domingo, 22 de abril de 2018

Nossas fronteiras pedem passagem

O professor João Adalberto Guimarães, brasileiro, em um intercâmbio na Europa, entrou numa estação de Metrô em Estocolmo, capital da Suécia.

Aguardando na fila para comprar o seu bilhete, ele notou que havia, entre muitas catracas normais e comuns, uma de passagem grátis e livre. Ao chegar a sua vez no guichê, perguntou o motivo daquela catraca permanentemente liberada, sem segurança por perto, para a vendedora.

Ela explicou que aquela catraca era destinada às pessoas que, por qualquer motivo, não tivessem dinheiro para o bilhete da passagem.

Com sua mente incrédula, acostumada ao jeito brasileiro de pensar, não conteve a pergunta, que para ele era óbvia:

- E se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?

A vendedora espremeu seus olhos, e num sorriso constrangedor, disse ao homem:

- Mas por que ela faria isso?

Sem resposta, ele pagou o bilhete e passou pela catraca, seguido de uma multidão que também havia pago por seus bilhetes.

E a catraca livre continuou vazia.

imagem tirada da internet

Gloria Perez, autora e escritora de novelas, disse, em entrevista, após ser questionada sobre como é o processo de criação dela e sobre como ela tem a inspiração para abordar tantos temas relevantes em suas obras:

“olho as pessoas como são. Examino o que gostariam de ser e escrevo sobre este abismo.”

O texto sobre a catraca livre exemplifica este abismo dito por Gloria Perez. Um abismo que separa o que somos do que poderíamos ser, se não fosse a nossa insistência e crença nos caminhos irrelevantes da vida. Este abismo que vai em nós é a representação das nossas dores e das que causamos, também.

Pensar que o outro possa se utilizar da catraca livre mesmo tendo o dinheiro da passagem é estar do lado de cá. E ter em mente a tranquilidade de uma resposta como, “mas por que ela faria isso?”, é estar do lado de lá. E entre estas duas frentes, um abismo. Remover esta distância e outras tantas nas quais vivemos talvez seja o nosso grande papel a ser desempenhado aqui.

Termos a mente incrédula, acostumada ao nosso modelo mental, e perguntar: “e se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?”, é mais que acreditar na corrupção e no mal que vai em nós. Afinal, corrupto, além de outras coisas, é todo aquele que se utiliza de formas e de meios ilícitos para conseguir vantagens e ganhos pessoais. É assumir que há, entre nós, um ato de comportamento social, e não somente corrupção. Ou seja, a corrupção é uma consequência de algo grave: nosso comportamento social. Nosso estar no mundo.

Utilizarmos um benefício que não poderíamos deveria nos incomodar e nos impedir de agir. Mas por que isto ainda não é uma realidade em muitos lugares? A resposta está dentro de cada um de nós. E esta resposta passa por nos perguntar o que faríamos se víssemos uma catraca livre de pagamento a nossa frente?

Ainda não consumimos a Ética, como deveríamos, pela nossa falta de experimento. Nossas vivências deveriam cobrir esta falta. Mas infelizmente não dão conta. Quando as chances surgem, que são inúmeras, sempre estamos ocupados com o desnecessário. Poucos são os experimentados. Aquelas pessoas que, na essência e na atitude, entendem o sentido disto, a catraca livre é uma realidade.

Invejar aquele que já usufrui das catracas livres seria o mesmo que abdicar da possibilidade de termos e de vivermos esta mesma situação. Quando invejamos o outro, além de buscarmos desestabilizar o bem que há nele, destruímos a nós próprios nos impondo limites que nunca existiram. Portanto, se há algo cuja vivência também gostaríamos de ter, por que não vamos buscar? O primeiro passo é sempre o mais difícil, porém é ele que determina o sucesso ou não da caminhada.

Estar do lado de cá do abismo, como ainda estamos, requer uma certa dose de alienação. Ela nos permite não enxergar o óbvio e aquilo que tropeça a nossa frente. Sabemos que há o lado de lá e até achamos bom e bonito, mas nos parece, num primeiro momento, um tanto utópico aquele lugar. Por isso, ficamos aqui, mesmo.

Falar sobre estes abismos que há em nós é falar sobre as nossas curvas que, ao fazê-las, nos defrontamos conosco mesmos. Mas assustados, tratamos logo de buscar um retorno. Queremos estar do lado de lá, mas quando acessamos o caminho, ele nos assusta e recuamos.

As catracas livres representam aquele que avança e que caminha. Não há milagres. Há esforço, busca e abnegação do que não serve mais, daquilo que dificulta o acesso para o outro lado. E para chegarmos lá, nossos abismos precisarão ser tratados e curados.

Curamos e tratamos os nossos abismos quando deixarmos de dar as mãos para a omissão. Quando ela deixar de ditar as respostas da nossa vida. Omissão é uma falta de atenção para com a vida. Uma ausência.

Curamos e tratamos os nossos abismos quando nos enxergarmos e nos apropriarmos do problema como realmente nosso. E é nosso. Ao fazermos a pergunta: “e se a pessoa tiver dinheiro, mas simplesmente não quiser pagar?” é importante dizer que “esta pessoa” simplesmente pode ser a gente mesmo que, num momento de fragilidade e de imoralidade, utilizamos um benefício indevidamente.

Se quisermos, portanto, estarmos do lado de lá do abismo, será preciso reforçarmos os calçados porque a caminhada será longa.

A cura somente virá quando enxergarmos o valor e a necessidade dela. E valorizando a cura, respostas como a da vendedora de bilhetes: “mas por que ela faria isso?” serão comuns entre nós.

Os abismos existem porque precisam nos dizer algo. Existem porque os criamos. Aprofundam-se porque damos espaços e acomodações a eles. Perpetuam-se porque a arrogância do saber ainda nos faz companhia diariamente. Integram-se a nossa rotina porque a nossa soberba em achar que somente o outro é que poderá usar a catraca indevidamente faz eco em nossas mentes e em nossos corações.

Os abismos existem para nos fazer entender que de profundidade eles entendem. A medida que o tempo passa, eles se fortalecem e crescem. E quando nos damos conta e olhamos para eles, eles também olharão para nós, como disse Nietzsche, nos chamando a atenção para que a gente não se transforme no próprio abismo.

A vida nos dá chances inúmeras de transpormos os nossos abismos e de até não permitirmos o nascimento deles. Mas onde estávamos quando essas chances chegaram?

Não nos cabe criticar um País em detrimento do outro, comparar um povo a outro, mas sim o que estas atitudes diferenciadas representam para nós e qual é o nosso distanciamento em relação a elas. Problemas todas as nações possuem. Mas escolher mudar este patamar depende da atitude individual.

Catracas livres: ainda não temos por um limite imposto a nós mesmos. Estamos distantes disto porque assim construímos este distanciamento. Assim alimentamos os nossos abismos.

Catracas livres: um caminho ainda não percorrido, mas possível.

Catracas travadas e livres são a representação da mesma face. Do mesmo abismo. Se queremos ir mais longe e chegarmos ao outro lado, é bom começarmos logo o trabalho. Planejamento, intensidade, vontade e regularidade serão ferramentas necessárias.

Abismos existem para serem vencidos. Abismos vencidos, espaços trilhados e conquistados. Quando encurtarmos os abismos e alongarmos as nossas pernas, os distanciamentos estarão fadados ao declínio.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Lao-Tsé, filósofo e escritor da antiga China, que diz:

“Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias”.

Conhecimento técnico nós temos. Conhecemos, por exemplo, muitos vieses do nosso caráter para saber de nossa capacidade de utilizarmos a catraca vazia, principalmente se estivermos com pressa ou se ninguém estiver vendo. Mas sabedoria, que é o conhecimento da vida, capaz de nos permitir dizer: “- mas por que ela faria isso?”, somente eliminando coisas todas os dias, como o supérfluo, o desnecessário, o tendencioso e o marginal. Esta limpeza nos fará enxergar as catracas livres, e o mais importante: permanecerão livres até que alguém, verdadeiramente, precisar usá-la. E este alguém poderá ser a gente mesmo.

domingo, 15 de abril de 2018

Feche os seus parênteses

Nossos lentos avanços mostram e evidenciam os nossos retrocessos. A tecnologia na qual todos estamos inseridos, o mundo tecnológico no qual vivemos e o saber que achamos que temos somente porque somos ágeis nos dedos e nas teclas, rápidos nas postagens e fluentes na navegação na rede, na realidade, marcam nossos lentos avanços. Poderíamos estar mais longe.

A tecnologia é fundamental e nos ajuda muito. Todo o agradecimento a ela. Desmerecê-la seria, no mínimo, leviano e insensato. Ela nos proporciona avanços e acessos a lugares e a questões inimagináveis até pouco tempo. Encurta distâncias, traz descobertas, possibilita estudos, proporciona facilidades. Não me refiro, portanto, ao bem que ela traz, porque ele está claro, mas sim ao mais longe que poderíamos estar se não fosse o nosso lento caminhar, o nosso desvio de rota e de atenção ao que verdadeiramente importa. E este lento caminhar, quando poderíamos avançar, nos dá evidências dos retrocessos que vivem em nós.

A tecnologia deveria existir para nos servir e não o contrário. Ela deveria existir para nos ajudar a sermos melhores e a fazermos, deste mundo, um lugar mais belo de se viver.

Estamos muito expostos. Muito disponíveis. Muito acessíveis. Muito de muito. Muito do muito. Isto denota as carências e faltas que habitam em nós, mas que insistimos em colocá-las para debaixo do tapete. Este excesso de exposição é aprovado por nós. Colocamo-nos no centro das atenções e queremos todas as atenções. Somos localizáveis o tempo todo porque também assim o permitimos. Colocamo-nos como vítimas de uma situação que buscamos, de uma posição que gostamos de estar: a da exposição. Quando não estamos expostos de alguma forma (comentários nas redes, fotos, vídeos, likes, etc) é como se estivéssemos à margem da vida. É como se algo nos faltasse. Uma sensação de alguém oferecer uma festa e não nos convidar. Conferimos um poder às redes e à tecnologia que não deveríamos. Isto tudo nos faz criar vínculos e laços com o desmedido, desnecessário, efêmero. Faz-nos ficar viciados na novidade, no curto, no raso, no superficial.

Superestimamos o som da mensagem que chega e paramos imediatamente o que estamos fazendo para ver sobre o que se trata. Quando recebemos um zap e não respondemos na mesma velocidade daquele que nos enviou, somos cobrados. Quando ligamos para o celular de alguém e este mesmo alguém não atende, ficamos aflitos. Uma postagem no facebook foi realizada por um amigo desconhecido e indiferente à nossa vida, mas imediatamente curtimos ou, no mínimo, colocamos algum comentário. O twitter nos encaminha um e-mail dizendo que temos atualizações que são, muitas vezes, inúteis e desprovidas de conteúdos de qualidade, mas que damos uma passadinha lá.

São tantas as janelas abertas na parte inferior do nosso computador, que o sol mal entra nas janelas verdadeiras da nossa casa. Perdemo-nos no meio de tantas informações, mas o conhecimento está à margem há tempos. O que fazemos com tudo o que nos chega?

Valorizamos a nossa agilidade na navegação, elogiamos os mais jovens pela desenvoltura com que manuseiam as máquinas, acessamos notícias, zapeamos na rede. No final do dia, para onde exatamente fomos? Aquilo tudo nos construiu ou não?

O tempo é uma moeda com a qual não podemos brincar. Além de não aceitar desaforos, costuma cobrar pela inabilidade do uso.

Somos interrompidos a todo o momento não por causa da tecnologia, mas sim por causa de nós mesmos que nos deixamos interromper a qualquer hora, momento e circunstância. A questão não é a tecnologia, mas sim nosso agir diante isto. Criamos um monstro, e agora não conseguimos mais controlá-lo e nem viver sem ele.

Vivemos excessos de interferências que nos causam sobreposições. Estes excessos de interferências e de interrupções simbolizam o nosso retrocesso. Um retrocesso que nos faz ainda falar sobre os mesmos velhos assuntos que, apesar de ressurgirem com outras roupagens, possuem a mesma essência. A violência é um destes velhos e mesmos assuntos. A nossa agressividade ainda é um velho assunto. A covardia e o egoísmo ainda são velhos assuntos, mas que agora se apresentam de forma tecnológica.

Abrimos tantos parênteses ao falarmos, que nos perdemos. O que estávamos falando mesmo?

imagem tirada da internet

Estamos ansiosos por informações que não sabemos o que fazer com elas. Esta ansiedade cria instabilidade. E na instabilidade, obviamente, nada se estabelece. Um livro de 50 páginas se torna grande. Pensar exige um transbordar de nós próprios. E como acontecer este transbordamento se logo ali há mensagens para serem lidas agora?

Senso de urgência e de prioridade são distintos de falta de triagem e de filtro para selecionarmos o que, verdadeiramente, importa. Como tudo se tornou urgente, como uma das medidas do sucesso se tornou o imediatismo, o pensar e o refletir realmente estão ficando fora de moda. Mas desconfio que este não seja o melhor caminho.

Coisas vão sendo colocadas sobre as outras, janelas abertas sobre as outras, mensagens sobre as outras. Sobreposições camuflam a mesmice, o retrabalho, o ineficiente, o favorecimento de alguém, o cansaço. Sobreposições nos dão a falsa sensação do trabalho, do pertencimento e da utilidade porque criam necessidades desnecessárias, que somente serão percebidas lá na frente, quando alguém quiser resolver algumas velhas questões.

Portanto, sobreposições interessam àqueles que querem nos desviar da rota e do caminho.

Textos são lidos mecanicamente porque há algo pulando aqui na nossa tela, clamando nossa atenção. São tantas as irrelevâncias que nos chamam a atenção, que aquilo que necessita, de verdade, do nosso olhar, muitas vezes fica para segundo plano. É uma pena.

Somos o tempo todo interrompidos. É fundamental compreendermos que interrupções, discretamente, sugerem uma troca de contextos. Elas nos tiram do lugar no qual estávamos, que poderia ser um lugar necessário. O pior é que muitas vezes não voltamos para este lugar certo e necessário. E a nossa oportunidade de transformação e de reflexão se perde no meio dos erros construídos por nós, e por uma sociedade que anseia pelo rápido e pelo novo para que não tenha tempo de lidar com aquilo que demanda tempo: nós.

Quando somos interrompidos, invariavelmente, paramos de fazer o que estávamos fazendo para atendermos a algum chamado. E muitas vezes um chamado que poderia esperar ou até que não deveria ser atendido.

Interrupções são um compartilhamento do nosso tempo. Com ou sem a nossa autorização. Um
desperdício de tempo com eventos diferentes.

A interrupção e a interferência forçam uma mudança que nos transfere da nossa rotina.

Estamos fragmentados, viciados em novidades, em notícias curtas, em manchetes que nada dizem. Interrupções têm prioridade, mas estão se tornando a regra. Ou não?

Que a gente se desligue dos cliques imediatos e das respostas prontas para que possamos nos ligar nas possibilidades daquilo que poderemos ser.

Estar o tempo todo conectado nos faz abrir muitos parênteses e nos ausentar de nós mesmos. Quando fechamos os nossos parênteses, abrimos espaços em nossas mentes para o pensar e para o ir além. A conexão tecnológica é importante e fundamental. Mas que saibamos delimitar espaços e tempos. É isso. Mais que isso, é delegar o indelegável. É permitir invadir espaços preciosos de tempos que poderiam ser utilizados para a ação e reflexão.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Rubem Alves, um escritor atemporal, que diz:

“No silêncio, mora o mundo.”

Por que, então, este silêncio nos incomoda tanto? Acredito que seja porque nunca aprendemos a silenciar os nossos ruídos, que são muitos. E as interferências e interrupções cumprem bem o papel de não permitirem nos ouvir.

A realidade nos traz a velocidade da interrupção e da interferência a todo momento. Estarmos o tempo todo conectados e velozes apenas nos dedos, nos tira a velocidade do pensar e a possibilidade de nos revisitar e enxergar o que nos perturba.

Viver é bem mais complexo que a própria realidade. Ainda mais sob os efeitos cruéis e ineficientes de tantas interferências e interrupções. Por isso, é preciso parar para que se possa seguir. Um seguir firme, sustentável e focado, mesmo que interferências e interrupções insistam em nos distrair. Quando chegarmos neste ponto, certamente não teremos mais tantas janelas abertas na parte inferior do nosso computador. Porque outras, bem mais importantes, terão sido, há tempos, abertas.

domingo, 8 de abril de 2018

Ditos ocos, ouvidos moucos

Sonhar é viver, e viver é sonhar. Um depende do outro. Um completa o outro. Quando enxergamos isto, o nosso compromisso com a vida se torna sólido, verdadeiro e profundo, e todas as possibilidades que ela nos oferece são lucidamente percebidas por nós. No entanto, esta lucidez e fluidez com que percebemos este sonhar e este viver, ou seja, nossas possibilidades, vão cedendo e perdendo espaço na mesma medida que dedicamos tempos preciosos para ouvirmos o desnecessário, o vão, o tolo, o inútil. Portanto, deixar de ouvir algumas vozes, alguns ruídos e barulhos faz todo sentido. Ouvidos moucos são bem-vindos.

“Ditos ocos, ouvidos moucos”, diz o provérbio português.

Onde estão os nossos sonhos? Dentro das nossas vidas. Para enxergá-los, será necessário silenciar as nossas tormentas internas e calar vozes que teimam em nos desviar da rota que buscamos trilhar. E infelizmente muitas vezes elas conseguem. E triunfam.

Sonhar e realizar é maravilhoso. Mas nem sempre sonharemos e realizaremos. Faz parte da vida e do nosso processo de construção e de consolidação como seres autônomos que somos ou que, no mínimo, buscamos ser.

Sonhos realizados significam que andamos de mãos dadas com o tempo e com a vida. Sonhos ainda não realizados podem significar um convite do tempo e da vida para que nossas mãos estejam estendidas. Assim eles podem nos alcançar.

O tempo e a vida sempre nos darão pistas que revelarão os motivos da realização e da não realização dos sonhos. Acima de tudo, acreditar e desenvolver as condições para. Se vamos conseguir, somente o caminho dirá. Guimarães Rosa diz que “...a realidade está na travessia”. Portanto, nossa realidade está no sonhar, no viver e nos pés que precisamos tirar do chão se quisermos avançar, apesar de eles nos conectarem com a base.

Ouvidos moucos nos ajudam a não afrouxarmos diante à vida. Ajudam-nos à concentração no que, verdadeiramente, importa. Fernando Pessoa nos provoca dizendo:

“Os meus sonhos são mais belos que a conversa alheia.”

Aquele que deixou de sonhar, normalmente, já não tem muito mais o que fazer. E por conta do tempo ocioso que resta a ele, comumente tenta e busca destruir o sonho do outro. E destruir o sonho do outro são conversas alheias.

É preciso fazer ouvidos moucos para aqueles cuja capacidade de sonhar se perdeu.

Deixar de sonhar nos causa desequilíbrios. Por isso, aquele que se perdeu de sua capacidade de sonhar busca apoio nos ombros e ouvidos alheios.

Todo aquele que deixou de sonhar, deixou de viver. E se não estivermos atentos, faremos companhia a esse cujo sonho se tornou desconhecido.

Ouvidos moucos nos blindam de interferências que poderiam nos fazer desviar da rota. Eles não são sinônimos de alienação ao que precisa ser ouvido por nós, mesmo que seja algo difícil como uma crítica ou a constatação de que ainda não estamos prontos. A vida nos transmite recados e é preciso termos a humildade para ouvi-los. Ouvidos moucos são, fundamentalmente, ferramentas necessárias que nos ajudam e fortalecem a nossa caminhada. Utensílios imprescindíveis para não abandonarmos o caminho e a rota porque sabemos que estamos na direção correta.

Sonhar é fundamental para aquele que vive. É o movimento que conduz. É o recuo como refúgio. É o arriscar para se acertar. Quando não desistimos, o sonho permanece.

O sonho ilumina nossas estradas. É ele quem nos acomoda. A falta de sonho nos deixa desconectados com a vida. A lua perde todo o sentido.

Sonhar nos ajuda a ser seletivos e objetivos. O tempo nos exige isto.

Aquele que sonha ouve os seus silêncios. Faz o caminho de volta para se reencontrar. Aquele que sonha segue as próprias marcas deixadas no chão. Desta forma, o caminho de volta fica mais fácil e familiar.

O homem que sonha é um corajoso, um destemido.

As conversas alheias são os excessos diários que cumprem o papel de nos chamarem à reflexão. São exatamente os excessos que nos fazem refletir sobre a necessidade do limite. São os excessos de exposição que nos fazem refletir sobre a importância e lucidez da reclusão e da preservação. Estas conversas alheias e desnecessárias servem para nos fazer refletir sobre a relevância do silêncio. Elas não nos permitem sonhar. Falam muito e ocupam espaços não autorizados. Entram e se alojam. Elas nos intoxicam porque nos tiram da relação conosco.

É preciso tempos vazios para a contemplação. Nela, os sonhos ressurgem. Reaparecem. Descem das estrelas, aonde os colocamos, para alcançarem as nossas mãos.

Os sonhos são a prova de que a vida existe. E a vida é a prova de que se é possível sonhar.

O sonhar nos torna humanos e singular a nossa experiência. Exige tempo, reflexão e construção. Quando deixamos de sonhar para nos conectar, abrimos mão de um espaço de construção dentro de nós.

É preciso fazer ouvidos moucos para que conversas alheias não tenham vez conosco. Pois como disse Fernando Pessoa, os nossos sonhos são mais belos. E são mesmo!

Que as conversas alheias, os barulhos, interrupções, desestímulos sejam apenas belas oportunidades para reforçarmos aquilo que não queremos.

Que os nossos sonhos nos encontrem na bela vida que vivemos. Os sonhos nos constituem. Revisitá-los é como olhar para nós mesmos.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Victor Hugo, romancista e poeta do século XIX, que diz:

“Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.”

Que a nossa vida seja este caminho vivo, como uma representação dos nossos mais belos sonhos estrelados, como disse o Poeta. Somente quando calamos as vozes neutras e dúbias, é que as estrelas podem ser vistas. Quando damos vozes a vozes desprovidas da crença no sonho, as estrelas choram e se escondem para não serem vistas.

Que a gente não tenha pressa para preencher as nossas lacunas. Elas indicam o caminho para os nossos sonhos, para a nossa vida. Enquanto nossos sonhos existirem em nós, estaremos vivos e o melhor: sonhando.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Os pregos em nós

Enxergar o outro como verdadeiramente o outro, e aceitá-lo, talvez seja uma das coisas mais difíceis. A essência do outro fica camuflada diante os nossos olhos quando algo nos confronta, nos desafia, nos diz que podemos estar errados. Sabemos que ele tem uma essência, mas é como se ela atrapalhasse o brilho da nossa. Sentimo-nos ameaçados e a saída, encontrada por muitos, é enquadrá-la à nossa maneira e formato de ver e de lidar com o mundo.

Conviver com o diferente não é simples. Exige muitas habilidades. Mas é preciso reforçar que é ineficiente e improdutivo rechaçá-lo e colocá-lo de lado. O diferente do outro nos incomoda, mas o nosso diferente também incomoda os outros.

Respeitar as diferenças não significa concordar com elas. Significa, apenas, respeitá-las e ceder espaço para que o outro pense e aja diferentemente. A palavra respeito, do latim respectus, significa, além de outras coisas, olhar para trás, considerar. Ou seja, aquele que respeita olha para trás e sabe que há sempre alguém vindo. Não um olhar para trás arrogante, como se estivesse à frente, mas um olhar ciente de que não vamos sós, que o mundo caminha compartilhado e partilhado, dividido com outros saberes, sentidos e passos. Quando pensamos desta forma, mesmo que a nossa discordância do outro seja inevitável, no mínimo, o respeito estará presente. Mesmo que o nosso compartilhar de passos seja por meio de caminhos distintos e opostos, mesmo assim, o respeito estará presente.

Respeito presente. Guerra ausente. Podemos lutar lutas distintas. Podemos nos distanciar daquele de quem não compartilhamos nem a vírgula. Podemos nos afastar daquele de quem discordamos absolutamente, principalmente nas atitudes, valores e virtudes. Mas, o respeito, se convidado, sempre estará pronto para ser o condutor da paz.

Trabalhei num Banco e ouvi, certa vez, no momento do feedback:

“Você precisa se expor mais, falar mais, dizer a sua opinião, nas reuniões da Diretoria. Percebo que nestas reuniões você não fala muito, é muito calada. É importante você se colocar para que as pessoas te conheçam mais e saibam quem você é.”

Apesar de discordar, apenas ouvi aquele comentário descontextualizado. Ao final do feedback, a Gestora me perguntou: “está claro, ficou alguma dúvida?”, apenas respondi: “claro está, mas discordo. Se não falo muito neste tipo de reunião é porque não tenho muito, mesmo, a dizer. São reuniões genéricas e amplas que, em muitas situações, não cabem comentários, mesmo. As poucas interações que já fiz me parecem mais que o suficiente. Acredito que a fala deve ser utilizada com utilidade.” Assim encerramos o nosso feedback: de uma forma traumática, ineficiente e tendenciosa.

Jamais podemos chamar a atenção de alguém por falar pouco ou por não dizer a própria opinião. A menos que esta ausência de fala prejudique algo ou alguém, o que não foi o caso. Muitas pessoas apenas “falam” neste tipo de situação para marcarem presença. Levantam o braço apenas para chamarem a atenção para si. Falam apenas para ocuparem espaços vazios e para gritarem suas vozes sem expressão.

O feedback é e deve ser um momento de realimentar para o bem, e não um momento de opressão. O alimento eleva; a opressão rebaixa.

Importante dizer que esta Gestora era extremamente falante e extrovertida. Sempre tinha uma opinião sobre tudo. Estava sempre envolvida em diversas ações, porém com poucas conclusões. E “não sei” era algo raro de se ouvir.

“Se tudo o que você tem é um martelo, sua tendência será ver tudo como um prego.” Este foi o pensamento que veio à minha mente após aquela conversa. Fui tratada como um prego, naquele momento, uma vez que ela possuía, apenas, um martelo. Uma pena.

Quem sai perdendo com tudo isto? Aquele que não considera a diferença e que mede o outro por meio da sua régua pessoal. Que busca reprodutores de modelos e de pensamentos, seguidores e não pensadores. Aquele que, tomado pela cegueira, enxerga, apenas, o seu caminhar, os seus passos e as suas marcas.

Aquela gestora demonstrou toda a sua limitação ao não considerar que eu era apenas diferente dela. Simples assim. E isto é um exemplo de muitos outros símbolos.

Direcionar alguém e orientá-lo para a realização de um bom trabalho é essencial. Contribuir para o desenvolvimento de alguém, fazendo que as habilidades e talentos desta pessoa brilhem e ajudem a criar o sucesso do todo é o que um Líder, verdadeiro, deve buscar. No entanto, reprimi-lo sobre quesitos da personalidade, sobre algo pessoal e particular, que nada interferem na qualidade, na entrega e no bem-estar nem do trabalho e nem da pessoa, em questão, é ultrapassar as fronteiras do razoável e do aceitável. É, no mínimo, entrar na casa de alguém sem, ao menos, tocar a campainha e pedir licença para entrar.

O tempo passou, e após quatro meses, outra Gestora chegou a área. Muitas mudanças boas foram percebidas por todos. No momento novamente do feedback, que era semestral, um dos comentários que ouvi, desta nova Gerente, foi:

“um dos seus pontos que destaco é o discernimento ao falar, ao se expor. Você é bastante discreta, fala apenas quando tem algo a agregar, não fala apenas por falar, inclusive em reuniões com Diretores, momentos muitas vezes de realização de marketing pessoal para tantas pessoas. Saber o momento de se calar é uma arte. São características essenciais para o trabalho que se faz aqui.” E quando ela me fez a pergunta clássica: “está claro, ficou alguma dúvida?”, me lembrei imediatamente da situação oposta que tinha vivido.

Ironias da vida ou reflexões? Os dois. Ironia porque para uns, é defeito; para outros, qualidade. E reflexão porque uma coisa é nos permitir à reorientação, quando necessário, chamados à atenção e reconduzidos ao caminho que nos levará ao melhor que pudermos ser. Isto é o início de um trilhar de humildade, é um reconectar dos nossos pés com a terra. Às vezes é doloroso, mas necessário. Um alimento amargo, mas que lá na frente saberemos valorizá-lo. Outra coisa é aceitarmos, indevidamente, nos colocar numa condição de pregos por alguém que não enxerga as próprias limitações.

Não se trata de valorizar a segunda atitude apenas porque fui elogiada. Exatamente o contrário. Trata-se de ressaltar a relevância da valorização da diferença, da individualidade. Esta segunda Gestora também era extrovertida e falante. Porém, sabia enxergar, no silêncio e na discrição, relevâncias também. Sabia enxergar ganhos nas diferentes formas de existência.

Exigir e fazer que o outro ande na nossa rota, no nosso caminho, e de preferência, com as nossas regras é um excelente condutor ao fracasso. Enxergá-lo apenas com uma possibilidade, e ainda assim, porque está baseada na nossa expectativa e crença, é somente o retrato da nossa pequenez e do quão distante ainda estamos.

A diferença entre as marteladas que a vida nos dá e as que os outros nos dão está no sentido: as da vida representam um pedido para acordarmos para as inúmeras possibilidades de deixarmos de ser pregos. As que os outros nos dão servem para nos confundir de quem realmente somos, e assim, nos afundarmos em madeiras podres e doentes. Servem para não pensarmos em quem somos e em quem poderemos ser.

Críticas e elogios: duas faces da mesma moeda. Importantes para o nosso desenvolvimento. As críticas nos reconduzem ao caminho que nos fará brilhar, e os elogios nos darão a certeza de que já estamos brilhando, mas não um brilho que ofusca aquele que vem atrás, mas o que ilumina o caminho em comum no qual todos possam caminhar.

Uma crítica sincera e efetiva nos mostra muitas possibilidades além de um prego. Um elogio sincero é um sinal de respeito ao que se é, à individualidade, ao estar no mundo.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Manoel de Barros, um poeta imprescindível, que diz:

Guarda, num velho baú, seus instrumentos de trabalho que são: um abridor de amanhecer, um prego que farfalha, um encolhedor de rios e um esticador de horizontes”.

A poesia dá colorido à vida. Ela explica o verdadeiro sentido que a vida pode e deve ter. Manoel de Barros sabe disso há tempos.

Aquele prego, cuja comparação me foi feita está, até hoje, guardado na minha memória e no meu velho baú. Aonde o respeito predomina, o ego perde a vez.

Nossos pregos guardados em nossos baús representam o essencial: lembrarmos de manter a atenção em nós e no que, verdadeiramente, importa. Quando estamos atentos a nós, o mundo ao redor melhora. E, consequentemente, deixamos de considerar o outro como prego ou, pior, de martelá-lo como se esta fosse a opção e caminho dele.

Sempre haverá pessoas tentando diminuir os nossos tamanhos. Os pregos guardados nos farão lembrar disso. Mas como somos grandes, não permitiremos.

O feedback, uma excelente ferramenta, é uma arma na mão dos desajustados. Pode prejudicar alguém ou o tiro pode sair pela culatra. Neste caso, o tiro acabou saindo pela culatra: ao invés de aquela Gestora conseguir me oprimir por meio de uma fala tendenciosa, ela, sem perceber, me ajudou a descortinar uma arma poderosa que tenho, que todos nós temos: o meu esticador de horizontes. Uma arma poderosa que há no baú de todos nós.

Que todos nós possamos fazer uso do nosso baú. Ele nos diz aonde estamos, porque assim nos colocamos, mas nos diz, acima de tudo, aonde poderemos chegar se fizermos uso de um abridor de amanhecer e de um esticador de horizonte, por exemplo. Com estas ferramentas, os pregos até continuarão existindo, mas não em sua função inicial, apenas. Eles precisarão se adaptar aos novos moldes de ferramentas mais éticas, claras e justas.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A passagem estreita

Um homem foi ao encontro de Sócrates para levar a ele uma informação. Julgando ser de interesse do filósofo, disse:

- Mestre, quero contar ao Senhor uma coisa a respeito de um amigo seu.

- Espere um momento, disse Sócrates. Antes de me contar, quero saber se você passou esta informação através das três peneiras.

- Três peneiras? O que o Mestre quer dizer com “três peneiras”?

imagem tirada da internet

- Quero dizer que vamos peneirar tudo aquilo que você vai dizer. E para isto, devemos, sempre, utilizar as três peneiras. Se não as conhece, preste bem atenção. A primeira delas, é a peneira da Verdade. Você tem certeza de que isto que vai me dizer é verdadeiro?

- Bem, disse o homem, foi o que eu ouvi os outros contarem. Não sei, exatamente, se é verdade.

Sócrates olhou para o homem de maneira desconcertante.

- A segunda peneira, continuou Sócrates, é a da Bondade. Acredito que você tenha passado esta informação através desta peneira. Ou não?

Envergonhado, o homem respondeu:

-Devo confessar que não.

Sócrates, pensativo, continua:

- E a terceira peneira é a da Utilidade. Você pensou se esta informação é útil?

- Útil? Na verdade, não. O homem respondeu, baixando a cabeça.

- Então, disse o Mestre, se o que você quer me contar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueça a informação.

Certamente, se seguíssemos estes conselhos de Sócrates o mundo seria mais feliz, justo, ético e silencioso.

Feliz porque o mundo ficaria mais leve sem tantas falas, sem tantos comentários. Falamos muito e sobre tudo. O fazer, muitas vezes, é obrigado a ceder espaço para o falar sem parar. Quando falamos muito não temos tempo de construir a nossa felicidade que, passa, obrigatoriamente, pela reflexão interna, pelo autoconhecimento, pela contemplação. A felicidade é plena e leve. Digna daqueles que mais observam do que falam. Felicidade é ausência de necessidades. Como ser feliz falando muito e com desequilíbrio?

É preciso dar espaço para as ausências porque elas nos constroem. O caminho da construção interior leva à felicidade.

Justo porque utilizaríamos medidas honestas na nossa convivência, e não tendenciosas. Três pra mim e meio para você. Nosso próximo não seria utilizado, por nós, como escada e vice-versa. Sentar-se na primeira fila deixaria de ser sinônimo de observar, com atenção, o erro do outro. Quando erramos, queremos compreensão, paciência e, de preferência, que esqueçam logo o nosso erro. Quando o outro erra, vestimos a nossa torga e julgamos. Enquanto o prazer em ver o erro do outro existir e a curiosidade e a fofoca ocuparem mais espaços do que a ajuda, como falar em justiça?

É preciso calçar as sandálias do outro, como diz o provérbio, para, de verdade, começarmos a entender o conceito de justiça.

Ético porque as mesmas regras que servem para nós devem servir para o outro. As três peneiras de Sócrates são um exemplo disto. Como ser ético sem ser bom, verdadeiro e útil? Como ser ético se os nossos espelhos estão cobertos? Como ser ético se estes mesmos espelhos, agora descobertos, estão virados para o outro? O espelho mostra quem somos. Por que temos tanta capacidade de falarmos sobre o que não importa? Por que o supérfluo nos representa tanto? Por que nossos espaços não são ocupados pelo sentido?

É preciso revisitar os nossos excessos, facilidades, privilégios e comodidades para, então, iniciarmos a fala sobre ética. Todos eles são indicativos de falta. E falta de algo maior.

Silencioso porque muitas coisas deixariam de ser ditas. Os excessos se retirariam, envergonhados. O silêncio teria sua vez. Os sábios são silenciosos. Falam pouco porque o exemplo deles fala por si. Ouvem muito porque são humildes. Aquele que sabe ouvir e que silencia vai à frente, bem à frente. Somos barulhentos, ansiosos, espaçosos porque, ainda, não aprendemos a valorizar e a perceber o silêncio. Nele podemos, verdadeiramente, nos expressar. Mas perdemos esta oportunidade. “Fala demais por não ter nada a dizer”, diz a música. Um valioso exercício de reflexão. Falar é imprescindível, mas desde que haja o que dizer. Desde que a fala construa algo verdadeiro e digno.

Fabricamos falas improdutivas, mais do mesmo. Falamos sobre as rugas, olheiras e comportamento de todos. Julgamos, criticamos e sempre temos uma solução. Somos assíduos consumidores de fofocas em todos os formatos (reality, revistas, tv). Falamos o tempo todo sobre tudo e sobre todos porque não dedicamos tempo a nós e à construção de nós mesmos. E quando o silêncio se aproxima, tratamos de preenchê-lo e o desprezamos.

Nossos espelhos estão envelhecendo por falta de uso. Nossas imagens distorcidas não chamam mais a nossa atenção. Queremos o palco para termos atenção porque há tempos não sabemos o que é isto, não nos damos atenção. Falamos dos outros indefinidamente e sem pudores porque falar da gente nos fará nos conhecer. A fofoca nos alivia porque, assim, colocamos o outro na cena do julgamento. E assim vamos passando despercebido na vida.

Aquele que ouve os próprios silêncios, silencia. Cala-se. Não tem tempo de falar do outro, de se ocupar, indevidamente, da vida do outro. Aquele que utiliza a verdade, a utilidade e a bondade como forças há muito já entendeu o sentido da vida e o que fazer dela.

Utilizar as peneiras trazidas por Sócrates é sentir o aperto da responsabilidade. É sentir o estreitamento da vida. É uma advertência para a renúncia do que não serve. Uma advertência e um convite, ao mesmo tempo. É um desvencilhar das inutilidades para, finalmente, conhecermos a utilidade. É conhecer o mal para que possamos diferenciá-lo do bem. É conviver com mentirosos para que saibamos valorizar a verdade.

Uma peneira é estreita e apertada. Somente passará o importante e o necessário.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento do próprio Sócrates, que diz:

“O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância. Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.”

Que nossa bondade não seja seletiva e que nossas falas não tenham mais dificuldades absurdas para reconhecerem o valor do outro, se quisermos que o nosso valor seja igualmente reconhecido. Que o silêncio seja mais vivenciado para que a nossa fala seja cada vez mais eficiente e significativa. Que a admissão da ignorância não seja uma vergonha para nós, mas sim, o princípio da sabedoria, como trouxe Sócrates.

É preciso valorizar os passos dados, que já foram muitos. É preciso valorizar o bem que há em nós, porque há. Mas é preciso, também, abastecer nossas vidas com mais peneiras porque elas nos levarão a um melhor patamar de consciência e, consequentemente, a um melhor patamar de ser. Um ser conciso, estreito, no melhor sentido da palavra, e peneirado.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Somos o nosso espelho

Há dois meses, estávamos no fim do ano. Preparativos, correrias, afazeres. Tudo para que, na noite do dia 24 de dezembro, a nossa ceia familiar estivesse pronta e, desta forma, pudéssemos nos reunir com aqueles a quem amamos e brindarmos o Natal, o ressurgimento, o nascimento. E na semana seguinte, os mesmos preparativos para recebermos aquele que batia à nossa porta: o Ano Novo.

Independentemente da religião de cada um, se é que a temos, e da crença que vai na mente e no coração de cada um de nós, o fato é que, nestas duas épocas do ano, nos dedicamos mais àquilo que verdadeiramente importa: união, amor, fraternidade e, para os mais atentos, reflexão e um reposicionar-se diante à vida.

O ano inicia. Aquele sentimento de renovação e de desejo de coisas boas que buscamos para nós e que também desejamos ao outro, à meia-noite, parece que vai caindo no desuso e no esquecimento, e todos aqueles votos de paz, amor, fraternidade, união e prosperidade vão reocupando os lugares do abstrato nas nossas vidas. Não um abstrato que tem força própria de existência e que se materializa sem a nossa interferência, mas um abstrato intangível, e mais que isto: um abstrato que não se alcança. Obviamente sem generalizações. Cada um é cada um. Há muitas pessoas que se esforçam, e muito, para carregarem este dever e esta vontade de renovação ao longo do ano. Mas há outros tantos que se esforçam, e muito, para que a teoria sempre fique bem distante da prática. Aqueles que possuem a teoria afiada na ponta da língua, mas os braços curtos para alcançarem o próximo, assim como se deixarem alcançar também pelo outro.

E é nessa hora que uma palavra simples, sem muitos adereços e brilhos, pouco utilizada e até menosprezada, entra em cena: a reflexão.

Reflexão conversa com refletir que conversa com reflexo. Todas da mesma família. Todas com a mesma provocação. Como coincidências não existem, acredito que elas queiram nos dizer algo. Mas será preciso dedicar os nossos ouvidos para ouvi-las.

Reflexão é um exame a respeito de nós mesmos. É um voltar para trás para refletir. É um pensar sobre o nosso comportamento, nossas atitudes. É uma investigação do investigado, no caso, a gente mesmo. Reflexão é, portanto, uma postura firme de desejo de reposicionar-se na vida. Refletir é a ação em si. É colocar em prática o nosso pensar, mudar a direção e, acima de tudo, arcar com os custos disto. E reflexo é o produto da nossa reflexão, que pode ser aquilo no que acreditamos ser, não necessariamente aquilo que somos. Reflexo, portanto, é aquela imagem que volta para nós mesmos ao passarmos diante um espelho.

O que enxergamos ali? Para alterarmos aquele reflexo será preciso efetuarmos modificações no nosso refletir, no nosso agir. E assim, nossa reflexão, este exame a respeito de nós, será mais eficiente e sustentável. A imagem vista no espelho será mais amigável. E apesar de ela nos duplicar (somos dois ao nos vermos através do espelho), isto já não será mais problema.

A reflexão deve ser um exercício diário se quisermos sair dos cumprimentos formais das festas de fim de ano. E oportunidades para estas reflexões não nos faltam.

imagem tirada da internet

Estes encontros anuais com a boa fala, com as boas palavras e com os bons desejos se mostram insuficientes. Basta olharmos os resultados. As comemorações de Natal e de Ano Novo não dão conta mais dos nossos absurdos e das nossas demandas. É preciso estabelecer mais paradas para refletirmos nossas condutas e, por consequência, nossos reflexos no mundo e em nós mesmos.

O trabalho é meu. A responsabilidade é minha. O dever é meu. As conquistas são nossas.

Toda reflexão começa no nível individual, mas o produto dela se materializa no coletivo. E para isto, será preciso espalharmos espelhos aonde poderemos nos enxergar sem rodeios, entraves e atalhos. Os nossos bastidores são descortinados e os nossos reais interesses se mostram.

Espelhos apenas refletem quem somos, porém em dobro. Se há incômodo com o que se vê lá, estejamos certos de que a vida está nos fazendo um convite para uma reflexão, cujo único objetivo será o de apaziguar, acalmar e compreender os nossos reflexos. Acolhidos, quem sabe eles não nos dizem o que fazem lá? Quem sabe eles não revelam o motivo de surgirem para nós, mesmo que a nossa revelia?

Refletir, fazer reflexões e tomar contato com os nossos reflexos não é das tarefas mais fáceis. Mas se deixarmos estas tarefas para o fim do ano, apenas porque a boa educação manda, as coisas ficarão mais difíceis ainda. Refletir é uma das formas de dedicarmos amor a nós mesmos. E de, mesmo sem percebermos, sermos pessoas mais felizes que não são aquelas que possuem muitas coisas, mas sim, as de poucas necessidades. E as nossas reflexões diárias nos ajudam a eliminar as nossas necessidades desnecessárias e descabidas. Ajudam-nos a apreciar o sentido, a direção, o foco, para que a gente acerte o caminho logo do início. E mesmo se errarmos, será mais fácil retomarmos o caminho, se a reflexão estiver fazendo parte da nossa rotina.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento que diz:

“passo a passo, anda-se, num dia, um bom pedaço”.

Que bons pedaços sempre façam parte de nossa caminhada. Bons pedaços calçados, pensados e firmes no estar no mundo. E quem sabe, um dia, de pés firmes e calçados, olharemos no espelho e estaremos em paz com os nossos reflexos. Mesmo cansados pelo caminhar, felizes pelo avançar, agora a longos e bons pedaços.

domingo, 28 de janeiro de 2018

E se eu tentar

O que conseguiríamos se tentássemos? O que nos seria possível alcançar se não desistíssemos? Aonde chegaríamos se não parássemos? O que há por trás de uma simples pergunta: “e se eu tentar?”: há um descortinar de nós mesmos. Um descortinar que nunca se esgota e que nos leva a conhecer o que, insistentemente, buscamos esconder.

Nunca saberemos aonde poderíamos ter chegado ou aonde chegaremos se não tivéssemos tentado, se não tentarmos. A tentativa é a nossa resposta teimosa quando a vida nos diz não, quando o convite insinua um desistir de nossa parte. Mas há convites que devem ser recusados e devolvidos ao remetente. Quando tentamos, mesmo ainda sem sabermos o resultado, demonstramos a nossa crença na não desistência. E isso nos fortalece.

É inimaginável o que poderemos alcançar se tentarmos, se não desistirmos.

Desistir é concordar com a inércia, é dar ponto a quem quer que o jogo seja perdido por nós. Desistir é a entrega sem luta. É a concordância sem questionamento. É o baixar de olhos sem ter-se permitido ver. É aceitar uma conclusão sem emitir, se quer, uma opinião. Desistir é sair da vida, mas ainda permanecer nela sem perceber.

Fácil não é, mas alguém nos disse que seria? Os exemplos são muitos.

vídeo tirado da internet

Estarmos conscientes de nossas potencialidades e termos a humildade de abandonarmos um caminho é saudável e necessário. Mas é preciso sabermos diferenciar o caminho que deve ser abandonado, porque se o seguirmos não chegaremos a lugar algum, do caminho que deve ser percorrido e perseguido. Não podemos abandonar caminhos que nos pertencem. E esta certeza cada um de nós traz dentro de si.

Caminhos que devem ser abandonados não nos deixam felizes. Eles nos trazem uma sensação de frustração, de cansaço, de inércia diante à vida. São caminhos cansativos, exaustivos, tristes, que nada nos representam. Somos apenas um número. Estes devem ser abandonados porque possuem valores conflituosos com os nossos, e insistir neles é como abrirmos mão de sermos felizes. Os caminhos que devem ser percorridos aliviam a nossa alma, refrescam os nossos pensamentos e nos dão a doce sensação de pertencimento, de conexão conosco e com a vida. Mas somente alcançaremos estes caminhos se tentarmos. Tentativas conscientes, firmes e, acima de tudo, com propósito. Fizermos mais que desistir...

Inúmeras serão as investidas para desistirmos. Mas qual caminho escolheremos?

Encontrar equilíbrio e sabedoria para andar neste caminhar cheio de encostas, desvios, buracos, sinalizações falhas e mudanças de tempo é tarefa espinhosa e complexa, mas extremamente recompensadora. Os espinhos até tentam esconder a beleza do caminho, mas eles nunca conseguem.

Tentar e não desistir, e desistir porque, de verdade, não compensa insistir, é o que nos faz grandes, é o que nos faz importantes para a nossa própria história, e o quanto nos constitui como Homens que somos. Conscientizarmos de que a tentativa e a não desistência nos tornarão autônomos e donos de nós mesmos. E que também a consciência da necessidade de abandonarmos caminhos que não devem mais ser trilhados fortalecerão as nossas tentativas vitoriosas. Tudo é uma questão de escolha. Escolher é não desistir. E escolher bem é apurar o filtro das nossas tentativas na vida.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Clarice Lispector, que diz:

“Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.”

Que estejamos, sempre, atentos a nós e aos nossos entornos e contornos. A dúvida de Clarice sempre existirá em nós. Mas saberemos lidar melhor com ela quando entendermos a razão do nosso cansaço, ou seja, se estamos desistindo porque efetivamente é preciso, ou se apenas por desculpa para justificarmos a nossa fuga da vida.

Que façamos mais que desistir, como disse Mandy Harvey, no vídeo. E o primeiro passo? Não desistir da gente e tentarmos quantas vezes forem necessárias. Mesmo que a vida descarregue sobre nós o seu mau humor e descontentamento. Ainda assim, terá valido a pena tentar.