sábado, 12 de outubro de 2019

Andar com fé

Hoje, para quem é católico, comemora-se o dia da Padroeira do Brasil: Nossa Senhora de Aparecida. Um dia de procissões, de missas, de encontros, de pagamentos de promessas, de romarias, de cantos. Um dia. Mas, e os outros dias? E nos outros dias?

Uma senhora, pela televisão, chora ao dar um depoimento sobre a cura recebida por intermédio de Nossa Senhora. Lindo e emocionante. Um depoimento de fé. Não de uma religião. Fiquei observando a matéria que a televisão transmitia e inúmeros eram os depoimentos, de diversas naturezas. Pessoas caminhando quilômetros a pé, longas distâncias, em direção ao interior de São Paulo, onde está o Santuário de Nossa Senhora.

Pessoas a caminho do Santuário ou não. Pessoas andando, ajoelhadas ou não. O ritual não importa. Não é sobre o andar, literal, que falavam aquelas pessoas, mas sobre fé, muito além de religião. Um andar moral, um caminhar dentro de si próprio.

Independentemente da religião de cada um de nós, se é que a temos, todos os cultos, rituais, abordagens, mensagens, práticas de todas as religiões devem ser respeitados. Frequentamos lugares e participamos de grupos cujos caminhos nos chamam. E é preciso respeito nisto. Somos de uma determinada religião porque assim nos sentimos bem. Encontramos, de certa forma, as respostas que buscamos para as nossas aflições. Um conforto. E isso não pode ser posto em discussão. Cada religião demonstra uma rota. Algumas delas se esbarram umas nas outras, outras se complementam, algumas se contradizem, outras se confrontam, incluem, excluem. E cabe a cada um de nós, caso assim faça sentido, nos integrarmos a elas, ou não.

Mas não é sobre religião que quero falar, porque falar sobre religião é como se eu inferisse sobre a crença do outro. E isto seria desrespeitoso. Mas sobre fé, que é algo bem diferente.

Religiões nos religam, nos conectam. Fé nos movimenta. Religiões são estáticas. Fé é dinâmica. Religiões possuem lindos e emocionantes rituais. Fé os traduz. Religiões nos pedem para ajoelharmos durante a fala do padre. Fé nos ensina que ajoelharmos será eterno exercício de humildade. Religiões dizem. Fé faz. Religiões leem textos sagrados. Fé nos convida a vivê-los. Religião é conforto e resposta. Fé é a mão estendida dizendo: “pode vir, estou com você”.

Religião é algo externo, cuja escolha, feita por nós, vai ao encontro do que buscamos, seja no culto, na missa, na vigília, ou em outra prática. Fé nos move para além do horário da missa e da palestra do orador, no culto. Fé nos move além do ajoelhar-se, porque assim o padre mandou. Fé nos conduz além do sinal da cruz metódico e automático, enquanto comentamos a roupa da pessoa sentada a nossa frente, durante a vigília. Leva-nos além da fila que pegamos para comungarmos, enquanto nos incomodamos com aquele senhor que furou a mesma fila. Religião sugere rituais para possíveis domesticações. Fé sugere reflexão sobre estes rituais e, se assim fizerem sentido para nós, os praticarmos. Belos e importantes rituais somente serão dignos se assim fizerem sentido para nós, se assim trouxerem valor para as nossas vidas. E isto exige reflexão, crescimento de nossa parte para que tenhamos tamanho para alcançarmos o real significado das coisas.

Presenciei, uma vez, uma pessoa fazendo o sinal da cruz com uma mão e com a outra olhava mensagens, no celular. O sinal da cruz, um lindo ritual, qual valor teve naquele momento? Esta é a reflexão. Se fazer o sinal da cruz é valoroso para nós, que a gente faça o sinal da cruz, mas verdadeiramente e ciente sobre o que aquele símbolo representa. Isto é fé. Em outro momento, sentada num banco de uma igreja, uma senhora chorava. Muito. Como não percebeu a minha presença, começou a conversar com Deus, em voz alta. E pude ouvir a oração: “Senhor, que eu veja por meio dos seus olhos, e não por meio dos meus.” Sem se ajoelhar, sem fazer o sinal da cruz, sem beijar todos os santos, a mulher se levantou e saiu. Aquilo é fé. Mas, se mesmo assim, ela tivesse feito todos os rituais, ainda assim seria um ato de fé. Uma pessoa que estava ali, sabia o que fazia e com quem falava.

Religião e Fé: é possível ter fé sem religião? É possível ter religião sem fé? Duas faces da mesma moeda. Enquanto a religião teoriza a beleza e o encantamento do ritual, a fé nos ajuda a praticá-lo. Se assim conseguimos, penso ser isso o que chamamos equilíbrio e paz. Cada um trilha a busca pela própria paz, e este é um dos possíveis caminhos, acredito.

As religiões falam sobre a fé, mas somente nós poderemos exercê-la. Falam sobre possíveis caminhos para aliviar a nossa dor, mas somente nós poderemos arregaçar as mangas para encontrá-los. Elas comentam a palavra, mas somente nós podemos compreendê-la. Falam sobre o exercício da cidadania e do amor ao próximo. Mas somente a nós cabe saber o que, de verdade, isto significa. Falar sobre caridade, dentro de paredes de pedras, é simplificar demais a vida. Uma simplicidade que envergonha. Exercê-la após o término da missa é o aceno que a vida nos faz. Sermos cidadãos enquanto lemos o folheto, durante a missa, é humilhante. A cidadania começa quando conseguimos, de verdade, compreender o real sentido da hóstia e da comunhão, que, a propósito, acabamos de realizar, na missa.

Fomos à missa. Nossa missão está cumprida. Somos religiosos. Seguimos a roupagem que nos mandam vestir. Mas e as perguntas que a Fé nos fez?  Fé nos oferece um incômodo permanente de nos incomodar.

Aquela senhora da reportagem trouxe uma linda reflexão. Antes de ser uma religiosa, era uma pessoa de fé, que independe de religião. Aquela mulher possui uma relação com a fé, com Nossa Senhora. Fé, do latim fides, significa fidelidade a um modelo, um trabalhar, acima de tudo. Aquela mulher construiu uma fé, e isto requer trabalho. Muito trabalho. Ser uma pessoa de fé significa ir além dos rituais, que passam a ter significado real para as próprias vidas destas pessoas. Pessoas de fé constroem caminhos, trabalham, acreditam, agem. Como na linda letra e música de Gilberto Gil...

Andar com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Andar com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá

Andar com fé, ou seja, para que haja fé, é preciso andar, caminhar. Não há milagres com braços parados por trabalhar. A fé precisa ser construída, não basta ajoelhar mecanicamente. É preciso ajoelhar verdadeiramente.

O sino soou. São dezesseis horas. A missa vai começar. Vamos? O que faremos depois? Que os rituais saiam do papel e ganhem vidas em nossas vidas. Eles nos pedem isto há tempos.

A letra da música de Gilberto Gil, Andar com Fé, composta em 1982, é atemporal e provocativa. A fé, realmente, não costuma faiá. Mas por que ele nos disse isso? Alguém está falhando, então? Sutilezas que somente a arte explica.

Quando criança, nas aulas de catecismo, fui reprovada em uma prova oral por não saber de cor, a oração da Salve-Rainha. O que faz alguém achar que uma criança de menos de 09 anos de idade devesse sabê-la? E de cor? Nem hoje, pessoa madura, sei esta oração de cor. Mas será preciso isto para se ter fé? “Volte para o seu lugar e estude direito”, foi o que eu ouvi. Voltei e estudei direito. Decorei a oração. Voltei a recitá-la. Agora completa. Fui aprovada. E no dia seguinte, já não me lembrava mais da oração. Tudo certo. O ritual foi seguido. Mas o que diz a Salve-Rainha, mesmo? O que esta oração significa? Hoje, adulta, sei. Sei porque fui buscar o sentido para aplicá-lo à minha vida. Não porque aprendi o sentido nas aulas de catecismo. A oração é linda, ainda bem que não guardei rancor da professora. Pobre coitada! Ainda se dizia cristã! Como somos inocentes no nosso mar de ignorância.

Ainda no catecismo, depois de decorar a Salve-Rainha, o padre entrou na nossa sala e nos disse que aprenderíamos a comungar. Mas antes, deveríamos nos confessar. “Confessar o quê?”, disse uma criança ao padre. (E depois dizem que as crianças de hoje é que são espertas). “Os seus pecados. Todos somos pecadores”, disse o padre. Pobre cristão aquele padre, também. Um homem comum, além do comum. Mas ele não sabia disto. Achava que podia falar em nome de um suposto Deus. Tão dentro de uma religião e, ao mesmo tempo, tão ausente do verdadeiro sentido.

Como aos nove anos de idade não se sabe muito a respeito de pecados, menti ao padre, na hora da minha confissão. Disse que havia brigado com a minha irmã. Menti apenas para cumprir uma ordem, um ritual. O padre, sem saber, me ensinou a dissimular, infelizmente. Ele acreditou em mim e me disse que nunca se briga com irmãos. Ao invés de me dizer o motivo de nunca se brigar com irmãos, desperdiçou a chance e me pediu para ir para o banco da igreja rezar 10 pais-nossos e 10 ave-marias. Foi o que eu fiz, de forma mecânica e culpada. Lembro-me de pensar: “o que significa Ave de Ave-Maria?”. Somente bem mais tarde fui saber que Ave significa “Salve”! Salve, aquele pobre padre. Quem precisaria se confessar, ali?

Sem ressentimentos. Fiz as pazes logo em seguida. Compreender certas coisas, na vida, e não criar embates traz imensos avanços. A religião e a igreja são representações das crenças do homem. É preciso, portanto, que a gente faça bom uso de toda esta beleza de conhecimento que nos é oferecida, sem ostentações, sem obrigações, sem vaidades, sem ditaduras.

Aprofundarmo-nos nas questões íntimas que vão em nós: se a religião, qualquer que seja ela, conseguir nos ajudar nisto, terá feito o principal papel que cabe a ela. Com ou sem rituais. A questão não é a religião, necessária, e nem os rituais, que são lindos e extremamente significativos, mas como os executamos, para quê e o porquê. De posse destas respostas, tudo volta ao equilíbrio. Nada há demais em se confessar, em comungar, em seguir rituais, desde que haja sentido e valor para quem os faz. Simples assim. Mais que simples rituais, é preciso que eles sejam, acima de tudo, propostas e respostas para a nossa vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Carlos Drummond de Andrade, que diz: “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

Isto é ter fé. Fé é ausência de motivos. Ela simplesmente é. Não importa se caminhamos tantos quilômetros a pé. Não importa, tanto, ver o caminho por meio dos nossos pés, mas sim os quilômetros caminhados por dentro de cada um de nós, mesmo sem os pés. Quando valorizarmos os quilômetros internos andados, sem atos mecânicos e externos, nossos pés reais, agora inchados, agora cansados e agora sujos das estradas passarão a fazer sentido e nos completar. E isto somente a fé poderá nos oferecer. Porque ela não costuma faiá. E não faia, mesmo!

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A maçaneta da porta

Quem dera a porta se abrisse ao tocarmos a campainha, ao soprarmos a sineta. Mas a porta tem seus caprichos. Outros compromissos. É preciso esperar. Aguardar. Silenciar. A porta permanece fechada não porque nos ignora, mas porque não nos olha.

Não nos olha. Ou não queremos ser vistos?

Não sermos vistos é uma forma de viver. Não sermos vistos nos isenta de possíveis convocações de prestações de conta. Mais fácil viver apenas admirando os trens que passam na estação. Mas também aqueles que apenas os admiram, não vivem. E como não vivem, longe estão de desfrutarem o balanço dos trens sobre os trilhos, o cheiro do mato passando ao lado, o tilintar dos bancos, o ouvir do som das vozes dos outros e a experiência de ser um dos motivos de andar daqueles trens. Alguém pode dizer, “prefiro ficar na estação”, mas este será sempre alguém defronte de si próprio a procura de um lugar para ser seu. Um ambulante sem estrada, que migra tentando transportar a si. Um possível itinerante, um “talvez existido ou aquele que sempre vai ser o que não nasceu para isso”, como disse o genial Fernando Pessoa.

A porta continua fechada. Mas agora observamos que há uma maçaneta lá. E se a virássemos discretamente e abríssemos a porta? Talvez a distração de quem está dentro impediu o ouvir da campainha quando a tocamos. Então, para disfarçar, tocamos a campainha mais uma vez somente por educação, caso alguém esteja nos observando, da vizinhança. Indelicado já ir se apossando da maçaneta. Como sempre somos aquele quem deve esperar, a porta, absoluta, se nega outra vez para nós, e nos afronta com o limite imposto. Disfarçadamente, viramos a maçaneta para abri-la forçosamente, porque assim queremos, porque assim fazemos. Queremos e fazemos. Mas e o querer e o fazer da porta?

Que pena dá da gente algumas vezes. A porta nos humilha e dança na nossa frente nos dizendo: “você ainda não é bem-vindo aqui”. Eu te ouvi, mas parece que você não ouviu o que eu dizia: “volte depois, talvez amanhã, quiçá depois de amanhã.”

Acostumar-se às ordens de uma porta é trabalhar arduamente a nossa vaidade. Viramos a maçaneta porque não admitimos não sermos ouvidos pela campainha e nem atendidos pela porta. Queremos entrar, e de preferência, passar rapidamente pela cozinha e avançar para os cômodos mais nobres. A resposta nítida da porta não nos convence. Precisamos forçar a entrada. Forçamos. E aí somos despejados. Um despejo sem traquejo. Estamos vestidos e prontos e vivos. E despejados. A autossuficiência que pensamos possuir sempre conversa com abismos que nos rondam. É preciso atenção no caminhar.

Tudo o que nos consola também nos viola. Fomos vistos. A porta nos viu. Mas não abriu.

Ela nos viu. Por que não fomos convidados a entrar? Ela nos ouviu. Onde já se viu tamanho desencontrar? “Você sabe com quem está falando?”, dizemos à porta. Ela nos diz: “sim, sei sim, mais alguma informação?”. Humilhados, recuamos. De vez em quando, é importante conhecer o lugar ao qual temos direito. Costumamos pedir sempre um extra, mas a vida não pode ser sempre tão generosa.

Do lado de fora, gentilmente colocados, somos convidados a encontrar caminhos do nosso presente que nos conduzam para dentro da casa. É preciso entrar. Mas é preciso, também, pararmos de emitir comandos e exigências do topo, aonde sempre nos colocamos. Quando descemos do topo, a nossa visão recupera verdades e conquistamos o nosso direito de nos levantar para abrirmos as janelas que fechamos, cuidadosamente, porque alguém disse que viria uma chuva forte.

Ainda do lado de fora, nos damos conta da importância de cultivarmos a modéstia, tão ultrapassada e fora de moda. Disfarçamos modéstia e prosseguimos. Mas os fatos mostram o nosso disfarce. Por isso, agora, do lado de fora da porta, percebemos. Do lado de fora, percebemos nossa ansiedade porque forçamos a maçaneta. E a ansiedade nos coloca em lugares que ainda não chegaram. Ela te faz querer horas que o dia não tem, te faz chamar de lentos o sol e a lua, que juntos, fazem um imenso trabalho de acolher a todos, que somos nós. Ansiosos, sempre estamos lá e nunca no aqui.

O aqui nos levará ao lá. Por que não percebemos? Ansiosos, consertamos coisas que não precisariam ser consertadas. E outras, empoeiram e alimentam traças. Ansiosos, tiramos conclusões incríveis que envergonhariam aqueles que já abandonaram o caminho da ignorância. Ansiosos, discordamos do tempo. Pobres que somos!

Quando batemos, é preciso esperar. A maçaneta continua ali, parada. Mas agora, somos estranhos a ela. Não queremos mais forçá-la. A solidão nos fez bem. Solitários que somos, mas não nulos. O texto é sempre menos que o contexto. Mas sem texto, não há contexto. Sem o contexto, o texto é só, manco, viajante e solto pelo mundo. Sem o texto, o contexto perde o sentido. Texto somos nós, pequenas peças que se encaixam no todo; contexto, uma porta chamada vida. A solidão e a humilhação nos fizeram bem. Fomos despejados para lotes distantes das estradas, mas experimentar isso foi o que nos fez chegar a estas respostas.

Sem experiências não há respostas. Sem texto não há contexto. Seria desonesto varrer tudo isto para debaixo do tapete.

Esticamos as nossas pernas e nos levantamos. Passou-se muito tempo. É preciso nos acostumar a fazer longos percursos. Um caminho verdadeiro e de valor requer tempo. E tempo foi tudo o que mais tivemos. Tocamos a campainha mais uma vez. O som agora saiu um pouco mais fraco, talvez porque tenhamos colocado menos força. O tempo também nos ensina que a força raramente será a melhor saída. A melhor saída sempre será possuir a ferramenta certa para cada luta necessária. Nada mais humilhante do que saber que algo precisa ser feito e não termos a ferramenta adequada. Por isso fomos despejados e postos, delicadamente, para fora. Quisemos acelerar a nossa escalada, mas fomos obrigados a recuar.

Fomos ouvidos. A porta se abriu. Por completo. Ficamos felizes. Receosos se podemos entrar ou não, ouvimos: “entre, você é bem-vindo aqui. Se quiser, pode tirar os seus sapatos para ficar mais à vontade.” Como estranhos que somos, como estrangeiros que somos, como disse Clarice Lispector, aceitamos o convite e entramos. Esquecemos a sala e o escritório. Queremos, primeiro, conhecer os banheiros e a cozinha. Parece que agora percebemos que muito se aprende nestes lugares. Pedimos licença para entrar e para avançar. Aprendemos. Ouvimos um som forte. Olhamos para trás e observamos que a porta se fechou, mas agora, conosco dentro. Conquistamos o direito de ficar e ainda ganhamos cópia das chaves.

Encerramos o expediente. Descalços. Vestidos. Acordados. Na cozinha. Somos bem-vindos aos outros cômodos, também. Mas para ter acesso ao escritório, antes é preciso estagiar na cozinha e no banheiro. Apreender o que de lá vier. Pedir licença. Aguardar. Esperar. O tempo somente valoriza aquilo que foi construído com a ajuda dele, disse um grande Mestre. E caminhar pela casa leva tempo, muito tempo. Há um lugar de partida e é daí que se deve começar, sob pena de sermos, novamente, despejados.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma passagem de um poema de Fernando Pessoa, poeta atemporal e necessário, que diz:

“...como um ruído de chocalhos, para além da curva da estrada, os meus pensamentos são contentes...”

Penso que nossos chocalhos chiam porque nos chamam. Querem o nosso avanço. Querem nos mostrar o que há além da curva da estrada. Mas para tal, é preciso respeitar a casa, os cômodos, o atender de porta. E, acima de tudo, respeitar o silêncio da porta em não se abrir para nós. Somente de posse deste respeito, seremos convidados a entrar, novamente.

Saídos que fomos, despejados fomos também. Recompusemo-nos. De posse da chave, agora estamos dentro de casa, novamente. Se um dia fomos saídos e despejados foi porque gastamos por conta sem levarmos em conta que não podíamos fazer num faz de conta.

À espera que estávamos de a porta se abrir, ela se abriu. Entramos. E começamos a nos reconhecer na nossa casa, novamente. E começamos a reconhecer a nossa casa, novamente.

Estranhos que somos. Estrangeiros que somos todos e que sempre seremos. Mas agora estrangeiros reconhecidos na própria casa. Na nossa casa.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A felicidade desbotada

Desbotar é perder a vivacidade, a vida. Óbvio dizer que algo vivo pode se perder e desbotar. Perder a vida. Morrer. No entanto, exatamente, por ser óbvia, essa sutileza passa como uma leve brisa por nós. Enquanto a brisa está passando, provavelmente estamos verificando a última mensagem urgente que nos chegou. Por isso, não percebemos a brisa. Não há como fazermos duas coisas ao mesmo tempo. Podemos até tentar, mas uma sempre será prejudicada em detrimento da outra. Ou até mesmo as duas serão prejudicadas se tentarmos dividir a nossa atenção. Ou percebemos a brisa ou verificamos a mensagem. Parece claro qual tem sido a nossa escolha.

Não me refiro ao desbotamento da cor de uma peça de roupa, tampouco à cor do nosso tênis. Este é um desbotar natural de algo usado e que teve a utilidade concluída. Não há como algo material permanecer. A característica da matéria é a impermanência. Portanto, usamos e respeitamos o tempo concluído da peça. O desgaste natural faz parte daquele que foi usado.

Refiro-me a um desbotamento moral que cresce, em nós, a cada dia. Digo que cresce porque penso que ele sempre existiu e sempre fez parte de quem somos. A única diferença é que agora possuímos mais ferramentas que nos ajudam a dar visibilidade a este desbotamento moral, que faz questão de tirar, à força, a cor daquilo que quer viver, que quer existir.

imagem tirada da internet

Um destes desbotamentos morais que nos visita (ou nos revisita?) é o marcar de hora para a felicidade. A nossa triste insistência em obrigá-la a bater ponto em nossas vidas.

Um desbotar natural: de uma roupa usada, de um sapato velho, de uma cortina desgastada. Um desbotar certo, equilibrado e que constitui o que é. Um desbotar natural que vem do uso, da vida que se fez e que se faz. Um desbotar indiscutível.

Um desbotar provocado: de uma felicidade que deveria ser compreendida, buscada e conquistada. Um desbotar triste, desequilibrado, desviado e que não constitui porque não vê. Um desbotar que somente existe porque desbotamos, tiramos o viço e a cor ao não observarmos as regras da etiqueta, para a lavagem. Triste desbotar: a cor havia. Era só nos aprofundar naquele colorar da vida, naquele avivar, naquela aquarela a nosso favor.

Algo que perde a vivacidade por obra da natureza não virá na nossa fatura. Algo vivo que perdeu a vida por obra nossa, porque resolvemos alterar as cores da aquarela, será posto, delicadamente, na nossa fatura. Um desbotar provocado porque insistimos em habitar Terras que não temos ajudado a construir. Mas a vida insiste em nos convidar para uma construção de Terras nas quais podemos habitar. Quando aceitarmos este convite, nossas cores serão vivas, nossas aquarelas respeitadas e o desbotar será apenas um reservatório morto.

Forçamos a felicidade a nos preencher. Forçamos a felicidade a ser a nossa narrativa de vida. Ocupamos cada vez mais os espaços externos, e impomos a nossa voz ao outro para forçá-lo a acreditar que somos felizes o tempo todo. E vice-versa. Estamos sempre bem e felizes. Os risos e os sorrisos se proliferam feito bactérias tristes a procura de estatus.

Perseguimos a felicidade como um bem de consumo. Uma commodity. A felicidade não pode ser perseguida, mas conquistada. Ela é um trajeto, e não uma chegada. Nem sabemos, ao certo, o conceito dela, que dirá tê-la. Uma presunção que sempre existiu, penso, mas que hoje se exacerba porque temos um poderoso ferramental que nos permite mentir, fingir, fazer de conta. Enquanto dizemos aos outros que somos felizes o tempo todo, os outros acreditam porque também acham que acreditamos que eles são felizes o tempo todo. Uma retroalimentação doente, cega, que reafirma a desconexão com os nossos ciclos, com as nossas verdades, com a gente.

É genuíno buscarmos a felicidade. É genuína a nossa vontade de desejarmos a felicidade. Obrigá-la a fazer parte de nossas vidas é doentio. Forçá-la a fazer parte de nossos saraus é alienante, e nos distancia do caminho que há tempos nos desviamos. Buscar a felicidade, acreditar nela e saber que temos momentos de felicidade é reavivar as cores da nossa linda palheta, e não permitir o triste desbotar de algo que não nasceu para desbotar. Insistir na felicidade como obrigatória e como lugar no qual não estamos é acreditar que somos felizes o tempo todo, é apagar a nossa cansada palheta, e permitir o desbotamento daquilo que nasceu para o aprimorar das cores.

A felicidade é uma conquista. Não está à venda. Pelo menos ela não tem preço.

Se somos o tempo todo felizes, como insistimos em dizer nos palcos da vida, aonde desaguaremos a nossa fúria, a nossa ansiedade, a nossa frustração, a nossa tristeza, nossas neuroses, incongruências e desvios? E, principalmente, a quem delegar as nossas irrelevâncias? Somos irrelevantes, em certa medida. Por isso, insistimos na falsa existência de uma suposta felicidade. Uma felicidade arredia. Cansada. Desbotada.

Por que a tristeza precisa ser disfarçada? Por que perdemos esta dimensão trágica da vida? Obviamente que a vida possui outras dimensões, mas imprescindível aceitar a tristeza como constituinte de quem somos.  Por que o trágico não pode conjugar mais no nosso espaço?

Somos todos felizes. Somos todos sorrisos e realizações. Somos todos plenos e resilientes. A felicidade é uma constante em nossas vidas. Somos felizes no trabalho. Nossos problemas têm solução. Somos capazes de tudo, basta querermos. Revelar um pequeno traço triste nos torna fracassados, impotentes. Dizer sem ânimo nos caracteriza seres fracos. Falar sobre os nossos problemas nos torna pessoas pessimistas a serem evitadas. A triste literatura de autoajuda é singular em dizer “que devemos nos afastar dos pessimistas” e que “basta um pensamento positivo para sermos quem almejamos ser”. Pensamento positivo? Que escola de mágica é essa que ensina o desserviço de acreditar que na vida são somente flores e mares calmos?

Aonde nos perdemos?

Não se trata de uma ode à infelicidade, à amargura e à desesperança. Pelo contrário: um acolher do que dói em nós, do que evoca ecos no nosso coração, do que camufla nossas vozes, do que força sorrisos quando, na verdade, queremos chorar. Por que o choro perdeu tanto espaço num mundo que se medica tanto? Por que tantas farmácias nascem em esquinas mortas enquanto livrarias fecham? Não seria este um diagnóstico choroso do que é? Sem julgamentos. Apenas um diagnóstico do que se vê antes e depois da janela.

Temos excessos de demandas que criam padrões inatingíveis. Queremos chegar a lugares que, sequer, há rotas. A presunção nossa. A vaidade, uma companheira lúcida.

Desbotamos, por isso embotamos. Embotamos, por isso desbotamos.

A felicidade é algo que não se avalia. Não se compra. Não se mede. Não se insiste. Não se pede. Não se apropria. Mas parece que temos feito o contrário: de tão perseguida, ela tem sido reflexo do menosprezo e do que tem ficado para segundo plano, em nossas vidas. O culto a ela, a competição estimulada por meio de marketing, conduz, muitas vezes, à ampliação deste desbotamento. Nosso embotamento moral tem respingado cores apagadas na nossa felicidade que poderia ser mais. Cultuamos falsos deuses. Competimos com o outro e não conosco. Buscamos somente estradas percorridas. Criamos morros. Insistimos em colocar o outro no final das fileiras enquanto furamos filas. Como não desbotarmos? Como não perdermos nossas cores vivas? Como não cansarmos a vida?

Penso que uma possível saída, se é que queremos uma saída, seja o reaprendizado da nossa convivência com o pesado de nós, a nossa dimensão do trágico, do triste, do inatingível, do inacessível, do escuro, como já disse. Como atingir a felicidade se não quero ouvir o que os tristes, em mim, dizem? Como atingir plenitude sem convidar meus fantasmas para um chá honesto e cordial? Como sorrir sem me interessar pelo motivo dos meus sorrisos forçados? Como sentir a leveza da felicidade sem conhecer o que tem contribuído para o nosso naufrágio?

Estamos imóveis frente a nossa desestruturação. A gente apostou fichas altas e muitas fichas em fantasmas e em vazias esquinas. Agora os fantasmas vivem. As esquinas criam vida. E agora, José? Drummond não está mais aqui para nos ajudar.

Enfim, aquilo que favorece a nossa domesticação não contribui. É preciso fazermos as pazes com as nossas dimensões trágicas. Conquistaremos realidades com mais fontes livres e fortes que ampliarão o nosso repertório de vida, livre de desbotamentos. A dimensão trágica da nossa existência nos reorienta. É importante receber nãos. Eles nos reorientam e nos fazem enxergar a placa de retorno que, há tempos, não percebemos mais.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Dostoiévski, filósofo russo do século XIX, que diz: “é preciso encher as nossas medidas”.

Penso que nossas medidas serão preenchidas se não nos ausentarmos de nós. Temos estado muito ausentes de nós buscando conhecer realidades que não são nossas. É preciso aprender sobre nós, sem imposições, sem customizações, sem compras fáceis de felicidade no mercadinho perto de casa. Impormos limites ao amadorismo e à vaidade sobre uma felicidade estática, pronta, atingível. Felicidade é construção. Obra inacabada. Assim como nós.

A gente tem estado muito ocupado fazendo concessões desnecessárias, atendendo a tudo e a todos. Estamos muito disponíveis, sempre online. Por isso, desbotamos. Vamos dormir um pouco. Desligar um pouco. Rever nossas palhetas. As cores pedem o nosso olhar.  Para isso, será preciso mapear se ainda há terrenos livres e virgens, em nós, e irmos para estes lugares.

Não há fórmulas, não há certezas, não há conclusões. Apenas caminhos. E são muitos.

domingo, 18 de agosto de 2019

Os degraus ausentes da minha escada

A língua portuguesa é rica. Sabemos disto. Pena é que esta riqueza seja subestimada pela pobreza da nossa percepção e do nosso olhar. Uma riqueza sutil. Uma riqueza esquecida. Uma riqueza não utilizada porque não fomos ensinados a nos apropriar dela. Uma língua rica que nos convida a pensar. E por meio deste pensar, sair do lugar aonde comodamente se está.

Mas como sairmos deste lugar se nossa percepção adoeceu e se o nosso olhar anoiteceu? Não há como partirmos sem malas. Não há como partirmos sem o mínimo para a nossa sobrevivência. Digna, não sei. Mas sobrevivência. E sem um olhar amanhecido e uma percepção principiada, como ir? Melhor, pois, não embarcar e tentar trocar o bilhete. Sempre é tempo de revermos o que nos falta.

O artigo os, que antecede o substantivo degraus, no título deste texto, é uma destas riquezas da nossa língua. Ele identifica que o texto falará sobre algo definido, e não sobre qualquer coisa. No exemplo que trouxe, a definição está no “os”. Não me refiro, portanto, a quaisquer degraus: mas sim, aos meus. Além desta sutileza do artigo definido, que é a identificação clara sobre o falar de algo determinado, ele também é utilizado para designar algo já conhecido. Não basta, então, ele dizer claramente que fala sobre algo determinado (os meus degraus, e não os degraus do vizinho), mas também, que meus degraus são conhecidos. Óbvio. Será?

Quando avançamos no conhecimento da Língua, percebemos que dizer que ela é sutil e rica se torna pequeno. A Língua reafirma que não estamos prontos. Há muito o que dizer a nós. Somos famintos deste dizer porque o desconhecemos. Ele está aí, posto, mas como enxergá-lo se ainda somos noite e insalubres?

Não só a sutileza do que o artigo definido veio dizer, há o pronome minha, também no título deste texto, o que reforça, mesmo de forma redundante, que os degraus são meus porque faltam na minha escada. Mais uma vez a evidência da relação comigo, da posse e daquilo que me pertence.

Artigos e pronomes: tão presentes e tão ausentes. Presentes na nossa escrita e na nossa fala. Ausentes porque nossas paredes vão alta demais. Presentes porque escrevê-los é do âmbito da técnica, fácil de aprendê-la e de reproduzi-la. Ausentes porque percebê-los é do âmbito da emoção, difícil de compreendê-la e de ouvi-la.

Somos a soma destas nossas reticências. Somos construtores de um processo que desconhecemos porque não nos preocupamos com o resultado da nossa existência. Não nos preparamos para observar estes artigos, estes pronomes e, principalmente, o que eles dizem. Não nos preparamos. E porque não nos preparamos, não conseguimos enxergar opções e alternativas. Estamos vivendo vidas precárias porque nossas carências não estão tendo saídas, opções e alternativas. Talvez a saída seja a busca por uma vida mais simples, cujas carências nossas, que sempre existirão, enxergarão as saídas.

Vidas precárias utilizam artigos e pronomes sem percebê-los. Vidas simples não se conformam com o incômodo da incompreensão.

acervo pessoal

A cena acima é real. Na saída da peça “O Monge e o Executivo”, texto cuja simplicidade da fala incomoda e nos ironiza, um copo sujo no chão, o próprio ingresso e restos de comida, denunciando que por ali passou alguém ou alguéns desprovido (s) de saídas para a(s) própria(s) carência(s). Uma pena. Uma pessoa cujos degraus faltantes na própria escada gritam sem serem ouvidos. Uma pessoa que, ao fazer uso da própria escada, percebe (talvez?) o degrau faltante, mas pula o espaço em branco, o buraco presente e exatamente por ser tão presente não é percebido. Uma pena, novamente.

Somos escadas incompletas. Temos degraus ausentes. O que nos diferencia, no entanto, é que enquanto uns já se deram conta da necessidade de amanhecerem o próprio olhar e recuperarem a saúde da percepção, outros ainda buscam atalhos toscos para pularem os degraus faltantes, freneticamente apagam as luzes que parcamente surgem e adoecem ainda mais a própria percepção, que de tão doente, perdeu a conexão e o sentido.

Escadas quebradas porque faltam degraus nela. Nossa realidade construída por mãos alheias, mas com a presença ilustre das nossas digitais. Nossas eternas companheiras que fazem parte das narrativas, excessos, ausências, retrocessos, cansaços, improvisos sem sentido, simulações, superficialidades, composições, incompreensões, crueza, exclusões. Tantos nomes entre vírgulas! Como nos cansam lê-los. Mas por que não nos cansam praticá-los? Esta é uma pergunta que há tempos nos foi respondida pela noitinha na qual vivem os nossos olhares e pela leve indisposição na qual vive a nossa percepção.

Escadas quebradas e incompletas: uma representação de onde estamos. Degraus faltantes e frágeis: um resultado do que não fizemos. Mas ainda podemos ser. Ainda podemos fazer. Sem moralismos. Apenas um olhar novo para aquilo que não precisa mais ser guardado e nem construído por causa da nossa rigidez e por causa dos nossos pequenos olhares e universos.

Um olhar novo que começa a ser construído quando nos debruçamos e nos interessamos pelo contemporâneo que vai em nós. Quando nos interessamos por falar sobre as nossas experiências de fracasso e de fragilidade ao invés de buscarmos soluções rápidas para consertarmos os nossos degraus faltantes. Não há atalhos. Não há soluções mágicas. Não há receitas. Não há receita de caminho. O que há é uma luta individual para enxergar o que falta em mim, os degraus faltantes da minha escada. Por isso, os artigos e os pronomes são fundamentais. Tão relegados à margem, tão essenciais à vida. Mais que itens de uma gramática que um estudante desavisado a chamaria de chata: um antigo convite de revisitação da nossa bagagem, da minha, mas que também é da sua.

Os artigos em nós. Os pronomes em nós. Uma Língua rica, viva e que nos oferece os próprios braços para nos ajudar a compreender as nossas lacunas e os nossos vazios. Sem uma reflexão sobre eles, como compreender o que eles nos dizem? É difícil. Mas é preciso resgatar o gosto pelo esforço. Sem isso, os atalhos toscos e podres continuarão em evidência.

Pisamos falso. Pulamos buracos. Entortamos os nossos pés. Encolhemos as pernas. Saltamos. Mas raramente paramos para construir os degraus faltantes na nossa escada. Poucos são os que se debruçam sobre os buracos da própria trajetória e reconstroem os degraus perdidos ou quebrados nos lares vazios.

É preciso recuperarmos o sentido do útil e abrirmos mão do brilho inútil. Talvez neste dia os carpetes poderão ser vistos, novamente, limpos naquele teatro, na nossa casa, na minha e na sua. Um carpete fofo, cheiroso, limpo e que, antes de tudo, nos convida a pisá-lo, porque assim é da natureza dele. Não um pisar de desrespeito, mas um pisar de convite para estar nele. Simples assim. Talvez neste dia os degraus da nossa escada, da minha e da sua, estejam mais sólidos, com menos buracos, com menos espaços, com menos vazios. Não sei. Mas é uma possível chance.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma incômoda fala, presente na peça Macbeth, de Shakespeare, que diz:

“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum."

A nossa vida depende da gente para ser vivida e contada. Que não sejamos estes idiotas aos quais se referia Shakespeare. Acho que não era da gente que ela falava. Mas, na dúvida do sim ou do não, que nossas escadas fiquem prontas ou, no mínimo, tenham os projetos de restauração e de construção iniciados. Somente de posse, de verdade, das responsabilidades que nos pertencem, e respondendo por elas, não caberemos nesta fala de Shakespeare. Nossos sons serão cantos e nossas fúrias, abrandadas, terão se transformado em respostas, agora com sentido.

Neste dia, nossos carpetes poderão novamente serem vistos e pisados. Os meus e os seus. Olharemos para trás, e não enxergaremos mais os copos, os restos de comida e o triste ingresso, no chão. Neste dia, nossas escadas serão palcos de novas batalhas, mas outras, e não mais as mesmas. Teremos degraus mais firmes, sólidos e nossas escadas não terão mais espaçamentos tão visíveis com degraus faltantes que denunciavam a nossa ausência em nós.

Os copos, os restos de comida e o triste ingresso, no chão, infelizmente, ainda existirão, mas acredito que terão partido para outros lugares aonde existam pessoas cujas escadas possuam degraus faltantes. Olharemos para trás, mais uma vez, e reconheceremos aquele familiar lugar que um dia foi nosso. Um olhar de compaixão e de melancolia, mas não de saudade. Um olhar para um espaço cujas vidas que lá vivem, um dia, também foi o nosso lugar.

domingo, 28 de julho de 2019

Estou fazendo a minha parte

Fernanda Montenegro diz algo muito curioso: “você não enxerga os alfinetes quando você não os está procurando. A partir do momento que você decide ver alfinetes, começa a prestar atenção em alfinetes ou a procurá-los, muitos deles surgem.”

Na verdade, os alfinetes sempre estiveram lá. Nós é que não os víamos. Quando começamos a dedicar a nossa atenção a determinadas coisas, me parece que elas começam a ser vistas. Uma conclusão óbvia, até sem sentido. No entanto, um óbvio que não foi percebido por nós porque, certamente, estávamos em outro lugar quando os alfinetes cruzaram o nosso caminho. Se eu perguntar a você quantos clipes você encontrou hoje, saberia a resposta? Mas eles estavam lá, no trajeto no qual você caminhou. Apenas não foram vistos por você. Portanto, as coisas passam a ser vistas e percebidas por nós a partir do momento que iniciamos a procura por estas mesmas coisas. Uma procura para compreendê-las, entendê-las ou, até mesmo, para discordar delas.

O essencial é saber interagir e dialogar com o que encontramos no nosso caminho.

“Estou fazendo a minha parte” é uma colocação que tenho ouvido bastante. E aí me lembrei da reflexão da Fernanda Montenegro: será que tenho ouvido muito esta frase porque as pessoas estão, de fato, falando mais isso, ou será que eu não a ouvia quando ela era dita? Será que estas falas começaram a ser ditas agora ou simplesmente eu não prestava atenção ao serem ditas? Difícil responder a esta pergunta. Mas é preciso refletir sobre.

Se agora os alfinetes são vistos por mim, preciso será entender e compreender porque eles possuem eco dentro de mim. Por que eu os busco. Tanto os busco que os encontrei. Talvez se eles não fizessem um cenário, em mim, eu não os teria visto, não os teria buscado.

Se agora localizo os clipes no meu caminho é porque algo eles têm a me dizer que tanto posso gostar ou não. Mas a interação é inevitável. Se assim não fosse, por que passei a percebê-los se eles estavam lá, no mesmo lugar onde sempre estiveram? Enquanto estavam quietos e mansos não me incomodavam. Não me exigiam contato. Agora os percebo e este perceber exige uma fala minha com eles, e vice-versa.

Pensando sobre esta frase que tenho ouvido bastante exatamente porque tenho refletido sobre ela, o primeiro incômodo que me ocorre é quanto à incongruência dessa colocação: como dizer que estamos fazendo a nossa parte se nem ao menos sabemos qual é a nossa parte? E se, hipoteticamente, soubéssemos qual é a nossa parte, como saber se ela está sendo feita? Uma incongruência e incoerência sem precedentes. E o segundo incômodo é quanto à nossa insistência em nos reafirmar como à parte de tudo o que nos acontece. Fazemos. Os outros é que não fazem. Por isso, estamos com problemas de todas as ordens.

Estou fazendo a minha parte.

Esta frase, que tanto tenho ouvido exatamente porque há muito tenho pensado sobre ela, me fez refletir. E o mais importante de uma reflexão é a lentidão de que ela necessita para agir.

Uma reflexão precisa ser lenta, morosa e com uma dinâmica bem distinta da nossa, cuja rapidez, velocidade e ausência do pensar a identificam. Na lentidão, uma das características da reflexão, as falhas aparecem e somos obrigados a parar e a mergulhar se quisermos saber. A reflexão é fundamental se quisermos compreender porque os alfinetes e clipes surgem no nosso caminho e compreender porque, hoje, passei a enxergá-los. Sem esta reflexão, dificilmente subiremos os nossos degraus.

Refletir é o caminho para sermos artesãos de nós mesmos. Uma construção manual, porém, sólida.

Na rapidez, uma das características da nossa insensatez, as falhas são escondidas. Passam despercebidas. Nossas aparências, aqui, são muito mais importantes e tomam o espaço que, antes, mostrava os erros e as falhas. Como eles pouco nos interessam, foram obrigados a cederem os seus espaços para outros visitantes.

Ter pressa é o caminho mais rápido para a irrelevância. Apressar uma construção é começar a destruí-la. Ser rápido sem critério e sem sentido nos fará, talvez, realizar o nosso sonho. Mas de tão rápida que foi esta construção, não será possível mais reconhecer o nosso sonho após realizado. Triste será realizar um sonho sem poder reconhecê-lo, parafraseando Dostoyevski. Na rapidez, um caminho apressado que nos privará do que poderíamos ter sido.

Nossos bastidores nos revelam, mas também ajudam a esconder. Reflexão e rapidez: dois caminhos. Duas possibilidades. Duas hipóteses. Para trilhá-los, somente fazendo escolhas. Somente nos responsabilizando pelos alfinetes que escolhemos ver e também pelos clipes que escolhemos não ver, não dedicar atenção.

A cada descoberta que fazemos na vida, os nossos desdobramentos vão se mostrando.  Descobrimos os silêncios que vão escritos e cheios de significados, em nós. Nossas gavetas e nossos recreios nos sustentam. Nossas gavetas entulhadas de reflexões. Nossos recreios repletos de pressa.

O abrir de portas ao autoconhecimento é fundamental se quisermos nos tornar pessoas melhores em todos os sentidos. Aceitar este convite para este caminho sem volta, onde louros e dificuldades nos aguardarão logo ali, atrás da porta, com risos e indigestões.

Estou fazendo a minha parte.

A abundância precisa ser um valor. Uma abundância do pensar, do agir e do refletir. Caso contrário, a tendência será o desperdício que é refletido pela nossa insuficiência moral.

Estou fazendo a minha parte reflete enorme ênfase no curto prazo que nos lembra sermos uma sequência de rupturas e de contradições, o que dificulta a construção clara de qual é o nosso projeto. Qual é o nosso todo? Não sabemos. Não sabemos porque não nos olhamos mais. Somos segmentados na nossa construção. Fomos educados para um olhar pontual e não global. E isto nos impede de enxergarmos o que vai no nosso caminho mesmo que seja para desconstruí-lo.

Estou fazendo a minha parte reflete uma dor que vai em nós. Uma dor não ouvida, não sentida em sua plenitude. E é preciso tempo de ter tempo para as nossas dores. Caso contrário, sempre estaremos encostando a nossa escada na parede errada e achando, com isso, que estamos fazendo a nossa parte. Se respirarmos a nossa própria presença e aquilo que vai dentro da gente, nossas propostas abertas encontrarão as respostas.

O mundo pede outros papéis. Os vigentes já deram a sua contribuição. Eles, sim, já fizeram a parte deles. É preciso pensar na falta de existência que estamos exercendo na vida. Existir não é passar pela vida. É vivê-la. Uma conversa franca com a gente e com a vida. Precisamos aprender a ficar o máximo no agora que é aonde o tempo tem sua existência em horas. A nossa conversa deve ser aqui para que a gente aprenda a acessar os nossos silêncios e, a partir disso, provocar as nossas atitudes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Confúcio, Filósofo Chinês que viveu 500 a.c., que diz:

“Não procuro saber as respostas, mas compreender as perguntas”.

Quanta sabedoria dita há tanto tempo e com valor vigente e atemporal. Quando buscamos respostas, nos cerceamos. Quando compreendemos as perguntas que a vida nos faz, ampliamos a nossa percepção sobre nós e sobre tudo o que nos cerca. E por isso, passamos a perceber mais os alfinetes, os clipes, frases como estou fazendo a minha parte e outros adereços relevantes presentes em nossos caminhos e estradas, como um convite da vida para, de posse deste repertório, sermos os autores das nossas perguntas, e não mais o público.

Neste dia, teremos atingido, finalmente, o patamar da alta-costura em nós mesmos.

domingo, 21 de julho de 2019

Os desertos em nós

Quando pensamos sobre o filme Dumbo, de Walt Disney, logo nos chega à mente a classificação de “infantil”. É comum associarmos estes tipos de filmes a esse gênero devido à fantasia e ao lúdico que eles apresentam. No entanto, se dedicarmos tempo para assisti-los, quase sempre, chegaremos à conclusão de que o tal gênero “infantil” ou “fantasia” logo se acomodará no final da fila. Nos primeiros lugares, o gênero que a vida nos impõe, e de como ela, por meio dos problemas, alegrias, angústias e realizações, se apresenta para nós e nos pede e cobra passos. De preferência, para frente.

“Não julgue o livro pela capa”, alguém disse certa vez. E foi o que não fiz. Acreditei que Dumbo fosse um filme leve, de caráter lúdico, infantil. Mas me enganei. O filme me trouxe muitas reflexões de caráter filosófico, ético e moral. No entanto, o lúdico, a leveza e o infantil que eu esperava não se apresentaram. Surpreendi-me e foi uma excelente experiência.

Todos os filmes e obras, no geral, trazem reflexões. Mas quando estes materiais são catalogados como “infantil”, geralmente, vamos com o nosso espírito desarmado e sem defensivas. Sentamo-nos comodamente nas cadeiras do cinema ou do teatro e achamos que vamos nos divertir, somente. E justamente por estarmos livres de filtros e indefesos, as mensagens nos atingem com facilidade. A simplicidade dos diálogos entre os personagens, a singeleza das palavras, a naturalidade e a espontaneidade da ação das crianças, no transcorrer do filme, dão a impressão de que hoje não é dia de falar sobre coisas sérias e atemporais. Só uma armadilha do autor para sairmos do rigor dos nossos pensamentos e retomarmos a integridade que, há tempos, perdemos durante as nossas trajetórias.

imagem tirada da internet

Quando nos desligamos, mesmo que seja pelo instante de um filme, do rigor dos nossos pensamentos e compreendemos que o coletivo nos constrói, voltamos a viver e a valorizar este mesmo coletivo, este entorno, este problema que, em tese, não é meu, mas que é do outro. Portanto, meu também. Voltando a viver, contribuímos para o todo.

A nossa experiência de viver precisa ser aprimorada. Para tanto, é preciso nos debruçar sobre as argumentações que nos são apresentadas e propostas. Sem isso, nos tornamos obsoletos na nossa condição de existir. E Dumbo nos ajuda a lembrar isso. Nossas narrativas de vida envelhecem, mas não podem se tornar obsoletas.

Os desertos em nós.

Envelhecer é um processo natural daqueles que vivem e obedecem a natureza. Daqueles que avançam com o tempo e não contra ele. O envelhecimento de nossas narrativas é natural e apenas significa que estamos, a todo o tempo, recriando e reafirmando as nossas relevâncias.

Obsoleto é um processo de busca pela insignificância e irrelevância. Tornar obsoletas as nossas narrativas é desistir sem, ao menos, ter tentado. É contrariar a dinâmica da vida e começar a nos ausentar de nós. É dar brilho ao que é pequeno, em nós. Valorizar o desvantajoso e o primitivo. É quando, no meio do nosso caminho, nos descobrimos burocráticos. Por quê?

Penso que uma possível resposta a este porquê esteja na fala da personagem Milly Farrier, interpretada pela atriz Nico Parker, filha de um dos integrantes do circo aonde Dumbo havia nascido. Ela e o irmão, ao notarem que Dumbo podia levantar voo exatamente por causa das orelhas grandes que tinha, chamam o pai para mostrarem o que haviam descoberto. No entanto, o pai simplesmente não dá atenção ao que os filhos estavam falando, e sai apressadamente para fazer algo que, certamente, poderia esperar. Nesse momento, a personagem de Nico Parker (a menina), diz:

“aquele que não tem interesse não merece saber.” Ela e o irmão saem do lugar aonde estavam e sem se abaterem, seguem a aventura. Os dois possuíam informações preciosas a respeito do que acontecia ali, com Dumbo, que certamente impactaria a todos. Mas apenas as duas crianças, pelo menos, naquele momento, estavam interessadas.  Mas e o pai? O pai não quis saber, assim como os demais personagens do filme.

Fiquei refletindo sobre a palavra que a menina trouxe: interesse. E de tudo o que a vida não nos revela simplesmente porque não nos interessamos.

Nossas obscuridades caminham nos nossos luxos e palácios repletos de adereços que refletem os nossos bastidores. Nossas obscuridades acesas por lâmpadas ora sujas, ora de baixa potência, ora queimadas, ora emprestadas, ora submersas. Mas ainda há tempo de instalarmos outras lâmpadas mais eficientes e até mais econômicas. As lojas costumam abrir aos sábados, também, para aqueles que não possuem tempo de trocá-las durante a semana.

A cadeira do cinema ficou um pouco incômoda para todos nós após ouvirmos aquela frase dita por uma menina. Talvez seja preciso resgatar a pureza das crianças, parafraseando Gonzaguinha, como um recurso para se viver. Mas como o nosso interesse nem sempre está no que nos diz a vida, ela se cala. Ou ela fala com quem a ouve. Tudo é uma questão de afinarmos a nossa comunicação com quem fala conosco. No caso: a própria vida.

Buscando o significado da palavra interesse, entre tantas informações, encontrei: relevância atribuída a algo. Importância. Palavra originada do Latim. Inter (estar entre) + esse (ser, estar). Portanto, se interessar por algo é estar no que se fala, no que se faz. É ser parte deste algo que se fala ou que se deseja saber.

Interessar-se é se importar, é trazer para perto de si a realidade do outro e buscar acolhê-lo para poder ajudá-lo. E vice-versa. De posse deste conceito, fica mais fácil compreendermos os motivos pelos quais, muitas vezes, a vida não nos traz as respostas que buscamos e que procuramos. Não estamos com o interesse que ela julga ser genuíno. Não estamos nos importando, de verdade. Para quê sabermos, então? Não merecemos, simples assim. E por que não merecemos? Porque não nos interessamos o suficiente.

“Aquele que não tem interesse não merece saber.” Muitas foram as reflexões, mas este texto tem a pretensão de ficar somente com esta.

Não há desperdícios por parte da vida. É preciso que saibamos disto. Se não há interesse, também não há informação, não há saber. É preciso justificar o nosso merecimento em receber o saber. E para merecê-lo é preciso interessar-se. Parece uma ideia simplista, mas é importante diferenciarmos simplista de simples. Simplista é algo patético, sem a mínima importância, algo ridicularizado e não valorizado. Simples é o lugar habitado por aqueles que já entenderam que não estão aqui a passeio e que, por isso, há muito trabalho a ser feito. O simples de tão simples que é, complicamos e inviabilizamos o acesso a nós próprios.

É preciso revisitar os nossos interesses para que a vida se aproxime da gente com o saber que importa. Somente assim evitaremos o risco de nos tornarmos irrelevantes cujo significado é não ter papel, não ter função, não ter uso. É preciso parar de darmos vozes aos outros que nem ao menos sabem que existimos, para iniciarmos nossas próprias vozes. Recuperar o nosso apropriar de nós mesmos para que a gente saia da ficção para a realidade. Vivemos, muitas vezes, numa ficção muito bem elaborada pelas nossas lentes desajustadas.

Quando a vida nos diz que não merecemos saber porque não nos interessamos é o mesmo que vivermos exclusões diárias. É preciso pensar sobre isso e não permitir que nossos frutos sejam filhos do cansaço, mas sim do franco olhar acerca de quem somos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma ironia de Fernando Sabino, um dos mais importantes cronistas brasileiros, que diz:

“Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.”

Que a gente não ceda à tentação de voltar à infância para reaprendermos o significado e a relevância da palavra interesse. Que possamos dedicar nossos espaços para o interesse legítimo e, sejamos, assim, merecedores do saber.

De posse deste saber, avançaremos do espaço da nossa terra desconhecida e incógnita para a descoberta da nossa preservação, um desejo e uma resposta que sempre esteve em nós. No entanto, por falta de interesse, caminhamos durante tempos em círculos e nos perdemos nas rotas imaginárias.

Que a gente não dependa do Dumbo e dos amigos dele para nos relembrar de coisas que já aprendemos, mas que, por um descuido desinteressado de nossa parte, nos esquecemos.

domingo, 23 de junho de 2019

A vaidade nossa de cada um

O artigo definido “a”, no título, significa que não desejo falar sobre uma vaidade genérica, aquela inerente ao humano e que, mesmo que haja um esforço forte de nossa parte, não nos livraremos dela por ser parte de nós. Esta vaidade é conhecidíssima de todos nós. Para quê apresentações? Nascemos com ela. Morreremos com ela. Uns com graus maiores que outros. A realidade é que ela será (e tem sido) a nossa mestra em muitos passos do solo que construímos. Desejo, no entanto, falar sobre a vaidade construída por nós, aquela que nos esforçamos, diariamente, para aprimorá-la. Não sobre a vaidade institucionalizada, mas sobre a minha e a sua, particularmente. A nossa. A vaidade que tem, portanto, endereço certo: nós.

Somos todos parecidos na vaidade. Ela nos reconhece. Ela é minha e de cada um de nós.

A vaidade institucionalizada, aquela que todos sabem que todos têm, não nos afeta tanto. É algo tão abstrato em nós que nem nos damos ao trabalho de compreendê-la. Faz parte do humano e aceitamos isso. É como se uma tinta de normalidade colorisse a vaidade para que ela passasse por nós como velha conhecida, que realmente é. No entanto, a vaidade construída por nós é aquela sabida e percebida. Os outros podem até demorar um pouco para perceberem os efeitos desta vaidade. A gente, não. A percepção é imediata. Sabemos o que estamos fazendo. Sabemos tanto que até disfarçamos a nossa vaidade de humildade ou de modéstia. “Imagina”, dizemos, quando recebemos algum elogio ou consideração sobre algo. No fundo, lá no fundo, bem no fundo, inchamos. E o nosso inchaço diminui o tamanho que poderíamos ter, se houvesse espaços, em nós, para crescimentos reais.

Crescimentos reais nos tornam e nos formam. Inchaços criam edemas e nos deformam. Mário Quintana, o grande poeta, dizia que a modéstia é a vaidade escondida atrás da porta. Sábio. O difícil é querermos arrastar as nossas portas e identificarmos o que há por detrás delas.

O que restaria de nós e em nós, por exemplo, se não fôssemos vaidosos? Difícil dizer.

Sentimos uma vaidade imensa quando aquele que não nos conhece diz que somos humildes. O contraditório em nós. Se realmente fôssemos, não nos envaideceríamos. Apenas nos envaidecemos porque ainda somos incompletos, inconclusos, rasos e queremos, forçosamente, que o olhar do outro nos perceba e nos coloque sobre patamares cujo espaço ainda não merecemos e não nos esforçamos para tal. A vaidade construída, além da natural que temos, é aquela que força uma posição de destaque, mas que procura disfarçar para não dar tanto na vista. É aquela que nos alimenta. É aquela que estabelece uma relação de cumplicidade conosco porque também a alimentamos por meio das nossas incongruências diárias e arrogâncias inofensivas. Que são muitas!

A vaidade construída por nós nos completa, nos preenche e nos traz falas que nos tiram de situações constrangedoras como o silêncio que nos foi imposto pela vida, por exemplo. A vida, tão invasiva como ela sabe ser, nos impõe silêncios ao longo da nossa existência. Cobra-nos respostas, atitudes e construções que há tempos atrasamos a entrega. Nem mesmo os tijolos compramos. É quando a vaidade nos acessa e nos salva por meio de respostas prontas e discursos comprados. Ela ajuda a criar movimentos que confundem a própria vida dando a impressão de que estamos agindo. Mas não estamos. Estamos, apenas, sendo vaidosos e esperando a vida se esquecer da gente e nos deixar em paz com as nossas obras inacabadas, solos inférteis e uma completa ausência de compreensão acerca de nós mesmos.

Do latim vanus, a vaidade significa “vazio, ocioso”. Ou seja, além de sermos vazios e ociosos por natureza, uma vez que a vaidade institucionalizada nos pertence, intensificamos este vazio e esta ociosidade por meio das nossas ausências em nós, por meio das nossas futilidades que nos dizem, a todo o momento, como somos imprescindíveis. Ainda não compreendemos o espaço que nos pertence porque invadimos o do outro. Isto é vaidade. Ainda temos problemas de relacionamento porque o outro está sempre errado, enquanto eu estou sempre certa. Isto é vaidade. Ainda somente nós falamos e o outro somente escuta. Isto é vaidade. Ainda temos sérios problemas com limites porque invadimos o do outro. Isto é vaidade. Ainda entramos em campo sem objetivos porque somos, somente, um número. Isto é vaidade. Ainda falamos apenas para ocuparmos espaços que não nos pertencem, e, consequentemente, retiramos o espaço do outro. Isto é vaidade.

Temos muitas demandas necessárias que precisariam ser reestruturadas. Acredito que isto reorganizaria as nossas verdadeiras bases. Contudo, temos tantas demandas desnecessárias, mas atuantes, que não sobram espaços, em nossas agendas, para este diálogo tão antigo.

A vaidade construída por nós é um solo cuja plantação tem dado os frutos certos como a violência, a competição, a falta de senso. Os frutos que crescem fortes porque foram larga e abundantemente adubados de longas trajetórias coletivas. Há, entretanto, solos à deriva, a espera de mãos que os lavrem com tempo justo, paciência para a construção, rigor e completo desprezo às fórmulas prontas cujas receitas mandamos manipular, baratinho, na farmácia ao lado. Aliás, o que não nos faltam são farmácias. Muitas. Sua presença em excesso nos traz um certo diagnóstico do que nos falta. Medicalizamos a dor para não a sentirmos. Isso também é vaidade. Somos distantes do que poderíamos ser. A teoria distante da prática.

Somos tão conscientes da nossa vaidade que, como dizia Nietzsche, “a vaidade alheia só nos é antipática quando vai de encontro a nossa”. Temos um acordo coletivo: enquanto eu estiver no palco me servindo da minha vaidade, você não sobe. E vice-versa.

Todos fazemos parte da mesma problemática. E a vaidade reforça esta nossa condição. Ela nos afunda e nos torna perdidos em nós mesmos. Não fomos educados para olharmos para estas nossas pequenezas. Nossas miudezas foram escondidas e camufladas. Quando crescemos, percebemos que elas estavam escondidas. Mas estava tudo tão arrumadinho nos porões que não quisemos entrar lá. Somos alérgicos e, afinal, há tantos outros trabalhos mais importantes a serem feitos.

Fomos educados para o destaque, para a briga, para a competição e para buscarmos o nosso lugar ao sol. Vivemos em guerra porque aprendemos, logo cedo, a relevância da luta. Não uma luta genuína da gente com a gente, para nos vencermos. Aprendemos a lutar contra o outro porque ele ocupa lugar demais no mundo. O avançar dele me interrompe e me ameaça. Por isso, aprendemos técnicas e ferramentas para interceptá-lo. A estas técnicas e ferramentas chamamos de protagonismo, proatividade, garra, ironicamente. Tenho dó das palavras que, sem justos advogados, são usadas ao bel prazer dos desavisados e oportunistas.

Protagonismo é ter responsabilidade. Bem distante do que divulgamos como sinônimo de vencer na vida, muitas vezes às custas de interceptar o outro. Proatividade significa pegar para si o que é preciso ser feito. Bem distante, também, do que fazemos atropelando o outro e chegando na frente. Chegamos realmente primeiro ou foi porque o derrubamos lá, atrás? Garra é vencer a si, simples assim. Bem diferente de sinônimo de guerra.

Estudamos tantas fórmulas matemáticas e químicas, tivemos de entender o meridiano de Greenwich, a Trigonometria e memorizar a data na qual chegou, aqui, a família Real, mas nunca estudamos, pelo menos falo por mim, porque somos vaidosos por excelência e, pior, porque conseguimos, pela mesma excelência que nos cerca, ampliarmos a nossa vaidade para a construída, aquela que, conscientemente, fazemos. Ou não? Tivemos de aprender seno e cosseno, tabela periódica e memorizar a fórmula da água (que, de longe, é H2O), mas não nos ensinaram a instalar espelhos internos para enxergarmos, com antecedência, o que a vida nos cobraria. A vida não nos perguntará quem foi Colombo ou quem foi o primeiro presidente do Brasil, apesar de sabermos que o conhecimento e a informação são relevantes, mas há coisas que deveriam ocupar as primeiras cadeiras. Mas ela nos enviará contas a serem pagas sobre os resultados da nossa vaidade, por exemplo. E como não foi matéria que cairia na prova, não estudamos. E agora? Como no poema de Drummond,

“E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou...”

Só que a vida não imita a poesia de Drummond, e, portanto, vamos precisar arregaçar as nossas mangas e irmos ao encontro de nós mesmos. Já não é sem tempo. Quando nos reencontrarmos, nossas vaidades institucionalizada e construída estarão lá, quietinhas, apenas aguardando serem esquecidas. A decisão será nossa. “E agora, José?”

É preciso estarmos inscritos na vida para existirmos. É preciso buscarmos, portanto, as nossas respostas para o nosso “E agora, José?”

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Balzac, escritor francês do século XVIII, que diz:

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.”

Com respeito a Balzac, acredito impossível deixarmos a vaidade apenas para os outros, uma vez que ela é inerente a nós. Além de sermos humanamente egoístas para não ficarmos com pelo menos um pouquinho da vaidade para nós. No entanto, se aceitarmos o convite dele para, no mínimo, iniciarmos o trabalho, a vaidade começará a apagar as luzes, reduzirá o tom árduo do discurso e ocupará lugares de menos relevância, em nós.

E, finalmente, marcharemos, como disse, Drummond, na sua poesia José. Um José que sou eu, mas que também é você. E o outro também. Ou seja, todos nós.