segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Simplicidade desprezada

Para o texto de hoje, parto de uma reflexão de Clarice Lispector que nos diz:

“Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

Clarice escreve de uma forma como se a simplicidade fosse a pauta. Ela fala de um jeito que dá a entender que queremos e buscamos a simplicidade. Mas que, no entanto, somente será atingida após muito trabalho. Mas, de verdade, buscamos a simplicidade?

imagem tirada da internet

Somos contraditórios: quando temos folgas, dizemos que estamos cansados de não fazermos nada. Brigamos com o tempo, fazemos dele a nossa desocupação, e buscamos formas que julgamos lícitas para matá-lo. Quando não temos folgas, e os dias parecem reduzidos para tantos afazeres, invejamos aquele que caminha pela ciclovia vazia, em plena terça-feira. Remarcamos várias vezes aquele almoço devido à demanda urgente, mas quando o almoço veste ares de realidade, enviamos uma mensagem, desmarcamos o almoço e alegamos um motivo que mente, mas que somente nós sabemos. Dizemos “a gente se vê”, “a gente vai marcar”, “a gente precisa se ver mais”, “te ligo” como mera força de expressão. Falas vazias que não se preenchem porque não nos compromissamos com o preenchimento delas.

Por que? Porque complicamos tudo. Dizer “te ligo” e não ligar, faz o outro esperar. E nesta espera, ele sofre. Ele espera. Ele chora. Ele sente raiva. Ele cria fantasmas. Dizer que “está cansado de não fazer nada” cria uma realidade de inutilidade cujo protagonista somos nós. E nesta realidade, duelamos conosco. Andamos de lá pra cá. Olhamos o celular várias vezes. Nenhuma mensagem nova. E as novas são velhas. Observamos a vida alheia, muitas vezes publicada e não vivida, e neste complexo de inutilidade consumimos um consumo inconsumível. Damos visibilidade a muitas coisas inúteis. Por quê? Porque complicamos tudo.

Muitos choram porque não podem visitar seus familiares, devido à pandemia. Mas e quando podiam? Iam? Buscamos o resumo do livro porque lê-lo dá trabalho. No entanto, os resumos nos privam da experiência. E somente ela é a garantia da vivência. É preciso resgatar a importância e o lugar da experiência. Ela nos ajudará na busca pela simplicidade e a saída de uma vida de improvisos, achismos, esnobismos, imobilismo.

Complicamos tudo. Falamos, falamos, falamos. O silêncio nos constrange. E ao preenchê-lo, abrimos mão de lermos as entrelinhas que são a alma da vida.

Clarice tem razão. Como sempre. Uma autora atemporal. Ela nos espia com seu olhar assertivo e nos diz: “Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

Apesar da contradição como característica principal de quem somos, Clarice parece acertar quando dá a entender que queremos esta simplicidade e que, somente por meio do trabalho, ela será atingida. Não é razoável achar que queremos complicação ao invés da simplificação. O problema é que não estamos todos conscientes deste nosso querer. Se assim estivéssemos, agiríamos de outra maneira. Queremos uma vida mais simples e sem tantas visitas inesperadas. A questão é que estamos à cata de facilidades, técnicas milagrosas, autoajuda, salvadores, paternalismos, truques infalíveis para a próxima dieta, entretenimentos, coisas que nos dão a certeza de uma vida confusa, complicada, cheia de sobressaltos.

Simplificar não significa ser simplista. Talvez seja por isso que alguns não gostem muito desta tal simplicidade. Soa piegas. Ser simples é como se estivéssemos privados de sofisticação, de estatus, de porte, de crachá.

Simplificar tira etapas. Ficamos visíveis. Complicar inclui etapas desnecessárias. Ajuda a dificultar que o outro nos encontre. Assim, ele precisará falar com o secretário e marcar hora conosco. Isso dá uma falsa imagem de pessoa importante com inúmeras ocupações inúteis.

Quem cultiva a simplicidade sempre tem tempo. Trabalha para isso. Quem cultiva a complicação nunca tem tempo porque não trabalha para isso.

O simples, infelizmente, na nossa sociedade, não dá ibope. É chique falar difícil, assim ninguém nos entende e passamos por pessoas cultas. É muito mais chique dizer que saboreou, após o almoço, um creme anglaise do que um creme simples à base de leite, açúcar e ovos. Mas é a mesma coisa! Ou um doce com callets, que nada mais são do que gotas de chocolate. Mas o complicado dá estatus de um chique desnecessário. Você conhece alguém que seja role model, que nada mais é do que alguém que serve de referência para determinado assunto? Por que não dizemos: “você tem uma referência neste assunto para me indicar?” Por que insistimos em role model? Descomplicar a vida dá trabalho, realmente.

Uma vida simples não significa uma vida sem problemas, apenas significa uma vida com mais facilidade para enxergá-los e lucidez para buscar soluções. Apenas isso. Mas como estamos distantes do trabalho necessário referido por Clarice, ainda não desfrutamos da companhia da simplicidade.

Trabalhar é aparar arestas. É dizer que vai ligar e ligar. É dizer que vai marcar e marcar. É dizer que está chegando e chegar. É vencer o hábito nocivo do rápido ineficiente, do trocadilho barato, da piada pronta, do cacófato, do descompromisso. É romper com o sujo. É “examinar tudo e reter, apenas, o que for bom”, como disse Paulo de Tarso. É duelar com desconhecidos solitários e saber que não há guerras sem perdas. Trabalhar cansa. Dói. Descortina. Exige. Obriga-nos a jejuar a preguiça, o atalho, o adiamento e a procrastinação, o jejum verdadeiro. E não o jejum hipócrita que perdoa os pecados após palavras decoradas. Ser simples dá trabalho. Como abrir mão da vaidade de assumir que precisamos aparar arestas? A simplicidade escancara os nossos espaços aleatórios e marginalizados.

Trabalhar nos desmente. O que fazemos para nos desmentir? Trabalhar é ler quem somos. Ler: “um verbo insistente”, disse o escritor.

Somos atravessados pelos ensinamentos da vida. Não adianta medirmos forças com ela porque perderemos. Uma luta desigual. Mas para não sermos vencidos, somente aprendendo a linguagem dela: simplicidade, que é uma verdadeira revolução que se dá no nosso cotidiano. Um cotidiano que precisa ser refeito do simples, de infância, de conversas, de diálogos e de convivência conosco, porque parece que há tempos não nos encontramos.

Encontrarmo-nos com a vida é quase uma certa erudição. Sem solenidades por parte dela. Desconfio que ela espera o mesmo de nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de um gênio da História, Leonardo da Vinci, que dizia:

“a simplicidade é o último grau de sofisticação.”

Enquanto o mundo complica e cria lendas para explicar o mistério de Monalisa, Leonardo da Vinci, na verdade, cria a Monalisa a partir de um reaproveitamento de telas. A habilidade dele com as tintas e com as técnicas resultou numa das maiores obras da nossa História. Um simples reaproveitamento que resultou numa obra-prima, tamanha a sua perfeição. Um retrato inacabado, de uma senhora de época, não entregue. Um segundo retrato, na mesma tela, de outra senhora, inacabado, não entregue. O terceiro retrato, na mesma tela, reaproveitado. Concluído. Resultado? Monalisa.

Enquanto uns complicam. Outros trabalham. E por isso, alcançam a simplicidade. Leonardo Da Vinci foi um gênio inalcançável a cada um de nós. Não nos é possível alcançá-lo. No entanto, aprender com a simplicidade dele, isso nos é possível.

Que nossas telas inacabadas, incompletas e esquecidas possam ser resgatadas e concluídas. Não faremos Monalisas, certamente, mas nossas obras, se forem construídas à base da simplicidade, terá valido todo o esforço.

domingo, 2 de agosto de 2020

Ecos revelados

Para o texto de hoje, parto de uma reflexão do filósofo, escritor e crítico alemão Friedrich Nietzsche, que diz:

“...quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você.”

Este pensamento, extraído da obra Além do Bem e do Mal, é parte de um diálogo maior, mas fiz este recorte, desta parte, para a escrita deste texto. É um convite para o nosso pensar, que poderá ser aceito ou não.  Caso aceito seja este convite, por nós, a chance de permanecermos no mesmo lugar de partida será remota. Avançaremos. E assim, encurtaremos caminhos e passos. Não um encurtar para abreviar a vida; mas um encurtar para se viver com mais lucidez, sentido e coerência. No entanto, caso não aceito seja este convite, por nós, a chance de estagnação será próspera e nossas pernas estarão descansadas devido ao pouco andar, e nossas mãos seguirão sem cicatrizes e marcas porque não terão sido tão usadas.

A superficialidade ou a profundidade? Nietzsche, assim como outros Filósofos essenciais, nos faz o convite à profundidade, e não à superficialidade. Contudo, a profundidade traz marcas, cicatrizes, dores e luz; a superficialidade traz mar calmo, nuvens distantes, conquistas rápidas, mascaramento e alienação.

O essencial e permanente ou o superficial e transitório? Marcas, cicatrizes e caminhos andados ou pele lisa, pés descansados nos sapatos novos e perfumarias cheias de novidades entristecidas?

imagem tirada da internet

Várias são as leituras que podemos fazer acerca do pensamento proposto por Nietzsche, um autor complexo que fala sobre coisas cuja consciência ainda não está despertada, em nós. A escrita dele alarga caminhos, estruturas e pensamentos. Um autor que nos conduz para lugares que desconhecemos porque nunca os visitamos. Nietzsche utiliza-se de martelos para nos lembrar de que há massa crítica, em nós, e que, portanto, é preciso usá-la. Autor que não dialoga com a escrita única, com o caminho único, com o sentido exclusivo. A extensão e o alcance da escrita de Nietzsche o tornaram um dos clássicos da literatura. Ele sempre tem o que dizer, e o que ele diz ainda faz muito eco, em nós.

Neste pensamento, uma palavra tensa: abismo. Não há como dialogar de forma calma, ponderada e civilizada diante o abismo. Diante dele, apenas uma necessidade: sobrevivência. Etimologicamente, a palavra vem do latim abyssus (“a” significa “sem” e “byssus” significa “fundo”). Literalmente, a palavra abismo significa “sem fundo”, sem profundidade. Cair num abismo significa que nunca vamos parar de cair simplesmente porque não há fundo, não há fim, em si. Uma ação contínua, ininterrupta.

Qual abismo nos observa? “...quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você.” Muitas são as leituras para este pensamento, recordando que Nietzsche era um autor de muitas compreensões. Se são muitas as leituras permitidas, ouso escolher a compreensão do abismo como uma metáfora da profundidade ininterrupta que vai em cada um de nós. Somos este abismo, este sem fundo. Quando ousamos nos conhecer, nos aproximamos deste abismo. Espiamos. O que enxergamos? Que ele também nos vê.

O olhar do abismo traz nossos ecos, agora revelados. Nossos ecos revelados mostram tudo aquilo que não está nas nossas mãos, como a natureza transitória e aleatória da vida, que tanto nos intimida, amedronta e assusta.

O abismo nos traz a consciência sobre ele. Agora ele existe. Está ali. Como escondê-lo? Tapá-lo com areia e cimento? Pode funcionar, se quisermos continuar com as nossas regras de vidas superficiais, se quisermos lutar ao lado da mesmice, se defendermos conteúdos de estruturas supérfluas. O nosso padrão de fingimentos atende a uma certa demanda. Pode funcionar. Mas, no mesmo instante em que pensamos que estas pinturas manchadas de precarização do ser podem funcionar, silenciamos. No silêncio, nos lembramos das cicatrizes como sinônimo do essencial. Decidimos, então, voltar para a ponta do abismo para tentarmos ouvir o que ele nos diz e nos revela. Percebemos que este será um trabalho infinito e que, todas as vezes que olharmos muito para um abismo, ele também olhará muito para nós.

Somos feitos do mesmo papel, então? Somos feitos das mesmas perguntas? Qual tecido nos forma? O abismo tem linguagem distinta a minha? Descobrimos que há muito trabalho a ser feito. E que as vozes do abismo somente nos serão claras, ou pelo menos um pouco claras, se buscarmos simplicidade. E simplicidade somente com muito trabalho. Mas me parece que temos induzido a nós, e aos outros, a muito sofrimento na criação de muros. Adoramos brincar de esconde-esconde o tempo todo. A infância é aqui, nesta “...terra de gigantes, que trocam vidas por diamantes...”, como disseram os Engenheiros dos Hawaii. Uma infância de narrativas criadas na superficialidade, e não na naturalidade.

Somos contraditórios e equivocados. Mas ainda há tempo. Não podemos olhar para tudo e para todos ao mesmo tempo. Mas ainda há tempo. Basta iniciarmos abrindo mão da compra de certas coisas. Mas me parece que têm havido diálogos que não estamos dispostos a ter.

Precisamos nos mover para que posições possam ser revistas. Irmos além da superfície. Este é o convite do abismo. Ele nos olha porque ressoa sobre nós. Ele diz o que insistimos em calar. Se olhamos para ele, ele também tem o direito de olhar para nós. Talvez seja por isso que conviver com ele seja amedrontador. Mais fácil será permanecermos na permissividade, na acomodação do discurso da reverência, na inutilidade da busca do inédito. Isto não funciona. Nunca funcionou. Sabemos disto. Mas adiamos esta conversa.

Descermos no abismo. Mas até onde? Não há “onde”. Um trabalho ininterrupto. Conhecer-se não está na delimitação do transcorrer do tempo, mas no sentido desta ação. Um trabalho ininterrupto de saída da alienação, essencial para deixarmos de engordar a fileira dos esgotados.

“...quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você.” Um fragmento de um diálogo maior de Nietzsche, mas só este trecho já nos traz muitas reflexões. O abismo sou eu, você, o mundo, o desconhecido, o igual, o escondido, o contraditório, a dor, a crítica, a inveja, o eco que tudo faz em mim, em você. Muitas possibilidades, muitas explicações, mas, acima de tudo, um lugar que nos observa, mesmo alheio a nossa vontade. Observa-nos porque faz parte de nós, indissociável, indivisível. O abismo é o caminho que provoca o reencontro com o escondido, um reencontro conosco. O abismo faz o papel de anfitrião da festa: as devidas apresentações da gente pra gente mesmo. Muito prazer!

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação do Professor Cortella, que diz:

“Viver é subjetivo, não é um exercício de precisão. Despencamos de nós mesmos porque não temos a mínima intimidade conosco.”

Que a gente olhe para o nosso abismo, para aquilo que vai no nosso sem fundo, no nosso infinito e reconheça a nossa imprecisão, a nossa dúvida, as nossas precariedades. Isso tudo nos molda, nos faz, nos torna. Não há como atingirmos um certo patamar de Ser sem aceitarmos o que dificulta sermos. Estamos numa condição de homens esgotados porque não estamos conseguindo lidar com o que nos esgota. Estamos sendo marcados por uma condição de insuficiência, o que nos torna reféns de uma angústia triste.  Mas ainda há tempo. É preciso buscar esta intimidade conosco, como disse Cortella. E essa intimidade está a nossa espera, bem no fundo do abismo, do nosso, do meu e também do seu. Íntimos, eu de mim, e você de você, não teremos mais medo do abismo, e o olhar dele será parte do meu. Simples assim.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pintor de horizontes

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

Este pensamento do escritor russo Tolstói, um dos maiores da literatura mundial, é um clássico. Atemporal.

E por que seria um clássico?

O escritor Ítalo Calvino diz que “um clássico é um clássico porque ainda não terminou de dizer tudo o que precisa dizer”. São obras inacabadas, inconclusas, no bom sentido. O que está por ser dito, pelos clássicos, é um constante diálogo entre nós e a vida, entre a vida e nós. Há sempre o que dizer, porque sempre haverá vazios e preenchidos a serem questionados, compreendidos e conhecidos. Vazios que insistem em nos preencher e preenchidos que insistem em serem ilustres moradores desconhecidos. Clássicos permanentes que sempre nos trarão perguntas e sempre nos lembrarão do que está por fazer.

Clássicos se impõem pelo respeito. Eles nos silenciam porque ouvi-los se faz necessário. Tolstói, portanto, nos trouxe um destes clássicos, numa reflexão preocupada em nos relembrar a relevância do pensar. Quando pensamos, damos volume a nós, tamanho e importância.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” traz inúmeras reflexões e aprendizados. Para cada um de nós, um eco diferente deste pensamento, uma morada distinta, em nós. Reflexões inúmeras, variadas, diferentes. Todas certas. Todas válidas.

Tolstói: imagem tirada da internet

Para mim, destaco o autoconhecimento como eco que o pensamento de Tolstói fez em mim. Sem o autoconhecimento, acredito que as nossas aldeias serão, sempre, paisagens distantes da gente, com tintas descascadas, arranhões nas paredes, vidraças quebradas, canos enferrujados, ilustres desconhecidas. Sem autoconhecimento, as nossas aldeias serão sempre um por fazer. Um lugar escondido, mato alto, cerca destruída e o desprezo como anfitrião.

Autoconhecimento é uma ferramenta do viver. É imprescindível termos um viver, um plano de riscado, um tracejado. Viver é um caminhar com passos, estratégia, vontade firme, espada afiada na medida e desprendimento para saber retirar-se. Viver é esta busca pela universalidade que representa não recusar o mesmo viver.

Conhecer-se é custoso, cansativo e, por vezes, exaustivo. Mas como viver sem conhecer-se? Como saber se a nossa aldeia precisa ser pintada, sem autoconhecimento? Não há receitas. Não há fórmulas. Mas estratégia e vontade firmes, coisas que não podem ser desgastadas pela continuidade.

A universalidade não é um lugar, mas um estado. É preciso maturidade para alcançá-lo. A aldeia, antes de ser um estado, é um lugar. É preciso coragem e maturidade para aceitar que se vive nela, e disposição para abandonar as derrotas conquistadas às custas da nossa precisa conivência. Para começar a pintar a nossa aldeia, é preciso se achar nela e, principalmente, reconhecê-la e não se envergonhar. Debruçar-nos sobre as nossas aldeias nos dará o tom de por onde começarmos. Mas não teremos dúvidas: pela pintura.

Há muito trabalho a ser feito. No entanto, estamos sempre olhando para lugares que ainda não chegaram, e falando sobre um tempo que, se não cuidarmos, não chegará. A universalidade está distante de nós, assim como estamos distantes das nossas aldeias.

Queremos ser universais. Queremos ser pintores de horizontes. As nossas escadas começam no degrau máximo. Os degraus menores não são para nós. Nossas aldeias choram a nossa ausência. Mas não ouvimos estes choros porque as nossas malas estão prontas para o exterior.

Temos muitas sobreposições. Interferimos e sofremos interferências o tempo todo, o que ofusca as nossas vistas. Somos frágeis. As nossas aldeias choram mais uma vez. E a cada lágrima, descascam mais. É preciso nos visitar e pintar as nossas aldeias. Apenas exercitando a limpeza e a pintura das paredes, o obscuro, em nós, se mostra. Apenas pintando a nossa aldeia saberemos aonde moramos, quem são os nossos vizinhos, qual é a natureza do nosso bairro e, principalmente, a qualidade da tinta que vai nas paredes. Passar tempo conosco. Transformar a nossa má ociosidade em diálogo conosco e com a nossa aldeia. Questionar a nós.

Evitamos o diálogo porque não assumimos o nosso não saber. Fechamos a porta da nossa aldeia para que ninguém a veja desordenada. Aquele descascado é só um detalhe.

À medida que nos questionamos, vamos dialogando com a nossa ignorância. Não uma ignorância pejorativa, mas uma ignorância como única saída que nos leva ao saber. Somente aquele que desconhece e que assume o próprio desconhecimento pode conhecer. A ignorância é alavanca. Somente conhecemos, sabemos, avançamos porque assumimos o não saber, o não conhecer. Não há como sermos universais sem passarmos pela nossa aldeia, pelo desconhecido, pelo pequeno, por nós. Não há como sermos universais se a nossa aldeia nos envergonha e, por conta disto, evitamos conhecê-la e estamos sempre de malas prontas.

A universalidade somente existe por causa da particularidade da aldeia. Universal é a soma dos pequenos particulares. A cada aldeia conhecida e pintada, um universo povoado de belas cores. A minha aldeia é a minha conversa comigo. A minha universalidade é a minha conversa com o mundo. Somente posso conversar com o mundo quando tiver aprendido a conversar comigo. Caso contrário, o eco da minha voz irá se sobrepor a ela, e não conseguirei ser ouvida. Minha voz será um barulho perdido.

Voltando para a questão do clássico, não é à toa que Tolstói é uma referência na literatura mundial: suas falas são atemporais. Ele diz coisas que ainda farão, por muito tempo, morada em nós. Tolstói ainda tem muito a nos dizer.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento incômodo de Oscar Wilde, outra referência da literatura mundial, que diz:

“viver é a coisa mais rara do mundo; a maioria das pessoas, apenas, existe.”

Aquele que vive já fez as pazes com a necessidade do autoconhecimento, e passou, há tempos, na loja de tintas. A aldeia dele é destaque e as paredes brilham. O raso, para ele, deixou de ser um lugar sem base, e as narrativas também deixaram de ser mancas.

Aquele que vive, o homem do Oscar Wilde, que não apenas existe, acaba de trancar a porta da própria aldeia. O que terá acontecido? Sim, agora ele a tranca. Não um trancar daquele homem que apenas existe, que se envergonha da própria aldeia, que a desconhece e faz de conta que ela não existe. Mas um trancar de um homem que vive e que conquistou o lugar de universal. E, por conta deste novo estado de universalidade, passou a ser um pintor de horizontes, ofício aprendido ao tomar a iniciativa, há tempos, de pintar a própria aldeia.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Viver amanhecido

Há um pensamento que diz: “se mudarmos o começo da história, mudamos a história toda.” O começo é sempre a base sobre a qual construímos, inauguramos formas de convívio conosco e com o mundo, e evitamos ausências que nos custarão caro. Todo o começo (base) é, portanto, imprescindível, porque ele permite que nossos pés conheçam a textura do caminho que começa a surgir e que será necessário percorrer.

A reflexão deste texto propõe um pensar sobre algo que dificulta, e muito, a nossa percepção de necessidade de mudança deste começo, desta base, se preciso for, para que possamos ter condições de reorganizarmos as nossas rotas, o nosso caminhar e assim, reajustarmos a nossa história toda. Quando percebemos, em tempo, que é preciso mudar este começo, temos mais chances de termos um caminho eficiente, preciso e verdadeiro. E o que dificulta esta necessidade de mudança da base, deste começo de história é o cultivo da procrastinação. Um fantasma em forma de hábito que, frequentemente, assombra aqueles que permitem intimidade e aproximação com o supérfluo, que conversa com o raso, resumido e com o oco.

Perceber as necessidades de mudanças, ao longo de toda a nossa trajetória, é essencial. No entanto, no começo, é mais crítico e crucial porque as diretrizes e as linhas ainda estão sendo traçadas. O trem ainda está parado, na estação. Os rabiscos ainda são rabiscos, passíveis de ajustes e combinações. Mudar os começos colaboram, e muito, para que o desenho e a obra possam ter roteiros consistentes, menos amadores.

Não estarmos atentos às necessidades de mudanças da base, do começo, nos coloca na banalidade, nas ocorrências em recortes, nas aparências, nos picados com intervalos. Estarmos atentos às necessidades de mudança da base, do começo, nos retira dos sintomas tolos, confusos e nos dá clareza sobre o significado dos nossos sinais, das nossas manifestações e da relevância da nossa inteireza, da nossa essência, sem ou quase nenhum intervalo.

Etimologicamente, procrastinação significa “aquele que é a favor do amanhã, coloca-se à frente da causa para o amanhã, aquele que se lança e se joga à frente, para o amanhã”. Do latim pro (em favor de, diante de, à frente) + a palavra latina crastinatus (amanhã). Aquele cras (amanhã) famoso, escrito nos pés de Santo Expedito. Uma pessoa que procrastina é alguém que desempenha um papel principal no se lançar a favor de algo para se fazer amanhã.

Temos relação com isso? Conseguimos nos reconhecer?

imagem tirada da internet

Hoje ou amanhã? Não um hoje literal, sem pensar, sem planejar, não um sair fazendo. Mas um hoje que entende a urgência de buscarmos as mudanças primeiras que precisam ser feitas. Sem isso, nossa história fica à deriva, à espera de um bote que nos salve.

Sabemos que não há garantias, que a qualidade das nossas relações depende de experiências vividas e construídas por meio do tempo, do exercício diário do levantar-se, e que a imprevisibilidade é um item obrigatório da nossa lista. Mas atuar nos inícios, mudar os começos, se necessários, apesar de não haver garantias, fará que o socorro chegue mais rápido, e aumentará a chance de termos uma história menos dolorida.

Por que procrastinamos? Porque, de certa maneira, achamos que assim nos protegemos. Buscamos proteção o tempo todo. Mas a verdadeira proteção reside na avaliação acerca de quem somos, e isto é infinito, um exercício eterno, diário. Só que fazer isso cansa e muito. Dói. Por isso, deixamos para amanhã com a esperança, quase infantil, de que o amanhã nunca chegue para nos cobrar com as contas sobre o capacho. É urgente fazermos uma avaliação realista sobre quem somos e sobre o que nos acontece. De posse disso, talvez, possamos nos proteger mais, mas não procrastinar como sinônimo de proteção. Somente o fazer, o conhecer e o buscar do conhecimento protege. A procrastinação, pelo contrário, expõe, descuida e nos deixa ao relento e ao abandono.

Procrastinar é um ir adiando, agendando, protelando. É um ir para um lugar que ainda não fomos porque o adiamento foi a nossa parada de contemplação. Um adiantamento programado porque não queremos encontrar os sofrimentos presentes das nossas encostas. Um adiamento para entrarmos no mundo. É um ir à cata de facilidades, resumos, técnicas milagrosas, receitas, truques infalíveis.

Procrastinar é uma forma de fazer vistas grossas para as coisas profundas que não podem ser simplificadas. Mas como existem influências que nos diminuem, como o curto, o raso, o rápido, vamos deixando para amanhã, que o amanhã Deus pensa. Vamos sendo este “a favor do amanhã, do fazer depois” e damos graças porque o amanhã sempre, para aquele que procrastina, raramente chega.

Sentimos frio porque não fizemos as mudanças necessárias na base, no inicio da história. Por isso, agora, o frio intensificou-se, e a mudança em toda a história fica, se não impossível, prejudicada. A prevenção é vital para que a gente não se torne patológico. Prevenção como sinônimo de perceber a necessidade da mudança no início, para que toda a história possa ocupar patamares versáteis e universais.

A procrastinação evidencia o nosso lado permissivo. Acomodamo-nos como se não pudéssemos interferir. Entregamos a nossa caneta ao acaso, sem nos lembrar de que o acaso adora nos fazer companhia. Somente assim ele surge: com a nossa anuência, disponibilidade para o erro, indulgência mórbida e, o pior de tudo: receptividade. Somos um caminho de linhas retas e fáceis quando agimos desta maneira. Precisamos nos mover para provocarmos e reproduzirmos efeitos, movimentos, resultados das mudanças que fizemos no início, nas nossas bases. Ao fazermos isso, tiramos os nossos vagões estacionados para vivermos a relação com o essencial, não mais com o superficial.

Procrastinar é alongar os nossos erros, agravá-los. É mais que deixar para amanhã. É um amanhã agravado, angustiado e com lágrimas. Um viver amanhecido de um amanhã mofado que poderia ter sido, mas não foi.

Precisamos dar o espaço para que as coisas consigam andar e ajustar a nossa história. E não procrastinar será imprescindível, para que isso possa acontecer. Fácil? Não. Mas quem nos prometeu facilidades, além das fórmulas e receitas mágicas da autoajuda?

Não podemos esperar pelo “despertar da nossa conscientização” de necessidade da mudança para que o todo possa também ter chance de mudar, não acredito nisso. Acho um discurso moralizante, não funciona. Acredito, sim, numa reflexão diária, como um excelente exercício de se propor, de se lançar para o fazer com aquilo que se tem à mão. Um trabalho de obras. Somos esta obra: uma obra inacabada, inconclusa, incompleta, mas que caminha, que faz, que cai, que segue. Não há fórmulas e receitas. Não há o momento do despertar. Este momento nasce dos pequenos momentos, e não de algo pronto e imediato. Se prestarmos atenção aos aprendizados diários que a vida, de forma generosa e empática, dilui para nós, a nossa visão deixará de ficar turva e o nosso caminhar será o nosso grande gerúndio.

O convite está feito. Urgente mudarmos o eixo sobre como as coisas são apresentadas. Um olhar agudo sobre as necessidades de mudança dos começos, da base, para que o todo seja vivo. E com isso, podermos ocupar o lugar que há tempos a vida insiste em nos oferecer.

Há palavras que nunca param de nos dizer algo. São os clássicos. E procrastinação é uma destas palavras. Com um olho treinado, a procrastinação é convidada ao esquecimento.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento ácido de Santo Agostinho, um homem que, em parte da vida, procrastinou, que diz:

“Deus prometeu perdão para o seu arrependimento, mas não um amanhã para a sua procrastinação.”

Que possamos desejar e buscar um amanhã como um lugar do saber que se quer chegar. Um lugar que a construção nos ajudará a alcançar. Um amanhã como sinônimo de esperança, de possibilidades de construção, de dinamismo. Mas não desejar e buscar um amanhã para servir como depósitos de nossas pendências, de nossos viveres amanhecidos, enrugados e entristecidos por não terem tido a chance de terem sido.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Vazios ocupados

Se está vazio, como pode estar ocupado? Detalhes turvos que nos obrigam a enxergar o que as nossas estradas empoeiradas e perturbadas não permitem que a gente faça.

Santo Agostinho, um dos maiores Filósofos da História Mundial, leu menos livros que a gente. Ele teve acesso a menos informações. Viu menos coisas. O mundo e a época nos quais ele viveu eram mais enxutos, de estruturas mais simples, com menos pessoas e dados, e, principalmente, sem quaisquer facilidades. Se, então, Santo Agostinho viveu e conviveu com menos, como ele fez tanto? Como ele, tendo lido bem menos livros do que cada um de nós, produziu tanto? Teve acesso a bem menos estruturas, e construiu tanto? É inquestionável que a obra de Santo Agostinho demonstra a própria inteligência dele colocada a serviço da Humanidade. Um Homem a serviço.

Um Homem a serviço: por isso ele fez tanto e com tão pouco. Santo Agostinho foi uma destas pessoas preenchidas de significado, de conclusões, de perguntas, de narrativas essenciais e, portanto, sem vazios ocupados. Foi um Homem que não tinha, como companhia, a vaidade, cujo sentido vem do latim vanitas, que significa vazio. A vaidade não nos permite fazer quase nada com o muito que temos, que dirá com o pouco. Ela nos preenche com um vazio que nos ocupa, que nos marca, que nos impulsiona para o nada. Como resultado, o tempo passa, e nada é feito, nada é entregue, nada é produzido, e o que é lido volta para a estante.

Vivemos numa guerra constante. Apenas não damos este nome. A simples falta de diálogo é uma guerra, mesmo silenciosa. A vaidade tem sido outra guerra constante. Queremos ser o autor de tudo, cortar a fita de tudo, assinar tudo, ver tudo, ser protagonista de tudo, sem percebermos que o tudo é inalcançável. Temos horror a ficarmos de fora de uma festa, de perdermos algo, por isso estarmos em tudo é uma garantia para a nossa ingênua existência. As ausências nos constroem, nos refazem. Fundamental valorizarmos os nossos comerciais para que os bastidores possam ser refeitos, reconstruídos e remanejados, se assim for preciso. Não há a necessidade de estarmos sempre disponíveis, à mostra, à vista, presentes. Isto é vaidade.

A ausência nos torna, muitas vezes, mais presentes do que a nossa presença. Quando queremos estar em tudo nossos rostos ficam imunes à reflexão, nossas atitudes se tornam números fixos de uma apresentação circense, e repensar acerca de nós torna-se inútil. Reflexo de uma vaidade desajustada que acreditamos ser a métrica da vida. Mas não é.

Alimentamo-nos de tradicionais motivos que nos levam à irracionalidade. Sempre o mais do mesmo. Pensar dá trabalho. Ler dói a vista. Aonde estão as figuras e as letras grandes deste livro? Percorremos os caminhos mais fáceis não por ser eficiente (e muitas vezes o é), mas por preguiça de gastarmos a sola dos nossos sapatos. Não abrimos mão da vaidade desenfreada. Por isso, mesmo que a gente leia muito, qual será a nossa obra? Qual será a nossa construção? Não há espaço para fortes construções quando a base é a vaidade. Não há consenso para o avanço quando a vaidade colabora para o retrocesso.

Santo Agostinho, portanto, mesmo tendo lido muito menos que todos nós, fez muito mais. E esta é uma ironia porque podemos imaginar o que ele não faria hoje, com a inimaginável quantidade de dados e de informações. Enquanto ele se preocupava em se desenvolver e compreender o mundo no qual habitava, muitas pessoas de hoje, que leram muito mais que ele, ou nem se lembram mais do que leram ou nada fizeram com o que leram. Ficaram mais preocupadas em divulgarem suas ações do que aprenderem com ela. Santo Agostinho foi um homem que se habituou ao pensar, e isto colaborou para que ele se tornasse um Mestre.

Quando nos habituamos ao pensar, passamos a ser estruturados sob outras bases. Saímos da estandardização, da uniformização, da busca pela felicidade com fórmulas, das falas e diálogos superficiais que buscam nos manter numa monotonia profunda. A vaidade adoecida, que foge da originalidade, nos arrasta para a mediocridade e ajuda a evidenciar a nossa alienação. É preciso pensar, questionar, buscar, discordar, indignar-se. Sem isso, os vazios ocupados alargarão porque a vaidade tratará de fazer o usucapião a respeito de nós. Pobre que somos!

imagem tirada da internet

A questão não é o tempo no qual se vive, mas sim o que você faz com ele e com tudo aquilo que está sendo oferecido. Quem tem um horizonte, tem uma estrada a percorrer. Quem tem foco, assertividade e clareza sobre o que fazer com o ofertado, não busca atalhos, não desvia o caminho, não perde tempo. Quem tem um horizonte, não permite que a vaidade se torne o principal produto da própria prateleira. Quem tem uma estrada para percorrer, não se ocupa de vazios preenchidos. Ao contrário, se ocupa do que vai em si e não faz contrato com o incerto. Não podemos buscar o que é, facilmente, compreendido. É preciso recuperarmos o “gosto pelo esforço”, como nos lembra o Filósofo Luc Ferry. E esforçar-se é apartar-se da vaidade, daquilo que esconde a minha, a sua, a nossa dificuldade.

A vaidade é um destes ocupantes dos nossos vazios. Ela acomoda-se e molda-se ao nosso tamanho de forma tão perfeita, que qualquer alfaiate de alta costura não saberá diferenciar o que somos nós do que é a vaidade. Ela nos cega e acentua nossa poeira e nossa perturbação. Nossos vazios ficam vazios de tão ocupados pela vaidade. Uma ocupação inútil e consumida, mas não por traças. Estas apressaram-se e foram embora. Mas pela ferrugem, mesmo, que infelizmente, tem oxidado a nós.

Inúmeras têm sido as oportunidades de pararmos com as guerras, mas as desperdiçamos porque estamos ocupados construindo outras guerras. E a vaidade é uma forma cruel de perpetuarmos as guerras. Enxergamos sentido nela. Caso contrário, ela não estaria extinta, mas certamente, num lugar menos privilegiado da fila.

Não estamos predispostos a todas as possibilidades do que podemos ser. É uma pena. Somos produtos para um público certo, pré-definido e treinado. Somos facilmente treináveis, manipuláveis e consumidos. Se assim não fosse, nossas preocupações estariam mais na ordem do Ser do que do Ter, do transformar-se do que do acomodar-se, do esforço do que do encosto, do som das nossas vozes do que na imposição delas.

Nossos braços estão oxidados. Estamos todos cansados e exaustos por fazermos trabalhos inócuos, vazios e sem sentido. Trabalhos vaidosos que evidenciam a nossa marca construída num estreito universo. Uma vaidade que não deixa lugar para o outro, que cala o outro, que emudece o outro, que esconde o outro. Quem é o outro? Há tempos ele não existe.

Vaidade é inerente a todos nós. Não acredito que possamos nos despojar dela. Mas podemos, sim, nos apropriar dos moldes que a limita, e assim, limitada, avançarmos para que possamos fazer o mais com menos, para que nossas leituras criem rastros iluminados e saudáveis sob os nossos pés, mesmo que as nossas estradas ainda estejam empoeiradas e com algumas luzes queimadas. É preciso darmos vozes às nossas possibilidades ilimitadas, avançarmos, sairmos do trivial, do cardápio pronto e acelerarmos. Isto dará voz aos ecos roucos que tentam sobreviver dentro de cada um de nós.

Nossos vazios ocupados de vaidade, de vazio, de oco precisam ser desocupados. Quem se habilita a começar a arrumação?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Santo Agostinho, como não poderia deixar de ser, que diz:

“Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência.”

A vaidade impede o nosso acesso à sabedoria que, para existir, precisa de paciência. Que saibamos calar a vaidade que vai em nós para que os planos, para nós, não sejam outros. Constantemente, temos conversas nossas, vaidosas, sendo interrompidas por situações e contextos relevantes que insistem em não desistirem da gente. A vida tem sido incansável em nos relembrar o que importa.

domingo, 5 de abril de 2020

Passos alargados

Estamos diluídos na nossa construção, que se traduz e se sustenta por meio dos nossos valores. Há um muito de nós em tudo que possui a nossa digital. A nossa diluição se apresenta nas nossas medidas, nas nossas brechas e nos nossos espaçamentos.

A forma como estamos diluídos na vida, na nossa construção, pode revelar-se sob três aspectos: pessimista, realista e otimista. Não há um quarto aspecto. Ou talvez um quarto aspecto seja a mistura destes três ou a combinação deles. Mas o fato é que há uma predominância na nossa construção, na nossa diluição, na nossa forma de viver e de fazer.


Quem é o mais importante? Quem é o necessário? Quem define?

O pessimista crê na ausência de luz. Esta é a base da construção do pessimista. O otimista crê na ausência de escuridão. Esta é a base da construção do otimista. O realista crê em acionar o interruptor para que haja luz. Esta é a base da construção do realista.

São formas de se viver e versões acerca de quem somos. Valores que nos representam e que nos formam, nos diluem e modelam a nossa construção. Somos a soma de cada um de nós. Ora os três aspectos, ora um, ora dois deles, ora três. Somos os intervalos deles em cada um de nós. Não há errado, não há certo: somente formas distintas de se viver, de se enxergar o que vai, de nos fazer. Todos são importantes. Todos são necessários. Todos nos definem.

Mas por que os otimistas e os realistas são pessoas cuja sombra e água fresca estão garantidas? São pessoas que não sofrem retaliações, são bem-vindas e, mesmo quando apresentam discursos hipotéticos, hipócritas, políticos e mágicos, são alimentados pelos irracionalismos e pelos tendenciosos de plantão. Já os pessimistas, cuja crença está na escuridão, são repelidos da conversa como se fossem contagiosos e inabitáveis.

A maioria de nós se coloca como otimista e/ou realista, porque assim definimos. Mesmo que esta posição não reflita a realidade que vai em nós. É esperado da gente, por causa de uma construção social, que sejamos esperançosos, alegres, otimistas, felizes. Ser pessimista, assumir-se como tal, é como se fosse uma afronta, uma ofensa, um desserviço. O pessimista é renegado, mal visto e, muitas vezes, solitário. É mais valorizado quem se mostra feliz, apesar de não o ser muitas vezes, do que o infeliz honesto. O suposto feliz não dá trabalho para a sociedade. Já o infeliz honesto demanda muito de todos.

Na nossa Cultura de atirar os que não vão com a maioria pelas portas e janelas laterais, vamos acusando, sem exceções, os pessimistas. São pessoas que têm a parte individual atacada pelos que acham que eles deveriam estar ausentes e fora das conversas. O pessimista, que possui uma forma de diluir-se na vida de forma ácida e pouco afeita à luz, é facilmente posto de lado.

imagem tirada da internet

Perdemos a nossa capacidade de reconhecer o outro exatamente por causa da incompletude que ele tem. Mas somos todos incompletos e por fazer. Estamos todos numa esteira sendo formados. É preciso resgatarmos a nossa vontade de nos debruçarmos sobre os outros para poder conhecê-los. Porque se assim fizéssemos, a chance de compreendermos o pessimismo do outro seria grande. A chance de refletirmos sobre o otimismo do vizinho talvez nos ajudasse a nos compreender. E assim sucessivamente. Como, muitas vezes, silenciamos aqueles que não possuem eco em nossas vozes, retiramos de nós a oportunidade de avançarmos. O outro não nos interessa.

Informamos, ao mundo, quem somos por meio do que possuímos e por meio do que damos. Aquilo que nos identifica, que deveria ser o Eu, puramente, está marcado na roupa que vestimos, na universidade que cursamos, na linguagem que usamos, nas crenças que temos, nos lugares que frequentamos, nas falas que pronunciamos. Nossa referência de reconhecimento do outro está no que vai lá fora, e não há mais espaço e nem vontade para nos debruçarmos sobre quem é o outro, sobre a real identidade que ele possui. O externo nos identifica e o interno não nos interessa. Mas é justamente o interno que deveria nos interessar. É ele, e somente ele, que poderá nos explicar quem é o outro. Quem é aquele pessimista, aquele otimista, aquele realista.

E neste lugar de diálogos pré-concebidos e estabelecidos, cujo esgotamento de possibilidades é evidente por parte daqueles que excluem, os pessimistas vão somando rótulos injustos de fracassados, infelizes e precários.

Obviamente, não faço, aqui, um movimento em prol do pessimismo. Mas um convite para reflexão. O pessimista, o otimista e o realista possuem nuances, ramificações que camuflam virtudes e defeitos. É preciso atenção a isso. Mas apenas para os pessimistas esta lupa está a postos.

Um otimista é essencial porque ele sempre enxerga retas no caminho. Vê curvas ainda não trilhadas. Vê possibilidades de caminhada. É um incansável na arte da não desistência. Mas é desprezível aquele típico otimista oco, cujo pensamento mágico o faz crer que bastam meia dúzia de palavras e de pensamento positivo que tudo dará certo. Um otimista que nada constrói porque acredita em fórmulas mágicas e que acha, de forma arrogante, que detém o controle das coisas e da vida. Desconsidera o lado randômico e irregular da vida.

Um realista é essencial porque ele, dificilmente, tira os pés do chão. Sabe até os centavos que possui na conta bancária. É privado de delírios e de alucinações. É um incansável na arte de trabalhar com os fatos. É um sujeito de repertório e sem apego para descontruir o que não deu certo. Mas é desprezível aquele típico realista enfadonho que acha que tudo se resume a uma planilha de Excel e que acha que a vida se traduz em números e descritivos.

Um pessimista é essencial porque ele enxerga a escuridão que, fatalmente, virá, mas que os outros têm medo de enxergar. Vê tropeços na estrada porque sabe da fragilidade dos passos dados até aqui. Ele é o único a colocar holofotes na estagnação e no cotidiano retrógrado. É um incansável na arte de nos lembrar se pegamos o guarda-chuva, porque certamente choverá. Mas é desprezível aquele típico pessimista que se limita a repetir modelos porque “sempre foi feito assim”. Um pessimista que se encosta porque “não adianta, não dará certo”, evidenciando uma postura imobilista, o que não é saudável.

Otimista, realista, pessimista: sinônimo de quem somos. Virtudes e defeitos. Ordens e desordens. Controle e descontrole. Não há como fugirmos disso. Ao excluirmos o pessimista de nossas conversas, sem percebermos, estamos nos excluindo. Porque o pessimista somos nós, também.

Todos são urgentes numa construção pendente e atrasada. Então, por que somente o pessimista paga a conta? Por que este isolamento?

O pessimista vê coisas que ninguém vê, mas que existem. São questionadores porque possuem algo necessário: desconfiança. Não uma desconfiança vazia e má, mas uma desconfiança porque conhece a natureza humana, cuja desonestidade existe. Ele percebe os furos, aquilo que está escrito nas entrelinhas daquele contrato que todos assinam sem ler. Fala dos problemas que aquele super projeto pode oferecer. Quando todos estão comemorando algo que ainda não aconteceu, ele questiona o motivo. Por ser incompreendido, é chamado desmancha-prazeres, mas todos precisam dele. Apenas não reconhecem e o afastam.

Somos uma sociedade que acredita em felicidade de fórmulas e sem construção. Somos viciados em novidades, queremos ser inéditos e achamo-nos no direito de experimentar. Acreditamos que querer é poder. E nada disso existe. O pessimista sabe disso há tempos. E como ele nos lembra disso a todo o instante, queremos afastá-los. É terrível conviver com alguém que fica, o tempo todo, nos falando a verdade e nos lembrando do que somos feitos.

Guimarães Rosa valorizava o meio, a travessia, o trajeto. Portanto, o equilíbrio é essencial. Precisamos de todos, na medida. Nem muitos pessimistas, nem muitos otimistas, nem muitos realistas. De todos. Mas na medida. Para encontrarmos esta medida, apenas fazendo a travessia de Guimarães Rosa. Caindo. Levantando. Chorando. Andando.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de um pessimista incorrigível da nossa História, Nietzsche, autor imprescindível, que diz:

“por vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas.”

Este é o trabalho do pessimista: árduo, difícil, indigesto, mas de autoria necessária. Ele ajuda a destruir a ilusão, a farsa, a hipocrisia. Destrói as tábuas de salvação, os falsos apoios e oferece páginas em branco para o recomeço da escrita. Ele possui passos alargados pela lucidez. Mas é incompreendido e, na maior parte das vezes, não recebe aplausos porque todos estão sentados assistindo a um filme de ficção que pela, vigésima vez, reprisa na televisão.

sábado, 14 de março de 2020

Aldeias sem vozes

Quando eu era pequena, por volta dos 13 anos, estudei três anos de violão. Não por convicção, uma vez que minha vontade por estudar o instrumento não era tão forte assim, mais para fazer um carinho ao meu pai, apaixonado pelo violão. Mas foi uma experiência muito valiosa. Tive a sorte de ter uma professora dedicada ao ensinar, que conhecia o universo infantil, tinha a técnica aprimorada sobre o instrumento (tocava lindamente) e ainda, por cima, era didática e extremamente carismática. Hoje, adulta, tenho a certeza de que estes três anos dedicados, além do meu esforço e decisão por fazer, também se devem à presença desta professora, que ainda tão presente se faz em mim.

As aulas corriam passo a passo, nota por nota. A cada aula um avanço. A Tia Nida, como era carinhosamente chamada pelos alunos, assegurava, o tempo todo, que alguma coisa importante estava acontecendo no meu aprendizado. Ela sempre me dava a sensação e a certeza de que o meu avanço estava existindo. Sentia-me caminhando e o melhor: ao acontecer a “mágica” de uma nota difícil ser conseguida de fazer por mim, ela dizia: “você conseguiu!”, e isto me dava metade do caminho andado. A outra metade deveria ser por minha conta. Ao dizer que “eu havia conseguido”, ela valorizava a minha trajetória e a minha história. E ao fazer isso, me sentia parte do processo, um sujeito, e não um objeto em branco a ser desenhado e esculpido. Eu já sabia coisas antes de chegar lá, e isso foi valorizado, apesar de toda a minha dificuldade e erros, que foram inúmeros.

Paulo Freire dizia: “Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar”. Tia Nida sabia isso. E aplicava. Coerente. Reta. Assertiva.

Inacabados somos todos nós. Mas quem percebe? Somente aqueles que amam. E amar, neste contexto educacional, significa permitir a ação e a reflexão do outro. Significa permitir que o outro caminhe ainda por pés tortos, inchados e cansados. Que o outro possa ter espaço para refletir sobre a própria incompletude e inacabamento. Sem isso, o que nos sobra é a arrogância, isolamento e a hipocrisia. Meu inacabamento e minha incompletude foram percebidos. No entanto, ao invés de constrangimento, acolhimento.

Em meio ao meu inacabamento, quando eu já caminhava para um ano e meio de estudo, comecei a colocar os meus pés para fora da soleira. Apesar de ainda chover forte e de eu estar desprevenida, quis sair mesmo assim, ainda que, discretamente, a vida já havia me mostrado que não era a hora. Cheguei para a aula, iniciei meus estudos. A professora me pediu para tocar A casa, música de Vinícius de Moraes. Era uma canção muito estudada por mim e eu já sabia tocar, de verdade, muito bem (“...era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”). Toquei meio a contragosto. “Por que não avançamos?”, pensei, na minha incompletude. Continuei a tocar, mas sem dizer uma palavra acerca do que eu pensava. Terminamos a aula. Fui embora. Voltei para a outra aula. A mesma situação: tocar outra música “conhecida”, agora ela me pediu para tocar Amigo, de Roberto Carlos e Erasmo. Toquei. Agora não mais a contragosto, mas irritada.

A irritação é uma arma perigosa do arsenal dos vaidosos. E isto independe de idade.

Irritada, toquei Amigo. Hoje, adulta, me envergonho de um dia ter achado músicas de Vinícius de Moraes, Roberto Carlos e Erasmo, fáceis de tocar. Enfim, marcas de um currículo que me trazem até aqui. Toquei. Despedi-me da professora. Saí. Brava, enquanto atravessava o jardim da casa dela, ouço: “Renata, te espero na quinta”, com um largo sorriso. Fazia aulas as terças e quintas. Fiz um aceno positivo com a cabeça, arrogante, e segui meu caminho no auge da minha pequenez que ainda tinha 13 anos.

Na época, como compreender? Apenas vivendo. Aquele sorriso dela, hoje compreendo, era um convite para eu recusar atalhos, para eu recusar caminhos curtos, para eu abrir mão da necessidade desnecessária. Mas convites são para toda a vida, muito além do horizonte, a também música “fácil” de Roberto Carlos e Erasmo, que tive de tocar durante as aulas.

Na próxima aula, a mesma cena se repetiu. Toquei, desta vez, a canção Aquarela, de Toquinho, que possui pouquíssimas notas. Fiz com displicência, confesso. Mas toquei. Parei e disse: “Eu não quero mais tocar estas coisas fáceis. Isto eu já sei. Quero aprender coisas mais difíceis. Quero aprender a tocar Abismo de Rosas. “Apenas um parêntese: a canção Abismo de Rosas é uma das mais difíceis de se tocar, no violão. Fecha parêntese”.

“Abismo de Rosas?”, ela me disse. “Esta é bem difícil, há passos antes dela.”

Um silêncio se fez. Mas logo foi preenchido por aquele mesmo sorriso, do mesmo dia do “te espero na quinta”. Novamente relembrando a genialidade de Paulo Freire quando disse: “Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar”, a professora me recoloca dizendo: “Renata, quando temos a base sólida e muito bem aprendida, o difícil fica relativo.” E continuou: “se você quer aprender coisas mais difíceis, o que valorizo em você, primeiro você precisa criar intimidade com o simples. Porque será ele que facilitará o teu caminho para o complexo.”

Fui desmascarada. Fiquei sem chão. Não esperava aquela lição tão dura que carrego para a vida. A diferença entre o inesperado daquele ensinamento e o difícil de aprender a tocar Abismo de Rosas me reorientou e me deu valiosas dicas de que o amadurecimento de uma pessoa começava por aquele caminho, que certamente me levaria a outros. Tão valiosos quanto.

“Vamos continuar a tocar?”, disse ela, como se nada houvesse acontecido. Sábia, sabia que contribuía, e muito, para que meus pequenos vazios fossem preenchidos. Ela, portanto, não precisava ficar se demorando nas lições morais, porque ela havia permitido o espaço para a minha reflexão e para eu relembrar, mesmo com tão pouca idade, que somos uma sequência de rupturas e de contradições, o que dificulta a construção de um claro projeto de vida. Toda vez que abrimos mão dos passos que o simples quer nos ofertar, nos perdemos. E simplesmente o que ela fez foi me reorientar, me recolocar na rota, cuja impertinência e vaidade de minha parte me fizeram desviar.

Fui apresentada a Toquinho, Vinícius, Roberto Carlos e Erasmo, entre outros. E achei fácil. Não tinha dúvidas de que era fácil. O genial Millôr Fernandes dizia que “quem não tivesse dúvidas era porque estava mal informado”. Era o meu caso, desconfio.

Crescemos com a imposição de alguns isolamentos, de alguns nãos. Isto nos faz avançar. A linha é muito tênue entre correr riscos para avançar e saber esperar e se consolidar. Por isso, uma das chaves é nos aprimorar no nosso autoconhecimento, no nosso limite, no estudo acerca de quem somos, cuja descoberta completa é impossível. De posse destes estudos, as respostas da vida, para nós, ficarão mais claras. Saberemos, de verdade, a hora de nos arriscarmos nos aprendizados mais complexos.

Muitos aprendizados, na vida, nos obrigam a entrar e a acessar nossos vazios e nossos silêncios. Nossas vaidades diversas. Nossos espaços alargados. O não nos dá consciência do nosso limite. Porque ele existe e precisa ser respeitado.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação do escritor russo Tolstoi, que diz: “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

Outro dia, ao ouvir a música Aquarela, de Toquinho, uma canção de poucas notas musicais, a mesma que aprendi logo que comecei a estudar e que julguei fácil por haver tão poucas notas, me lembrei do profundo ensinamento que recebi e que jamais me esqueci. Poucas notas sim, mas de uma profunda simplicidade que, certamente, me ajuda a compreender o complexo da vida. Sem o aprofundamento e o respeito pelo simples, o complexo jamais será bem-vindo e compreendido. Quando Toquinho diz que com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo, vi a Tia Nida ali, na minha frente, me dando aquele largo sorriso de quem sinto falta. O castelo, de Toquinho, é um lugar de excelência e de permissão para todos, mas antes, é preciso saber, conhecer, respeitar e aprender a relevância das retas, sejam elas cinco, seis ou quantas mais forem necessárias. Para se chegar à gaivota voando no céu, antes, e mais importante, é imprescindível valorizar o pinguinho de tinta que cai num pedacinho azul do papel.

Vi que Tolstoi e Toquinho, apesar de não serem contemporâneos, são pessoas que caminham à frente, bem à frente. Tolstoi nos convida a sermos universais, assim como Toquinho nos chama a fazer o castelo; mas antes, Tolstoi nos relembra que antes da universalidade, há a nossa aldeia para ser conhecida, respeitada e pintada, e Toquinho nos relembra que antes do castelo, é preciso conhecer as retas.

Que nossas aldeias não fiquem sem vozes. Que nossas retas não fiquem sem nossas mãos.

Somos parte do mesmo. Somos um a partir de. Somos um lápis em torno da mão que nos dará uma luva, mas se assim, valorizarmos o lápis e o brilhante trabalho que ele faz. Sem ele, a luva jamais existirá.