domingo, 8 de julho de 2018

Começou a palhaçada

O título deste texto foi uma frase dita por uma Gerente de uma multinacional ao se referir à Copa do Mundo. Questionada sobre como seriam as escalas neste período dos jogos do Brasil, para a liberação das pessoas, ela disse: “Começou a palhaçada.”

É preciso cuidado e atenção na utilização das palavras. Saber o que dizemos para não ficarmos reféns de nossa linguagem. Palavras mal colocadas e mal escolhidas demonstram o nível de cada um de nós, inclusive o moral. Principalmente, se estas mesmas palavras perderam, ao longo do tempo, o seu real significado e foram ganhando, injustamente, teores pejorativos, desconexos e preconceituosos. É o caso da palavra palhaçada.

Para compreendermos o significado de palhaçada, precisamos, antes, dar uma passadinha no sentido de palhaço. Palhaço, uma palavra italiana, vem de pagliaccio, que deriva de paglia, que significa palha. Palhaço é o resultado daquele que possui a palha como elemento principal de sua constituição, colocada nas roupas divertidas e coloridas que veste para o deixar engraçado e, consequentemente, nos fazer rir. Acrescido do sufixo aço (palhaço) que significa e dá uma ideia de intensidade.

Palhaçada, este ato do palhaço, possui o sufixo ada, em sua composição, que significa “ideias do conjunto”, aquilo que é realizado por um grupo de pessoas. Para resumirmos, então, palhaço é, no sentido literal, aquele personagem que é feito de muita palha, intenso (sufixo aço = intensidade) e que faz palhaçadas (sufixo ada = conjunto), ou seja, que trabalha em conjunto com outras pessoas. O Palhaço é divertido por causa da palha e do colorido, mas intenso por causa do aço que carrega nele. Conhecer o significado das coisas nos coloca em outro patamar de reflexão.

E de onde vem o sentido pejorativo que esta palavra ganhou, que diz que palhaço é uma pessoa sem senso crítico, bobo, e que palhaçada é uma situação ridícula e sem importância? Da livre associação que fazemos, sem pudores, do real significado das palavras versus o sentido distorcido que ganharam. Como uma das missões do palhaço é nos fazer rir e trazer leveza para as nossas vidas, acabamos distorcendo o seu verdadeiro sentido. Por serem personagens “aparentemente” inocentes, ingênuas e divertidas, tudo aquilo que é feito por elas acabou, indevidamente, sendo interpretado como sem importância, ridículo, bobagem, desperdício.

Mas acho que estamos enganados. O palhaço tem muitas outras missões. E talvez a mais importante delas, que não percebemos, seja o de chamar a nossa atenção para coisas importantes, relevantes, sérias, porém sem alardes. Por meio da leveza da atuação dos palhaços, da sutileza que carregam na alma, dão os seus recados. Falam sobre assuntos críticos, porém se utilizando de recursos altamente inteligentes que são a ironia e o humor. Mas compreendê-los é para poucos. A maioria, infelizmente, caminha para o lado mais fácil que é o da depredação, conhecimento raso, curto e fácil.

Quando escolhemos o lado pejorativo das coisas, e também o das palavras, perdemos excelentes oportunidades de sairmos do raso, do comum e do igual. Ficamos parados e estagnados em nossas mediocridades, ignorâncias e atrasos escolhidos.

Chamar a Copa do Mundo de palhaçada é um exemplo de escolha da mediocridade, do lado pejorativo da vida e das palavras. É optar pelo atraso e pelo raso. E os palhaços, com suas palhaçadas, nada têm a ver com isso. Quando nos referimos a alguém ou a alguma situação por meio de termos distorcidos pelo sentido, reforçamos e engrossamos a fila dos desavisados, dos preconceituosos. Perpetuamos modelos falidos pelo mau uso que fizemos.

A Copa do Mundo é apenas um evento social que nos traz excelentes chances de reflexão e de mudanças. Como vamos enxergar a Copa? De forma pejorativa, como uma bagunça sem sentido, um evento ridículo, um atrapalho em nossas agendas recheadas de compromissos desnecessários, ou olharemos para ela como um espaço de avanços e de interrupções de nossos abismos? Tudo dependerá de como estaremos vestidos.

A nossa roupagem determina nossa atuação na vida. Estes eventos e estas oportunidades apenas evidenciam e mostram o quão grandes somos e o quão pequenos somos.

A Copa tem discutido, duramente, temas críticos em boa parte do mundo: a democracia, a homofobia, a intolerância religiosa, o machismo e a submissão da mulher, e outros mais. São temas sempre debatidos. Mas a Copa reforça a necessidade do debate. A democracia, para boa parte dos Russos, é sinônimo de bagunça. Boa reflexão a se fazer.

Há pessoas que atribuem à Copa ou a estes eventos mundiais e grandiosos a responsabilidade da nossa alienação. E isto não é verdadeiro. Por isso, talvez, chamem estes eventos de palhaçada, no sentido pejorativo. O fato de acompanharmos e de nos divertirmos na Copa, por exemplo, não nos isenta das nossas responsabilidades. Aquele que se isenta da responsabilidade por causa da Copa, na verdade, sempre esteve ausente. Aquele que se diverte, acompanha e respeita, sabe que cada coisa cabe em seu devido lugar.

Divertir-se com uma das grandes alegrias do povo não significa ausentar-se dos noticiários e das atitudes. Uma coisa independe da outra. É preciso distinguir diversão de alienação.

Torcer para o Brasil não nos torna alheios ao nosso redor e sobre o que vai nele, nem mesmo no nosso entorno. Não me faço alheio frente as minhas necessidades e frente as necessidades daquele que vai comigo, que vai conosco.

A Copa do Mundo traz um descortinar do nosso olhar para, se quisermos, ver a beleza que há por trás de cada detalhe, de cada situação.

Uma reunião de povos distintos que se abraçam no momento do gol. Em situações outras, este abraço jamais existiria. Uma felicidade a cada passe acertado, que talvez nos faça refletir sobre os muitos passes infelizes dados, na vida. Um passe certo, um pensamento no coletivo. Uma reflexão necessária trazida pela Copa. Não é, portanto, uma palhaçada.

Aliás, os palhaços estão logo ali, nas arquibancadas dos estádios. Vestidos com suas roupas coloridas, repletas de palhas. São muitos os que vão ali, trabalham juntos e de forma intensa.  Vibram a cada passe certo, a cada jogo coletivo, e verdadeiro, que fazemos. Uma verdadeira palhaçada que se observa ali, realizada por palhaços que de bobos, não têm nada. O que eles têm é intensidade na ação, vigor e verdade. Falam do que precisam. Talvez por isso nos façam rir. Rimos porque nos identificamos. Porque o riso nos faz leves. Porque não queremos nos apropriar dos nossos problemas. Porque somos debochados. Porque o choro nos espreita.

A Copa que reúne estrangeiros na mesma Seleção. E são estes estrangeiros que dizem, silenciosamente que, sem eles, não haveria Seleção. Negros e loiros são filhos do mesmo País.

A Copa que mostra os Brasileiros que não querem mais ser brasileiros. Naturalizaram-se estrangeiros em outros Países. A Copa que evidencia nossas identidades trocadas, resumidas.

A Copa que evidencia a nossa covardia ao puxar a camisa do outro para que ele não faça o gol. Se não for para mim, não será para ninguém. “Começou a palhaçada”. De quem falamos e sobre o quê? Por que insistimos em nos montarmos sobre significados menores das palavras? Por que o dicionário ainda não se tornou o nosso melhor amigo?

A Copa que o País-sede tenta camuflar e disfarçar seus problemas. Tenta nos convencer de que é um País vigoroso e justo. Mas a gente faz questão de lembrá-los de que a história não é bem assim. A Copa, portanto, não é uma palhaçada.

Enxergar a verdadeira palhaçada seria ver o volume da palha em nós, o rústico, o campestre, o importante revestido de engraçado. O urgente pintado de riso frouxo. Enxergar a verdadeira palhaçada é deixar o palhaço que há em nós atuar sem muros, e compreender, de uma ver por todas, que o sufixo aço significa intensidade e não bobagem. Aceitar que o sufixo ada nos convida para o conjunto, o que é bem diferente de isolamento e individualismo. Coisas assim os palhaços nos mostram. E eles acenam para nós, do alto das arquibancadas aonde estão. Mas quem os enxerga? Afinal, são apenas palhaços...e palhaços não são dignos de atenção.

A Copa que mostra uma mulher usando uma blusa sem mangas, proibido no País dela. E mulheres sauditas que podem, pela primeira vez, assistirem a uma partida de futebol. Elas se emocionaram. Por que será? A copa, portanto, não é uma palhaçada. Não esta que os desavisados conhecem. É uma festa comemorativa na qual se evidencia apenas o que vai em nós. Damos a esta festa o resumo que nos preenche.

A Copa que nos relembra os refugiados, porque parece que nos esquecemos deles. A Copa que relembra Pelé e seu time, capazes de interromperem uma guerra, há 48 anos, pelo Santos. Mas também a Copa que mostra aqueles infelizes brasileiros, pequenos e medíocres, que gravaram um vídeo com observações machistas e baixas, com uma torcedora russa. A Copa que mostra que adversário é só o adversário, e não um inimigo. Os palhaços já compreenderam, há tempos, isso.

Abraços foram vistos, mas baixezas também. Isto só nos mostra que a copa, em si, é apenas um evento social. Mas ao se diferenciar o olhar, seremos companhias para os palhaços e elevados em nossas próprias réguas. Não é alienação e nem ilusão. Apenas uma oportunidade de mostrarmos o nosso tamanho, seja ele qual for.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento que consta no Talmude, uma coletânea de livros sagrados dos judeus, que diz:

“não vemos as coisas como elas são. Vemos as coisas como nós somos.”

Que possamos enxergar a beleza deste convite que é a Copa, e visitarmos um lugar há bastante tempo esquecido: nós mesmos. Esta é uma excelente oportunidade para isso. Talvez nesta visita, no silêncio dos nossos interiores, encontraremos os nossos palhaços, há tempos esquecidos. E que, felizes por este reencontro, eles nos saudarão por termos, enfim, compreendido a necessidade do olhar coletivo, da intensidade e do trabalho em conjunto, sem nos esquecer das palhas nas nossas roupas que nos darão duas grandes ferramentas para um viver melhor: a leveza e a alegria.

Olhar coletivo, intensidade e trabalho em conjunto. Roupas de palha para dar leveza e alegria. Lições da Copa. Lições dos Palhaços. Uma palhaçada verdadeira, com aprendizados que eles sabem e que nos mostram, do alto de suas moradas, porque moram lá há bastante tempo.

domingo, 1 de julho de 2018

Um velho conhecido

A lenda diz que Gandhi, quando fez o curso de Direito na University College, de Londres, teve muitos problemas com um professor cujo sobrenome era Peters. Uma pessoa arrogante, irônica, que não perdia oportunidades de agredir Gandhi, nos encontros frequentes que tinham.

Num destes momentos, enquanto o Sr. Peters almoçava no refeitório da Universidade, Gandhi sentou-se ao lado do professor que, irritado, disse:

- Sr. Gandhi, o senhor não entende. Um porco e um pássaro não se sentam juntos para comer. Gandhi responde a ele:

- Tranquilize-se, professor. Estou indo embora...voando. E mudou-se para outra mesa.

Sr.Peters, enfurecido, quis devolver a ironia a Gandhi. E no dia seguinte, ao aplicar uma prova, o professor pergunta a ele:

- Sr. Gandhi, imagine que o senhor está caminhando e encontra um pacote de muita sabedoria e um outro pacote com muito dinheiro. Qual dos dois o senhor escolheria?

Gandhi responde ao professor:

- Eu ficaria com o dinheiro, professor. E o professor, sorrindo, certo de que desmascararia Gandhi, diz:

- Ora, senhor Gandhi, em função da sua fala e do comportamento que o senhor prega, pensei que escolheria a sabedoria. Mas vejo que me enganei. O senhor, me parece, é um tanto materialista, o contrário do que diz. Eu, ao contrário do senhor, obviamente escolheria a sabedoria. O senhor não acha que este seria o correto?

- Compreendo, disse Gandhi, ao professor. Cada um escolhe o que não tem, não é mesmo?

O professor, ainda mais irritado, escreve a palavra “Idiota”, no canto da prova de Gandhi. O jovem pacifista recebeu a folha e a leu atentamente. Depois de alguns minutos, caminha até o professor e diz:

- Sr.Peters, reparo que o senhor assinou a minha folha. Mas, e a minha nota? E assim termina a lenda...

Independentemente de ter sido Gandhi ou não, o protagonista desta história, o que me chama a atenção é que este tal Sr.Peters é um velho conhecido nosso. Ora somos vítimas dele; ora somos ele em pessoa. E por quê? Porque quando optamos pelo caminho certo, quando decidimos pelo bem, quando escolhemos a claridade e agimos para o avanço, incomodamos. Atrapalhamos o caminho daquele que partilha da mesma estrada que a gente, porém por atalhos diferentes e trajetórias opostas. E o contrário também é verdadeiro, apesar da dificuldade de aceitarmos isto. Não é tão simples para nós, quando somos os que vão nestas trajetórias opostas, aceitarmos o caminho correto que o outro desenha a nossa frente. Geralmente, antes de aceitarmos isto, os nossos cegos discursos recheados de falácias costumam tomar a frente. E só mais adiante, quando a vida resolve nos recobrar a memória sobre algumas lições esquecidas, envergonhados voltamos para os nossos lugares. Mas o outro já vai lá na frente.

Inveja, que é o nome que se dá à simbologia do Senhor Peters, nosso velho conhecido, é um pequeno veneno que vai dentro de cada um de nós. Sem exceções. O que nos diferencia, talvez, seja a quantidade e a intensidade da nossa dose. Apenas isso. Mas ele está em nós, bravamente buscando sobreviver às custas das nossas superficialidades e artificialidades. Escondido ou à mostra, ele vai ali, nos acompanhando e torcendo para que a gente o alimente. Este veneno depende de nós e parece que gostamos de alimentá-lo. Se assim não fosse, por que, então, ele caminha forte e consistente?

Fazer de conta que assim não somos ou que a inveja não faz parte da gente é uma grande tolice. Quanto mais queremos esconder um buraco, mais ele se envidencia e se aprofunda. É da lei. Quando baixamos as armas e assumimos nosso trajeto invejoso, a inveja perde a força. E sem forças, para onde ela vai senão se revisitar no espelho?

O raso, em nós, sustenta o que nos destrói. O que nos recupera está submerso, invadido por pequenezas que supervalorizamos e damos a elas tamanhos que jamais deveriam ter.

Atrasamo-nos quando não nos reconhecemos ou quando não reconhecemos o que vai em nós. Perdemo-nos em estradas retas quando deixamos de aceitar o convite da vida para dobrarmos as nossas esquinas, e assim, enxergarmos os nossos contornos. Nossos bastidores precisam ser conhecidos e redesenhados sob alicerces sustentáveis.

O Senhor Peters que vai em nós ou que surge em nosso caminho somente evidencia que somos imperfeitos. E como tal,  há muito caminho a ser percorrido. Muito trabalho a ser feito. Já havia escrito um texto sobre a inveja, mas parece que é um tema cujo conteúdo não se esgota.

A inveja, seja ela nossa ou do nosso vizinho, é sempre um pedido de socorro do ego ferido. É uma cegueira para o bem que vai em nós. Sentimos imensa dificuldade de descortinarmos os nossos imensos valores, por isso o valor do outro nos cega e nos incomoda tanto. O brilho do outro nos ofusca porque, no fundo, queremos aquele brilho para nós. E como não conseguimos, lutamos para destruir o brilho que vai nele.

Invejar o outro é abrir mão de reconhecer o nosso valor. É acreditar nas nossas incapacidades. É sentir que a vida não se encaixa na gente. Um desconforto permanente. Um abrir de mãos constante do nosso eu. Um olhar sempre para fora e nunca para dentro. É se sentir desajeitado. Uma inadequação diante à vida. É como se fôssemos a uma festa sem termos sido convidados. E, sem graça, tentamos nos ambientar em alguma rodinha de gente que sentiu pena da gente. Mas o nosso brilho está lá, esfuziante, brilhante, vivo, apenas aguardando o nosso olhar, que cego, não o percebe. É uma pena.

Somos grandes. Somos muitas coisas boas. Talvez esta nossa grandeza esteja ofuscando o nosso brilho exatamente por não sabermos lidar com expressivo tamanho.

A inveja se caracteriza por esta perseguição gratuita ao outro. Perseguição ao que o outro faz de certo e de bem. Sentimo-nos provocados porque é como se o outro, indiretamente, nos obrigasse a sermos bons também, a fazermos melhores escolhas. O caminhar certo do outro nos pressiona e nos tira do conforto da hipocrisia. É mais fácil continuar do mesmo jeito do que lutar para crescer. Por isso a inveja nos acomoda em lugares confortáveis. Mas é por puro interesse dela.

Cada um com a sua particularidade. Cada um com a sua individualidade. Cada um com a sua imperfeição. E é na imperfeição que somos belos. Ela nos faz enxergar as nossas estruturas e do que somos feitos. A nossa inveja ajuda a construir a nossa imperfeição: uma imperfeição bela, feita dos nossos pormenores que somente se forem aceitos, acolhidos e compreendidos poderão se recolher para a sua ausência, um dia, dentro de cada um de nós.

É preciso, portanto, nos deixar ocupar pela nossa própria história. E para tanto, não há como pegarmos elevadores no meio da estrada. Somente caminhando por meio dos nossos pés.

Falarmos com os nossos silêncios, e assim, descobrirmos quais têm sido os nossos nós em avançar. Precisamos ser assíduos na nossa vida e com a nossa vida. Aumentarmos os intervalos entre os pensamentos. E será nestas brechas que a nossa sabedoria será reconectada conosco e nos tornaremos seres melhores.

Nossos lentos avanços mostram os nossos retrocessos. Precisamos despertar os nossos processos para sermos eficazes e rápidos. Um despertar que virá por meio dos nossos isolamentos. Nossos vazios e nossos silêncios nos alimentam e nos trazem outros cenários. Um mergulho solitário, silencioso, vazio, porém profundo. Crescemos por meio dos nossos isolamentos. Não há outro caminho e ninguém poderá fazê-lo por nós.

Quando valorizamos o nosso brilho, compreendemos a escuridão da inveja do outro. E quando o outro brilha, o cintilar do brilho dele poderá nos iluminar e nos resgatar, se assim quisermos.

Qual é o nosso lugar de fala? De onde falamos? Do lugar do invejoso ou do lugar do invejado? Ou os dois lugares nos representam? O nosso lugar de fala determina as nossas escolhas e os nossos procederes. Precisamos ter repertórios de vida para sustentarmos as nossas sugestões, os nossos conteúdos, as nossas vivências, as nossas medidas, os nossos vazios e as nossas profundidades para que possamos ter um viver esclarecido.

É preciso buscar o sólido e o solidário. Mas enquanto se busca, contentar-se com o pouco que já se tem. O pouco é fruto dos passos dados. E nossos pés já vão cansados.

Aquele que inveja pensa que tem o poder. Mas vive de enganos. O verdadeiro poder é daquele que une, que junta, que cria. É um andarilho sem brilho aparente. Que não vê aquilo que se passa na sua frente e no seu interior. Aqui nos reconhecemos.

Aquele que é invejado, que a missão do edificar, do construir, do reerguer não o canse. O caminho dele segue limpo e cintilante. Os passos dele são firmes porque sabe e reconhece seu caminhar. Sente-se dono da rua por onde anda. Por isso o caminhar dele é leve e desprovido de futilidades. Reconhece o próprio brilho, mas percebe que o outro ainda não reconhece o dele. E, portanto, apenas por precaução, o invejado é firme e consistente com quem o trata com desrespeito e com desprezo, no caso, o invejoso. Ser bom e justo é dar limites para os invasores. Aqui nos reconhecemos também.

Os invejosos provocam vendavais porque vivem neles. Os invejados não temem os vendavais. Resistem a eles porque sabem do poder que possuem.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Oscar Wilde, escritor irlândes, que diz:

“O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.”

Que possamos reconhecer as nossas capacidades para humildemente iluminarmos o caminho daquele que vem, mas que também saibamos reconhecer a capacidade do outro para que as nossas possam existir. Somente existimos quando reconhecemos a existência do outro.

domingo, 17 de junho de 2018

Alguém disse

Alguém, algum dia disse, que perdoar era fundamental. Parece que continua assim. Mas como nosso perdão é temperamental, o assim se tornou “não é bem assim.”

O perdão, para ser autêntico, precisa sair do peito. Não de outro lugar. Neste lugar do idêntico, e não do parapeito, para nossas lágrimas enxugar. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que o humilhado seria exaltado. Se assim não fosse, outro jeito a vida daria. Mas não um jeito cansado e de pouco espaço. Um jeito que só a vida saberia.

Um caminhar mais leve, de menos percalços, porque já vamos descalços. Anteveria a nossa matéria. E com pés breves, nos compassos, tiraríamos a nossa barriga da miséria. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que o vago deve lugar ao sensato. E que os literatos nem sempre são cultos. Mas o silêncio do espaço preenche saliências do abstrato. Nossos autorretratos seguem soltos e preenchidos de insultos. Os nossos pedaços esgotados, a todo momento são consertados pelo dia. Régua e compasso são as ferramentas preferidas.

Um criar de espaços para o passar do discernimento que, alheio à noite, evidencia. Na promessa do compasso, um compromisso com ausências redimidas. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que a nossa memória nos obriga a buscar as nossas vitórias. Assim fica mais fácil perdoar. Pode ser. Mas que não seja uma memória compulsória, mas com história. Assim também fica mais fácil para desatordoar o que vai no nosso ser. Acho que assim pode ser. Com amadurecer.

Realçamos o belo para que possamos ser a nossa própria paisagem, como disse Fernando Pessoa. Poeta imprescindível que também disse “não sei sentir-me onde estou.” O belo que fortalece o elo. A defasagem que nos impede de ver a nossa paisagem. Quem somos. Pessoas, assim como o Poeta que carrega, no nome, outras tantas pessoas. Um recado inconfundível que nos contradisse porque se manifestou. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que aquele que perdoa evidencia grandeza interior. Aprende a sorrir de improviso. Se perdoa, mas não atordoa, mostra que a profundeza, que até então, era inferior, está voltando, calma, para o nosso mar interior. Um interferir conciso e preciso.

Nas pancadas que recebemos do alto de nossas bancadas, engatinhamos as nossas invenções manuseadas, e chegamos ao nosso destino a todo o momento. E das nossas arquibancadas desbancadas, inventamos outras colorações custeadas. Sem clandestino e sem procrastino. Provimentos da vida por ironias do destino.  É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que perdoar era fundamental. Será que quem disse isso acreditou no que disse? Ou só foi lorota de um contador de histórias para enganar os desavisados? Como se despedisse, me disse, antes de seguir, que perdoar era o doar na sua essência. Genial. Quem assim segue, me disse, desconhece a derrota e não se torna um enganador de trajetórias para profanar os lesados.

Ensinados, fomos, que para resolver problemas é preciso se preocupar com eles. Isto só reforça a nossa angústia e a nossa ansiedade. Coisas que desconhecemos. Estagnados, somos, que para dissolver estes dilemas, sofremos por causa deles. Isto só reforça a nossa fúria sem piedade. Coisas que esquecemos. É preciso coragem para perdoar. Alguém, neste dia disse.

E num intervalo de prosa, esse alguém me disse, ainda, em tom certeiro:

“eleve a sua assiduidade na vida. Ela aumentará os intervalos entre os seus pensamentos desgovernados. E será nestes intervalos, nestas brechas que a sabedoria estará te esperando para recompor a tua intuição com a tua essência, elementos fundamentais para o perdão. Condição você tem, mas é preciso coragem.” Depois disto, aquele alguém se calou.

Neste dia, descobri que este alguém era eu mesma, você mesmo. Todos nós. Este alguém era apenas um eco tentando fazer voz e ser ouvido dentro de mim, dentro de cada um de nós.

Reconheci-me na minha própria voz. Mas para ser ouvida, precisou se camuflar de mim mesma. Buscamos inimigos externos enquanto os internos crescem e tecem raízes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pequeno trecho de uma estrofe do poema O guardador de rebanhos, de Fernando Pessoa, que diz:

“...como um ruído de chocalhos, para além da curva da estrada...”.

Fernando Pessoa está sempre além do que vem.

A vida nos convida ao perdão o tempo todo. Um perdoar para um caminhar mais leve. Quando não ouvimos o primeiro sinal que ela nos envia, a vida dá conta de nos mandar um ruído de chocalhos. Porque é somente por meio do perdão que poderemos fazer a curva, que poderemos enxergar o restante do caminho ainda a ser percorrido. É preciso ouvir o sinal. Mesmo que seja por meio de ruídos de chocalhos...

A estrada é longa, o caminho é cheio de pedras e de pedregulhos. O perdão é uma das ferramentas que nos estende a mão e facilita, e muito, a nossa caminhada e o nosso encantamento pelo porvir e pelo nosso presente. Ele antecede a curva. Não poderemos acessá-la, e nem irmos além dela, sem antes abrirmos a porta para o perdão. É uma condição.

A curva nos constrói, nos remonta e descortina os nossos cursos. A estrada além da curva é árdua, mas com vistas lindas para aqueles que ousarem percorrê-la. Os caminhos retos e planos nos enfraquecem e nos tornam seres manipuláveis. Para os caminhos retos, nada será necessário fazer. Apenas o mais do mesmo e o pisar sobre as flores será o suficiente. Mas para o avançar na nossa estrutura, para o abrir de olhos, a curva é o sentido único da estrada. Mas podemos passar por ela com mais serenidade se aceitarmos os atalhos que a vida nos oferece.

Os atalhos da vida são válidos e verdadeiros. Os que criamos são tendenciosos e insustentáveis, muitas vezes. Um dos atalhos da vida é o perdão, que nos espreita logo à entrada da estrada, bem na curva, apenas esperando ouvir os nossos passos para uma caminhada cuja presença confirmamos. Nesta hora, os nossos sorrisos não serão mais improvisados. Serão verdadeiros, destemidos e autênticos. O ruído dos chocalhos nos chamando para além da curva na estrada será apenas uma lembrança. Teremos vencido a curva e a estrada. Uma depende da outra. Nesta hora, teremos descoberto que a curva e a estrada fazem parte do mesmo caminho. São o mesmo caminho. O poema de Pessoa terá envelhecido porque teremos conquistado o direito de “saber sentir-nos onde estamos.”

Saberemos, enfim, onde estamos. Mas esta provocação que ele nos faz jamais envelhecerá.

domingo, 10 de junho de 2018

Essa tal liberdade

Na semana passada, enquanto eu assistia aos noticiários sobre a greve dos caminhoneiros, uma amiga me enviava a imagem abaixo:

imagem tirada da internet

Como coincidências não existem, no momento em que recebia esta mensagem, um caminhoneiro reclamava sobre a bagagem pesada que ele carregava todos os dias, os trajetos e caminhos perigosos que ele era obrigado a percorrer e o cansaço físico que ele sentia.

As trilhas percorridas pelo caminhoneiro, que nesse momento de paralisações e reivindicações representa o símbolo do que se transformou e vem se transformando o nosso  pequeno mundo, são bem diferentes das trilhas percorridas pela mulher que carrega uma criança. A mesma bagagem, o mesmo caminho e os mesmos pés. Porém, percorridos por pessoas diferentes, que pensam e agem diferente. Pessoas que estão nos opostos uma da outra, e que possuem visões distintas sobre o mundo. Os pés, apesar de serem os mesmos, mostram a diferença que eles representam na vida de cada um.

Independentemente se foi lícita ou não esta paralisação, não me cabe julgar. Não sou caminhoneira e nem de longe vivencio os problemas relatados por eles e pelas empresas. Não é sobre isto que escreverei. Mas sim, sobre um recorte a partir disto, para visualizarmos aonde ainda estamos. Sobre o nosso tamanho que nos lembra que barganhamos, fazemos negociatas e esfolamos o próximo numa guerra em nome do interesse  de cada um. Sobretudo, um recorte que escancara que desconhecemos outros tipos de lutas: limpas, coesas, justas e fundamentadas em argumentos sólidos e sustentáveis, cujas premissas e acordos não massacram o outro.

Vivemos, ainda, no movimento apenas de ida. O da volta está difícil de assimilar. Vivemos sob lutas que lutam apenas para a nossa valia e interesse. Se a nossa luta invalida a luta do outro, e fere o outro, fazemos de conta que não percebemos. Os animais mortos, o leite derramado, os legumes no lixo, a gasolina adulterada no posto para enganar àqueles que ali passavam, os caminhoneiros assaltados enquanto dormiam nas estradas demonstram, claramente, que a nossa luta é vã, nula, baixa e com sentido que privilegia só aquele grupo do momento. Mais ninguém. O contraditório em nós.

A guerra inexiste quando a bagagem não pesa, quando o caminho não cansa e quando os nossos pés não reclamam.

Enquanto o nosso grito calar a voz do outro ainda dormiremos muito nas estradas. Enquanto o nosso direito interferir no caminhar do outro, ainda muitos serão mortos. Além da doença percebida no sorriso e na satisafação daquele que anda de mãos dadas com a cegueira, e que se aproveita do graveto solto na estrada e o coloca na fogueira que, há tempos, agrava os nossos incêndios. Uma cegueira calculada, percebida e ajustada para os devidos fins. Como deve ser. A manipulação ainda é forte condutora dos nossos tempos. Acreditamos que o caminho é este. Por isso estagnamos.

Pensei em tudo isto enquanto assistia ao noticiário e olhava a imagem que estava no meu celular. Confesso que senti vergonha nessa hora. Vergonha das notícias que eu via, da nossa situação como cidadãos que não somos. De ser brasileira, de fazer parte de um povo que cria problemas exatamente por não tê-los, e que constrói necessidades aonde elas não existem. Eu sou este povo de quem eu falo. Todos os nossos problemas, ou quase todos, existem por causa da nossa ineficiência e incompetência. Não era para termos estes problemas. Por isso digo que criamos problemas. Exatamente por não tê-los. Por isso, me envergonhei. Uma vergonha envergonhada que se apresenta e se coloca a nossa frente.

Enquanto a vergonha me invadia, o sorriso daquela mulher carregando a criança, que também sorria, me fazia observar o quão livres eles eram. E o quão distante desta tal liberdade estávamos. Liberdade é a condutora da felicidade. Não há felicidade verdadeira sem liberdade.

Vergonha é, sobretudo, “uma dor causada pelo sentimento de inferioridade.” Está lá no dicionário. Isto resumiu meu sentimento. Estava me sentido inferior ao ver aquele sorriso espontâneo e verdadeiro, da mulher e do menino, mesmo num cenário de pobreza, de necessidade e de limitação. Um sentir-se inferior não como pessoa, mas como cidadã, como um ser que faz parte de um coletivo que não se apropria do outro. Limitações que cabem em nós porque não desejamos nos expandir. Somos ajustados nas nossas próprias costuras. Não há sobras em nossas vestes. Nossos tamanhos indicam os passos que demos na vida, e os que não demos. Somos pequenos porque assim escolhemos.

A imagem demonstra uma liberdade que desconhecemos. E pelo jeito, ainda demoraremos muito a conhecer. Enquanto milhões de alimentos estavam sendo descartados, milhões de animais sendo mortos, exatamente por conta da nossa abundância que não sabemos valorizar, uma pessoa, bem distante da gente, com dificuldades infinitas e aparentes, sorri para a vida. Sorri porque é livre.

Liberdade não é fazer o que se quer. É, acima de tudo, poder sentir a sublime sensação da ausência de limitações. E isto é para poucos. Bem poucos.

Quanto menos necessidades temos, mais livres somos. Uma guerra é a predominância da ausência da liberdade. É uma luta que custa muito caro. A conta não tarda a chegar. Aliás, acredito que há tempos ela chegou. Mas como insistimos no rotativo, os juros apenas crescem e mostram suas garras sinalizando os nossos ínfimos tamanhos.

Uma luta lícita é feita por palavras, verbo e ação, que aborda os começos, os gatilhos, os bastidores, e não uma luta que começa pelo final, obstruindo passagens, rotas e vidas. Por isso ainda estamos distantes. O que matamos por puro egoísmo e visões dos nossos espelhos invertidos e voltados para nós poderia ter alimentado milhões de pessoas como a da imagem. E a nós todos, também.

A grandeza ainda não nos representa. Não por falta de oportunidade. Mas por falta de merecimento, mesmo. A pequenez ainda se molda, e muito, ao nosso real tamanho.

A imagem da foto é desconcertante. O cenário deles demonstra fome. Mas, ainda assim, ela suplanta a dor e sorri para a criança que, ainda sem perceber aonde está e o que o mundo, de verdade, representa, sorri de volta. Um sorriso inocente da criança. Um sorriso amoroso, leve e paciente da mulher. No meio da dor verdadeira que ela sente, ainda consegue sorrir. Atitude dos grandes. Sentir-se grande é poder ser livre e sorrir, como na imagem.

Não podemos parar nas nossas realidades. É preciso transcendê-las e sair das estradas e voltarmos ao trabalho. Um trabalho interno de reconstrução de nós mesmos. Estamos fazendo da arrogância, da prepotência o nosso sustento. Há tempos que fazemos coro e eco nesta fila. Enquanto a guerra for o nosso discurso, as atitudes serão devastadoras.

Para merecermos pés que não reclamam, bagagem que não pesa e o caminho que não cansa, será preciso olharmos além de nós, enxergarmos que à frente e atrás caminham pessoas. Inclusive a gente. Também estamos nesta estrada aguardando reconhecimento dos que passam. Se cada um de nós oferecer carona para o que vem, o mundo pesará menos, realmente. Mas como oferecer carona se ainda não nos reconhecemos na mesma estrada?

É preciso pensar sobre os movimentos que criamos e sobre os que deixamos de criar, para que a gente não dê ao errado uma aparência de certo. Quais são os silêncios que guardamos? Insensatez é um deles. Por que acreditamos que o melhor caminho é o do enfrentamento? É preciso desenvolver caminhos que nos permitam acreditar que é possível mudarmos para melhor. E, assim, pararmos de nos submeter ao pequeno.

Nosso País de tantas grandezas, mas que, justamente por isto, não valorizamos e nos tornamos tão pequenos. A imagem da foto que mostra tantas necessidades. Talvez por isso ela tenha se tornado tão grande.

Temos tantas pontas soltas. Ainda não estamos prontos. Nossas fendas e brechas aparecem.

Que eu não atrase a evolução do outro por causa da ausência das minhas medidas, alguém disse uma vez. Fiquei com isto na minha cabeça. Como somos desmedidos e desajustados, atrasamos o outro. É uma pena. Talvez esta seja a nossa grande vergonha: sabermos da nossa ineficiência e incompetência para resolvermos problemas que se arrastam há tempos.

É preciso reivindicar a nossa voz neste caminho. Estamos atrasados. Mas se corrermos, alcançaremos a paz e a liberdade daqueles que vão na imagem. Será preciso, no entanto, conhecermos o lugar do coletivo, e sermos rigorosos com algumas coisas como abandonarmos a nossa arrogância de não querermos ser convencidos de que optamos pela estrada velha e errada. Há retornos bem à frente nos convidando a retomarmos o caminho.

Foram dias turbulentos. Mas que saibamos extrair conhecimentos de nossas turbulências.  Principalmente das internas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Jean Paul Sartre, filósofo francês do século XX, que diz: “os homens são o que fazem de si mesmos.”

Acredito que podemos fazer mais de nós mesmos. Que a gente aprenda a enxergar a realidade conversando com os nossos cotidianos, e nos cercar de coisas que nos façam habitar a nossa história. Que a gente reconheça coisas que nos ofereçam contextos, e consequentemente, percursos  e rotas alternativos. Somente assim, penso, poderemos ser, verdadeiramente, o que fizermos de nós mesmos.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A leveza nos fortalece

Pierre-Auguste Renoir, essencial pintor francês do século XIX, tem uma provocação que diz:
Na vida, os blocos de granito afundam. No entanto, as cascas das árvores flutuam.”
Quando pensamos, de forma rápida, se queremos ser blocos de granito ou cascas de árvores, acredito que a maioria de nós escolherá ser blocos de granito, pela forma, pela força, pela imposição que eles têm, pela importância que se dá ao que se considera mais forte. Porém, se observarmos o que Renoir diz no início de sua frase, talvez a gente repense. Ele diz: “na vida...”, e não em situações específicas e particulares. E isto faz toda a diferença.
Os blocos de granito são, sem dúvida, algo suntuoso e que impõe. Se estamos na iminência de um bloco de granito cair sobre nossas cabeças, certamente vamos nos mexer e tomar uma atitude. Portanto, eles possuem um certo poder sobre nós, seja pelo medo que temos de ser atingidos, seja pela força que eles possuem. Em poucas palavras: os respeitamos.
As cascas de árvores são, ao contrário dos blocos de granito, simples, sem pompa e, muito menos, sem circunstâncias. Caem sob o comando dos ventos, são deslocadas facilmente, não nos oferece perigo. Talvez seja por isso que pisamos nelas. Em poucas palavras: inofensivas.
Blocos de granitos: são respeitados, mas o peso deles dificulta e, muitas vezes, impossibilita, o deslocar pela vida. E sem deslocamentos, não avançamos. Não progredimos. Morremos. O respeito observado nos blocos se esvai como a água do mar que escorre pelos nossos dedos. O respeito conquistado pelo medo não resiste à força da leveza de uma casca de árvore.
Cascas de árvores: não são respeitadas, mas a leveza delas nos facilita, e muito, o caminhar pela vida, pelos traçados que ela desenhou para nós. E caminhando pelos desenhos que a vida nos presenteou, avançamos e chegamos a lugares que nos constroem. Crescemos. Vivemos. E aquele respeito que não foi concedido antes às cascas surge, agora, manso e envergonhado por não ter percebido a força delas. Uma resposta à necessidade da nossa própria construção.
Na vida, os blocos de granito afundam. No entanto, as cascas das árvores flutuam.”
Afundam porque são vazios de significados. São rasos na sua representatividade. São pequenos no sentido. Ao primeiro chamado da vida, afundam, machucam e se acomodam no chão. Imóveis, nada são, apenas estilhaços que confirmam a falta de destreza deles para com a vida. Assim são os blocos de granito. Sermos o bloco de granito, às vezes, será essencial para regularmos as nossas marchas e reorganizarmos a nossa maleta de ferramentas. Uma parada estratégica, na vida, é imprescindível para reabastecermos. Mas que seja por pouco tempo. A dureza e a firmeza excessiva dos blocos de granito podem nos prender demais, ao chão, e correremos o risco de não nos lembrarmos de como nos levantamos e de como é boa a sensação de ser leve.
Quando demoramos demais em estágios desnecessários, nos tornamos parte dele. É uma pena. Há muita vida ao abrirmos as janelas. A vida nos chama para a vida, e é preciso aprender a ter a leveza das cascas das árvores. Um aprendizado fundamental.
Muito há o que desaprender com os blocos de granitos. Muito há o que aprender com as cascas de árvores.
A leveza nos fortalece; a dureza implacável nos aprisiona e enfraquece. Mas, tão ocupados que estamos no conservar de nossos blocos, não percebemos que afundamos. E somente aquele que se mantém leve, pode ser levado de volta à superfície, à base, ao início, aonde tudo acontece. Afundados, perdemos a dimensão do alto. E dependendo do tempo que ficamos imersos, presos aos blocos de granitos, perdemos a conexão com o alto.
As forças são necessárias, mas nunca devem ser desperdiçadas. Quando isto acontece, elas se voltam contra a gente. Força demais é um indicativo da nossa fraqueza e da nossa fragilidade. Por isso, os blocos quebram e afundam. Forças demais sendo utilizadas indevidamente.
De outro lado, as cascas de árvores flutuam porque são preenchidas de sentido, de direção e de significados. Flutuam porque já aprenderam o real valor das coisas e, portanto, não se prendem a pequenezas que somente fazem prender àquele lugar. A leveza conquistada faz as cascas das árvores caminharem na direção correta. E como são leves, maleáveis e silenciosas, chegam logo ao destino. Assim são as cascas das árvores.
A vida é um constante caderno de exigências e de conquistas a ser buscado. Um constante resolver de problemas, conflitos. Um constante despertar de gratidão pelos caminhos já percorridos. Um problema que entra, e outro que sai resolvido. Assim é a vida. E mesmo aquele que se vê sem problemas, o que desconfio, viver, em si, é um problema. Um problema na complexidade, nas inúmeras interfaces e nas escolhas oferecidas. Por isso é fundamental exercitar o peso e a leveza na medida certa, na medida que a vida nos pede.
As cascas de árvore caminham e alcançam distâncias porque se deixam conduzir. Confiam. Os blocos de granito afundam porque apenas querem controlar. São centralizadores. Possessivos. Não aprenderam a delegar. O excesso de controle nos faz usar a nossa força de forma desnecessária, o que comprova a nossa fraqueza. Provamos nossa força pela autoridade da nossa leveza em nos deixar conduzir pela vida. Provamos a nossa força não medindo forças com ela. Não propondo quedas de braços com ela. Se assim fizermos, perderemos. Ela sempre foi campeã na luta de queda de braços. Acho que não deveríamos pagar para ver. Não é necessário.
Lutar contra a vida é se colocar no alvo para ser atingido por ela. É preciso saber quais brigas comprar e quais não comprar. Sabedoria e discernimento ainda são essenciais para nós.
imagens tiradas da internet
Estarmos na condição de granito, às vezes, é necessário. Mas só às vezes. Que a gente saiba que há hora marcada para sairmos de lá. Não podemos ficar lá durante muito tempo. O “...na vida...”, como trouxe Renoir, é muito tempo. E ele já nos chamava a atenção quando nos trouxe este pensamento.
Sair da condição do granito significa abrir mão do poder para alcançar o viver. Quando abrimos mão da inflexibilidade para acessarmos a maleabilidade.
Ao contrário do que se pensa, a fragilidade está na beleza do granito. E a força na singeleza das cascas das árvores.
Buscar ter, sempre, o comando nas mãos nos afundará como granitos. Aprender a confiar e a garantir que o outro também possa falar é caminhar como a leveza das cascas das árvores.
A vida é uma escolha e uma escola. Uma escola de escolhas. Uma escolha que faz escola em nós. Uma escola com escolhas. Uma escola para escolhas. Os blocos de granito e as cascas das árvores representam esta dualidade da vida. Eles significam que temos opções na vida. Que bom. Não poderemos responsabilizar e nem colocar a culpa em outra pessoa que não em nós mesmos.
Quando a vaidade conceder espaço para a reflexão, talvez nossas similaridades comecem a se parecer mais com as cascas das árvores do que com os blocos de granito.
Muitas leituras podem ser feitas a partir desta alegoria do granito e das cascas. Mas a que propus, aqui, foi a de nos incomodarmos com o excesso que o peso dos blocos provoca, e que diariamente colocamos sobre as nossas costas e sobre as costas dos outros, e sentirmos falta da leveza das cascas que, remotamente, fazem parte do nosso cotidiano.
Podemos fazer mais, se repensarmos o nosso lugar no mundo. Podemos fazer mais se este mundo tiver um significado mais forte para nós.
Estarmos na condição de blocos de granitos é fundamental para uma atuação rápida e precisa, mas não um lugar para estarmos na vida. Por isso, Renoir chamou a nossa atenção por meio da sua arte. Que a leveza das cascas das árvores nos represente mais e que possamos desfrutar deste dançar que, somente o pouco peso, poderá nos proporcionar.
Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Fernando Pessoa, poeta imprescindível para o bem viver, que diz:
“Às vezes, ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”
Que a gente se permita mais o ouvir do vento. É ele que movimenta as cascas das árvores nas quais pisamos sem perceber, ou as que chutamos para que saiam do nosso caminho. Não percebemos que, somente elas, se vividas e permitidas por nós, nos mostrarão o real e o verdadeiro sentido de leveza. Leveza na alma. Leveza na vida. Uma escolha.
O vento como condutor para a leveza. O vento como um dos caminhos que nos levará como as cascas das árvores. Um convite feito. Um convite aguardando a nossa resposta. Recusá-lo será desperdiçar a sensação de sentir os nossos pés flutuando por este vento, e de se deixar levar como as sábias cascas das árvores. Aceitá-lo será fazer as pazes com a vida que, feliz, nos convidará para fazer lindos passeios por lugares que, presos pelos blocos de granito, jamais seriam possíveis.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A visão do galinheiro

No livro, Cadernos de Lanzarote II, de José Saramago, o autor diz que quando era adolescente, costumava ir à ópera. Sem pagar. O lugar era o Teatro Nacional de São Carlos. O porteiro o deixava entrar quando faltavam poucos minutos para a sessão começar. Nesse momento, os “pagantes”, dizia Saramago, já haviam ocupado os seus lugares. O porteiro, então, o conduzia pelas escadas até o último andar, o lugar destinado aos pouco abonados, como ele. Lá, não havia acesso aos camarotes e nem aos lugares pagos. Eram os chamados galinheiros que, na fala de Saramago, dispensa explicações para o termo. Como ele não havia pago pela entrada e, muito menos tinha o dinheiro para tal, seu lugar era no galinheiro. E mesmo sendo um lugar nada convidativo, ainda havia o risco de não ter lugar para se sentar.

Do galinheiro, continua Saramago na sua fala, as pessoas se apertavam para conseguir enxergar o espetáculo. Por mais que fizessem isto, não era possível ver o palco por inteiro. Quando os atores se deslocavam em cena, dizia, era preciso aguardar voltá-los para a antiga marcação, no palco. Somente assim se poderia vê-los novamente. No entanto, enquanto observava que muitas coisas o impediam de ver o palco, os atores, a obra, percebeu que um suntuoso objeto estava bem a sua frente: uma coroa real, dourada, símbolo que sobrou das monarquias, reduzida a um adorno qualquer. Mas, como ele estava no galinheiro, somente conseguia ver a parte de trás deste objeto, enquanto os pagantes e os que ocupavam os camarotes e cadeiras requintadas, conseguiam enxergar a parte da frente deste objeto, com toda a ostentação que uma coroa impõe.

Nas palavras de Saramago, o que ele via era a ausência daquela coroa, e não a coroa em si. O que havia, naquilo que um dia foi uma coroa, era muito pó e teias de aranha, que também marcavam presença no objeto e naquele lugar. Mas as pessoas dos camarotes não viam esta poeira e estas teias. Viam a parte nobre e bonita da coroa, o que foge à realidade.

Neste momento, Saramago compreendeu que o ponto de vista observado do galinheiro é indispensável se, realmente, quisermos conhecer a coroa.

A obra de Saramago segue com muitos descortinares e com inúmeros convites para mudarmos o nosso olhar de lugar. Convites que nos fazem repensar o nosso estar e o nosso tamanho, no mundo.

Na perspectiva de um simples espectador que tenta assistir a uma peça de teatro num lugar sujo, empoeirado, mau cheiroso e apertado pode parecer uma aventura e uma angústia. Um sofrimento e um castigo, digamos assim, por não fazer parte do grupo seleto dos que podem. Como ele não pode, se submete. Um simples espectador talvez pense desta forma. Vê a peça, da forma que dá, e, amassado, busca um espaço entre os que vão a sua frente, espremidos. Nesse estado de ausência que vive, não consegue ir além. Acredito que temos um pouco deste espectador dentro de cada um de nós.

Porém, na perspectiva de um espectador como Saramago, estar no galinheiro do teatro é uma excelente oportunidade para dar uma rasteira na vida, no sentido figurado. Ao invés de raiva, nojo e frustração, olhar, foco e discernimento. Quando assim agimos, o que não é das tarefas mais simples, estar num galinheiro começa a fazer sentido. A vida, com frequência, gosta da ironia e se diverte nos colocando em alguns galinheiros. Mas se soubermos aceitar que estamos num deles, sairemos rapidamente. A vida não tem interesse em nos deixar em lugares cujo aprendizado não se dará. Se lá nos colocou, é porque alguma pendência temos com os galinheiros da vida.

Do galinheiro, podemos enxergar o lado da coroa que ninguém quer ver, assim como disse Saramago. Permite-nos ver o lado que todos tentam esconder. E pior: além de esconder, o fingir que ele não existe. O galinheiro, apesar de seu aspecto feio, ruim e barulhento, é um lugar privilegiado, cuja percepção se dará apenas aqueles que vão a frente.

Somente aquele que já entendeu o sentido de dar toda a volta, compreende o valor de se passar, pelo menos uma vez na vida, pelo galinheiro.

O galinheiro é um lugar que existe dentro de cada um de nós. Assim como o camarote, também. Galinheiros cheiram mal, mas nos dão a visão do todo. Somente nos enxergamos se tivermos a generosidade de aceitarmos o convite da vida para darmos uma passadinha lá. Camarotes existem para contemplarmos a arte. No camarote, enxergamos o resultado de um belo trabalho. Mas para valorizá-lo, somente passando pelo galinheiro.

Galinheiro é o convite para dar toda a volta em nós. É a reflexão para a existência de nossas teias e as de aranhas, também. A poeira e pó que insistem em nos lembrar que há tempos estamos devendo uma visita para nós mesmos. Que denunciam a nossa ausência, a nossa falta de interesse para vermos e conhecermos os nossos bastidores. Que reafirmam que não estamos interessados em subirmos os degraus da nossa construção. As teias das aranhas que nos provocam dizendo que até elas dedicam tempo para construírem suas casas. E nós? Como construir as nossas casas sem passarmos ao redor de nós mesmos? Sem querermos conhecer o galinheiro que habita em nós e que nos dará a visão do todo? Para quê, mesmo, ver o todo, se apenas parte dele será mostrado?

Para conhecermos as coisas é preciso dar a volta. Dar a volta toda. E muitas voltas.

O nosso olhar, de verdade, faz a diferença.  Se passarmos a olhar para a parte de trás de nossas coroas, vamos verdadeiramente conhecê-las. Brigamos por coisas que nos enfraquecem, mas acreditamos que nos fortalecem justamente por valorizarmos apenas os camarotes. Os galinheiros não nos interessam. Mas são eles que nos formam. E mesmo assim, os deixamos esquecidos com entulhos, poeiras e teias.

Escondemos nossos entulhos no galinheiro e assim ele vai ficando inadentrável porque queremos dar conta de tudo. Saber tudo. Ser tudo. E como isto é impossível, priorizamos os camarotes. Afinal, como não querer estar lá? A visão é melhor, mesmo. Mas o que nos esquecemos é que a visão é construída a partir do galinheiro. Simples assim. E abrir mão dele é abrir mão da gente mesmo.

Daí os extremos e barulhos. Os desequilíbrios. Ainda é necessário fazer barulho para ser ouvido. Por isso os galinheiros são tão barulhentos. Eles apenas querem ser ouvidos por nós.

É preciso ir contra a nossa própria inércia para podermos acessar o nosso galinheiro. No começo, ele estará escuro, sujo, feio e com ar de abandono. Mas nada que uma lâmpada nova não dê conta de iniciar uma iluminação há tempos necessária. É preciso lutar por este espaço esquecido que tanto tem a nos ensinar. Somente lá poderemos dar a volta em nós mesmos e assim, saber quem somos. Lutar pelo espaço não é abrir mão dele. Os galinheiros existem em nós, e se soubermos ouvi-los, a nossa cena ficará mais bela e verdadeira.

Nossas singularidades nos representam. Sermos quem somos somente nos fará fortes. Mas somente do alto dos nossos galinheiros teremos esta visão. Minha singularidade está representada na poeira que esqueci lá. A sua também. Enxergar esta poeira me fará mais forte porque terei sobrevivido a ela. A poeira, as traças e as teias não querem medir suas forças com a gente. Apenas querem dizer o que buscamos não ouvir durante todo o tempo em que estamos ou estivemos nos camarotes.

Camarote é um lugar de refresco e de descanso. Silêncio.

Galinheiro é um lugar de trabalho e de movimento. Barulho.

O silêncio e o barulho são as nossas melhores respostas. São os nossos mapas. Ouvi-los será como receber os aplausos da vida nos cumprimentando.

Hoje temos uma só narrativa. Não podemos ter uma só narrativa. O camarote não pode nos representar, exclusivamente. Cresce-se, e muito, do alto de um galinheiro. Aliás, desconfio fortemente, que apenas de lá se cresce. Por isso, Saramago é tão grande. Ele soube, sempre, contemplar a sabedoria do galinheiro, nem que fosse de um simples teatro.

Os camarotes são expostos. E quanto mais exposto, mais banalizado porque todos querem estar lá. Um lugar de poucos aprendizados e de muitas armadilhas. Se soubéssemos disto, talvez mudássemos de opinião ao buscarmos apenas este lugar para estar. Podemos estar em vários lugares. Isto não nos banaliza.

Os galinheiros são recuados. Ninguém quer mostrá-lo em sua propriedade. E por não serem expostos, não são banalizados. São únicos. Proporcionam-nos um conhecimento que, se aproveitado, se transformará em sabedoria. Mas isto é para poucos. É preciso saber apreciar a beleza de um galinheiro. Aprender a ver esta beleza que é nativa em nós. Mas que insistimos em escondê-la. Beleza tem a ver com a forma como eu atuo no mundo. E quando entendermos isto, teremos o poder a nosso favor, e os nossos galinheiros serão lugares mais visitados, mesmo que os camarotes estejam a nossa disposição.

Somos frágeis em nossas singularidades. Somos sensíveis em nossas particularidades. Aceitar isto é fazer as pazes com a vida. Nossas singularidades e nossas particularidades nos constroem e destroem a cada dia. Somos a soma de todos os eus que vivemos. Queremos ter uma narrativa: os camarotes. E não podemos ter uma só narrativa. Por isso, os galinheiros deveriam ser mais visitados por nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Nietzsche, filósofo alemão, que diz:

“Torna-te aquilo que és”.

Ao aceitarmos a trajetória que a vida nos convida a seguir, a do camarote e, principalmente, a do galinheiro, nos tornaremos naquilo que somos. Fora deste caminho, apenas nos camarotes da vida, no que quer que tenhamos nos tornado, será falso, raso e sem a visão do todo. Algo completamente distinto do que trouxe Nietzsche, nos provocando ser e exercer a nossa essência, e do que trouxe Saramago, nos convidando a dar a volta em nós mesmos para que possamos, de verdade, nos conhecer. E isto somente do galinheiro. Lugar algum da vida nos dará uma visão tão privilegiada.

domingo, 13 de maio de 2018

A eficiência ineficaz

A palavra eficiência pede férias. Não há uma palestra, treinamento, evento, reunião, trabalho que ela não seja pronunciada e requerida. Afinal, por meio dela, buscamos melhorar as nossas entregas, os nossos números, os nossos trabalhos. Ela nos ajuda a enxergar o que podemos melhorar naquilo que não vai bem.

Sempre quando ouço esta palavra me lembro da Khazzoum, uma professora de Língua Portuguesa que tive, na época da Faculdade. Ela sempre falava que o bom e velho dicionário deveria nos fazer mais companhia. Que “consultá-lo, era um sinal de inteligência”, dizia.  Lembro-me dela porque esta é uma daquelas palavras que utilizamos, indevidamente, como sinônimo de eficácia. E não é. Elas até podem ter propriedades que se entrecruzam. Mas não são sinônimos.

Eficiência é fazer bem alguma coisa. É ser rápido, preciso, conciso. É fazer bem. Cumprir o seu dever. Eficiência é dar bons resultados. Alguém competente e produtivo é alguém eficiente. Faz muito com poucos recursos e ainda com qualidade.

Eficácia é fazer a coisa certa, diferentemente de fazer certa a coisa. A eficácia, por se preocupar em fazer o que precisa ser feito, busca resultados relevantes e sustentáveis. Alguém eficaz produz um resultado que é esperado dele. Tem foco, sabe aonde quer chegar. Realiza o que precisa ser realizado, e não apenas o que foi pedido para realizar.

Eficiência é fazer certo as coisas. Eficácia é fazer as coisas certas.

Por estas e outras que, de verdade, um dicionário faz falta. Quando comparamos estes dois significados, os sentidos se descortinam e reflexões emergem.

Podemos, então, ser extremamente competentes fazendo o inútil e o desnecessário? Aquela triste sensação que certamente já tivemos ao enxugarmos gelo, na vida, acho que dá conta de nos mostrar que sim, podemos ser extremamente competentes fazendo o que não precisa ser feito ou o que não deveria mais ser feito.

imagem tirada da internet

Pensar que estamos fazendo coisas supérfluas e que muito do nosso tempo está sendo desperdiçado com o inútil e com o desnecessário é assustador. Principalmente porque corremos o tempo todo achando que, desta forma, daremos conta de tudo o que precisamos fazer. E quem falou que tudo o que precisamos fazer precisa ser feito?

Camuflamos nossas entregas sob o nome de eficiência. Muitas delas são bem-vindas e têm a sua utilidade, mas muitas não precisariam ter sido feitas. Ou seja, teríamos sido eficazes, e não, somente, eficientes.

Quando refletimos sobre esta questão, percebemos que a alienação sempre esteve ao nosso lado, nos fazendo companhia. Somos eficientes, mas não capazes de atentar para o que está sendo entregue e o porquê desta entrega. Ser eficiente é fundamental se quisermos nos aprimorar como seres, como profissionais. Mas apenas a eficiência não nos levará adiante. Ela nos deixará no meio do caminho, cheio de curvas, atalhos e placas nos indicando diversas direções cujo sentido e o significado nos escaparão.

A eficiência é fundamental no mundo da operação, mas a eficácia é essencial no mundo do sentido e da essência. Há eficiência sem eficácia. Porém, não há eficácia sem eficiência.

É preciso que estes falsos sinônimos comecem a nos incomodar. No incômodo, buscamos ajuda e conhecimento, mesmo num bom e velho dicionário. Ao começarmos a nos debruçar sobre o real sentido das palavras, a nossa vida vem atrás, querendo participar e se tornar mais eficaz, uma vez que eficiente ela já sabe que somos.

Gostamos do elogio. Somos vaidosos, orgulhosos e competitivos, muitas vezes. E a eficiência, se atingida, nos fará receber elogios, o que alimentará a nossa vaidade, o nosso orgulho e nos fará acreditar que competir é a melhor forma. Que estar no pódio é o melhor lugar.

Enxergamos alucinações do alto de um pódio e vemos coisas inexistentes em função das nossas visões deturpadas. Quando descemos do pódio, a nossa visão se amplia. Quando estamos no pódio a nossa visão se encurta.

A eficiência está para o pódio, assim como a eficácia está para a descida do pódio. Nada contra vitórias e medalhas. Mas podemos ser vitoriosos e ganharmos as nossas medalhas além desse lugar. E para enxergarmos sentido em outros lugares para alcançarmos as nossas vitórias, somente atingindo a eficácia em nossas vidas.

Conhecemos a eficiência porque somos eficientes em muitas situações de nossas vidas. Fundamental e necessária. Mas avançar para que a nossa eficiência esteja em sintonia com a nossa eficácia, é a nossa lição de casa que, a propósito, está atrasada para ser entregue.

Eficácia é a moeda de recompensa que a vida nos presenteia por ter visto o nosso esforço de desprendimento do nosso orgulho, vaidade. Pois não há como buscar a eficácia, em nós, sem encontrarmos estes ilustres visitantes tão confortavelmente alojados, dentro da gente.

Quando passamos a buscar a eficácia em nossa vida, uma angústia aflorará e dará o ar da graça. Mesmo conscientes da necessidade da busca da eficácia, precisaremos, muitas vezes, continuar no mesmo modelo por falta de condições para que a mudança se exerça. Ainda não nos é possível desvencilharmos destes velhos modelos. O fato de buscarmos as nossas reflexões, os nossos avanços e o nosso desenvolvimento não significam que os conseguiremos imediatamente. Por isso, mesmo fazendo nossas reflexões em busca da nossa eficácia, ainda assim, nos encontraremos não sendo eficazes, na vida. O tempo, a consistência da nossa busca e a regularidade darão conta de nos recolocar no caminho. Só não podemos desistir. Foi muito trabalhoso e custoso chegarmos até aqui.

Falhamos, muitas vezes, nas nossas entregas que seguem ineficientes. Mas corrigimos rapidamente a rota e seguimos. Temos facilidade de mapear os erros e reorganizar o caminho. Mas temos extensas dificuldades para perceber que ser eficaz está longe de ser eficiente.

Eficiente está no nível do intelecto, da razão, do fazer. Eficácia está no nível da emoção, do sentir, do propósito.

Para sermos eficientes, basta talento, vontade, disciplina, foco, prazo, atenção. Para sermos eficazes, no mínimo, é preciso nos conhecer. Sem isto, como fazer o que, de verdade, precisa ser feito?

Ser eficiente é fazer bem algo. Nossas mãos e mentes serão as grandes mestras. Ser eficaz é fazer a coisa certa, o que precisa ser feito. É um trabalho interno. É ouvir o que o coração tem a nos dizer. É fazer uma caminhada interna, sem guia e sem bússola.

Somos eficientes para entregar um trabalho. Mas ineficazes para perceber a necessidade do colega. Eficientes para cumprir prazos. Mas ineficazes para perceber que estes mesmos prazos não são o suficiente para que o trabalho tenha relevância e sustentabilidade.

Somos eficientes para apontar o erro. Mas ineficazes para o perdão. Eficientes para ganhar dinheiro. Mas ineficazes para fazê-lo como meio para algo maior, e não como um fim, em si.

Somos eficientes para a realização. Mas ineficazes para a compreensão. Eficientes na teoria. Mas ineficazes na prática.

Somos eficientes para a entrega de mais um brinquedo para o nosso filho. Mas ineficazes para entender a real necessidade dele. Eficientes para a realização de um curso. Mas ineficazes para aplicarmos o que aprendemos lá.

Se queremos ser eficientes, basta aprimorar a nossa técnica. Se queremos ser eficazes, imprescindível será aprimorar o nosso olhar.

Muitas vezes, somos eficientes apenas por conveniências e sustentação de nossas redes de políticas. Mas não há como sermos eficazes passando por este mesmo caminho. A eficácia exige caminhos distintos, mais tortuosos, menos lineares e cheio de incertezas. Um caminho difícil que somente aquele que iniciou sabe do que se trata. Mas ao caminhar por ele, a beleza da vista será indescritível.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Peter Drucker, considerado o Pai da Administração Moderna, nascido no início do século XX, que diz:

“Não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente o que não deveria ser feito”.

Que a gente não fuja desta reflexão. Apesar de incômoda, ela é necessária. Quando descobrimos que fazemos coisas de forma eficientes, porém desnecessárias, e que a eficácia passa, obrigatoriamente, por uma revisitação a nós mesmos, o caminho fica mais leve.

E mais eficaz.