sábado, 7 de outubro de 2017

A vaidade vaidosa

Talvez seja este o problema: somos vaidosos. Sempre. Mesmo aquele que nega ser vaidoso, no fundo, é também. Certo é que uns são mais que outros. Mas somos todos vaidosos. Por causa disto, a discrição ocupa um lugar que não chama a atenção, em nossas vidas. Um lugar pequeno, simples, calado, quieto e ponderado. Apenas quando a vaidade começa a dar sinais de cansaço e de vontade de recolhimento, a discrição avança e nos preenche com o seu imenso conteúdo. Ou também quando a vaidade é pega desprevenida e de calças-curtas. Neste momento, a discrição tem nova chance de surgir e de ocupar espaços tão ociosamente mantidos pela vaidade.

A vaidade sempre nos convida à exposição de nós mesmos. E os momentos nos quais estamos menos prontos são os preferidos dela. Assim, imaturos e inacabados, mas vaidosos, nos tornamos presas fáceis de nós mesmos ou daqueles que nos espreitam. A nossa vaidade cria condições para nossas próprias prisões. Ela nunca está a nosso favor. Expor-se por pura vaidade é dar voz à alienação. É abrir mão dos entornos e dos contextos que nos contextualizam para olhar apenas para nós e para as nossas pequenas grandes obras.

A vaidade nos preenche de nadas e de coisas desprezíveis. Coloca confetes em nossas cabeças cujo merecimento é indevido. Ela, em si, é oca, vazia e ociosa. Sem significado, ocupa espaços aleatórios e provoca movimentos que criam desequilíbrios. Por que isto nos alimenta? Talvez porque nos mostrar seja uma possível saída para nossas dores sem cura. A sociedade nos convida e nos instiga, o tempo todo, à exposição. Mas, quem é esta sociedade que não nós mesmos? Por que aceitamos tão facilmente estes convites? É preciso ressignificar nossas bases de valores e de aprendizados para alcançarmos outros conceitos e consequências.

A vaidade diverge do orgulho que sentimos por nós, pela obra que realizamos, com intenção e propósitos claros, que significa um passo que contribui para a construção do passo do outro e que traz significado de valor para nossas vidas. É preciso abrir mão de privilégios. E isto implica exercer a educação da nossa vaidade. Por que ainda estamos distantes disto? Talvez porque o orgulho de si seja pequeno demais para dar conta do nosso imenso tamanho. Achamo-nos tão grandes. Por isto, temos dificuldades de cabermos em nossos próprios tamanhos.

De onde vem esta ânsia pela visibilidade? Obviamente isto tem sido reforçado por meio das redes sociais. Mas, há mais coisas no mundo além das redes sociais. Ou não?

O vaidoso se vangloria o tempo todo do supérfluo, do desnecessário, do efêmero. Não enxerga a essência exatamente pela vaidade estar inundada na superficialidade, no que não interessa. É uma pessoa presa às regras criadas em contextos que já não existem mais. O vaidoso difere daquele que sente orgulho de si mesmo, de ser quem é.

O vaidoso é um manipulável, uma porta aberta para o deslize, para o abismo, para o desleixo. Busca o poder, a fama, o estatus, o palco. Seus valores estão na efemeridade e não na sustentabilidade. Busca a autopromoção porque se desespera ao perceber que os outros são incapazes de fazê-lo.  É uma pessoa cujo projeto próprio de vida é inexistente. Frágil e facilmente levado a obedecer aos interesses de terceiros.

A vaidade diverge da liberdade e da individualidade.

Aquele que é, verdadeiramente livre, é aquele com menos necessidades. E o vaidoso é uma pessoa cheia de necessidades.

Aquele que possui uma individualidade límpida e sem bastidores manchados é aquele que floresce. Há passos longos até lá. Mas o caminho é possível.

Sentirmo-nos orgulhosos de nós mesmos e de algo que realizamos é saudável e necessário como sustentação de nossa caminhada. Mas, nos envaidecermos é chamar a atenção para nós e, mais, é atribuirmos a nós um tamanho que ainda demoraremos a atingir. É preciso, portanto, valorizar, sim, as nossas conquistas, os nossos passos e a nossa jornada, mas como subprodutos para uma construção maior. Os nossos passos e as nossas conquistas devem servir como etapas para realizações maiores e expressivas. Isto é orgulhar-se de si. Quando conseguimos, de verdade, enxergar que os nossos grandes passos construirão os passos dos outros e vice-versa, o orgulho que sentiremos de nós mesmos começará a fazer sentido. Ao passo que a vaidade não empresta os seus louros para ajudar a construir os passos dos outros. Ela se encerra. Ela se basta. Ela nela mesma. E, portanto, nos induz ao erro.

Expor-se é fazer parte da vida. Não há como viver sem se expor. Porém, com critério, propósito e intenção, três pilares fundamentais e sustentáveis para que o objetivo avance e a construção seja realizada em bases sólidas.

Machado de Assis diz que “a vaidade é um princípio de corrupção. ” Quando nos corrompemos, portanto, a nossa vaidade é quem está sendo atendida, servida e alimentada.

imagem tirada da internet

A vaidade sempre esteve presente. Quando desmedida, nos faz adoecer e nos traz sofrimento. No entanto, o sofrimento nos mantém acordados. Há outros caminhos antes de sofrermos, mas me parece que este tem sido a nossa escolha. Não em todos os momentos, mas a prevalência, sim.

Importante aceitar que somos esta mistura de coisas boas e de coisas desprezíveis. Censurar a existência da vaidade em nós é abrir mão da percepção. Toda censura é uma luta contra a percepção. E quando não percebemos, não mudamos. Conveniente, não?

Como a vaidade nos integra, o melhor que fazemos é acolhê-la. Acredito que somente por meio do acolhimento, o entendimento é possível. E assim, vamos descobrir o que a vaidade quer de nós, o que ela busca, o que ela nos diz. Ouvir a voz dela é estabelecer um processo de escuta conosco, imprescindível se quisermos alcançar visões elaboradas sobre a vida.

Quando nos escutamos, automaticamente escutamos e percebemos o outro. Nossa identidade começa a passar por reformulações e nos enxergar passa a ser constante. Nossas lacunas vão sendo preenchidas pelos nossos avanços e pelos frutos dos nossos bastidores descortinados. A vaidade é uma das nossas fragilidades. É preciso coragem para lidar com elas, portanto.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com duas provocações de autores fundamentais de nossa literatura.

A primeira é de Tolstói, escritor russo do século XIX, que diz:

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. ”

Que nossas aldeias internas sejam valorizadas por nós, que tanto nos dizem, mas que não as ouvimos. Se as ouvíssemos, nossa universalidade já teria sido alcançada. Há muito por fazer dentro de nossas casas, em nossas aldeias interiores. E o trabalho está apenas começando.

Pintar as nossas aldeias trará uma nova experiência de um olhar novo para nós mesmos. Um retorno para nossa aldeia, um lugar que sempre foi nosso. Por excesso de exposição e de vaidades desmedidas, nossas aldeias ficaram apagadas no escuro. Mas as tintas que usaremos na nossa pintura retomarão as luzes que, uma vez acesas, de verdade, nunca mais se apagarão.

E a segunda é de Balzac, escritor francês do século XVIII, que diz:

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir. ”

Que possamos enxergar o que há de nobre em nós e mostrá-lo ao mundo como tentativa de construirmos algo sólido. Se conseguirmos, teremos deixado de viver e de presenciar tentativas disfarçadas de afastar o outro das possibilidades as quais ele tem direito, porque isto é pura vaidade. Ela, a partir deste dia, não fará mais sentido para nós.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A Compaixão que não habita em nós

Recentemente, uma amiga foi demitida. O até então gestor dela, após as formalidades resolvidas, designou uma pessoa da área para acompanhá-la até o ambulatório, aonde seria realizado o exame de desligamento. Durante o trajeto até lá, a minha amiga caminhava em silêncio. A situação pedia silêncio. Isto para falar o mínimo. No entanto, a outra pessoa que a acompanhava, começou a falar que estava muito feliz porque iria entrar em férias e viajaria para lugares maravilhosos. Começou a contar, inclusive, todos os passeios que estavam programados para esta viagem. Minha amiga continuou recolhida em seu silêncio. Esperava contar com um pouco de bom senso, mas que não veio. A pessoa continuou a desenrolar a esteira dela de absurdos, de conquistas frágeis e de valores banais.

Após a passagem pelas catracas, a minha amiga entregou o crachá, um símbolo de pertencimento para muitos, e tomou o caminho de volta para casa.

Independentemente das injustiças cometidas a ela no campo profissional, o que busco chamar a atenção, por meio deste texto, é para ausências presentes em nossas vidas: e a compaixão é uma destas ausências. Um artigo de luxo e para poucos.

Dalai Lama diz que há dois tipos de compaixão: a biológica, aquela que existe dentro de cada um de nós, mesmo sem a exercitarmos; e a compaixão adquirida por meio do treinamento, do olhar, do abrir mão de privilégios em benefício do outro.

O primeiro tipo de compaixão não há o que dizer: é biológico e pronto. Está ali, mas isto não quer dizer que irá se manifestar. É puramente biológico. É a compaixão de uma mãe em relação ao filho, por exemplo. É natural e tendencioso que a mãe tenha compaixão pelo filho. No entanto, o segundo tipo, é bem diferente. Não é tendencioso e faz o convite para irmos além das fronteiras do grau de parentesco, laços de sangue e de amizade. O segundo exemplo, se atingido, é quando vamos além. É quando conseguimos ter a compaixão pelo próximo, independentemente de quem ele seja. E acredito que esteja aí uma das mais difíceis provas para nós: ter a compaixão pelo próximo simplesmente por ele ser o nosso próximo. Um próximo que não nos dará algo em troca, um simples desconhecido. Mas que sem ele (eles) talvez não existíssemos.

Ter compaixão é saber e querer compartilhar o sofrimento do outro. É, junto dele, sofrer também, simplesmente pelo fato de sabermos que ele sofre. Isso não significa abrirmos mão da nossa felicidade e não a buscar mais. Muito menos nos sentir culpados por estarmos bem, por exemplo. Significa, apenas, respeitar a dor do outro e, dentro das possibilidades e capacidades de cada um de nós, melhorar a situação dele por meio do nosso olhar, da nossa ajuda, da nossa mão. A compaixão não tripudia, não ri, não menospreza, não desdenha, não ironiza, não ignora a dor alheia. Ela é um sentimento nobre que caminha à frente. E para aqueles cuja presença da compaixão é uma realidade, certamente são pessoas que enxergam uma beleza na vida que a maioria ainda, infelizmente, desconhece.

O silêncio é uma forma de compaixão. A palavra certa, dita no momento certo, e com a intensidade certa é outra forma de compaixão. O abrir mão de privilégios é uma forma de compaixão. Aliviar a dor do outro é uma forma de compaixão.

A segunda forma de compaixão, como trouxe Dalai Lama, precisa ser ensinada. E isto começa cedo, bem cedo. Para aqueles que não tiveram esta sorte de aprendizado, contar vantagens sobre viagens inexpressivas e conquistas estéreis faz parte dos discursos empobrecidos deles que acreditam, infelizmente, que o mundo deve a eles uma atenção que não merecem.

É preciso, muitas vezes, silenciar a nossa voz para dar voz ao outro. Isto é compaixão. Precisamos nos incomodar de não percebermos as sutilezas que a vida nos oferece. E aquela pessoa, contando sobre uma viagem, num momento tão difícil e crítico para o outro, não foi capaz de perceber esta sutileza.

Podemos chamar isto de egoísmo? Sim. Podemos chamar isto de falta de senso de equipe? Sim, também. Mas tudo isto são apenas consequências. O fato é que se não aprendermos e se não tivermos referências, pouco ou nada avançaremos. Preciso é acabarmos com as distâncias que há dentro de nós, para depois buscarmos nos aproximar do nosso próximo. Como disse o escritor, “é preciso descobrir, em nós, matéria-prima para construirmos novos tempos. ”

Devemos tomar o cuidado para não passarmos pela vida sem vivê-la. E não desenvolver este segundo tipo de compaixão é abrir mão de boa parte da vida.

O vídeo abaixo nos convida à reflexão. Uma excelente oportunidade para repensarmos as nossas formas de atuação no mundo.


vídeo tirado da internet

Enfim, algo tão simples de se fazer, mas ao mesmo tempo, tão distante de nós exatamente por não enxergarmos esta simplicidade. Simplicidade tão necessária para que possamos sair de nossos carnavais, de nossos privilégios, e irmos ao encontro dos nossos interiores, de nossos ossos, de nossos bastidores. Acredito que somente desta forma o outro será visto por nós e nós por eles. Seremos os primeiros beneficiados se buscarmos esta compaixão que não habita em nós. E se habita, há muito está escondida no fundo do armário.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Friedrich Schiller, poeta alemão do século XVIII, que diz:

“Todas as almas nobres têm como ponto comum a compaixão. ”

Que possamos ser nobres como aquelas crianças africanas do vídeo, que muito têm a nos ensinar. Apesar da pouca idade, já caminham à frente porque compreenderam o real sentido da vida. Quando a competição for transformada em cooperação, e quando enxergarmos que dividir os doces com todos traz mais alegria que comê-los sozinhos, teremos despertado, dentro de nós, o segundo tipo de compaixão: a que vai além de nós, a que vê o outro como parte da gente, parte de todos nós.

Ubuntu!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A visita dos fantasmas

Recentemente, num noticiário de televisão, ouvi a seguinte expressão: “os fantasmas saindo dos armários”, referindo-se às velhas notícias que vão e que voltam sem a mínima cerimônia. Dia sim, dia não, as mesmas falas, os mesmos problemas, inclusive com as mesmas pontuações, os mesmos desrespeitos, as mesmas infrações, os mesmos retrocessos. Damos vinte passos, mas voltamos vinte e três. E estes três passos de diferença dizem alguma coisa. A questão é ouvi-los e saber identificar o que dizem.

imagem tirada da internet

Fantasmas existem por toda parte. Integram a vida humana. Nossos medos são fantasmas. Nossas inseguranças são fantasmas. Nossas incertezas são fantasmas. Nossas insatisfações são fantasmas. Nós somos os nossos fantasmas, que nada mais são do que as nossas representações passadas, aquilo que deixamos inacabado, e futuras, aquilo que queremos fazer, por exemplo, mas que achamos que não vamos conseguir. Estamos sempre num passado ou num futuro e raramente no presente.

Num passado, com nossas obras inacabadas, os nossos fantasmas fantasiam-se de culpa, remorsos. Um pedido de desculpas que ficou para depois se tornou tão mais para depois que até os fantasmas não se ocupam mais dele. E quando nos damos conta, mais uma obra inacabada. Para retomá-la, a relação das complicações e dos entraves que precisa ser trabalhada para que a obra seja concluída fica imensa. Mais fácil será, então, ceder ao pedido dos fantasmas e deixar nossas obras inacabadas neste mesmo passado, servindo de alimento para eles. É preciso lembrar que somos seres que complicamos as coisas.

Um passado incompleto de obras iniciadas por nós. Um passado de fantasmas alimentados por nós. Fantasmas que não precisariam existir se não fosse a nossa capacidade de criá-los enquanto deixávamos de viver. Esta incompletude causada por nossas obras inacabadas nos perturba. E como temos dificuldades de lidarmos com os nossos vazios e incompletudes, criamos mais fantasmas. E assim, vão se procriando e criando autonomia dentro da gente.

Num futuro, com aquilo que queremos fazer mas que teimamos dizer que não conseguimos. Os fantasmas também se acomodam aí. Sempre estamos à espera de um fato novo para começarmos, mas nunca começamos. Os fantasmas adoram as nossas incertezas.  Enquanto nos enrolamos nelas, eles crescem na certeza de nos controlarem e de nos ditarem o caminho que deveria ser construído por nós, somente por nós. Num futuro, com as chamadas “um dia eu faço”. Os fantasmas adoram este tal de “um dia”, porque se trata de algo que nunca chegará. Um dia será sempre o próximo, e nunca o hoje. É preciso lembrar que a procrastinação é o ingrediente principal das atitudes dos fantasmas. Sem ela, eles não existiriam. E assim, vão se fortalecendo e conquistando territórios dentro da gente.

Nossos passados e nossos futuros são nossas representações do que acreditamos, do que pensamos e do que esperamos. Imprescindível incluir o presente nestas nossas representações. Somente ele dará conta de esvaziar os armários cheios de fantasmas e o principal: não deixará mais que eles se acomodem lá ou em qualquer outro lugar. Os fantasmas sabem disto e podem traçar estratégias. Mas é preciso ser mais fortes que eles.

Os fantasmas não são ruins, mas nos atrapalham um bocado. Ensinam-nos muito, mas às custas de sofrimento e de dores que poderiam ser evitadas se visitássemos mais os nossos armários. Geralmente os fantasmas ocupam muito espaço. E nossos armários estão cheios deles. São silenciosos. Por isso, a presença deles não nos importa tanto. Vamos mantendo uma convivência pacífica. Sabemos que eles estão lá porque de vez em quando dão o ar da graça e surgem se avolumando e reclamando soluções. Mas em instantes, empurramos todos eles para dentro do armário, novamente, e a rotina volta mansamente.

A rotina é uma excelente saída para camuflar o que teima em surgir. Ela dá voz à ignorância. O ar de normalidade que a rotina demonstra, camufla operários noturnos.

Sufocá-los significa, muitas vezes, dizer que estão certos, só não queremos ouvi-los. Eles são fortalecidos por meio de nossa conduta. Na maior parte das vezes, ficam quietos dentro do armário. Mas, de tempos em tempos, ouvimos batidas. São eles pedindo para saírem. E como não deixamos, eles abrem a porta independentemente de nossa vontade. Afinal, instalamos uma fechadura pelo lado de dentro, mas havíamos nos esquecido. E quando eles saem, o melhor que fazemos é ouvi-los, acolhermos as  reclamações deles e buscarmos, juntos, a melhor solução que deve ser, acredito, ir até lá embaixo, no fundo, aonde o fantasma adora se esconder. E de lá, trazê-lo à superfície, mesmo sendo um lugar desconfortável para ele. E nesse lugar, o fantasma, ainda assustado, se mostrará para nós, sedento da luz que somente nós poderemos dar a ele.

Quando agimos isoladamente, somos ineficientes. Quando agimos em conjunto, damos vazão à inteligência para que nos tornemos seres verdadeiramente sustentáveis.

A luz que somente nós possuímos será capaz de transformar o fantasma em vida. Uma doação nossa para ele. O reflexo de quem somos mostrado pela face do fantasma. Uma doação dele para nós. Eles existem para comprovarem a nossa incompletude, para atestarem que os nossos bastidores são, muitas vezes, desconhecidos de nós mesmos. Nossas curvas, esquinas e lombadas são testadas e mostradas por eles, que sempre se escondem e dormem em nossos territórios inexplorados e pouco investigados, por nossa própria decisão.

Ir até o fundo de nós para resgatá-los é provar as nossas forças não usadas, mas disponíveis. Forças não usadas são forças extintas. Forças usadas são forças renovadas.

O olhar atento daquele que passa percebe fantasmas em nosso ser. Percebemos os fantasmas nos outros. Também o riso previamente preparado e direcionado esconde fantasmas. A fala pronta esconde fantasmas. O choro revela fantasmas. O cansaço provoca fantasmas. O medo cria fantasmas. A vaidade e o palco excessivos escondem inúmeros fantasmas. A verdade é que eles não mentem e se mostram através de nós. O que eles refletem, portanto, é o nosso próprio eco, nossa própria voz. Nosso eu escondido e solitário.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Gilbert Keith, escritor inglês do século XIX, que diz:

“A razão porque os fantasmas abandonaram os velhos castelos da Escócia é porque as pessoas deixaram de acreditar neles.”

Que a gente faça as pazes com os nossos fantasmas e os liberte. Fazendo as pazes com eles, os nossos armários estarão limpos e arejados guardando o que, de verdade, importa. E mesmo que insistam em voltar, que seja apenas para um breve chá conosco, numa rápida visita, para nos lembrar de nossas fortalezas que não podem ser esquecidas.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Disfarces

Sempre que queremos dar outra aparência ou identidade a algo, disfarçamos. O artista que muda a voz e a vestimenta para dar vida ao personagem; a fantasia de carnaval que canta na avenida; a criança que se veste como o super-herói; a blusa mais larguinha para disfarçar os excessos; a tinta nos cabelos para disfarçar os brancos; o sono inexistente para não se levantar do banco do metrô. Disfarces. Disfarces. Disfarces: uma poderosa ferramenta de condução da vida. Por meio dele, vamos moldando as coisas e situações a nossa maneira e, principalmente, vamos direcionando o objeto de nossos disfarces (coisas ou pessoas) para aquilo que buscamos e queremos.

Acredito que há dois tipos de disfarces: os inofensivos e os abusivos. Apesar de os dois carregarem uma intenção, o primeiro tem, como base, a manutenção da boa relação, o evitar de um conflito, o diálogo e a preocupação com o bem-estar do outro. São disfarces cuja intenção está no não brigar, no contornar uma situação aflitiva e problemática. Afinal, quem nunca disfarçou uma contrariedade em nome de algo maior? Quem nunca disfarçou uma tristeza apenas para não precisar dar explicações? Quem nunca disfarçou um “bom dia”, no trabalho, quando se quis ficar calado, apenas para não passar uma imagem de mal-educado?  São diversos os exemplos. O todo e o sentir de todos fazem a diferença aqui.

O segundo tem, como base, a manipulação, a arbitrariedade, a ausência do outro, o monólogo. São disfarces cuja intenção é levar o outro para um caminho que foi desenhado apenas pelo manipulador. Um caminho que serve apenas aos interesses dele, porque este é o tipo de ferramenta que ele utiliza para viver. O interesse do outro não importa. O individual e o exclusivo fazem a diferença aqui.

O caráter de um homem se mostra nas escolhas e nos contornos que ele faz. Contornos que disfarçam para que o bem prevaleça.

As manipulações se mostram nas entrelinhas dos disfarces. Elas também evidenciam o caráter de um homem cuja intenção é a de camuflar a sua perniciosa essência.

Todo disfarce carrega uma intenção. Resta-nos saber qual e decidir se continuaremos a alimentá-la.

imagem tirada da internet

O choro preso disfarçado pelo esboço de um sorriso.

A conversa tensa disfarçada pelo desvio do tema.

A doença crítica disfarçada pela teimosia da esperança.

A fome disfarçada pelo prato que chega com comida.

A rudeza de um diálogo disfarçado pela compreensão e pela tolerância.

A ignorância do ato disfarçado pelo saber que ainda não se conquistou.

A solidão disfarçada pela companhia de um bom livro.

A tristeza do palhaço disfarçada pelo nariz engraçado e pelo chapéu desengonçado.

A dificuldade motora do outro disfarçada pela convivência comum, sem alertas para isto.

A falta de habilidade de alguém disfarçada por chamar a atenção para os talentos.

Disfarçamos para que a vida siga. Para que ela flua. Abrimos mão de nossas posturas rígidas e inflexíveis para que o outro possa participar desta conversa também. Os disfarces para o bem nos conduzem com leveza pela vida. Eles não se escondem, apenas cedem o seu lugar àquele que, verdadeiramente, precisa.

O assédio moral que se esconde num falso feedback assertivo.

A compra e a venda de pessoas que se esconde na bonita fala “manobra política”.

A falta de vergonha que se disfarça na falta de quórum.

O marketing pessoal que se disfarça num medíocre “voluntariado”.

A injustiça que se disfarça na falsa meritocracia.

A gambiarra que está disfarçada no ajuste técnico.

A inveja que se disfarça no pequeno pensamento “não queria mesmo”.

A fila dupla que se disfarça no ligar do pisca-alerta.

O avançar do sinal disfarçado no famoso “está tranquilo, não há pessoas passando”.

Disfarçamos para que a vida siga somente a nosso favor, para que a vida sirva aos nossos interesses. Eu posso. Você não pode. Nós talvez possamos desde que os meus interesses prevaleçam. Estes disfarces se escondem porque se envergonham de se mostrarem. São fracos demais para mostrarem as suas faces marcadas. Mas a insistência da luz, cujo disfarce não é possível, evidenciará esses bastidores.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Voltaire, escritor francês do século XVII, que diz:

“A guerra é o maior dos crimes, mas não existe agressor que não disfarce o seu crime com pretexto de justiça. ”

Que possamos ter pretextos mais nobres, a cada dia mais. Que nossos disfarces continuem a existir, mas como sinônimos de abertura de caminho para que o outro também possa fazer parte. E quando o outro fizer parte, de verdade, todas as formas de guerras terão ficado para trás. Teremos alcançado o real significado da palavra Justiça, e sem disfarces.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Nossas doentes narrativas

Mesmo sem percebermos, narramos. A narrativa é algo que faz parte da vida humana. Seja por meio de símbolos, palavras, gestos, expressões, o fato é que narramos. O ato de narrar nos compõe como seres numa sociedade cada vez mais distante das próprias narrativas, da própria história. Narramos para nos compreender melhor, para nos questionar e para, com um pouco de esforço e dedicação, entender a nossa história. Portanto, a narrativa somos nós.

A nossa narrativa de vida resulta na nossa história. Somos frutos disto. E para que haja uma história de vida, a nossa por exemplo, é preciso ter o que contar e, principalmente, ter quem contar. Dependendo de quem conta, a história muda completamente.

Uma narrativa bem construída é composta por enredo (sequência dos fatos relacionados entre si), personagens (quem vivenciou os fatos) e o lugar onde tudo acontece. Enredo é o que nos acontece e que compõe o nosso repertório. As personagens representam a gente mesmo ou as pessoas com as quais convivemos e trocamos experiências, mesmo que mínimas. O lugar representa o cenário aonde tudo acontece. E o conflito e o desfecho que não podem faltar numa boa narrativa. Apesar de sabermos disto (afinal, quem nunca teve uma aula sobre redação na qual nos pediram um texto com o famoso “começo, meio e fim”?), nossas narrativas adoeceram.

Vivemos uma fragmentação de sentidos, de pensamentos e de ações. Começamos muitas coisas e nada ou pouco finalizamos. E quando finalizamos, às custas de sacrifícios e procrastinações. Queremos rapidez e urgência. Corremos nas escadas rolantes e o metrô é lento para nós. Se alguém começa a falar, interrompemos e completamos o raciocínio dele. Tiramos deste alguém a oportunidade de expressão. Lemos somente as manchetes e nos achamos atualizados. Intitulamo-nos generalistas sobre temas cujo conhecimento não passa de algumas horas...Nossa fala é ansiosa como reflexo das nossas narrativas interrompidas. Sabemos um pouco sobre o pouco. Deveríamos aprender mais sobre poucas coisas, mas as necessárias.

Desrespeitamos em nome da pressa. Corrompemos pensamentos e sonhos. Orgulhamo-nos de nossos seguidores e amigos que são, na maioria, virtuais. Pouco conhecemos sobre eles. E eles nada sabem sobre nós. A sintonia é grande, então. Para quem você pode ligar às duas horas da madrugada, sem constrangimento e intimidação, pedir ajuda e ter a certeza de recebê-la? Este é o seu amigo de verdade. Desconfio, seriamente, de pessoas que dizem ter mais de dez amigos. No máximo, temos conhecidos, colegas, pessoas próximas etc. Por que nos orgulhamos de termos seguidores no twitter? Para alimentar a inveja alheia com as nossas conquistas ou para nos tornarmos alvo de vendedores que estão à espreita da nossa imagem?

Nada contra. Mas por que esta tem sido a nossa principal opção? Uma das possíveis respostas é a que dá título a este texto: nossas narrativas adoeceram. Nossas histórias estão fragmentadas, espaçadas, curtas. Temos dificuldades de investigarmos as nossas questões. Queremos as respostas prontas. As nossas fragmentações nos limitam, evitam a nossa expansão. Quanto mais fragmentados estamos, menos foco e atenção damos às coisas. E quanto menos foco e atenção, mais manipuláveis somos. E a manipulação precisa de ambientes hostis, frágeis e insalubres para sobreviver. Desta forma, não teremos tempo para contestações.

O amanhã é sempre um lugar mais confortável para nós. Como ele nunca chega, porque o futuro é somente o presente pensado a longo prazo, nossas realizações vão se acomodando também neste espaço criado por nós e que tanto nos conforta e nos aquece. Somos frágeis iniciadores com dificuldades de enxergar a linha de chegada. Ficamos enroscados no meio do caminho e nos confundimos com as saídas. Por isso, demoramos a chegar.

Realizamos muitas coisas, obviamente. Mas poderíamos fazer mais se não fosse esta fragmentação do pensar que nos toma como propriedade e que dificulta, e muito, o nosso caminhar e o nosso agir. Ler um texto grande, hoje, é um martírio para muitos. “Lê e me fala depois sobre o que se trata. Estou sem tempo agora. ” Esta fragmentação dificulta e até impossibilita a construção de nossas narrativas.

Como construir nossas narrativas sem tempo? Como criar o desfecho, se não temos paciência e disposição para tratar dos conflitos da trama? Como narrar o enredo, se não temos o compromisso com os fatos? Como entender a dinâmica dos personagens, se a coragem para nos conhecer e compreender a nossa própria história não participa desta conversa?

A fragmentação do pensar e do agir sempre estiveram presentes em nossas vidas. Porém, a tecnologia deu um empurrãozinho nisto, acentuando este distanciamento que há entre a narrativa solidamente construída versus a narrativa interrompida e fragmentada. A solidamente construída se utiliza do tempo, da paciência, do pensar e do querer. A interrompida e fragmentada se utiliza da urgência, da falta de tempo criada pelo Homem, da pressa e da completa ausência de interesse pela história, seja ela contada ou ouvida.

As redes sociais provocam e acentuam esta fragmentação. Não apenas elas, mas fortemente favorecem o raciocínio curto, pontual, superficial e amador. O que menos nos proporcionam, enquanto navegamos nas redes sociais, é tempo. O que fazemos, e muito, é perdê-lo. Mas não podemos responsabilizá-las pelo poder que, indevidamente, damos a elas.

O twitter, por exemplo, é um local de escrita breve. Cento e quarenta caracteres. Ponto. Nada mais. Como entender qualquer narrativa em 140 caracteres? Não é a utilização do twitter ou de outra ferramenta que nos induz à fragmentação, mas sim sobre a escolha somente por este tipo de comunicação e de ferramentas que só nos levam à marginalidade da vida e às margens da nossa própria história. FIKDIC

A fragmentação de raciocínio provocada pela falta de construção de narrativas nos torna ineficientes e morosos. Somos cobrados pelo resultado, mas não queremos mais construí-lo. Somos cobrados pela performance, mas não valorizamos o tempo que se leva para alcançá-la. A nossa intolerância, impaciência e incompreensão nascem da desvalorização das narrativas. Do empobrecimento do nosso discurso. Não queremos mais saber a natureza do problema. Por isso, muitos deles não são resolvidos. Queremos respostas para perguntas que não aprendemos a fazer. E se aprendemos em algum momento, estamos desaprendendo. Por isto, nossas narrativas adoeceram.

Construir narrativas dá trabalho. Fazer amigos dá trabalho. Aprofundar relacionamentos dá trabalho. Conhecer-se dá trabalho. Aprimorar-se dá trabalho.

Ser é da dimensão da narrativa. Estar é da dimensão do rascunho e do esboço. Se quisermos passar por esta vida numa pintura real será necessário escrever a nossa narrativa. E escrevê-la dá trabalho.

As nossas fragmentações não nos permitem irmos além. E fragmentados, ficamos no raso, nas conversas vazias, na incompletude, na intolerância, nos começos, nos retalhos e nas sobras. As nossas fragmentações interferem no nosso poder de escolha. Elas nos interrompem a todo o momento exatamente para não nos fazerem pensar.

Elas nos encaminham para uma solidão coletiva, aonde todos caminham em direções opostas. E nem sabem para onde vão. Somos seduzidos pelo fácil, pelo rápido, pelo descanso injusto. Somos facilmente levados pelas curtidas de pessoas que mal leram as primeiras linhas dos nossos textos. Ou se leram, fizeram uma leitura dinâmica e foram nos pontos principais. Os que leem e dedicam tempo à construção e reflexão, independentemente da plataforma utilizada, entenderam o valor e a importância de uma narrativa. O tempo é o que fazemos dele e o que nele construímos, dizia o poeta.

O excesso de curtidas pode esvaziar o sentido. A quantidade não é indicador de qualidade. Nem sempre a melhor música será a mais ouvida. Nem sempre o melhor filme será o premiado. Nem sempre o melhor texto será o lido.

A qualidade requer tempo para ser apreciada e construída. E o tempo é um ingrediente básico das narrativas de qualidade. No contraponto, a quantidade não demanda tempo. Ela é imediata e rápida. E o imediatismo e a rapidez estão diretamente associados à comercialização, à fragmentação e ao supérfluo.

Falamos muito em desconstrução: desconstrução de modelos, de ideias, de conceitos. Mas, mais difícil que desconstruir, é construir. E as narrativas passam pela construção. Não há outro caminho. O início, o desenvolvimento e a conclusão são etapas fundamentais e essenciais para o viver. Não caminhar por estas etapas e não viver o que elas podem nos proporcionar é abrir mão da vida. É delegar o indelegável. É estar à margem de uma vida que poderia ser vivida.

Início, desenvolvimento e conclusão representam a nossa história, mas a verdadeira, e não a contada em poucos caracteres. A nossa história contada e criada por meio da nossa narrativa. Uma narrativa criada sem pressa porque os detalhes farão a diferença. Detalhes desprezados por escolhas que nós mesmos fizemos. Ainda há tempo para os detalhes, para reconstruí-los e fazermos de nossas narrativas, narrativas felizes e saudáveis.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Mário Quintana, poeta brasileiro de todos os tempos, que diz:

“Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo. ”

Que saibamos construir a nossa narrativa em papéis verdadeiros, em telas reais e sem pressa de passarmos por todas as linhas da nossa história. Que saibamos iniciar, desenvolver e concluir nossa narrativa de vida com dignidade e com orgulho e, acima de tudo, com disposição para não pularmos linhas e nem buscarmos atalhos desmedidos. Pois se assim o fizermos, nossa narrativa terá adoecido, e não será mais possível ouvi-la como o som da nossa própria história: a história da nossa vida.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O anonimato nominal

Vivemos de contradições, assim como o título deste texto. Elas nos situam, completam, explicam, condicionam, revelam, escondem. Situam-nos na nossa realidade, completam os nossos vazios e dúvidas, explicam o nosso agir, condicionam o nosso pensar, revelam aquilo que tentamos esconder e escondem aquilo que todos sabem.

Anônimos somos todos. Mas temos um nome, um rosto, uma identidade. Somos nomináveis, mas estamos no anonimato. Somos conhecidos, sabem o nosso nome e a nossa história, mas quem somos para nós mesmos?

Anônimo é o que não possui nome, literalmente, ou aquele cuja existência é inexpressiva e sem significados? Aquele que, por pequenez, se esconde na ausência?

Os covardes se comprazem no anonimato por desconhecerem o escrúpulo. Os fortes não compartilham do anonimato por conhecerem o caráter.  Covardes e fortes: mesma moeda para uma representação de todos nós, sem exceções.

Aquele que passa, qual história possui? Aquele que busca ajuda, o que ele quer contar?

Aquele que caminha, para onde vai? Aquele que chega, teria encontrado o que foi buscar?

Aquele que passa, caminha, leva a história para outro lugar. Quer contar, a quem interessar, que chegou e que encontrou o que foi buscar.

Saber a história, o nome e aonde o outro quer chegar não significam conhecê-lo. Significa, apenas, ter informações sobre. Apenas isto. Conhecê-lo significa participar da história dele, saber o que o nome dele representa para ele e, acima de tudo, ajudar o outro a chegar a este lugar que ele quer chegar. Sem perguntas, sem críticas, sem interferências.

Lá vai o anônimo pela estrada. Passa por todos, mas ninguém o vê. Ele passa. Mas ninguém o vê. O anônimo com nome, rosto, história, mas sem uma pessoa disposta a saber o nome dele, conhecer o rosto dele e, muito menos, saber a história deste anônimo que, no fundo, somos nós. Somos o anônimo que passa com muitas histórias iguais às do outro que também passa, e que é anônimo como a gente.

Quando entendermos que a história do outro ajuda a contar a nossa e que a história dele é sequência da nossa, o anonimato começará a perder voz e espaço. Buscar entender e conhecer todas as histórias e participar de todas seria impossível. O anonimato não se anulará por meio disto, mas sim por procurarmos na história do outro, o reflexo da nossa.

Quando a história do outro refletir as nossas atitudes e nos colocar diante um espelho, o anonimato deixará de ser um vantajoso negócio.

Não existe anonimato no sentido literal, mas no sentido proposital. Qual é o propósito da nossa escolha pelo anonimato? Todo anonimato é nominal. Somos todos nomináveis. Podemos ser desconhecidos, mas nunca anônimos. Mesmo na ausência da nossa assinatura, a atitude de não assinar nos torna nomináveis e reconhecíveis.

A ausência de assinatura é uma assinatura.

A ausência do nome é nominar algo. Esconder-se é mostrar-se. A contradição da vida é esta completa ausência de sentido, de lógica e de linearidade.

Aquele que passa ao nosso lado, quais dores carrega? Aquele que fala ao telefone, com quem fala e sobre o que fala? Aquele que passa e não vê, aonde ele está? Aquele que caminha com pressa, para onde iria se não tivesse tanta pressa?

No anonimato estamos protegidos de nos enfrentar. Não precisamos dar satisfações e nem enfrentarmos a discordância do outro. O anonimato nos defende de irmos além de nós mesmos. Ele mais mostra que esconde e mais revela aquilo que achamos que escondemos.

O anonimato está no se ausentar do outro e de tudo o que ele representa. Significa estar ao lado dele, mas não querer saber o que ele faz ali. O anonimato existe para aquele que acredita na ferramenta da exclusão como forma de cercear a vida. Para aquele que acredita que tem opções, menos o outro. O anonimato existe para aquele que não quer ouvir a história do outro porque não quer gastar tempo para ajudá-lo. Para aquele que quer passar despercebido porque acredita que todos pedirão a sua ajuda, mas ele não está disposto. E assim, não percebe que é ele quem mais precisa de ajuda.

O anonimato não existe. Somos todos nomináveis. Nossos rostos e identidades revelam nossos caminhos percorridos e nossas escolhas. O anonimato cria uma máscara e, desta forma, não reconhece a presença do outro que busca ajuda para que a história dele não morra.

Assumir o nosso nome, o nosso rosto, a nossa identidade e sair do nosso pseudoanonimato é reconhecermos traços do outro em nós, é estendermos a nossa mão sem medidas, sem fita métrica e sem hipocrisias. É permitir que o outro escolha o caminho dele no meio de tantas determinações feitas a ele por nós mesmos e por uma sociedade feita de gente, que no fundo somos nós, crentes do anonimato.

Sairmos desta ilusão não significa sairmos nas ruas e querermos saber tudo e de todos. Apenas significa emprestarmos, de vez em quando, os nossos ouvidos, silenciarmos a nossa voz, amenizarmos o nosso olhar de repúdio frente àquele que cheira mal. É sairmos desta ilusão da objetividade e acharmos que a assertividade resolverá todos os nossos problemas. Isto seria empobrecer demais a nossa capacidade do debate e do nosso repertório cultural.

É preciso reconhecermos nossas ausências, nossas transparências, nossos intervalos e nossos bastidores. Investigarmos as nossas questões é fundamental caso não queiramos avançar em nosso retrocesso progressivo. A construção é lenta, mas em algum momento ela foi iniciada. Não podemos desmerecê-la.

Reconhecermos a presença do outro nos levará à valorização dos valores reais, e não à desvalorização, infelizmente, do que foi arduamente construído por nós e por todos os que já, algum dia, estiveram aqui.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Fernando Pessoa, um dos poetas mais influentes do mundo, que diz:

“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim, em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive. ”

Para que sejamos inteiros e todos, sem exageros, assumirmos o nosso nome e a nossa postura diante à vida será fundamental. Acreditarmos no anonimato seria como entregarmos um desenho inacabado por pura descrença e preguiça de concluí-lo. E pior: acharmos que o desenho seria este mesmo, sem acreditarmos em outras formas de construção. Deixarmos o anonimato envergonhado é como se acreditássemos em todas as possibilidades que a vida, sabiamente, nos oferece para que o avançar seja a nossa única opção.

Caso o anonimato realmente exista, que ele sirva apenas para esconder, ainda que por breve período, nossas boas ações que estejam contribuindo para que o outro saia do anonimato e da marginalidade.

Fernando Pessoa escreveu este poema nos anos 30. Mas a atualidade dele é inquestionável.

Que sejamos inteiros no mínimo que fazemos. Isto significa assumirmos as nossas assinaturas, sairmos do anonimato e ajudarmos a criar condições para que a nossa história e a do outro estejam no mesmo patamar de importância. Somente desta forma brilharemos de forma a não ofuscarmos aquele que vai no mesmo caminho que cada um de nós.

domingo, 13 de agosto de 2017

A luz que afronta

Jogos Olímpicos de Atenas, 2004: Vanderlei Cordeiro de Lima, liderando a prova de atletismo, foi, covardemente, interrompido e atrapalhado por um homem chamado Neil Horan. Esse suposto padre, famoso por ter realizado atrocidades similares em outras competições, foi condenado a um ano de prisão, posteriormente convertido em pagamento de fiança, além das retaliações sofridas pelas pessoas que assistiam ao espetáculo. Também foi destituído das funções religiosas que exercia na igreja na qual atuava, pelos responsáveis, sob a alegação de ele sofrer de problemas psiquiátricos. Foram estas as punições dele, nada mais. Será?

Para o atleta, que mantinha uma boa vantagem em relação ao segundo colocado, a medalha de ouro seria a trajetória natural e justa. Mas não foi o que ocorreu. A interrupção prejudicou a performance de Vanderlei, que, perdendo posição frente aos seus adversários próximos, não conseguiu manter o ritmo. Além da dor física que ele sentiu ao ser interrompido durante a corrida que fazia. Mesmo tendo sido a vítima desta situação, os Organizadores responsáveis não cancelaram a prova. Vanderlei foi prejudicado injustamente. Perdeu o primeiro lugar e a medalha de ouro. Nada mais. Será?

imagem tirada da internet

Na primeira imagem, a dor física sofrida por Vanderlei ao ser bruscamente interrompido pelo padre irlandês, além da dor emocional por não acreditar no que estava acontecendo.

Na segunda imagem, um homem, anônimo, de bermuda e de camiseta, rompe a faixa azul de segurança, com a única e exclusiva missão de ajudar a recolocar Vanderlei nas pistas, de volta ao lugar de onde ele nunca deveria ter sido tirado. “Vai, vai”, o homem dizia para Vanderlei.

Um homem trazendo uma luz que afronta àquele que vive na escuridão. O primeiro quis e conseguiu atrapalhar. O segundo quis e conseguiu ajudar.

E na terceira imagem, o padre irlandês sendo rechaçado pela multidão e, logo adiante, preso.

Este triste padre, cuja existência deve ser uma ausência de relevâncias, não teve como punição, apenas, uma prisão, um rechaçar da sociedade, uma expulsão da ordem religiosa e gritos de um povo revoltado. Este triste padre teve, como uma das piores punições que um ser humano pode ter na vida, a convivência íntima com a inveja: um sentimento que corrói devagar aquele que sente e que o faz assistir, de um local privilegiado, o sucesso e o avançar do outro. Este triste padre não queria, apenas, chamar a atenção. Muito além disto: ele queria destruir o avançar do outro, o sucesso daquele que ia lá na frente, a certeza do outro e a alegria estampada no rosto daquele que, diferente dele, descobriu a sua missão e caminhava na direção dela. E deste lugar privilegiado, o invejoso, corroído de não poder conviver com a luz do outro que o afronta, o impede de prosseguir. E muitas vezes consegue, como foi o caso. Mas será um conseguir insustentável, porque sempre terá um Polyvios Kossivas para recolocar na pista aquele que for merecedor.

Para Vanderlei, a grandiosidade do gesto dele em seguir na pista, levantar a cabeça e reunir forças que somente ele sabe de onde foram tiradas, nos faz repensar o primeiro lugar na vida e a medalha de ouro. Naquele momento, como ele mesmo disse em entrevista, “era preciso pensar e agir rapidamente para mudar a estratégia: não seria mais possível o primeiro lugar, mas chegar seria o objetivo. Eu queria uma medalha olímpica. Não importava a cor.” E ele chegou. Em terceiro lugar, com sua medalha de bronze no pescoço que, certamente, tinha o mesmo valor e o mesmo peso de uma de ouro. Com esta atitude, o atleta já era medalha de ouro na atitude e na conduta.

Jamais nos esqueceremos desta injustiça. Ao mesmo tempo, nunca nos esqueceremos da atitude do atleta: a de continuar com a luz dele acesa, mesmo que estivesse ofuscando aquele que não podia com ela. A atitude de Vanderlei fez a medalha de ouro e o primeiro lugar ficarem em segundo plano.

O invejoso se incomoda com a luz do outro, mesmo que a luz do outro ajude a iluminar o próprio caminho. Por que aquele padre interrompeu Vanderlei e não outro atleta? Porque era o Vanderlei quem estava na frente. Simples assim. O invejoso se completa quando vê o outro escorregar e cair. Por quê? Porque o chão é um lugar no qual ele vive confortavelmente. Aquele que padece da inveja é doente, triste e vive à sombra da vida. Não se conforma com a felicidade do outro porque a desconhece. Não gosta da luz do outro porque fere a visão dele. Como é doente, prefere investir esforços na queda da luz do que na soberania dela.

É muito comum sermos atacados quando estamos no caminho correto, no caminho da luz. Quando estamos sofrendo muitas perseguições e ataques é porque estamos, na maior parte das vezes, no caminho certo. Por isso incomodamos o outro ou nos incomodamos com o outro. Parece contraditório, mas é real. Caso assim não fosse, o invejoso não seria seletivo em seus ataques. Mas é: ataca apenas aquele que mostrou que sabe e conhece o caminho. Os problemas e, principalmente, as críticas e as inferências são tentativas de os invejosos nos tirarem dele. E quando nos damos conta, desistimos e ficamos pelo caminho.

Nem toda crítica, problema e inferência é fruto do invejoso. Sabemos disto também. Caso assim fosse, colocaríamos tudo na conta dele e ficaria tudo mais fácil. Mas o fato é que sabemos diferenciar. Sabemos quando estamos acertando e quando não estamos. Sabemos a hora de seguir e a hora de parar. E este nosso discernimento fará toda a diferença no momento de reconhecer o invejoso que surge em nosso caminho, que busca desviar a nossa rota, também do invejoso que há em nós, aquele que alimentamos por meio de nossas tentativas de desviar o caminho do próximo, ou simplesmente de compreendermos que estamos no caminho errado, mesmo. Que é preciso reorganizarmos a rota traçada.

Quanto mais alto subimos, menos quantidade de oxigênio temos. Ou seja, a medida que escalamos mais alto, as dificuldades aumentam e os invejosos acentuam as suas garras e as suas estratégias. Mas somente poucos enxergarão a vista lá de cima. E este é o sentido da vida: escalar montanhas para se ter uma visão privilegiada: uma visão privilegiada de nós mesmos. Daquele que teve a coragem de escalar esta mesma montanha que, a todo o momento, os invejosos tentaram colocar pedras e rebaixar o valor desta escalada.

E quantas montanhas também impedimos que o outro escalasse? Ou quantas invadidas de pistas fizemos contra àqueles que corriam a nossa frente? Fica uma lição para pensarmos.

É preciso coragem, foco e determinação para buscar o bronze, caso a vida ou qualquer padre irlandês do caminho tenha, momentaneamente, atrasado a nossa busca pelo ouro e pelo primeiro lugar. Não um primeiro lugar da vaidade, do luxo e do despropósito. Mas um primeiro lugar para vencer a nós mesmos.

Aceitar os bronzes que a vida nos dá nos trará ouros adiante. Podemos acreditar nisto. Aceitar os nossos bronzes é silenciar os invejosos que, invalidados na estratégia de nos desestabilizar, nada poderão nos causar.

Seguir e não parar é o pior que podemos fazer contra os invejosos. A inércia é a principal parceira deles. E os que fazem, interrompem a escolha que eles fizeram pelo retrocesso.

Os invejosos não possuem outra arma que não o ataque à luz. São pobres do caminho, à espreita da nossa queda. À espera da nossa derrota. Mas se o bronze também fizer sentido para nós, a nossa luz continuará ofuscando aquele que sofre ao vê-la.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Oscar Wilde, poeta irlandês, que diz:

“O número dos que nos inveja confirma as nossas capacidades. ”

Vanderlei Cordeiro de Lima foi vítima de um doente mental, mas antes disto: de um invejoso. Que bom que ele não desistiu. A inveja daquele homem somente serviu para confirmar a capacidade do atleta, como disse Oscar Wilde.

Que a desistência não faça parte da nossa trajetória. Apenas se ela servir como traçado para novos caminhos escolhidos por nós. Foi muito trabalhoso chegar até aqui. Não podemos desistir. A nossa desistência é o alimento tão esperado dos invejosos que nos espreitam. A subida é difícil, e exige demais de nossas pernas. E é aí, nesta difícil subida, que o invejoso afia a arma para nos atacar. Reconhecendo-o, continuaremos a nossa subida, como fez Vanderlei. Mas isto é para poucos. Apenas para aqueles que decidiram calar os invejosos e, acima de tudo, valorizar os bronzes do caminho. Que a gente, portanto, faça parte desta minoria.

Que a nossa decisão de continuar seja a nossa grande arma contra aqueles que torcem para que fiquemos no raso, no superficial, no começo da rampa.