma boa criação nossa. Isto só nos levou ao auge da nossa vaidade desmedida e injustificada.

O individualismo, definitivamente, não deu certo. Mas é preciso praticarmos esta verdade. O mundo está cheio de teorias e carente de práticas. Caminharmos para a coletividade, sem hipocrisias, é imprescindível. Não esta coletividade disfarçada e não internalizada, mas uma coletividade verdadeira, cuja capacidade de questionar os seus próprios direitos construirá uma diferença real na sociedade na qual vivemos todos.

Paulo de Tarso, uma das grandes personalidades da nossa História e um dos responsáveis pela disseminação dos ensinamentos de Jesus, aos povos antigos, dizia: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Portanto, é preciso questionar e elevar o nosso patamar de pensamento e de construção. A consciência como base de nossas decisões e não apenas a lei.

Nem tudo aquilo que é meu por direito é meu por ética e moral.

O professor que abona faltas injustificáveis porque tem direito a cinco faltas abonadas por ano. E os alunos, deste mesmo professor, muitas vezes têm aulas deficientes porque o professor substituto não foi preparado eficientemente para tal. “Ah, mas isso não é culpa do professor”, alguns poderão dizer. Realmente não é. Mas ficar neste discurso é o mesmo que querer justificar o mau atendimento porque se ganha mal. A mediocridade pela mediocridade. O seis pela meia dúzia. Enquanto um de nós não der o primeiro passo, andaremos ainda em círculos por muito tempo.

Abrir mão das faltas abonadas é uma forma de fazer a diferença, de verdade, na vida dos alunos, e de construir, silenciosamente, um mundo melhor. Abrir mão de direitos questionáveis é receber muitos direitos verdadeiros, lá na frente.

O recesso dos parlamentares é fruto do excesso de más condutas. E o recesso é uma delas. Como não se envergonhar de interromper os trabalhos simplesmente porque está na lei? Deixar coisas para agosto porque o recesso chegou. O recesso é um excesso que inibe o acesso de muitos. Mas está na lei...

Uma superficialidade de pensamentos. Uma ausência de responsabilidade devido à farta liberdade e o não saber o que fazer com ela.

O recesso é bem-vindo desde que possamos desfrutá-lo. Mas não é o caso. Deturpamos o conceito do descanso porque não há o respeito àquele que sofre as consequências desta deturpação. Eles param aquilo que nem começaram. Eles param quando todos pedem ação.

Somos seres gregários por natureza, agregamos por conveniência e segregamos por escolha.

O recesso que excede. O recesso do excesso. O recesso do abuso.

O abono do abandono. O abono do descaso. Abono as faltas porque o meu direito está em primeiro lugar. Dão-me o direito ao abono? Abro mão dele. Simples assim. E se isto nos custar sermos chamados demagogos, o problema não será nosso, mas sim daquele que carrega a demagogia em sua bagagem de decisões para a vida.

Aquele colaborador que quer ser demitido para receber seus direitos, simplesmente, reduz o ritmo, esquece, de propósito, prazos, prejudicando, assim, toda a equipe. Realiza de forma ineficiente o trabalho para produzir argumentos negativos contra ele próprio e assim, conseguir ser mandado embora. “Quero ser mandado embora para não perder os meus direitos. ” De quais direitos esta pessoa fala?

Infelizmente ainda somos movidos pelo egoísmo e pela triste necessidade de termos nossas falências existenciais atendidas. Por isso privilegiamos os nossos direitos em detrimento do próximo, mesmo que os nossos direitos os prejudiquem.

Penso que enquanto tivermos mergulhados nesta ausência de pensar devido à preguiça do construir, ainda faremos valer, por muito tempo, nossos direitos questionáveis. Afinal de contas, estamos em julho, e o recesso está aí.

As facilidades que me isentam das responsabilidades. O supérfluo dividindo espaço com o inerente, com o relevante.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de François de La Rochefoucauld, escritor francês, que diz:

“A conveniência é a menor de todas as leis, mas é a mais seguida. ”

Ainda privilegiamos o pequeno, o que nos dá visibilidade, o que alimenta as nossas vaidades e o que atende as nossas infundadas necessidades. A busca pelo coletivo verdadeiro como fundamento e razão para as nossas escolhas deve ser a nossa direção e a nossa decisão de vida. Os nossos direitos devem ser cumpridos, mas os reais e não os questionáveis e duvidosos que possuem apenas uma via de acesso: ao da satisfação individual. O acesso aos nossos verdadeiros direitos deve nos permitir passar, assim como também o próximo. E quando conseguirmos atingir este ponto, teremos deixado de seguir a conveniência por absoluta falta de sentido e por termos, finalmente, enxergado o tamanho dela: irrelevante e pequena.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O seu par de tênis

Muitas são as moedas que nos alimentam. Moedas físicas, concretas, como o dinheiro, o alimento, a vestimenta, fundamentais para a nossa estada aqui. E as moedas abstratas como a saúde, o amor, o tempo. Todas elas essenciais para que a nossa vida tenha sentido, colorido, beleza e brilho. Valorizá-las é trazê-las, cada vez mais, para perto de nós.

O texto de hoje dedico ao tempo: este parceiro invisível, discreto, calado, mas que tem pressa. Ele não costuma ser prolixo e sabe discernir quando é bem ou mal utilizado. Aos que o desperdiçam, sua cobrança é implacável. Vinga-se da forma mais cruel: ele não volta mais. Simples assim. E quando se vê, é Natal de novo. E o carnaval está logo ali. Aproveitá-lo e usá-lo com sabedoria é uma das virtudes da vida. Perdê-lo com inutilidades e futilidades autoriza nossas idades avançarem sem ter valido a pena. É preciso, portanto, não ir por este caminho.

A beleza do tempo consiste na nossa boa relação que se faz com ele. Ele é uma das nossas maravilhosas moedas. E como toda moeda, é um símbolo de troca que precisa ser justo para os dois lados: para nós (que ele seja utilizado a nosso favor) e para o próprio tempo (que ele seja utilizado para aquilo que é útil e sábio). É preciso lembrar que ele não aceita desaforos.

O filme abaixo, que exemplifica o que traz o texto, mostra a trajetória do San Diego Splash, um time de basquete cujo Tempo foi justamente homenageado.

vídeo tirado da internet

Após assisti-lo, a vontade que se tem é de calçar os tênis, se é que já não estão calçados. E se ainda não estão, a pergunta que fica é: por quê?

A lucidez destas senhoras traz profundas reflexões e propostas para quebra de modelos mentais falidos, como:

- aquele que acha que não dá e que não tem tempo;
- que o desperdiça com crenças limitadoras a respeito de si próprio;
- que se diz velho demais para começar ou novo demais para parar;
- que tem medo do sucesso e/ou do fracasso;
- que abre mão do tentar por medo da crítica de quem o inveja por ter começado;
- que permite que a vergonha se sobreponha ao desejo de fazer;
- que dispensa roteiros inteligentes por optar por caminhos longos e desnecessários, como desculpa para não chegar a lugar algum. E depois dizer que não fez por falta de tempo;
- que cria etapas injustificáveis para não concluir o que está fazendo;
- que dá ouvidos a comentários preconceituosos e limitantes. Afinal, jogar basquete aos 91 anos?

Temos uma relação problemática com o tempo. Isto é uma realidade. Felizes aqueles a quem o tempo concedeu a honra da amizade dele. Precisamos estar de mãos dadas com ele a caminho da mesma direção. Uma direção sustentável, firme e sólida. E para isto, a nossa travessia é o que importa, como dizia Guimarães Rosa. Se a nossa travessia for sólida e lúcida, a nossa boa chegada será somente uma feliz consequência.

Portanto, calçar nossos pares de tênis e irmos jogar o nosso basquete, hoje e agora, é valorizarmos o nosso tempo e a nossa travessia.

O tempo é amigo daquele que se deixa conduzir por ele. Mas é um carrasco para aquele que se deixa escravizá-lo. Por ele, apenas podemos vivê-lo da melhor forma que podemos. E uma das melhores formas de se viver é estarmos calçados com os nossos tênis. A postos. Prontos.

A idade não deve ser a nossa desculpa, mas sim a razão da nossa realização. Ela é, apenas, o lembrete mental de que nossa estada aqui é finita. E que é preciso acelerar para aquilo que, verdadeiramente, importa.

Façamos do tempo um aliado e não um adversário que buscamos neutralizá-lo com cremes inúteis e ineficientes. As rugas, indicativo do passar do tempo, representam mais que marcas físicas: representam a vida vivida na plenitude. Representam a consciência em paz, do tempo vivido, com sabedoria. No entanto, a falta delas, indica possibilidades que poderão não vir.

A juventude é, apenas, a responsabilidade anunciada da obrigação que se tem de viver certo e viver bem. A velhice é a pergunta direta da vida nos cobrando o cumprimento desta responsabilidade. E se vivemos bem a nossa vida, com o tempo ao nosso favor, e ainda de tênis calçados, haverá um lugar, certamente, para nós, no grupo dos privilegiados.

Dentro ou fora das nossas quadras de basquete, que as nossas limitações sejam, apenas, a crença na nossa capacidade. Que o “se ao menos” passe para o “a próxima vez”.

Alguém poderá, então, perguntar: mas como sustentar tamanha vitalidade e disposição? Não sei a resposta. Arrogante seria se eu soubesse. Mas desconfio que um dos caminhos para se chegar a esta resposta, a travessia a qual Guimarães Rosa se referiu, é buscar, sem cessar, as nossas necessidades e preenchê-las. Sempre e sempre.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um diálogo entre Alice e o Chapeleiro, da obra Alice no País das Maravilhas, que diz:

Alice suspirou enfastiada. Eu acho que você deveria fazer coisa melhor com o seu tempo, ela disse, ao invés de gastá-lo com charadas que não têm resposta.

Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço, o Chapeleiro falou, não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa.

Eu não sei o que você está dizendo, disse Alice.

Claro que não, o Chapeleiro disse, sacudindo a cabeça desdenhosamente. É muito provável que você nunca tenha falado com o Tempo!

Um livro indispensável para alargar os nossos horizontes. Que a gente fale mais com o tempo e busque compreendê-lo. Que a gente busque ser amigo dele e considerá-lo, de verdade, como Alguém. Porque ele é. Compreendendo-o, viveremos melhor a cada dia. E quando nos dermos conta, estaremos calçados com os nossos tênis sem nos lembrarmos de quando os colocamos.  Calçados, significa que estamos no jogo, na quadra, na vida. E de dentro da quadra, será quase impossível ouvirmos as vozes daqueles que tentarem nos desestabilizar de alguma maneira, mesmo que estas vozes também sejam as nossas. Vida longa ao San Diego Splash!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O que é dar certo?

Há muitas perguntas subjetivas na vida, e esta é uma delas. O que é dar certo? Não há uma resposta a esta pergunta. Não há receitas e fórmulas. Quem souber e tiver uma resposta pronta para esta questão, certamente está mal informado.

Gente com fórmulas e receitas prontas para questões complexas e, acima de tudo, subjetivas, não está preocupado em viver, em saborear a vida, em apreciar cada momento aqui, em se aprimorar e servir, mas sim na rapidez para aparecer, no entregar algo, mesmo que este algo seja completamente sem sentido. A preocupação está em corresponder às expectativas, mesmo que não saibamos quais são elas e para que servem.

No entanto, me parece que isto não corresponde ao que pensam aqueles jovens que realizaram uma festa à fantasia, num colégio no estado do Rio Grande do Sul, há algumas semanas. Sob o tema, “se nada der certo”, estes pobres alunos se fantasiaram de vendedores ambulantes, faxineiros, funcionários do Mc Donald´s, pedintes, moradores de rua, cozinheiros, atendentes do Grupo Carrefour. E o mais emblemático: alguns se fantasiaram de ladrão.


imagens tiradas da internet

Triste ver o racismo e o preconceito passeando livremente, sem qualquer tipo de retaliação, ocorrendo em um ambiente cujo conteúdo abordado deveria, por motivos óbvios, ser outro.

Esta festa ocorreu em dois colégios do Sul. E como sabemos que coincidências não existem, os dois colégios são frequentados por alunos de alta renda. O que isto nos traz de reflexões? Muitas coisas. E a primeira delas, é que, certamente, a maioria, senão todos, tem a sua mensalidade paga pelos pais. Estes alunos desconhecem, certamente, os bastidores necessários para que este tipo de mensalidade seja sustentada. Isso para dizer o mínimo.

Obviamente não podemos generalizar. Nem todos os colégios de alta renda realizam este tipo de aberração. Mas, infelizmente, o dinheiro e o poder deturpam e revelam a face dos que não conhecem a ética e o escrúpulo. E foi o que aconteceu nestas duas escolas cujos nomes deveriam ser divulgados como exemplos de desserviços prestados à sociedade.

São exemplos tristes e de uma pobreza inquestionável que sempre devem ser lembrados como modelos educacionais a não serem seguidos.

Após uma repercussão péssima socialmente, alguns pais de alunos e profissionais destas duas escolas desculparam-se em público, dizendo que isto não mais se repetirá. Um pouco tarde, ou não? E muito conveniente pedir desculpas depois que todos perceberam.

Para aqueles que colocam o dinheiro, o poder e o estatus em patamares questionáveis e inalcançáveis, dar certo é sinônimo destas conquistas materiais. E se não atingirem este patamar, não terão dado certo. E a consequência disto? Tornarem-se varredores de rua, por exemplo, na opinião deles.

O que estes alunos ainda não entenderam, se é que um dia entenderão, é que agir da forma como eles agiram e pensar da forma como pensam, isto sim é não dar certo. São pobres cegos no caminho, perdidos em busca de algo para alimentar o ego construído em falsas bases. E quando descobrirem isto, poderá ser tarde demais. Muito tempo terá sido perdido e desperdiçado.

Estes alunos estão construindo um passado por meio deste tipo de atitude. Passado que no futuro será cobrado. Lá na frente, quando olharem para trás, encontrarão, sim, o passado deles, mas serão passados que não terão traduzido uma vida plena de sentido. O passado destes pobres aspirantes a seres humanos traduzirá formas tortas, imprecisas, ininteligíveis, inacessíveis. Uma visão triste do que se transformaram devido à busca pela incoerência.

Quando olharem a si próprios, num futuro incerto, verão insignificância em seus espelhos de ouro e de luxo. Serão prisioneiros do externo, do supérfluo, das aparências, do dinheiro. Uma prisão que até terá as portas abertas, mas como eles estarão com suas máscaras tão presas ao rosto, como disse Fernando Pessoa, não enxergarão a saída das prisões. E lá permanecerão.

Dar certo não há fórmulas, mas caminhos que não o trilhado por estes pobres jovens que já estão e são perdidos, ainda no começo da vida. Uma vida desperdiçada nos disfarces, naquilo que não importa, no desrespeito, no racismo e no preconceito. Isto, sim, é não dar certo.

O mote da festa, em si, estava representado naqueles tristes jovens. Os arrogantes de agora e do futuro. Pessoas cegas que dispensam guias por os considerarem desnecessários. Mas que tropeçam em pequenos obstáculos pela mais pura falta de jeito e de cuidado com tudo o que cerca a vida, a vida de verdade, e não esta que eles vivem.

Uma triste realidade que possui cúmplices: pais, educadores, escola, Estado etc. Mas que somente se pronunciaram após barulhos nas redes sociais e na sociedade, em si. Barulhos?

Até quando vamos agir apenas porque alguém gritou e reclamou? Por que temos tamanha dificuldade de ouvir os silêncios? Silêncios que constroem, que marcam, que edificam e que deixam marcas sólidas e verdadeiras.

Apesar da pouca idade, mas o suficiente para saberem o que fazem, estes pobres jovens encontram-se embrutecidos, cegos e alheios às necessidades do outro, mostradas, todos os dias, pelas janelas das espaçosas sacadas aonde vivem estes pobres jovens. Vivem embrutecidos devido à falta de uma educação ética e sadia, além da baixa moral que possuem.

Não se mede o certo pelo dinheiro, pelo luxo, pelo poder, mas sim pela capacidade que se tem de lidar com as próprias fraquezas, de se aceitar o que se tem e de buscar mais com honestidade e dignidade. Reconhece-se que o outro está no caminho do dar certo quando assume, sem hipocrisias, a sua condição de incompleto e de imperfeito. A imperfeição e a incompletude são características dos fortes e dos que estão no caminho do dar certo.

Deveríamos ser medidos pelas perguntas que fazemos e não pelas facilidades que buscamos e que temos, na vida. Deveríamos ser valorizados pelas construções que ajudamos a levantar e não pelos títulos que temos, muitas vezes custeados pelos pais e sem sentido algum.

Denegrir a imagem dos trabalhadores expostos nas fotos, somente evidencia o conceito torto e impreciso que estes jovens têm sobre eles mesmos.

Dar certo é uma questão moral. É aprender a lidar com as nossas pequenezas, incertezas e inferioridades. Isto independe da profissão e da condição social e financeira. Mas aqueles pobres jovens, falidos em conceitos preconceituosos e infelizes, demorarão bastante tempo para fazerem esta descoberta.

Dar certo é assumir o nosso ínfimo tamanho frente àquilo que precisa ser feito. É assumir que nada somos. E que o pouco que sabemos revela quem somos, como disse o Filósofo. E aqueles pobres jovens nada sabem. Ou melhor, pouco sabem sobre a vida. E o que pensam que sabem camufla a imagem deles refletida no espelho: uma imagem de alguém cuja índole enferrujou.

E não se espantem, pobres jovens, se ao buscarem estes menosprezáveis trabalhos por conta de nada mais ter dado certo, vocês encontrarem as respostas para o que seja dar certo. E, espantados, aprenderem o significado de palavras como valores, ética, moral, decência que serão incluídas, por compaixão, no dicionário de vocês. Dicionário que não constava naquela listinha de materiais comprados para vocês, pelos pais, quando iniciaram suas vidas, inclusive escolares.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Einstein, que diz:

“Não tente ser bem sucedido; tente, antes, ser um homem de valor.”

Dura e necessária reflexão. O convite de Einstein e de tantos outros que vão à frente já foi feito. Resta a nós aceitá-lo ou não. A nossa decisão será determinante para, de verdade, darmos certo na vida.

Quando o nosso olhar não puder mais distinguir os presidentes de Empresas e os limpadores de rua, teremos merecido, então, ocupar um lugar na categoria dos que deram certo na vida, de verdade.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Nossas escolhas nos revelam

imagem tirada da internet

imagem tirada da internet

As duas imagens falam por si. As palavras que escreverei aqui serão coadjuvantes. A imagem e, principalmente, a mensagem, já foram ditas. Um olhar atento às fotos para não precisarmos de uma palavra sequer.

A primeira imagem é da menina Rivânia, oito anos, moradora de uma cidade do interior de Pernambuco. Na semana passada, durante uma enchente, a avó dela pediu para ela buscar um abrigo, se proteger e tentar salvar o que fosse o mais importante. A menina, então, no auge da maturidade dos seus oito anos, salvou a mochila que leva à escola, com os livros e materiais de estudo.

A segunda imagem, uma pessoa corre com uma mala recheada de dinheiro. Uma cena que nos é familiar, infelizmente. Há poucas semanas, um certo deputado foi visto saindo de uma pizzaria, em São Paulo, correndo com uma mala cheia de dinheiro, fruto de propina e de roubo. Dentro da mala, R$ 500 mil, dinheiro suficiente para comprar muitos livros para várias Rivânias que existem no Brasil e no mundo.

Duas imagens fortes, mas com sentidos opostos. Duas malas, mas com conteúdos distintos.

Nossas escolhas nos revelam. Nossas escolhas dizem o que carregamos dentro de nossas mochilas. Nossas escolhas nos conduzem pela vida. Nossas escolhas nos reduzem ou aumentam o nosso tamanho.

Existe um pensamento que diz que “para se conhecer alguém, de verdade, é preciso dar dinheiro e poder a este alguém. ” Concordo. Acredito. Mas acho que além de poder e de dinheiro, ferramentas que nos permitem conhecer alguém, há uma outra ferramenta tão poderosa quanto: o desespero. Em situações desesperadoras ou quando nos sentimos acuados, nosso melhor e nosso pior ângulo se mostram. E também nesta hora somos revelados.

As duas cenas acima mostram isto. São situações extremas de desespero e de medo. Quando nos encontramos nestes momentos, quem somos, verdadeiramente, surge e se confirma. Nossos valores são colocados à prova, à mostra e evidenciamos a nossa força ou a nossa fraqueza, a nossa moral ou a nossa imoralidade. A nossa ética ou a nossa completa falta de escrúpulos.

O que escolhermos fazer, será o resultado de nossa caminhada até aqui.

O poder e o dinheiro: duas forças que constroem e que destroem. As duas coisas juntas. Ora uma, ora outra. Ou uma ou outra. O conteúdo de nossas mochilas determinará esta resposta.

O desespero e o medo: duas forças que escondem e que revelam. E o que colocamos na mochila será determinante para localizarmos os esconderijos aonde escondemos aquilo que não queremos que seja revelado.

Na primeira cena, uma completude. Apesar da tristeza da cena acinzentada, a postura decidida e consciente de Rivânia, segurando a mochila da escola, não nos deixa margem a dúvidas. Os seus oito anos de idade são suficientes para ela saber o que fazer aqui. Esta menina é uma prova de que maturidade independe de idade, mas sim de condição moral.

Na segunda cena, uma incompletude. Uma valorização do vazio, do insosso, daquilo que não tem importância, do excesso, do supérfluo. Um não-querer ouvir a própria fraqueza porque a fala se tornou intolerante e impiedosa. Um passo dado maior que a perna. Um desprezo ao silêncio que diz muito, mas que não é ouvido. Muitas das nossas dificuldades resultam da nossa incompletude, da nossa imperfeição.

Na primeira cena, o comportamento que traduz o que se busca; na segunda, um comportamento construído em bases de mentiras cuidadosamente selecionadas, muitas vezes, no começo da vida e nos valores que a família não possuía. Então, como transmiti-los?

O mal é barulhento. O bem é silencioso. O homem que corre com a mala cheia de dinheiro tem o passo apressado que produz barulho. A menina silencia, no barco, agarrada a sua mochila.

O mal que aparece porque é indiscreto e desnecessário. O bem que não aparece porque silencia e é omisso, muitas vezes. Uma omissão que surge porque acreditamos numa coerência e numa racionalidade inexistentes. Uma omissão que nos leva à submissão.

Por que não descontruir comportamentos falidos para entender a raiz do insucesso? Porque isto seria aceitar o insucesso e a nossa completa falta de jeito para muitas coisas. Seria aceitar que erramos e que é preciso refazer o caminho, mesmo que isto custe e demore muito tempo.

Ensinaram-nos a pensar. Mas será que nos ensinaram da forma correta? É preciso trilhar caminhos pisados para conhecermos melhor o significado das nossas pisadas. Somente assim, acredito, saberemos o conteúdo, ao certo, de nossas mochilas. Sem sustos, sem medos.

Na mala com dinheiro, uma banalização da vida, um acesso fácil àquilo que não é nosso, um encurtamento de caminho que jamais poderia ter sido diminuído, um roubo de nossas memórias, de nossa moral, de nossa ética. Uma exposição do lixo que esgota a bilheteria. Todos querem ver. Uma amostra, a céu aberto, de nossas baixas medidas e de nossa régua em nossos pés, demonstrando que ainda mal começamos a caminhar. Uma caminhada que, certamente, fará doer muito, e muito, os nossos pés, caso queiramos voltar para a trilha, se é que um dia estivemos nela. Mas ela existe. Tudo é uma questão de crença.

Na mochila da escola, um abraço de valorização da vida. Do saber o que se quer. Do entendimento sobre o que se faz aqui. Uma sensibilidade que não se ensina, se sente. Uma combinação do certo. Uma imagem que dispensa porquês. Uma imagem que emociona devido à profundidade do seu significado.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Monteiro Lobato, um escritor que também dispensa porquês, que diz:

“Um País se faz com homens e livros. ”

A Rivânia já entendeu isto, literalmente. A imagem dela, naquela canoa, não nos deixa dúvidas de que ela abraçou o que, verdadeiramente, importa.

Que possamos encontrar mais Rivânias pelo mundo, mostrando, orgulhosamente, o conteúdo do que carregam nas mochilas. Que possamos abraçar, além dos livros, propriamente ditos, mais certezas do certo, do justo, do ético. Que possamos abraçar o que, de verdade, for importante para nós, o que contribuir para que possamos ser melhores em todos os sentidos.

E que nossas mochilas, após se acostumarem a carregar o que, de verdade, importa, possam se engrandecer e aumentar de tamanho para carregarem, cada vez mais, conteúdos que revelem nossas sábias escolhas.

O que vai, portanto, dentro da sua mochila?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Afiando os dentes

Era uma vez uma serpente venenosa que vivia, isoladamente, na Índia. Como não era sociável e nem gostava de conversa, ninguém se aventurava a passar por lá, aonde ela vivia, com medo de ser atacado. Vivia quieta e isolada.

Até que um bom homem, a serviço de Deus, foi até lá. A serpente, então, mais que depressa, o atacou. Após dominá-la, com o olhar sereno, o homem disse a ela:

- Minha irmã, por que você ataca e faz mal aos outros?

As palavras do bom homem eram de uma doçura comovente e, ao mesmo tempo, firmes e justas, fazendo que a serpente se sentisse envergonhada pelo que havia feito. Recolheu-se e não mais se ouviu falar de ataques da serpente naquela região.

O bom homem continuou o caminho e por onde passava, distribuía olhares serenos e amor. Após algum tempo, e após muito refletir, a serpente saiu da sua toca e, decidida a mudar, tomou uma decisão: procurar todos aqueles a quem havia prejudicado para reparar os seus crimes. A cada um que encontrava, se mostrava pacífica e pedia perdão. No entanto, a serpente não foi bem recebida por alguns que, inclusive, começaram a abusar da boa vontade dela e passaram a humilhá-la. Devido à submissão absoluta da serpente, todos passaram a apedrejá-la. Triste, a cobra se recolheu e não mais foi vista em público.

imagem tirada da internet

Algum tempo depois, o bom homem foi visitá-la. Ao encontrá-la num estado deplorável, perguntou a ela o que havia acontecido. Ela relatou, então, toda a história. Disse que desejava ser boa, se transformar e refazer o caminho de transgressões e de males que havia causado, mas que não estava conseguindo em função de perseguições e de apedrejamentos.

Após ouvi-la, o sábio respondeu:

- Mas, minha irmã, houve engano de tua parte. O conselho que te dei foi para que não mordesse mais ninguém e nem machucasse as pessoas, ao passarem aqui. Aconselhei, também, que não perseguisse o seu semelhante e que não matasse as pessoas como você estava fazendo. Porém, em momento algum disse para que você evitasse assustar os maus. Disse para você parar de atacar seus irmãos do caminho, mas não parar de dar a sua contribuição ao mundo. E o mais importante que te disse:

“- Não morda e nem fira o seu semelhante, mas o mantenha a distância mostrando os seus dentes e emitindo os seus silvos. ”

Em tempos conturbados, confusos e reveladores como estes nossos, é natural querermos fazer justiça com as nossas mãos, falarmos o que, verdadeiramente, pensamos, agirmos de acordo com o que achamos correto. Identificamo-nos com esta serpente, muitas vezes. Ela age rápido e resolve, em poucos minutos, o que a incomoda. Ela age de acordo com o instinto e com a percepção que faz do mundo e de tudo que a cerca.

Porém, em nosso caso, a racionalidade deve ser levada em consideração, e seguir nossos instintos e vontades, nem sempre será possível e nem sempre será o certo a ser feito. Mesmo que nossos instintos e vontades estejam certos e justos, a adequação precisa ser ouvida e praticada. Portanto, é preciso saber lidar com estas ambiguidades:

o querer fazer e poder
o querer fazer e não poder
o querer fazer e não dever
o não querer e ter de fazer
o fazer e não poder fazer
o não fazer e poder fazer

e saber que nem sempre, o justo prevalecerá, infelizmente. Nem sempre a nossa natureza poderá ser exercida. Quem já aprendeu a lidar com essas inconsistências e incongruências está mais adiante e consegue vislumbrar outros horizontes.

Ambiguidades e contradições que nos movem, nos completam, nos constroem e, o mais importante, nos mostram quem somos, de verdade. Elas nos ensinam o caminho certo ou nos reconduzem à rota, sinalizando que perdemos a mão em algum momento da estrada.

As ambiguidades e contradições são indissociáveis, por isto dão certo juntas. Somos estas duas coisas. Somos o resultado destas duas atuações dentro de nós.

A serpente que morde e mata porque faz parte da natureza dela.

A serpente que se arrepende, mas é incompreendida e apedrejada por pessoas que sofrem do mesmo problema dela: ambiguidades e contradições.

A serpente que deixa de ferir para ser ferida.

O homem que deixa de ser morto pela serpente para depois matá-la.

Escolhemos sempre as pontas: o equilíbrio ainda está muito distante da gente. E aqueles que já o encontraram, ou não estão mais aqui ou ainda são os incompreendidos do caminho.

Matar e apedrejar não são, definitivamente, as melhores escolhas, mesmo que isto vá ao encontro da nossa essência e da nossa natureza. Nem sempre a nossa essência e a nossa natureza devem ter asas. É preciso questioná-las. Muitas vezes elas precisarão ser transformadas e domadas. Mas o fato de não exercermos a nossa natureza integralmente não quer dizer que não podemos trazer parte desta natureza para ser exposta. E mostrar nossos dentes e nossos silvos é uma destas possibilidades.

O cerceamento de nossas ações é, por diversas vezes, realizado por nós. Precisamos saber ler as entrelinhas da nossa natureza para poder colocá-la em prática. Isto nos trará equilíbrio e conheceremos, de verdade, o valor do respeito.

Nem tudo pode ser dito, feito e falado. Mas sempre há o que ser dito, feito e falado.

Não se deve resolver as coisas por meio da brutalidade, da rispidez e da covardia. Mas também nada se resolve recolhendo-se para a toca e escondendo-se do mundo.

O que resolve o problema é a ação sobre ele precedido do conhecimento.

Mostrar nossos silvos e nossos dentes mostra que somos parte disto. E devemos ser. Não é possível delegar o indelegável. Ninguém pode mostrar os dentes e silvos por nós. Esta tarefa é nossa e acredito que estamos atrasados. Há tempos nossos dentes e silvos estão a nossa disposição. Mas por que não os usamos? Porque estão escondidos por trás da descrença que há em nós.

Quando são mostrados, evidenciam, também, as decisões que tomamos até aqui, as que poderíamos ter tomado e as que deixamos de tomar porque tivemos medo de mostrar os nossos dentes e fazer ouvir os nossos silvos. Muitas vezes mordemos e machucamos o outro por pura ignorância e inabilidade de lidarmos conosco mesmos. Mas também em muitas outras vezes, deixamos de participar da vida por puro desconhecimento de nossos dentes que, por nossa negligência, não estão devidamente afiados.

Nossas ambiguidades e nossas contradições: caminhos que conduzem ao mesmo lugar.

Que nos seja possível enxergar outros caminhos. E isto é o mais importante: enxergar estes outros caminhos. Que a imobilidade e a inatividade, no segundo momento da serpente, não seja a nossa escolha. E que o primeiro momento dela, a morte, também não seja a nossa escolha. Temos opções, mas é preciso saber identificá-las. Que diante do ataque, a nossa inteligência e o respeito por nós mesmos sejam os nossos mestres e os nossos condutores.

É preciso, portanto, que os nossos dentes estejam afiados para não sermos abordados de surpresa e de calças curtas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento que diz:

“Uma alma sem respeito é uma morada em ruínas. Deve ser demolida para construir uma nova. ” (Código do Samurai)

O respeito por nós começa quando enxergamos janelas e portas abertas como solução para os nossos problemas. E fazer ouvir os nossos silvos e fazer ver os nossos dentes é o primeiro passo para que o respeito se estabeleça em nós. Que a nossa natureza seja questionada, se assim for necessário, como fez o bom homem para com a serpente. Por que matar se temos outras opções? Mas que, depois de questionada, consigamos transformá-la numa ação para o bem.

Morder e matar podem ser mais rápidos, mas de longe os métodos mais eficazes. Mostrar os nossos dentes e nossos silvos podem ser mais lentos, mas certamente os métodos mais sustentáveis e eficientes para que não haja ruínas dentro de nós. Com nossos dentes à mostra e nossos silvos sendo claramente ouvidos, não deixaremos dúvidas, para aqueles que tentam nos impedir a caminhada, sobre qual caminho escolhemos para as nossas vidas.

O caminho do respeito por nossa essência e por nossa natureza, mesmo que ela deva ser reeducada e transformada para quem sabe, um dia, ser capaz de equilibrar as nossas ambiguidades e nossas contradições. Sem ruínas, para que não sejamos forçados a fazermos nova construção.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O equilíbrio acontece no desequilíbrio

imagem tirada da internet

Quando tentamos agir contra a nossa natureza, o resultado é o sofrimento e o desequilíbrio.

Sofremos porque tentamos manter uma aparência de quem não somos. É como se vestissem uma capa obrigatória em nós, e nos obrigassem a caminhar com ela. Mas como esta capa é curta e apertada, não cabemos nela. E aí nos machucamos: física e emocionalmente. No sentido físico, porque esta capa cria marcas em nós, evidenciando, a todo o momento, que aquele não é o nosso tamanho, e no sentido emocional, porque esta falsa capa vestida fica, a todo instante, iluminando nossa essência e nossos valores escondidos e camuflados, com medo de surgirem e de mostrarem a face.

Obviamente que nem tudo são flores quando investigamos a nossa natureza. Acredito, inclusive, que há mais espinhos que flores, na nossa natureza. Mas, o que verdadeiramente importa, é saber que temos a capacidade de transformar estes espinhos em flores. Investigar a nossa natureza e buscar o aprimoramento diário é tarefa árdua, mas recompensadora. Da mesma forma que sofremos se agirmos contra a nossa natureza, deixá-la completamente livre é abrir mão do autoconhecimento. É preciso, portanto, equilíbrio entre agir de acordo com o que somos (nossa natureza), versus compreender e aparar os espinhos de nossa natureza para que eles não firam e machuquem aqueles que fazem a mesma caminhada que a gente.

Agir de acordo com a nossa natureza é não fugir da nossa essência, é não abrir mão de quem somos. É assumir o nosso lugar no mundo.

É saber o que se passa em nossos avessos, entrelinhas, bastidores e porões e, mesmo assim, não desistirmos da gente. É fincarmos os nossos pés no chão e não cedermos o nosso lugar, simplesmente porque aquele é o nosso lugar.

E ao mesmo tempo que fincamos os nossos pés, olhamos as deficiências deles e assumimos que somos falíveis e inacabados. É preciso, pois, firmar os pés, sim, mas sem deixar de aprimorar as nossas pegadas, sem deixar de corrigir nossos passos e sem deixar de assumir nossas necessidades de crescimento.

Equilíbrio e constância: dois lados da mesma moeda, mas que duvidamos porque não os enxergamos. Ora partimos radicalmente para esquerda, ora para a direita. Por que não o caminho entre estas duas coisas? Simplesmente porque ainda o desconhecemos.

É como se participássemos do movimento de um pêndulo: os resultados obtidos serão mediantes à força e à forma com que as esferas foram manuseadas. Até que o equilíbrio se estabeleça, muito trabalho haverá de ser feito.

imagem tirada da internet

Aprendermos a lidar com isto é aliviar e amenizar as nossas dores. Não há atalhos e outros caminhos. Quando reconhecemos nossos desequilíbrios e nossas frustradas tentativas de ser quem não somos, teremos dado início ao processo de cura. É um longo caminho, mas de frutos no final, certamente. A dor do desequilíbrio e da consciência da imperfeição que há em nós precisa ser processada para poder ser tratada.

O desinvestimento em nós é a causa da dor. E isto faz paralisar a vida que buscamos e que queremos. Ninguém deve buscar a dor, obviamente. Mas reconhecê-la como constituinte de nossa personalidade é fundamental se quisermos buscar e chegar a um equilíbrio, assim como um pêndulo.

A dor e o desequilíbrio nos equilibram desde que não caminhemos por caminhos já caminhados.

Conhecemos a dor para reconhecermos a alegria. Conhecemos a solidão para reconhecermos a companhia. Conhecemos a escuridão para reconhecermos a claridade. Conhecemos o conflito para reconhecermos a paz.

O caminho se constrói com pedras e materiais pesados e densos. E a dor e o desequilíbrio fazem parte deste arsenal de materiais necessários para a nossa construção.

Acredito, de verdade, que chegará o dia que o sofrimento, as dores e os desequilíbrios não serão mais necessários para que nossa consciência caminhe sozinha. A alegria acontecerá, simplesmente. Sem motivos aparentes, sem despertadores. Seremos alegres pela alegria em si, mas não por termos vivenciado a tristeza. E neste dia, estes despertadores não serão mais úteis para nós. Terão caído em desuso por obsolescência, uma vez que o nosso despertar já terá acontecido. E aquelas capas que tentaram colocar em nós, e que também colocamos nos outros, não serão mais realizadas. Terão caído de moda.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com duas passagens do poema de Paulo Leminski, A Dor Elegante, que diz:

“Um homem com uma dor é muito mais elegante...carrega o peso da dor como se portasse medalhas...”

Que a gente não se porte elegante ao sofrer, ao sentir dores, forçando nossas costas para suportá-las. E que a gente também não se orgulhe delas como se fossem medalhas. Medalhas, estas, que não gostaríamos de ter ganho. Valorizar e buscar a essência que há em nós, fazer valer a nossa estada no mundo e fincar os nossos pés no lugar que é nosso, por direito e mérito, aliviará a dor de nossas costas. E, ironicamente, este comportamento diminuirá o nosso quadro de medalhas, pelo menos este.

E a segunda passagem do poema que convido à reflexão é:

“...não me toquem nessa dor. Ela é tudo que me sobra.
Sofrer vai ser a minha última obra. Ela é tudo que me sobra.
Viver vai ser a minha última obra. ”

Que a gente não faça de nossas dores, a dor do nosso próximo. E que nossas dores não sejam desculpas para a não realização. É preciso tocá-las para que possam ser reconhecidas.

Que a dor, jamais, seja a nossa última obra. Elas sempre existirão. Fazem parte da gente. Que a nossa última obra, seja, portanto, a nossa própria vida buscando, sem desistir, viver e conviver com as nossas dores e alegrias, num compasso que somente a própria vida conhece o ritmo. A nós, só cabe respeitar.