segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Vaias não são apenas vaias

imagem tirada da internet

Na semana passada, numa competição de esgrima, uma atleta brasileira lutava com uma francesa, nas Olimpíadas do Rio.

Durante a luta, ouve-se uma vaia do público: “Fura ela”. Em outras lutas também foram ouvidas vaias como “aqui é favela”, “se não der com a espada, vai com a faca mesmo”.

Vaiar, no sentido geral, é dizer, por meio de um barulho ensurdecedor, que não gostamos de alguma coisa, pessoa, atitude. Que não concordamos com determinadas situações.

Uma forma de protesto. Uma forma de expressão. Um traço cultural.

No lugar de vaias, nossa forma de protestar poderia ser a argumentação, o propósito e o ideal. Sem gritarias. Sem barulhos. Mas sim com silêncio, foco e determinação. Porém, ainda precisamos das vaias como representantes de nossos discursos, de nossos enunciados. O barulho ainda faz parte para que possamos ser ouvidos.

Quando trazemos o assunto para o esporte, a vaia toma proporções exageradas. Bem exageradas. Toma outro rumo de conversa. Saímos do escopo somente da expressão e do protesto. Tratamos o adversário como inimigo. Não somos capazes, pelo menos não temos sido, de simplesmente torcer por nossos atletas e respeitar o outro que disputa a mesma competição. Não somos capazes de valorizar este momento e o talento alheio.

Quando colocamos a nossa atenção no melhor do outro, sem querer destruí-lo, uma excelente oportunidade de melhorar as nossas marcas pessoais surge em nossas experiências.

Se o adversário não existisse, qual o sentido da competição? Ainda não somos uma sociedade de  cooperação, mas sim de competição. Portanto, ela ainda faz sentido desde que pautada na ética e no respeito. E respeitar o adversário é dar o melhor de nós, seja como competidores ou como expectadores.

Como competidores, estamos dando o nosso melhor. É visível. Porém, como expectadores, nem sempre. Muitos aplaudem e respeitam o trabalho do adversário. Mas, infelizmente, outros não. A falta de educação, em todos os níveis, ainda é fortemente presente na nossa sociedade. E no caso, agora, nas arquibancadas dos estádios.

Há limite entre o que pode ser dito x saber a hora de se calar? Há diferença entre torcida x vandalismo? Há diferença entre querer ganhar x desejar o mal do outro? Certamente sabemos todas estas respostas. Ninguém precisa nos dizer o que fazer. Resta-nos fazer.

Vaiar é algo antigo. Muito antigo. Não é criação nossa.

A questão toda é o equilíbrio. Palavra presente no discurso e ausente na atitude. E isto ainda nos falta e muito: equilíbrio. Saber a hora de se colocar, de falar e, principalmente, de se calar é uma arte. A placa com a inscrição “Silêncio” queimou, numa das competições, devido a tantos acionamentos da comissão organizadora. E mesmo assim, não fizemos silêncio.

Não queremos ser monges nas arquibancadas, sem absolutamente querer ofendê-los. Pelo contrário. Uma vaia saudável, se é que podemos chamá-la assim, faz parte da brincadeira. No entanto, desejar que uma de nossas nadadoras se afogasse, que o adversário de Arthur Zanetti caísse e desejos que a esgrimista brasileira furasse a adversária são o reflexo do que nos falta. E nos falta muito e de tudo.

Somos um povo que busca dar certo. Buscamos o acerto. Somos lutadores e desbravadores. Somos um povo que faz do riso uma ferramenta de vida. Somos um povo que não teme a reinvenção de si mesmo. Mas precisamos honrar nossas conquistas. Porém não é desta forma que conseguiremos. Um jornal americano só faltou nos chamar de selvagens. O restante ele fez. Sabemos que eles também têm os problemas deles, mas queremos saber dos nossos problemas que, a propósito, são muitos.

Precisamos aprender a nos calar quando a vida pede ou, no caso, quando o jogo pede. É respeitoso. É amável. É educado. É preciso.

Querer que a atleta fure os olhos da adversária me remete àqueles tempos dos gladiadores dos filmes romanos. Aqueles homens, no meio das arenas, tinham, como única opção, matarem os seus opositores. Caso contrário, eles morreriam. Um somente podia sair vivo.

O que mudou de lá para cá? Talvez as cadeiras das novas arenas. As de antigamente eram de concreto, nada confortáveis. As de hoje são mais confortáveis. Infelizmente, o sentimento de querer que o outro se machuque, se prejudique ainda é presente na nossa sociedade. Não há como negar isto. Muitos, felizmente, já mudaram de patamar. Mas é preciso mais.

Uma sociedade de competição cria estas realidades. E isto não é só aqui.

Torcer para ganhar é legítimo e verdadeiro. Mas desejar o mal do outro é desejar o nosso próprio mal. Cada um dá apenas o que tem. Vaiar de forma desrespeitosa e dizer absurdos  aos adversários não caracteriza empolgação, torcida.

Torcer está em outro patamar.

Querer furar os olhos do outro significa a degradação do humano. São pequenos infelizes em busca de um pouco de sonho. Apesar de não saberem disto. São pessoas que não sabem viver, que dirá torcer e respeitar o adversário. São pessoas que não possuem conhecimento de vida, que dirá esportivo. Há que se ter limite e equilíbrio. A vida pede isto de todos nós.

São pessoas que não sabem o significado de existência: que é sair de você para, de verdade, poder se enxergar e, neste momento, passar a existir. Quem deseja que o outro morra, como aquilo que foi dito, é porque este alguém já morreu. Morreu em suas esperanças, em suas lutas. Só desejamos o mal para o outro quando a maldade predomina em nós. Se fosse a felicidade que predominasse em nós, não diríamos tudo aquilo.

Quem está no centro das atenções não é aquele que vaia. E isto é motivo de inveja, muitas vezes. Mesmo não ganhando “medalhas”, como é bom realizar coisas e fazer o que se gosta. E estes atletas, por exemplo, realizam coisas e fazem o que gostam. Mas os que vaiam maldosamente não realizam coisas e não fazem o que gostam. Não são felizes. Por isto a felicidade do outro incomoda. O talento alheio é incômodo. O lugar que aquele que realiza ocupa jamais será ocupado por aquele que não realiza. Por isto ele vaia, xinga.

É muito mais fácil tentar desestabilizar o outro do que se espelhar nele. E isto tudo vai muito além do esporte.

Vaiar maldosamente o outro é colocar luzes na mediocridade trazida no coração. É não aceitar que há opiniões e posturas diferentes, assim como pessoas melhores que merecerão a medalha de ouro, seja nas Olimpíadas, seja na vida. Ou mesmo que as medalhas não venham, o esforço e o trabalho farão daquela pessoa alguém melhor. Na agenda desta pessoa não há espaço para a vaia, não deste tipo.

Vejo uma família de japoneses, numa das arenas. Todos enrolados em suas bandeiras. No centro da arena, um brasileiro e um japonês disputando algo. Em poucos minutos, o brasileiro faz o ponto. E a câmera focaliza aquela família. O que eles faziam? Aplaudiam os brasileiros.

Em um outro momento, num estádio de futebol, outra família de japoneses assistindo a uma partida. Após o término do jogo, a família se levanta, deposita o lixo deles numa sacolinha própria e leva embora. E como se isso não fosse o suficiente, um deles retira uma flanela do bolso e limpa os bancos que haviam se sentado durante a partida. Para quê? Para os próximos a se sentarem lá encontrarem lugares limpos para serem usados.

Confesso que ao ver esta cena fiquei envergonhada. Mas depois refleti: se eles podem ter este nível de respeito e de educação, nós também podemos. Tudo é uma questão de escolha.

Não temos vocação para a santidade e, portanto, não há necessidade de disputarmos lugares com os santos. Estamos longe disto tanto na vida como nos jogos. Mas a educação e o respeito deveriam ser as nossas primeiras escolhas.

Aqueles japoneses descobriram isto há tempos. Mas nós ainda estamos falando sobre a nossa recente velha conhecida: a educação. E a falta que ela nos faz...

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Qual é o tamanho da sua escada?

imagem tirada da internet

Outro dia, passando perto de uma construção, vi uma escada bem comprida, daquelas de madeira, um tanto gasta pelo uso, mas ainda disposta a ajudar quem precisasse dela. Ela tinha vários degraus, todos irregulares, de tamanhos e alturas diferentes. Mas ainda assim era uma escada. Uma escada cansada em função do tempo percorrido, do servir, do esforço, mas firme o bastante para ainda aguentar mais algumas subidas e descidas. Firme o bastante para não ser confundida com nenhuma outra ferramenta, com nenhum outro utensílio.

Fiquei pensando em nossas escadas individuais que nos conduzem pela vida. São elas que nos cedem, gentilmente, seus degraus para subirmos ou para descermos. Ou, até mesmo, para ficarmos no meio do caminho, parados, estacionados, ou perdidos, mesmo. Isto dependerá de nossas escolhas e do nosso estar na vida.

Escadas podem ser de vidro, de madeira, de metal, de pedra...podem ou não terem corrimão. Diferentes nas medidas, nas alturas, nos materiais, nas cores. Pouco importa. O fato é que todas, independentemente de cores e afins, conduzem. Todas, sem exceção. E a nossa escada não seria diferente. Somos conduzidos pela vida por meio dela.

Portanto, a escada que temos faz toda a diferença para nós.

Qual é o tamanho da nossa escada?

Ela é suficientemente grande para nos levar aonde queremos? Ou para o que queremos, o tamanho dela basta? Ou então, como não sabemos aonde queremos chegar, o que importa o tamanho dela?

Nossas escadas podem estar enferrujadas ou tinindo ou paradas no fundo do quintal ou quebradas ou ultrapassadas ou velhas. Não importa quantos ous tenha em nossa história. Mas saber o estado da nossa escada, isto importa. E muito.

Há escadas tão altas que se perdem de vista. Há aquelas que nos derrubam porque seu piso é muito liso. Dependendo da queda, não nos levantamos mais. Mas há as quedas emocionais que também estão escondidas nos degraus de muitas escadas. Estas são as piores.

Qual é o tamanho da sua escada?

Depende de suas escolhas, ambições, perseguições, desistências e persistências...

Para desistências, escadas mais curtas. As grandes não serão necessárias uma vez que muitos dos degraus não serão utilizados.

Para busca incessante, escadas longas e desejo de longas pernas para alcançá-la. O tamanho de nossas pernas também é determinante para adequação da escada.

Para ambição além da conta, há as escadas que quebram as pernas. Aquele degrau que foi afrouxando no decorrer do tempo e que fizemos de conta que não vimos. E agora, ele veio cobrar a conta. Espatifou-se quando resolvemos pisar nele.

Para vaidade desmedida de querer ser o mais rápido na subida, cuidado: a vitória está no caminhar e no apreciar a vista. A chegada é só uma consequência para aqueles que acreditam. E apreciar a vista enquanto faz a caminhada nos ajuda a acreditar.

E se no meio do caminho descobrirmos que um dos degraus de nossa escada precisa de ajustes, por que não pedirmos ajuda? Aceitar ajuda nos faz livres para o recomeço...com a mesma escada...

Aceitar ajuda é para os fortes e para os que usam suas escadas.

Degraus próximos para os mais preguiçosos, de pernas curtas, e que fazem questão de não enxergarem que suas pernas dão conta disto.

Degraus próximos, muito próximos. Até uma criança sobe? A vida espera mais da gente.

Degraus distantes para aqueles que valorizam demais a dor, a dificuldade, o não alcançar. Por que não criamos um degrau intermediário? Ao mesmo tempo, degraus distantes fortalecem as nossas pernas enquanto subimos. Talvez este seja o nosso diferencial lá na frente. Talvez. O mundo nem sempre é justo.

Escadas servem para ajudarmos alguém a subir. Afinal, estamos no degrau acima.

Escadas servem para empurrarmos o outro. Afinal já chegamos, não é mesmo? Não precisamos de companhias...

Escadas são o nosso meio de transporte no decorrer da vida. São feitas sob medida para cada um de nós.

Há aqueles que preferem as rolantes. São rápidas, eficientes, deslizantes e muito, muito mais confortáveis...apenas enquanto funcionam. Pois na primeira parada, lá vamos nós engrossar a fila dos que precisam usar a escada manual.

Todo este tempo utilizando, apenas, as rolantes, corremos o risco de esquecer de como é subir degraus com os nossos pés. E este esquecimento vai atrofiando nossos demais saberes. Estas escadas têm este poder: vão minando nossas forças discretamente...mas com o nosso consentimento, mesmo que inconsciente.

Os pés superficiais das escadas rolantes só nos servem enquanto a escada funciona. Quando ela quebra, quebramos também. Para elas, há conserto; para nós, ainda não...

Nossas escadas foram feitas para serem usadas e marcadas com os nossos pés. Que ela envelheça pelo uso e não pela falta dele. O uso demarca o nosso espaço no mundo. Faz-nos donos das nossas vontades. Dos nossos saberes. E das nossas responsabilidades.

Eu quero. Eu subo. Eu quero. Eu desço. Eu quero. Eu paro. Eu não quero. Estaciono.

E muitos ficaram para trás, por conta de suas escadas não utilizadas ou subutilizadas. As marcas de nossos pés podem ajudar o outro a retomar o caminho.

E muitos vão lá na frente, por conta de suas escadas sujas, utilizadas, manchadas e marcadas. As marcas dos pés deles podem nos servir de inspiração dos lugares aonde podemos chegar.

Muitas podem ser as reflexões e metáforas acerca de escada. Muitos são os significados. E todos estarão certos porque serão reflexões sobre cada um de nós.

Não importa a cor da sua escada, o formato, o tamanho, o material. O que importa é que ela existe e está a sua espera, ou melhor, a espera de seus pés.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Franz Kafka, escritor alemão do século XIX, que diz:

“Um degrau de escada que não foi desgastado a fundo é, do seu próprio ponto de vista, apenas algo de madeira montado no ermo. ”

Que possamos olhar para nossas escadas e reconhecermos, nelas, nossos passos e nossas marcas. E que, envelhecidas, nossas escadas nos sirvam de espelhos de nós mesmos. E assim, nos orgulharmos de um dia termos tido a coragem de iniciarmos a nossa caminhada.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Foco significa tempo

Foi-se o tempo que tínhamos tempo. Se é que ele existiu um dia. Talvez na infância, o que também faz tempo.

Lá, o tempo nos sobrava; hoje ele nos falta. Na infância, usávamos o tempo com sabedoria e fazíamos o que precisava; hoje, este mesmo tempo talvez esteja sendo utilizado sem sabedoria, e muitas vezes desperdiçado. Por isto ele nos falta. E muito.

Foi-se o tempo que parávamos para conversar. A velha pergunta: “Olá, tudo bem? ” refletia sinceridade e interesse em saber do outro. Hoje perguntamos apenas por educação: “Olá, tudo bem? Desculpa, estou correndo...depois a gente se fala...me liga...me passa um zap..., #partiu...”

O que nos faz achar que hoje não temos tempo? O que nos faz achar que antigamente tínhamos mais tempo? O que nos faz achar que hoje as coisas andam corridas mais que ontem? O que nos faz acreditar nestas conclusões a que chegamos?

Arrogâncias de nossos tempos. Quanto mais ocupado estivermos, menos tempo teremos para nos conhecer, para nos revisitar, para nos reconectar. Quanto mais para o externo estivermos, menos foco teremos. E quanto menos foco, mais à deriva pela vida...

Ter foco é questionar as máscaras que vestimos.

Será que antigamente fazíamos menos coisas ou fazíamos, apenas, o que era necessário e importante?

Revisitar os nossos comportamentos e escolhas nos ajudará a descobrir os motivos para a nossa falta de tempo. Inúmeras podem ser as explicações para esta nossa envaidecida falta de tempo. Mas para este texto, escolhi apenas um motivo para explorar: o foco.

Foco como sinônimo do que importa. Da essência. Do verdadeiro. Do que é preciso.

vídeo tirado da internet

Pessoas com foco têm tempo. São pessoas que fazem o que precisa e fazem o que é certo. Fazem muitas coisas. Iniciam e terminam. São excelentes começadores e finalizadores. Não deixam as coisas pela metade. Não desviam a sua atenção. São pessoas que acreditam no que fazem e seguem o caminho que escolheram. E quando olham para trás, é apenas para ver se nada ficou esquecido. Mas logo retomam o caminho. São pessoas firmes, que não perdem tempo com bobagens. E por quê? Porque têm foco.

Uma escolha de vida. Uma escolha difícil. Uma forma de caminhar.

Ter foco é saber dizer não. É valorizar a sua opinião, sem desprezar a do outro.

Ter foco é participar do que importa e não do que te autopromoverá.

Parece óbvio dizer que ter foco significa saber o que se quer. Mas isto não basta: é preciso, também, buscar o que se quer. Merecer o que se quer. Conquistar o que se quer. Criar oportunidades para se ter o que se quer. Criar atalhos sustentáveis para trilhar o caminho até chegar aonde se quer.

Por tudo isto, ter foco não é das tarefas mais fáceis. Não é uma escolha fácil. Ainda mais que durante o trajeto, muitas serão as interrupções e os problemas que somente aquele que aceitar a caminhada saberá dizer.

Deixar a vaidade e o orgulho de lado, durante o trajeto, será determinante para aquele que quiser ter foco. Foco, muitas vezes, significa rever conceitos, duvidar e questionar.

Ressignificar. Foco significa fazer as escolhas certas.

Somos apressados. Somos ansiosos. Estamos num tempo que ainda não chegou e não sabemos se chegará. Queremos estar no amanhã sem ainda termos vivido o hoje.

Queremos ver o final da história, o final do filme, interrompemos a fala do outro, completamos frases, tudo isto em nome de uma pressa construída por terceiros que, por meio de nossos comportamentos, ajudamos a manter. Tudo isto nos faz perder o foco.

Perdemos o foco porque fugimos do essencial. Ter foco significa saber o que importa.

Estamos sempre com as agendas cheias e cheios de compromissos, muitas vezes, adiáveis. Se abrirmos mão de estarmos e de sermos disponíveis o tempo todo, teremos foco e, consequentemente, tempo.

A nossa falta de foco nos transforma em expectadores diante à vida. Mas é preciso mais. A vida pede mais da gente. Podemos fazer mais.

Pessoas nos fazem perder tempo por falta de foco.

Pessoas perdem seu tempo por nossa falta de foco. É preciso pensar sobre isto.

Ter foco é delegar quando se pode. É pedir ajuda sem sentir vergonha.

Ter foco é pedir desculpas sem constrangimentos tolos. É abrir mão de respostas prontas.

É acreditar no simples. É ter atitudes simples. É valorizar o pequeno.

Acima de tudo, ter foco é olhar a minoria e saber que fazemos parte dela. E quando este dia chegar, a nossa arrogância e o nosso orgulho terão ficado para trás.

Enfim, quero encerrar este texto, mas não a reflexão, trazendo um pensamento provocador de John Carmack, programador americano, que diz:

“Foco é muitas vezes uma questão de decidir o que você não vai fazer. ”

E decidir o que não vamos fazer muitas vezes nos coloca no final da fila. Significa abrir mão, muitas vezes, de vantagens ilusórias, de aparecermos na foto.

Em tempos de excessos, de exageros, de exposições e de palco que escondem as nossas pequenezas e a nossa total falta de foco, decidir o que não fazer é uma difícil tarefa. Se algo não trouxer tanta exposição e palco, será mais fácil abrirmos mão e não o fazer. Porém, abrirmos mão de algo que nos trará exposição, luzes e palco será praticamente impossível.

Que o foco seja mais que uma palavra em nosso vocabulário: que ele se transforme em comportamento, em um ideal de vida, em uma ferramenta de construção.

domingo, 24 de julho de 2016

Ainda sobre o machismo...

O “ainda” do título mostra um certo cansaço, um certo desgaste. Ele me remete àquele disco riscado que tocava na vitrola do meu pai. O mesmo trecho, a mesma faixa. A música não era só aquilo, mas era só aquilo que tocava.

O ainda traz cansaço e desgaste. E as reticências dizem que há muito o que fazer e que este assunto, pelo jeito, vai longe...

Vai longe e vem de longe. Não é de hoje que falamos sobre isto. Que ouvimos sobre isto. Que sofremos as consequências disto. Todos nós sofremos. Não somente as mulheres. Todos, sem exceções. Acredito que enquanto não nos apropriarmos deste assunto, independentemente do nosso sexo, ele não será resolvido.

Há machismo em todo o mundo, não somente aqui. É que como vivemos aqui, presenciamos muitos exemplos machistas e isto se torna mais forte para nós. Mas ele é presente em todo o mundo. Importante ressaltar que a História do mundo foi, essencialmente, escrita por homens, e não por mulheres. E o Brasil não foi exceção. Isto já explica muitas coisas. Mas as mulheres sempre existiram e sempre construíram. Onde elas estavam, então, quando a história foi escrita e construída? Simplesmente elas não foram convidadas para esta conversa. Por isto elas não estão nos livros e nem nas grades curriculares das escolas. Mas elas sempre existiram. Poucas são as lutadoras e guerreiras que são lembradas. Pouquíssimas. Se quisermos conhecê-las, somente por meio de documentários e livros específicos. Será necessário querer saber sobre elas e buscar este saber, porque isto dificilmente será ensinado.

As mulheres, ao longo de toda a história, sempre foram excluídas e desvalorizadas. Sempre precisaram lutar e provar sua existência o tempo todo.

Passados anos, décadas e até séculos, muitas coisas mudaram. Algumas para melhor, outras para pior. Mas a luta contra o machismo atravessa os tempos e continua. Muitas conquistas foram alcançadas às custas de vidas e tempo de outras mulheres. Avanços foram atingidos graças à coragem de muitas delas, graças aos movimentos feministas que tiveram sua força, sua expressão e sua necessidade muito bem representados.

Porém mesmo com estes avanços, que não foram poucos, por que ainda retrocedemos em muitas circunstâncias? Por que ainda nos demoramos com este assunto? Por que ainda valorizamos e fortalecemos o machismo para que ele continue existindo?

O assunto é complexo e delicado para acharmos que sabemos as respostas. Para acharmos que vamos resolver isto de forma rápida. O machismo é, antes de tudo, um valor de uma sociedade (no caso, a nossa) que está traduzido em atitudes e em comportamentos. E isto vem de longe. Não é tão simples mudarmos um valor, um paradigma. Se machismo é um valor, porque se assim não fosse não o praticaríamos, como mudá-lo? Como se altera um valor? Ninguém tem esta fórmula. Mas uma direção, mesmo que remota, para que um valor seja alterado é mudarmos as referências deste valor. E qual é a referência do machismo? Em que ele se apoia? Qual é a sua base de referência?

imagem tirada da internet

A base de referência no qual o machismo se apoia é a nossa sociedade. Somos machistas. Ponto. Precisamos quebrar este modelo para outro ser escrito e reinventado. Só que mudar é muito difícil. Implica conscientizar-nos a respeito e, acima de tudo, querermos esta mudança. Criar outros modelos dá muito trabalho. Alguém precisa começar. E há tempos que muitas mulheres começaram este belo trabalho. Muitas foram valorizadas, outras preteridas e outras esquecidas. Mas todas iniciaram e é preciso continuar este trabalho, que é de todos.

É preciso enfrentar o modelo que não funciona e lutar pelo que funciona. Mas dá trabalho.

Nise da Silveira, a primeira médica brasileira, nascida no século passado, foi uma mulher brilhante. Lutou contra a forma agressiva como os pacientes eram tratados pela Psiquiatria e revolucionou o tratamento dos doentes mentais, no Brasil. Em um documentário sobre a vida dela, ainda estudante de medicina, ela conta que não havia banheiro feminino na faculdade porque “ali” não era lugar para mulheres. Então, para que banheiros? Os professores, todos homens, obviamente, não a deixavam participar da aula de anatomia com os demais alunos porque diziam que aquela não era profissão para mulheres. Ela precisou lutar por uma autorização e assim, prosseguir seus estudos. E conseguiu.

Mulher firme e, acima de tudo, com propósito e destemida.  E isto tudo na década de vinte! Este foi só um dos exemplos do que, com eficiência, dedicação e propósito, aonde se pode chegar. E ela chegou muito longe. E muito devemos a ela.

Um dos caminhos para que esta reinvenção de modelo possa começar é pela educação. É redundante falarmos sobre a relevância da educação. E não falo, apenas, da educação curricular, mas daquela recebida em casa. Por que bola ainda é coisa de menino? Por que, ainda, é a menina quem vai para a cozinha ajudar a mãe lavar louças? Por que é o pai quem leva o menino para o futebol? Por que todos não lavam a louça e depois vão ao futebol juntos?

Este é somente um exemplo para incentivarmos o aprofundamento do tema. Mas há diversos exemplos e tantos outros bem mais tensos e complexos. É só prestarmos atenção.

A pergunta é: quais cidadãos queremos? Quais cidadãos estamos formando?

Ajudamos a resolver. Ajudamos a destruir.

Ajudamos a cobrar. Ajudamos a esconder.

Ajudamos a avançar. Ajudamos a estagnar. Ora uma coisa. Ora outra coisa. Ora as duas coisas juntas. Queremos mudanças, porém não queremos mudar. Que paradoxo, não? A mudança é sempre necessária para o outro, mas não para mim. Eu não preciso mudar. O outro sim.

Aos homens foi dada uma autonomia e um direito que explica, muito, as desigualdades e os caminhos tortos existentes até hoje.

O machismo é somente uma consequência da falta de educação, e não a causa em si. Somos mal-educados. Nossa educação não é priorizada. Nunca foi. E o machismo tem as suas raízes aí, fortemente construídas, mesmo que às escondidas. E quando chegamos à fase adulta, quando somos colocados à prova, a nossa educação ou a falta dela vem à tona. E o machismo é somente um dos reflexos da má educação que demos, que recebemos ou que não tivemos acesso. Que tipo de educação estou dando? Qual recebi? Quais são os meus valores?

Precisamos de políticas públicas que ajudem a melhorar este caminho construído indevidamente, este caminho torto, ineficiente e insustentável. Mas antes disto, precisamos de uma educação que agregue, que englobe, que envolva e não uma educação que desagregue, que exclua e que não envolva a todos. Mas a educação que não agrega ainda é a vigente, ainda é a que se observa. Não na totalidade, mas ainda é fortemente presente.

Enfim, o tema é vasto. Há muito o que dizer. Muitos são os caminhos possíveis para mudarmos de patamar. Mas penso que a educação seja o caminho mais lúcido para tal caminhada.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um maravilhoso ensinamento de Nise da Silveira, esta mulher que fez da ousadia sua ferramenta de luta.

"É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade".

Que a história desta Mulher nos sirva como novas bases de referências para que possamos criar uma sociedade mais justa, mais sólida, mais ética. E, assim, sustentável.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Saber esperar é uma arte


vídeo tirado da internet

Várias são as leituras que podemos fazer sobre este vídeo. Reflexões podem nos fazer um convite para o pensar, se dedicarmos um tempinho para isto. Tudo aquilo que nos chama a um patamar acima requer paciência e disposição.

Existem caminhos mais curtos, é verdade. Mas logo ali eles se mostram, e somos obrigados a pegarmos um retorno e refazermos o caminho.

O vídeo fala muito mais do que condicionamento: sabemos que os animais obedecem devido ao condicionamento adquirido por meio de treinamento. Mas se arriscarmos sair do óbvio, veremos que o vídeo traz muito mais que isto.

O vídeo traz reflexões. Muitas.

Uma delas foi, literalmente, a paciência de saber esperar. Sim, esperar é uma arte.

Numa rápida consulta ao dicionário, a palavra “arte” vem do latim “ars”, que significa habilidade construída a partir da percepção, das emoções e das ideias de quem a criou.

Então, se esperar é uma arte, e se arte é uma habilidade, isto significa que podemos desenvolvê-la. A questão que fica é: queremos desenvolvê-la?

Toda construção se dá por meio de etapas. Mas os caminhos mais curtos nos chamam mais a atenção. A obra pronta é sempre mais atrativa. A habilidade de construir não me interessa, muitas vezes, porque somente será visível para mim e não para o outro. E se não for visível também para o outro não me interessa.

A habilidade de construir requer percepção, emoção e ideias, como dito acima: percepção para saber a hora de esperar e de avançar; emoção para reconhecer quem somos e ideias para vislumbrarmos os nossos caminhos.

Aqueles cães, portanto, nos deram uma grande lição: saber esperar é uma arte. Mas como tal, é preciso desenvolver esta habilidade que se dá por meio da percepção, da emoção e da ideia. Sábios eles.

Mas como estamos, muitas vezes, voltados para o autocentrismo, achando que o mundo gira ao nosso redor, não tivemos tempo, ainda, de desenvolvermos tal habilidade da espera...

Ninguém consegue dar o melhor de si quando está mais preocupado em aparecer. Seria este o nosso caso? Talvez.

Excesso de visibilidade atrapalha. Por que queremos, tanto, aparecer? O que nos falta que achamos que encontraremos num palco qualquer construído por desconhecidos? Por isto não sabemos esperar...

Quando ficamos desesperadamente lutando por atenção, estamos perdidos num caminho construído por nós mesmos. O excesso não deveria nos representar.

Uma segunda reflexão foi sobre a confiança. Aqueles cães confiaram que o alimento viria. Simples assim. Obviamente que precisamos realizar o trabalho de bastidor para que a coisa aconteça. Mas mesmo quando realizamos, acreditamos? Muitas vezes não. Somos nossos próprios algozes em muitos momentos das nossas vidas.

Não acreditamos em nós porque não valorizamos quem somos. Crença tem absolutamente tudo a ver com valor. Se não creio em algo é porque este algo nada tem de valor para mim. Simples assim.

É preciso resgatar a nossa confiança. Buscar e acreditar que virá. E esperar um pouco, sem sofrimentos, sem angústia, sem ansiedade. Percorremos, já, um grande caminho.

Não há a angústia da descrença no olhar daqueles cães. Mas há foco numa determinada direção. Crença e espera porque sabem do caminho trilhado.

Portanto, é preciso mudar a nossa percepção sobre a nossa condição de ser. E desta forma, passarmos a existir na totalidade. Deixamos de existir quando não acreditamos em nós, quando achamos que não receberemos, que a nossa hora não virá, quando não sabemos esperar. Deixamos de existir quando avançamos o sinal, ainda vermelho, e, envergonhados, damos aquela paradinha sobre a faixa de pedestres aguardando, impacientemente, a abertura do sinal. E ainda torcemos para que nenhuma autoridade apareça para nos lembrar de algo que sabemos. Mas enfim...queimamos, sempre, na largada...

Uma terceira reflexão foi observar o último cão: aguardou, pacientemente, ser chamado. Aquela angustiante sensação de todos serem chamados e ele ainda não. Quem já não passou por isto? E se ele não fosse chamado? Qual teria sido a reação? A dele não sabemos. Mas a nossa certamente sabemos dizer, mesmo que a gente não queira compartilhar a resposta com o outro. Não importa. O que importa é a reflexão sobre isto.

Muitas são as reflexões que o vídeo traz:

- paciência para saber esperar a sua vez;

- humildade para aceitar ser o último a ser chamado;

- renúncia para dar passagem ao outro que foi chamado antes que você;

- saber se calar para que o outro ouça ser chamado;

- ter resignação para saber que nem sempre você será chamado;

- olhar o outro se divertir e se alimentar, enquanto você tem fome;

- ficar feliz com a felicidade do outro;

- entender que ser o primeiro ou o último é só uma questão de ponto de vista.


imagem tirada da internet

Enfim, a tela da nossa vida está aí. É só termos a coragem de tomá-la nas mãos e de usá-la. E que a nossa pintura seja a representatividade do que esperamos e do que buscamos. E por que não, do que já encontramos?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de Rachel de Queiroz, romancista brasileira, que lutou bravamente pelos seus ideais e pelos seus sonhos. E que, certamente, soube esperar...

Em qualquer momento difícil, no qual desistir fosse o caminho mais fácil, ela dizia:

“Jamais desisto. Como boa cearense, arredondo os ombros e aguento a pancada. ”

Que a persistência seja uma de nossas referências. Mas para isto, é preciso saber esperar. E esperar é uma arte...

terça-feira, 14 de junho de 2016

O destino somos nós

É inacreditável o quanto acreditamos no inacreditável: o elogio que mente, a fama que corrompe, o sonho interrompido.

É inaceitável o quanto aceitamos o inaceitável: a mentira deslavada, o ego exacerbado, o descabido que nos convida a abrir mão de nosso senso crítico.

O inacreditável e o inaceitável: duas faces da mesma moeda. Porque a outra face ainda não a conhecemos.

Aceitar o inaceitável. Acreditar no inacreditável. Aceitamos e acreditamos. E assim somos misturas da mesma massa. E assim não precisamos explicar nossas escolhas. E assim não precisamos falar porque já sabem a nossa opinião. E assim somos iguais num mundo de desconhecidos e de viajantes. E assim somos invisíveis num mundo ávido por se mostrar.

Aquele que muito se mostra não é visto. E também tem medo de ser visto de verdade.

Aquele que muito busca não encontra. É preciso deixar espaços para ser encontrado.

A busca incessante desequilibra. É preciso saber a hora de parar. E de recomeçar, também. Mas parar é imprescindível.

Buscar incessantemente é perseguir algo. E perseguir é não respeitar o tempo. Toda busca precisa de espaços e de tempo. A ociosidade é indispensável no movimento de busca.

É preciso nos encontrar para que a nossa condição de ser seja ampliada.

O cristalizado tornou-se naturalizado. Aceitamos. E por quê? Porque aquilo que se tornou natural não precisa mais ser aprendido. A nossa rotina agradece. O cristalizado precisa ser repensado e retirado da prateleira do natural.

Natural devia ser o aceitável e não o inaceitável. Começamos a refletir sobre isto, mas por qual motivo paramos? Natural deveria ser acreditar e não o inacreditável. Afinal, chegamos até aqui, não?

Abrimos mão da amizade, mas não do preconceito.

Somos felizes quando concordam com a gente e quando somos elogiados. Não somos capazes de enxergarmos avanços na crítica.

Crescemos mais na dor porque nela prestamos atenção. Na dor, somos todos muito parecidos. A dor aguça os nossos sentidos e amplia os nossos horizontes. Parece que na dor a nossa visão alcança lugares, até então, não visitados.

Somos capazes de fingir um falso sono para não nos levantarmos do banco sujo que sujamos, no metrô. Mas não somos capazes de enxergarmos a necessidade do outro.

O sonho do outro nos representa porque o sonho do outro já foi detalhadamente trabalhado na sociedade de iguais. Mas o nosso sonho não nos representa porque ele é diferente, impensado e inédito.

Aquilo que não foi pensado está arriscado ao fracasso.

O diferente precisa encarar o riso do deboche e o olhar cínico daquele que chegou antes da gente e conseguiu um lugar bom para se sentar. E do lugar dele, tem uma visão privilegiada do irrelevante. Que é o valorizado pelos que acreditam no inacreditável.

Aquilo que não se vê deveria ser debatido. Aceitar o invisível é o primeiro passo para reencontrarmos o que perdemos, mas que não poderíamos ter perdido.

O preconceito é um exemplo do invisível. Corrompe às escondidas.

O excesso que camufla a carência.

O riso triste que esconde a tristeza.

A fala sem parar que mostra a necessidade do silêncio.

Os títulos no lugar das atitudes.

A falácia no lugar da verdade.

O palhaço que deveria fazer rir, agora chora.

E aquele que deveria chorar para identificar a dor, ri pela simples falta de quem o acolha em sua dor e em suas misérias.

As misérias humanas disfarçadas nos imediatismos dos 140 caracteres.

Fronteiras construídas no lugar de pontes.

Aquilo que foi proscrito, mas não poderia. Aquilo que não foi prescrito, mas deveria.

Proscrito. Prescrito. Reescrito não seria melhor? Mas aceitamos o proscrito e acreditamos no prescrito. A reescrita não faz parte da nossa rotina.

Estamos exilados dentro de nós por acreditarmos em conceitos estreitos. Ampliarmos a nossa visão e querer não acreditar no inacreditável. É preciso remontar sistemas e romper com as linhas mestras que nada mais dizem.

É preciso entender a construção para realizar a desconstrução. E assim mudarmos as percepções da nossa condição.

A nossa percepção das coisas e do mundo nos impede de ver a realidade.

Existimos, muitas vezes, pela imposição e não pelo direito que temos de existirmos.

Não reservamos lugares para a diversidade. Ela não é bem-vinda.

Inaceitável e inacreditável: o aceitar e o acreditar em melhores destinos. Mas para isto, é preciso aceitar o diferente. Somente desta forma vivenciaremos a nós próprios.

Rejeitar o inaceitável é aceitar o outro e, consequentemente, viver a melhor versão de nós mesmos. Rejeitar o inacreditável é se colocar no mundo, mesmo que às custas de uma caminhada sozinha e solitária.

Rejeitar o inaceitável é se reconhecer como um igual. É mergulhar nos nossos conhecimentos e ir ao encontro de nós mesmos.

Abrir mão do inaceitável é reconhecer que vivemos numa sociedade que produz excluídos. Que produz hierarquias, que produz quem pode e quem não pode.

Criar diferenças é uma das nossas especialidades. E as diferenças criam as injustiças, aqueles que carregarão o piano e aqueles que tocarão o piano, mesmo que desafinados. Muito desafinados. Mas como aqueles que ouvem nada entendem, não compreendem aquele desafinar...

Os absurdos que nos movem. Os acertos que questionamos.

As incorreções que justificamos. As correções subestimadas.

A vaidade valorizada pelos que aceitam o inaceitável. A humildade valorizada pelos que não acreditam no inacreditável, mas que lutam num mundo onde são desacreditados.

O dinheiro que deveria ser o meio, mas é o fim em si.

E o fim em si que ninguém conhece porque falta coragem para a caminhada.

Respostas e perguntas que lutam para serem perguntadas e ouvidas. Mas é preciso mais que simples caracteres. No mínimo, palavras, bem diferente de caracteres que na época das grandes guerras eram utilizados. Velhos conhecidos. Nada disto é novo.

Assim como nossas perguntas e respostas: nada de novo, apenas com nova roupagem, talvez.

Enfim, somos velhos desconhecidos de nós mesmos. Um pouco de tempo disponível para viajarmos em nós e para nós talvez nos fizesse muito bem. No mínimo, revisitaríamos o que acreditamos e o que aceitamos e perceberíamos que muitas coisas estão fora de lugar.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma frase de George Moore, romancista irlandês, que diz:

“Um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta para casa para encontrá-lo. ”

Pois é, títulos são importantes, mas não para sabermos o essencial da vida, que sempre esteve e sempre estará dentro de nós.

domingo, 5 de junho de 2016

Na travessia ou às margens?

imagem tirada da internet

A Literatura é um destes lugares infinitos cujo aprendizado não se esgota. E ler este pensamento de Fernando Pessoa me faz pensar desta forma. Sempre há algo a dizer. Nunca o tudo já foi dito. Sempre há algo a falar, a pensar, a construir.

Duas palavras chamam a minha atenção neste pensamento: ousarmos e margem.

Ousar é ir além. É acreditar em algo. É arriscar.

Estar à margem é exatamente o oposto: é o não ousar, é o não acreditar, é o não arriscar.

Sem ousadia a vida não passa das arquibancadas. O viver dá lugar ao vazio, dá lugar para as margens da vida. Colocar algo às margens é esquecê-lo.

Eu estava numa reunião de trabalho, e uma pessoa, me vendo fazer anotações no meu velho e bom caderno, disse:

“que bom que você trouxe seu caderninho para fazer anotações, porque eu esqueci o meu tablet. Você, pode, por favor, anotar no cantinho da margem este dado para depois, quando der, eu verificar melhor? ”

...caderninho, cantinho, depois, quando der... mesmo sem perceber, aquilo que ela havia me pedido para anotar certamente ficaria para segundo plano. Tudo aquilo que colocamos às margens é porque não damos a importância que deveríamos. Aquilo que pode ficar para depois. Mas no fundo, não pode, mas colocamos às margens. São tantas as anotações que envelhecem às margens...e ficam só a nossa espera.

Num mundo repleto de tecnologia, escrever à mão, ainda, parece ultrapassado. Mas de posse de um tablet, tenho dúvidas se perceberíamos as margens da tela e, pior, se perceberíamos o que estamos colocando às margens da tela.

Fernando Pessoa nos chama a atenção para estas margens esquecidas, com anotações e lembretes para nós mesmos, mas que não lemos. Não lemos porque o caderno acabou e o jogamos, porque o dia se encerrou, porque o telefone tocou, porque alguém nos chamou em alguma das redes sociais, porque nos esquecemos de ler as anotações, porque, porque, porque, e quando nos damos conta, estamos às margens de nós mesmos.

Realizar a travessia é uma das formas de se ter atenção ao que se está às margens e trazer para o centro. Quem está às margens assiste; quem está no centro participa.

Quem está às margens não tem direito de questionar porque ninguém o deixa falar. E quando consegue um raro momento para falar, todos foram embora.

Quem está no centro constrói a própria história e vive a própria história.

Às margens, alguém que não existe, que vive das sobras dos que não o enxergam.

No centro, alguém que faz a sua existência ter valor. Que cria valor para si e para o outro.

Às margens, sem direito à travessia.

No centro, na travessia.

Não é preciso grandes planejamentos para realizar a travessia, apenas aceitar o convite da vida. E aceitá-lo significa, algumas vezes, dizer sim para ela e não para nós. Está aí um excelente exercício de desprendimento...

Aceitar o convite da vida significa aceitar que a travessia é necessária e urgente. Um processo complexo de se realizar, porém transformador e prazeroso.

Significa, também, deixar de travar embates com a vida. Aceite o convite. Pronto. Ela saberá ouvi-lo no momento certo. De nada adianta brigar com a vida. Ela sempre ganha, mesmo!

Mais inteligente é aceitar o convite, amansar a vida. Assim ela sossega. E depois, quando ela der um leve cochilo, vamos contornando a travessia, vamos colocando nossas regras e limites também. Afinal, a travessia é nossa, não? Portanto, ela deverá ter a nossa cara...

Ficar à margem de nós mesmos é ficar teimando em realizar a travessia que não é a nossa. Mas é a que gostariam que fizéssemos. Ficar à margem de nós mesmos é como se fôssemos expectadores de nós mesmos só que o controle remoto está nas mãos do outro.

Realizar a travessia significa parar um pouco para descansar, tomar uma água, mas ver que muitos já estão lá na frente. Tudo bem. Uma hora chegamos. E que seja na nossa hora e não na hora do outro. Quanto mais olharmos para onde o outro está, mais tropeçamos nas nossas próprias pernas e o caminho, certamente, ficará mais longo e árduo.

Realizar a travessia significa encontrar ventos fortes contrários à navegação. E como navegar? Navegando...

O nosso passado dirá como faremos a nossa travessia. E o nosso futuro foi o resultado da travessia que escolhemos. Sem erros de concordância aqui...

A travessia nos obriga a fazermos paradas obrigatórias. O caminhar é a vida. A vida se dá na travessia. A travessia revela as nossas escolhas, nossas decisões, e também nos dá pistas das nossas próximas esquinas.

Quem não nos conhece não nos estranha. O estranhamento se dá quando iniciamos o processo do conhecimento. E nas esquinas somos todos desconhecidos mesmo tendo as mesmas questões.

A travessia nunca está concluída. Quem acha que concluiu, o que faz aqui, ainda?

Fazer a travessia nos concede o direito de desejarmos a liberdade. Mas antes será preciso passarmos pelos buracos e sujeiras da pista. Travessia é essencialmente falar sobre busca.

O que significa buscar? Significa particularizar os nossos caminhos. Individualizá-los.

Sair das margens de si mesmo é ter a coragem de arrancar os sapatos e pisar sobre pedras e trilhos lisos.

A travessia se constrói sem apelos de imagens e de informações prontas. Aprovamos o excesso de informações porque isto nos torna ocupados demais com o desnecessário. Não queremos saber se o excesso nos cegará. O que importa isto? Quanto mais informação melhor.

O relatório extenso sobre a mesa do diretor. Nunca conheci um Diretor que lesse todo aquele relatório. Nem um gerente e também algum supervisor. Para que ele é feito, então? Apenas para aparecer sobre a mesa. Apenas para aparecer, mesmo que às custas de alguém.

Queremos informações prontas. Mas só isto não basta para a travessia. É preciso mais.

Vontade. Tempo. Conhecimento. É disto que precisamos.

Disposição. Mansidão. Humildade. É disto que carecemos.

“Precisamos alargar a nossa consciência”, disse Hannah Arendt, Filósofa Alemã. Quanta sabedoria numa frase tão curta.

Conseguiremos fazer a travessia quando descobrirmos de onde estamos partindo. Quando aprendermos a migrar dentro de nós mesmos, caminharmos dentro de nós. E assim, compreendermos o mundo do próximo e convivermos no mundo dele sem sermos do mundo dele. E para isto, é preciso estar no centro e não às margens de nós mesmos...

A travessia é isto: transição. É o ir para.

É o chegar lá. É o começar e não saber se vai chegar.

É o arriscar sem garantias. É o sair de. É o atravessar. É o recomeço.

É o orgulho de ter aceitado o convite para realizar a travessia.

É o transitar entre estrutura e risco, sem a menor garantia.

É o seguir pistas falsas e descobrir, só lá na frente, que o caminho estava errado.

Quero encerrar o texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Guimarães Rosa, que diz:

“Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia. ”

Um ensinamento sem rodeios. E eleger a busca como meta de vida é arriscar-se a se reencontrar.