segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A cegueira moral

A situação se dá em Praga, a capital da República Tcheca, início do século XX, numa exposição de pintores. Um jovem poeta tcheco chamado Gustav Janouch comentou com Franz Kafka:

-  Picasso distorce, deliberadamente, as formas. Criticou o rapaz.

Em resposta a ele, Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX, respondeu:

- Picasso, o grande pintor espanhol, apenas registrava “as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”.

Se eu fosse aquele jovem rapaz tcheco, Gustav Janouch, abriria um buraco ali mesmo e me enterrava. Perdeu uma excelente oportunidade de se calar. Mas ganhou uma excelente oportunidade de aprender. Mesmo que às duras penas.


imagem tirada da internet

Nem sempre, na vida, o aprendizado vem pelo amor. Que saibamos reconhecer isto.

Observando este diálogo entre eles, atual e atemporal, fiquei pensando na nossa verdadeira cegueira: aquela que obscurece o nosso olhar frente às verdades da vida, frente ao que verdadeiramente importa. Não falo da cegueira física, esta que, infelizmente, acomete algumas pessoas. Falo da cegueira moral que nos impede de sermos pessoas melhores, mais éticas e justas. Esta cegueira que nos faz olhar apenas para os nossos pés, para o caminho que caminhamos. Esta cegueira que somente nos faz reconhecer os nossos passos e o quão eles são imprescindíveis, na nossa opinião. Será?

Gustav Janouch ao criticar a forma como desenhava e criava Picasso demonstra esta cegueira.

Temos o direito de não gostar de algo, de criticar, mesmo esta crítica sendo referida a Picasso. Mas não temos o direito de sermos arrogantes, cegos e vaidosos. Isto não.

Criticar e dizer que não gostou é exercer o nosso direito à democracia. É exercer o nosso direito enquanto cidadãos que somos. Mas a crítica, pela crítica, pela pura vaidade, apenas demonstra o imenso tamanho da nossa pequenez, o imenso tamanho da nossa arrogância e da nossa desproporcionalidade diante à grandiosidade do mundo e de suas obras. No caso, aqui, Picasso: um dos gênios que a Humanidade teve.

É preciso saber e reconhecer o limite entre o que é crítica, como direito de protestar, de ser contrário ao mostrado, ao proposto, e o que é crítica baseada na arrogância, na vaidade, na prepotência que apenas mostra o quão longe estamos.

Esta cegueira é a verdadeira que cega. Infelizmente.

As distorções das formas, tão genialmente pintadas por Picasso, acho que foram criadas para aquele jovem poeta. E para todos nós, também.  Apenas ainda não estamos conscientes sobre isto.

Ouvi, certa vez, um palestrante dizer: ”o problema do nosso ponto de vista é que ele cega a nossa vista”. Perfeito. Aquele jovem poeta não ouviu este palestrante dizer isto, mas ele estava acompanhado de um mestre, Franz Kafka, que soube colocá-lo no seu devido lugar ao dizer: “...deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”.

O problema é sempre o mesmo: falta de autoconhecimento. Como não nos conhecemos, este mesmo desconhecimento nos faz crer que nos conhecemos. E aí começa todo o problema: aquele que acha que se conhece torna-se arrogante, prepotente, vaidoso. Nunca poderemos dizer que nos conhecemos. No máximo que temos certas pistas, um “cheiro”, mas a verdade é que estamos em constante processo de autodescoberta, de autoconhecimento. Saber isto nos fará pensar duas vezes antes de criticar uma obra de Picasso e demais coisas que se apresentarem no nosso caminho.

A arrogância, a vaidade e a prepotência são inimigas do conhecimento, da humildade. No fundo, no fundo, elas são um espelho de nossos medos escondidos embaixo de nossos tapetes felpudos e aconchegantes.

A vaidade demonstra a ociosidade e os vazios presentes em nós. É um literal abandono do bom senso.

A arrogância nos torna capazes de exigir o que não temos direito, o que não merecemos. Aquele jovem poeta, ao criticar, cegamente, a obra de Picasso, exigia um reconhecimento como “conhecedor da obra” que ele não tinha, e que jamais viria a ter. Pelo menos não enquanto durasse a cegueira dele.

O que motiva a arrogância, a cegueira, a prepotência é o sentimento de pequenez mental. Este é o sentimento que movimenta o arrogante. Mas claro que ele não sabe disto: ele está cego!

É preciso ser merecedor da obra, do reconhecimento. E isto é para poucos. Porque são poucos os que, verdadeiramente, enxergam.

Aquele que acha que sabe, como aquele poeta, é o que menos sabe. Quando achamos que sabemos as respostas, a vida muda as perguntas, já dizia o escritor. É bom estar atento.

A crítica é sempre bem-vinda, sempre será. Crescemos por meio dela. Mas a crítica, independentemente, a qual obra ou fato esteja se referindo, deve estar acompanhada de respeito e de humildade. O que certamente faltou a aquele poeta.

O que me chamou a atenção, também, foi que ele era um poeta. E o verdadeiro poeta tem humildade e sensibilidade. Sem isto não há como ser um verdadeiro poeta, talvez um pseudopoeta, nada mais que isto.

Julgamo-nos superiores a coisas cuja importância desconhecemos. Perdemos excelentes oportunidades de aprendermos, de avançarmos.

A futilidade que sustenta muitas de nossas ações nos faz escorregar diante o nosso próximo. E isto nos envergonha. Mas como não somos capazes de sustentar a nossa vergonha e de aprendermos com ela, buscamos defeitos na obra alheia, nas pessoas, nas coisas, enfim em tudo aquilo que tire a atenção da gente.

Somente ostenta quem não tem, verdadeiramente. Aquele jovem poeta, ao querer diminuir a obra de Picasso e “mostrar” que sabia, somente colocou mais luz na invisibilidade e na insignificância dele, nas pequenezas dele. Quanto mais ostentamos, mais mostramos que não temos. Quem tem, de verdade, não precisa mostrar. O que ele produz fala por si. A obra produzida, se bem produzida, fala pelo escultor.

Aprendemos com quem chegou antes, com quem chegou depois. Aprenderemos com quem ainda nem chegou. E muita gente aprenderá conosco quando nem aqui mais estivermos.

Aprendemos com a obra de Picasso, com a genialidade dele, mas também aprendemos com aquele que talvez não seja o Picasso, mas que possui genialidade, tanto quanto. Mas para isto é preciso que se enxergue com a alma e com o coração.

A falta de humildade, a ostentação, a arrogância, a prepotência nos levam para caminhos sem volta. São traiçoeiras. Elas nos fazem acreditar que somos o máximo, quando, na verdade, só nos expõem ao ridículo, e acendem todas as luzes sobre os nossos defeitos e fraquezas. Elas se unem para esconderem as nossas fortalezas. Definitivamente, não são boas companheiras. Mas elas são ótimas em nos fazerem ver as distorções das formas pintadas por Picasso.

Haja cegueira moral! Como é triste não termos consciência disto. Deixamos de apreciar uma obra, no caso a de Picasso, por conta de não a enxergarmos.

Uma doença da alma, fruto da ignorância. Demonstra a obscuridade que aponta aquilo de misterioso, encoberto e adormecido que há em todos nós.

Finalizo o texto, mas não a reflexão, com uma frase de Clarice Lispector, uma das maiores escritoras da literatura mundial que, certamente, enxergava muitíssimo bem. Suas obras não deixam dúvidas.

“A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos. ”

Pois é, ainda bem que Picasso não deu ouvidos àquele jovem poeta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O arco-íris não vai te esperar

Duas senhoras caminhavam pela rua quando uma delas viu um homem pedindo uma ajuda. Como fazia frio, uma delas resolveu doar o casaco que vestia, imaginando ser esta a melhor forma de ajudá-lo, em função da baixa temperatura.

Observando isto, a outra senhora disse:

- Espere. Vai doar este casaco caro e que você acabou de comprar? Vamos para casa e lá pegaremos outra blusa ou casaco velho, ou até mesmo um cobertor usado, e traremos para ele, aqui.

A outra senhora concordou. E as duas partiram rapidamente para casa. Ao voltarem com o casaco, o homem não se encontrava mais lá. As duas, devidamente vestidas com seus casacos, agora com um a mais, ficaram paradas na calçada, como se isto fosse o suficiente para que aquele homem voltasse. Mas ele não voltou.

Podemos fazer várias leituras sobre esta pequena história. Mas o traço de conversa que quero puxar aqui é sobre as oportunidades de fazermos algo relevante nesta vida, mas que deixamos passar em nome de coisas irrelevantes. Deixamos para amanhã coisas que talvez não sejam mais necessárias, solicitadas, permitidas.  Deixamos para amanhã coisas que fazem sentido serem feitas hoje. É preciso pensar sobre.

Isto não quer dizer que devemos abrir mão da ordem, do planejamento. Isso sempre será necessário e útil para a eficiência de qualquer atitude, compromisso, mudança. O planejamento é fundamental, mas exercer a arte do fazer é crucial para a nossa vida. “Sair fazendo”, definitivamente, não é a melhor opção. Mas esperar demais ou querer que a situação esteja “perfeita” para começar a agir, também não será uma boa opção.

E talvez este tenha sido o erro das duas senhoras. Ficaram tempo demais no planejamento. E quando voltaram, era tarde demais. Sempre há algo para se fazer no momento, na oportunidade. E depois, com mais tempo e calma, efetuar o planejamento. Mas jamais perder a oportunidade. Na cabeça delas, tudo estava planejado: “...vamos para casa, pegamos outras peças de roupas, mais velhas, e voltamos e doamos a ele...”. Simples, não? Pois é, só que elas se esqueceram do principal: de considerarem aquele homem nas etapas planejadas. E quando voltaram, o homem não se encontrava lá. De que adiantou o planejamento? Nada. Planejamento sem ação é um vazio de significados.

Agora é a hora de fazer. Agora é a hora de pensar. Agora é a hora de agir. Agora é a hora de estudar. Agora é a hora do agora. Agora é a hora. A hora é agora. E o significado de agora é “nesta hora”. Portanto, lembre-se: o arco-íris não vai te esperar.

imagem tirada da internet

Aquelas duas senhoras, apesar de terem em mente ajudarem aquele homem, excederam no tempo, passaram do ponto, e perderam a chance de ajudar. Elas queriam fazer uma doação, ajudá-lo, mas desde que a doação fizesse parte dos excessos delas, do supérfluo, e não de algo realmente que importasse a elas.

Aquela blusa a mais nas mãos de uma delas denuncia os excessos, seja de planejamento, seja de atitude. É preciso abrir mão dos excessos, do supérfluo, daquilo que nos aliena do mundo.

Os excessos e o supérfluo nos encastelam. São redomas de vidro criadas por nós próprios. Assim como as privações também têm a mesma força. Eles não podem ser os nossos orientadores, os nossos direcionadores. Caso sejam, ainda ficaremos com muitas blusas nas mãos e deixaremos de ver muitos arcos-íris.

Aproveitar as oportunidades e saber a hora de realizar é saber enxergar o arco-íris. Nem sempre ele virá após uma chuva, mas se estivermos preparados quando ele passar, certamente o enxergaremos. No entanto, se estivermos muito mais preocupados com questões irrelevantes, como qual blusa vamos doar, certamente quando ele passar não estaremos na janela para vê-lo. E quando haverá outra oportunidade? Ninguém sabe. Assim como aquele homem que jamais voltou, na história das duas senhoras.  A oportunidade é agora. E só quem estiver pronto saberá.

Obviamente há que se preocupar com a chuva e saber aonde se abrigar. Ou seja: planejar. Mas o mais importante é saber o que fazer depois de a chuva passar. E tendo isto em mente, aguçaremos os nossos olhares para as oportunidades da vida.

Então, enquanto chover e estivermos aguardando a chegada do arco-íris, é bom sabermos...

- planejar, planejar e planejar. Seremos gratos a nós por isto. Mas não podemos nos esquecer de viver, também. Viver é tão importante quanto planejar;

- buscar o aperfeiçoamento de nossas atividades, e nunca a perfeição, uma vez que ela não existe. Buscar a perfeição é nos perder na nossa vaidade e na nossa arrogância. As imperfeições são bem-vindas;

- pedir desculpas hoje. Não sabemos se teremos outra oportunidade;

- ser feliz hoje. Não sabemos se teremos outra chance;

- valorizar a simplicidade, a honestidade, a lucidez, a humildade, a ética. Somente eles poderão nos mostrar o arco-íris. Sem eles, nem adianta aumentarmos a graduação de nossas lentes;

- abrir mão de ofender e de nos sentir ofendidos: quem ofende é pobre de espírito, e quem se sente o tempo todo ofendido é um vaidoso de plantão;

- construir a nossa base de valores naquilo que é sólido, e não naquilo que é efêmero. Os likes que o digam...;

- ousar desconstruir modelos que não servem mais. Trilhar caminhos não trilhados;

- construir nossa morada para o inverno. Mas não nos esquecer de termos tempo de apreciarmos o sol que bate em nossa janela;

- lembrar de que a racionalidade não pode tomar o lugar da sensibilidade. Quando isto acontece, há o embrutecimento da alma e a nossa sensibilidade se revolta;

- dar continuidade às coisas, mas não nos esquecer das possibilidades;

- lembrar de plantar, mas não nos esquecer de regar. O regar traz esperança;

- abrir mão de coisas que dificultarão enxergarmos o arco-íris;

- colocar mais cores no nosso arco-íris. Quem falou que ele só tem sete cores? Termos sempre, por perto, um baldinho para pintá-lo quantas vezes for necessário. E se manchar alguma cor, usarmos o baldinho de novo;

- acreditar no arco-íris. Insistirmos;

E o principal:

- nunca perdermos a oportunidade de olharmos para cima e enxergarmos o arco-íris que chegou. Precisamos nos lembrar de que ele nunca tocará a campainha para nos avisar. Se quisermos vê-lo, deveremos percebê-lo. E isto é para poucos. Muito poucos. Somente para aqueles que, raramente, têm blusas desnecessárias em mãos.

Para finalizar, deixo uma bela frase de Mário Quintana. Um escritor que certamente foi um apreciador de arco-íris:

“Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo. ”

Portanto, que cada um de nós possa ter racionalidade de ver a chuva, porém sem descuidar da sensibilidade de enxergar e de perceber o arco-íris.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O que nos representa?

Muitas coisas. Nem sempre as coisas que me representam são as mesmas que te representam. Somos representados por coisas afins e distintas; semelhantes e opostas. O dinamismo da vida se dá nisto: nesta singularidade de diferenças de representações; nesta similaridade de forças.

A singularidade de diferenças de nossas representações será vivida e descoberta ao longo de nossa existência, de nossa relação e convivência com o outro. É isto o que também nos constrói e que vamos conhecendo no decorrer da vida. Não há um mapa a respeito, apenas trilhando o caminho é que se conhecerá esta singularidade de diferenças de nossas representações.

Ao passo que a similaridade de forças, que nos constrói da mesma forma, pode ser mais facilmente percebida por meio do comportamento do outro. E a angústia é um exemplo muito forte. Reconhecemos a angústia no outro porque também é facilmente percebida em nós. Percebemos quando o outro está angustiado pelo fato de isto nos ser familiar. Infelizmente ou felizmente, a angústia faz parte da vida, da nossa vida, e é uma velha companheira.

Digo infelizmente porque a sensação da angústia não é agradável. Mas se fizermos as pazes com ela, colheremos bons frutos, uma vez que ela é uma das nossas forças poderosas capazes de nos fazer conversar com as nossas sombras.

Há um poema maravilhoso, de Álvaro de Campos, que retrata bem este tema. Chama-se Esta Velha Angústia.

Esta velha angústia, esta angústia que trago há séculos em mim,

Transbordou da vasilha, em lágrimas, em grandes imaginações,

Em sonhos, em estilo de pesadelo sem terror, em grandes emoções súbitas

sem sentido nenhum.

Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida, com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!

Se ao menos endoidecesse deveras!

Mas não: é este estar entre, este quase, este poder ser que..., Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,

Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.

Estou doido a frio, estou lúcido e louco, estou alheio a tudo e igual a todos:

Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura

Porque não são sonhos. Estou assim... Pobre velha casa da minha infância perdida!

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! Que é do teu menino? Está maluco.

Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? Está maluco.

Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou. Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, por aquele manipanso que havia em casa, lá nessa, trazido de África.

Era feiíssimo, era grotesco, mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer: Júpiter, Jeová, a Humanidade.

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

(Álvaro de Campos, Obra: Poemas. Heterônimo de Fernando Pessoa).

Fernando Pessoa costumava dizer que era impossível ser um só. Daí a criação de vários heterônimos. E Álvaro de Campos é um dos mais conhecidos. Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português do século XIX. Criou heterônimos como extensões dele próprio, que funcionavam como representantes de seus outros “eus”. Apesar de os heterônimos serem autores fictícios, tinham sua personalidade e sua biografia. Heterônimos criados por Fernando Pessoa que, de forma brilhante, fizeram de sua obra uma referência na literatura mundial.

imagem tirada da internet

Encontramos nossos “eus” neste poema. Quem nunca se sentiu angustiado? Impossível.

Alguns filósofos defendem a tese de que a angústia é um sentimento moderno. Mas não sei se concordo. Talvez, no passado, não tínhamos este nome, angústia, mas acredito que ela sempre existiu, obviamente com as características de cada época.

A passagem que diz: “...Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre. Este quase, este poder ser que...”.

Estar entre. Este quase. Este poder ser que.

A angústia nos faz sofrer e fazemos sofrer o outro também. Ela é uma das marcas da nossa condição humana.

Somos complexos porque é muito difícil sermos simples. Vivemos numa inconstância e numa incerteza porque não sabemos quais são as nossas certezas. O que é certo?

A convivência nos é imposta, muitas vezes, por causa da conveniência de uma época. Mas não porque aquilo dá som a nossa voz. As conveniências impostas impedem a nossa expansão.

Eu só não faço o mal porque não tive oportunidade. Mas a intenção estava lá. É angustiante constatar isto. Mas somente quando constato, a oportunidade de mudança se apresenta para mim. É um convite à renovação, à mudança para melhor, porém por caminhos árduos.

A angústia do ser e do se tentar ser alguém.

Vivemos sonhos porque temos dificuldades de construir realidades ou de viver nelas. A imaginação e o sonho ganham forças frente às incertezas e os medos reais.

Pedem criatividade, mas punem os que erram. Só que não existe criação sem erro.

As novas gerações estão sendo reverenciadas como revolucionárias e com a missão de “consertarem” o mundo, mas quem começou a revolução, com todo o respeito, não foram eles. Aliás, foram pessoas que nem aqui estão mais. Dar sequência em algo criado e pensado não pode ser considerado revolucionário. É como caminhar por caminhos trilhados. Mastigar e engolir o pão é completamente diferente de fazer o pão.

É a angústia de assinar uma obra que não foi você quem fez. Aprenda a admirá-la primeiramente, depois certamente você terá seus créditos. Mas numa obra sua.

Exigimos protagonismo do outro, mas o que é ser protagonista? Não é ser o centro das atenções e ter o papel principal. Isto só funciona nas novelas e nos filmes. Ser protagonista é ter maturidade e responsabilidade na vida. Encarar as subidas, as descidas e os atolamentos dos pneus com a mesma disposição.

E ser coadjuvante? É saber a hora de se calar quando o outro precisar falar; é saber ceder o seu lugar para quem mais precisar sentar; é saber pedir desculpas a alguém. É saber abrir mão do seu desejo em prol do que é melhor para o grupo. É entender o seu papel no mundo e ter, na humildade, uma aliada e não uma propaganda para sua vaidade.

O que importa é a construção da obra que se dá por meio das duas forças: protagonista e coadjuvante. Portanto, as duas são necessárias.

Somos cobrados por coisas que não estamos preparados para dar. Mas não querem, muitas vezes, receber o que estamos preparados para dar. Por isto somos angustiados. Nossa sociedade é uma sociedade angustiada, vivendo em meio ao caos, à mistura de sensações. Vivemos tentando nos adequar em meio as nossas inadequações. Somos maiores do que os espaços que, muitas vezes, nos dão. E nos apertamos nos espaços. Isto é angustiante.

Passos iguais e passos adversos. Ora na igualdade; ora na adversidade. Reconhecemo-nos nas nossas representatividades de alegrias e de dores.  Nas diferenças e nas igualdades, somos únicos no nosso sentir, somos únicos no expressar aquilo que nos representa.

A angústia é uma força, porém precisamos enxergá-la como tal. Querer ganhar é saudável, mas querer ganhar sempre é doentio. Esta busca pelo inacessível (ganhar sempre) é o que nos angustia. Somos cobrados por vencer e ganhar troféus concretos. Mas não somos incentivados a vencermos e a ganharmos troféus intangíveis. Isto não cabe na nossa sociedade. Não há muito espaço para esta conversa.

É preciso usar a angústia como uma ferramenta de busca por nós mesmos. Valorizar o intangível. Aquilo que não se mede. O controle é importante, mas em excesso angustia. Querer ter todas as respostas angustia.

Usamos a angústia contra nós, e não a favor. E isto não é um sinal de inteligência. Estamos tão avançados no que se copia, como as commodities, e tão imersos no primitivismo daquilo que nos forma, como a ética, os valores, a relação com o outro. Temos uma relação de submissão com muitas coisas. Porém é preciso construir uma relação de troca, e sairmos desta submissão. Construir esta migração angustia porque não se aprende isto nos livros, só na vida.

Quando usamos a angústia a nosso favor e a favor do outro, construímos. Quando usamos a angústia contra nós e contra o próximo, destruímos. Aquilo que nos constrói nos destrói. E isto parte do sentimento de angústia, de nos sentir ameaçados, de não sabermos o caminho a seguir. É preciso criar mecanismos que nos façam enxergar o diferente apenas como diferente e não como inimigo, para que a gente não queira destruí-lo.

A angústia se dá porque não há fronteiras, não há métodos. Para muitas coisas não há regulação. Precisamos saber lidar com as nossas inquietudes, com as nossas sombras, com as nossas dualidades. Isto é a vida. E isto angustia.

É preciso valorizar a caminhada e não só a chegada. Querer ser o campeão é louvável, saudável e mais que isto: é uma busca plausível daqueles que querem se superar. Mas saber que a vida também é feita de vice-campeonatos e saber aplaudir, de verdade, quem chegar em primeiro lugar, é nobre. E somente aquele que aceita a força da angústia como ferramenta de autodescobrimento e de autodesenvolvimento conseguirá fazer isto.

Encerro o texto com uma frase de Fernando Pessoa, que diz:

“É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. ”

E uma das nossas companheiras no tempo da travessia será, certamente, a angústia. Se soubermos respeitá-la e acolhê-la, ela nos mostrará belas paisagens quando chegarmos.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Tirando satisfações com La Fontaine

Era uma vez...

...uma formiga e uma cigarra muito amigas. Durante o outono, a formiga trabalhou sem parar, armazenando comida para o inverno. Não aproveitou o sol, a brisa suave do fim da tarde e nem o papo com os amigos.

Enquanto isto, a cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos e nos bares da cidade. Cantou durante todo o outono, dançou, aproveitou o sol e curtiu para valer, mesmo sabendo da proximidade do inverno.

Alguns dias se passaram, e o tempo começou a esfriar. Era o inverno começando.

A formiga, exausta, entrou para a sua singela e aconchegante toca, repleta de comida.

Mas alguém a chamava do lado de fora da toca.

Quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu. Sua amiga cigarra estava dentro de uma Ferrari com um aconchegante casaco de vison. E disse para a formiga:

- Olá, amiga, vou passar o inverno em Paris. Será que você poderia cuidar da minha toca? E a formiga respondeu:

- Claro, sem problemas! Mas o que aconteceu? Como você conseguiu dinheiro para ir a Paris, ter este carro e estas roupas?

E a cigarra respondeu:

-Imagine você que eu estava cantando em um bar na semana passada, e um produtor gostou da minha voz. Fechei um contrato de seis meses para fazer show em Paris. Foi isto o que aconteceu. A propósito: você quer alguma coisa de lá?

- Sim, claro, quero sim, respondeu a formiga. Caso você encontrar o La Fontaine por lá, manda ele ir para...!

Após o momento “riso”, sabemos que esta não é a história original escrita por La Fontaine, um famoso poeta e fabulista francês que viveu no século XVII. Na história original, quando o inverno chega, a cigarra, sem abrigo e sem alimento, pede ajuda à formiga que, ao contrário dela, tudo fez para se preparar. Por isto ela tinha abrigo e alimento. E o ensinamento é este: a de que precisamos nos preparar para os invernos da vida. Concordamos com isto. E apesar de sabermos que o ensinamento da fábula está correto (preparar-se, ter foco e planejamento), é muito importante que a gente não se esqueça de que não vivemos num mundo perfeito, ou seja, em muitos momentos vamos nos preparar, vamos nos planejar, e simplesmente alguém mudará as regras. E aí? O que faremos com todo o nosso planejamento? E se o inverno não chegar? O que faremos com todo o estoque da nossa comida? Se a dividirmos com alguém será um bom começo...

Ao lermos esta divertida versão moderna da fábula, muitas reflexões podem ser feitas. Eu diria até que esta nova versão foi bastante irônica, muito além de divertida.

A formiga se preparou demais, lutou, estabeleceu metas, abriu mão do descanso, da diversão, teve foco e planejamento. Ao chegar o inverno, foi recompensada: tinha abrigo quente e armários cheios de alimentos. Por que, então, ela se revoltou, se ela fez tudo certinho e, ao chegar o inverno, estava com tudo pronto? Ela não deveria estar feliz por ter dado certo o seu planejamento, cuidadosamente dividido em etapas?

Ela se revoltou porque, apesar de todo o seu esforço, cansaço e trabalho terem permitido que ela construísse uma base sólida para o seu inverno, a cigarra fez absolutamente tudo ao contrário, e simplesmente tirou a “sorte grande”, na visão da formiga. No fundo, lá no fundinho, a formiga acreditou que estava fazendo o que era certo. Ela esperava que a cigarra se desse mal por não ter se preparado o tanto que ela se preparou. Portanto, criou a falsa expectativa de que se sairia melhor do que a cigarra por ter seguido as regras, a ordem, o planejamento. Afinal não é o correto? Pode até ser, mas não foi o que aconteceu.

Fiquei pensando na palavra expectativa: espera. Expectativa é esperar por algo. Mas este “algo” pode não ocorrer. Acho que foi isto o que fez a formiga se revoltar. Se ela tivesse feito todo o seu trabalho com convicção e acreditando ser este o melhor, e não somente por obrigação, como foi o caso, talvez ela tivesse se revoltado menos. Inúmeras serão as vezes as quais nos sacrificaremos por algo, e simplesmente alguém irá nos dizer: “ah, te agradeço, mas não será mais preciso...”.

Preparar-se é fundamental, e neste preparo, infelizmente, vamos precisar abrir mão de muitas coisas. Faz parte do processo. Porém, é preciso conscientizar-se de que abrir mão de coisas na vida em prol de outras é arriscar-se ao engano, ao erro, ao não dar certo. Nem sempre o fato de seguirmos as regras, seguirmos o planejado fará que nosso plano dê certo. Pode ser que sim, pode ser que não. Porém se tivermos esta consciência de que correr riscos é inerente a qualquer processo da vida, e nos preparar para minimizá-los, termos planos alternativos e saídas “de emergência”, certamente se alguém, repentinamente, mudar as regras do jogo, estaremos fortalecidos para seguirmos para o nosso próximo plano. E foi o que faltou à formiga. Ela não tinha um próximo plano. Ela acreditou, exclusivamente, numa execução de um plano que sempre vinha dando certo. E ver alguém se “dando bem” sem fazer muito esforço foi motivo de revolta. A formiga tinha razão nesta parte. Mas na vida nem tudo acontece com a justiça que esperamos. Portanto é preciso estar preparado.

Um outro ponto que também faltou à formiga foi ficar extremamente apegada ao processo, às regras. É muito importante ter uma visão do todo, delegar, acreditar no intangível, no mágico, naquele “milagre” que acontece nas nossas vidas, e que não sabemos explicá-lo. É preciso acreditar naquela mão que nos alcança, mas que não sabemos de onde ela veio. Dar um pouco de leveza à vida, que foi o que a cigarra fez.

A cigarra, apesar da sua irresponsabilidade de deixar tudo na mão do acaso, uma coisa fez de certo: acreditou nela (sabia cantar) e expôs o seu talento acreditando que alguém pudesse descobri-lo, que foi o que aconteceu. Isto é fundamental. Acreditar na gente, mesmo que todos digam o contrário e que tudo esteja contra nós. Nunca podemos deixar de acreditar em nós. A cigarra acreditou nela; a formiga acreditou no processo. Estes dois pontos são essenciais para que as coisas funcionem, e funcionem bem. Porém estes dois itens precisam caminhar juntos, e não apartados. Portanto, se a formiga tivesse acreditado nela e no seu talento, além de tudo já realizado, talvez não tivesse se revoltado.

A formiga e a cigarra somos nós. Sempre. Temos as duas dentro de nós. Ora uma, ora outra. O bem e o mal. A questão é: a quem alimentamos mais? Acredito que o mais importante seja a consciência sobre isto, para que possamos aproveitar o melhor que cada uma delas poderá nos proporcionar.

Reflexões sobre o texto:

- nem sempre, ao nos esforçar, seremos reconhecidos e recompensados;

- saber lidar com a frustração é uma sabedoria. O grau da nossa frustração está totalmente ligado ao tamanho da nossa expectativa. A nossa expectativa deve ser realista. Pense nisto;

- quanto mais realista for a nossa expectativa, o nosso objetivo, a nossa meta, o nosso plano, menor será a nossa frustração. O realista considera os riscos e as chances de aquilo não acontecer ou de não dar certo;

- lembre-se: risco não se evita, se administra. Seria importante as Empresas saberem disto também. Querem inovação e criatividade, porém sem erros, sem riscos, de preferência;

- buscar o equilíbrio: nem a escassez (formiga) e nem o excesso (cigarra);

- o texto faz uma sátira ao padrão existente: isto é certo; isto é errado. É preciso se lembrar do contexto que transforma o certo em errado e vice-versa;

- fundamental andar por caminhos não trilhados e aceitar que não podemos controlar tudo na vida. Acreditar nos “milagres” e principalmente em nós;

- a formiga, na sociedade, é vista como a mocinha, o modelo correto a se seguir; a cigarra como a vilã, a irresponsável, o modelo a não se seguir. Não há esta segmentação: mocinho e bandido. Somos esta dualidade. O mocinho, por si só, não consegue se sustentar; idem para o vilão. Trafegamos pela bondade e pela vilania, mesmo que disfarçadamente;

- é fundamental colocar o lúdico em nossas interações, na nossa vida. O humor dá cor e nos ajuda a pensar e a refletir sobre as nossas sombras. Se não tivéssemos lido esta sátira em forma de fábula, talvez não pensássemos em todas estas reflexões;

- precisamos mergulhar nas nossas sombras. E estes textos nos fazem conversar com elas;

- essencial dar mais leveza para as nossas relações conosco e com o nosso próximo;

- a formiga é silenciosa; a cigarra faz questão de que todos ouçam o seu canto. Silêncio e voz: duas forças que se misturam e que nos formam. É preciso pensar nisto, também;

- é preciso cuidar do caminho a ser percorrido, porém valorizar o tanto que já se andou.

Enfim, muitos foram os aprendizados, as reflexões e as lições. E é preciso enfrentá-los, nem sempre com facilidade, nem sempre com bússola, nem sempre com coragem. Mas, como diz um maravilhoso provérbio africano:

“Mares tranquilos não produzem bons marinheiros. ”

Que nos lembremos das nossas formigas e das nossas cigarras internas em nossas viagens pela vida, seja por terra ou por mar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Você tem um bom alfaiate para indicar?

Algumas pessoas podem te olhar de forma estranha se ouvirem você dizer que frequenta boas alfaiatarias. Ainda mais em tempos de fast, likes, zap-zap e afins. É tudo tão corrido, tão irritantemente urgente que dizer que vai a um alfaiate é, no mínimo, sujeitar-se a receber um maldoso comentário: “nossa, isso ainda existe? ” ou “por que você não compra uma roupa pronta? É mais fácil. ”

Claro que é mais fácil, e mais descartável também. Mas somente aprendemos esta lição quando a roupa se desgasta.

Comprar roupas prontas é bom e necessário. Já imaginou fazer todas as suas roupas com uma costureira ou com um alfaiate? Inviável em todos os sentidos.

Mas eu diria que, em momentos ímpares de nossas vidas, fazer algumas roupas com a costureira ou com um excelente alfaiate seria imprescindível para todos nós.

Mas quem está preocupado com isso, se é tão chique ter uma agenda cheia de compromissos? Muitas pessoas se sentem bem com agendas cheias. Há um falso paradigma de que, desta forma, serão consideradas necessárias e importantes: #façopartedacorreria!

Falando sobre isto, me lembro de duas palavras: poder e vaidade. Mais do que palavras, elas ditam costumes e culturas desde a antiguidade. Fazem parte de nós. Em alguns mais; em outros menos. Mas fazem parte de nós. Acho que história abaixo ilustra bem este raciocínio:

O Mandarim e o Alfaiate
Um dia, um homem recebeu a notícia de que tinha sido nomeado mandarim.

Ficou tão eufórico que quase não se conteve.

- Serei um grande homem agora, disse a um amigo. Preciso de roupas novas imediatamente. Roupas que façam jus à minha nova posição na vida.

- Conheço o alfaiate perfeito para você, replicou o amigo. É um velho sábio que sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Vou lhe dar o endereço.

E o novo mandarim foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou as suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o homem disse:

- Há mais uma informação que preciso ter. Há quanto tempo o senhor é mandarim?

- Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu manto? Perguntou o cliente surpreso.

- Não posso fazê-lo sem obter esta informação, senhor. É que mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, quando está ocupado com seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, e ele olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir, aí então eu costuro o manto de modo que a parte da frente e a de trás tenham o mesmo comprimento. E mais tarde, depois que seu corpo está curvado pela idade e pelos anos de trabalho cansativo, sem mencionar a humildade adquirida por meio de uma vida de esforços, então faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto, tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente.

O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais no motivo que levara seu amigo a mandá-lo procurar exatamente aquele alfaiate.

Esta história foi retirada do livro “O livro das Virtudes II - O Compasso Moral”, de William J. Bennett, cuja reflexão cabe a todos nós e é de uma mensagem atemporal.

O mandarim vivia nos antigos impérios da China, pertencia à classe dos letrados. Era geralmente uma pessoa importante e influente. Agora começamos a entender porque ele queria roupas novas...

imagem tirada da internet

...ainda bem que ele foi a um sábio alfaiate que ensinou a ele valiosas lições sobre a inutilidade da vaidade para as nossas vidas. Além da cegueira que o poder nos traz, se mal utilizado.

imagem tirada da internet

Aliás, se pesquisarmos a origem da palavra vaidade, ela possui uma raiz latina, que se escreve vanus, e que significa “vazio, ocioso”; e outra raiz indo-europeia (que era utilizada antes do latim, em tempos remotíssimos), que se escreve wa-no-, que significa “deixar, abandonar, desistir”. Esta palavra também traz outro significado, agora em hebraico, que é: qualquer coisa invisível que logo desaparece.

Por essas e outras, ainda bem que, mesmo em tempos de fast, o alfaiate e a costureira persistem. Sábios eles. Todos precisam de alfaiates e de costureiras porque a vaidade está presente em todos nós, sem exceções.

E para aqueles que se julgam modestos, sem vaidades, Mário Quintana, um dos maiores poetas da Literatura, tem uma resposta:

“A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta. ”

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Melhores Empresas para se trabalhar. Mas para quem?

Existem pesquisas que medem o clima interno de uma organização, o ambiente de trabalho, a cultura e a marca. O resultado, chamado de diagnóstico, é uma “foto” que mostra, em números e em comentários, o que vai bem e o que não vai tão bem assim. Mostra possíveis falhas de processos, distorções da liderança, distorções comportamentais, aquilo que deve ser mantido e o que deve ser mudado para que a empresa, de verdade, se torne um dos melhores lugares para se trabalhar, e não somente no título.

É imprescindível medir, avaliar. Somente aquilo que se mede pode ser gerenciado. Portanto, não há nada de errado com as pesquisas nem com os institutos responsáveis.

Questiono, no entanto, até que ponto somos sinceros ao respondê-la? Estamos falando o que precisa ser dito, ou por medo de retaliação suavizamos as nossas respostas?

Dependendo do ambiente no qual se trabalha, dizer a verdade, nestas pesquisas, assim como fora dela, é assinar a carta de demissão. É ser bombardeado, injustamente, num feedback. É sujeitar-se a ser colocado de lado na próxima promoção, é ser incluído em projetos irrelevantes. Além do clássico assédio moral, que sempre existiu. Apesar da confidencialidade das respostas, dependendo da índole do gestor, ele poderá travar uma perseguição aos colaboradores se ele teve a sua área mal avaliada, inclusive a sua própria gestão. Assédios e desconfianças são métodos bem utilizados por este tipo de gestor.

Em empresas preocupadas em aparecerem nas revistas como uma das melhores para se trabalhar, que privilegiam maus líderes, que dão autonomia e poder para as pessoas erradas e que querem manter o estatus de empresa “sólida” perante à sociedade, como dizer a verdade? A pressão que a vaidade exerce sobre estas empresas obrigará, indiretamente, a equipe se posicionar de forma cética, o que comprometerá o resultado por meio de respostas que não correspondam à realidade. Dar apenas respostas positivas sobre a empresa e sobre o gestor passará a ser uma constante.

Caso a verdade fosse, de verdade, dita, que riqueza de diagnóstico estas empresas teriam. Porém, a vaidade as impede de olharem para os “números ruins e baixos” como uma forte contribuição para o fortalecimento da empresa, para a sustentabilidade do negócio.

Em minha experiência profissional, estas pesquisas sempre foram realizadas, porém com baixo aproveitamento. A cada ano, tanto pesquisas internas (para verificar o clima organizacional) quanto externas (para a participação no ranking das melhores para trabalhar) eram realizadas.

Curiosamente, a empresa sempre apresentava, na maior parte do resultado, um bom clima organizacional, e quanto à pesquisa externa, sempre figurava entre as melhores para se trabalhar. Mas internamente os problemas eram inúmeros e a insatisfação era muito grande também. No mínimo, paradoxal.  Na mesma semana em que a Empresa figurava no ranking das melhores, ela engordava a fila dos doentes ou demitia vários injustamente, mal avaliados por mau gestores. E por quê? Porque existia e ainda existe um abismo entre aquilo que se diz versus aquilo que se pratica. A velha máxima “para Inglês ver”, tristemente, ainda impera e muito.

Uma vez uma área apresentou índice de satisfação de 90% em relação ao gestor, na pesquisa interna de clima. Porém, esta era uma das áreas que mais apresentava desarmonia e reclamações. Como isto foi possível? Permitindo que maus Líderes e gestores ocupassem cadeiras de liderança.

Conversando reservadamente com cada colaborador da equipe, descobrimos que o “Líder” ameaçava, veladamente, as pessoas, para que respondessem coisas positivas. E como é difícil desligar um mau Líder. A gestão de consequência existe, mas o processo é lento, insuficiente e muitas vezes injusto. Por medo e por sobrevivência, as pessoas respondiam ao que aquele gestor queria ouvir: que sua área estava ótima e que todos estavam felizes e satisfeitos. Este falso resultado teve uma série de impactos:

- planos de ação foram tomados com base em resultados falsos;

- a área e o gestor foram considerados benchmarks;

- o Diretor e o Vice-Presidente ganharam mais bônus em função dos resultados;

- ceticismo por parte de colaboradores que conheciam a realidade desta área. Começaram a questionar os resultados e a própria pesquisa. As áreas que visivelmente diziam a verdade, nos falavam: “então a área que mente é quem ganha o destaque? ” ou “o jeito, então, é dizer que está tudo bem. Assim ninguém vem atrás da gente. ”

Infelizmente foram muitos os exemplos presenciados.  Como denunciar isto se o sistema interno é falido e privilegia o estatus e a vaidade? Não podemos responsabilizar somente aquele que não fala a verdade, por medo e por retaliação. A pesquisa, em si, é isenta. Mas ela vai apresentar um diagnóstico com base nas respostas trazidas, ou seja, se as respostas não corresponderem à realidade, o resultado também não corresponderá. Quer exemplo maior de contrassenso? E isto é uma realidade em muitas empresas.

Muitas empresas e falsos Líderes não estão dispostos a ouvirem a verdade. O ambiente interno não é saudável, é constrangedor, sufocante, opressor, o que faz que os colaboradores tenham medo de dizer a verdade.

Num ambiente opressor, é natural buscarmos nossa sobrevivência, e um dos métodos que utilizamos para sobreviver é ...mentir. Não é o certo, claro, mas ele existe e fazemos parte disto. Mentimos porque precisamos do salário, por conveniência, porque não queremos nos expor e por sobrevivência.

Outro exemplo: uma diretoria teve um resultado ruim. Ao receber os resultados, o Diretor simplesmente disse que a pesquisa estava errada. E queria, de todas as formas, identificar quem havia respondido tão mal assim. Obviamente as respostas não foram abertas devido à confidencialidade, mas a perseguição que os colaboradores daquela área sofreram foi desumana. E aquele Líder? Deve estar lá até hoje, infelizmente.

Misteriosamente, no ano seguinte, a área dele foi para 80% de aprovação. Por isso fiz a pergunta: melhores empresas para se trabalhar. Mas para quem?

Outras péssimas atitudes de gestores que presenciei em épocas de pesquisas de clima organizacional e demais pesquisas externas:

- inibir a liberdade de expressão: “Alguém quer ajuda para responder a pesquisa? ”;

- sentar-se ao lado do colaborador e dizer que irá ajudá-lo a responder, e assim, “terminamos logo com isto”;

- dizer à equipe: “olhem lá, se a gente tiver um resultado ruim, já sabem...”;

- dizer à equipe: “pessoal, notas 4 e 5 em tudo...” (e dava aquela risada...). Lembrando que notas 4 e 5 são as melhores, numa escala de 1 a 5 em ordem crescente;

- dizer à equipe: “se vocês me avaliarem mal, nossa área ficará mal colocada e talvez seja necessário demitir pessoas...”

Presenciei tanto situações nas quais os gestores aceitaram a verdade, e mesmo com resultados ruins fizeram um brilhante trabalho. E casos tenebrosos de ameaças, assédios morais e retaliações, acarretando o adoecimento de muitas pessoas.

E aí você poderá dizer: “mas por que estas pessoas não denunciaram isto? ” É fácil falar do outro lado da tela... ainda mais com a subjetividade que impede de provar tantas coisas.

Isto tudo me remete a duas coisas: à falta da verdadeira Liderança e à forte valorização da vaidade e do estatus, que cegam as organizações. Muitos maus líderes são excelentes técnicos, conhecem muito do trabalho, mas são vaidosos, prepotentes, arrogantes, não servem para liderar pessoas. Porém, em função das elevadas performances técnicas e financeiras que estas pessoas muitas vezes têm, perpetuam maus exemplos. E os líderes que estão acima destes fazem “vistas grossas” porque, no fundo, lá no fundo, também acreditam neste modelo.

O verdadeiro Líder é um servidor. Usa o seu poder e a sua autoridade para servir e para fazer melhor o ambiente para todos. O mau Líder está mais preocupado com o bom resultado da pesquisa (assim a sua imagem é preservada) do que com o bem-estar, o bom ambiente. Esta imaturidade é danosa a qualquer organização.

“Cuidar de gente dá muito trabalho”, cansei de ouvir isto de Líderes que apenas eram no título, muito longe da atitude. Como ser um Líder se não gostar de gente? A pergunta que fica é: quem colocou esta pessoa lá? Ouvia sempre a frase: “o negócio é performance. Se der tempo, cuidamos de gente. ”

Isto explica porque, ano após ano, muitas empresas gastam dinheiro, tempo e energia em pesquisas, que sempre, ou quase, apresentam os mesmos problemas. Enquanto o medo e a desconfiança estiverem presentes nos ambientes das empresas e forem mais fortes do que a vontade e disposição para, de verdade, construir um ambiente saudável de se trabalhar, arrisco em dizer que estas pesquisas pouco poderão contribuir.

Num outro exemplo que vivi, numa das pesquisas, a empresa não tinha tido o mínimo de respostas para poder passar para a próxima fase. E as pessoas não responderam porque não quiseram responder. Aquilo era falso. Quer diagnóstico melhor? Foi então que o Diretor entrou na área e disse para pararmos tudo o que estávamos fazendo e respondermos a pesquisa. Disse que seria “vergonhoso” a Empresa X (disse o nome da Empresa) não fazer parte das melhores.

Preciso dizer o que fizemos? Paramos o que estávamos fazendo e respondemos. Nunca respondi a um questionário de forma tão rápida e me sentindo tão pequena. Pequena por não poder fazer absolutamente nada, pelo menos não naquele momento.

Há um custo de imagem e de vaidade para a Empresa que não participa do “seleto” grupo das melhores. Depois entendi a atitude daquele Diretor que até hoje me pergunto o que ele fazia lá. Mas enfim...

Estar em uma das melhores empresas para se trabalhar vai muito além de benefícios e questões materiais: estamos falando de respeito, de felicidade, engajamento, querer estar lá, coisas muito difíceis de se medir. Estamos falando de subjetividade. Por isto questiono.

Ser uma das melhores empresas para se trabalhar está muito além de uma pesquisa. O diagnóstico deve ser diário, e não anual. Num mundo no qual se prevalece a cultura do parecer e não a do ser, não é de se espantar a enorme preocupação em fazer parte destes números.

Melhores Empresas para se trabalhar. Mas para quem?

Teremos diversas respostas, menos “Para todos”. E se ainda não temos como resposta “Para todos”, a empresa pode até ter seus méritos, mas daí a dizer que é uma das melhores para se trabalhar, existe uma longa distância.

domingo, 6 de setembro de 2015

O homem sábio

O homem sábio é um homem de bem. Não se preocupa com o perdão porque nunca se ofende. Sempre tem tempo porque faz o que precisa.

Contrata pela competência e não pelo marketing pessoal. Não fala o seu cargo porque, de verdade, isto pouco importa. O homem de bem sabe disto.

O homem sábio não faz questão de chegar primeiro porque sabe que isto não quer dizer muita coisa. Não menospreza o seu semelhante. Valoriza o conhecimento alheio e busca aprender com ele.

O homem sábio pede desculpas quando erra; o homem arrogante diz: “não foi minha culpa”.

O homem sábio dá a passagem e, às vezes, pede passagem; o homem arrogante só pede passagem.

O homem sábio não se vangloria de suas conquistas porque sabe que elas não são somente suas; o homem arrogante se esbarra com outro arrogante para ver quem fica com os louros de uma vitória que pouco ou nada ele participou.

O homem sábio se coloca pequeno para poder se tornar grande; o homem arrogante se enxerga grande dentro de sua pequenez.

O homem sábio enaltece a qualidade do outro; o homem arrogante só consegue enxergar qualidades nele. A qualidade do outro é sempre menor ou foi “pura sorte”.

O homem sábio se engrandece a cada dia; o homem arrogante se embrutece a cada dia.

O homem sábio constrói pontes para permitir que outras pessoas passem; o homem arrogante destrói a ponte que o ajudou a caminhar e a chegar até ali.

O homem sábio serve; o homem arrogante quer ser servido.

O homem sábio sobe a escada e dá a mão para quem está lá embaixo; o homem arrogante sobe a escada e a empurra para que ninguém mais suba.

O homem sábio pergunta e valoriza a pergunta; o homem arrogante acha que responde porque só valoriza as respostas.

O homem sábio descomplica o que o homem arrogante complica.

O homem sábio, quando líder, eleva o seu time e ressalta o que de melhor cada um tem e pode oferecer. Sua conjugação preferida é: “nós fizemos; nós conquistamos. ”

O homem arrogante, que não deveria ser líder, impõe pelo medo, ressalta os erros e expõe o time a retaliações. Sua conjugação preferida é: “eu fiz”; “a equipe errou”.

O homem sábio valoriza a essência; o homem arrogante valoriza a aparência.

Sabedoria e arrogância: duas faces da mesma moeda.

O homem sábio alimenta os sonhos do próximo; o homem arrogante exige que os seus sonhos sejam realizados e os de mais ninguém.

O homem sábio enxerga o que ninguém vê; ouve o que não é dito; sente o que não se expressa; o arrogante é alheio à sensibilidade dos atos, palavras e sentimentos dos outros.

O homem sábio diz: “um por todos, todos por um”. O homem arrogante diz: “cada um por si e Deus por todos”.

O homem sábio sabe. O homem arrogante não sabe, mas diz que sabe. E o pior é que tem gente que acredita.

O homem sábio é verdadeiro. O homem arrogante se sustenta na ilusão de que nunca será pego de calças curtas.

O homem sábio aperta a mão do outro e olha nos olhos. O homem arrogante analisa de quem é a mão para ver se compensa apertá-la.

O homem sábio preza a educação e perpetua exemplos edificantes. O homem arrogante preza o nome da faculdade e perpetua exemplos destrutivos.

O homem sábio diz: “como posso ajudar? ”. O homem arrogante diz: “faça isto para mim”.

O homem sábio é livre e por ser livre é feliz. Ele já entendeu que a liberdade é instrumento de felicidade: da verdadeira felicidade.

O homem arrogante é prisioneiro. E por ser prisioneiro de falsos modelos, é infeliz.

O homem sábio ajuda a construir, valoriza a travessia e acende a luz, ao anoitecer, para clarear o caminho de quem passar.

O homem arrogante valoriza a construção pronta, tem aversão à travessia e não acende a luz porque não sabe o que é isto.

O homem sábio não se deixa levar pelos elogios porque sabe que amanhã virão as críticas. O homem sábio fortalece o seu Ser no mundo para ter ainda mais sabedoria.

O homem sábio é aquele que anda no pântano, mas não se suja. É aquele que compreende. O arrogante se suja, mas não consegue enxergar aonde a sujeira começou.

O homem sábio não se vende porque sabe o seu valor. O homem arrogante se vende porque não conhece a diferença entre preço e valor.

O homem sábio se comunica de forma que todos o compreendam. O homem arrogante fala difícil porque quer aparecer.

A arrogância faz você andar em círculos, não te deixa livre porque você precisará sempre estar preso às fontes que te iniciaram na arrogância. E se você deixar de alimentá-las, simplesmente por presunção, esteja certo de que elas vão te cobrar.

A sabedoria faz você andar livre e em linha reta. Deixa você livre para se conectar com as fontes que fazem sentido para você. O sábio sabe que o alimento dele vem do outro e dele também.

O homem sábio não briga pelos confetes porque sabe que eles vão se desfazer com a mesma facilidade de uma bolinha de sabão.

O arrogante dá trombada no outro para que os confetes caiam sobre a cabeça dele. E quando não restar mais um confete para contar história, ele estará tão perdido que precisará, ainda, de mais confetes para dar conta da sua insignificância.

O confete constrói um castelo de areia. Somente o caráter fortalecido pela luta de não acreditar nos confetes sabe disto.

O reconhecimento é importante desde que não venha em formato de confetes.

O homem sábio aproveita a sua vida e o seu tempo. Sempre tem tempo porque faz o que precisa.

O arrogante está longe de pensar assim. Está sempre ocupado demais para se enxergar. Quer que os outros o enxerguem. Nunca tem tempo e está fazendo somente o que não precisa.

O homem sábio sempre sabe a saída. O arrogante, numa bifurcação, se sente um injustiçado.

A sabedoria é construída. Cada passo e cada degrau são fundamentais para esta construção. Subir estes degraus é o convite da vida. Não dá para pulá-los. Só mesmo colocando um calçado leve, uma roupa confortável e encarar a subida.

Não há outro caminho para a sabedoria.

E o arrogante? Ah, sim, ele está na escada rolante ao lado da escada, com degraus, que você está subindo. E quem será que, de verdade, chegará primeiro? Quem estiver subindo a escada, com degraus, saberá a resposta.