domingo, 28 de abril de 2019

Assim nasce um preconceito

O conceito de que uma coisa é boa ou má existe como resultado da nossa interação (ou falta dela) com estas mesmas coisas. É a nossa atuação, relação, interpretação e convívio com algo que dá o sentido que as coisas têm. O que caracteriza uma ação como boa ou como má resulta do olhar que concedemos a ela, do sentido misturado aos nossos valores, crenças e cultura.

O bem e o mal são abstrações das nossas vidas. O que confere valor a estas abstrações e o que as identifica são as nossas relações, atribuições e intervenções. O que era bom antigamente, talvez não o seja hoje e vice-versa. A Escravidão foi, numa época, aceito como modelo de uma sociedade, por muitos. A Inquisição foi aceita como forma de punição daqueles que não falavam a língua de Deus. As mulheres, até pouco tempo, não votavam. E isto foi aceito por muitos como “algo normal e sem muito o que fazer sobre”. Ou até mesmo rejeitado por muitos, mas que, na época, não havia muitas ferramentas e mecanismos de oposição. E isto somente reforçou o preconceito ao longo dos tempos. Muitas coisas que hoje enxergamos como mal, em outras épocas foram vistas como normais e fazendo parte de algo cuja aceitação era a única saída, ou sem força para contrapor.

Tudo é fruto de criação. Nada é por acaso. Nada surge. Tudo é sempre resultado de algo.

A nossa História está recheada de bons e de más valores, e o preconceito que, de tanto insistir em existir, não ficou de fora. Tamanha é a resistência dele que, muitas vezes, nem percebemos a presença. Alguns estão muito arraigados que passam por nós como uma brisa leve.

Também eles passaram por evolução: algo que alguém dissesse antigamente talvez não fosse considerado preconceito, diferentemente de hoje. Trechos de músicas como: “Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia que era a mulher de verdade...”, “O teu cabelo não nega, mulata...”, “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é...”, “antes mal acompanhada do que só...” apenas reforçam estereótipos, machismos, preconceitos e rótulos que, infelizmente, passaram despercebidos e, apenas por meio da nossa própria evolução e desenvolvimento, passamos a questionar e a não mais admitir. Mesmo que os preconceitos não tenham passado despercebidos para todos, não havia, antes, mecanismos e ferramentas de combate como hoje. A consciência ainda não estava desperta como hoje. Mas ainda há muito espaço para melhorar. Ainda há muito o que fazer. E sabemos disto.

Com todo respeito ao saudoso Mario Lago, mas dizer que a mulher de verdade é aquela que não tem vaidade é um pouco demais, não?

Mas como perceber isso antes de o tempo evoluir? Como não permitir mais estas letras antes das feridas e marcas que elas causam e causaram?

À medida que o tempo vai seguindo sua rota, novas formas de vida vão se mostrando para nós. A vista fica mais clara à medida que o tempo avança. Por isso, o tempo transcorrido é primordial para avançarmos na História, na nossa própria história.

Mesmo não sendo intencional, os rótulos machucam, marcam e identificam uma época. Somente os perceberemos e os aboliremos por meio do avanço e da evolução de uma época.

Podemos até ouvir ainda estas músicas, mas agora com um olhar crítico e atento. Isto demonstra que os valores são mutáveis. Que somos vivos como uma sociedade que busca outros degraus para avançar. Ainda estamos lentos nesta caminhada, mas estamos nela. Aquilo que, em algum momento, era apenas uma marchinha inocente de carnaval ou uma música de um ídolo se tornou um chamamento de atenção, também. Um duplo papel: ouvir a canção como fruto da nossa história, arte e memória, mas também como reflexo de uma construção melhor que se busca como um povo que somos.

Estas coisas começaram a chamar a nossa atenção. Hoje conseguimos identificar estas notas tortas sejam nas músicas, nas falas, nas escritas, nos silêncios. Temos um longo caminhar, mas esta percepção que estamos construindo para percebermos estes lugares vazios do preconceito, do racismo, do machismo e de tantos outros retrocessos tem valor intangível.

Uma dupla sertaneja tem uma música chamada “Preto de alma branca”. Por quê? Obviamente, se a dupla fosse perguntada do motivo deste nome, na época, diria que não seria para atacar alguém ou preconceito racista. Isto reflete que somos frutos de uma época que se aceitava este tipo de fala sem questionar. Mas as consciências despertam.

O questionamento se inicia no momento que se sente forte para tal e no momento que se percebe um avanço não autorizado, que já não aceitamos mais.

Como questionar algo que vinha disfarçado de bem? Mudar algo que era consenso? Identificar padrões que rotulavam, numa sociedade de muitos invisíveis? Questionar se o medo ditava as regras? E mesmo que houvesse questionamentos, seria por parte dos pequenos grupos, aqueles que não tinham direito à voz.  Portanto, mesmo alguns pequenos percebendo tal ação racista ou machista, ainda assim, muitas vezes, era mais fácil decidir continuar como se estava.

Construir compromissos com forças que querem nos impulsionar para frente, para o avanço, custa muito caro. É mais fácil viver na escuridão e deixar de pensar a criar laços com o questionamento, com o pensar. Por isso, muitas coisas se perpetuaram e se perpetuam.

Todos esses temas ainda existem com força. Mas foram piores. É preciso reconhecer que avançamos. Podemos até acreditar que hoje as coisas estão piores e mais difíceis, mas é que aqueles que vão às margens estão avançando e propondo as discussões. E isso causa a sensação de que pioramos. Mas não. Os que marginalizaram, os que criaram rótulos e os racistas estão sendo convocados para a conversa. O que presenciamos é o tempo decorrido trazendo os seus ganhos e benefícios como consciência, reeducação, renomeação de paradigmas e releituras de preconceitos, estereótipos, racismos etc.

A caminho do metrô, atrás de mim, um pai diz a filha:

“Que história é essa de pedir doce para o seu avô? Em plena quinta-feira? É dia de semana. Quer ficar gorda, quer? Quer ficar feia? Olha a sua mãe como está gorda. Ela está fazendo regime. Você precisa ajudar a mamãe.”

Paulo Freire dizia que todo professor, se não for capaz de lidar com a incompletude do outro, deveria abrir mão de seu trabalho. Estendo esta provocação a todos nós, àquele pai. Somos todos professores de alguma forma, considerando que o verdadeiro professor é aquele que, de posse da informação, do conhecimento, o amplia para facilitar a vida do aluno e, mais que isso, despertá-lo para o saber, para o saber que importa. E aquele pai, reforçando o estereótipo de que todo gordo é feio não cumpriu o seu papel de bom professor, que deveria ser. Acredito que muitos são pais e mães para darem uma satisfação para a sociedade. Mas de longe os são por vocação e missão.

Aquela menininha, dos seus cinco anos, no máximo, olhava para cima a procura dos olhos do pai, daquele que deveria ser a referência dela. Ela nada respondeu, apenas ficou atentamente olhando para ele e depois baixou sua cabeça, em direção aos próprios pés. Pés estes que torcemos para que a levem para lugares mais leves e para caminhos mais estreitos, que dificultem a entrada dos preconceitos e rótulos.

Precisamos buscar outras formas de educação e de interação. Há tempos, o mundo saiu do processo de participação (aonde você chegava para participar, mas a regra estava pronta) para o mundo da interação (aonde você ajuda a construir porque faz parte). Precisamos sair da inércia do armazenador de preconceitos e estereótipos, para sermos bons processadores daquilo que nos for transmitido. Somente assim passaremos a questionar e a fazermos companhia para as vozes dos marginalizados. Aquela menina, se nada for feito, apenas armazenará mais uma experiência cruel acerca do preconceito, do racismo etc.

Assim nasce um preconceito. Se dermos sorte, talvez a índole daquela menina não se deixe influenciar, e ela se transforme numa cidadã adulta com um olhar bem filtrado para o que não for bom. Mas retomo a minha fala inicial: o bom e o ruim apenas existem como tais após a nossa interpretação, após a nossa interação e convivência para poder nomeá-los. É muito difícil a construção de um preconceito, como esta que foi feita, ser desconstruída depois. A chance de insucesso é expressiva. Se assim não fosse, os nossos números sobre este assunto não se justificariam.

Somente o vivido e o experimentado são incorporados. E aquela menina viveu uma experiência que reforçou que o preconceito é bem-vindo. Aquele pai, por meio do não saber dele, associou a gordura à feiura. Reforçou um modelo que se autorizou na nossa sociedade: ser gordo é sinal de feiura, fraqueza e falta de força de vontade, o que, de longe, procede.

Novas vistas. Novos pensamentos. Novas perguntas. Isto é preciso. Caso contrário, a alienação será a nossa principal companheira. E aquela menininha, de idade tão imprecisa, acabava de receber, de seu pai, um convite para esta alienação. Pobre menina.

Paulo Freire ainda reforça dizendo que precisamos educar e não domesticar. Que possamos enxergar os entraves em nós para que o nosso senso domesticador não avance no próximo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de William James, filósofo e psicólogo americano, século XIX, que diz:

“Muitas pessoas acreditam que estão pensando quando, na verdade, estão rearrumando os seus preconceitos.”

Somos estas pessoas que reorganizam e rearrumam os próprios preconceitos, representados por aquele pai. Por meio do aprendizado, avançamos. A ausência dele, as mesmas limitações e pedras para carregarmos. É preciso questionarmos e ocuparmos os espaços vazios desta conversa importante. E, acima de tudo, rejeitarmos os rótulos daqueles que reduzem estes temas ao supérfluo, ao simples, ao irrelevante. Daqueles que insistem e se esforçam na permanência do preconceito, do racismo, do machismo e de tudo aquilo que nos reduz e nos traduz ao tamanho que temos merecido.

Pessoas que tentam rejeitar o comum, o pisado e aquele tom de que “isso é normal” sofrem mais nos caminhos que trilham. Mas são pessoas mais livres, privilegiadas e lúcidas por poderem desfrutar de vistas mais belas, altas e sólidas. São os rejeitadores de etiquetas: pessoas que voam e vão além. Um voo que sempre existiu e que poucos o conhecem. Mas está à espera de ser aprendido por todos aqueles que tenham a disposição de querer descobri-lo e, o melhor, de aprendê-lo.

domingo, 14 de abril de 2019

Os manés injustiçados

É comum alguns nomes próprios, existentes na Língua, sofrerem alterações e abreviações: Cristina se torna Cris, Maria Aparecida se torna Cida, Antônio se torna Toninho, Rogério se torna Roger, Fabiana se torna Fabi, Eliane se torna Eli, Ricardo se torna Caco, Maria Emília se torna Mila e assim por diante.

Alguém algum dia disse: “nossa, às vezes, me esqueço do meu verdadeiro nome.” Apelidos e abreviaturas de nomes criam marcas, referências e identidades. Mesmo que as pessoas não gostem dos apelidos e abreviaturas dos próprios nomes que recebem, não os aceitar é o caminho mais rápido e fácil de eles se instalarem. Apelidos “pegam” e grudam. São impostos pelos outros e por uma força do externo. Não há como fugir.

No entanto, alguns nomes, menos sortudos, ganham, além de abreviações e alterações, um presente a mais: o de grego. Manoel, por exemplo, se torna Mané, querendo ou não. São nomes cujas abreviaturas vão além da marca e da identidade: criam desserviços como os estereótipos, rótulos e identificam, pejorativamente, uma pessoa. É o caso do Mané. Aqueles que se chamam Manoel ou Manoel Carlos sabem disso.

A ingênua abreviatura de Manoel ou Manoel Carlos há muito deixou de ser apenas um apelido: se tornou o estereótipo do bobo, daquele que nada sabe, do que faz trapalhadas. Os Manés são, portanto, tanto os que se chamam Manoel ou Manoel Carlos, como aqueles que receberam este apelido de uma sociedade que os considera ora bobalhão e tolo, ora arrogante, o falso, aquele que se considera melhor e superior aos outros.

O apelido Mané, que deveria ser algo natural como Cris de Cristina, se tornou um termo pejorativo criado por aqueles que fazem da pobreza, a realidade da língua que usam. Só aquele que carrega a escassez no vocabulário poderia criar este estereótipo. No caso: a gente mesmo.

Outro dia, num curso, uma pessoa se apresentou a mim e disse:

- Prazer, meu nome é Mila.

- Prazer, o meu é Renata. Mila é o seu nome, eu disse?

- Ah, sim, Maria Emília, na verdade. Mas o meu apelido é Mila, disse com um sorriso no rosto.

Ter um apelido como Mila não carrega o peso do estereótipo como Mané. Por isso, ela sorria. E apesar de o Manoel e Manoel Carlos não precisarem explicar o significado de mané, como a Mila precisou explicar, não creio que se sentem orgulhosos do apelido que têm. Podem ter se acostumado, mas desconfio de que gostem. Os manés injustiçados.

Enquanto isso, os manés verdadeiros seguem com os seus nomes originais, sem precisarem ouvir: “Oh, Mané, vem aqui...”. Eles são, mais cedo ou mais tarde, descobertos. Mas enquanto for possível, ficam escondidos em conversas não realizadas. Confundem-se com os manés injustiçados e, desta forma, vão se misturando apostando na certeza da camuflagem. E como eles existem. Há sempre um por perto, incluindo a gente.

Os manés verdadeiros vão se acomodando na invisibilidade e na transparência das coisas que deveriam ser vistas, mas não são. São tantos os compromissos que agendamos com o desnecessário e com o ineficiente, que os manés verdadeiros acabam passando despercebidos por nós, ora por falta de tempo, ora por pura alienação, mesmo. Eles vivem às custas dos erros dos outros, e se beneficiam de uma sociedade sem prioridades verdadeiras, como a nossa. Ainda sofremos devido à incapacidade de enxergar o que importa. Por isso, eles passeiam ao nosso lado e ainda nos dão caronas que, gentilmente, aceitamos.

Como são manés verdadeiros, estão sempre à espreita do escorregar do outro e assim, se agarram à única forma de crescer que acreditam existir. São sagazes negligentes: uma modalidade que vem tomando território e se apropriando de terras inabitadas pelo real proprietário.

Aquele que não cuida do que é dele corre o risco de invasão, mesmo que ilegal. É preciso lembrar que de ilegalidade também se vive.

Os manés verdadeiros são pessoas distantes do refinamento e não possuem a capacidade de se comunicar nem com os próprios vazios. Um tolo que passa despercebido pela vida que se importa. Chegam tarde e fazem perguntas respondidas. Falam alto porque creditam, na imposição, uma ferramenta de poder. Recuam de si próprios para invadirem a vida dos outros. Não se encontram em si porque lá há um deserto em expansão.

Nas entrelinhas, a vida acontece e dialoga com a gente. Enquanto isso, os manés verdadeiros estão preocupados em manter o brilho opaco dos palcos que acham que ocupam.

Os manés injustiçados ouvem as próprias pausas, e enxergam os significados invisíveis que os farão conectar com o verdadeiro entendimento sobre si e a vida. A mesma que está tentando falar com os manés verdadeiros.

Um executivo de uma automotiva multinacional, recém-chegado na área, se senta bem próximo à janela por achar que merece um lugar de destaque para ver a paisagem. Apoia-se na carteirada para dar comandos ineficientes sobre um assunto que mal conhece. Apropria-se de falácias e de verbos dourados de cores desnecessárias para disfarçar o indisfarçável: a ignorância. Encaminha um e-mail com conclusões equivocadas a cerca de um assunto e cobra atitudes de quem, ironicamente, já estava fazendo. Faz uma leitura da situação de forma primária porque está ocupado com a inércia do próprio ser. Um amador profissional. Relaciona-se com o que não existe.

Manés verdadeiros são assim: além de ocuparem cadeiras indevidas e colocarem sobre elas o próprio vazio, ainda insistem em atrapalhar os passos dos que andam. Eles brigam pelo lado da janela, mas não percebem que são, por meio dos corredores, que a vida passa, se transforma e se mostra. Enquanto os manés verdadeiros acham que a janela mostra a melhor paisagem, os manés injustiçados vão a frente perseguindo os corredores recheados de aprendizados e de avanços oferecidos pela vida.

Manés verdadeiros. Pobres tolos. Sempre buscam o lugar que cria uma visão limitada e tendenciosa sobre tudo. Mude de lugar e mude a perspectiva. Os manés injustiçados já sabem disto há tempos. Por isso, raramente são vistos próximos à janelinha. Vão sempre ao lado dos corredores e, acima de tudo, nos corredores.

Oscar Wilde, um fundamental poeta e escritor do século XIX, disse: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Os poetas sempre enxergam o que ainda não nos é evidente. Os manés verdadeiros buscam degraus altos e vivem interrompendo a verdadeira caminhada. São ávidos por atalhos, a ferramenta dos desavisados e dos que possuem essência duvidosa. Enxergam no supérfluo, o principal. São peritos na pose, mas não naquela que Oscar Wilde trouxe, mas na dispensável. Uma pose natural, como disse o poeta, é do grupo dos manés injustiçados, algo que os verdadeiros desconhecem. Pobres manés.

Enquanto os manés verdadeiros vão apegados ao supérfluo, o que importa e o essencial seguem como um rio a frente deles. Um rio que passa manso e denso, mas que passa. Os corredores não os interessam.

Na maior parte das vezes, o supérfluo é ardiloso o suficiente para nos fazer nos esquecer do imprescindível. É uma pena. Pobres manés que somos todos nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um trecho de um conto de Machado de Assis, O Medalhão, que diz:

- “Papai”, disse o filho.

- “Não te ponhas com denguices, vou dizer-te coisas importantes”, disse o pai. “Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino” ...

“É de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade”, disse o pai.

“Creia que lhe agradeço. Mas que ofício, não me dirá”? – disse o filho.

“Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício”.

Machado de Assis, um autor imprescindível e atemporal. Ele nos traz um possível e provável caminho (porque há vários) para merecermos o apelido de Mané: nos tornarmos um medalhão, um mané verdadeiro. Aquele que faz jus a toda a ineficiência e ineficácia que produz, seja pela fala, pela conduta, pela insensatez e pelo lugar que ocupa na vida. Um lugar que, de tão frequentado, se funde a ele próprio.

domingo, 17 de março de 2019

O choro envergonhado

Até para chorarmos, é preciso arrumar um espaço na agenda, e com tempo limitado. Caso não haja dia na agenda, o choro ficará para amanhã. Talvez.

Nossas dores medicadas. Nossas dúvidas domesticadas. Nossos sofrimentos estão íntimos dos especialistas. Menos nós. Os passos que damos percorrem trilhas conhecidas porque perdemos as ferramentas que nos davam acesso às novas trilhas.

Um executivo, no LinkedIn, escreve:

“Só me permito chorar até 24 horas. Depois disto, arregaço as mangas e vou à luta.”

De onde vem a ideia de acharmos que podemos controlar o tempo que choramos? Por que até 24 horas? Seremos punidos se chorarmos 25 horas? Quem determina o tempo do nosso sofrer? Há um tempo determinado para o cessar do sofrer?

Perguntas sem respostas. Ainda bem. Porque as respostas que estamos dando à vida não têm sido das melhores.

Temos sido afetados por este relacionamento doentio que travamos conosco. A tirania da felicidade. A ausência de problemas. A publicação de sorrisos constantes como se eles fossem permanentes e reais em nossas vidas. A dor como intrusa num mundo que nos faz acreditar que aquele que finge é. Um mundo no qual o choro caiu de moda e a imposição do empoderamento se tornou uma falácia verdadeira. Aquele que mente, mas que sustenta uma rede de falsos vencedores, ganha espaço.

Um mundo no qual a lentidão mostra a falha e a rapidez esconde a falha. Por isso, o tempo do choro não tem espaço. É preciso rapidez para chegar aonde não sabemos. Uma rapidez para atingirmos lugares que nos obrigarão a voltar e a refazer a estrada que, de tantos buracos e imperfeições, se tornou nossa velha desconhecida.

Choramos mesmo sem lágrimas escorrendo no nosso rosto. Gritamos sem falar. Sofremos sorrindo. Temos medo, mas fazemos de conta que ser humano caiu de moda. Camuflamos o nosso choro porque alguém um dia disse que não podemos chorar. E pior: que o choro é para os fracos. Será?

A nossa grande fraqueza é nos fazer fortes. A fraqueza é uma das características do ser humano. É o que nos humaniza e nos identifica. Quanto mais força mostramos sobre temas e assuntos cuja dor é iminente, mais fraqueza mostramos.

Isto não significa fazermos apologia à tristeza, uma ode ao choro. Mas apenas uma reflexão do motivo de insistirmos na indelicadeza de escondermos algo tão escancarado que vai em nós: a dor. E o choro é apenas a representação dela.

Nossos bastidores nos revelam e ajudam a esconder as lágrimas escondidas em cada uma das nossas curvas e esquinas. Uma foto publicada no Instagram não, necessariamente, denuncia a verdade. No entanto, evidencia algo muito mais importante para o nosso espetáculo: a aparência. Enquanto fingimos que sabemos, o outro finge e não pergunta.

A cada descoberta que fazemos na vida, os nossos desdobramentos se mostram. E aí, quando menos esperamos, as lágrimas caem e nos desmascaram. Geralmente são silenciosas porque, por si só, dizem muito. Os silêncios que elas revelam devem ser escritos e são cheios de significados. Como o silêncio das nossas lágrimas se comunicam conosco?

A força de alguém não é medida pela ausência de dor. Mas sim, pela capacidade de demonstrá-la e de, acima de tudo, vivê-la. Nossa força é medida pela nossa condição de sustentar o nosso choro e de ouvi-lo, obrigatoriamente. Ele nos diz muito, mas o sufocamos com nossos sorrisos que nem amarelos ficam mais.

Arregaçar as mangas, como disse aquele executivo, não é sinônimo de força. O contrário: é uma evidência de ostentação de um bem que ainda não se tem, e de uma arrogância por se entender como uma pessoa que acha que tem o controle absoluto do que sente, do que vai nas próprias gavetas e recreios que o sustenta.

Não somos uma fortaleza: somos uma fragilidade buscando uma força. O que é bem diferente.

Camuflamos o choro para não o ouvir e assim o desprezamos. Afinal, o que de tão importante ele tem a nos dizer? Consideramos perda de tempo vivê-lo. Pobres arrogantes. Apenas vivendo-o seremos capazes de apreciarmos, verdadeiramente, o sorriso. Apenas o trazendo como relevante em nossas vidas e dedicando tempo a ele (mesmo que sejam mais de 24 horas) é que a vida começará a fazer sentido.

Como determinar um tempo para o choro? Como determinar um tempo para o sofrer? Por que a resistência em descer em nós e conhecer o que vai ali? É preciso descer se quisermos subir. É preciso chorar para conhecer o riso. Não precisaríamos, se fôssemos um pouquinho menos pretensiosos. Mas como não somos, é preciso uma passadinha nos contrários para compreendermos. Se não, ficaremos na superfície, no raso, no exterior, lugares que de longe nos mostrarão quem somos.

O abrir de portas ao autoconhecimento é fundamental se quisermos nos tornar pessoas melhores em todos os sentidos. E o choro é um exemplo de abrir de portas.

Aceitar o convite do autoconhecimento é um divisor de águas em nossas vidas. Quando decidimos nos conhecer, além de ser um caminho sem volta, louros e dificuldades nos aguardarão logo ali, atrás da porta. Descobrimos coisas maravilhosas a nosso respeito, mas as descobertas indigestas também darão a honra da presença. E nesta hora, o que fazer com isto? Ouvir o nosso choro será um caminho possível.

A abundância precisa ser um valor. E o sofrer é uma forma de abundância que vai em nós. Nela há muito de nós, de quem somos e, principalmente, de quem achamos que somos. Se não valorizarmos a abundância que vai em nós, tenderemos ao desperdício. E o que é o desperdício que não uma rede lotada de amigos virtuais que não nos conhece? Ou um limitar do sofrer porque temos vergonha dele? Um choro interrompido porque ele perdeu o espaço na nossa agenda. Um desperdício de tempo e de não ouvir o que ele tem a nos dizer.

Um desperdício que é refletido pela nossa insuficiência moral. Não há desperdício na natureza. Em nós, há. Quem desperdiça é porque tem o que desperdiçar.

Desperdiçamos o tempo para ouvir o nosso choro porque precisamos mostrar um falso sorriso para aqueles que pouco ou nada se interessam por nós.

O choro é bem-vindo e natural: um choro de alegria, de tristeza, de raiva, de saudade daqueles que foram e que nos são tão caros. Devemos nos orgulhar do nosso choro porque nele há a nossa assinatura e a história de quem somos. E ele é quem dirá o tempo de existência. Por fazer parte da nossa natureza, certamente ele irá embora quando chegar a hora. O contrário de nós, na natureza, não há desperdícios.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com dois pensamentos que nos convidam a avançar. O primeiro, um pensamento irônico de Carlos Drummond de Andrade, que diz:

“Um dia desses eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.”

Uma ironia para os tempos contemporâneos. Chorar caiu em desuso. Tristeza é para os fracos. Nossa agenda e tempo devem, apenas, servir o que produz e dá resultados. Ouvir o que o choro e a tristeza têm a nos dizer não nos interessa. Delegamos para um especialista que, afoito pela próxima consulta, medicará a nossa dor. O choro perdeu espaço na nossa sociedade do fast. Estamos correndo tanto, mentindo tanto, fugindo tanto, ansiando tanto que logo ali nos encontraremos, todos na mesma antessala, correndo para uma aula de mindfulness em busca de esvaziamento da mente que ajudamos a entulhar, principalmente, pelas ausências em nós.

E o segundo pensamento de William Shakespeare, que diz:

“Chorar é diminuir a profundidade da dor.”

Não é à toa que Shakespeare é um dos autores mais lidos, estudados e encenados do mundo. Quem diz isto abre espaço para o choro na própria vida. Uma atitude dos sábios e daqueles que já compreenderam que o choro, o contrário do que pensam os tolos, é, de verdade, uma poderosa ferramenta para diminuir a nossa dor.

A medida que o choro vai sendo acolhido e ouvido, nossas dores diminuem porque vamos clareando o nosso estado de impermanência e de inconstância diante à vida. Permitir que o choro identifique as nossas fragilidades, durante o tempo que for necessário, isto sim, é sinal de força, muito além de um arregaçar fútil de mangas de camisas amarrotadas.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Vai lá que eu fico aqui

“Vai lá que eu fico aqui”, disse um senhor, na fila do mercado, para a senhora que o acompanhava. “Se aqui andar mais depressa você vem pra cá, entendeu?”, disse ele para ela. E ela concordou. Ele numa fila; ela em outra. Simples assim. Não um simples que engrandece; mas um simples que empobrece e que constrange.

Não aprendemos aquilo que nos é ensinado; aprendemos aquilo que nos é possível ser processado. Portanto, educação é resultado do que tivemos acesso versus do que conseguimos compreender, absorver e processar. Talvez, em algum momento da vida, nos tenha sido ensinado que ocupar vários lugares, ao mesmo tempo, é tirar o lugar de um alguém. No entanto, talvez a nossa capacidade de compreensão deste ensinamento e, consequentemente, de atuação e processamento não tenha se desenvolvido o suficiente.

Somos seres em construção, inacabados e inconclusos. E toda obra inacabada e em construção ainda suja bastante as calçadas, espalha terra e cimento, emporcalha os calçados dos que passam, e mostra, sem o mínimo pudor e preocupação, a rede elétrica ainda sendo feita com os fios e conduítes expostos.

Quando recuamos alguns passos em nós, em nossa trajetória, temos acesso ao que foi feito, e desta forma, refazermos o caminho. E de lá de trás, nos revisitarmos e, quem sabe, descobrirmos que, sem querer, ocupamos alguns lugares a mais.

Qual é o lugar que nos cabe? Por que avançamos para lugares cujos espaços não podemos ocupar? De onde vem a crença de que podemos? Impossível encontrar estas respostas sem diálogos constantes conosco. E não havendo diálogos, nos tornamos insuficientes para nós. Uma insuficiência como antônimo de bastante, aquilo que deveria nos nutrir e nos fazer nos orgulhar da nossa construção, daquilo que vai em nós.

Não somos o bastante para nós porque carregamos as marcas da incompletude e da diminuição que insistimos que se tornem a nossa segunda pele, a marca da máscara que há tempos vai em nosso rosto, como disse Fernando Pessoa. Quando o bastante tiver espaço em nós, não sentiremos a necessidade de insistirmos nas nossas impermanências. Cederemos espaço para o esvaziamento da necessidade da vantagem e andaremos de forma mais mansa, pela vida.

Exigimos que a vida faça o que queremos. E se ela não faz, damos o nosso jeito. Independentemente da fila que escolhermos estar na vida, sempre haverá riscos de ela caminhar mais lentamente que a do vizinho. Mudarmos de fila é possível desde que haja espaço no outro lugar e a não interferência, de nossa parte, na dinâmica dos que vão a nossa frente ou, até mesmo, ao nosso lado.

O peso das nossas exigências para com a vida nos desequilibra.

Ocupamos espaços na vida sem, sequer, termos sido convidados. Chegamos, nos ajeitamos, pegamos algo para comer, ligamos a tevê e nos espalhamos. Este nosso olhar espaçado para o espaço que não temos e que, provavelmente, não teremos, nos cega frente ao lugar que realmente temos, o lugar que nos cabe. Lugares que não são nossos, mas que invadimos. Lugares que achamos que podemos ocupar porque os nossos atrasos autorizam, diariamente, esta nossa cegueira num mundo que assiste a tudo, porém nada vê, nada enxerga.

Reconhecer o espaço que nos cabe implica, antes, termos passado em nós mesmos. Somente quando nos visitamos com frequência e nos encontramos com a gente é que a vida vai tendo oportunidade de nos dizer o nosso tamanho, os espaços aos quais temos direito, e, principalmente, os espaços que podemos ocupar. Mas sempre estamos com tanta pressa que a vida, por pena de nós, não interrompe a nossa vulnerabilidade. Ela sabe que os nossos anzóis vão cheios de presas que, mais cedo ou mais tarde, precisarão ser soltas de volta ao mar. E este será um trabalho individual. Nosso. Por isso, ela não tem pressa.

Não é porque ocupamos e estamos num espaço que ele nos pertence ou que temos direito a ele. Espaço, aqui, não significa, apenas, um local físico ocupado por nós, seja ele merecido ou não. Significa, também, palavras que dizemos, gestos e posturas. Portanto, somos um espaço exposto no mundo com tudo o que nos movimenta. Somos um reflexo no mundo: um reflexo que reflete nossas obras inacabadas, nossas imperfeições e nossas inadequações. Refletir e agir sobre isso é essencial se quisermos nos alargar como humanos.

Somos frágeis em nossas singularidades. Somos sensíveis em nossas particularidades. Há tanto por se fazer. Por isso mesmo ainda não fazemos nem o básico.

As filas avançaram e a que a senhora estava caminhou mais rápido. O senhor, com a consciência mais leve que uma singela caneta que endossa e assina a nossa hipocrisia, levou o seu carrinho para a fila ao lado, e lá permaneceu ao lado da senhora. As pessoas que estavam atrás entortaram os narizes e testas, mas nada que resultasse numa ação, como bons ativistas de sofás, que somos.

Indignação sem ação é o reconhecimento da nossa conivência, mesmo que seja passiva. Todos reclamam. Todos se calam. E assim, seguimos nossa rotina amadora e avançamos para trás, para lugares cujos proprietários desconhecemos.

Atitudes sem ética e sem caráter, como esta, são revestidas de normalidade. A normalidade que damos a algumas coisas nos fornece atalhos para o aliviar de consciência. Atalhos sempre foram as ferramentas dos fracos e dos falsos espertos. Os fortes, ocupados pelas pernas, passos e relevâncias que possuem não perdem tempo com o ilusório, restrito e desestruturante.

Outro senhor chega, agora numa agência bancária, e retira duas senhas: a de prioridade para os idosos e a senha comum. Ao encontrar um conhecido na fila, diz: “é preciso ser esperto na vida. Não dá para perder tempo. Quem chamar primeiro eu vou.” Quem disse que o senhor do mercado não possui seguidores? Até mesmo fora do Insta, os seguidores avançam.

O que nos determina são as ausências dos nossos pés fincados no chão. O que nos determina são as nossas fugas frente às renúncias que precisamos abraçar.

Escolher uma fila e permanecer. Obter uma senha e aguardar ser chamado. Uma atitude simples, mas que, de tão desprezada, a simplicidade adoeceu. Mas por que a simplicidade segue tão desacreditada? Talvez porque ela seja desprovida de máscaras, de disfarces, de senão, de bastidores.

Tudo isso faz parte de uma consciência que caminha a passos de formiga e sem vontade, como diz a música do Lulu. Consciência é reconhecer a própria existência e buscar saídas honrosas e éticas para saber o que fazer com ela. Mas ainda não estamos neste capítulo da nossa história porque a fila que anda mais depressa ainda é prioridade para nós.

Conscientizar-se é ter uma certa dose de desobediência. É sair do trajeto pisado que somente nos levará até aonde os outros foram e chegaram. Se queremos avançar e criar a nossa autoria, é bom nos apressarmos. A vida costuma esperar, mas à maneira dela. É preciso clareza sobre isto.

Estamos em conflito permanente porque temos tantas informações, mas simplesmente não sabemos o que fazer com elas. Achamos que sabemos porque a quantidade nos conforta. Julgamo-nos espertos porque passamos na frente de alguém, no Banco? Achamos que ganhamos tempo, na vida, porque conseguimos, por esperteza, descobrir a fila mais rápida? Uma informação pode nos conduzir a algum lugar. Muitas informações nos conduzem à desinformação.

Ainda se vive, sem perceber, numa condição de alienação. E este estado de alienação nos tira a condição e a capacidade de ação e de existência. As saídas para as portas certas existem, mas não possuímos as chaves.

A vulnerabilidade está ganhando cada vez mais espaços em nossas vidas. As coisas vão ganhando complexidade. As vírgulas vão nos exigindo paradas, vão colocando respiros em nossa condição de humanos.

Nossas atitudes indicam nossos supostos desertos e um profundo cansaço provocado pela ausência de nós mesmos. Há muito não nos encontramos para um café, um papo rápido, que fosse. É preciso encontrar aquilo que frutificou de nosso cansaço e de nossas exclusões, e buscarmos saídas para isto.

É muito importante que a gente consiga mudar o patamar da nossa relevância. Caso contrário, continuaremos, ainda por muito tempo, a acreditar que somos bons e espertos porque passamos o outro para trás, porque achamos que ganhamos tempo, porque conseguimos descobrir a fila mais rápida.

Nossas inferioridades criando laços com nós, em nós, produzindo, assim, dificuldades para que a gente mesmo os desate. Ilusão acharmos que isto se delegaria para alguém.

Nossas obscuridades caminham nos nossos luxos, nos nossos ossos e nos nossos palácios de areia. Não aquela areia mais firme, aquela fofa, mesmo.

Temos memória curta, por isso nem nos lembramos mais daquela passadinha na frente, no mercado, inocente. Mas a vida tem memória longa, bem longa. Sabe cobrar os atrasados.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Gandhi, que diz:

“A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É tudo uma questão de consciência.”

Quando a consciência consciente for o nosso padrão de conduta, esta fala de Gandhi será natural para nós. E assim sendo, os nossos nós cairão em desuso e servirão para ilustrar uma parte importante do museu da cidade, sempre pronto a nos receber. Não para nos ameaçar, mas para nos lembrar do que fomos capazes. Um museu silencioso e manso que se alegrará por, finalmente, termos renunciado à mania que tínhamos de aderir ao sofrimento, como a busca de uma fila mais rápida, ou a esperteza da senha, no Banco.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O silêncio desprezado

Há uma semana do que aconteceu em Brumadinho, mais um caso que nos relembra a nossa pequenez, vejo, pela tevê, candidatos ao Senado e os famigerados apoiadores distribuindo santinhos nos corredores. Mudo de canal porque o meu estômago, às vezes, pede um refresco. A minha capacidade de digestão, e acho que a sua também, têm limites. Por isso, mudo de canal mesmo que isto me custe pagar o preço da alienação. Volto para o computador e ouço, pertinho de mim, o silêncio da rua que me permitiu perceber o som de um pássaro cantando na árvore do jardim, aqui do prédio. Um canto firme e persistente do pássaro que, sem o silêncio que se impunha, não seria percebido.

“Vocês, Ocidentais, são muito barulhentos. Precisam aprender a arte de silenciar”, disse, certa vez, um líder indiano. Infelizmente, abrimos mão de aprendizados valiosos como este. Mas a vida espera pela nossa boa vontade. Só não sei quanto a boa vontade dela.

Lembrei-me deste ensinamento ao ouvir aquele pássaro que tanto me ensinava naquele momento: um recolher de asas aqui, um canto lá, uma passada leve e devagar, um olhar para a natureza, um sacudir de penas logo ali. Fiquei me dando ao luxo de reparar aquele pássaro por alguns segundos, e era isso o que ele fazia: com calma e em silêncio, seguia seu rumo sem se impor para a vida. O contrário: via-se a própria vida se manifestando através dele. Um caminhar leve e silencioso que, de tão distante de nós, desaprendemos como fazê-lo. Mas o pássaro sabia. Aquele silêncio que eu ouvia e que me permitia ouvir o pássaro, me ensinava.

Fiquei refletindo sobre o silêncio e a utopia da presença dele em nossas vidas. É preciso silenciar para ouvir. Ouvir os pássaros e o que a vida, há tempos, insiste em nos dizer. Se em silêncio estivéssemos, talvez a barragem, em Brumadinho, não tivesse se rompido. Não sei. Era uma possibilidade. Mas o barulho construído por nós, por meio da nossa vaidade, ganância e egoísmo, impediu esta esperança. O silêncio desprezado.

Aqueles políticos famintos, distribuindo os santinhos, me enojaram, confesso, frente ao que aconteceu com Brumadinho, com as pessoas, com a Natureza, com os animais. Cito Brumadinho porque é o crime atual de uma lista que não se esgota, infelizmente. O crime atual desta semana vigente, e destas horas que falo. Porque sempre há um crime fresco, novinho em folha saindo de um forno que não desliga os seus botões da ineficiência, do retardo, do descaso com uma Nação que, de longe, é. Uma Nação pressupõe união. União?

Desnecessário discorrer sobre os detalhes deste crime. Os noticiários nos abasteceram o suficiente. Por isso, o estômago se enfurece. Apenas tomo a liberdade de propor uma reflexão sobre o silêncio. É preciso silenciar para saber o que vai em nós. Não um silêncio passivo, inaudível e ativista de sofá, mas um silêncio que revela o mal que vai em nós. Que revela a vergonha que deveríamos sentir ao naturalizarmos as coisas cruéis e inescrupulosas. Um silêncio constrangedor que nos expõe e nos rebaixa à condição do subsolo. Um silêncio de mãos firmes que nos exige, no mínimo, que a gente abra mão de vivermos apartados.

Somos engolidos pela confusão interna e externa e por apelos que nos dispersam, num mundo barulhento. É preciso interromper este automatismo e desativar os dispersadores dos nossos sentidos adoecidos e perdidos. Enquanto uns morrem sem o menor escrúpulo, enquanto animais lutam para conseguirem tirar suas patas da lama, outros distribuem santinhos pelos corredores bem aprumados. Lama lá, há muita. Mas estão submersas nos tapetes azuis do Senado como metáforas de uma construção inacabada, que é o que somos.

O mundo sempre foi um lugar conflituoso. A questão hoje é a exaustão. Falimos. Nossos conflitos não são explicitados. Passamos por cima deles porque somos muito barulhentos, ruidosos. Não nos ouvimos. Daqui a pouco nem falaremos mais sobre Brumadinho. Ou se falarmos, será como uma página triste de nossas histórias.

O tempo é silencioso e sábio. Há tempos que o tempo nos encaminha nossas contas. Mas estão todas nos esperando sobre o capacho de nossas portas.

O silêncio vem da sabedoria do tempo. O ruído e o barulho vêm da gente. O silêncio e o barulho são incompatíveis. É preciso fazer uma escolha.

Não estamos sendo capazes de viver conosco. Por isso o barulho ensurdecedor das buzinas que buzinam a todo o tempo. O barulho tornou-se um hábito para esconder os nossos vazios. “Fala demais por não ter nada a dizer”, diz Renato Russo. Falamos muito, dizemos muito. Enquanto isso, a ação morre e a lama cobre sonhos, vidas e pessoas.

O hiato em nós nos torna barulhentos. Assim não pensamos e não agimos. Seguimos os passos já pisados e trilhados. Isto explica porque as coisas se repetem, infelizmente. O que foi Brumadinho senão a repetição agravada, se é que é possível dizer isto, de Mariana?

No barulho, o silêncio perde espaço. Nada se constrói no barulho. Nossas amizades são fortalecidas não pelas falas constantes, mas pelos silêncios concedidos nos momentos críticos. O silêncio é a construção. O barulho é a destruição e a alienação. No barulho, não temos condições de enxergar o que se passa. Ele favorece o aflorar do nosso oportunismo e do nosso egoísmo. Este sufixo “ismo” que diz que optamos pelo adoecimento.

Quando o silêncio nos preenche, fazemos menos barulho. O que aconteceu com Brumadinho é a representação do barulho e da lama que vão em nós. Não a lama da terra, que abraçou Brumadinho, mas uma lama moral, presente em cada um de nós.

A Natureza chorou nesta semana, em Brumadinho. Um choro triste e ressentido. A Natureza não se vingou, como muitos disseram, mas apenas foi vítima da nossa indignidade. Se eu pudesse, retiraria nosso título de humanos. Acho que não o merecemos. A barbárie talvez fosse um melhor encaixe para nós.

Shakespeare dizia: “Não há arauto mais perfeito da alegria do que o silêncio”. Há muito o que fazer. Se ainda não silenciamos e não o valorizamos como instrumento de construção, a alegria é um degrau distante de nós. Somos, quase todos, rejeitadores do silêncio.

Mais importante que relembrar a importância do silêncio, será reaprendermos a silenciar.

Dizem que Beethoven, durante um ensaio da Filarmônica de Berlim, interrompeu os trabalhos para dizer, a uma violonista: “neste intervalo, não há nota a ser tocada. Isso é o sagrado desta sinfonia.” Se isto é verdade ou lenda, não sei. Mas que Beethoven era um gênio que já valorizava o silêncio e suas pausas, não há dúvidas. Por que a violonista quis preencher um espaço com outra nota? Por que o silêncio deveria soar incômodo, intimidador. Mas Beethoven trouxe que “o sagrado daquela sinfonia era aquele intervalo sem notas”. Ou seja, o silêncio. Este intervalo que a vida precisa para se manifestar. Brilhante. O convite está feito.

Os ruídos alimentam os nossos vazios. Impomos a nossa presença ao outro por meio de barulhos. As pausas fazem toda a diferença. São elas e os silêncios que nos permitem discutir as nossas fragmentações.

Viver o silêncio é resgatar a nossa dignidade perdida. Dignidade é a condição de nos carregar, com nossos temores, horrores e pequenezas. Mas há um descompasso nisto. Por isso, a todo o momento precisamos nos explicar. Sempre estamos devendo.

Explicar-se é um contato medonho que temos na vida. Ainda isto é preciso por estarmos nesta condição de imprecisos, inconclusos e devedores que somos.

Penso que se ficássemos quietos e evitássemos ruídos, nossos resultados seriam melhores. No momento em que escrevo esta frase, uma moto barulhenta passa na minha rua, impondo o seu barulho a mim. Ironia. Um barulho cafona e brega que me obriga a percebê-lo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação do próprio Beethoven, o gênio compositor alemão, que diz:

“Nunca quebre o silêncio se não for para o melhorar.”

Se fôssemos seguir o conselho de Beethoven, nosso tempo seria vivido mais em silêncio do que em palavras. Porque, de verdade, desconfio se queremos melhorar sem esforço. Somente os corajosos ouvem o silêncio e o encaram como aquele que os tirará da paralisia ética e moral.   Beethoven tinha toda a razão. A genialidade dele foi capaz de ser traduzida em maravilhosas obras porque ele valorizou o silêncio. Certamente porque não ficou em corredores nem distribuindo e nem, muito menos, recebendo santinhos, uma metáfora daquele que constrói ruídos por não ter a competência de ouvir e de perceber o silêncio, o único instrumento que possibilita retomar a nossa autonomia e a nossa obrigação como humanos.

sábado, 26 de janeiro de 2019

A próxima farmácia

Andando pelo bairro, parei para aguardar o farol. A minha frente, alguns homens retiravam a logomarca de uma linda loja de sapatos que havia na esquina. Num primeiro momento, fiquei triste: afinal, o fechamento de portas sempre indica sonhos frustrados de alguém. Encerrar atividades num local, mesmo que vá para outro, indica, de qualquer forma, logística intensa, cansaço e desgaste. Enquanto concluía meus pensamentos, o sinal abriu e atravessei. E enquanto eu atravessava, outra logomarca era carregada pelos mesmos homens, agora em direção para o interior da loja: uma nova farmácia seria ali instalada. Imediatamente olhei para trás e disse para mim mesma: “mas e aquela Droga Raia ali, na esquina? Outra farmácia? Uma de frente para a outra?”

Pode parecer exagero da minha parte, mas naquele momento me senti afrontada. Não por comparar sapatos com remédios. Não por achar sapatos mais importantes do que remédios. Absolutamente. Mas pela invasão de imposições que sofremos a cada dia por cedermos espaços de nossas vidas. Ao cedermos estes espaços preciosos, e sem, muitas vezes, percebermos, convidamos estranhos para entrarem em nossas casas. O que avança sempre busca espaços deixados pelo que recuou.

A farmácia, em si, nada tem de culpada. Se ela está ali é porque há demanda. Mas de qual demanda falamos?

Étienne de La Boétie, filósofo francês do século XVI, nos faz uma provocação:por que obedecemos? Por que abrimos mão da nossa capacidade de decidir?” Em sua obra, o discurso da servidão voluntária, as provocações continuam:

O que nos seduz a obedecer? O que nos seduz a abrir mão da liberdade? A nossa escolha em servir, em usar a máscara. A minha entrega ao tirano. A minha capacidade de abrir mão da minha autonomia.

No mínimo, contraditório: buscamos tanto a liberdade, a valorizamos tanto que nossas atitudes dizem justamente o contrário: servimos e alimentamos alienações com a nossa participação e anuência. Entregamo-nos ao tirano por escolha e por valorizarmos muito aquele que nos diz qual é o caminho a ser seguido. Isto facilita muito as coisas. Quando seguimos o estabelecido, o medido, o pisado e o pensado entregamos, de bandeja, o que poderia ser. O tirano fica feliz com a nossa limitação do pensar e com a nossa absoluta descrença na gente e na vida. Quanto mais a limitação nos enquadrar, mais descrença e fuga geraremos.

Os tiranos caminham soltos, livres e buscam a nossa obediência. E vendo aquela outra farmácia sendo inaugurada, em meio a muitas existentes ali, me lembrei de um dos velhos e bons tiranos que conhecemos: o medo. Não aquele medo salutar, que nos faz prestar atenção ao atravessarmos a rua ou a nos afastar de algo que julgamos ruim. Mas do medo que nos faz recuar diante a vida. Do medo diante os excessos que ajudamos a construir e que por conta justamente deles, adoecemos. E os excessos são muitos. Por medo de ficarmos sem dinheiro, trabalhamos demais. Por medo da convivência e do contato com o outro, nos escondemos nas redes sociais por horas. Por não nos respeitarmos como somos, exageramos nos procedimentos estéticos. Por não sabermos lidar com os nossos medos e frustrações, descarregamos nos outros nossas inquietações. Por medo de sofrermos, deixamos de amar. Por medo de cairmos, deixamos de correr. Por medo da ridicularização alheia, deixamos de expor a nossa opinião. Resultado? Dores. E nada como uma boa farmácia e um bom médico para nos dizer o que fazer. Alimentamos, por meio de nossas dores e medos, uma indústria que cresce.

Somos uma sociedade de medicados. Somos uma sociedade que delega para a pílula a mágica da resolução de problemas que ajudamos a construir. E um dos itens principais desta construção é, certamente, o medo. Sentimo-nos inadequados. E esta inadequação gera dor. Como são muitas as nossas dores, ficou fácil compreender o motivo de mais uma farmácia aqui, perto de casa. E certamente perto da sua casa, também. Olhe em volta.

O medo que sentimos do que está por vir, do que já veio e do que está nos adoeceu. E estamos sem muitas condições de debruçarmos sobre nós mesmos para ver onde nos perdemos. Fazer uma reflexão sobre nossas dores e o que elas têm a nos ensinar nos ajudaria a frequentar menos farmácias? Não sei, leviano de minha parte seria ter a resposta. Mas fazer uma reflexão é possível. É o mínimo que a vida nos pede.

O filósofo francês, que faleceu com apenas 33 anos, tinha toda razão quando disse que nos sentimos seduzidos pelo obedecer. Claro. O caminho fica menos denso, menos tortuoso. Não precisar pensar sobre nós e sobre nossos inquilinos, como o medo, é um facilitador de caminhos. Falso. Mas facilitador.

Acreditar que somos insuficientes e que nunca seremos o bastante alimenta a usina do medo que, certamente, contribui para o progresso de certas frentes. A insuficiência será sempre o nosso lugar por excelência. Uma pena acreditarmos nisso.

Esta violência produtora do medo, seja verbal, intelectual, moral e física. A violência costuma gerar sujeitos cruéis e sem iniciativa. E muitas vezes, não é o que somos? O medo produzido gera dinheiro, seguidores e propagadores. Alguém se alimenta do nosso medo. Compensa.

O que está nos movendo? Mal algum há em acessarmos farmácias. Mas os excessos precisam ser vistos e pensados. Engordamos os excessos. E esta falta de oportunidade de intercâmbio leva a nossa subordinação emocional e intelectual.

O medo é uma forma de sofrimento. E o respeito ao sofrimento é algo relativamente recente. Por isso, as farmácias ainda andam cheias. Não queremos sofrer. Fugimos do sofrimento. Medicamos o nosso sofrimento antes de ouvi-lo. Antes de buscar compreendê-lo. Fácil não é. Mas quem disse que seria?

Os remédios são, literalmente, um avanço e uma necessidade. Historicamente, quantas pessoas não morreram por falta de medicamentos? Portanto, agradecê-los seria o básico de nossa parte. Longe de fazer uma apologia à dor e ao masoquismo, a reflexão passa apenas por “por que estamos nos excedendo neste consumo? Por que a dor deixou de fazer parte dos nossos aprendizados?” Não sei a resposta. Leviano, novamente, seria tê-la. Cheguei a tomar remédio para dor de cabeça sem estar com dor de cabeça. Simplesmente por estar certa de que a dor me visitaria naquele dia.

A farmácia inaugurada, portanto, apenas se vale de nossas pequenezas traduzidas em medo. Ora somos vítimas destas imposições, ora ajudamos a construir esta realidade. Daqui a pouco, esta farmácia estará repleta de clientes que não se visitam há tempos. Tomarmos remédios é, infelizmente, necessário. Mas fizemos todos os passos antes deles?

Que os remédios sejam contribuidores para uma vida mais feliz e saudável. Mas que eles não sejam espaçosos e se espalhem por lugares para os quais não foram convidados.  “Os tiranos têm cúmplices”, diz Étienne de La Boétie. Portanto, que a gente repense, se possível, nossa ida à farmácia. Se ela existe, é porque tem a nossa cumplicidade. Um pouco de nós colaborando para o caos onde estamos mergulhados.

Nossas grandes demandas são emocionais. Escutar os nossos erros é imprescindível. Carregamos uma superficialidade a respeito de quem somos. E isto nos atrasa.

Não deixamos a porta aberta para as dores dizerem a que vieram. Ficamos perdidos em algumas discussões quase sempre inúteis. Por isso, não avançamos. Somos hábeis no reforço do que não precisa.

Aristóteles diz que “o hábito produz uma segunda natureza tão densa que a achamos natural.” Abafar as nossas dores e sofrimentos se tornou uma segunda pele, em nós, um hábito. Por isso naturalizamos a medicalização dos nossos pesares. As farmácias e a indústria geradora do medo agradecem.

É preciso questionar as nossas certezas, iluminar as dúvidas escondidas pelas nossas máscaras. Verificarmos os nossos avessos porque eles sempre derrubam conceitos estéreis.

Investigar-nos é um grande presente para nos dar. Atravessarmos a ponte para sabermos o que vai em nós. Mas voltarmos. Participarmos dos nossos bordados e de nossas costuras. Um salto de riscos. Um deixar-se construir pelos resultados dos problemas vividos.

A percepção sobre nós próprios rompe o padrão e nos traz interpretações a nosso respeito. Viver a realidade exige esforço.

O excesso nos convida a nos revisitar. Irmos ao encontro de nós mesmos não é tarefa fácil. Mas necessária.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com dois pensamentos: um de Voltaire, filósofo francês do século XVII, e outro de Molière, dramaturgo francês do mesmo século, que dizem:

“Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.” Voltaire

“Morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos”. Molière

O pensamento de Voltaire, nos convidando a nos reconhecer como dignos de pertencermos a esta farmácia moral por meio desta coletânea de pensamentos. Este pensar poderá, se tivermos sorte, nos afastar de algumas farmácias. Voltaire chamando a nossa atenção para os muitos passos que precisamos dar antes das farmácias.

E o pensamento de Molière, um escritor que carregava, nas tintas dos seus textos, um tom de sátira e de ironia, tão necessário para o amadurecimento do nosso pensar. Molière chama a nossa atenção, de forma irônica, a repensarmos a subserviência que damos aos nossos próprios algozes. Ao contrário do que pensamos, provoca Molière, o que achamos que está nos salvando está, na verdade, nos matando.

A propósito, onde fica a próxima farmácia?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Dentes desnecessários

Geralmente, o final do ano e o começo dele são épocas nas quais fazemos balanços: não apenas um, mas vários. Dividimo-nos entre as conclusões que queremos dar a alguns assuntos, influenciados pela energia do final do ano, e iniciações que mais uma vez prometemos fazer, influenciados, agora, pela energia do início do ano. São tantas providências a tomar, negócios a resolver, pendências a absorver e promessas a fazer que nos esquecemos de algo muito importante: o fato de estarmos aqui, vivos. Existir já é algo e tanto. Simples assim.

O avançar do calendário, que bate à porta nos chamando para o próximo ano, não nos cobra promessas não cumpridas. Tampouco traça uma régua dos nossos débitos e créditos baseado no que entregamos ou deixamos de concluir, para, desta forma, nos punir ou nos premiar. O avançar do tempo não faz isso, definitivamente. Apenas colabora para que um novo e outro sol nasça, e assim, nos diga carinhosamente: “levante-se, ainda há muito o que fazer. Por isso, te dou um novo ano.” Sem cobranças. Só uma pitada de assertividade. Nada além disto.

Sentimo-nos muito cobrados pelo tempo porque deixamos coisas para a última hora, literalmente, sejam elas conclusões ou iniciações. Quando conseguimos escapar do janeiro e do dezembro, sempre reencontramos o nosso bom e velho álibi: o mês seguinte, a semana seguinte. Mas janeiro e dezembro são as pontas extremadas e implacáveis. Estão ali, alimentadas pelo calendário que avança e nos diz: “mais um ano se passou e você ainda não fez isto?” Chegamos a ouvi-lo com seus ácidos termos que nos rebaixa à condição de devedores e perdedores.

Como injustiça sempre foi, e me parece que ainda por longo tempo será, o nosso forte, somos injustos com o calendário. Ele apenas faz o seu papel que é o de avançar e o de seguir. Apenas isso. Talvez sua grande culpa seja a de nos convidar a acompanhá-lo. Ofendemo-nos com isso e, como consequência, nos sentimos culpados e cobrados.

Esta pressão que sentimos e que verbalizamos por meio das nossas ações como correrias, afazeres, iniciações, pendências e conclusões indicam a nossa ausência em nós, a falta de tempo que dedicamos para nós mesmos. Somos a visita faltante em nós. Devemos isto a nós. E por que não a fazemos? Talvez porque o tempo que deveria ser dedicado para nos visitar (ou para nos revisitar?) está sendo alocado para outros pormenores, como corre-corres inúteis.

Estamos sempre no tempo futuro, ansiosos. Angustiados pelo avançar das horas e por ainda tanto a ser feito. Estamos sempre, ou quase, num lugar que nos colocaram, muitas vezes. Porque muitos acham que sabem qual é o melhor lugar para nós. Mesmo que eles não saibam o melhor lugar para eles. Mas isto é só um detalhe. São muitos os afazeres desnecessários que acabam escondendo ou menosprezando os afazeres necessários, infelizmente.

Corremos porque o final do ano chegou. Mas se o planejamento, organização e visitas constantes a nós forem recorrentes durante o ano todo, por que a correria? Será que precisamos estar presentes em tudo? O que resultaria se fizéssemos um pente fino em nossos compromissos? Um funil firme no que chamamos “urgente”? Acho que descobriríamos tempos e horas perdidos, isolados ao fundo, apenas aguardando serem úteis.

As visitas que devemos a nós teriam servido para descobrirmos recursos de tempo e de condição para fazermos muito, mas muito mesmo. Mas como estamos sempre correndo para darmos conta de nossas iniciações e conclusões, não nos sobra tempo para visitas, muito menos para mais explicações.

Cobramos o tempo por ele passar rápido. Sentimo-nos cobrados por ele. Mas não estamos sendo justos. O que nos cobra não é o tempo, mas sim a nossa postura de crença neste modelo de atuação. A nossa atitude de perpetuar modelos que não se justificam.

Nesta reflexão, duas palavras se sobressaem: sensibilidade e gratidão. Sensibilidade para observarmos que não há cobranças e nem débitos. Não podemos ser injustos com o tempo. O avançar do calendário não nos cobra. Apenas nos pede sensibilidade para percebermos que ele passa. Portanto, é preciso vivê-lo melhor, com referências e responsabilidades. Ele nos lembra do que ficamos de responder, de fazer, de concluir e de, pelo menos iniciar. Não como cobrança, mas como um convite para o caminhar. Se aceitássemos o convite, perceberíamos a trajetória do tempo e, consequentemente, a nossa. E nesse novo patamar de pensar, as correrias e os tantos afazeres dariam espaços para o sentido e para o real.

A sensibilidade, se presente em nossas vidas, nos ajuda a reequilibrar ações e a direcionar melhor as nossas posições e escolhas diante a vida. O sensível apura os ouvidos para saber o que a vida quer que seja. As conclusões e as iniciações verdadeiras começam a reivindicar seus espaços antes ocupados pelos desavisados, os desatentos de plantão.

Gratidão para não perdermos a noção e o senso do caminho e da valorização do que, verdadeiramente importa. É preciso gratidão e sensibilidade para não nos deixarmos influenciar e, acima de tudo, não nos deixarmos perder a nós mesmos de vista.

A gratidão e a sensibilidade, se juntas estiverem em nós, ainda assim as correrias e os tantos afazeres continuarão a existir. Mas o sentido destas tantas coisas, a forma como as realizaremos, o aproveitamento e a razão de tantas ocupações se tornarão aliados nossos, e não inimigos. Tendo a gratidão e a sensibilidade como guias, nosso tempo será melhor aproveitado. Conseguiremos ouvir mais os sons dos pássaros que ecoam em meio às buzinas estridentes. Saborearemos mais os pores do sol porque teremos tempo de levantarmos as nossas cabeças para encontrá-los. A gratidão e a sensibilidade nos farão utilizar os nossos filtros e funis com objetividade e, desconfio, que sobrarão horas em nosso vasto calendário que avança, sim, mas que não nos ofende e afronta mais, como achávamos que ele fazia.

De posse de mais tempo, porque retomamos contato com a sensibilidade e a gratidão perdidas em algum canto da gente, os meses ficarão mais longos, os dias passarão normalmente, e as horas poderão até tirar um esquecido cochilo. Nada disso comprometerá as nossas entregas se elas forem úteis, necessárias, com sentido e verdadeiras.

Sensibilidade e gratidão nos levam para outro patamar de viver. Mesmo com tantos afazeres. E foi o que comprovei ao ver aquela senhora, de pouquíssimos dentes, sorrir ao receber uma pequena doação: um pacote de maçãs, um pacote de pão, peras frescas, bisnaguinhas e alguns doces para as crianças que convivem com ela e outros adultos, sob um viaduto, na zona sul de São Paulo. Pensei que aquele sorriso vazio de dentes e repleto de sensibilidade e de gratidão fosse a minha grande lição do dia. Engano meu. Já de costas, ela nos chama e diz:

“Muito obrigada. Deus abençoe.” “Por nada, respondemos.”

“Ah, por favor...” “Sim, respondemos.”

“Vocês têm horas?” nos perguntou num tom baixo e educado.

“Claro, são dez para as dez”, respondemos. “Muito obrigada”. E um outro largo sorriso, vazio de dentes, se escancarou para nós. Estava uma linda manhã.

A voz limpa e baixa daquela mulher se misturou ao som dos carros que passavam apressados. A curiosa pergunta daquela mulher “vocês têm horas?” me fez recobrar uns dos grandes ensinamentos que recebi, na vida, do professor de Filosofia, na Faculdade, que dizia: “a vida sempre escolherá ensinar o imprescindível pelos caminhos simples dela. Mas será preciso limpar a vista e os ouvidos para aprendê-lo.”

Nunca mais me esqueci do ensinamento daquele professor. Sob um viaduto, barulhento e sujo, aquela mulher trazia o imprescindível pelos caminhos simples da vida: a gratidão e sensibilidade. Gratidão por ter tido a grandeza de nos doar um largo sorriso que sobrepunha a ausência dos dentes, e por ter recebido algumas maçãs, tão pouco frente àquilo que ela necessitava, e ainda assim nos doar um sorriso que iluminou a escuridão do viaduto. E sensibilidade por ter, mesmo com dores na alma, valorizado mais o tempo do que o lugar sujo aonde ela se encontrava.

A sensibilidade em nos perguntar as horas talvez por acreditar neste tempo que avança para construir algo melhor, e não no avanço aleatório. A correria pela correria porque chegou o final do ano. As promessas porque chegou o início do ano. Não. Um perguntar de horas porque as valoriza e porque é sensível ao avançar delas. É preciso respeitar o tempo. E para tal, é preciso se enxergar inserido nele, grato e atuante. Respeitar o tempo é vivê-lo em consonância com ele e não à parte dele. Aquela mulher nos perguntou as horas não porque tivesse muitas coisas a fazer e, por isso, estava apressada. O contrário. Justamente por estar ciente de onde estava, de onde vivia, e da completa ausência de perspectiva, expectativa e até de afazeres, ela crê no tempo e o percebe. O avançar dele é uma esperança para aqueles que sofrem.

Aquela mulher era totalmente desprovida de excessos. Por isso percebia o tempo e nos perguntou as horas, mesmo sabendo que não havia tantas coisas assim a serem feitas. O querer saber das horas e do tempo deveria estar além do ato material de preenchê-lo com coisas e afazeres, induzidos por nossa vaidade e pelo pseudo saber dos outros.

O saber das horas é fundamental para sermos mais, e não para fazermos mais. E isto aquela mulher já sabia esbanjando aquele largo sorriso vazio de dentes. Dentes? Desnecessários quando se tem o mais importante: grandeza de atitude. Nossas conclusões (conclusas ou inconclusas) e nossas iniciações (sem finalizações) darão as medidas e as respostas que buscamos na vida.

O nosso estar no mundo é o produto que resulta no espelho: vivo, incontestável e imperfeito. Os dentes, portanto, se tornam desnecessários quando nos tornamos grandes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Cora Coralina, uma das mais importantes poetisas e escritoras brasileiras, que diz:

“estamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo.”

É preciso nos debruçar sobre nós mesmos. O tempo para isso existe. Mas a vida precisa que nossas mãos ajam e façam. Este papel é nosso. O papel dela, e do próprio tempo, que aqui são a mesma coisa, é o de apenas nos lembrar de que o calendário caminha, mas se vamos acompanhá-lo, será outra conversa.

O deslocamento de nossas visões deturpadas nos impede de criar vínculos com quem poderíamos ser. Se quiséssemos.