sábado, 28 de julho de 2018

A arte de não se sentir pronto

Temos uma relação, no mínimo, tendenciosa com o tempo: quando achamos que ele nos favorece, o reverenciamos; quando achamos que ele nos desfavorece, o marginalizamos. Quando queremos demonstrar experiência e conhecimento, mesmo quando não os temos de verdade, elevamos a nossa voz e reafirmamos nossa condição de experiente. Nesta hora, o tempo é o nosso amigo. Estamos em paz com ele.

Demonstrar que temos um tempo percorrido, um calendário avançado e os poucos cabelos brancos (nunca são muitos) ocupam lugares de destaque na nossa vida que, muitas vezes, é de pura aparência. Sendo ou não eficientes, o que queremos é demonstrar que estamos aqui há bastante tempo e que, portanto, o saber e o conhecer nos pertencem. Apoiamo-nos num espaço cronológico ora para provar que somos relevantes, ora para disfarçar nossos buracos e imperfeições. O fato de estarmos aqui há tanto tempo dificulta e camufla os nossos espaçamentos. Torna árduo o trabalho daquele que observa.

Dizia a placa: “desde junho de 2018”. Nesta hora percebi o nosso tom tendencioso ao lidarmos com a temporalidade. Quando nos interessa, o tempo nos é aliado. Junho de 2018 é agora. Por que colocamos este “desde” para dar um ar de antigo, longo, experiente? Porque nos interessa. Além de uma esperança de que, um dia, este “desde” volte a ser representado pelo significado real que possui: tempo longo percorrido. Quanto mais o tempo caminhar e se tornar antigo, mais nosso amigo se tornará. Ainda mais se este percorrer de tempo contribuir para que louros nos sejam dados.

Podemos concluir, então, que envelhecer é trazer uma bagagem de antigo, uma carga de passado que nos fará fortes perante o outro. Que envelhecer é traduzir a nossa história de passos, é contar os caminhos pelos quais passamos. Envelhecer é assinar a nossa carta de permissão para atuar, para estar, para ser. Envelhecer é se apropriar de um “desde” e justificar a nossa estada aqui. É um apropriar-se da própria trajetória, com o perdão da redundância.

O antigo que nos interessa. O velho que não nos ofende e que nos traz aquilo que sempre buscamos. Envelhecer como uma arte: a de saber que não se está pronto. Somos seres inacabados e gostamos de saber disso. Ganhamos mais tempo da vida para reafirmarmos e para escrevermos as nossas criações. Com mais tempo, convencemos mais pessoas do quão bons somos. A cada ano percorrido, mais ganhos, mais degraus posicionados na nossa contagem que fazemos questão de que o outro saiba. É a partir do saber do outro que se confirma a nossa trajetória. Não basta que nós saibamos. É preciso que o outro saiba também para que nós sejamos e estejamos no mundo. É como se o olhar do outro nos autorizasse a anuência que precisamos para existirmos.

O desde deveria existir para nos formar, mas tem servido para, apenas, informar. A informação que não precede o desenvolver, o construir, o interesse pelo reinventar-se. O desde sendo descaradamente usado para servir de apoio para as nossas miudezas e pormenores. Para a nossa pouca idade e pouco saber.

O desde que reivindica nossa honestidade e transparência. Mas que fazemos de conta que não percebemos a cobrança dele. E por vingança, ele mesmo se encarregará de nos cobrar e de nos desmascarar. É só uma questão de tempo. E tempo é o que o desde mais tem.

Ao mesmo tempo que o envelhecer e o antigo do desde nos interessa, uma pessoa, numa exposição de um museu, diz ao outro:

“Fico cansada quando visito um museu. Ele mina a energia da gente. Fico com vontade de deixar todas as portas e janelas abertas para ventilar. Museu tem uma energia pesada.”

E para arrematar aquela fala desprezível, talvez por ela ser uma pessoa desprezível, completou: “quem vive de passado é museu. Museu é programa de meio período, e olhe lá.”

Tive um professor que sempre dizia que saberemos o valor do bem quando conhecermos o mal. A importância do grande, quando identificarmos o pequeno. Parece óbvio. Mas geralmente é o óbvio que não enxergamos. De tão evidente, ele nos cega. Ao ouvir aquela mulher, me lembrei do professor e da teoria dos opostos que ele nos trouxe.

Dentro de um museu, aonde a História bate à porta, o tempo não nos interessa. Ele é velho, ocioso, ultrapassado, cheio de memórias que não nos interessam. O museu é carregado de energias que nos explicam e que nos trouxeram até aqui. É preciso respeito e reflexão. A História do outro sempre traz, necessariamente, elementos que convergem na nossa História. Mas somos pequenos demais para percebermos estas sutilezas.

O desejo de abrir as janelas e portas para ventilar, daquela mulher, me fez lembrar da simbologia trazida por Saramago, em O ensaio sobre a cegueira. Ela talvez não tivesse forças e coragem para enxergar o que vai dentro dela, por isso a ânsia por um abrir de janelas para jogar para o externo suas dores de não reconhecer a importância da história. O cansaço dela demonstra fragilidade e dependência, quase tóxica, do novo, daquilo que está por vir.

No desde, o tempo nos interessa. No museu, o tempo nos aflige. Na placa, há a esperança de construir um futuro, mas que talvez não chegue. Uma esperança desesperançada. Uma angústia que nos aflige. Um sinal do nosso visível abatimento moral.

No museu, as memórias daquilo que muitas vezes não chegou ou que chegou e nos conscientizou. O medo toma conta de nós e nos cobra compromissos, reflexões.

Opiniões distintas das nossas devem ser respeitadas. Mas nisto não cabe desrespeitar a caminhada alheia ou até mesmo a nossa própria caminhada. E o que é um museu senão uma trajetória de passos dados de um povo, de uma cultura, de um caminho percorrido?

Ir ao passado significa conversar com a nossa escuridão para nos conhecer, mesmo que aquela história não seja, necessariamente, a nossa. Não se trata de dupla identidade, mas sim conhecer um alguém que somos, que fomos, e que ficaram esquecidos, lá atrás.

O tempo do museu é o tempo daquilo que foi construído e que está vivo, itinerante, lúcido e que não nos permite fugir. A História está lá, implacável, com todos os detalhes registrados nos imensos corredores. O tempo do museu nos relembra que muitos heróis deixaram construções e obras. Mas nós não temos a certeza de que todas as nossas linhas serão escritas. Por isso, o tempo do museu nos incomoda tanto e se torna, “um programa de meio período”.

Somos arrogantes demais para nos darmos ao trabalho de conhecermos e de nos apropriarmos de nossa própria história. Nossas esquinas são tão solitárias, por isso colocamos máscaras e museu é programa para “velhos”. Quem são os velhos? O que é ser velho? Velho é o que perdeu a vida. Não é o caso do museu. Não é o caso do idoso que vai bem à frente.

O velho é o que perdeu o sentido e a vitalidade. O antigo, apesar da idade avançada, é atemporal porque a vitalidade e o significado são suas principais marcas.

Confundimos velho com antigo. Talvez daí surjam algumas respostas para a nossa insensatez e falta absoluta de lucidez. Museu não é velho, mas sim antigo, atemporal e vital. Não é cansativo, nem possui energia pesada. Gente não se torna velha. Cansativo é aquele que insiste na marcha à ré, que reflete sua imagem negativa. Meio período deve ser o tempo máximo que tais pessoas dedicam ao saber, e olhe lá.

As máscaras endurecem o nosso caráter, embrutecendo as nossas almas. Podemos não gostar de museus e de quaisquer outras coisas. Mas não conseguir enxergar a vitalidade e a relevância da História, eternizada num museu, é desmerecer os pés que caminham e que muito já caminharam. É desvalorizar os passos dados pelos que passaram por nós.

O tempo do museu é menosprezado, velho, ultrapassado e cheira a mofo. Talvez porque este mesmo tempo nos atemoriza e nos faz recordar nossas próprias memórias, dores, impasses, incongruências e obras inacabadas. Nesta hora, a arte de não se sentir pronto não nos deixa orgulhosos. Por isso, o tempo do museu nos incomoda tanto.

Aquele que usa máscara perde a mobilidade de fazer perguntas e de entender a vida. Aquela mulher não soube enxergar a beleza do lugar aonde estava. Por isso, menosprezou aquele tempo, um tempo passado, porém vital e atemporal. O tempo que não envelheceu.

Aquele que não usa máscara possui uma flexibilidade inerente àquele que vive de verdade, que se orgulha da História do outro e da própria História. Por isso ele valida este tempo antigo que é o verdadeiro, é o tempo do construído.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Oscar Wilde, que diz:

“A tragédia da velhice não é envelhecer, mas permanecer jovem.”

Envelhecer e se tornar antigo é poder fazer as pazes com a vida. Tornar-se antigo não é uma tragédia porque o antigo é vívido, atemporal e vital. Ele tem, além da idade, o principal: trajetória e significado. Mas esta falta de cumplicidade para com a vida, e a nossa insistência na atitude tendenciosa de nos relacionar com o tempo é o que nos faz insistir numa juventude inexistente, numa permanência vazia e sem direção. Isto sim é o que deveria nos cansar.

Os museus são silenciosos. Silenciam-nos e nos trazem memórias importantes que merecem ser recuperadas e refletidas. Acessar este silêncio nos provoca atitudes e reflexões que nos levam para outros lugares, e nos fazem criar laços de pertencimento, como disse Focault.

A reflexão pressupõe o pensar. Quando pensamos, falamos menos. Por isso, o museu é um lugar de silêncio, de reflexão e de atitude. Ele nos relembra que não há como existirem subidas sem quedas. Relembra os muitos que fizeram. Mas não sei se nós faremos.

Um museu é antigo porque tem uma biografia construída e completa, o que, de longe, a juventude possui. Apenas por isso, o museu e seu tempo verdadeiro não nos devem explicações. Eles são a nossa própria explicação. Somos o resultado deles. Gostando ou não do passado, respeitando ou não, somos a sequência dele. Não há como existirmos sem ele.  Um golpe e tanto para a nossa arrogância e para a nossa vaidade.

sábado, 14 de julho de 2018

O nosso tamanho nos revela

Num mundo em que o nosso tamanho material nos diz o nosso lugar, ser grande se torna uma obsessão. Qualquer coisa diferente do conceito de grande que temos, de nada valerá. Mas o que é ser grande? Quando fazemos esta pergunta, um nó se cria e ficamos presos nos nossos contrassensos. Queremos tanto ser grandes. Buscamos esta grandeza. Mas o que ela significa?

Por que nos atrapalhamos com perguntas tão simples? Talvez seja porque seguimos, apenas, o caminho mais fácil e já pisado por muitos, como resposta para os nossos chamados internos. Como ficou determinado por alguém que o caráter material das coisas seria determinante para as nossas vidas, acreditamos. E desde esse dia, cujo alguém desconhecemos, seguimos o que ele diz como verdade: que o real tamanho é o material. Outro tipo de tamanho não nos interessa. Não faz parte da nossa rota e do que traçamos para nós e para os outros.

Acho que nos enganamos. Alguns já perceberam isso. Outros estão desconfiados. E outros tantos ainda se demoram lá do outro lado. O nosso tamanho material importa, sim, mas dentro do tamanho que ele verdadeiramente tem. Os exageros e os excessos nos cegam para vistas mais belas. Dispensamos a lupa que a vida, gentilmente, nos cede para enxergarmos melhor o mundo sobre o qual caminham os nossos pés.

Sermos grandes materialmente é recompensador se o nosso tamanho moral se sobrepor. Esta é a regra. A nossa grandeza moral, se existir, jamais permitirá o ofuscar de nossa vista. E despertos, poderemos aproveitar o nosso tamanho com dignidade. O nosso tamanho material nos permite desfrutar de coisas boas. Hipocrisia seria dizer o contrário. Mas é só. Nada além disso. E, infelizmente, como não percebemos esta sutileza, acabamos nos perdendo em nós mesmos, porque valorizamos demais algo que será, se não cuidarmos, o nosso próprio algoz: o nosso grande tamanho material.

Nossas grandezas materiais corrompem nossas atitudes enferrujadas e despreparadas. Nossas grandezas morais nos levam longe. Ensinam-nos sobre a importância da solidez e da constância. Elas nos preenchem enquanto as outras nos esvaziam.

Ser grande moralmente significa enxergar que a grandeza material poderá nos empobrecer, se não cuidarmos dos nossos olhares, atitudes e conclusões imaturas.

A nossa falta de percepção para ouvirmos as vozes dissonantes que aparecem em nós, apenas reforçam que estamos dando valor ao tamanho errado. Mas a vida ensina. De forma dura e pesada. No entanto, qual tem sido a nossa escolha para que esta dureza não nos alcance?

Grandes lições e aprendizados a Copa do Mundo nos trouxe. Não é apenas jogo de futebol. É um espaço de conversas e para conversas. Um espaço para, inclusive, repensarmos o nosso verdadeiro tamanho. Aquele que queremos ter.

A Seleção brasileira recheada de craques. Um País que tem um tamanho enorme no futebol, cuja taça de campeão foi levantada cinco vezes. E, devido a este tamanho, certamente acreditou no levantar de uma sexta vez. Um Brasil de camisa pesada, de passado forte, de talento certo. Mas que foi embora mais cedo para casa. Por que será?

A Argentina que tem, apenas, Messi como o seu principal jogador. Seleção forte e que também tem camisa pesada em função de passados memoráveis. Uma Argentina grande, que amedronta e que se impõe em função do seu tamanho. Mas que foi embora mais cedo para casa. Por que será?

A Itália, que representa uma das seleções mais bem-sucedidas no futebol, já levantou a taça quatro vezes. Tamanho inquestionável. Mas de qual tamanho falamos? Esta mesma Itália, cuja camisa pesa e intimida o seu adversário, não chegou a voltar para casa mais cedo porque nem saiu de casa. Nem foi classificada para a Copa. Por que será?

E assim poderia falar de Uruguai, Alemanha e Espanha que, inclusive, todos já estão em suas devidas casas também. Grandes e inquestionáveis. Mas este tamanho material não foi o suficiente para demonstrar a grandeza e o próprio tamanho de cada um deles.  Um tamanho maior que o material. Um tamanho que realmente importa e que faz a diferença.

Aprendemos, a duras penas, que o tamanho nos revela, seja ele qual for. E que a grandeza material de muitas seleções tenha as tornado pequenas. O próprio tamanho grande que temos nos diminui e nos recoloca no início da fila. Ou no final. Termos ido tão cedo para casa nos mostrou que outros tamanhos nos faltam. Como o aceitar a condição de aprendiz, de iniciante, e aceitar que o outro tem a mesma chance que a gente. Somos todos itinerantes.

Estamos tão acostumados a falhar e a fracassar. Fazemos isto com tamanha frequência, mas sem perceber. A nossa mediocridade que desfila de braços dados com a arrogância. Isso é fracassar. Isso é falhar.

Um somente ganhará. Não é porque alguém foi para casa mais cedo que significa falta de grandeza, de tamanho. Mas não me refiro a estes. Mas sim àqueles que foram para casa mais cedo por acreditarem que seus grandes tamanhos pudessem levá-los adiante e bem longe. Mas não foi o que aconteceu. Foram para casa mais cedo por permitirem que a cegueira do sucesso os conduzisse para velhas estradas. “O sucesso que te trouxe até aqui não será o mesmo que te levará adiante”, já dizia um executivo da Shell, na década de 70.

Somos grandes, temos camisas pesadas. Mas este peso nos cegou e deixamos de fazer muitas coisas. Conquistas alcançadas, justas e merecidas. Mas não podemos parar o trabalho e descansar nos louros dos troféus que criam poeira no armário. É preciso que o trabalho, qualquer que seja, caminhe progressivo, eficiente e regular. E saber que há outras camisas que participam também. Camisas mais leves, mas não menos expressivas. Quando não enxergamos o peso do outro, voltar para casa mais cedo poderá ser uma das opções que a vida se utilizará para nos recolocar no lugar.

Só há espaço para um vencedor, no pódio. Fora de lá, há espaço para todos os vencedores que quisermos ser. Basta nos enxergarmos com os tamanhos que temos, sem supervalorizarmos grandezas que não temos. Nossos tamanhos reais nos trazem uma mesa farta. É preciso nos sentar, nos acomodar e nos alimentar do que nos é servido.

Temos referências históricas importantes, mas não podemos fazer mau uso delas. É preciso respeitá-las como sinalizadoras de novas condutas e aprendizados. O nosso grande tamanho, em função do nosso passado, não necessariamente nos fará grande de novo. Talvez esta arrogância do sucesso é que nos faça pequenos, tão pequenos.

Pensar que o outro também tem direito ao sonho é se libertar do que nos prende. Estamos presos nos nossos paradigmas, nos nossos achismos. E isto só nos marcha para trás.

Dar nova ordem aos nossos contextos e estarmos desatentos às oportunidades e aos pedidos que são nossos, mas que nossas vozes altas calam. A dor que nos cobra que respeitar os nossos limites é fundamental se quisermos aumentar de tamanho. E para o verdadeiro.

Retrospectiva. Perspectiva. Expectativa. Três faces da mesma moeda. Um passado glorioso de grandezas merecidas. Um ponto de vista que nos impede de ver o outro. Uma crença de que podemos ser grandes mais uma vez, mas nos esquecemos de combinar com os russos.

É preciso cuidar das nossas fronteiras. Daquilo que achamos que podemos em função de um tamanho que não temos, porque nos esquecemos de cuidar de outros tamanhos importantes também. Cuidar das nossas intenções como um recurso. Somente assim, acredito, nossos tamanhos mudarão de patamar.

Deveríamos ser valorizamos pela pergunta que fazemos, e não pela resposta que damos. Estamos treinados em resolver questões, e não em formular e identificar perguntas. Por que deveríamos vencer? Esta é uma pergunta que deveria ter sido feita. Mas a que fizemos foi: “por que não vencemos”? A arrogância que vai em nós em função do tamanho material que temos. Nosso tamanho e algumas taças da Copa nos embriagaram mais que vinhos.

Necessário ensinar a questionar. Este bem se sustenta? Qual é o nosso tamanho? Será que não é, exatamente, o nosso grande tamanho que nos impede de crescer? Será que não é o tamanho material que nos impede de ver o nosso real tamanho?

É a pergunta que é feita que dá o sentido, a direção.

Ao lado de grandes e pesadas camisas, surge a Croácia, um pequeno País que jamais chegou a uma final de Copa do Mundo. Um time com algumas estrelas, mas essencialmente pautado na força do conjunto, do coletivo. Um time cujo apoio tem se dado por meio da garra, e não por meio de um nome renomado que ofusca os demais. Talvez por a Croácia não ter uma camisa grande e forte, está enxergando o próprio tamanho: o que transcende o material.

Os grandes, materialmente, continuarão vencendo. O mundo está repleto de inconsistências e de incongruências. Mas será um vencer sem o peso daquele que vence em função do conjunto e do todo, além da camisa. Algumas Seleções voltaram cedo, mas lutaram em conjunto. Uma volta digna. Mas algumas voltaram porque acreditaram no tamanho material que tinham, e realmente tinham. Mas se esqueceram do principal: o peso da união e do trabalhar em conjunto é superior ao peso de uma camisa. Correr por todos e para todos.

O nosso tamanho nos revela. E mesmo grandes materialmente, caímos e nos tornamos reféns de nós mesmos. Um tamanho grande que, exatamente por sermos grandes, nos resumiu a uma arrogância na fila dos que nos acompanham.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação que diz:

“somos remetidos à pobreza, muitas vezes, para a conhecermos melhor. E assim, não nos julgarmos os melhores e os privilegiados.”

Não sei a fonte, mas vale o convite para o pensar. Não há mal algum em ser rico. A questão é achar-se apenas com esta condição na vida e, por consequência, se instalar na cadeira dos melhores e dos privilegiados. Se é que eles existem. Esta talvez seja a nossa primeira pobreza.  Por andarmos de braços dados com esta pobreza há bastante tempo, voltamos para casa mais cedo. Até poderíamos ter ficado mais tempo no jogo, empoderados da arrogância do nosso falso tamanho. Mas a vida é ocupada demais para ceder a caprichos.

domingo, 8 de julho de 2018

Começou a palhaçada

O título deste texto foi uma frase dita por uma Gerente de uma multinacional ao se referir à Copa do Mundo. Questionada sobre como seriam as escalas neste período dos jogos do Brasil, para a liberação das pessoas, ela disse: “Começou a palhaçada.”

É preciso cuidado e atenção na utilização das palavras. Saber o que dizemos para não ficarmos reféns de nossa linguagem. Palavras mal colocadas e mal escolhidas demonstram o nível de cada um de nós, inclusive o moral. Principalmente, se estas mesmas palavras perderam, ao longo do tempo, o seu real significado e foram ganhando, injustamente, teores pejorativos, desconexos e preconceituosos. É o caso da palavra palhaçada.

Para compreendermos o significado de palhaçada, precisamos, antes, dar uma passadinha no sentido de palhaço. Palhaço, uma palavra italiana, vem de pagliaccio, que deriva de paglia, que significa palha. Palhaço é o resultado daquele que possui a palha como elemento principal de sua constituição, colocada nas roupas divertidas e coloridas que veste para o deixar engraçado e, consequentemente, nos fazer rir. Acrescido do sufixo aço (palhaço) que significa e dá uma ideia de intensidade.

Palhaçada, este ato do palhaço, possui o sufixo ada, em sua composição, que significa “ideias do conjunto”, aquilo que é realizado por um grupo de pessoas. Para resumirmos, então, palhaço é, no sentido literal, aquele personagem que é feito de muita palha, intenso (sufixo aço = intensidade) e que faz palhaçadas (sufixo ada = conjunto), ou seja, que trabalha em conjunto com outras pessoas. O Palhaço é divertido por causa da palha e do colorido, mas intenso por causa do aço que carrega nele. Conhecer o significado das coisas nos coloca em outro patamar de reflexão.

E de onde vem o sentido pejorativo que esta palavra ganhou, que diz que palhaço é uma pessoa sem senso crítico, bobo, e que palhaçada é uma situação ridícula e sem importância? Da livre associação que fazemos, sem pudores, do real significado das palavras versus o sentido distorcido que ganharam. Como uma das missões do palhaço é nos fazer rir e trazer leveza para as nossas vidas, acabamos distorcendo o seu verdadeiro sentido. Por serem personagens “aparentemente” inocentes, ingênuas e divertidas, tudo aquilo que é feito por elas acabou, indevidamente, sendo interpretado como sem importância, ridículo, bobagem, desperdício.

Mas acho que estamos enganados. O palhaço tem muitas outras missões. E talvez a mais importante delas, que não percebemos, seja o de chamar a nossa atenção para coisas importantes, relevantes, sérias, porém sem alardes. Por meio da leveza da atuação dos palhaços, da sutileza que carregam na alma, dão os seus recados. Falam sobre assuntos críticos, porém se utilizando de recursos altamente inteligentes que são a ironia e o humor. Mas compreendê-los é para poucos. A maioria, infelizmente, caminha para o lado mais fácil que é o da depredação, conhecimento raso, curto e fácil.

Quando escolhemos o lado pejorativo das coisas, e também o das palavras, perdemos excelentes oportunidades de sairmos do raso, do comum e do igual. Ficamos parados e estagnados em nossas mediocridades, ignorâncias e atrasos escolhidos.

Chamar a Copa do Mundo de palhaçada é um exemplo de escolha da mediocridade, do lado pejorativo da vida e das palavras. É optar pelo atraso e pelo raso. E os palhaços, com suas palhaçadas, nada têm a ver com isso. Quando nos referimos a alguém ou a alguma situação por meio de termos distorcidos pelo sentido, reforçamos e engrossamos a fila dos desavisados, dos preconceituosos. Perpetuamos modelos falidos pelo mau uso que fizemos.

A Copa do Mundo é apenas um evento social que nos traz excelentes chances de reflexão e de mudanças. Como vamos enxergar a Copa? De forma pejorativa, como uma bagunça sem sentido, um evento ridículo, um atrapalho em nossas agendas recheadas de compromissos desnecessários, ou olharemos para ela como um espaço de avanços e de interrupções de nossos abismos? Tudo dependerá de como estaremos vestidos.

A nossa roupagem determina nossa atuação na vida. Estes eventos e estas oportunidades apenas evidenciam e mostram o quão grandes somos e o quão pequenos somos.

A Copa tem discutido, duramente, temas críticos em boa parte do mundo: a democracia, a homofobia, a intolerância religiosa, o machismo e a submissão da mulher, e outros mais. São temas sempre debatidos. Mas a Copa reforça a necessidade do debate. A democracia, para boa parte dos Russos, é sinônimo de bagunça. Boa reflexão a se fazer.

Há pessoas que atribuem à Copa ou a estes eventos mundiais e grandiosos a responsabilidade da nossa alienação. E isto não é verdadeiro. Por isso, talvez, chamem estes eventos de palhaçada, no sentido pejorativo. O fato de acompanharmos e de nos divertirmos na Copa, por exemplo, não nos isenta das nossas responsabilidades. Aquele que se isenta da responsabilidade por causa da Copa, na verdade, sempre esteve ausente. Aquele que se diverte, acompanha e respeita, sabe que cada coisa cabe em seu devido lugar.

Divertir-se com uma das grandes alegrias do povo não significa ausentar-se dos noticiários e das atitudes. Uma coisa independe da outra. É preciso distinguir diversão de alienação.

Torcer para o Brasil não nos torna alheios ao nosso redor e sobre o que vai nele, nem mesmo no nosso entorno. Não me faço alheio frente as minhas necessidades e frente as necessidades daquele que vai comigo, que vai conosco.

A Copa do Mundo traz um descortinar do nosso olhar para, se quisermos, ver a beleza que há por trás de cada detalhe, de cada situação.

Uma reunião de povos distintos que se abraçam no momento do gol. Em situações outras, este abraço jamais existiria. Uma felicidade a cada passe acertado, que talvez nos faça refletir sobre os muitos passes infelizes dados, na vida. Um passe certo, um pensamento no coletivo. Uma reflexão necessária trazida pela Copa. Não é, portanto, uma palhaçada.

Aliás, os palhaços estão logo ali, nas arquibancadas dos estádios. Vestidos com suas roupas coloridas, repletas de palhas. São muitos os que vão ali, trabalham juntos e de forma intensa.  Vibram a cada passe certo, a cada jogo coletivo, e verdadeiro, que fazemos. Uma verdadeira palhaçada que se observa ali, realizada por palhaços que de bobos, não têm nada. O que eles têm é intensidade na ação, vigor e verdade. Falam do que precisam. Talvez por isso nos façam rir. Rimos porque nos identificamos. Porque o riso nos faz leves. Porque não queremos nos apropriar dos nossos problemas. Porque somos debochados. Porque o choro nos espreita.

A Copa que reúne estrangeiros na mesma Seleção. E são estes estrangeiros que dizem, silenciosamente que, sem eles, não haveria Seleção. Negros e loiros são filhos do mesmo País.

A Copa que mostra os Brasileiros que não querem mais ser brasileiros. Naturalizaram-se estrangeiros em outros Países. A Copa que evidencia nossas identidades trocadas, resumidas.

A Copa que evidencia a nossa covardia ao puxar a camisa do outro para que ele não faça o gol. Se não for para mim, não será para ninguém. “Começou a palhaçada”. De quem falamos e sobre o quê? Por que insistimos em nos montarmos sobre significados menores das palavras? Por que o dicionário ainda não se tornou o nosso melhor amigo?

A Copa que o País-sede tenta camuflar e disfarçar seus problemas. Tenta nos convencer de que é um País vigoroso e justo. Mas a gente faz questão de lembrá-los de que a história não é bem assim. A Copa, portanto, não é uma palhaçada.

Enxergar a verdadeira palhaçada seria ver o volume da palha em nós, o rústico, o campestre, o importante revestido de engraçado. O urgente pintado de riso frouxo. Enxergar a verdadeira palhaçada é deixar o palhaço que há em nós atuar sem muros, e compreender, de uma ver por todas, que o sufixo aço significa intensidade e não bobagem. Aceitar que o sufixo ada nos convida para o conjunto, o que é bem diferente de isolamento e individualismo. Coisas assim os palhaços nos mostram. E eles acenam para nós, do alto das arquibancadas aonde estão. Mas quem os enxerga? Afinal, são apenas palhaços...e palhaços não são dignos de atenção.

A Copa que mostra uma mulher usando uma blusa sem mangas, proibido no País dela. E mulheres sauditas que podem, pela primeira vez, assistirem a uma partida de futebol. Elas se emocionaram. Por que será? A copa, portanto, não é uma palhaçada. Não esta que os desavisados conhecem. É uma festa comemorativa na qual se evidencia apenas o que vai em nós. Damos a esta festa o resumo que nos preenche.

A Copa que nos relembra os refugiados, porque parece que nos esquecemos deles. A Copa que relembra Pelé e seu time, capazes de interromperem uma guerra, há 48 anos, pelo Santos. Mas também a Copa que mostra aqueles infelizes brasileiros, pequenos e medíocres, que gravaram um vídeo com observações machistas e baixas, com uma torcedora russa. A Copa que mostra que adversário é só o adversário, e não um inimigo. Os palhaços já compreenderam, há tempos, isso.

Abraços foram vistos, mas baixezas também. Isto só nos mostra que a copa, em si, é apenas um evento social. Mas ao se diferenciar o olhar, seremos companhias para os palhaços e elevados em nossas próprias réguas. Não é alienação e nem ilusão. Apenas uma oportunidade de mostrarmos o nosso tamanho, seja ele qual for.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento que consta no Talmude, uma coletânea de livros sagrados dos judeus, que diz:

“não vemos as coisas como elas são. Vemos as coisas como nós somos.”

Que possamos enxergar a beleza deste convite que é a Copa, e visitarmos um lugar há bastante tempo esquecido: nós mesmos. Esta é uma excelente oportunidade para isso. Talvez nesta visita, no silêncio dos nossos interiores, encontraremos os nossos palhaços, há tempos esquecidos. E que, felizes por este reencontro, eles nos saudarão por termos, enfim, compreendido a necessidade do olhar coletivo, da intensidade e do trabalho em conjunto, sem nos esquecer das palhas nas nossas roupas que nos darão duas grandes ferramentas para um viver melhor: a leveza e a alegria.

Olhar coletivo, intensidade e trabalho em conjunto. Roupas de palha para dar leveza e alegria. Lições da Copa. Lições dos Palhaços. Uma palhaçada verdadeira, com aprendizados que eles sabem e que nos mostram, do alto de suas moradas, porque moram lá há bastante tempo.

domingo, 1 de julho de 2018

Um velho conhecido

A lenda diz que Gandhi, quando fez o curso de Direito na University College, de Londres, teve muitos problemas com um professor cujo sobrenome era Peters. Uma pessoa arrogante, irônica, que não perdia oportunidades de agredir Gandhi, nos encontros frequentes que tinham.

Num destes momentos, enquanto o Sr. Peters almoçava no refeitório da Universidade, Gandhi sentou-se ao lado do professor que, irritado, disse:

- Sr. Gandhi, o senhor não entende. Um porco e um pássaro não se sentam juntos para comer. Gandhi responde a ele:

- Tranquilize-se, professor. Estou indo embora...voando. E mudou-se para outra mesa.

Sr.Peters, enfurecido, quis devolver a ironia a Gandhi. E no dia seguinte, ao aplicar uma prova, o professor pergunta a ele:

- Sr. Gandhi, imagine que o senhor está caminhando e encontra um pacote de muita sabedoria e um outro pacote com muito dinheiro. Qual dos dois o senhor escolheria?

Gandhi responde ao professor:

- Eu ficaria com o dinheiro, professor. E o professor, sorrindo, certo de que desmascararia Gandhi, diz:

- Ora, senhor Gandhi, em função da sua fala e do comportamento que o senhor prega, pensei que escolheria a sabedoria. Mas vejo que me enganei. O senhor, me parece, é um tanto materialista, o contrário do que diz. Eu, ao contrário do senhor, obviamente escolheria a sabedoria. O senhor não acha que este seria o correto?

- Compreendo, disse Gandhi, ao professor. Cada um escolhe o que não tem, não é mesmo?

O professor, ainda mais irritado, escreve a palavra “Idiota”, no canto da prova de Gandhi. O jovem pacifista recebeu a folha e a leu atentamente. Depois de alguns minutos, caminha até o professor e diz:

- Sr.Peters, reparo que o senhor assinou a minha folha. Mas, e a minha nota? E assim termina a lenda...

Independentemente de ter sido Gandhi ou não, o protagonista desta história, o que me chama a atenção é que este tal Sr.Peters é um velho conhecido nosso. Ora somos vítimas dele; ora somos ele em pessoa. E por quê? Porque quando optamos pelo caminho certo, quando decidimos pelo bem, quando escolhemos a claridade e agimos para o avanço, incomodamos. Atrapalhamos o caminho daquele que partilha da mesma estrada que a gente, porém por atalhos diferentes e trajetórias opostas. E o contrário também é verdadeiro, apesar da dificuldade de aceitarmos isto. Não é tão simples para nós, quando somos os que vão nestas trajetórias opostas, aceitarmos o caminho correto que o outro desenha a nossa frente. Geralmente, antes de aceitarmos isto, os nossos cegos discursos recheados de falácias costumam tomar a frente. E só mais adiante, quando a vida resolve nos recobrar a memória sobre algumas lições esquecidas, envergonhados voltamos para os nossos lugares. Mas o outro já vai lá na frente.

Inveja, que é o nome que se dá à simbologia do Senhor Peters, nosso velho conhecido, é um pequeno veneno que vai dentro de cada um de nós. Sem exceções. O que nos diferencia, talvez, seja a quantidade e a intensidade da nossa dose. Apenas isso. Mas ele está em nós, bravamente buscando sobreviver às custas das nossas superficialidades e artificialidades. Escondido ou à mostra, ele vai ali, nos acompanhando e torcendo para que a gente o alimente. Este veneno depende de nós e parece que gostamos de alimentá-lo. Se assim não fosse, por que, então, ele caminha forte e consistente?

Fazer de conta que assim não somos ou que a inveja não faz parte da gente é uma grande tolice. Quanto mais queremos esconder um buraco, mais ele se envidencia e se aprofunda. É da lei. Quando baixamos as armas e assumimos nosso trajeto invejoso, a inveja perde a força. E sem forças, para onde ela vai senão se revisitar no espelho?

O raso, em nós, sustenta o que nos destrói. O que nos recupera está submerso, invadido por pequenezas que supervalorizamos e damos a elas tamanhos que jamais deveriam ter.

Atrasamo-nos quando não nos reconhecemos ou quando não reconhecemos o que vai em nós. Perdemo-nos em estradas retas quando deixamos de aceitar o convite da vida para dobrarmos as nossas esquinas, e assim, enxergarmos os nossos contornos. Nossos bastidores precisam ser conhecidos e redesenhados sob alicerces sustentáveis.

O Senhor Peters que vai em nós ou que surge em nosso caminho somente evidencia que somos imperfeitos. E como tal,  há muito caminho a ser percorrido. Muito trabalho a ser feito. Já havia escrito um texto sobre a inveja, mas parece que é um tema cujo conteúdo não se esgota.

A inveja, seja ela nossa ou do nosso vizinho, é sempre um pedido de socorro do ego ferido. É uma cegueira para o bem que vai em nós. Sentimos imensa dificuldade de descortinarmos os nossos imensos valores, por isso o valor do outro nos cega e nos incomoda tanto. O brilho do outro nos ofusca porque, no fundo, queremos aquele brilho para nós. E como não conseguimos, lutamos para destruir o brilho que vai nele.

Invejar o outro é abrir mão de reconhecer o nosso valor. É acreditar nas nossas incapacidades. É sentir que a vida não se encaixa na gente. Um desconforto permanente. Um abrir de mãos constante do nosso eu. Um olhar sempre para fora e nunca para dentro. É se sentir desajeitado. Uma inadequação diante à vida. É como se fôssemos a uma festa sem termos sido convidados. E, sem graça, tentamos nos ambientar em alguma rodinha de gente que sentiu pena da gente. Mas o nosso brilho está lá, esfuziante, brilhante, vivo, apenas aguardando o nosso olhar, que cego, não o percebe. É uma pena.

Somos grandes. Somos muitas coisas boas. Talvez esta nossa grandeza esteja ofuscando o nosso brilho exatamente por não sabermos lidar com expressivo tamanho.

A inveja se caracteriza por esta perseguição gratuita ao outro. Perseguição ao que o outro faz de certo e de bem. Sentimo-nos provocados porque é como se o outro, indiretamente, nos obrigasse a sermos bons também, a fazermos melhores escolhas. O caminhar certo do outro nos pressiona e nos tira do conforto da hipocrisia. É mais fácil continuar do mesmo jeito do que lutar para crescer. Por isso a inveja nos acomoda em lugares confortáveis. Mas é por puro interesse dela.

Cada um com a sua particularidade. Cada um com a sua individualidade. Cada um com a sua imperfeição. E é na imperfeição que somos belos. Ela nos faz enxergar as nossas estruturas e do que somos feitos. A nossa inveja ajuda a construir a nossa imperfeição: uma imperfeição bela, feita dos nossos pormenores que somente se forem aceitos, acolhidos e compreendidos poderão se recolher para a sua ausência, um dia, dentro de cada um de nós.

É preciso, portanto, nos deixar ocupar pela nossa própria história. E para tanto, não há como pegarmos elevadores no meio da estrada. Somente caminhando por meio dos nossos pés.

Falarmos com os nossos silêncios, e assim, descobrirmos quais têm sido os nossos nós em avançar. Precisamos ser assíduos na nossa vida e com a nossa vida. Aumentarmos os intervalos entre os pensamentos. E será nestas brechas que a nossa sabedoria será reconectada conosco e nos tornaremos seres melhores.

Nossos lentos avanços mostram os nossos retrocessos. Precisamos despertar os nossos processos para sermos eficazes e rápidos. Um despertar que virá por meio dos nossos isolamentos. Nossos vazios e nossos silêncios nos alimentam e nos trazem outros cenários. Um mergulho solitário, silencioso, vazio, porém profundo. Crescemos por meio dos nossos isolamentos. Não há outro caminho e ninguém poderá fazê-lo por nós.

Quando valorizamos o nosso brilho, compreendemos a escuridão da inveja do outro. E quando o outro brilha, o cintilar do brilho dele poderá nos iluminar e nos resgatar, se assim quisermos.

Qual é o nosso lugar de fala? De onde falamos? Do lugar do invejoso ou do lugar do invejado? Ou os dois lugares nos representam? O nosso lugar de fala determina as nossas escolhas e os nossos procederes. Precisamos ter repertórios de vida para sustentarmos as nossas sugestões, os nossos conteúdos, as nossas vivências, as nossas medidas, os nossos vazios e as nossas profundidades para que possamos ter um viver esclarecido.

É preciso buscar o sólido e o solidário. Mas enquanto se busca, contentar-se com o pouco que já se tem. O pouco é fruto dos passos dados. E nossos pés já vão cansados.

Aquele que inveja pensa que tem o poder. Mas vive de enganos. O verdadeiro poder é daquele que une, que junta, que cria. É um andarilho sem brilho aparente. Que não vê aquilo que se passa na sua frente e no seu interior. Aqui nos reconhecemos.

Aquele que é invejado, que a missão do edificar, do construir, do reerguer não o canse. O caminho dele segue limpo e cintilante. Os passos dele são firmes porque sabe e reconhece seu caminhar. Sente-se dono da rua por onde anda. Por isso o caminhar dele é leve e desprovido de futilidades. Reconhece o próprio brilho, mas percebe que o outro ainda não reconhece o dele. E, portanto, apenas por precaução, o invejado é firme e consistente com quem o trata com desrespeito e com desprezo, no caso, o invejoso. Ser bom e justo é dar limites para os invasores. Aqui nos reconhecemos também.

Os invejosos provocam vendavais porque vivem neles. Os invejados não temem os vendavais. Resistem a eles porque sabem do poder que possuem.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Oscar Wilde, escritor irlândes, que diz:

“O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.”

Que possamos reconhecer as nossas capacidades para humildemente iluminarmos o caminho daquele que vem, mas que também saibamos reconhecer a capacidade do outro para que as nossas possam existir. Somente existimos quando reconhecemos a existência do outro.

domingo, 17 de junho de 2018

Alguém disse

Alguém, algum dia disse, que perdoar era fundamental. Parece que continua assim. Mas como nosso perdão é temperamental, o assim se tornou “não é bem assim.”

O perdão, para ser autêntico, precisa sair do peito. Não de outro lugar. Neste lugar do idêntico, e não do parapeito, para nossas lágrimas enxugar. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que o humilhado seria exaltado. Se assim não fosse, outro jeito a vida daria. Mas não um jeito cansado e de pouco espaço. Um jeito que só a vida saberia.

Um caminhar mais leve, de menos percalços, porque já vamos descalços. Anteveria a nossa matéria. E com pés breves, nos compassos, tiraríamos a nossa barriga da miséria. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que o vago deve lugar ao sensato. E que os literatos nem sempre são cultos. Mas o silêncio do espaço preenche saliências do abstrato. Nossos autorretratos seguem soltos e preenchidos de insultos. Os nossos pedaços esgotados, a todo momento são consertados pelo dia. Régua e compasso são as ferramentas preferidas.

Um criar de espaços para o passar do discernimento que, alheio à noite, evidencia. Na promessa do compasso, um compromisso com ausências redimidas. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que a nossa memória nos obriga a buscar as nossas vitórias. Assim fica mais fácil perdoar. Pode ser. Mas que não seja uma memória compulsória, mas com história. Assim também fica mais fácil para desatordoar o que vai no nosso ser. Acho que assim pode ser. Com amadurecer.

Realçamos o belo para que possamos ser a nossa própria paisagem, como disse Fernando Pessoa. Poeta imprescindível que também disse “não sei sentir-me onde estou.” O belo que fortalece o elo. A defasagem que nos impede de ver a nossa paisagem. Quem somos. Pessoas, assim como o Poeta que carrega, no nome, outras tantas pessoas. Um recado inconfundível que nos contradisse porque se manifestou. É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que aquele que perdoa evidencia grandeza interior. Aprende a sorrir de improviso. Se perdoa, mas não atordoa, mostra que a profundeza, que até então, era inferior, está voltando, calma, para o nosso mar interior. Um interferir conciso e preciso.

Nas pancadas que recebemos do alto de nossas bancadas, engatinhamos as nossas invenções manuseadas, e chegamos ao nosso destino a todo o momento. E das nossas arquibancadas desbancadas, inventamos outras colorações custeadas. Sem clandestino e sem procrastino. Provimentos da vida por ironias do destino.  É preciso coragem para perdoar. Alguém, algum dia disse.

Alguém, algum dia disse, que perdoar era fundamental. Será que quem disse isso acreditou no que disse? Ou só foi lorota de um contador de histórias para enganar os desavisados? Como se despedisse, me disse, antes de seguir, que perdoar era o doar na sua essência. Genial. Quem assim segue, me disse, desconhece a derrota e não se torna um enganador de trajetórias para profanar os lesados.

Ensinados, fomos, que para resolver problemas é preciso se preocupar com eles. Isto só reforça a nossa angústia e a nossa ansiedade. Coisas que desconhecemos. Estagnados, somos, que para dissolver estes dilemas, sofremos por causa deles. Isto só reforça a nossa fúria sem piedade. Coisas que esquecemos. É preciso coragem para perdoar. Alguém, neste dia disse.

E num intervalo de prosa, esse alguém me disse, ainda, em tom certeiro:

“eleve a sua assiduidade na vida. Ela aumentará os intervalos entre os seus pensamentos desgovernados. E será nestes intervalos, nestas brechas que a sabedoria estará te esperando para recompor a tua intuição com a tua essência, elementos fundamentais para o perdão. Condição você tem, mas é preciso coragem.” Depois disto, aquele alguém se calou.

Neste dia, descobri que este alguém era eu mesma, você mesmo. Todos nós. Este alguém era apenas um eco tentando fazer voz e ser ouvido dentro de mim, dentro de cada um de nós.

Reconheci-me na minha própria voz. Mas para ser ouvida, precisou se camuflar de mim mesma. Buscamos inimigos externos enquanto os internos crescem e tecem raízes.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pequeno trecho de uma estrofe do poema O guardador de rebanhos, de Fernando Pessoa, que diz:

“...como um ruído de chocalhos, para além da curva da estrada...”.

Fernando Pessoa está sempre além do que vem.

A vida nos convida ao perdão o tempo todo. Um perdoar para um caminhar mais leve. Quando não ouvimos o primeiro sinal que ela nos envia, a vida dá conta de nos mandar um ruído de chocalhos. Porque é somente por meio do perdão que poderemos fazer a curva, que poderemos enxergar o restante do caminho ainda a ser percorrido. É preciso ouvir o sinal. Mesmo que seja por meio de ruídos de chocalhos...

A estrada é longa, o caminho é cheio de pedras e de pedregulhos. O perdão é uma das ferramentas que nos estende a mão e facilita, e muito, a nossa caminhada e o nosso encantamento pelo porvir e pelo nosso presente. Ele antecede a curva. Não poderemos acessá-la, e nem irmos além dela, sem antes abrirmos a porta para o perdão. É uma condição.

A curva nos constrói, nos remonta e descortina os nossos cursos. A estrada além da curva é árdua, mas com vistas lindas para aqueles que ousarem percorrê-la. Os caminhos retos e planos nos enfraquecem e nos tornam seres manipuláveis. Para os caminhos retos, nada será necessário fazer. Apenas o mais do mesmo e o pisar sobre as flores será o suficiente. Mas para o avançar na nossa estrutura, para o abrir de olhos, a curva é o sentido único da estrada. Mas podemos passar por ela com mais serenidade se aceitarmos os atalhos que a vida nos oferece.

Os atalhos da vida são válidos e verdadeiros. Os que criamos são tendenciosos e insustentáveis, muitas vezes. Um dos atalhos da vida é o perdão, que nos espreita logo à entrada da estrada, bem na curva, apenas esperando ouvir os nossos passos para uma caminhada cuja presença confirmamos. Nesta hora, os nossos sorrisos não serão mais improvisados. Serão verdadeiros, destemidos e autênticos. O ruído dos chocalhos nos chamando para além da curva na estrada será apenas uma lembrança. Teremos vencido a curva e a estrada. Uma depende da outra. Nesta hora, teremos descoberto que a curva e a estrada fazem parte do mesmo caminho. São o mesmo caminho. O poema de Pessoa terá envelhecido porque teremos conquistado o direito de “saber sentir-nos onde estamos.”

Saberemos, enfim, onde estamos. Mas esta provocação que ele nos faz jamais envelhecerá.

domingo, 10 de junho de 2018

Essa tal liberdade

Na semana passada, enquanto eu assistia aos noticiários sobre a greve dos caminhoneiros, uma amiga me enviava a imagem abaixo:

imagem tirada da internet

Como coincidências não existem, no momento em que recebia esta mensagem, um caminhoneiro reclamava sobre a bagagem pesada que ele carregava todos os dias, os trajetos e caminhos perigosos que ele era obrigado a percorrer e o cansaço físico que ele sentia.

As trilhas percorridas pelo caminhoneiro, que nesse momento de paralisações e reivindicações representa o símbolo do que se transformou e vem se transformando o nosso  pequeno mundo, são bem diferentes das trilhas percorridas pela mulher que carrega uma criança. A mesma bagagem, o mesmo caminho e os mesmos pés. Porém, percorridos por pessoas diferentes, que pensam e agem diferente. Pessoas que estão nos opostos uma da outra, e que possuem visões distintas sobre o mundo. Os pés, apesar de serem os mesmos, mostram a diferença que eles representam na vida de cada um.

Independentemente se foi lícita ou não esta paralisação, não me cabe julgar. Não sou caminhoneira e nem de longe vivencio os problemas relatados por eles e pelas empresas. Não é sobre isto que escreverei. Mas sim, sobre um recorte a partir disto, para visualizarmos aonde ainda estamos. Sobre o nosso tamanho que nos lembra que barganhamos, fazemos negociatas e esfolamos o próximo numa guerra em nome do interesse  de cada um. Sobretudo, um recorte que escancara que desconhecemos outros tipos de lutas: limpas, coesas, justas e fundamentadas em argumentos sólidos e sustentáveis, cujas premissas e acordos não massacram o outro.

Vivemos, ainda, no movimento apenas de ida. O da volta está difícil de assimilar. Vivemos sob lutas que lutam apenas para a nossa valia e interesse. Se a nossa luta invalida a luta do outro, e fere o outro, fazemos de conta que não percebemos. Os animais mortos, o leite derramado, os legumes no lixo, a gasolina adulterada no posto para enganar àqueles que ali passavam, os caminhoneiros assaltados enquanto dormiam nas estradas demonstram, claramente, que a nossa luta é vã, nula, baixa e com sentido que privilegia só aquele grupo do momento. Mais ninguém. O contraditório em nós.

A guerra inexiste quando a bagagem não pesa, quando o caminho não cansa e quando os nossos pés não reclamam.

Enquanto o nosso grito calar a voz do outro ainda dormiremos muito nas estradas. Enquanto o nosso direito interferir no caminhar do outro, ainda muitos serão mortos. Além da doença percebida no sorriso e na satisafação daquele que anda de mãos dadas com a cegueira, e que se aproveita do graveto solto na estrada e o coloca na fogueira que, há tempos, agrava os nossos incêndios. Uma cegueira calculada, percebida e ajustada para os devidos fins. Como deve ser. A manipulação ainda é forte condutora dos nossos tempos. Acreditamos que o caminho é este. Por isso estagnamos.

Pensei em tudo isto enquanto assistia ao noticiário e olhava a imagem que estava no meu celular. Confesso que senti vergonha nessa hora. Vergonha das notícias que eu via, da nossa situação como cidadãos que não somos. De ser brasileira, de fazer parte de um povo que cria problemas exatamente por não tê-los, e que constrói necessidades aonde elas não existem. Eu sou este povo de quem eu falo. Todos os nossos problemas, ou quase todos, existem por causa da nossa ineficiência e incompetência. Não era para termos estes problemas. Por isso digo que criamos problemas. Exatamente por não tê-los. Por isso, me envergonhei. Uma vergonha envergonhada que se apresenta e se coloca a nossa frente.

Enquanto a vergonha me invadia, o sorriso daquela mulher carregando a criança, que também sorria, me fazia observar o quão livres eles eram. E o quão distante desta tal liberdade estávamos. Liberdade é a condutora da felicidade. Não há felicidade verdadeira sem liberdade.

Vergonha é, sobretudo, “uma dor causada pelo sentimento de inferioridade.” Está lá no dicionário. Isto resumiu meu sentimento. Estava me sentido inferior ao ver aquele sorriso espontâneo e verdadeiro, da mulher e do menino, mesmo num cenário de pobreza, de necessidade e de limitação. Um sentir-se inferior não como pessoa, mas como cidadã, como um ser que faz parte de um coletivo que não se apropria do outro. Limitações que cabem em nós porque não desejamos nos expandir. Somos ajustados nas nossas próprias costuras. Não há sobras em nossas vestes. Nossos tamanhos indicam os passos que demos na vida, e os que não demos. Somos pequenos porque assim escolhemos.

A imagem demonstra uma liberdade que desconhecemos. E pelo jeito, ainda demoraremos muito a conhecer. Enquanto milhões de alimentos estavam sendo descartados, milhões de animais sendo mortos, exatamente por conta da nossa abundância que não sabemos valorizar, uma pessoa, bem distante da gente, com dificuldades infinitas e aparentes, sorri para a vida. Sorri porque é livre.

Liberdade não é fazer o que se quer. É, acima de tudo, poder sentir a sublime sensação da ausência de limitações. E isto é para poucos. Bem poucos.

Quanto menos necessidades temos, mais livres somos. Uma guerra é a predominância da ausência da liberdade. É uma luta que custa muito caro. A conta não tarda a chegar. Aliás, acredito que há tempos ela chegou. Mas como insistimos no rotativo, os juros apenas crescem e mostram suas garras sinalizando os nossos ínfimos tamanhos.

Uma luta lícita é feita por palavras, verbo e ação, que aborda os começos, os gatilhos, os bastidores, e não uma luta que começa pelo final, obstruindo passagens, rotas e vidas. Por isso ainda estamos distantes. O que matamos por puro egoísmo e visões dos nossos espelhos invertidos e voltados para nós poderia ter alimentado milhões de pessoas como a da imagem. E a nós todos, também.

A grandeza ainda não nos representa. Não por falta de oportunidade. Mas por falta de merecimento, mesmo. A pequenez ainda se molda, e muito, ao nosso real tamanho.

A imagem da foto é desconcertante. O cenário deles demonstra fome. Mas, ainda assim, ela suplanta a dor e sorri para a criança que, ainda sem perceber aonde está e o que o mundo, de verdade, representa, sorri de volta. Um sorriso inocente da criança. Um sorriso amoroso, leve e paciente da mulher. No meio da dor verdadeira que ela sente, ainda consegue sorrir. Atitude dos grandes. Sentir-se grande é poder ser livre e sorrir, como na imagem.

Não podemos parar nas nossas realidades. É preciso transcendê-las e sair das estradas e voltarmos ao trabalho. Um trabalho interno de reconstrução de nós mesmos. Estamos fazendo da arrogância, da prepotência o nosso sustento. Há tempos que fazemos coro e eco nesta fila. Enquanto a guerra for o nosso discurso, as atitudes serão devastadoras.

Para merecermos pés que não reclamam, bagagem que não pesa e o caminho que não cansa, será preciso olharmos além de nós, enxergarmos que à frente e atrás caminham pessoas. Inclusive a gente. Também estamos nesta estrada aguardando reconhecimento dos que passam. Se cada um de nós oferecer carona para o que vem, o mundo pesará menos, realmente. Mas como oferecer carona se ainda não nos reconhecemos na mesma estrada?

É preciso pensar sobre os movimentos que criamos e sobre os que deixamos de criar, para que a gente não dê ao errado uma aparência de certo. Quais são os silêncios que guardamos? Insensatez é um deles. Por que acreditamos que o melhor caminho é o do enfrentamento? É preciso desenvolver caminhos que nos permitam acreditar que é possível mudarmos para melhor. E, assim, pararmos de nos submeter ao pequeno.

Nosso País de tantas grandezas, mas que, justamente por isto, não valorizamos e nos tornamos tão pequenos. A imagem da foto que mostra tantas necessidades. Talvez por isso ela tenha se tornado tão grande.

Temos tantas pontas soltas. Ainda não estamos prontos. Nossas fendas e brechas aparecem.

Que eu não atrase a evolução do outro por causa da ausência das minhas medidas, alguém disse uma vez. Fiquei com isto na minha cabeça. Como somos desmedidos e desajustados, atrasamos o outro. É uma pena. Talvez esta seja a nossa grande vergonha: sabermos da nossa ineficiência e incompetência para resolvermos problemas que se arrastam há tempos.

É preciso reivindicar a nossa voz neste caminho. Estamos atrasados. Mas se corrermos, alcançaremos a paz e a liberdade daqueles que vão na imagem. Será preciso, no entanto, conhecermos o lugar do coletivo, e sermos rigorosos com algumas coisas como abandonarmos a nossa arrogância de não querermos ser convencidos de que optamos pela estrada velha e errada. Há retornos bem à frente nos convidando a retomarmos o caminho.

Foram dias turbulentos. Mas que saibamos extrair conhecimentos de nossas turbulências.  Principalmente das internas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Jean Paul Sartre, filósofo francês do século XX, que diz: “os homens são o que fazem de si mesmos.”

Acredito que podemos fazer mais de nós mesmos. Que a gente aprenda a enxergar a realidade conversando com os nossos cotidianos, e nos cercar de coisas que nos façam habitar a nossa história. Que a gente reconheça coisas que nos ofereçam contextos, e consequentemente, percursos  e rotas alternativos. Somente assim, penso, poderemos ser, verdadeiramente, o que fizermos de nós mesmos.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A leveza nos fortalece

Pierre-Auguste Renoir, essencial pintor francês do século XIX, tem uma provocação que diz:
Na vida, os blocos de granito afundam. No entanto, as cascas das árvores flutuam.”
Quando pensamos, de forma rápida, se queremos ser blocos de granito ou cascas de árvores, acredito que a maioria de nós escolherá ser blocos de granito, pela forma, pela força, pela imposição que eles têm, pela importância que se dá ao que se considera mais forte. Porém, se observarmos o que Renoir diz no início de sua frase, talvez a gente repense. Ele diz: “na vida...”, e não em situações específicas e particulares. E isto faz toda a diferença.
Os blocos de granito são, sem dúvida, algo suntuoso e que impõe. Se estamos na iminência de um bloco de granito cair sobre nossas cabeças, certamente vamos nos mexer e tomar uma atitude. Portanto, eles possuem um certo poder sobre nós, seja pelo medo que temos de ser atingidos, seja pela força que eles possuem. Em poucas palavras: os respeitamos.
As cascas de árvores são, ao contrário dos blocos de granito, simples, sem pompa e, muito menos, sem circunstâncias. Caem sob o comando dos ventos, são deslocadas facilmente, não nos oferece perigo. Talvez seja por isso que pisamos nelas. Em poucas palavras: inofensivas.
Blocos de granitos: são respeitados, mas o peso deles dificulta e, muitas vezes, impossibilita, o deslocar pela vida. E sem deslocamentos, não avançamos. Não progredimos. Morremos. O respeito observado nos blocos se esvai como a água do mar que escorre pelos nossos dedos. O respeito conquistado pelo medo não resiste à força da leveza de uma casca de árvore.
Cascas de árvores: não são respeitadas, mas a leveza delas nos facilita, e muito, o caminhar pela vida, pelos traçados que ela desenhou para nós. E caminhando pelos desenhos que a vida nos presenteou, avançamos e chegamos a lugares que nos constroem. Crescemos. Vivemos. E aquele respeito que não foi concedido antes às cascas surge, agora, manso e envergonhado por não ter percebido a força delas. Uma resposta à necessidade da nossa própria construção.
Na vida, os blocos de granito afundam. No entanto, as cascas das árvores flutuam.”
Afundam porque são vazios de significados. São rasos na sua representatividade. São pequenos no sentido. Ao primeiro chamado da vida, afundam, machucam e se acomodam no chão. Imóveis, nada são, apenas estilhaços que confirmam a falta de destreza deles para com a vida. Assim são os blocos de granito. Sermos o bloco de granito, às vezes, será essencial para regularmos as nossas marchas e reorganizarmos a nossa maleta de ferramentas. Uma parada estratégica, na vida, é imprescindível para reabastecermos. Mas que seja por pouco tempo. A dureza e a firmeza excessiva dos blocos de granito podem nos prender demais, ao chão, e correremos o risco de não nos lembrarmos de como nos levantamos e de como é boa a sensação de ser leve.
Quando demoramos demais em estágios desnecessários, nos tornamos parte dele. É uma pena. Há muita vida ao abrirmos as janelas. A vida nos chama para a vida, e é preciso aprender a ter a leveza das cascas das árvores. Um aprendizado fundamental.
Muito há o que desaprender com os blocos de granitos. Muito há o que aprender com as cascas de árvores.
A leveza nos fortalece; a dureza implacável nos aprisiona e enfraquece. Mas, tão ocupados que estamos no conservar de nossos blocos, não percebemos que afundamos. E somente aquele que se mantém leve, pode ser levado de volta à superfície, à base, ao início, aonde tudo acontece. Afundados, perdemos a dimensão do alto. E dependendo do tempo que ficamos imersos, presos aos blocos de granitos, perdemos a conexão com o alto.
As forças são necessárias, mas nunca devem ser desperdiçadas. Quando isto acontece, elas se voltam contra a gente. Força demais é um indicativo da nossa fraqueza e da nossa fragilidade. Por isso, os blocos quebram e afundam. Forças demais sendo utilizadas indevidamente.
De outro lado, as cascas de árvores flutuam porque são preenchidas de sentido, de direção e de significados. Flutuam porque já aprenderam o real valor das coisas e, portanto, não se prendem a pequenezas que somente fazem prender àquele lugar. A leveza conquistada faz as cascas das árvores caminharem na direção correta. E como são leves, maleáveis e silenciosas, chegam logo ao destino. Assim são as cascas das árvores.
A vida é um constante caderno de exigências e de conquistas a ser buscado. Um constante resolver de problemas, conflitos. Um constante despertar de gratidão pelos caminhos já percorridos. Um problema que entra, e outro que sai resolvido. Assim é a vida. E mesmo aquele que se vê sem problemas, o que desconfio, viver, em si, é um problema. Um problema na complexidade, nas inúmeras interfaces e nas escolhas oferecidas. Por isso é fundamental exercitar o peso e a leveza na medida certa, na medida que a vida nos pede.
As cascas de árvore caminham e alcançam distâncias porque se deixam conduzir. Confiam. Os blocos de granito afundam porque apenas querem controlar. São centralizadores. Possessivos. Não aprenderam a delegar. O excesso de controle nos faz usar a nossa força de forma desnecessária, o que comprova a nossa fraqueza. Provamos nossa força pela autoridade da nossa leveza em nos deixar conduzir pela vida. Provamos a nossa força não medindo forças com ela. Não propondo quedas de braços com ela. Se assim fizermos, perderemos. Ela sempre foi campeã na luta de queda de braços. Acho que não deveríamos pagar para ver. Não é necessário.
Lutar contra a vida é se colocar no alvo para ser atingido por ela. É preciso saber quais brigas comprar e quais não comprar. Sabedoria e discernimento ainda são essenciais para nós.
imagens tiradas da internet
Estarmos na condição de granito, às vezes, é necessário. Mas só às vezes. Que a gente saiba que há hora marcada para sairmos de lá. Não podemos ficar lá durante muito tempo. O “...na vida...”, como trouxe Renoir, é muito tempo. E ele já nos chamava a atenção quando nos trouxe este pensamento.
Sair da condição do granito significa abrir mão do poder para alcançar o viver. Quando abrimos mão da inflexibilidade para acessarmos a maleabilidade.
Ao contrário do que se pensa, a fragilidade está na beleza do granito. E a força na singeleza das cascas das árvores.
Buscar ter, sempre, o comando nas mãos nos afundará como granitos. Aprender a confiar e a garantir que o outro também possa falar é caminhar como a leveza das cascas das árvores.
A vida é uma escolha e uma escola. Uma escola de escolhas. Uma escolha que faz escola em nós. Uma escola com escolhas. Uma escola para escolhas. Os blocos de granito e as cascas das árvores representam esta dualidade da vida. Eles significam que temos opções na vida. Que bom. Não poderemos responsabilizar e nem colocar a culpa em outra pessoa que não em nós mesmos.
Quando a vaidade conceder espaço para a reflexão, talvez nossas similaridades comecem a se parecer mais com as cascas das árvores do que com os blocos de granito.
Muitas leituras podem ser feitas a partir desta alegoria do granito e das cascas. Mas a que propus, aqui, foi a de nos incomodarmos com o excesso que o peso dos blocos provoca, e que diariamente colocamos sobre as nossas costas e sobre as costas dos outros, e sentirmos falta da leveza das cascas que, remotamente, fazem parte do nosso cotidiano.
Podemos fazer mais, se repensarmos o nosso lugar no mundo. Podemos fazer mais se este mundo tiver um significado mais forte para nós.
Estarmos na condição de blocos de granitos é fundamental para uma atuação rápida e precisa, mas não um lugar para estarmos na vida. Por isso, Renoir chamou a nossa atenção por meio da sua arte. Que a leveza das cascas das árvores nos represente mais e que possamos desfrutar deste dançar que, somente o pouco peso, poderá nos proporcionar.
Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Fernando Pessoa, poeta imprescindível para o bem viver, que diz:
“Às vezes, ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”
Que a gente se permita mais o ouvir do vento. É ele que movimenta as cascas das árvores nas quais pisamos sem perceber, ou as que chutamos para que saiam do nosso caminho. Não percebemos que, somente elas, se vividas e permitidas por nós, nos mostrarão o real e o verdadeiro sentido de leveza. Leveza na alma. Leveza na vida. Uma escolha.
O vento como condutor para a leveza. O vento como um dos caminhos que nos levará como as cascas das árvores. Um convite feito. Um convite aguardando a nossa resposta. Recusá-lo será desperdiçar a sensação de sentir os nossos pés flutuando por este vento, e de se deixar levar como as sábias cascas das árvores. Aceitá-lo será fazer as pazes com a vida que, feliz, nos convidará para fazer lindos passeios por lugares que, presos pelos blocos de granito, jamais seriam possíveis.