quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Campos doentes

Logo pela manhã, ao abrir a janela, a imagem abaixo me deu bom dia. Uma imagem comum, conhecida, banal. Afinal, o que há de especial num carro estacionado, na rua?


Quando não enxergamos mais aquilo que era para ser visto, significa que as dores, que são alimentadas pela nossa alienação, tomaram conta do espaço doado por nós. Espaços doados sem esforços; lugares doados porque não sabíamos (e ainda não sabemos) o que fazer com eles. Dores intensas que nos têm levado à cegueira, ao costumeiro, à aceitação do que não poderíamos e não deveríamos aceitar.

O que há de errado com este carro estacionado? Um limite ultrapassado. Simples assim. E, exatamente, por ser simples, ignoramos. Ignoramos o limite imposto pelo marcador amarelo, no chão, e ignoramos tudo aquilo que há por trás de algo simples porque subestimamos. Se há um limite para mim, é porque há o outro lado do espaço que te pertence. Se há um sinal para eu respeitar, é porque, ao parar, você poderá passar. Se há um marcador, há uma marca, um limite para ser respeitado porque outros chegarão e o lugar deles precisa ser validado.

Obviamente, não me refiro àquele limite que precisa ser quebrado como sinônimo de superação. Como vitória de reconhecimento de nossas forças. Refiro-me àquele limite que, se não respeitado, prejudica, traz custos e retrocessos. Dificulta o avanço, mas facilita a insanidade e a alienação.

São tantos os exemplos de cegueira sobre os limites que infringimos em relação aos outros, que ocupamos o lugar deles sem a menor cerimônia. E vice-versa. Uma cegueira aceita, institucionalizada, não percebida, não sentida. E esta é uma das mais perigosas. Exatamente por não a percebermos, ela vai se espalhando e se apossando do nosso pensar e do nosso olhar. Somos cegos que enxergam. Não nos faz falta o interpretar, o pensar, o refletir. Quem perde tempo interpretando, pensando e refletindo acerca de si, e do que faz, corre um importante risco de elevar-se. Mas não sentimos falta de elevação e nem de nada que nos traga trabalho e massa de construção. Por isso, aquela faixa amarela, pintada ali, no chão, é apenas um rabisco que, por não ser visto, não precisará ser refeito. Uma decoração feita por alguém que não sabe o próprio papel. Um passar de tempo.

Um passar de tempo para aquele que pinta o chão, que põe marca, que impõe limites. Mas faz isto para o vento, para o nada. Ninguém, ou quase ninguém, percebe. Passamos o tempo errando. E este mesmo tempo passa nos cobrando acertos. Uma equação que nunca fecha. Enquanto erramos, vamos nos fingindo mortos, caídos no caminho, apressados. Nosso nível de compreensão acerca destas coisas está bem aquém do que verdadeiramente é.

“Avancei só um pouquinho, dá para sair”, disse alguém.  Engraçado como sempre nos utilizamos dos diminutivos quando queremos ser simpáticos, solícitos e aceitos. Mas, no fundo, o que buscamos é uma indulgência para as nossas faltas, uma camuflagem, um diálogo morno, medíocre, sem pressa e sem demandas. Um diminutivo que obriga o outro a reduzir o tom porque você tentou ser “amigável”, não quis briga. Um diminutivo usado para se impor ao outro e assim, forçar desculpas compradas.

Somos errantes do caminho. Criticamos aqueles que vão a nossa frente, bem à frente, buscando nos corrigir e nos oferecer exemplos. Pessoas que respeitam o limite do outro, que não caminham por espaços não convidados, que usam os próprios sapatos e que limpam a própria lama, geralmente, são os chatos, os metódicos, os que chamamos inflexíveis. Somos uma sociedade que confunde conceitos.

O educado é um chato, um rígido nos costumes. O mal educado é assertivo.
O que respeita as regras é inflexível e retrógrado. E o que desrespeita é uma pessoa “disruptiva e que vai além”.
Aquele que não tem compromisso algum com a construção do próprio caminho se tornou aquele que “tem pressa de crescer”.
O impaciente com o tempo se tornou uma pessoa que apresenta um importante requisito de caráter: a “inquietação”.
O paciente, aquele que sabe o poder e a relevância da experiência e do tempo, é visto como alguém que não tem ambição, um acomodado.

Adoramos fazer apontamentos no caderno dos outros, mas vão vazios os nossos. Não sabemos nem os nossos limites, como respeitar o alheio, o que vai fora de nós? Como saber se excedemos o limite se nem ao menos o enxergamos? Somos frágeis tentando nos manter estendidos e equilibrados em meio aos nossos discursos pobres, sem convivência, contraditórios. Possuímos discursos sem diálogos, de poucas falas porque são somente as nossas que constam lá.

Muitas respostas que buscamos podem ser encontradas no significado das próprias palavras. Limite, a palavra que escolhi para refletir, hoje, tem sua raiz latina em “limes”, cujo significado é caminho entre dois campos, fronteira.

Caminho entre dois campos. Chega a ser poético se não fosse a nossa insistência em desmentir o Poeta. Um poeta que canta, que tenta nos tirar do ambiente das ideias e das falsas concessões. Caminho entre dois campos: o que nos leva ao próximo e o que aproxima o próximo de nós. Somos uma coisa só, um caminho entre dois campos, e não dois caminhos. Um caminho que começa em nós e continua no outro. Mas ainda temos muita dificuldade de entendermos isso exatamente por, ironicamente, ultrapassarmos os limites, seja aqui, aí, ali ou logo lá, além.

Limitar é, numa análise mais simples, então, um caminho construído entre estes dois campos: entre o meu e o seu. Se eu avanço para o seu caminho, como você caminhará? Se você invade o meu campo, como se dará este trajeto sobre o qual tenho compromissos?

Limites respeitados: diálogos construídos. Limites ultrapassados e desrespeitados: monólogos perpetuados. Limites respeitados: convites ao adiantamento sendo feitos. Limites ultrapassados e desrespeitados: definhamento do que deveria ter sido e não foi.

Ocupar-nos. Talvez seja isso o que nos falte. Precisamos nos ocupar da gente, nos escrever e saber o que vai em nossas linhas e entrelinhas. Habitar-nos, como disse o escritor. Um cuidar da gente não para nos envaidecermos, para sermos melhores, mais éticos, íntegros. Isto deve ser libertador. A Filósofa Viviane Mosé diz que “quem não se cuida despenca sobre o outro”. Em outras palavras, ultrapassa os limites. Precisamos de limites. Eles são necessários porque nos dão a dimensão do outro. Sem limites voltamos à selvageria, à barbárie. Precisamos voltar para nós porque desconfio que nos afastamos. Um pouco. Somos desconhecidos para nós mesmos. Somos doentes que desperdiçam a cura porque não a enxergam. Desrespeito ao limite do outro, ao reconhecimento do campo do outro é um sintoma da nossa sociedade. Uma sociedade que sofre, mas que não dá conta e nem ouvidos ao que diz o sofrimento. Por isso, adoecemos.

Como respeitar o limite do outro? Como reconhecer este caminho entre dois campos? Arrogância minha dizer que sei a resposta. Mas talvez um possível caminho seja trabalharmos na desconstrução deste erro de não permitirmos que o outro caminhe. E como fazer isso? Que tal começarmos por não ultrapassarmos a faixa amarela, nas guias das ruas?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento lindo de Louis Pasteur, bacteriologista imprescindível e atemporal, que diz:

“Quando vejo uma criança, ela inspira-me dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode vir a ser.”

Crianças não somos mais. Mas ainda podemos corresponder às expectativas de Pasteur e conquistarmos o respeito dele: nos esforçar para sermos quem poderemos ser. Ainda dá tempo.  Mas e quanto à ternura? Deixemos a ternura para os fortes. Se dermos conta da conquista do respeito, sermos ternos será somente uma questão de tempo.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Um pouco de banda

Nossa trajetória é a soma de passos. Muitos deles. Passos dados por nós. Por outros. Por conhecidos. Por desconhecidos. Passos longos, curtos; completos e interrompidos. Caminhadas sofridas, outras nem tanto. Andares atentos, desatentos. Andança com tanta areia, da lua cheia, onde andei, como diz a música. Em muitos dos nossos passos, andaimes nos foram oferecidos; em outros, andaimes retirados.

Andei. Ando. Andarei. Assim eu como você. Nossa caminhada não é de hoje, por isso nossas estradas vão cheias de anúncios de sucesso e de importância, outros vão descascando em função do tempo e da forte chuva que cai. Todos estes anúncios são importantes se estruturados em bases sólidas, nos interiores. Se não, um chuvisco mais forte borrará as letras dos anúncios, e o vento forte dará conta de finalizar o trabalho de expor as nossas decadências. Toda andança e trajetória são assim: somas e subtrações. Isso parece claro para todos nós. No entanto, o que não nos parece claro, e é este o tema central que proponho por meio deste texto, é o quanto estamos conscientes sobre a contribuição direta de outros nestas nossas trajetórias. O quanto de nossos caminhares existe porque os outros contribuíram.

Somos porque outros são, em nós. Porque outros foram, em nós. Porque outros serão, em nós. É preciso que isto esteja e seja visível. De outro modo, correremos o risco, se é que já não estamos correndo, de sermos injustos com aqueles que colocaram tijolos em nossas ruas e evidenciaremos a nossa alienação, que é uma espécie de solidão da contemporaneidade. Porque nossas ruas existem. E como existem, vários pés lá pisaram. Pisadas pesadas, duras, leves, concretas, abstratas, lineares etc. Não sabemos ao certo. Mas as marcas ficaram e nelas fomos constituídos e construídos.

Reconhecermos que somos, também, resultados, nos ajuda a crescer. Ajuda-nos a tomarmos posse do nosso real tamanho. Às vezes, queremos mostrar um tamanho que não temos, ocupar um espaço que não podemos, colocar papéis amassados e camuflados no colo do outro por pura vaidade, este oco que vai em nós. Isto é não reconhecer o que vai do outro, em nós. Somos produtos, resultados. E também construtores. Quando não reconhecemos a construção do outro, em nós, agimos por meio de monólogos, e não por meio de diálogos.

Há pessoas cujo currículo apresenta vivências no exterior, escolas renomadas, aquisições materiais de larga escala etc. A pergunta que fica é: o quanto disto tudo foi construção dele? E o quanto disto tudo foi construção daqueles que pisaram sobre o caminho desse que usufrui, hoje? Se estudamos numa excelente escola e este estudo nos proporcionou avanços em nossas carreiras, o mérito será mais nosso ou daqueles que depositaram tijolos sobre nossas calçadas nos permitindo ali, estudarmos? Nossos méritos ali estarão, obviamente, mas é preciso reconhecermos que, sem os passos dos que vieram, a probabilidade de ali estarmos seria drasticamente reduzida. Nossos méritos estão no avanço que damos ao que recebemos. Mas como avançarmos sobre algo se não recebermos este algo antes? Por isso, é imprescindível enxergarmos estas construções em nossas trajetórias. Trajetórias que nos permitem andar adiante porque os velhos, cansados ou não, por ali passaram.

É preciso darmos vozes para que as nossas possam ser ouvidas. É preciso irmos além de nós, porque outros existiram. É preciso darmos a autoria, aos outros, de muitas de nossas obras, porque, muitas de nossas obras têm, apenas, rabiscos que nos pertencem. O desenho e os traçados fortes não nos pertencem. É preciso nos reconhecermos como esboços e rascunhos para que sejamos merecedores de construções. Ninguém que negligencia os próprios borrões chega muito longe.

Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes da Literatura mundial, num dos seus belíssimos trabalhos, diz:

“Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda”.

Caminhar de banda, um pouco de banda, é para aqueles que já entenderam que a vida é feita de outros, em nós, e de tudo o que caiba dentro destes outros. Nossos ombros vão ficando pesados porque nossos mortos pesam e nos sobrepõem, muitas vezes. Não pesados como sinônimo de cansaço, mas no sentido da existência, do realizado, do construído. Todo peso carrega uma história, e toda a história tem peso. Um peso que se relaciona conosco porque conversa conosco, intimamente. Somos milhares de uns dentro da gente. Somos diversos eus, muito mais que os heterônimos de Fernando Pessoa.

Não pesados como sem valia; não mortos como acabados. Mas pesados porque carregam sentidos e significados. Mortos porque se transformaram na nossa extensão.

É preciso nos reconhecer, um pouco de banda, nos enxergar andando tortos e curvados de lado. Lá eles estão reavivando nossas memórias, nossas vírgulas e parênteses, nossas pazes com aquilo que recusamos, nossos contrastes iluminados, nossas irregularidades visíveis. Nossos mortos nos mostram o que teimamos em não ver. Recusamos a visita deles, mas eles chegam. Sempre chegam. Por acharmos que a construção é sempre nossa, por acreditarmos que a jornada sempre pertence apenas a nós, nos tornamos especialistas em alienações. Generalistas de um assunto só, cujo conteúdo nunca entendemos.

Somos seres inadaptados, não prontos, não concluídos. Por isso, nossos esforços doem. As contradições significam o material que nos constitui. Somos exilados, em nós. Mas nossos mortos nos reconduzem ao caminho que teimamos em não reconhecer. Nossa história é o nosso morto. Tudo o que nela está, pesa sobre os nossos ombros, por isso, é preciso andar um pouco de banda para não nos esquecer, assim como disse Drummond.

Uma ajuda recebida, uma ofensa perdoada, um aperto de mão, uma humilhação envergonhada, uma escorregada que demos (mas que o outro já se esqueceu): tudo isso significa nossos mortos. Um assento esvaziado, um andar calmo, uma palavra dita na hora mais precisada, um “deixa isso pra lá”, uma falta nossa que o ofendido fingiu que não viu: tudo isso significa nossos mortos. Por isso, eles pesam.

Nossos mortos lá estão, aqui estão: nos meus ombros e nos seus. Eles nos trouxeram até aqui. Não mortos-vivos, mas mortos que vivem. Vivem em nós. Somos o que deles foi deixado em nós. É preciso honrá-los, vivê-los, admirá-los. Acima de tudo, é preciso gratidão. Uma das raízes da palavra gratidão é dar “boas-vindas”. Portanto, ser grato, significa, além de outras coisas, darmos boas-vindas àqueles que sempre estiveram lá, mas raramente foram reconhecidos e vistos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Cícero, Filósofo e Pensador da Roma antiga, que diz:

“Nenhum dever é mais importante do que a gratidão.”

Dever. Um dever darmos visibilidade a eles. De andarmos um pouco de banda para que, ao passarmos, as pessoas digam: “lá vai aquele cujas costas carregam os próprios mortos. Carregam a própria obra.” Uma obra construída por muitos e de muitos. Porque somos muitos. Continuarão: “lá vai aquele cujas costas carregam a compreensão para enxergar o que está próximo. Lá vai aquele cujas costas carregam lições distantes, dadas e construídas por seus mortos, e que, exatamente, por isso, evitaram que ele chegasse cansado no final.”

Que nossos mortos sejam vistos e reconhecidos. Se assim for, espelhos cairão sobre nós, felizes, porque, enfim, poderão refletir a verdade, e não imagens distorcidas que mostramos e impomos, ao mundo e aos outros, sob fortes luzes artificiais, acesas por nós. O espelho, assim como a vida, há tempos tenta nos oferecer luzes naturais para que possamos nos ver, de verdade, tortos e de banda.

Quando abandonarmos a recusa de nos enxergar sob luzes naturais, nosso itinerário ficará mais claro e mais leve. Nossos métodos se simplificarão e aceitaremos a História para explicar a nossa história. Tomaremos distância do mofo que nos manteve sob luzes artificiais. E naquela hora, tortos e um pouco de banda, nos reconheceremos, assim tortos, assim um pouco de banda, assim como somos, assim incompletos. Não um ser em linha reta criticado por Fernando Pessoa, mas um ser que se compreende como a soma de tudo o que, inegavelmente, a ele pertence.

domingo, 24 de novembro de 2019

Os Deuses vendem quando dão

No livro Discurso da Servidão Voluntária, do escritor francês do século XVI, Étienne de La Boétie, há uma passagem indigesta que diz:

“o teatro, os jogos, as farsas, os espetáculos, os gladiadores, os animais ferozes, as medalhas, os quadros e outras drogas semelhantes eram para os povos antigos a isca de servidão, o preço de sua liberdade, os instrumentos da tirania. Os tiranos antigos empregavam esses meios, essas práticas, esses atrativos para entorpecer seus súditos sob o jugo. Assim os povos, embrutecidos, achando belos esses passatempos, entretidos por um prazer vão que passava rapidamente diante de seus olhos, acostumavam-se a servir tão ingenuamente, e até pior, quanto as criancinhas que aprendem a ler vendo as imagens brilhantes dos livros coloridos.”

Ainda mais a frente, no livro, Étienne de La Boétie, continua:

“os tiranos distribuíam em profusão um quarto de trigo, uma medida de vinho e uma moeda de menor valor, e então dava dó ouvir gritar: ‘Viva o Rei!’ Os imbecis não percebiam que recuperavam apenas parte do que era seu, e que mesmo a parte que recuperavam, o tirano não poderia dar-lhes se, antes, não a tivesse tirado deles mesmos. Não penseis que um pássaro caia mais facilmente no laço ou um peixe, por gulodice, morda mais cedo o anzol, que todos esses povos que se deixam atrair prontamente pela servidão, pela menor doçura que os façam provar. É realmente assombroso ver como nos deixamos ir tão rapidamente ao menor afago que nos é dispensado.”

Destaquei esses dois trechos porque são atemporais. Apesar de eles terem sido escritos há tanto tempo, ainda fazem eco, em nós.

Quem é o tirano que tiraniza o povo, conforme o autor? Quem é o povo tiranizado? Somos nós. Somos o tirano que tiraniza. Somos o povo tiranizado.

Por mais duro que possa parecer, é preciso compreender que nada, absolutamente nada, nos é dado sem que algo nos seja tirado. Não se trata de uma posição pessimista sobre a vida, mas o contrário: por desconsiderarmos o caráter trágico da existência humana (problemas, angústias, medos, traumas, tristezas, vaidades, orgulho, dores, dificuldade de relacionamento), por nos alienarmos acerca de quem somos, nos distanciamos de nós mesmos. E nos distanciando, permitimos a nossa marginalização e nossa submissão desmedida. E é aí, exatamente aí, que os tiranos atuam. Eles já perceberam o nosso medo, a nossa vaidade, as nossas necessidades. E de posse destes preciosos conhecimentos, nos dão aquilo que vão nos entorpecer, nos adormecer, nos calar, nos tirar de cena, nos alienar. E nos alienando, não percebemos o quão usados e marginalizados estamos sendo. Ora somos nós, esses tiranos. Ora são os outros, a quem nos submetemos.

Quando consideramos o caráter trágico da nossa existência como parte inerente a nós, de forma madura e consciente, sem que isto nos faça nos tornar descrentes da vida, essa tirania até existirá, mas teremos mais domínio sobre ela, e, portanto, seremos menos suscetíveis aos estragos que ela provoca porque teremos um pouco mais de domínio sobre esta subjugação.

Obviamente, não podemos fazer apenas aquilo de que gostamos, ter a companhia apenas de pessoas agradáveis e trabalhar, apenas, com quem queremos. Nossa insubordinação não chegaria a tanto. Mas a reflexão que proponho, por meio deste texto, é a de que, por nos desconhecermos, por nos afastarmos de nós, por termos comprado a ideia de que a vida tem a obrigação de ser uma sucessão de felicidades para nós, isto tudo causou e tem causado, em nossas vidas, uma alienação. E esta alienação agrava a fragilidade que há, em nós. E o que faz uma pessoa alienada e subjugada? Torna-se manipulável, adestrável. E o pior: adestrada, não vê mais necessidade na pergunta, no pensar, na construção. Aceita o que vem. O que dão a ela. E ainda fica feliz com isso. “Viva o Rei!”

A questão não é saber as respostas. Mas o que perguntar. E só faz perguntas quem não grita “Viva o Rei!” Perguntar custa, dá trabalho e recusa moedas, medalhas e um quarto de trigo.

Dando “Viva ao Rei!”, nos tornamos contornados e contornáveis pelos riscos dos outros. Formamo-nos em fôrmas alheias. Ficamos em filas erradas. Percorremos os sonhos dos outros. Aceitamos o jugo. Passamos a buscar respostas prontas, receitas, fórmulas e nos tornamos fãs de pensamentos vazios, de frases feitas e de velhas metodologias que, apesar de nunca terem funcionado, agora surgem com outros nomes e, de preferência, em inglês, o que nos faz acreditar ainda mais. Como não pensamos tanto, porque isso é cansativo e dá trabalho, acreditamos naquele que se diz pensar por nós, e que sempre quer nos vender algo que nos projetará para o primeiro da fila. Realmente corremos ao menor afago.

Empresas espalham mesas de sinuca pelos corredores. Outras possuem salas com paredes rabiscáveis, poltronas confortáveis e coloridas e pufes espalhados pelo chão. Em outros lugares de trabalho, massagens são oferecidas na hora do almoço. Ainda em outras, academias modernas prometem resultados quase imediatos, em quinze minutos, na hora do almoço (do seu e do meu). Ambientes sendo redesenhados e vendidos como modernos, ágeis, descontraídos, informais. Alguns entendidos sobre o assunto dizem que isto traz mais agilidade, criatividade e resultado. O famoso conceito Work&Play! (trabalhe e divirta-se!)

Os Deuses vendem quando dão. A lógica grega, tão antiga e trazida por Étienne, novamente ganha espaço, visibilidade e aceitação, entre nós. O nosso quarto de trigo.

Uma academia eficiente para que eu não adoeça e, assim, entregue mais. Uma mesa de sinuca para que eu grite “Viva o Rei!” e ainda diga, “como trabalhar aqui é divertido”! Salas lindas com paredes e pufes coloridos para que as grades reais passem ilesas. Massagens durante o almoço para que eu não perceba o peso do meu jugo. Assédios morais disfarçados de assertividade. Competição desmedida camuflada de incentivo. Métodos de avaliação subjetivos que medem o número de hoje, e não a minha trajetória. Aliás, o que importa a trajetória na sociedade que endeusa o discurso de elevador? A mesma uniformização criticada por Étienne, há tanto tempo, evidenciada na mesma alienação de hoje.

Os deuses vendem quando dão. Enquanto achamos que estamos ganhando, estamos vendendo. Esta é a lógica que há. Enquanto acho que estou ganhando por ter academia no trabalho, vendo minha saúde para eles. E eles compram. Compram nos dando mais do trigo, mais dos jogos, mais das medalhas, mais das farsas, mais dos espetáculos. “Viva o Rei!”

Há sempre um jeito novo, com verniz diferente, para não percebermos o que nos estão tirando. E vice-versa.

Não há almoço de graça, já disse alguém. O que há é a nossa não percepção do que estamos vendendo em prol de um suposto ganho. Vendemos e não ganhamos. Numa empresa recordista de likes, há videogames, pebolim e mesas de sinuca disponíveis aos colaboradores. E tudo isto sendo visto como atrativos. Atrativos de quê, exatamente? Da compra do nosso intelecto, da compra do nosso silêncio, da compra da nossa ausência de perguntas. Em uma outra empresa, as paredes são grafitadas e isto é vendido como “um lugar superlegal e estimulante de se trabalhar”. Em uma outra empresa (multinacional e de expressiva representatividade no mundo), há um tobogã no meio do escritório. E quem quiser se aventurar, cairá sobre uma mesa de sinuca (!). Em outras, os ambientes foram inspirados no Vale do Silício. Quando vamos entender que aqui não é o Vale do Silício? Vamos aprender com os outros, mas sem querermos ser os outros. Pode ser? São muitos os exemplos. Em outra Empresa, redes dividem o espaço, bonecos para treinos de artes marciais e mural dos sonhos.

Como nos aquece um quarto de trigo, uma medida de vinho e uma moeda de menor valor. Quem será que sente dó da gente ao nos ouvir dizer: “Viva o Rei?”

Vendemos por tão pouco o nosso intelecto. Acreditamos que nos dão, no entanto vendemos e nem percebemos. Iscas que nos dão e, ingenuamente, caímos. Nem os peixes são tão omissos e ingênuos, assim. Não mordem as iscas facilmente. Morrem, mas não antes sem lutarem. E nós?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento ácido de Shakespeare, que diz: “O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém.”

Portanto, desconfie. Questione. Pense. Ninguém é bonzinho e fraterno ao ponto de fazer tudo pelo nosso bem-estar! Como somos bons. Os deuses realmente vendem quando dão.

Não digo que nos libertaremos dos tiranos que há, em nós, e também não digo que nos libertaremos deles, da ação deles sobre nós. Ainda é uma relação conflituosa. Não podemos ainda nos libertar. A autonomia e liberdade ainda são valores incompletos, cuja vivência ainda não podemos desfrutar. Mas, insisto e peço desculpas pela redundância: se considerarmos a dimensão trágica que há em nós, esta dimensão que é capaz de nos elucidar, de nos clarear, de nos acordar, de nos fazer abrir as portas para, finalmente, ouvirmos o que a tristeza, a angústia e o medo querem nos dizer antes de entrarmos na primeira farmácia que encontrarmos, teremos mais controle sobre o jugo imposto a nós, teremos mais domínio sobre o porquê do pouco trigo que nos for oferecido. Se buscarmos conhecer e viver a nossa dimensão trágica, em companhia de nossas outras dimensões, os tiranos perderão acesso as nossas linhas, perderão o acesso ao inabitado, em nós. Perceberemos as reais intenções e o verniz disfarçado que colocam sobre as festas e farsas que fazem para nós. Conseguiremos construir um certo distanciamento deles, necessário para vivermos até ser possível nos desvencilharmos deles. Mesmo que ainda seja necessário conviver e nos submeter a eles, que seja de olhos abertos, lúcidos, precavidos, prevenidos e cientes da linha que nos divide.

Com esta linha bem dividida, certamente, as mesas de sinuca e as redes ficarão às moscas. Não as frequentaremos mais. Os massagistas perderão seus postos. Os pufes ficarão vazios. O tobogã enferrujará e as paredes coloridas da moda, ah...as paredes, nelas escreveremos:

“Aqui jaz, um dia, o que foi “Viva o Rei!”

domingo, 10 de novembro de 2019

Santos e Sãos

Clarice Lispector, na obra “A Hora da Estrela”, nos provoca dizendo:

“quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu’ cairia estatelada e em cheio, no chão. É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.”

Uma das características da obra de Clarice é a ironia. Uma ironia que incomoda e constrange por ser verdadeira. Essa moça, a quem Clarice se refere, é a protagonista do livro, mas poderia ser qualquer um de nós. Macabeia, a personagem, nos oferece inúmeras chances de discutirmos o que vai em nós e, principalmente, o que deveria ir em nós. Uma destas chances que a personagem nos oferece, por exemplo, é a ausência de perguntas. A personagem faz poucas perguntas. Poucas porque não possui acesso a mais perguntas. Não sabe o que perguntar, para quem e para quê perguntar. Por isso, o morno e o despercebido são estados desta personagem que ia se conhecendo por causa “do seu viver à toa”. Ela era quase uma estrangeria na própria terra.

Fazer perguntas cria necessidades, diz Clarice. No caso da personagem, ela não sabia o que perguntar e nem para quê. Uma inocência perdoada. Uma ignorância respaldada na própria ausência de vida na qual vivia Macabeia. A personagem está perdoada. Assumia-se como uma pessoa inapropriada. E quando se assume isso, não há perguntas, realmente, a serem feitas.

Mas e quanto a nós? Não estamos no livro de Clarice, não somos Macabeia. Mas por que, então, não fazemos perguntas? Não me refiro às perguntas que fazemos aos outros, porque estas fazemos. Mas por que não fazemos perguntas para nós?

Perguntar significa assumir que há perguntas a serem feitas. Ocupar um lugar de aprendiz.
Perguntar significa assumir que não tem a resposta. Reencontrar-se com a própria incompletude.
Perguntar significa dizer que não sabe. Correr riscos de ser exposto.
Perguntar significa não receber. Aceitar as imagens tortas do espelho e escancarar as próprias necessidades.
Quando não perguntamos, assumimos a nossa falência anunciada. Ocupamos um lugar de santidade que não temos. Sentamos num lugar de sanidade que ainda não conquistamos. Quando não perguntamos, assumimos o nosso descaso para com a dúvida. A certeza embrutece. A certeza absoluta encerra e finaliza os nossos passos e o nosso diálogo com a vida. Uma certa conivência com aquele que nos vende soluções prontas para algo que nem inventado foi. Humildade, realmente, é algo cujo conceito desconhecemos. O humilde começa no a partir, no início. Mas como reconhecer que há a partir e inícios se conhecemos todos os finais? Pobre que somos!

A dúvida ajuda a levantar os nossos pés do chão. A ausência de perguntas nos reduz. Acharmos que fugir das perguntas nos isentará da necessidade é o auge da arrogância. Ingenuidade nossa acharmos que a vida daria tantas pistas fáceis, assim. A vida não teria esta linearidade escancarada. Ela possui inteligência. Chegou antes da gente. Bem antes.

Qual tem sido a nossa escolha?

Um olhar por cima, sem encostar por medo de contaminação: este é o olhar de quem não faz perguntas porque não quer e não tem dúvidas. Daquele que não tem necessidades. Uma ironia, pois, o que mais temos são perguntas, dúvidas e necessidades. Mas onde elas estão?

Assumir nossas perguntas, dúvidas e, consequentemente, criar necessidades é sinônimo de uma convivência que nos obrigará a ouvir o hóspede que vai em nós. Um hóspede estrangeiro, intruso, mas que vai se acomodando até saber todas as regras e dinâmicas da nossa casa.

Um olhar manso, discreto e próximo: este é o olhar daquele que tem dúvidas. Daquele que pergunta. Uma verdade, mas uma verdade envergonhada que se envergonha de se mostrar.

Quando perguntamos dizemos, automaticamente, que não sabemos. Mas quando não perguntamos, dizemos que o mundo é pequeno demais para nós. Nossa antiga e arraigada mania de grandeza nos conduzindo às margens, da vida.

Onde estão os doentes? Somos todos Santos e Sãos. Onde estão os doentes? Há tempos não temos notícias deles. Os Santos das redes sociais, os Sãos do dia a dia. Onde estão todos? Nossas arestas estão à mostra, mas as escondemos sob nossos tecidos puídos. A Macabeia, de Clarice, tinha um álibi: a ausência de vida dentro dela. Mas e sobre nós? De onde vem a nossa indiferença pela pergunta? Clarice já nos respondeu: ela cria necessidades. E todo aquele que pergunta é um incompleto. Para quê perguntar, então? Não quero que me vejam assim, “cheio de necessidades, ridículo, absurdo, enrolado e com os meus pés, publicamente, nos tapetes das etiquetas”, como nos disse Fernando Pessoa, no Poema em Linha Reta.

Quanto mais perguntas fazemos, mais necessidades vamos encontrando em nós. Somos incompletos porque perguntamos. Mas quem faz perguntas, ainda hoje, além de Clarice e de Fernando Pessoa? Escritores melancólicos, depressivos e ultrapassados, disse, certa vez, alguém. Triste que somos. Temos a pequenez de reduzir a obra alheia quando, por limitação nossa, não a compreendemos. Um clássico da arrogância humana. Mas Clarice e Pessoa estão ocupados demais fazendo perguntas, sem tempo de se ocuparem com estes miúdos.

Os nossos contornos nos constroem, e os nossos avessos, muitas vezes, não podem ser vistos, mas existem. É preciso revisitar as nossas construções e reinterpretá-las. Este exercício talvez seja uma de nossas garantias de nos reencontrarmos. Vestimos máscaras de santos e de sãos. E, hoje, com o palco aberto pelas redes sociais, o que não faltam são convites explícitos para o visitarmos e mostrarmos toda a nossa santidade e sanidade. Pobre que somos!

Onde estão os doentes?

Ainda no Poema em linha reta, Fernando Pessoa, continua:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo...toda a gente que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho...quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse uma infâmia...não, são todos o Ideal...Arre, estou farto de semideuses...”

Somos os deuses das redes sociais. Somos os semideuses de Pessoa. Somos os que dão certo em tudo, os sãos que tudo sabem. Os Santos que nada fizeram de mal. Os Santos isentos. Somos vidas perfeitas porque somos perfeitos. Nunca lemos uma bula porque não precisamos.

Por que o nosso arco-íris tem cores a mais do que o da natureza? Por que queremos dar uma aparência de virtude para tudo o que fazemos? Perguntas criam necessidades, disse Clarice. Sábia. Macabeia não fez perguntas. Mas ela tinha álibis, já disse. E a gente? Acho que a chuva nos pegou de surpresa. Estamos buscando abrigos. E as redes sociais são uma forma de abrigo para escondermos as nossas necessidades, as reais. Mas e na hora em que a chuva passar?

Nossas redes sociais são um palco de virtudes que envergonharia qualquer peça perfeita encenada na Broadway. Não há perguntas nestas redes, neste palco. Somente demonstrações perfeitas porque somos os Sãos e os Santos. Somos os Santos das Redes. Somos os Sãos da Vida. Os doentes vagam. Escondidos. Onde estão os doentes?

Somos extremados. É preciso desconfiar, portanto, de nós. Uma pena. Cegos que somos. Publicamos vitórias e conquistas. Saímos dos nossos empregos sempre com a mesma desculpa esfarrapada de “busca por outros desafios” e nunca porque estávamos infelizes, tristes ou porque fomos demitidos, mesmo. Sempre aquela nossa viagem à Europa foi um sucesso, sempre luzes, nunca nos lembramos de que parcelamos esta mesma viagem em 24 vezes, no cartão, porque nossa realidade, talvez, não permitisse esta viagem. Mas como não fazemos perguntas, as necessidades crescem sobre e sob nós. “Arrastamos cadáveres e acordamos fantasmas”, disse o escritor. Outro sábio que faz perguntas.

Não perguntamos porque achamos que isto evita o contato com o sofrimento, com a nossa necessidade. Mas isto não é verdade. Necessidade é uma realidade, em nós. Não podemos pará-la. A nossa marca deveria ser a pergunta, não a fuga dela. As certezas absolutas nos farão desaparecer. As dúvidas nos trarão de volta. É preciso nos desarmar da obrigação de santidade e de sanidade que criamos. Aonde estão os doentes?

Criamos movimentos desnecessários, mas não criamos os necessários. Damos palpite sobre tudo, o ‘eu acho’ viralizou e a dúvida é coisa do passado. Somos os Santos das Redes, os Sãos que estão no palco. O lugar aonde mais combina conosco. Aonde estão os doentes?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento ácido de Montaigne, escritor francês do século XVI, que diz:

“no mais alto trono do mundo, o homem senta-se com o traseiro.”

Uma sátira dos que se intitulam Sãos e Santos, ou seja, nós. O nosso palco, as redes, são uma espécie de trono que criamos para nos dizer Deuses e Santos e perfeitos e de vidas perfeitas. Cansativos que somos. Um trono inexistente, irreal e que reflete o nosso ressentimento por não sermos, assim, tão perfeitos. O trono é irreal, mas parece que só a gente não vê. No entanto, a forma como estamos sentados, esta sim, é real. Bem real. Uma pena que abrimos mão de perguntas para descobrirmos isso. Mas perguntas criam necessidades, disse Clarice, e quem se indaga é um incompleto. Grande Clarice. Ela, pelo menos, reconhece o ser incompleto que era porque não estava nos palcos falsos da vida, mas na vida, em si. Grande Clarice. Sua aridez e lucidez fazem falta. Muita falta.

Acho que somos todos bem-vindos, nesta vida, inclusive nas redes sociais. Mas apenas se for habitada por humanos reais, e não estereotipados. Que a nossa devoção não seja para o irreal, mas para o real que vai, em nós: nossas dores, tristezas, angústias, alegrias e conquistas. Não somos Santos. Não somos Sãos. Somos, apenas, humanos. E se assim formos, desconfio que abandonaremos o peso dos cadáveres, como disse o escritor, e os nossos fantasmas acordarão não para nos assustar, mas para nos cumprimentar e nos agradecer porque, finalmente, eles estarão livres. Livres de nós. Porque, até eles, fazem perguntas.

sábado, 12 de outubro de 2019

Andar com fé

Hoje, para quem é católico, comemora-se o dia da Padroeira do Brasil: Nossa Senhora de Aparecida. Um dia de procissões, de missas, de encontros, de pagamentos de promessas, de romarias, de cantos. Um dia. Mas, e os outros dias? E nos outros dias?

Uma senhora, pela televisão, chora ao dar um depoimento sobre a cura recebida por intermédio de Nossa Senhora. Lindo e emocionante. Um depoimento de fé. Não de uma religião. Fiquei observando a matéria que a televisão transmitia e inúmeros eram os depoimentos, de diversas naturezas. Pessoas caminhando quilômetros a pé, longas distâncias, em direção ao interior de São Paulo, onde está o Santuário de Nossa Senhora.

Pessoas a caminho do Santuário ou não. Pessoas andando, ajoelhadas ou não. O ritual não importa. Não é sobre o andar, literal, que falavam aquelas pessoas, mas sobre fé, muito além de religião. Um andar moral, um caminhar dentro de si próprio.

Independentemente da religião de cada um de nós, se é que a temos, todos os cultos, rituais, abordagens, mensagens, práticas de todas as religiões devem ser respeitados. Frequentamos lugares e participamos de grupos cujos caminhos nos chamam. E é preciso respeito nisto. Somos de uma determinada religião porque assim nos sentimos bem. Encontramos, de certa forma, as respostas que buscamos para as nossas aflições. Um conforto. E isso não pode ser posto em discussão. Cada religião demonstra uma rota. Algumas delas se esbarram umas nas outras, outras se complementam, algumas se contradizem, outras se confrontam, incluem, excluem. E cabe a cada um de nós, caso assim faça sentido, nos integrarmos a elas, ou não.

Mas não é sobre religião que quero falar, porque falar sobre religião é como se eu inferisse sobre a crença do outro. E isto seria desrespeitoso. Mas sobre fé, que é algo bem diferente.

Religiões nos religam, nos conectam. Fé nos movimenta. Religiões são estáticas. Fé é dinâmica. Religiões possuem lindos e emocionantes rituais. Fé os traduz. Religiões nos pedem para ajoelharmos durante a fala do padre. Fé nos ensina que ajoelharmos será eterno exercício de humildade. Religiões dizem. Fé faz. Religiões leem textos sagrados. Fé nos convida a vivê-los. Religião é conforto e resposta. Fé é a mão estendida dizendo: “pode vir, estou com você”.

Religião é algo externo, cuja escolha, feita por nós, vai ao encontro do que buscamos, seja no culto, na missa, na vigília, ou em outra prática. Fé nos move para além do horário da missa e da palestra do orador, no culto. Fé nos move além do ajoelhar-se, porque assim o padre mandou. Fé nos conduz além do sinal da cruz metódico e automático, enquanto comentamos a roupa da pessoa sentada a nossa frente, durante a vigília. Leva-nos além da fila que pegamos para comungarmos, enquanto nos incomodamos com aquele senhor que furou a mesma fila. Religião sugere rituais para possíveis domesticações. Fé sugere reflexão sobre estes rituais e, se assim fizerem sentido para nós, os praticarmos. Belos e importantes rituais somente serão dignos se assim fizerem sentido para nós, se assim trouxerem valor para as nossas vidas. E isto exige reflexão, crescimento de nossa parte para que tenhamos tamanho para alcançarmos o real significado das coisas.

Presenciei, uma vez, uma pessoa fazendo o sinal da cruz com uma mão e com a outra olhava mensagens, no celular. O sinal da cruz, um lindo ritual, qual valor teve naquele momento? Esta é a reflexão. Se fazer o sinal da cruz é valoroso para nós, que a gente faça o sinal da cruz, mas verdadeiramente e ciente sobre o que aquele símbolo representa. Isto é fé. Em outro momento, sentada num banco de uma igreja, uma senhora chorava. Muito. Como não percebeu a minha presença, começou a conversar com Deus, em voz alta. E pude ouvir a oração: “Senhor, que eu veja por meio dos seus olhos, e não por meio dos meus.” Sem se ajoelhar, sem fazer o sinal da cruz, sem beijar todos os santos, a mulher se levantou e saiu. Aquilo é fé. Mas, se mesmo assim, ela tivesse feito todos os rituais, ainda assim seria um ato de fé. Uma pessoa que estava ali, sabia o que fazia e com quem falava.

Religião e Fé: é possível ter fé sem religião? É possível ter religião sem fé? Duas faces da mesma moeda. Enquanto a religião teoriza a beleza e o encantamento do ritual, a fé nos ajuda a praticá-lo. Se assim conseguimos, penso ser isso o que chamamos equilíbrio e paz. Cada um trilha a busca pela própria paz, e este é um dos possíveis caminhos, acredito.

As religiões falam sobre a fé, mas somente nós poderemos exercê-la. Falam sobre possíveis caminhos para aliviar a nossa dor, mas somente nós poderemos arregaçar as mangas para encontrá-los. Elas comentam a palavra, mas somente nós podemos compreendê-la. Falam sobre o exercício da cidadania e do amor ao próximo. Mas somente a nós cabe saber o que, de verdade, isto significa. Falar sobre caridade, dentro de paredes de pedras, é simplificar demais a vida. Uma simplicidade que envergonha. Exercê-la após o término da missa é o aceno que a vida nos faz. Sermos cidadãos enquanto lemos o folheto, durante a missa, é humilhante. A cidadania começa quando conseguimos, de verdade, compreender o real sentido da hóstia e da comunhão, que, a propósito, acabamos de realizar, na missa.

Fomos à missa. Nossa missão está cumprida. Somos religiosos. Seguimos a roupagem que nos mandam vestir. Mas e as perguntas que a Fé nos fez?  Fé nos oferece um incômodo permanente de nos incomodar.

Aquela senhora da reportagem trouxe uma linda reflexão. Antes de ser uma religiosa, era uma pessoa de fé, que independe de religião. Aquela mulher possui uma relação com a fé, com Nossa Senhora. Fé, do latim fides, significa fidelidade a um modelo, um trabalhar, acima de tudo. Aquela mulher construiu uma fé, e isto requer trabalho. Muito trabalho. Ser uma pessoa de fé significa ir além dos rituais, que passam a ter significado real para as próprias vidas destas pessoas. Pessoas de fé constroem caminhos, trabalham, acreditam, agem. Como na linda letra e música de Gilberto Gil...

Andar com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Andar com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá

Andar com fé, ou seja, para que haja fé, é preciso andar, caminhar. Não há milagres com braços parados por trabalhar. A fé precisa ser construída, não basta ajoelhar mecanicamente. É preciso ajoelhar verdadeiramente.

O sino soou. São dezesseis horas. A missa vai começar. Vamos? O que faremos depois? Que os rituais saiam do papel e ganhem vidas em nossas vidas. Eles nos pedem isto há tempos.

A letra da música de Gilberto Gil, Andar com Fé, composta em 1982, é atemporal e provocativa. A fé, realmente, não costuma faiá. Mas por que ele nos disse isso? Alguém está falhando, então? Sutilezas que somente a arte explica.

Quando criança, nas aulas de catecismo, fui reprovada em uma prova oral por não saber de cor, a oração da Salve-Rainha. O que faz alguém achar que uma criança de menos de 09 anos de idade devesse sabê-la? E de cor? Nem hoje, pessoa madura, sei esta oração de cor. Mas será preciso isto para se ter fé? “Volte para o seu lugar e estude direito”, foi o que eu ouvi. Voltei e estudei direito. Decorei a oração. Voltei a recitá-la. Agora completa. Fui aprovada. E no dia seguinte, já não me lembrava mais da oração. Tudo certo. O ritual foi seguido. Mas o que diz a Salve-Rainha, mesmo? O que esta oração significa? Hoje, adulta, sei. Sei porque fui buscar o sentido para aplicá-lo à minha vida. Não porque aprendi o sentido nas aulas de catecismo. A oração é linda, ainda bem que não guardei rancor da professora. Pobre coitada! Ainda se dizia cristã! Como somos inocentes no nosso mar de ignorância.

Ainda no catecismo, depois de decorar a Salve-Rainha, o padre entrou na nossa sala e nos disse que aprenderíamos a comungar. Mas antes, deveríamos nos confessar. “Confessar o quê?”, disse uma criança ao padre. (E depois dizem que as crianças de hoje é que são espertas). “Os seus pecados. Todos somos pecadores”, disse o padre. Pobre cristão aquele padre, também. Um homem comum, além do comum. Mas ele não sabia disto. Achava que podia falar em nome de um suposto Deus. Tão dentro de uma religião e, ao mesmo tempo, tão ausente do verdadeiro sentido.

Como aos nove anos de idade não se sabe muito a respeito de pecados, menti ao padre, na hora da minha confissão. Disse que havia brigado com a minha irmã. Menti apenas para cumprir uma ordem, um ritual. O padre, sem saber, me ensinou a dissimular, infelizmente. Ele acreditou em mim e me disse que nunca se briga com irmãos. Ao invés de me dizer o motivo de nunca se brigar com irmãos, desperdiçou a chance e me pediu para ir para o banco da igreja rezar 10 pais-nossos e 10 ave-marias. Foi o que eu fiz, de forma mecânica e culpada. Lembro-me de pensar: “o que significa Ave de Ave-Maria?”. Somente bem mais tarde fui saber que Ave significa “Salve”! Salve, aquele pobre padre. Quem precisaria se confessar, ali?

Sem ressentimentos. Fiz as pazes logo em seguida. Compreender certas coisas, na vida, e não criar embates traz imensos avanços. A religião e a igreja são representações das crenças do homem. É preciso, portanto, que a gente faça bom uso de toda esta beleza de conhecimento que nos é oferecida, sem ostentações, sem obrigações, sem vaidades, sem ditaduras.

Aprofundarmo-nos nas questões íntimas que vão em nós: se a religião, qualquer que seja ela, conseguir nos ajudar nisto, terá feito o principal papel que cabe a ela. Com ou sem rituais. A questão não é a religião, necessária, e nem os rituais, que são lindos e extremamente significativos, mas como os executamos, para quê e o porquê. De posse destas respostas, tudo volta ao equilíbrio. Nada há demais em se confessar, em comungar, em seguir rituais, desde que haja sentido e valor para quem os faz. Simples assim. Mais que simples rituais, é preciso que eles sejam, acima de tudo, propostas e respostas para a nossa vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Carlos Drummond de Andrade, que diz: “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

Isto é ter fé. Fé é ausência de motivos. Ela simplesmente é. Não importa se caminhamos tantos quilômetros a pé. Não importa, tanto, ver o caminho por meio dos nossos pés, mas sim os quilômetros caminhados por dentro de cada um de nós, mesmo sem os pés. Quando valorizarmos os quilômetros internos andados, sem atos mecânicos e externos, nossos pés reais, agora inchados, agora cansados e agora sujos das estradas passarão a fazer sentido e nos completar. E isto somente a fé poderá nos oferecer. Porque ela não costuma faiá. E não faia, mesmo!

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A maçaneta da porta

Quem dera a porta se abrisse ao tocarmos a campainha, ao soprarmos a sineta. Mas a porta tem seus caprichos. Outros compromissos. É preciso esperar. Aguardar. Silenciar. A porta permanece fechada não porque nos ignora, mas porque não nos olha.

Não nos olha. Ou não queremos ser vistos?

Não sermos vistos é uma forma de viver. Não sermos vistos nos isenta de possíveis convocações de prestações de conta. Mais fácil viver apenas admirando os trens que passam na estação. Mas também aqueles que apenas os admiram, não vivem. E como não vivem, longe estão de desfrutarem o balanço dos trens sobre os trilhos, o cheiro do mato passando ao lado, o tilintar dos bancos, o ouvir do som das vozes dos outros e a experiência de ser um dos motivos de andar daqueles trens. Alguém pode dizer, “prefiro ficar na estação”, mas este será sempre alguém defronte de si próprio a procura de um lugar para ser seu. Um ambulante sem estrada, que migra tentando transportar a si. Um possível itinerante, um “talvez existido ou aquele que sempre vai ser o que não nasceu para isso”, como disse o genial Fernando Pessoa.

A porta continua fechada. Mas agora observamos que há uma maçaneta lá. E se a virássemos discretamente e abríssemos a porta? Talvez a distração de quem está dentro impediu o ouvir da campainha quando a tocamos. Então, para disfarçar, tocamos a campainha mais uma vez somente por educação, caso alguém esteja nos observando, da vizinhança. Indelicado já ir se apossando da maçaneta. Como sempre somos aquele quem deve esperar, a porta, absoluta, se nega outra vez para nós, e nos afronta com o limite imposto. Disfarçadamente, viramos a maçaneta para abri-la forçosamente, porque assim queremos, porque assim fazemos. Queremos e fazemos. Mas e o querer e o fazer da porta?

Que pena dá da gente algumas vezes. A porta nos humilha e dança na nossa frente nos dizendo: “você ainda não é bem-vindo aqui”. Eu te ouvi, mas parece que você não ouviu o que eu dizia: “volte depois, talvez amanhã, quiçá depois de amanhã.”

Acostumar-se às ordens de uma porta é trabalhar arduamente a nossa vaidade. Viramos a maçaneta porque não admitimos não sermos ouvidos pela campainha e nem atendidos pela porta. Queremos entrar, e de preferência, passar rapidamente pela cozinha e avançar para os cômodos mais nobres. A resposta nítida da porta não nos convence. Precisamos forçar a entrada. Forçamos. E aí somos despejados. Um despejo sem traquejo. Estamos vestidos e prontos e vivos. E despejados. A autossuficiência que pensamos possuir sempre conversa com abismos que nos rondam. É preciso atenção no caminhar.

Tudo o que nos consola também nos viola. Fomos vistos. A porta nos viu. Mas não abriu.

Ela nos viu. Por que não fomos convidados a entrar? Ela nos ouviu. Onde já se viu tamanho desencontrar? “Você sabe com quem está falando?”, dizemos à porta. Ela nos diz: “sim, sei sim, mais alguma informação?”. Humilhados, recuamos. De vez em quando, é importante conhecer o lugar ao qual temos direito. Costumamos pedir sempre um extra, mas a vida não pode ser sempre tão generosa.

Do lado de fora, gentilmente colocados, somos convidados a encontrar caminhos do nosso presente que nos conduzam para dentro da casa. É preciso entrar. Mas é preciso, também, pararmos de emitir comandos e exigências do topo, aonde sempre nos colocamos. Quando descemos do topo, a nossa visão recupera verdades e conquistamos o nosso direito de nos levantar para abrirmos as janelas que fechamos, cuidadosamente, porque alguém disse que viria uma chuva forte.

Ainda do lado de fora, nos damos conta da importância de cultivarmos a modéstia, tão ultrapassada e fora de moda. Disfarçamos modéstia e prosseguimos. Mas os fatos mostram o nosso disfarce. Por isso, agora, do lado de fora da porta, percebemos. Do lado de fora, percebemos nossa ansiedade porque forçamos a maçaneta. E a ansiedade nos coloca em lugares que ainda não chegaram. Ela te faz querer horas que o dia não tem, te faz chamar de lentos o sol e a lua, que juntos, fazem um imenso trabalho de acolher a todos, que somos nós. Ansiosos, sempre estamos lá e nunca no aqui.

O aqui nos levará ao lá. Por que não percebemos? Ansiosos, consertamos coisas que não precisariam ser consertadas. E outras, empoeiram e alimentam traças. Ansiosos, tiramos conclusões incríveis que envergonhariam aqueles que já abandonaram o caminho da ignorância. Ansiosos, discordamos do tempo. Pobres que somos!

Quando batemos, é preciso esperar. A maçaneta continua ali, parada. Mas agora, somos estranhos a ela. Não queremos mais forçá-la. A solidão nos fez bem. Solitários que somos, mas não nulos. O texto é sempre menos que o contexto. Mas sem texto, não há contexto. Sem o contexto, o texto é só, manco, viajante e solto pelo mundo. Sem o texto, o contexto perde o sentido. Texto somos nós, pequenas peças que se encaixam no todo; contexto, uma porta chamada vida. A solidão e a humilhação nos fizeram bem. Fomos despejados para lotes distantes das estradas, mas experimentar isso foi o que nos fez chegar a estas respostas.

Sem experiências não há respostas. Sem texto não há contexto. Seria desonesto varrer tudo isto para debaixo do tapete.

Esticamos as nossas pernas e nos levantamos. Passou-se muito tempo. É preciso nos acostumar a fazer longos percursos. Um caminho verdadeiro e de valor requer tempo. E tempo foi tudo o que mais tivemos. Tocamos a campainha mais uma vez. O som agora saiu um pouco mais fraco, talvez porque tenhamos colocado menos força. O tempo também nos ensina que a força raramente será a melhor saída. A melhor saída sempre será possuir a ferramenta certa para cada luta necessária. Nada mais humilhante do que saber que algo precisa ser feito e não termos a ferramenta adequada. Por isso fomos despejados e postos, delicadamente, para fora. Quisemos acelerar a nossa escalada, mas fomos obrigados a recuar.

Fomos ouvidos. A porta se abriu. Por completo. Ficamos felizes. Receosos se podemos entrar ou não, ouvimos: “entre, você é bem-vindo aqui. Se quiser, pode tirar os seus sapatos para ficar mais à vontade.” Como estranhos que somos, como estrangeiros que somos, como disse Clarice Lispector, aceitamos o convite e entramos. Esquecemos a sala e o escritório. Queremos, primeiro, conhecer os banheiros e a cozinha. Parece que agora percebemos que muito se aprende nestes lugares. Pedimos licença para entrar e para avançar. Aprendemos. Ouvimos um som forte. Olhamos para trás e observamos que a porta se fechou, mas agora, conosco dentro. Conquistamos o direito de ficar e ainda ganhamos cópia das chaves.

Encerramos o expediente. Descalços. Vestidos. Acordados. Na cozinha. Somos bem-vindos aos outros cômodos, também. Mas para ter acesso ao escritório, antes é preciso estagiar na cozinha e no banheiro. Apreender o que de lá vier. Pedir licença. Aguardar. Esperar. O tempo somente valoriza aquilo que foi construído com a ajuda dele, disse um grande Mestre. E caminhar pela casa leva tempo, muito tempo. Há um lugar de partida e é daí que se deve começar, sob pena de sermos, novamente, despejados.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma passagem de um poema de Fernando Pessoa, poeta atemporal e necessário, que diz:

“...como um ruído de chocalhos, para além da curva da estrada, os meus pensamentos são contentes...”

Penso que nossos chocalhos chiam porque nos chamam. Querem o nosso avanço. Querem nos mostrar o que há além da curva da estrada. Mas para tal, é preciso respeitar a casa, os cômodos, o atender de porta. E, acima de tudo, respeitar o silêncio da porta em não se abrir para nós. Somente de posse deste respeito, seremos convidados a entrar, novamente.

Saídos que fomos, despejados fomos também. Recompusemo-nos. De posse da chave, agora estamos dentro de casa, novamente. Se um dia fomos saídos e despejados foi porque gastamos por conta sem levarmos em conta que não podíamos fazer num faz de conta.

À espera que estávamos de a porta se abrir, ela se abriu. Entramos. E começamos a nos reconhecer na nossa casa, novamente. E começamos a reconhecer a nossa casa, novamente.

Estranhos que somos. Estrangeiros que somos todos e que sempre seremos. Mas agora estrangeiros reconhecidos na própria casa. Na nossa casa.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A felicidade desbotada

Desbotar é perder a vivacidade, a vida. Óbvio dizer que algo vivo pode se perder e desbotar. Perder a vida. Morrer. No entanto, exatamente, por ser óbvia, essa sutileza passa como uma leve brisa por nós. Enquanto a brisa está passando, provavelmente estamos verificando a última mensagem urgente que nos chegou. Por isso, não percebemos a brisa. Não há como fazermos duas coisas ao mesmo tempo. Podemos até tentar, mas uma sempre será prejudicada em detrimento da outra. Ou até mesmo as duas serão prejudicadas se tentarmos dividir a nossa atenção. Ou percebemos a brisa ou verificamos a mensagem. Parece claro qual tem sido a nossa escolha.

Não me refiro ao desbotamento da cor de uma peça de roupa, tampouco à cor do nosso tênis. Este é um desbotar natural de algo usado e que teve a utilidade concluída. Não há como algo material permanecer. A característica da matéria é a impermanência. Portanto, usamos e respeitamos o tempo concluído da peça. O desgaste natural faz parte daquele que foi usado.

Refiro-me a um desbotamento moral que cresce, em nós, a cada dia. Digo que cresce porque penso que ele sempre existiu e sempre fez parte de quem somos. A única diferença é que agora possuímos mais ferramentas que nos ajudam a dar visibilidade a este desbotamento moral, que faz questão de tirar, à força, a cor daquilo que quer viver, que quer existir.

imagem tirada da internet

Um destes desbotamentos morais que nos visita (ou nos revisita?) é o marcar de hora para a felicidade. A nossa triste insistência em obrigá-la a bater ponto em nossas vidas.

Um desbotar natural: de uma roupa usada, de um sapato velho, de uma cortina desgastada. Um desbotar certo, equilibrado e que constitui o que é. Um desbotar natural que vem do uso, da vida que se fez e que se faz. Um desbotar indiscutível.

Um desbotar provocado: de uma felicidade que deveria ser compreendida, buscada e conquistada. Um desbotar triste, desequilibrado, desviado e que não constitui porque não vê. Um desbotar que somente existe porque desbotamos, tiramos o viço e a cor ao não observarmos as regras da etiqueta, para a lavagem. Triste desbotar: a cor havia. Era só nos aprofundar naquele colorar da vida, naquele avivar, naquela aquarela a nosso favor.

Algo que perde a vivacidade por obra da natureza não virá na nossa fatura. Algo vivo que perdeu a vida por obra nossa, porque resolvemos alterar as cores da aquarela, será posto, delicadamente, na nossa fatura. Um desbotar provocado porque insistimos em habitar Terras que não temos ajudado a construir. Mas a vida insiste em nos convidar para uma construção de Terras nas quais podemos habitar. Quando aceitarmos este convite, nossas cores serão vivas, nossas aquarelas respeitadas e o desbotar será apenas um reservatório morto.

Forçamos a felicidade a nos preencher. Forçamos a felicidade a ser a nossa narrativa de vida. Ocupamos cada vez mais os espaços externos, e impomos a nossa voz ao outro para forçá-lo a acreditar que somos felizes o tempo todo. E vice-versa. Estamos sempre bem e felizes. Os risos e os sorrisos se proliferam feito bactérias tristes a procura de estatus.

Perseguimos a felicidade como um bem de consumo. Uma commodity. A felicidade não pode ser perseguida, mas conquistada. Ela é um trajeto, e não uma chegada. Nem sabemos, ao certo, o conceito dela, que dirá tê-la. Uma presunção que sempre existiu, penso, mas que hoje se exacerba porque temos um poderoso ferramental que nos permite mentir, fingir, fazer de conta. Enquanto dizemos aos outros que somos felizes o tempo todo, os outros acreditam porque também acham que acreditamos que eles são felizes o tempo todo. Uma retroalimentação doente, cega, que reafirma a desconexão com os nossos ciclos, com as nossas verdades, com a gente.

É genuíno buscarmos a felicidade. É genuína a nossa vontade de desejarmos a felicidade. Obrigá-la a fazer parte de nossas vidas é doentio. Forçá-la a fazer parte de nossos saraus é alienante, e nos distancia do caminho que há tempos nos desviamos. Buscar a felicidade, acreditar nela e saber que temos momentos de felicidade é reavivar as cores da nossa linda palheta, e não permitir o triste desbotar de algo que não nasceu para desbotar. Insistir na felicidade como obrigatória e como lugar no qual não estamos é acreditar que somos felizes o tempo todo, é apagar a nossa cansada palheta, e permitir o desbotamento daquilo que nasceu para o aprimorar das cores.

A felicidade é uma conquista. Não está à venda. Pelo menos ela não tem preço.

Se somos o tempo todo felizes, como insistimos em dizer nos palcos da vida, aonde desaguaremos a nossa fúria, a nossa ansiedade, a nossa frustração, a nossa tristeza, nossas neuroses, incongruências e desvios? E, principalmente, a quem delegar as nossas irrelevâncias? Somos irrelevantes, em certa medida. Por isso, insistimos na falsa existência de uma suposta felicidade. Uma felicidade arredia. Cansada. Desbotada.

Por que a tristeza precisa ser disfarçada? Por que perdemos esta dimensão trágica da vida? Obviamente que a vida possui outras dimensões, mas imprescindível aceitar a tristeza como constituinte de quem somos.  Por que o trágico não pode conjugar mais no nosso espaço?

Somos todos felizes. Somos todos sorrisos e realizações. Somos todos plenos e resilientes. A felicidade é uma constante em nossas vidas. Somos felizes no trabalho. Nossos problemas têm solução. Somos capazes de tudo, basta querermos. Revelar um pequeno traço triste nos torna fracassados, impotentes. Dizer sem ânimo nos caracteriza seres fracos. Falar sobre os nossos problemas nos torna pessoas pessimistas a serem evitadas. A triste literatura de autoajuda é singular em dizer “que devemos nos afastar dos pessimistas” e que “basta um pensamento positivo para sermos quem almejamos ser”. Pensamento positivo? Que escola de mágica é essa que ensina o desserviço de acreditar que na vida são somente flores e mares calmos?

Aonde nos perdemos?

Não se trata de uma ode à infelicidade, à amargura e à desesperança. Pelo contrário: um acolher do que dói em nós, do que evoca ecos no nosso coração, do que camufla nossas vozes, do que força sorrisos quando, na verdade, queremos chorar. Por que o choro perdeu tanto espaço num mundo que se medica tanto? Por que tantas farmácias nascem em esquinas mortas enquanto livrarias fecham? Não seria este um diagnóstico choroso do que é? Sem julgamentos. Apenas um diagnóstico do que se vê antes e depois da janela.

Temos excessos de demandas que criam padrões inatingíveis. Queremos chegar a lugares que, sequer, há rotas. A presunção nossa. A vaidade, uma companheira lúcida.

Desbotamos, por isso embotamos. Embotamos, por isso desbotamos.

A felicidade é algo que não se avalia. Não se compra. Não se mede. Não se insiste. Não se pede. Não se apropria. Mas parece que temos feito o contrário: de tão perseguida, ela tem sido reflexo do menosprezo e do que tem ficado para segundo plano, em nossas vidas. O culto a ela, a competição estimulada por meio de marketing, conduz, muitas vezes, à ampliação deste desbotamento. Nosso embotamento moral tem respingado cores apagadas na nossa felicidade que poderia ser mais. Cultuamos falsos deuses. Competimos com o outro e não conosco. Buscamos somente estradas percorridas. Criamos morros. Insistimos em colocar o outro no final das fileiras enquanto furamos filas. Como não desbotarmos? Como não perdermos nossas cores vivas? Como não cansarmos a vida?

Penso que uma possível saída, se é que queremos uma saída, seja o reaprendizado da nossa convivência com o pesado de nós, a nossa dimensão do trágico, do triste, do inatingível, do inacessível, do escuro, como já disse. Como atingir a felicidade se não quero ouvir o que os tristes, em mim, dizem? Como atingir plenitude sem convidar meus fantasmas para um chá honesto e cordial? Como sorrir sem me interessar pelo motivo dos meus sorrisos forçados? Como sentir a leveza da felicidade sem conhecer o que tem contribuído para o nosso naufrágio?

Estamos imóveis frente a nossa desestruturação. A gente apostou fichas altas e muitas fichas em fantasmas e em vazias esquinas. Agora os fantasmas vivem. As esquinas criam vida. E agora, José? Drummond não está mais aqui para nos ajudar.

Enfim, aquilo que favorece a nossa domesticação não contribui. É preciso fazermos as pazes com as nossas dimensões trágicas. Conquistaremos realidades com mais fontes livres e fortes que ampliarão o nosso repertório de vida, livre de desbotamentos. A dimensão trágica da nossa existência nos reorienta. É importante receber nãos. Eles nos reorientam e nos fazem enxergar a placa de retorno que, há tempos, não percebemos mais.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Dostoiévski, filósofo russo do século XIX, que diz: “é preciso encher as nossas medidas”.

Penso que nossas medidas serão preenchidas se não nos ausentarmos de nós. Temos estado muito ausentes de nós buscando conhecer realidades que não são nossas. É preciso aprender sobre nós, sem imposições, sem customizações, sem compras fáceis de felicidade no mercadinho perto de casa. Impormos limites ao amadorismo e à vaidade sobre uma felicidade estática, pronta, atingível. Felicidade é construção. Obra inacabada. Assim como nós.

A gente tem estado muito ocupado fazendo concessões desnecessárias, atendendo a tudo e a todos. Estamos muito disponíveis, sempre online. Por isso, desbotamos. Vamos dormir um pouco. Desligar um pouco. Rever nossas palhetas. As cores pedem o nosso olhar.  Para isso, será preciso mapear se ainda há terrenos livres e virgens, em nós, e irmos para estes lugares.

Não há fórmulas, não há certezas, não há conclusões. Apenas caminhos. E são muitos.