quarta-feira, 5 de junho de 2019

O menino somos nós

Sabermos se determinado aprendizado que adquirimos é relevante implica encontrarmos uso prático para ele. O conteúdo que nos representa, que vai em nós e que nos absorve precisa estar indissociável da prática, seja ela coletiva ou individual. O que aprendemos de irrelevante, que foram muitas coisas, certamente, se perdeu na massa da qual todos nós fomos construídos. Está tudo ali, no meio das luzes e das encostas que nos formam. Quem somos surge de quem fomos.

Machado de Assis, na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo XI, nos propõe um tema de indigesta reflexão: nós. Quem somos, por causa do menino que, um dia, esteve em nós? Ele nos faz esta pergunta. Hoje, somos pais do homem. O menino da nossa infância, da minha e da sua, hoje é o pai do que nos transformamos: num homem. Com os nossos conteúdos relevantes e irrelevantes, entendidos e subentendidos.

O menino que é pai do homem, título do texto de Machado de Assis, nos traz uma reflexão incômoda a respeito de quem somos por causa de quem fomos. Um convite para avançarmos o pensamento desgastado e cansado de que somos frutos do meio, apenas. Antes disso, nascemos no meio, interagimos nele e com ele, e produzimos a partir dele. Somos os que vivem no meio, os que são o meio e os que, somente, o observam.

O meio nos inicia, nos reverencia, nos violenta, nos embrutece, nos aprisiona, nos cala, nos consente, nos finaliza, nos aposenta, nos marginaliza. O meio nos evidencia para continuarmos a nos curvar, ao mesmo tempo que nos dá visibilidade que, sozinhos, não conseguiríamos. O meio nos torna, mas nos retira de cena talvez no auge da cena. Nunca saberemos. Autorizamos o meio a nos ordenar porque sem ele não existiríamos. Tudo com a nossa anuência, estejamos conscientes ou não.

Quem somos por causa de quem fomos? Respostas individuais. Reflexões particulares. Choros e risadas criam um embate para ganharem a nossa atenção. Mas que o todo sente, age e reage. Somos, hoje, o pai do homem. Este pai que um dia foi um menino. Um menino que cresceu e se tornou o pai do homem.

imagem tirada da internet

O meio: de um lado, uma violência, que de longe é um fenômeno firmado numa decisão individual. Nunca decidimos nos tornar violentos somente por causa da nossa caprichosa vontade. É preciso lembrar que o meio nos abastece do torto, do desrespeitoso, do ausente e do agressor que se utiliza da força física e do verbo para calar vozes e oprimi-las. Aplaudimos o opressor porque confundimos força física com força moral. Porque valorizamos a guerra na mesma proporção que aposentamos o diálogo. Damos os primeiros lugares à mesa àqueles que nos rebaixam e nos relembram da nossa inaptidão para o viver e para o ser.

Firmamos acordos com o meio quando aceitamos ser abastecidos pelo conteúdo que ele nos traz. Um contrato vitalício de vazios, de ausências e de porões, a menos que as cláusulas miúdas possam ser reescritas e revistas.

O meio: de outro lado, uma parceria, cujas mãos dadas deveriam sustentar as nossas frágeis estruturas. Uma parceria cujo conteúdo poderia nos levar adiante, lá aonde não chegamos, mas que já poderíamos estar se não fossem o desatino daqueles que nos aplaudem sem merecermos, as plateias que buscamos para alimentarmos os nossos egos e as traças que existem em nossos caminhos, diariamente iluminadas pelo nosso incentivo assertivo à ignorância. Somos resultado deste meio. Criamos este meio. Somos ele em nós. Somos o que recebemos. E hoje somos porque, um dia, em algum momento, fomos.

O menino que é pai do homem.

Qual espelho nos representa? De quais máscaras, como dizia Fernando Pessoa, nos servimos? Com qual delas sairemos, na rua, hoje?

“Afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não seguindo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lugares”, diz Brás Cubas.

O que nos sustenta é o nosso cotidiano, as nossas interações, reflexões, ausências, acordos, toma-lá-dá-cá e reajustes, conforme o caminhar nas estradas cujos pés nem sempre querem trilhar. Nem sempre seguimos padrões rígidos, mas ao sabor da nossa conveniência, como diz o personagem de Machado de Assis. Por isso, a nossa conivência com o meio está escancarada. Ele atua através de nós porque ele nos representa.

O menino que fomos se tornou o pai de quem somos.

Nossas atuações autorizadas e medidas porque dependem do que ganharemos. Nossas sátiras disfarçadas porque não podemos demonstrá-las, apesar de serem autorizadas por todos. O importante não é o ser, mas o parecer. Então, fingimos que fazemos enquanto os outros fingem que acreditam que fazemos. Nossos risos envergonhados. Nossos resultados camuflados por causa da poeira que nos esquecemos sobre os nossos móveis.

Nossas consequências não são lineares, mas cíclicas.

Somos resultado. Somos uma perspectiva. Somos uma expectativa. Somos erros e acertos. Somos as nossas relevâncias e irrelevâncias. O que se aproveita e o que é descartável. O sólido e o líquido. Somos muitas coisas apenas para alimentarmos o nosso estar, e assim nos disfarçamos e contamos com o palco que nos é dado por aqueles que acreditam e que, também, sobrevivem das luzes que devolvemos para eles. Uma parceria que deu certo.

O menino que é pai do homem. Que homens somos? Que menino fomos? Quem e o quê nos alimentaram? A quem ouvimos? De quais influências falamos? Como interpretamos os nossos viveres até chegarmos aqui? Quais parcerias, por causa dos conteúdos recebidos, fizemos? Que homens seremos depois que o nosso pai estiver saído da condição de menino?

Não somos pesquisadores de nós mesmos. Não aprendemos. Não nos ensinaram. Não nos interessamos em aprender. Nossos conteúdos perdidos. Nossas reservas caladas. Reservar um lugar para avaliar e ouvir as nossas entrelinhas. No entanto, ouvi-las significa abrir mão da permanência no lugar onde se está e fazer das entrelinhas, prioridade. Um lugar interno, mas sem muito espaço em nossas agendas cheias e repletas de compromissos adiáveis. A inutilidade tem o seu valor: nos envaidecer. Enquanto achamos que somos extremamente ocupados, mais lugares vão sendo ocupados dentro da gente com a orfandade. Somos, muitas vezes, órfãos de nós mesmos. Órfãos do nosso olhar e da conversa que poderíamos ter tido.

Enquanto isso, o homem se tornou o filho do menino porque o tempo passou. Mas ainda há tempo: o trabalho de retirada das pedras do caminho é pessoal e intransferível. Alguns já começaram o trabalho. O trem já saiu da estação para alguns. Olhar em perspectiva nos dá amplitude do que poderemos alcançar. Se muitos já saíram da estação é porque existe a possibilidade, mesmo que ainda não tenhamos, nem ao menos, comprado os bilhetes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Humberto de Campos, jornalista e escritor do século XIX, que diz:

“Cada ave, com as asas estendidas, é um livro de duas folhas aberto no céu. Feio crime é roubar ou destruir essa miúda biblioteca de Deus.”

Somos esta biblioteca de Deus, independentemente da nossa crença, ou não, nele. Somos feitos de conhecimento e de sabedoria, mas também de ignorância e de retrocesso. Somos o resultado aliado às nossas escolhas, interferências, interpretações e preparo. Somos o resultado de quem fomos e de quem temos sido. Um dia crianças, um dia meninos que se tornariam pais dos homens. Nós.

Há tempo.

Que esta biblioteca siga aberta, com suas asas estendidas para que possamos reencontrar o sábio que vai em nós. Em cada um de nós. O sábio vestido de palhaço para disfarçar e não ser derrotado por nós, porque vamos querer nos roubar e nos destruir por meio de negociações. O palhaço, por ser o único lúcido, sabe que não pode negociar com o tempo. O tempo não negocia com ninguém porque ele tem amigos. Quem tem amigos não negocia. Somente negocia aquele que tem coniventes, aquele que destrói a biblioteca. Uma biblioteca fechada não nos impedirá de nos tornarmos homens, mas jamais homens filhos dos meninos felizes que poderíamos ter sido, mas que ainda temos tempo. Homens felizes. Meninos felizes. Mesmo dentro das nossas imperfeições.

domingo, 19 de maio de 2019

Abismos construídos

É comum acharmos que somos invejados e não invejosos. É comum falarmos mais sobre nós e pouco ou nenhum interesse pela fala do outro.

É comum aguardarmos horas numa sala de um médico qualquer. É comum acharmos que a corrupção sempre é do outro.

É comum ultrapassarmos pelo acostamento porque o nosso motivo sempre se justifica. É comum a tecnologia substituir as nossas mãos obrigatórias.

É comum a violência disfarçada de assertividade. É comum a vaidade pintada de autoestima.

É comum a pressão por discursos mais rápidos e eficientes. É comum o essencial ter perdido o lugar para o banal. É comum o eu porque o nós pediu afastamento.

É comum a construção ter se tornado ultrapassada. É comum a quantidade ter se tornado sinônimo de qualidade, apesar de muitos dizerem que não. A gentileza de mentir ainda existe.

É comum a fala vazia ter ocupado cada vez mais espaços. “Fale para que eu te veja”, dizia Sócrates. É comum considerarmos amigo aquele que pensa como nós. Aquele que pensa diferente, ou não sabe o que diz ou é nosso inimigo.

É comum a pausa ser constrangedora porque os vazios, há muito, deixaram de ser espaços de construção e de reflexão. É comum naturalizarmos o que não poderíamos, e abrirmos os braços para a banalização.

É comum a opinião do outro ser a extensão da nossa. É comum o quadrado do vizinho ser sempre o melhor. É comum a injustiça sempre acontecer com a gente.

É comum entregarmos o fútil para alimentarmos a futilidade de alguém que tem, na trivialidade, sua marca de expressão. É comum acharmos que a nossa história daria um livro e a do outro nem numa página de livro de subliteratura caberia.

É comum o vício nas novidades porque o atemporal cansa. A insustentabilidade da novidade nos situa nos degraus debaixo da vida que ajudamos a construir, nos acomodando numa cegueira confortável. A atemporalidade tira as vendas dos nossos olhos, desfaz o pacto com a dependência e nos situa no tempo: nosso verdadeiro lugar.

É comum o insustentável criar a dependência e o atemporal criar raízes. É comum darmos poder ao outro por meio da nossa submissão.

É comum jogarmos nossos rascunhos fora. No entanto, neles, são construídos os verdadeiros passos da nossa vida. O sentido está no rascunho e na travessia de Guimarães Rosa, e não na obra pronta.

É comum que o erro do outro se torne instrumento para persegui-lo. É comum descartarmos a oportunidade de discussão sobre o significado daquele erro. É comum desconsiderarmos que o erro é, também, o processo de compreensão do outro. Todos erram. Mas é comum o outro errar e a gente acertar.

É comum descontinuarmos uma relação. Concertá-la é para os antigos. É comum delegarmos para a tecnologia um saber que deveria ser nosso. É comum vivermos correndo, sem tempo e com agendas sem espaços. Aquele que diz ter tempo, ou é um desocupado ou está mal informado.

Atualizar, caminhar, construir, fazer, ser: verbos em desuso. O comum ocupando espaços largos e sem a mínima cerimônia. O comum tendo acesso a nós porque assim o aceitamos como parceiro de conduta. Ter um conivente deste quilate nos autoriza a estar, uma vez que também é comum este mesmo estar ocupar o lugar do que deveria ser.

O comum como forma de um ser debilitado. Um ser manco, mas que se apoia em muletas longamente construídas.

Na sala de espera, pessoas estão aguardando há uma hora. Uma das pessoas diz: “Não tem jeito, médico atrasa mesmo.” E assim, autorizamos, por meio de cartas em branco, nossa sentença de subordinação, de acatamento, de obediência. Porque é comum, também, darmos a nossa voz àqueles que não a querem ouvir.

Ao mesmo tempo, é comum darmos crédito a nossas contradições. Uma pessoa na sala de espera, ao ser chamada pontualmente pelo médico, pensa: “não deve ser bom médico. Atendeu muito rápido. Não deve ter tantos pacientes.”

Afundamos nas nossas contradições porque elas nos conduzem e ditam as regras. Aceitamos o comum porque ajudamos a construí-lo.

O comum faz moradia em nós. O natural seria que assim não fosse. O comum não nos traz mais constrangimento. No entanto, o natural seria que assim não fosse. De tão comum que o comum se tornou, ele agora é parte de nós. Convidá-lo a se retirar seria como se parte de nós também partisse. Acostumamo-nos com o irracional, com o ilusório, com o raso, com aquilo que não nos convida a pensar. Pensar é pesado e trabalhoso.

Comum é aquilo que todos fazem. Inclusive a gente. Aceitamos o comum sem o mínimo acanhamento, como se fosse algo aceitável. Naturalizamos o que, de longe, é natural. Pode ser comum machucar alguém por meio de um olhar repressor, mas não é natural.

O comum vem de todos. O natural vem da natureza, daquilo que deveríamos fazer, daquilo que é essencial. É comum andarmos por cima. O natural seria aprofundarmos os nossos pés.

Concedemos ao comum o nosso dever do pensar e do refletir. No momento que o inserimos em nossas vidas, ele passa a entrar em nossas casas sem, ao menos, tocar a campainha. Acomoda-se e faz tronco em nós. Nossos troncos retorcidos e falíveis. Mas é comum também não percebermos isso. A natureza tem feito, há tempos, o seu papel. Ela segue o que é natural. Mas e a gente?

Na fila de um Banco, apenas um caixa. Uma forma direta de a Instituição dizer que não somos bem-vindos àquele lugar. Isso é comum. Mas quem se importa? Somos desprezados e desprezamos. Uma linguagem comum de todos os tempos, não é exclusividade da contemporaneidade.

O comum que dá guarida à banalidade, que dá o berço para a ausência da moral, para o nascer do desprezo. Coisas que naturalizamos, mas que não poderíamos. Coisas que aceitamos como parte de uma construção doente, mas que nossos olhos não enxergam. Aceitamos o comum como natural, ora porque “faz parte”, ora porque nem percebemos que o comum nos marginaliza, nos aprisiona, nos acovarda.

Na formatura dos médicos, o juramento solene dito pelo aluno traz “o compromisso de considerar a saúde do doente como a primeira preocupação”.  No consultório ao lado, o médico que pede exames desnecessários apenas para ganhar mais dinheiro. Ou o convênio que diz que “sem carteirinha, não tem atendimento”, como diz a música da Legião Urbana.

Faz parte. “É comum”, alguém diz. Fazer o quê? Num quarto de hospital, uma pessoa sofre com câncer. O estágio da doença está avançado. E o médico diz ao enfermeiro: “se o paciente reclamar de dor, nem faça mais nada.” Um crime ou um comércio de saúde? Acho que há espaço para ambos. Enquanto tentamos provar, mais cenas como estas serão vistas como comuns. Fazer o quê?

Os doentes morrem. Os marginais se avolumam. Horas são perdidas a espera de atendimento porque seguimos agendas vaidosas. Maus gestores se apropriam de um poder que não possuem. Os Bancos lucram com a inflação que consome a vida alheia. O panetone, que é palco de lucros desmedidos na época do Natal, impõe a presença dele, a nós, até o dia das mães. Mas depois do Natal é comum uma ofertinha. Precisamos agradecer por isto? É comum, ainda por cima, acharmos que fizemos um bom negócio comprando um panetone, de marca boa, a doze reais. Pobres que somos. O comum se apropriando do natural, daquilo que deveria ser, que importa e investiga a essência, essa que deveria estar a serviço.

O comum se apropria do indevido e se serve exclusivamente. Esta é a meta. O natural não se apropria do exclusivo porque sabe que toda construção sólida está no coletivo. Não sei se vamos querer estar lá quando descobrirmos isso.

O comum cega. Traz caminhos rasos. Convence-nos sobre a inutilidade do pensar. Oferta-nos uma rapidez ineficiente. É como se caminhássemos milhões de quilômetros, só que na direção errada. Chegará o dia (ou será que já chegou?) que pediremos informação ao viajante do caminho e ele nos dirá: “desculpe, amigo. Você andou quilômetros na direção errada. Vai precisar refazer o caminho.”

O natural agrega, alimenta e avança. Traz caminhos tortuosos, densos e repletos de obstáculos. No entanto, o único possível se não quisermos caminhar quilômetros em vão.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação atualíssima de Maquiavel, um dos principais escritores da literatura mundial, que diz:

“Todos veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é.”

É comum parecermos, e sermos medidos e identificados por isso. Mas o natural seria que soubessem, inclusive a gente, quem realmente somos. Vivemos num estar, num parecer. Um comum de vida que todos conhecem, todos sabem, todos veem. Mas, infelizmente, não somos. E quando somos, poucos são os que percebem, poucos são os que sabem. Há, portanto, um verdadeiro abismo entre o que é comum e o que é natural.

Um abismo que frequentamos porque foi criação nossa. Sem exceções.

domingo, 28 de abril de 2019

Assim nasce um preconceito

O conceito de que uma coisa é boa ou má existe como resultado da nossa interação (ou falta dela) com estas mesmas coisas. É a nossa atuação, relação, interpretação e convívio com algo que dá o sentido que as coisas têm. O que caracteriza uma ação como boa ou como má resulta do olhar que concedemos a ela, do sentido misturado aos nossos valores, crenças e cultura.

O bem e o mal são abstrações das nossas vidas. O que confere valor a estas abstrações e o que as identifica são as nossas relações, atribuições e intervenções. O que era bom antigamente, talvez não o seja hoje e vice-versa. A Escravidão foi, numa época, aceito como modelo de uma sociedade, por muitos. A Inquisição foi aceita como forma de punição daqueles que não falavam a língua de Deus. As mulheres, até pouco tempo, não votavam. E isto foi aceito por muitos como “algo normal e sem muito o que fazer sobre”. Ou até mesmo rejeitado por muitos, mas que, na época, não havia muitas ferramentas e mecanismos de oposição. E isto somente reforçou o preconceito ao longo dos tempos. Muitas coisas que hoje enxergamos como mal, em outras épocas foram vistas como normais e fazendo parte de algo cuja aceitação era a única saída, ou sem força para contrapor.

Tudo é fruto de criação. Nada é por acaso. Nada surge. Tudo é sempre resultado de algo.

A nossa História está recheada de bons e de más valores, e o preconceito que, de tanto insistir em existir, não ficou de fora. Tamanha é a resistência dele que, muitas vezes, nem percebemos a presença. Alguns estão muito arraigados que passam por nós como uma brisa leve.

Também eles passaram por evolução: algo que alguém dissesse antigamente talvez não fosse considerado preconceito, diferentemente de hoje. Trechos de músicas como: “Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia que era a mulher de verdade...”, “O teu cabelo não nega, mulata...”, “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é...”, “antes mal acompanhada do que só...” apenas reforçam estereótipos, machismos, preconceitos e rótulos que, infelizmente, passaram despercebidos e, apenas por meio da nossa própria evolução e desenvolvimento, passamos a questionar e a não mais admitir. Mesmo que os preconceitos não tenham passado despercebidos para todos, não havia, antes, mecanismos e ferramentas de combate como hoje. A consciência ainda não estava desperta como hoje. Mas ainda há muito espaço para melhorar. Ainda há muito o que fazer. E sabemos disto.

Com todo respeito ao saudoso Mario Lago, mas dizer que a mulher de verdade é aquela que não tem vaidade é um pouco demais, não?

Mas como perceber isso antes de o tempo evoluir? Como não permitir mais estas letras antes das feridas e marcas que elas causam e causaram?

À medida que o tempo vai seguindo sua rota, novas formas de vida vão se mostrando para nós. A vista fica mais clara à medida que o tempo avança. Por isso, o tempo transcorrido é primordial para avançarmos na História, na nossa própria história.

Mesmo não sendo intencional, os rótulos machucam, marcam e identificam uma época. Somente os perceberemos e os aboliremos por meio do avanço e da evolução de uma época.

Podemos até ouvir ainda estas músicas, mas agora com um olhar crítico e atento. Isto demonstra que os valores são mutáveis. Que somos vivos como uma sociedade que busca outros degraus para avançar. Ainda estamos lentos nesta caminhada, mas estamos nela. Aquilo que, em algum momento, era apenas uma marchinha inocente de carnaval ou uma música de um ídolo se tornou um chamamento de atenção, também. Um duplo papel: ouvir a canção como fruto da nossa história, arte e memória, mas também como reflexo de uma construção melhor que se busca como um povo que somos.

Estas coisas começaram a chamar a nossa atenção. Hoje conseguimos identificar estas notas tortas sejam nas músicas, nas falas, nas escritas, nos silêncios. Temos um longo caminhar, mas esta percepção que estamos construindo para percebermos estes lugares vazios do preconceito, do racismo, do machismo e de tantos outros retrocessos tem valor intangível.

Uma dupla sertaneja tem uma música chamada “Preto de alma branca”. Por quê? Obviamente, se a dupla fosse perguntada do motivo deste nome, na época, diria que não seria para atacar alguém ou preconceito racista. Isto reflete que somos frutos de uma época que se aceitava este tipo de fala sem questionar. Mas as consciências despertam.

O questionamento se inicia no momento que se sente forte para tal e no momento que se percebe um avanço não autorizado, que já não aceitamos mais.

Como questionar algo que vinha disfarçado de bem? Mudar algo que era consenso? Identificar padrões que rotulavam, numa sociedade de muitos invisíveis? Questionar se o medo ditava as regras? E mesmo que houvesse questionamentos, seria por parte dos pequenos grupos, aqueles que não tinham direito à voz.  Portanto, mesmo alguns pequenos percebendo tal ação racista ou machista, ainda assim, muitas vezes, era mais fácil decidir continuar como se estava.

Construir compromissos com forças que querem nos impulsionar para frente, para o avanço, custa muito caro. É mais fácil viver na escuridão e deixar de pensar a criar laços com o questionamento, com o pensar. Por isso, muitas coisas se perpetuaram e se perpetuam.

Todos esses temas ainda existem com força. Mas foram piores. É preciso reconhecer que avançamos. Podemos até acreditar que hoje as coisas estão piores e mais difíceis, mas é que aqueles que vão às margens estão avançando e propondo as discussões. E isso causa a sensação de que pioramos. Mas não. Os que marginalizaram, os que criaram rótulos e os racistas estão sendo convocados para a conversa. O que presenciamos é o tempo decorrido trazendo os seus ganhos e benefícios como consciência, reeducação, renomeação de paradigmas e releituras de preconceitos, estereótipos, racismos etc.

A caminho do metrô, atrás de mim, um pai diz a filha:

“Que história é essa de pedir doce para o seu avô? Em plena quinta-feira? É dia de semana. Quer ficar gorda, quer? Quer ficar feia? Olha a sua mãe como está gorda. Ela está fazendo regime. Você precisa ajudar a mamãe.”

Paulo Freire dizia que todo professor, se não for capaz de lidar com a incompletude do outro, deveria abrir mão de seu trabalho. Estendo esta provocação a todos nós, àquele pai. Somos todos professores de alguma forma, considerando que o verdadeiro professor é aquele que, de posse da informação, do conhecimento, o amplia para facilitar a vida do aluno e, mais que isso, despertá-lo para o saber, para o saber que importa. E aquele pai, reforçando o estereótipo de que todo gordo é feio não cumpriu o seu papel de bom professor, que deveria ser. Acredito que muitos são pais e mães para darem uma satisfação para a sociedade. Mas de longe os são por vocação e missão.

Aquela menininha, dos seus cinco anos, no máximo, olhava para cima a procura dos olhos do pai, daquele que deveria ser a referência dela. Ela nada respondeu, apenas ficou atentamente olhando para ele e depois baixou sua cabeça, em direção aos próprios pés. Pés estes que torcemos para que a levem para lugares mais leves e para caminhos mais estreitos, que dificultem a entrada dos preconceitos e rótulos.

Precisamos buscar outras formas de educação e de interação. Há tempos, o mundo saiu do processo de participação (aonde você chegava para participar, mas a regra estava pronta) para o mundo da interação (aonde você ajuda a construir porque faz parte). Precisamos sair da inércia do armazenador de preconceitos e estereótipos, para sermos bons processadores daquilo que nos for transmitido. Somente assim passaremos a questionar e a fazermos companhia para as vozes dos marginalizados. Aquela menina, se nada for feito, apenas armazenará mais uma experiência cruel acerca do preconceito, do racismo etc.

Assim nasce um preconceito. Se dermos sorte, talvez a índole daquela menina não se deixe influenciar, e ela se transforme numa cidadã adulta com um olhar bem filtrado para o que não for bom. Mas retomo a minha fala inicial: o bom e o ruim apenas existem como tais após a nossa interpretação, após a nossa interação e convivência para poder nomeá-los. É muito difícil a construção de um preconceito, como esta que foi feita, ser desconstruída depois. A chance de insucesso é expressiva. Se assim não fosse, os nossos números sobre este assunto não se justificariam.

Somente o vivido e o experimentado são incorporados. E aquela menina viveu uma experiência que reforçou que o preconceito é bem-vindo. Aquele pai, por meio do não saber dele, associou a gordura à feiura. Reforçou um modelo que se autorizou na nossa sociedade: ser gordo é sinal de feiura, fraqueza e falta de força de vontade, o que, de longe, procede.

Novas vistas. Novos pensamentos. Novas perguntas. Isto é preciso. Caso contrário, a alienação será a nossa principal companheira. E aquela menininha, de idade tão imprecisa, acabava de receber, de seu pai, um convite para esta alienação. Pobre menina.

Paulo Freire ainda reforça dizendo que precisamos educar e não domesticar. Que possamos enxergar os entraves em nós para que o nosso senso domesticador não avance no próximo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de William James, filósofo e psicólogo americano, século XIX, que diz:

“Muitas pessoas acreditam que estão pensando quando, na verdade, estão rearrumando os seus preconceitos.”

Somos estas pessoas que reorganizam e rearrumam os próprios preconceitos, representados por aquele pai. Por meio do aprendizado, avançamos. A ausência dele, as mesmas limitações e pedras para carregarmos. É preciso questionarmos e ocuparmos os espaços vazios desta conversa importante. E, acima de tudo, rejeitarmos os rótulos daqueles que reduzem estes temas ao supérfluo, ao simples, ao irrelevante. Daqueles que insistem e se esforçam na permanência do preconceito, do racismo, do machismo e de tudo aquilo que nos reduz e nos traduz ao tamanho que temos merecido.

Pessoas que tentam rejeitar o comum, o pisado e aquele tom de que “isso é normal” sofrem mais nos caminhos que trilham. Mas são pessoas mais livres, privilegiadas e lúcidas por poderem desfrutar de vistas mais belas, altas e sólidas. São os rejeitadores de etiquetas: pessoas que voam e vão além. Um voo que sempre existiu e que poucos o conhecem. Mas está à espera de ser aprendido por todos aqueles que tenham a disposição de querer descobri-lo e, o melhor, de aprendê-lo.

domingo, 14 de abril de 2019

Os manés injustiçados

É comum alguns nomes próprios, existentes na Língua, sofrerem alterações e abreviações: Cristina se torna Cris, Maria Aparecida se torna Cida, Antônio se torna Toninho, Rogério se torna Roger, Fabiana se torna Fabi, Eliane se torna Eli, Ricardo se torna Caco, Maria Emília se torna Mila e assim por diante.

Alguém algum dia disse: “nossa, às vezes, me esqueço do meu verdadeiro nome.” Apelidos e abreviaturas de nomes criam marcas, referências e identidades. Mesmo que as pessoas não gostem dos apelidos e abreviaturas dos próprios nomes que recebem, não os aceitar é o caminho mais rápido e fácil de eles se instalarem. Apelidos “pegam” e grudam. São impostos pelos outros e por uma força do externo. Não há como fugir.

No entanto, alguns nomes, menos sortudos, ganham, além de abreviações e alterações, um presente a mais: o de grego. Manoel, por exemplo, se torna Mané, querendo ou não. São nomes cujas abreviaturas vão além da marca e da identidade: criam desserviços como os estereótipos, rótulos e identificam, pejorativamente, uma pessoa. É o caso do Mané. Aqueles que se chamam Manoel ou Manoel Carlos sabem disso.

A ingênua abreviatura de Manoel ou Manoel Carlos há muito deixou de ser apenas um apelido: se tornou o estereótipo do bobo, daquele que nada sabe, do que faz trapalhadas. Os Manés são, portanto, tanto os que se chamam Manoel ou Manoel Carlos, como aqueles que receberam este apelido de uma sociedade que os considera ora bobalhão e tolo, ora arrogante, o falso, aquele que se considera melhor e superior aos outros.

O apelido Mané, que deveria ser algo natural como Cris de Cristina, se tornou um termo pejorativo criado por aqueles que fazem da pobreza, a realidade da língua que usam. Só aquele que carrega a escassez no vocabulário poderia criar este estereótipo. No caso: a gente mesmo.

Outro dia, num curso, uma pessoa se apresentou a mim e disse:

- Prazer, meu nome é Mila.

- Prazer, o meu é Renata. Mila é o seu nome, eu disse?

- Ah, sim, Maria Emília, na verdade. Mas o meu apelido é Mila, disse com um sorriso no rosto.

Ter um apelido como Mila não carrega o peso do estereótipo como Mané. Por isso, ela sorria. E apesar de o Manoel e Manoel Carlos não precisarem explicar o significado de mané, como a Mila precisou explicar, não creio que se sentem orgulhosos do apelido que têm. Podem ter se acostumado, mas desconfio de que gostem. Os manés injustiçados.

Enquanto isso, os manés verdadeiros seguem com os seus nomes originais, sem precisarem ouvir: “Oh, Mané, vem aqui...”. Eles são, mais cedo ou mais tarde, descobertos. Mas enquanto for possível, ficam escondidos em conversas não realizadas. Confundem-se com os manés injustiçados e, desta forma, vão se misturando apostando na certeza da camuflagem. E como eles existem. Há sempre um por perto, incluindo a gente.

Os manés verdadeiros vão se acomodando na invisibilidade e na transparência das coisas que deveriam ser vistas, mas não são. São tantos os compromissos que agendamos com o desnecessário e com o ineficiente, que os manés verdadeiros acabam passando despercebidos por nós, ora por falta de tempo, ora por pura alienação, mesmo. Eles vivem às custas dos erros dos outros, e se beneficiam de uma sociedade sem prioridades verdadeiras, como a nossa. Ainda sofremos devido à incapacidade de enxergar o que importa. Por isso, eles passeiam ao nosso lado e ainda nos dão caronas que, gentilmente, aceitamos.

Como são manés verdadeiros, estão sempre à espreita do escorregar do outro e assim, se agarram à única forma de crescer que acreditam existir. São sagazes negligentes: uma modalidade que vem tomando território e se apropriando de terras inabitadas pelo real proprietário.

Aquele que não cuida do que é dele corre o risco de invasão, mesmo que ilegal. É preciso lembrar que de ilegalidade também se vive.

Os manés verdadeiros são pessoas distantes do refinamento e não possuem a capacidade de se comunicar nem com os próprios vazios. Um tolo que passa despercebido pela vida que se importa. Chegam tarde e fazem perguntas respondidas. Falam alto porque creditam, na imposição, uma ferramenta de poder. Recuam de si próprios para invadirem a vida dos outros. Não se encontram em si porque lá há um deserto em expansão.

Nas entrelinhas, a vida acontece e dialoga com a gente. Enquanto isso, os manés verdadeiros estão preocupados em manter o brilho opaco dos palcos que acham que ocupam.

Os manés injustiçados ouvem as próprias pausas, e enxergam os significados invisíveis que os farão conectar com o verdadeiro entendimento sobre si e a vida. A mesma que está tentando falar com os manés verdadeiros.

Um executivo de uma automotiva multinacional, recém-chegado na área, se senta bem próximo à janela por achar que merece um lugar de destaque para ver a paisagem. Apoia-se na carteirada para dar comandos ineficientes sobre um assunto que mal conhece. Apropria-se de falácias e de verbos dourados de cores desnecessárias para disfarçar o indisfarçável: a ignorância. Encaminha um e-mail com conclusões equivocadas a cerca de um assunto e cobra atitudes de quem, ironicamente, já estava fazendo. Faz uma leitura da situação de forma primária porque está ocupado com a inércia do próprio ser. Um amador profissional. Relaciona-se com o que não existe.

Manés verdadeiros são assim: além de ocuparem cadeiras indevidas e colocarem sobre elas o próprio vazio, ainda insistem em atrapalhar os passos dos que andam. Eles brigam pelo lado da janela, mas não percebem que são, por meio dos corredores, que a vida passa, se transforma e se mostra. Enquanto os manés verdadeiros acham que a janela mostra a melhor paisagem, os manés injustiçados vão a frente perseguindo os corredores recheados de aprendizados e de avanços oferecidos pela vida.

Manés verdadeiros. Pobres tolos. Sempre buscam o lugar que cria uma visão limitada e tendenciosa sobre tudo. Mude de lugar e mude a perspectiva. Os manés injustiçados já sabem disto há tempos. Por isso, raramente são vistos próximos à janelinha. Vão sempre ao lado dos corredores e, acima de tudo, nos corredores.

Oscar Wilde, um fundamental poeta e escritor do século XIX, disse: “Ser natural é a mais difícil das poses.” Os poetas sempre enxergam o que ainda não nos é evidente. Os manés verdadeiros buscam degraus altos e vivem interrompendo a verdadeira caminhada. São ávidos por atalhos, a ferramenta dos desavisados e dos que possuem essência duvidosa. Enxergam no supérfluo, o principal. São peritos na pose, mas não naquela que Oscar Wilde trouxe, mas na dispensável. Uma pose natural, como disse o poeta, é do grupo dos manés injustiçados, algo que os verdadeiros desconhecem. Pobres manés.

Enquanto os manés verdadeiros vão apegados ao supérfluo, o que importa e o essencial seguem como um rio a frente deles. Um rio que passa manso e denso, mas que passa. Os corredores não os interessam.

Na maior parte das vezes, o supérfluo é ardiloso o suficiente para nos fazer nos esquecer do imprescindível. É uma pena. Pobres manés que somos todos nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um trecho de um conto de Machado de Assis, O Medalhão, que diz:

- “Papai”, disse o filho.

- “Não te ponhas com denguices, vou dizer-te coisas importantes”, disse o pai. “Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino” ...

“É de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade”, disse o pai.

“Creia que lhe agradeço. Mas que ofício, não me dirá”? – disse o filho.

“Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício”.

Machado de Assis, um autor imprescindível e atemporal. Ele nos traz um possível e provável caminho (porque há vários) para merecermos o apelido de Mané: nos tornarmos um medalhão, um mané verdadeiro. Aquele que faz jus a toda a ineficiência e ineficácia que produz, seja pela fala, pela conduta, pela insensatez e pelo lugar que ocupa na vida. Um lugar que, de tão frequentado, se funde a ele próprio.

domingo, 17 de março de 2019

O choro envergonhado

Até para chorarmos, é preciso arrumar um espaço na agenda, e com tempo limitado. Caso não haja dia na agenda, o choro ficará para amanhã. Talvez.

Nossas dores medicadas. Nossas dúvidas domesticadas. Nossos sofrimentos estão íntimos dos especialistas. Menos nós. Os passos que damos percorrem trilhas conhecidas porque perdemos as ferramentas que nos davam acesso às novas trilhas.

Um executivo, no LinkedIn, escreve:

“Só me permito chorar até 24 horas. Depois disto, arregaço as mangas e vou à luta.”

De onde vem a ideia de acharmos que podemos controlar o tempo que choramos? Por que até 24 horas? Seremos punidos se chorarmos 25 horas? Quem determina o tempo do nosso sofrer? Há um tempo determinado para o cessar do sofrer?

Perguntas sem respostas. Ainda bem. Porque as respostas que estamos dando à vida não têm sido das melhores.

Temos sido afetados por este relacionamento doentio que travamos conosco. A tirania da felicidade. A ausência de problemas. A publicação de sorrisos constantes como se eles fossem permanentes e reais em nossas vidas. A dor como intrusa num mundo que nos faz acreditar que aquele que finge é. Um mundo no qual o choro caiu de moda e a imposição do empoderamento se tornou uma falácia verdadeira. Aquele que mente, mas que sustenta uma rede de falsos vencedores, ganha espaço.

Um mundo no qual a lentidão mostra a falha e a rapidez esconde a falha. Por isso, o tempo do choro não tem espaço. É preciso rapidez para chegar aonde não sabemos. Uma rapidez para atingirmos lugares que nos obrigarão a voltar e a refazer a estrada que, de tantos buracos e imperfeições, se tornou nossa velha desconhecida.

Choramos mesmo sem lágrimas escorrendo no nosso rosto. Gritamos sem falar. Sofremos sorrindo. Temos medo, mas fazemos de conta que ser humano caiu de moda. Camuflamos o nosso choro porque alguém um dia disse que não podemos chorar. E pior: que o choro é para os fracos. Será?

A nossa grande fraqueza é nos fazer fortes. A fraqueza é uma das características do ser humano. É o que nos humaniza e nos identifica. Quanto mais força mostramos sobre temas e assuntos cuja dor é iminente, mais fraqueza mostramos.

Isto não significa fazermos apologia à tristeza, uma ode ao choro. Mas apenas uma reflexão do motivo de insistirmos na indelicadeza de escondermos algo tão escancarado que vai em nós: a dor. E o choro é apenas a representação dela.

Nossos bastidores nos revelam e ajudam a esconder as lágrimas escondidas em cada uma das nossas curvas e esquinas. Uma foto publicada no Instagram não, necessariamente, denuncia a verdade. No entanto, evidencia algo muito mais importante para o nosso espetáculo: a aparência. Enquanto fingimos que sabemos, o outro finge e não pergunta.

A cada descoberta que fazemos na vida, os nossos desdobramentos se mostram. E aí, quando menos esperamos, as lágrimas caem e nos desmascaram. Geralmente são silenciosas porque, por si só, dizem muito. Os silêncios que elas revelam devem ser escritos e são cheios de significados. Como o silêncio das nossas lágrimas se comunicam conosco?

A força de alguém não é medida pela ausência de dor. Mas sim, pela capacidade de demonstrá-la e de, acima de tudo, vivê-la. Nossa força é medida pela nossa condição de sustentar o nosso choro e de ouvi-lo, obrigatoriamente. Ele nos diz muito, mas o sufocamos com nossos sorrisos que nem amarelos ficam mais.

Arregaçar as mangas, como disse aquele executivo, não é sinônimo de força. O contrário: é uma evidência de ostentação de um bem que ainda não se tem, e de uma arrogância por se entender como uma pessoa que acha que tem o controle absoluto do que sente, do que vai nas próprias gavetas e recreios que o sustenta.

Não somos uma fortaleza: somos uma fragilidade buscando uma força. O que é bem diferente.

Camuflamos o choro para não o ouvir e assim o desprezamos. Afinal, o que de tão importante ele tem a nos dizer? Consideramos perda de tempo vivê-lo. Pobres arrogantes. Apenas vivendo-o seremos capazes de apreciarmos, verdadeiramente, o sorriso. Apenas o trazendo como relevante em nossas vidas e dedicando tempo a ele (mesmo que sejam mais de 24 horas) é que a vida começará a fazer sentido.

Como determinar um tempo para o choro? Como determinar um tempo para o sofrer? Por que a resistência em descer em nós e conhecer o que vai ali? É preciso descer se quisermos subir. É preciso chorar para conhecer o riso. Não precisaríamos, se fôssemos um pouquinho menos pretensiosos. Mas como não somos, é preciso uma passadinha nos contrários para compreendermos. Se não, ficaremos na superfície, no raso, no exterior, lugares que de longe nos mostrarão quem somos.

O abrir de portas ao autoconhecimento é fundamental se quisermos nos tornar pessoas melhores em todos os sentidos. E o choro é um exemplo de abrir de portas.

Aceitar o convite do autoconhecimento é um divisor de águas em nossas vidas. Quando decidimos nos conhecer, além de ser um caminho sem volta, louros e dificuldades nos aguardarão logo ali, atrás da porta. Descobrimos coisas maravilhosas a nosso respeito, mas as descobertas indigestas também darão a honra da presença. E nesta hora, o que fazer com isto? Ouvir o nosso choro será um caminho possível.

A abundância precisa ser um valor. E o sofrer é uma forma de abundância que vai em nós. Nela há muito de nós, de quem somos e, principalmente, de quem achamos que somos. Se não valorizarmos a abundância que vai em nós, tenderemos ao desperdício. E o que é o desperdício que não uma rede lotada de amigos virtuais que não nos conhece? Ou um limitar do sofrer porque temos vergonha dele? Um choro interrompido porque ele perdeu o espaço na nossa agenda. Um desperdício de tempo e de não ouvir o que ele tem a nos dizer.

Um desperdício que é refletido pela nossa insuficiência moral. Não há desperdício na natureza. Em nós, há. Quem desperdiça é porque tem o que desperdiçar.

Desperdiçamos o tempo para ouvir o nosso choro porque precisamos mostrar um falso sorriso para aqueles que pouco ou nada se interessam por nós.

O choro é bem-vindo e natural: um choro de alegria, de tristeza, de raiva, de saudade daqueles que foram e que nos são tão caros. Devemos nos orgulhar do nosso choro porque nele há a nossa assinatura e a história de quem somos. E ele é quem dirá o tempo de existência. Por fazer parte da nossa natureza, certamente ele irá embora quando chegar a hora. O contrário de nós, na natureza, não há desperdícios.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com dois pensamentos que nos convidam a avançar. O primeiro, um pensamento irônico de Carlos Drummond de Andrade, que diz:

“Um dia desses eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.”

Uma ironia para os tempos contemporâneos. Chorar caiu em desuso. Tristeza é para os fracos. Nossa agenda e tempo devem, apenas, servir o que produz e dá resultados. Ouvir o que o choro e a tristeza têm a nos dizer não nos interessa. Delegamos para um especialista que, afoito pela próxima consulta, medicará a nossa dor. O choro perdeu espaço na nossa sociedade do fast. Estamos correndo tanto, mentindo tanto, fugindo tanto, ansiando tanto que logo ali nos encontraremos, todos na mesma antessala, correndo para uma aula de mindfulness em busca de esvaziamento da mente que ajudamos a entulhar, principalmente, pelas ausências em nós.

E o segundo pensamento de William Shakespeare, que diz:

“Chorar é diminuir a profundidade da dor.”

Não é à toa que Shakespeare é um dos autores mais lidos, estudados e encenados do mundo. Quem diz isto abre espaço para o choro na própria vida. Uma atitude dos sábios e daqueles que já compreenderam que o choro, o contrário do que pensam os tolos, é, de verdade, uma poderosa ferramenta para diminuir a nossa dor.

A medida que o choro vai sendo acolhido e ouvido, nossas dores diminuem porque vamos clareando o nosso estado de impermanência e de inconstância diante à vida. Permitir que o choro identifique as nossas fragilidades, durante o tempo que for necessário, isto sim, é sinal de força, muito além de um arregaçar fútil de mangas de camisas amarrotadas.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Vai lá que eu fico aqui

“Vai lá que eu fico aqui”, disse um senhor, na fila do mercado, para a senhora que o acompanhava. “Se aqui andar mais depressa você vem pra cá, entendeu?”, disse ele para ela. E ela concordou. Ele numa fila; ela em outra. Simples assim. Não um simples que engrandece; mas um simples que empobrece e que constrange.

Não aprendemos aquilo que nos é ensinado; aprendemos aquilo que nos é possível ser processado. Portanto, educação é resultado do que tivemos acesso versus do que conseguimos compreender, absorver e processar. Talvez, em algum momento da vida, nos tenha sido ensinado que ocupar vários lugares, ao mesmo tempo, é tirar o lugar de um alguém. No entanto, talvez a nossa capacidade de compreensão deste ensinamento e, consequentemente, de atuação e processamento não tenha se desenvolvido o suficiente.

Somos seres em construção, inacabados e inconclusos. E toda obra inacabada e em construção ainda suja bastante as calçadas, espalha terra e cimento, emporcalha os calçados dos que passam, e mostra, sem o mínimo pudor e preocupação, a rede elétrica ainda sendo feita com os fios e conduítes expostos.

Quando recuamos alguns passos em nós, em nossa trajetória, temos acesso ao que foi feito, e desta forma, refazermos o caminho. E de lá de trás, nos revisitarmos e, quem sabe, descobrirmos que, sem querer, ocupamos alguns lugares a mais.

Qual é o lugar que nos cabe? Por que avançamos para lugares cujos espaços não podemos ocupar? De onde vem a crença de que podemos? Impossível encontrar estas respostas sem diálogos constantes conosco. E não havendo diálogos, nos tornamos insuficientes para nós. Uma insuficiência como antônimo de bastante, aquilo que deveria nos nutrir e nos fazer nos orgulhar da nossa construção, daquilo que vai em nós.

Não somos o bastante para nós porque carregamos as marcas da incompletude e da diminuição que insistimos que se tornem a nossa segunda pele, a marca da máscara que há tempos vai em nosso rosto, como disse Fernando Pessoa. Quando o bastante tiver espaço em nós, não sentiremos a necessidade de insistirmos nas nossas impermanências. Cederemos espaço para o esvaziamento da necessidade da vantagem e andaremos de forma mais mansa, pela vida.

Exigimos que a vida faça o que queremos. E se ela não faz, damos o nosso jeito. Independentemente da fila que escolhermos estar na vida, sempre haverá riscos de ela caminhar mais lentamente que a do vizinho. Mudarmos de fila é possível desde que haja espaço no outro lugar e a não interferência, de nossa parte, na dinâmica dos que vão a nossa frente ou, até mesmo, ao nosso lado.

O peso das nossas exigências para com a vida nos desequilibra.

Ocupamos espaços na vida sem, sequer, termos sido convidados. Chegamos, nos ajeitamos, pegamos algo para comer, ligamos a tevê e nos espalhamos. Este nosso olhar espaçado para o espaço que não temos e que, provavelmente, não teremos, nos cega frente ao lugar que realmente temos, o lugar que nos cabe. Lugares que não são nossos, mas que invadimos. Lugares que achamos que podemos ocupar porque os nossos atrasos autorizam, diariamente, esta nossa cegueira num mundo que assiste a tudo, porém nada vê, nada enxerga.

Reconhecer o espaço que nos cabe implica, antes, termos passado em nós mesmos. Somente quando nos visitamos com frequência e nos encontramos com a gente é que a vida vai tendo oportunidade de nos dizer o nosso tamanho, os espaços aos quais temos direito, e, principalmente, os espaços que podemos ocupar. Mas sempre estamos com tanta pressa que a vida, por pena de nós, não interrompe a nossa vulnerabilidade. Ela sabe que os nossos anzóis vão cheios de presas que, mais cedo ou mais tarde, precisarão ser soltas de volta ao mar. E este será um trabalho individual. Nosso. Por isso, ela não tem pressa.

Não é porque ocupamos e estamos num espaço que ele nos pertence ou que temos direito a ele. Espaço, aqui, não significa, apenas, um local físico ocupado por nós, seja ele merecido ou não. Significa, também, palavras que dizemos, gestos e posturas. Portanto, somos um espaço exposto no mundo com tudo o que nos movimenta. Somos um reflexo no mundo: um reflexo que reflete nossas obras inacabadas, nossas imperfeições e nossas inadequações. Refletir e agir sobre isso é essencial se quisermos nos alargar como humanos.

Somos frágeis em nossas singularidades. Somos sensíveis em nossas particularidades. Há tanto por se fazer. Por isso mesmo ainda não fazemos nem o básico.

As filas avançaram e a que a senhora estava caminhou mais rápido. O senhor, com a consciência mais leve que uma singela caneta que endossa e assina a nossa hipocrisia, levou o seu carrinho para a fila ao lado, e lá permaneceu ao lado da senhora. As pessoas que estavam atrás entortaram os narizes e testas, mas nada que resultasse numa ação, como bons ativistas de sofás, que somos.

Indignação sem ação é o reconhecimento da nossa conivência, mesmo que seja passiva. Todos reclamam. Todos se calam. E assim, seguimos nossa rotina amadora e avançamos para trás, para lugares cujos proprietários desconhecemos.

Atitudes sem ética e sem caráter, como esta, são revestidas de normalidade. A normalidade que damos a algumas coisas nos fornece atalhos para o aliviar de consciência. Atalhos sempre foram as ferramentas dos fracos e dos falsos espertos. Os fortes, ocupados pelas pernas, passos e relevâncias que possuem não perdem tempo com o ilusório, restrito e desestruturante.

Outro senhor chega, agora numa agência bancária, e retira duas senhas: a de prioridade para os idosos e a senha comum. Ao encontrar um conhecido na fila, diz: “é preciso ser esperto na vida. Não dá para perder tempo. Quem chamar primeiro eu vou.” Quem disse que o senhor do mercado não possui seguidores? Até mesmo fora do Insta, os seguidores avançam.

O que nos determina são as ausências dos nossos pés fincados no chão. O que nos determina são as nossas fugas frente às renúncias que precisamos abraçar.

Escolher uma fila e permanecer. Obter uma senha e aguardar ser chamado. Uma atitude simples, mas que, de tão desprezada, a simplicidade adoeceu. Mas por que a simplicidade segue tão desacreditada? Talvez porque ela seja desprovida de máscaras, de disfarces, de senão, de bastidores.

Tudo isso faz parte de uma consciência que caminha a passos de formiga e sem vontade, como diz a música do Lulu. Consciência é reconhecer a própria existência e buscar saídas honrosas e éticas para saber o que fazer com ela. Mas ainda não estamos neste capítulo da nossa história porque a fila que anda mais depressa ainda é prioridade para nós.

Conscientizar-se é ter uma certa dose de desobediência. É sair do trajeto pisado que somente nos levará até aonde os outros foram e chegaram. Se queremos avançar e criar a nossa autoria, é bom nos apressarmos. A vida costuma esperar, mas à maneira dela. É preciso clareza sobre isto.

Estamos em conflito permanente porque temos tantas informações, mas simplesmente não sabemos o que fazer com elas. Achamos que sabemos porque a quantidade nos conforta. Julgamo-nos espertos porque passamos na frente de alguém, no Banco? Achamos que ganhamos tempo, na vida, porque conseguimos, por esperteza, descobrir a fila mais rápida? Uma informação pode nos conduzir a algum lugar. Muitas informações nos conduzem à desinformação.

Ainda se vive, sem perceber, numa condição de alienação. E este estado de alienação nos tira a condição e a capacidade de ação e de existência. As saídas para as portas certas existem, mas não possuímos as chaves.

A vulnerabilidade está ganhando cada vez mais espaços em nossas vidas. As coisas vão ganhando complexidade. As vírgulas vão nos exigindo paradas, vão colocando respiros em nossa condição de humanos.

Nossas atitudes indicam nossos supostos desertos e um profundo cansaço provocado pela ausência de nós mesmos. Há muito não nos encontramos para um café, um papo rápido, que fosse. É preciso encontrar aquilo que frutificou de nosso cansaço e de nossas exclusões, e buscarmos saídas para isto.

É muito importante que a gente consiga mudar o patamar da nossa relevância. Caso contrário, continuaremos, ainda por muito tempo, a acreditar que somos bons e espertos porque passamos o outro para trás, porque achamos que ganhamos tempo, porque conseguimos descobrir a fila mais rápida.

Nossas inferioridades criando laços com nós, em nós, produzindo, assim, dificuldades para que a gente mesmo os desate. Ilusão acharmos que isto se delegaria para alguém.

Nossas obscuridades caminham nos nossos luxos, nos nossos ossos e nos nossos palácios de areia. Não aquela areia mais firme, aquela fofa, mesmo.

Temos memória curta, por isso nem nos lembramos mais daquela passadinha na frente, no mercado, inocente. Mas a vida tem memória longa, bem longa. Sabe cobrar os atrasados.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Gandhi, que diz:

“A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É tudo uma questão de consciência.”

Quando a consciência consciente for o nosso padrão de conduta, esta fala de Gandhi será natural para nós. E assim sendo, os nossos nós cairão em desuso e servirão para ilustrar uma parte importante do museu da cidade, sempre pronto a nos receber. Não para nos ameaçar, mas para nos lembrar do que fomos capazes. Um museu silencioso e manso que se alegrará por, finalmente, termos renunciado à mania que tínhamos de aderir ao sofrimento, como a busca de uma fila mais rápida, ou a esperteza da senha, no Banco.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O silêncio desprezado

Há uma semana do que aconteceu em Brumadinho, mais um caso que nos relembra a nossa pequenez, vejo, pela tevê, candidatos ao Senado e os famigerados apoiadores distribuindo santinhos nos corredores. Mudo de canal porque o meu estômago, às vezes, pede um refresco. A minha capacidade de digestão, e acho que a sua também, têm limites. Por isso, mudo de canal mesmo que isto me custe pagar o preço da alienação. Volto para o computador e ouço, pertinho de mim, o silêncio da rua que me permitiu perceber o som de um pássaro cantando na árvore do jardim, aqui do prédio. Um canto firme e persistente do pássaro que, sem o silêncio que se impunha, não seria percebido.

“Vocês, Ocidentais, são muito barulhentos. Precisam aprender a arte de silenciar”, disse, certa vez, um líder indiano. Infelizmente, abrimos mão de aprendizados valiosos como este. Mas a vida espera pela nossa boa vontade. Só não sei quanto a boa vontade dela.

Lembrei-me deste ensinamento ao ouvir aquele pássaro que tanto me ensinava naquele momento: um recolher de asas aqui, um canto lá, uma passada leve e devagar, um olhar para a natureza, um sacudir de penas logo ali. Fiquei me dando ao luxo de reparar aquele pássaro por alguns segundos, e era isso o que ele fazia: com calma e em silêncio, seguia seu rumo sem se impor para a vida. O contrário: via-se a própria vida se manifestando através dele. Um caminhar leve e silencioso que, de tão distante de nós, desaprendemos como fazê-lo. Mas o pássaro sabia. Aquele silêncio que eu ouvia e que me permitia ouvir o pássaro, me ensinava.

Fiquei refletindo sobre o silêncio e a utopia da presença dele em nossas vidas. É preciso silenciar para ouvir. Ouvir os pássaros e o que a vida, há tempos, insiste em nos dizer. Se em silêncio estivéssemos, talvez a barragem, em Brumadinho, não tivesse se rompido. Não sei. Era uma possibilidade. Mas o barulho construído por nós, por meio da nossa vaidade, ganância e egoísmo, impediu esta esperança. O silêncio desprezado.

Aqueles políticos famintos, distribuindo os santinhos, me enojaram, confesso, frente ao que aconteceu com Brumadinho, com as pessoas, com a Natureza, com os animais. Cito Brumadinho porque é o crime atual de uma lista que não se esgota, infelizmente. O crime atual desta semana vigente, e destas horas que falo. Porque sempre há um crime fresco, novinho em folha saindo de um forno que não desliga os seus botões da ineficiência, do retardo, do descaso com uma Nação que, de longe, é. Uma Nação pressupõe união. União?

Desnecessário discorrer sobre os detalhes deste crime. Os noticiários nos abasteceram o suficiente. Por isso, o estômago se enfurece. Apenas tomo a liberdade de propor uma reflexão sobre o silêncio. É preciso silenciar para saber o que vai em nós. Não um silêncio passivo, inaudível e ativista de sofá, mas um silêncio que revela o mal que vai em nós. Que revela a vergonha que deveríamos sentir ao naturalizarmos as coisas cruéis e inescrupulosas. Um silêncio constrangedor que nos expõe e nos rebaixa à condição do subsolo. Um silêncio de mãos firmes que nos exige, no mínimo, que a gente abra mão de vivermos apartados.

Somos engolidos pela confusão interna e externa e por apelos que nos dispersam, num mundo barulhento. É preciso interromper este automatismo e desativar os dispersadores dos nossos sentidos adoecidos e perdidos. Enquanto uns morrem sem o menor escrúpulo, enquanto animais lutam para conseguirem tirar suas patas da lama, outros distribuem santinhos pelos corredores bem aprumados. Lama lá, há muita. Mas estão submersas nos tapetes azuis do Senado como metáforas de uma construção inacabada, que é o que somos.

O mundo sempre foi um lugar conflituoso. A questão hoje é a exaustão. Falimos. Nossos conflitos não são explicitados. Passamos por cima deles porque somos muito barulhentos, ruidosos. Não nos ouvimos. Daqui a pouco nem falaremos mais sobre Brumadinho. Ou se falarmos, será como uma página triste de nossas histórias.

O tempo é silencioso e sábio. Há tempos que o tempo nos encaminha nossas contas. Mas estão todas nos esperando sobre o capacho de nossas portas.

O silêncio vem da sabedoria do tempo. O ruído e o barulho vêm da gente. O silêncio e o barulho são incompatíveis. É preciso fazer uma escolha.

Não estamos sendo capazes de viver conosco. Por isso o barulho ensurdecedor das buzinas que buzinam a todo o tempo. O barulho tornou-se um hábito para esconder os nossos vazios. “Fala demais por não ter nada a dizer”, diz Renato Russo. Falamos muito, dizemos muito. Enquanto isso, a ação morre e a lama cobre sonhos, vidas e pessoas.

O hiato em nós nos torna barulhentos. Assim não pensamos e não agimos. Seguimos os passos já pisados e trilhados. Isto explica porque as coisas se repetem, infelizmente. O que foi Brumadinho senão a repetição agravada, se é que é possível dizer isto, de Mariana?

No barulho, o silêncio perde espaço. Nada se constrói no barulho. Nossas amizades são fortalecidas não pelas falas constantes, mas pelos silêncios concedidos nos momentos críticos. O silêncio é a construção. O barulho é a destruição e a alienação. No barulho, não temos condições de enxergar o que se passa. Ele favorece o aflorar do nosso oportunismo e do nosso egoísmo. Este sufixo “ismo” que diz que optamos pelo adoecimento.

Quando o silêncio nos preenche, fazemos menos barulho. O que aconteceu com Brumadinho é a representação do barulho e da lama que vão em nós. Não a lama da terra, que abraçou Brumadinho, mas uma lama moral, presente em cada um de nós.

A Natureza chorou nesta semana, em Brumadinho. Um choro triste e ressentido. A Natureza não se vingou, como muitos disseram, mas apenas foi vítima da nossa indignidade. Se eu pudesse, retiraria nosso título de humanos. Acho que não o merecemos. A barbárie talvez fosse um melhor encaixe para nós.

Shakespeare dizia: “Não há arauto mais perfeito da alegria do que o silêncio”. Há muito o que fazer. Se ainda não silenciamos e não o valorizamos como instrumento de construção, a alegria é um degrau distante de nós. Somos, quase todos, rejeitadores do silêncio.

Mais importante que relembrar a importância do silêncio, será reaprendermos a silenciar.

Dizem que Beethoven, durante um ensaio da Filarmônica de Berlim, interrompeu os trabalhos para dizer, a uma violonista: “neste intervalo, não há nota a ser tocada. Isso é o sagrado desta sinfonia.” Se isto é verdade ou lenda, não sei. Mas que Beethoven era um gênio que já valorizava o silêncio e suas pausas, não há dúvidas. Por que a violonista quis preencher um espaço com outra nota? Por que o silêncio deveria soar incômodo, intimidador. Mas Beethoven trouxe que “o sagrado daquela sinfonia era aquele intervalo sem notas”. Ou seja, o silêncio. Este intervalo que a vida precisa para se manifestar. Brilhante. O convite está feito.

Os ruídos alimentam os nossos vazios. Impomos a nossa presença ao outro por meio de barulhos. As pausas fazem toda a diferença. São elas e os silêncios que nos permitem discutir as nossas fragmentações.

Viver o silêncio é resgatar a nossa dignidade perdida. Dignidade é a condição de nos carregar, com nossos temores, horrores e pequenezas. Mas há um descompasso nisto. Por isso, a todo o momento precisamos nos explicar. Sempre estamos devendo.

Explicar-se é um contato medonho que temos na vida. Ainda isto é preciso por estarmos nesta condição de imprecisos, inconclusos e devedores que somos.

Penso que se ficássemos quietos e evitássemos ruídos, nossos resultados seriam melhores. No momento em que escrevo esta frase, uma moto barulhenta passa na minha rua, impondo o seu barulho a mim. Ironia. Um barulho cafona e brega que me obriga a percebê-lo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação do próprio Beethoven, o gênio compositor alemão, que diz:

“Nunca quebre o silêncio se não for para o melhorar.”

Se fôssemos seguir o conselho de Beethoven, nosso tempo seria vivido mais em silêncio do que em palavras. Porque, de verdade, desconfio se queremos melhorar sem esforço. Somente os corajosos ouvem o silêncio e o encaram como aquele que os tirará da paralisia ética e moral.   Beethoven tinha toda a razão. A genialidade dele foi capaz de ser traduzida em maravilhosas obras porque ele valorizou o silêncio. Certamente porque não ficou em corredores nem distribuindo e nem, muito menos, recebendo santinhos, uma metáfora daquele que constrói ruídos por não ter a competência de ouvir e de perceber o silêncio, o único instrumento que possibilita retomar a nossa autonomia e a nossa obrigação como humanos.