segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Mãos relegadas

Para este texto, parto de um pensamento do poeta russo do século XIX, Vladimir Maiakóvski, que diz:

“A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”.

Uma das memórias que tenho é de minha mãe tricotando por horas. Era comum irmos ao bazar, perto de casa, comprarmos novelos de lãs e, assim, minha mãe tricotar e fazer blusas para todos nós. Um trabalho lento, cansativo e silencioso que exigia, da minha mãe, concentração, ritmo e paciência, muita paciência. Uma vez, tricotando uma blusa para o meu pai, já quase concluída, minha mãe percebeu um erro grotesco lá no começo da peça. Sem titubear, desmanchou boa parte da costura e a refez, ponto por ponto, apesar de ter percebido uma fisionomia de raiva e desapontamento no semblante de minha mãe.

Quando decidimos construir algo, reconstruir faz parte. Quando decidimos fazer, refazer torna-se inerente. Quando a fisionomia de desapontamento surge, e, certamente, ela surge, a nossa vontade, muitas vezes, é de largar mão e abandonar a obra. Mas a nossa teimosia de insistir naquilo que chamamos “nossa obra”, se mais forte for, derrotará a demolição anunciada que não se concretizou. Maiakóvski tem razão: arte é o martelo que ajuda a forjar o que precisa ser visto. E para tal, é preciso do tempo da espera, da arte, do bordar, do sentar-se, do sentir-se.

Quando o pensamento de realização nasce, nasce, também, a possibilidade e necessidade da reforma. Tricotar, bordar, pintar e todo e qualquer tipo de arte exige graus elevados de paciência para o refazimento, para a reestruturação, para a reelaboração, para a reforma. Construir por meio do manual, do artesanal não conversa com a mecanização. O fazer manual possui, como principal característica, o traço do autor cuja assinatura não poderá ser outra que não a sua ou a minha. Não haverá outra obra igual. Mas para sermos merecedores do legítimo, do inédito e do exclusivo, há que se ter tempo para os passos, para o caminhar além da esteira de produção, para além dos gestos inúteis.

Realizações manuais são necessárias; mas realizações industriais também. Construções artesanais são ritmadas de forma que não adoecem. No entanto, não atendem a tantas demandas que o mundo de hoje, e também o de ontem, exigem. Realizações manuais e artesanais não possuem patrocínios expressivos. Construções velozes são desumanas, adoecem e fazem dos hospícios quase a extensão dos nossos viveres. São construções patrocinadas porque o retorno do lucro e do caixa são certos. Contudo, atendem as tantas demandas que nos cercam e que nos expandem, conversam com as nossas necessidades como íntimos conhecidos, e tornam evidente a nossa ignorância. Uma ignorância que é ignorada apenas por nós, os donos da ignorância.

Viver é uma obra de muitos tijolos. Mas como adquirir tantos tijolos de forma manual e artesanal? Se para vivermos será preciso tijolos, construí-los será necessário. E para dar conta de tamanha demanda, precisamos, portanto também da mecanização, da padronização e da industrialização. O que fazer? Não penso que há respostas prontas e caminhos certos. Mas há respostas sendo respondidas e caminhos sendo construídos. Resta-nos saber se eles serão suficientes para nos resgatar das vantagens e das promessas que acreditamos, de certas atrações que nos distraíram e da miséria moral que nos ronda, mas que insistimos em renomear para disfarçar a companhia da dor que desprezamos.

Disciplina e paciência são resultados da construção do artesão. Mas o artesanal da vida é demorado, lento, construído. Muitas vezes, vamos deixar as sementes aqui, não teremos tempo de acompanharmos a colheita. Resultado e entrega são resultados da construção do mecânico. Mas o mecânico da vida é artificial, igual, descaracterizado e com rachaduras internas. Muitas vezes, vamos colher rapidamente porque compramos uma terra que não foi lavrada por nós. O que buscamos? O que faz sentido para nós? Acredito que os dois. Hipócrita seria vivermos sob o teto artesanal pedindo um alimento pelo aplicativo ou pagando uma conta pelo PIX. Mas como conciliar? É possível conciliar? Saberemos fazer isso? Não sei.

O que sei, apenas, é que continuaremos a dar muito trabalho a nós mesmos. Não somos criaturas simples. Somos uma sucessão de erros, acertos, misérias, dores, alegrias e enganos. Vivemos escondidos sob discursos prontos e encomendados. Vivemos de textos rebuscados, retóricos e redundantes, mas que ninguém está interessado em nos desmascarar, até porque todos estão preocupados e ocupados em sustentarem as próprias máscaras. E quando surgem os de fala simples e sem encomendas no discurso, a audiência é mínima, sem relevância. E uma audiência mínima, sem relevância, fica sem patrocínio. E sem patrocínio, como se sustentará? Voltamos para o dilema do artesão e da mecanização.

O que sei, também, é que não é fácil discutir este assunto com a gente. Sempre temos as respostas. Sempre temos razão. E se sempre temos razão, qual o sentido da conversa? Somos senhores de respostas prontas, incuráveis, sabedores de pseudo saberes, enfermos que buscam ecos em outras vozes. Achamo-nos originais, mas o que nos falta é leitura dos que passaram antes da gente. Somos enfermos saudáveis porque aprendemos a relevância da aparência para a nossa permanência e sobrevivência, aqui. Somos faladores contumazes e escutadores em extinção. Somos aqueles que sabem, os brilhantes e aqueles que opinam sobre tudo porque nada sabemos. Está evidente, portanto, o nosso despreparo. Arrumamos as nossas malas muito mal, e nos faltam itens urgentes, básicos e de primeira necessidade.

A vida é uma obra de passos lentos, vivos, artesanais, autorais e atemporais. A vida que buscamos é uma obra de rapidez, de entregas, de falta de tempo, de mortos, de iguais, de artificiais. Como conciliar o melhor dos dois modos? É possível?

Temos adoecido porque temos excessos de tarefas sem importância. Nossas agendas vão cheias de afazeres que lá estão para ocuparem a ociosidade. O comprimento de nossa vaidade anda extenso porque nos falta atenção a nossa largura moral. Impomos os nossos intervalos, brechas, bastidores aos outros, mas não aceitamos as dores alheias. Afinal, por que aceitá-las se nada nos dizem? Há um imobilismo no ar porque fomos travados pelo excesso. Queremos tanto, de tudo, e rápido que o que fazer com tudo isso?

Falta-nos o amparo do artesanal. Do tempo da construção. Da lembrança da espera. Do respeito pela obra. Do acompanhar da sobreposição dos tijolos. Importante atender as demandas. Mas o artesão faz dentro do tempo que se tem. A mecanização constrói um tempo artificial para que a demanda caiba lá. Adoecemos. E faz tempo. O adoecimento não tem nos dado o tempo necessário para que nos voltemos a nós. A superlotação esvazia o sentido do artesanal, do manual, do tempo para que se veja o erro no começo de uma construção e, de verdade e com vontade, se refaça a obra.

Somos, diariamente, atravessados por uma pressa que não nos ensina. Pelo contrário, que corrompe o que aprendemos, que subtrai os ensinamentos que a vida nos dedicou. O artesão tem a sorte de ter a experiência de composição e de movimento lento e natural porque abdicou das urgências falidas e das influências que o diminuem. E nós? Os que correm? Os que atropelam o sinal?

A blusa do meu pai foi refeita. Minha mãe tricotou durante dias e horas aquela blusa cinza, de lã, para o inverno que chegaria. Meu pai não é um homem que sente muito frio, mas sente. Portanto, “aquela blusa seria o suficiente”, disse minha mãe. O inverno chegou. Esfriou bastante. Minha mãe, observando que meu pai não vestia a blusa, insistiu para que ele a usasse. Afinal, quando seria senão no inverno? Uns dias seguintes, meu pai surge na cozinha com a blusa para a alegria da minha mãe. O estágio dela na arte de ser uma aprendiz de artesã tinha valido a pena.  À noite, quando meu pai chega em casa, está sem a blusa. Mas o frio era intenso. Por que ele estava sem a blusa, então? Porque havia espirrado o dia todo com a blusa, por causa da lã, meu pai é alérgico à lã. Uma descoberta irônica.

Minha mãe, novamente, esboça a mesma fisionomia de desapontamento e diz: “puxa, tanto trabalho para fazer esta blusa, e você nem vai usar? Se eu soubesse, não teria tido tanto trabalho. Mas fácil comprar algo pronto.”  Voltamos para o dilema do artesão e da mecanização. As mãos de minha mãe, relegadas ao desprezo da alergia do meu pai.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um lindo pensamento de Shakespeare, que diz: “A arte é o espelho e a crônica da sua época”.

Sermos os artesãos das nossas vidas é vivermos diante um espelho, nos enxergando, nos conhecendo, escrevendo a crônica, a realidade de nossas épocas. Ser artesão é transformar a banalidade em ênfase, e fazer exata a crônica da nossa vida, por meio das nossas mãos sejam elas físicas ou metafóricas.

A blusa de lã foi doada, mas o exercício do artesão jamais. Que esteja claro, para nós, que vivemos entre o tricotar de uma lã versus a compra de uma linda blusa da vitrine. Vivemos na ponte aérea do transcorrer do tempo respeitado versus do transcorrer do tempo atropelado. Atravessamos estes dois mares, sem exceções e sem muitas escolhas. Optar somente pelo artesanal é conversar com a hipocrisia; escolher a mecanização é nos distanciar de quem nos trouxe aqui: a vida. Portanto, que a gente calce sapatos fortes porque a caminhada é dura e longa. E que, mesmo sobre solos árduos, nossos pés e mãos possam viver o melhor que puderem, sempre um colaborando com o outro, e o principal: com os outros pés e mãos.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Natal adormecido

Para este texto, parto de um verso da música “Happy Christmas”, de John Lennon, que diz:

“So this is christmas
And what have you done?
Another year over
And a new one just begun”

Cuja tradução nos diz:

“Então é Natal
E o que você fez?
Mais um ano acabou
E um novo apenas começou”

Aonde estávamos antes da chegada do novo Coronavírus? No mesmo lugar de sempre: na guerra. Aonde mais poderíamos estar se a escolha tem sido esta? No início de 2020, países como Estados Unidos, Rússia e Arábia Saudita discutiam questões sobre o preço do petróleo. Esta guerra de preços derrubou as principais cotações do petróleo e afetou, fortemente, o mercado de ações, prejudicando a todos. Quando o Coronavírus bateu à porta, estes dois assuntos precisaram aguardar, em segundo plano, na agenda de um mundo tão organizado que cada um sabia e tinha o seu lugar.

A guerra faz sentido para nós e ainda nos alimenta. Mas por quanto tempo? Sabemos que a corda arrebenta, mas desde que não seja o nosso lado a ser esgarçado, está tudo bem. Somos frequentes frequentadores de lugares ociosos que criamos com o tempo que nos foi concedido. O alheio nos interessa. O externo ajuda a manter as aparências, aquilo que vende e que interessa. O interno, a nossa verdadeira vitrine, segue empoeirada, pouco visitada, exceto pelo silêncio e pelas isoladas paredes.

As nossas banalidades nos mantêm ativos e vivos no discurso vendido como certo. De tanto nos venderem como certo, o compramos como certo, e o mais importante: não o questionamos. Para alguém importa que não haja questionamentos e perguntas. Sem questionamentos e perguntas, não há gargalos na fila, não há aglomerações, não há expectadores amontoados. Há vendas. Há concessões. Há fluxo. Há banalidades. Pechinchas. De ocasião.

Então é Natal, e o que você fez?, nos pergunta Lennon. Lennon não traz a discussão acerca do Natal, propriamente, como uma festa do calendário, mas a conversa sobre um tempo que chegará e que, inevitavelmente, esta pergunta nos será feita: “And what have you done?”
Não se trata do Natal do calendário, mas do Natal que reservamos para que seja este tempo de esperança, de espaços para construir, de estradas limpas, de brancos nas paredes para que pinturas possam ser desenhadas. Desenhos que nos remontam e nos relembram de que somos feitos de humanidade, apesar de termos nos esquecido disto.

Num mundo como o nosso, cuja poesia é quase uma afronta, todos convivem distantes uns dos outros. Não aguentamos a proximidade porque ela traz o inerente que vai, em nós. Foi preciso adoecer para lembrar que havia saúde. Todos estão sempre, e todo o tempo, certos, cientes de seus deveres e responsabilidades. Aonde moram os loucos, então, já que vivemos numa sociedade de sãos, de divinos, de santos e de incomparáveis? Talvez saberemos a resposta perguntando a Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis, em O Alienista.

O Natal chegou e passou e com ele, as festas de final de ano. Um ano atípico. Mas atípico para quem? Como sãos, santos e bons, divinos e incomparáveis, lotamos lojas, praias e ruas desconsiderando e desprezando os avisos sobre a correnteza, sobre a areia movediça que nos espreita e sobre o vulcão que dorme, mas que se deleita em acordar. Como loucos, agimos como os Pais dos Loucos. Queremos a autoria da loucura porque o Ser louco não nos interessa mais. A inatualidade do comportamento humano deveria ser objeto de estudo de pesquisadores que estivessem interessados na descoberta dos porquês dos retrocessos, na nossa sociedade. Somos uma sociedade que não se cansa de vender manchetes vexatórias, de atrasos e de atestados de óbitos.

Sim, o Natal chegou. Mas o que comemoramos? A vida. E se deveríamos comemorar a vida, por que não a preservamos? Por que temos ido ao encontro da morte? Porque a vida tem perdido o sentido e o valor. De tanto ela se doar a nós, não a valorizamos mais. Porque o que se perde desrespeitando a vida, se ganha acreditando na morte. Ela nos convence de que nos restituirá a face por meio da embriaguez. Porque os perigos perderam ou nunca tiveram acesso ao nosso endereço, apenas possuem o endereço dos outros. Somos os melhores. Somos os sãos. Somos os santos. Somos os bons. Somos os escolhidos. Somos os justos num mundo de pecadores. Como temos as chaves, não temos medo das portas cerradas.

“Então é Natal
E o que você fez?
Mais um ano acabou
E um novo apenas começou”

O que fizemos além da guerra? O ano acabou, e 2021 começou. Mas como começar se não soubemos encerrar? Como iniciar se a receita para continuarmos devedores é privilegiada? Qual tem sido o nosso inventário? Quanto mais temos, mais queremos. Porque o que temos já não temos. Porque quando os recebemos, já estávamos querendo outras coisas. Para o lúcido, é desesperador um terminar de ano porque sabe-se que a pergunta será feita: “And what have you done?” Mas aonde estão os lúcidos, se a maioria está na praia, na ladeira Porto Geral comprando enfeites para a árvore de Natal, ou na festa clandestina cujas janelas são camufladas para se dispersar o barulho e a polícia?

Não deixe a guerra começar...não deixe a guerra começar..., mas ela já começou. Há tempos. Chegamos, para variar, atrasados. Mas tudo bem. Nossos nomes estão na lista de convidados. Deixarão a gente entrar. Que alívio. O caminho não tem sido em vão. O tempo perdido não existe, só para a Legião Urbana. Enxergamo-nos, agora, como crianças inocentes. Somos vítimas de criações alheias. Somos personagens de histórias, cuja autorização não demos para que fôssemos expostos.

“And what have you done?” Se eu pudesse falar com Lennon, pediria a ele licença para trocar o you pelo we: assim, a culpa sairia do meu ombro, do seu, e iria para o nosso. Ficaria mais leve, desta forma? Mas Lennon não está mais aqui, e a pergunta deverá permanecer em caráter individual.

O discernimento pede adiamento de festas, de encontros, para que não haja o choro em parceria com a chegada do nosso IPTU. A responsabilidade pede distanciamento social, para que não haja o distanciamento definitivo e o pior: sem despedidas. Mas quem se importa? Os que entenderam, entenderam. E os que não entenderam, não quiseram entender. O ego ri enquanto a nossa essência apodrece. Não por falta de oportunidade. Não por falta de chance. Não por falta de ferramenta para fazer. Abrimos mão. Agora é pagar a conta.

A coerência pede cautela e um apropriar-se da realidade criada por nós. A maturidade exige trabalho para refazer caminhos infelizes que saudamos. Mas como pedir que loucos e insanos saibam o sentido de discernimento, de responsabilidade, de coerência e de bom senso? Algo que nunca foi trilhado pode ser cobrado? Loucos podem ser poupados da conta? Restam poucos sãos. Mas é justo que eles paguem contas alheias? O que é justo num mundo cuja injustiça é a dominante?

Jesus não nasceu no Natal. Dia 25 de dezembro é um dia comum, como todos os outros. Mas vale a memória que este dia representa: o renascimento, a esperança, a luz. Quem vem? And what have you done? O que você tem feito?

Nossas esquinas têm nos dito muitas coisas, mas evitamos dobrá-las. Coisas vão escritas em nossas consciências para nos ajudarem a retomar o caminho, mas os anúncios, há tempos, estão descascados. Uma pena. Estamos tendo, e sempre tivemos, a chance de abrirmos mão da opulência, da ganância, do excesso, do acúmulo, da reserva morta e inútil. É preciso construir um pensamento novo, um pensamento de reforma. And what have you done?

O que temos feito além de atrapalharmos as obras que precisam ser concluídas? Olhamo-nos nos espelhos e não nos enxergamos de forma nítida porque a deformação tem sido o nosso modelo. Temos sido mestres na arte de aperfeiçoar perdas, mas exigimos os ganhos. Temos sido premiados pelo supérfluo, pelo peso do crachá, pelo nome do nosso cargo. Nossas estantes vão repletas de estatuetas que nos foram concedidas por pessoas que nos desconhecem, mas que valorizam nosso trabalho irrelevante de perpetuação de falas de circunstâncias, porque temos preços de ocasião por sermos cambistas profissionais. Cumprimos funções gastas atrás de um balcão que negocia. Uma pena. Mas há aqueles que vão longe. Abanam as mãos na esperança de nos alcançar. Enxergaremos?

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Clarice Lispector, que diz: “Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui.”

Que a gente saiba reconhecer o acordar deste Natal adormecido, no qual esteve, em 2020. Não um acordar literal, ou seja, no dia 24 e 25 de dezembro de 2021. Mas um acordar simbólico que se dará porque teremos, pelo menos iniciado, ouvir a dor do nosso amigo. Um acordar porque teremos guardado a nossa dor um pouco no bolso. Não por desvalorizarmos a nossa dor, a nossa ferida, mas por termos começado a compreender que só somos porque há o outro. E o outro só é porque é uma extensão nossa. Com dores reconhecidas, em mim e em você, e no outro, o nosso Natal poderá, enfim, recobrar a vigília e o despertar.

Um ano acordado para todos nós.

domingo, 29 de novembro de 2020

O quintal varrido

Para este texto, parto de uma reflexão, cujo autor desconheço, que diz: “veja se você não está encostando a sua escada na parede errada.”

Tenho dúvidas se estamos enxergando as escadas, que dirá as paredes, que somente podem ser percebidas se os nossos olhares abrirem mão de serem vagos e alheios.

Escadas são o ferramental da vida: o nosso prego, martelo, enxada. A forma como afetamos a vida, como construímos e destruímos, tratamos e destratamos. Há pessoas que nascem com escadas prontas, apenas precisam aprender a usá-las. No entanto, há pessoas cuja estrada se faz longa, e princípios de construção precisam ser aprendidos. Porque esta pessoa irá, antes, construir a escada para, somente depois, e se der tempo, usá-la. Para esta segunda pessoa (porque há só dois tipos de pessoas no mundo: as que nascem com escadas prontas e as que precisam construí-las), a vida será mais dura e mais exigente. Ela não nasceu com todos os pré-requisitos, e o currículo está no final de uma fila grande. Mas também para a primeira pessoa, talvez a vida seja, num primeiro momento, mais fácil e menos exigente. Afinal, o currículo estava quase pronto. Contudo, ter escadas prontas não será sinônimo de saber usá-las. E não sabendo usá-las, o apodrecimento será certo, ainda mais se o material for de madeira.

Paredes são as nossas fronteiras, os nossos vizinhos, o nosso mundo em branco, o nosso lembrete de que subir se faz necessário, mas que descer também é uma realidade. Mais que realidade: probabilidade. Paredes são transportes ora públicos, ora privados. São caminhos a serem percorridos por alguém que somos nós, ainda que esta imagem de quem somos nós, se vai longe, quase inalcançável. É preciso escalar, subir.

A subida nos lembra de que é constante o exercício. De que a dinâmica da vida é viva. O bom de o cume estar longe é que diminuem as chances de acharmos que merecemos apenas sombras e frescas. O sol ainda está alto.

É preciso que as linhas da nossa identidade não fiquem em branco, como disse José Saramago. Para justificá-las e preenchê-las, saber aonde encostamos as nossas escadas será primordial.

Para onde estamos indo? O que buscamos? Qual o sentido disso? Por que fazemos o que fazemos? Não são perguntas genéricas. São perguntas feitas a nós, pela vida, cujas respostas ainda buscamos. Estarmos com as nossas escadas encostadas nas paredes certas é uma das formas de localizarmos estas respostas. Nestas paredes certas, o eco será a nossa própria voz, as pichações serão as nossas e a tinta gasta deverá ser refeita por nós. Por quem mais?

Buscamos sorrisos em paredes opostas às nossas. Buscamos o nosso tamanho encostados em paredes que nos diminuem. Somos um marketing de graça para uma empresa que nos dá uma casquinha de sorvete de graça às custas de duas horas nossas, na fila. Somos respostas prontas de perguntas que não sabemos fazer. Aliás, não fazemos perguntas porque elas cansam e nos gastam. E se estamos gastos, como iremos representar numa sociedade que, por acaso, é a nossa? Sorrimos sorrisos esquecidos nos cantos da boca porque assim fomos educados. Representamos. Fingimos que gostamos. Fingem que acreditam no nosso gostar. E de fingimento em fingimento daqui a pouco nos esquecemos sobre o que falávamos.

Fazemos propaganda sobre coisas que nos devolvem ao lugar que, duramente, conseguimos sair. Paredes tristes criam necessidades que agora não vivemos sem. Nossas escadas já viram estas necessidades vendidas que, alegremente, compramos e ainda exibimos os tickets pagos. As televisões, os smartphones e os eletrônicos são os grandes campeões da Black Friday. Quem vive sem eles? Queremos escadas melhores? Por favor, sem críticas. Apenas uma sugestão de estabelecermos relações mais lúcidas com eles. Televisores vendem entretenimento barato, mas também saudável. Vendem sensacionalismos, mas também documentários. Vendem um marketing cruel. Vendem ilusões, mas também aprendizados e conquistas. Qual buscamos? Celulares salvam, matam, revelam, invadem, ensinam, facilitam, prendem. O que buscamos? Quem está com o controle remoto em mãos? Quem clica no link? Quem doa o tempo a troco de falsas conquistas?

“Veja se você não está encostando a sua escada na parede errada.” Seja você a primeira pessoa ou a segunda, é preciso franqueza com os nossos passados, com aquilo que nos construiu. Não são mais lugares vivos para se viver, mas como baús ambulantes que nos acordam de tempos em tempos nos lembrando do nosso tamanho e da nossa responsabilidade. Somos pedreiros, pintores, engenheiros e arquitetos de nossas escadas. Aonde elas estão encostadas? Não adianta impor os nossos intervalos, brechas e bastidores aos outros. No final, é com a gente.

Estratégia e disciplina são duas grandes aliadas daquele que vai lúcido na própria escada, daquele que conhece com propriedade a parede sobre a qual encosta o seu ferramental. Pessoas lúcidas costumam ser mais comedidas e econômicas com o sorriso porque sabem que o trabalho é grande. Como podem sorrir sem medidas se a maturidade ainda vai longe? Um sorriso restrito, mas sincero, já é o suficiente.

Não posso deixar de mencionar as múltiplas escadas que influenciam na nossa. Perceptíveis ou não como se fossem verdadeiros roteiros. Às vezes, nos deixamos apedrejar e apedrejamos por pura cópia do que vivemos e somos vividos. Retirar pedras exige muita destreza de nossas mãos que ainda seguem trêmulas. Ter consciência sobre quais são as nossas escadas, quais têm sido as paredes sobre as quais encostamos os nossos aparatos, independentemente, de qual pessoa somos, se a primeira ou a segunda, é um exercício permanente, vitalício. É preciso silenciar vozes que se confundem com as nossas. É preciso colocar luvas e mudar a nossa escada de lugar, se assim for preciso. Enxergarão a nós e a nossa escada mudando de parede. Darão risada de nós por puro gosto de nos esmagarem. Apontarão dedos. Seremos excluídos. Ridicularizados, será? Teremos de dar satisfações, muitas vezes, nos tribunais de pessoas que só levam recados. Mas este é o preço daquele que ousa questionar se a escada dele está encostada sobre a parede certa. Antes ser ridicularizado, mesmo que por aqueles que encontram, apenas, no caminho linear o sentido da vida, do que chegar, hipocritamente, ao último andar da nossa escada e enxergar parcas moedas.

A vida não é linear. Aquele que busca somente a linearidade e a convergência chegará ao último degrau da escada e nada encontrará. Paredes lisas, sem rachaduras, imperfeições, irregularidades, desnivelamentos não é uma parede merecedora da nossa atenção: é apenas uma venda casada imposta (e compramos) de comércio de falsificações com contas hipocritamente dobradas para que não vejamos o valor.

Escadas e paredes: como estão as nossas? Se chegamos com elas prontas ou não, o caminho somente reconhecerá os nossos passos. Há rastreamento e câmeras por todos os lados. De nada adiantará dizer que temos parentescos com aqueles que já vão nos últimos degraus das escadas certas nas paredes certas enxergando as paisagens que vão muito além de periferias.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um verso do poema Das Utopias, de Mario Quintana, que diz:

“Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”

Querer pisar sobre os degraus da escada certa, na parede certa pode estar, momentaneamente, inatingível. Mas isto não será motivo para não buscar estes degraus, como nos ensinou o mestre Quintana. Recomeçar é a regra da vida. Afinal, todos os dias o sol se levanta e os pássaros retomam os seus afazeres. Que a gente não obedeça ao senso comum do risível, do visível e do geral, daquele que acha que semeia. Que a alma dos grandes nos povoe e que não tenhamos orgulho de mostrar a nossa facilidade de adaptação.

O pomar nos espera para o plantio. O quintal já foi varrido. As frutas amadurecem. A escada existe. A parede persiste. Os degraus estão firmes. Os nossos pés cabem. A mudança de parede existe. Se precisar mudar, será possível. Pagaremos contas altas por mudarmos de paredes. Mas os parcelamentos em doze vezes, sem ou com juros, existem para darem conta disso, mesmo.

domingo, 15 de novembro de 2020

Competência incompetente

Para este texto, parto de uma reflexão da escritora brasileira Nélida Piñón que diz: “se Machado de Assis realmente existiu, não temos desculpas para sermos incompetentes.”

Estamos sendo incompetentes, então? Se a incompetência não fizesse parte do nosso roteiro, a escritora não teria feito esta referência. Uma característica presente, e de tão presente, tem-se tornado uma marca quase pessoal, uma extensão nossa.

No dicionário, a palavra competência significa autoridade, domínio, alçada sobre uma coisa e/ou assunto. E a palavra incompetência é o contrário disto: falta de conhecimento, de habilidade, ignorância. Como sabemos que conhecemos muitas coisas e desconhecemos tantas outras, podemos dizer, então, que somos competentes e incompetentes, a depender do assunto em questão. Incompetentes somos todos. Competentes somos todos. Mas será que a provocação de Nélida Piñón se referia ao sentido literal da palavra?

A ironia é um convite, mesmo sendo de difícil digestão. Ela cria impasses, em nós, porque despertam as nossas dores e os nossos estranhos que moram dentro e fora de cada um de nós.

Não. Ela não se referia ao sentido literal da palavra, até porque, como disse, cada um de nós traz as incompetências inerentes ao nosso não saber. Ela se referia, portanto, ao nosso já saber, mas que, nem por isso, se fazia presente entre nós. Referia-se à competência incompetente, ou seja, aquela que sabe o que tem que fazer, mas não faz. Aquela competência que escolhe o não fazer, que escolhe a uniformização e o superficial. Aquela competência que aprendeu o que fazer, mas que desaprendeu porque não conseguiu estabelecer uma conexão corajosa consigo. Aquela competência que se tornou conivente com a falta de vontade forte. É sobre este sentido, cuja fala de Nélida se propôs, que não poderíamos aderir.

Uma competência adiada. Uma competência incompetente. Não um sentido literal de competência, mas um sentido indigesto de se saber conhecedor do que precisa fazer, mas abdicar, por querer, deste fazer.

Não podemos adiar esta conversa antiga e necessária. Mas adiamos. O calendário avança em retrocessos, apesar do otimismo do tempo que, esperançoso, renasce como sinalizador de recomeços inadiáveis. Se é necessária esta conversa, por que, ainda, não está nas nossas promessas? Por desculpas. Por esta conversa estar espalhada de propósito. Porque encontrar esta conversa cansa e nos traz um grande desgaste em frente aos espelhos.

Temos uma competência com vontade firme para se tornar incompetente. Temos tido êxito nesta nossa empreitada de soluções inconsequentes. Fazemos liquidações. Naturalizamos os horrores e as dores. Fazemos coro com a má-fé. Alimentamos a ignorância que sempre está pronta a se manifestar. Buscamos confundir para evitar o pensar. Afinal, não é prático incentivar uma fala de análise, de busca, de pesquisa quando a mentalidade do delírio resolve tudo, ou quase tudo. As mentes destras e lúcidas sinalizam, a todo instante, os equívocos destas nossas criações. Mas o conhecimento parcial que enxergamos não tem sido o suficiente para que a compreensão possa emergir. Uma pena. Se fizéssemos um pouquinho mais de esforço, talvez a luz, há tempos lá, pudesse ser vista por mais pessoas.

O que temos acumulado? Cansaços, personalidades incertas, chão de areia, descontinuidades, falta de percepção da realidade. O que temos acumulado? Vitórias, conquistas, avanços, descansos, certezas, pisos sólidos e lucidez. Mas por que nossas balanças não conseguem equilíbrio vivo?  Por que invasões arbitrárias têm sido as nossas escolhas? Por que nossas buscas não buscam o conciliável ao invés do inconciliável? Por que não paramos de lutar? Por que o diálogo tem sido constrangido ao esquecimento?

Não há desculpas para a nossa incompetência. Sabemos. Machado de Assis também sabia disso. Por isso ele fazia com maestria. Fez tanto com tão pouco, com o pouco recebido. Um gênio da literatura. Um homem além dos impositivos e das dificuldades impostas pela vida.

Nossas incompetências têm corrido mais depressa do que a vontade pelo ser competente. Somos vendedores de coisas que não existem. Nossas vozes estão sobrepostas a dos outros. Temos um civismo questionável. Não colaboramos com a cooperação. Sem ela, como nos trouxe Cecília Meireles, “não há como termos grandes realidades”. Nosso hino possui uma letra incompreensível para a maioria, mas todos nós fomos obrigados a decorá-lo.

Não há desculpas para a nossa incompetência. Nossas burocracias existem porque não confiamos uns nos outros. Assinamos sem ler porque ler dá muito trabalho, exige tempo e disposição. O código de ética é escrito por muitos que não a possuem. A feira talvez faça menos barulho do que a nave de uma igreja. Fazemos mais do mesmo, lotamos as agendas dos nossos filhos e, ao findar do dia, exaustos estamos do não fazer, nos envaidecemos pelas entregas, muitas vezes, inúteis. E a agenda de nossos filhos? Cumprida com louvor, enquanto recebemos, pelo whatsapp, o diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade dos nossos, ditos, filhos.

Somos todos estes. Se há críticas, é para todos nós. Se há discussões, todos nós deveríamos estar nelas. Desagregamos. Como não adoecermos? Como não sermos incompetentes? Mas não há desculpas. A culpa talvez seja de Machado. Não temos a genialidade dele.

Precisamos ser um nítido conhecedor sobre nós mesmos. E para isso, somente permitindo que a nossa competência trabalhe, ao mesmo tempo que a nossa competência incompetente se recolha ao lado, como aprendiz. Mas é um longo trajeto. Bom será reforçarmos as solas dos nossos sapatos porque a caminhada se configura a nossa frente.

Temos cotidianos desorganizados. Como a nossa competência se realizará? Sem ordem, difícil encontrar o que precisamos. Não falo de uma ordem parasita, arbitrária, que imobiliza, mas de uma ordem que nos ajuda a buscar a nossa trajetória com serenidade, e a, principalmente, nos dedicar à vida com destreza, ritmo e velocidade compatíveis com quem somos.

Perdemos a conexão com a nossa essência. A investigação acerca de quem somos se perdeu.  Estamos concentrados no indivíduo que devemos representar para que ninguém nos cobre aquilo que não podemos dar. Um abismo que abrimos de forma competente. Desta forma, serenados, vivemos a vida de seres que esperam e que, há tempos, abdicaram das perguntas. Seres que caminham por trajetos ilusórios.

Criamos uma conveniência do atraso e da incompetência. Reagendamos prazos. “Tivemos um imprevisto”, dizemos. Somos inabilitados para os compromissos de longa duração. E a competência é algo a ser atingido somente para um projeto de longa duração. Mas em função da enorme ênfase que damos ao conhecimento de curto prazo, nossas realidades se explicam por si só. Intérpretes são desnecessários.

Muitas vezes, somos uma sequência de rupturas e de contradições, o que dificulta a construção de um claro projeto para as nossas vidas: competência.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensamento de Cecília Meireles, que diz: “Viver é uma obra de paciência e de disciplina”.

Paciência e disciplina são resultados da competência. Não há como avançarmos sem elas. Competência requer tempo de construção, transcorrer de passos favoráveis ao nosso desenvolvimento e a nossa expansão.

Há caminhos e rotas de saídas. E as sinalizações destas rotas e destas saídas estão evidentes.

Queremos?

domingo, 8 de novembro de 2020

Convento inabitado

Para este texto, parto de uma reflexão que diz: “não é freira, mas trabalha lá há tanto tempo que adotou o mesmo tom”, do livro Exílio, de Lya Luft.

Qual seria o tom da fala de uma freira?

São muitas as reflexões que podem ser feitas acerca deste pensamento. Mas o recorte que faço, para poder escrever este texto, relaciona-se com a palavra influência.

Somos influenciados. Influenciamos. Somos influenciáveis. Em todos os tempos. Em todos os modos. Em todas as conjugações.

O verbo influenciar nasceu no século XIX, formando-se a partir do termo influência, palavra com origem no latim medieval influentia, cujo sentido era o da ação exercida pelos astros sobre os homens. Com o passar do tempo, o conceito de influência permaneceu, independentemente da questão sobre os astros, no entanto, agora, com o sentido de exercer uma ação sobre algo ou alguém.

Somos resultados. Não somos inéditos. Somos a soma de estranhos e de influências, em nós. Somos uma peça de teatro já na quarta edição, revisitada, reescrita e reeditada. Somos a fala da freira, e também a do padre. Somos o grito da feira e da fera. Somos a raspa do tacho e o começo do pote. Somos a gíria e o culto. Somos povo. Somos indivíduos. Somos a sequência dos gestos dos nossos pais, no mesmo minuto que somos o filtro do que não queremos dizer. Somos a fala da freira porque não percebemos que o convento fez morada, em nós, e nós fizemos morada, há tempos, nele. Nosso convento habitado.

Somos excessos de escassos em forma de desperdícios. E também reciclamos o lixo. Falamos como estrangeiros numa terra que deveria ser conhecida. Exilamo-nos. Um exílio à moda de Lya Luft, mas também à nossa moda, porque de exílio entendemos. Num convento, exilar-se é quase uma segunda pele, que faz parte do nosso projeto de anulação, de alienação e de nosso projeto vitorioso de ativismo de sofá. Adotamos o mesmo tom da fala de uma freira porque servimos as nossas contradições, as nossas conveniências, as facilidades. Somos influenciáveis: nem percebemos que já estamos falando como elas. Quando nos dermos conta, rejeitaremos a originalidade da nossa voz porque já teremos nos acostumado ao som desta segunda voz, uma voz que talvez vá mais ao encontro das nossas necessidades. Imitamos. Seguimos modismos. Imitamos sem perceber. Imitamos porque percebemos.

Adotamos tons iguais por pura convivência, por pura anuência, por pura conivência. Por puro cansaço, pelo quase, pela dúvida, pela naturalização, pela preguiça, pelo não perceber, pelo perceber, pelo ceder. Pela opressão. Pelo gosto do igual. Para passar despercebido como um uniforme vestido, bem passado e sem vincos. De forma consciente ou não. Qual tem sido o nosso caminho?

Somos habitados por influências, por isso nossos conventos vão habitados e habituados e cheios de habitantes. Necessário fazer mais quartos. Alguém ficará feliz com tantas construções. O que segue vazio, sem tantas demandas de construção?

Alguns lugares esvaziaram-se e esvaziaram para que conventos fossem preenchidos. E como há vozes de freiras que, imitadas, seguem preenchidas! Pobre que somos. Tudo o que nos cerca escreve um pedacinho, em nós. Esses pedacinhos construídos debruçam-se sobre nós com muita curiosidade, e nos formam, como o tom da fala de uma freira. Muitas vezes percebemos, outras tantas, não.

Influenciados somos porque o nosso estar, no mundo, esbarra no outro. Para vivermos, precisamos conviver. Para convivermos, precisamos nos misturar ao estar do outro, no mundo.  Influenciáveis somos todos porque a fragilidade, a incompletude e a complexidade nos formam. Nossas fronteiras não são fixas, e ao mudarmos de lugar, outras áreas ficam descobertas. E nestas áreas descobertas, o nosso lado influenciável mostra-se sem muitos esforços.

O dia a dia copiado, imitado, seguido vai se desenhando e perdendo o sentido de tanto ser repetido. Começamos a falar uma gíria que não falávamos, a imitar um jargão vulgar, a colorir os nossos cabelos do mesmo tom, a frequentar lugares que nada nos dizem. De tantas influências que recebemos, passamos a naturalizar o que não poderia ser naturalizado, passamos a utilizar o mesmo tom de fala de uma freira...quem é a freira? Quem somos nós? Nossas vozes sobrepostas, desconhecidas, inabitadas não habitarão os conventos, nossa nova casa...

Influências que nos burilam, formam, nos fazem melhores. Influências que nos imprimem em folhas tortas, amassadas, velhas. Podemos escolher as nossas influências? Apenas as conscientes, as visíveis, as fáceis de serem percebidas. Se viver e acertar fosse fácil, qual seria a nossa razão?

A convivência nos faz adotar hábitos dos outros. A anuência nos ajuda a consentir aquela fala emprestada. Por puro cansaço, a busca do sentido perde o sentido. Por puro quase, o “deixar pra lá” passa a ser um lugar bastante frequentado por nós. Por pura dúvida, deixamos de perguntar e, assim, proliferamos dúvidas que nos deformam de tal modo que não nos reconhecemos mais. Por pura naturalização, o tom de fala de uma freira não nos incomoda mais, gostamos, e os nossos ouvidos passam a confundi-lo com a nossa voz. Por puro não perceber, passamos a caminhar de forma bem parecida com aquele que nos influenciou. Por puro perceber, fazemos de conta que está certo e que os absurdos são construções arbitrárias da nossa mente acostumada ao pranto. Por puro ceder, fortalecemos a banalização das nossas lutas e erguemos estátuas ocas. Por pura opressão, falar passa a ser uma arma contra nós. Por puro gosto do igual, os conventos vão ficando habitados, lotados e acessíveis.

Inabitados, vazios e isolados seguem aqueles que insistem no equilíbrio, lutadores de uma luta insolente e ingrata. Inabitados porque emprestam as próprias possibilidades àquele que vai.

Somos conventos habitados porque não nos frequentamos. Não construímos intimidade conosco, por isso não há como percebermos os nossos detalhes. Não há convivência. Falamos o mesmo tom da fala de uma freira porque conviver conosco é exaustivo, dolorido e difícil. O pouco tempo que temos conosco dedicamos ao externo.

Somos um ir-e-vir, somos um e o outro. Influências que nos constroem e que nos destroem. Que nos formam e que nos deformam. Somos um aglomerado de vivências, experiências e falas dos outros. Somos sequências de algo que foi começado por alguém, que não sabemos quem. Somos seres em construção, inacabados, como nos disse Paulo Freire. Somos andanças pelo mundo. A influência, portanto, é inerente à vida.

Da influência, em si, não há como escaparmos. Denota lacuna grave aquele que acha que pode contê-la, detê-la, impedi-la de exercer o seu poder. Não há como fazermos uma revisão de quem somos, e dividirmos a nossa individualidade em partes iguais de influência que sofremos versus construções puramente nossas.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com um pensando de John Adams, o sexto presidente dos Estados Unidos, que diz:

“a influência de cada ser humano nos outros, na própria vida, é um tipo de imortalidade”.

Adotarmos o mesmo tom de fala de uma freira pode ser uma possibilidade. De uma possibilidade, nasce uma realidade. De uma realidade, nasce uma vivência. De uma vivência, nasce uma experiência. De uma experiência, nasce um valor. E um valor encerra, em si, uma certa imortalidade. Somos todos imortais, uns nos outros, por tudo o que fazemos, não fazemos, influenciamos.

E como sabermos se as influências têm sido boas ou não, em nossas vidas? Vários devem ser os caminhos e as respostas. Mas penso que uma possível resposta a esta pergunta seja começarmos a perceber se estas influências têm nos levado de volta para o nosso verdadeiro lar, que é o espaço que há dentro de cada um de nós. Não um convento. Não uma feira. Não um local externo. Mas dentro de nós. Se estivermos fazendo este caminho de volta, as influências terão valido a pena.

Uma influência boa nos leva de volta para casa, nos ajuda a renunciarmos ao nosso próprio ego e nos faz, sem interrupções, um convite para a paz que trabalha e para uma esperança que não espera. Uma influência ruim nos coloca num estado de emergência, nos proporciona conexões falhas, supérfluas e doentias, e nos dá poderosas ferramentas para explorarmos o lado esgarçado e cansado.

É preciso abdicarmos das influências que nos diminuem. Mas fazer isto cansa e dá trabalho.

Que os conventos, verdadeiros, sigam operantes, assim como as freiras e as próprias vozes. Mas que estes lugares comecem a dar sinais de esvaziamento, de desocupação porque muitos de nós estarão voltando para as suas casas, para os seus interiores, para os seus lugares. E, agora, nas nossas casas, como gratidão pela nossa volta, elas começarão a nos devolver os ecos de nossas vozes esquecidas que, há tempos, não ouvíamos porque ficamos muito tempo imitando o tom das falas das freiras. Nossas casas começarão a nos devolver os sons de nossas vozes, marcados em nossas paredes que, a partir de agora, e já não sem tempo, precisarão ser reinterpretados, reescritos e recordados.

E o som da fala de uma freira? Este será apenas uma recordação de uma viagem que fizemos, um dia, para um lugar chamado: convento, agora, inabitado.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

No aquário da vida

Para este texto, parto de uma reflexão que diz: “quem menos entende de água é o peixe”.

Há vários recortes que podem ser feitos para esta reflexão. Escolho o recorte da contradição porque ela nos explica e nos situa, no mundo. Somos o que somos por causa das nossas contradições, por causa daquilo que expõe as nossas fragilidades e sutilezas. Se o peixe, que é aquele quem mais contato tem com a água, por que é quem menos a compreende? Porque somos contraditórios. Há uma contradição em nós. Inclusive nos peixes.

O excesso rouba o distanciamento necessário para que algo possa ser conhecido. Por ficar tempo demais em contato com a água, o exercício essencial do conhecimento, do aprofundamento sobre quem e o sobre o que é a água não foi criado. Sem o conhecimento, a possibilidade de criarmos significados é drasticamente reduzida, e as nossas relações tornam-se superficiais. O conhecimento necessita, diretamente, de um tempo de construção, de uma descida à essência, ao planejamento, à valorização do caminhar, ao esvaziamento dos entulhos, ao reconhecimento de espaços e vãos livres para que o saber possa se dar.

Construção requer silêncio e tempo. Mas como em meio ao excesso? O peixe vive neste excesso. Neste excesso de água. Por isso, não a conhece. Por não a conhecer, não cria significados. E assim, tem uma relação superficial com a água. Apenas sente a falta dela, a percebe, literalmente, quando é abordado por uma isca que o pega desprevenido. Desespera-se ao ser retirado da água. Somente nesta hora é que percebe que estava inserido num contexto necessário à própria sobrevivência, mas que, até então, devido aos excessos, não havia percebido.

Excessos nos cegam. Privam-nos do diálogo acerca de quem somos. Distanciam-nos do conhecimento, da criação de significados. Nossas relações se tornam superficiais porque nos tornamos superficiais. Nesta superficialidade, delegamos o indelegável, e pagamos para que outros pensem por nós.  Mas por que o peixe não percebe o excesso? Porque os excessos trazem conforto e, geralmente, camuflam os problemas. Viver no excesso cega, mas traz uma sensação de pseudo paz. Viver na ignorância é uma forma triste de adiar compromissos. Eles são inevitáveis, mas enquanto o faz-de-contas nos alimentar, os aquários tranquilos, serenos e repletos de água nos satisfarão, ou o próprio mar, se assim estiver repleto de água.

Pobres que somos. Buscamos atalhos que somente encompridam o nosso caminho. O excesso nos acaricia. Há muita água ao nosso redor nos afogando, mas como percebê-la se o excesso faz por nós e preenche nossas ociosidades? Que reforcemos os nossos pés porque eles serão convocados, apesar de os nossos sapatos já estarem bem gastos.

Há muito excesso. De tudo. Como percebê-lo? Lidando com a realidade. No entanto, lidar com ela requer, de nós, e do peixe, certa disposição para suportar a dor, a frustração, a insegurança, a tensão, a angústia e a contradição. Já falei que somos contraditórios. Mas apenas não tinha falado que fazemos de conta que não somos. E isto faz toda a diferença. Somos andarilhos em nós mesmos em busca de algo que nem sabemos o que é. “Esta fila é para pagar?”, perguntei à moça, certa vez, numa loja. “Acho que sim, pelo menos estão todos aqui. Acho que sim.” Andarilhos. Nem se é a fila certa para nós, nos certificamos. Não critico. Sou parte disso. Esta alienação faz parte do excesso no qual estamos, todos, submersos.

Vivemos numa sociedade de excessos de falta de essência, que foi construída por nós. Por mim e por você. Nossos dicionários caem em desuso a passos largos: assertivo é aquele que diz tudo o que precisa num áudio de zap de um minuto, enquanto prolixo é José Saramago, porque escreve livros extensos, sem imagens, de pontuação confusa (!), cujas letras pequenas e cansativas não são um convite para leitores estreantes. Sermos pessoas mergulhadas neste funesto excesso nos faz chamar assertivos alguém ou algo, muitas vezes, raso, sem essência e superficial. Equívocos desta natureza são inerentes àquele que dialoga com os excessos.

O que buscamos? A água excedida ou a água na medida? Se for a água excedida, nada há a fazer porque já está tudo certo. Se for a água na medida, será bom abrirmos os nossos guarda-chuvas porque o trabalho virá forte e será intenso.

Temos um déficit de maturidade que nos faz terceirizar responsabilidades. Nossa disposição para o debate, para o diálogo é praticamente zero. Sem diálogo, não há construção, apenas acúmulos de excessos. Nossos espaços são autoritários: eu falo, você escuta. Possuímos vocação para o autoritarismo que anula o diferente, o outro. Aquele que envia um áudio de dois minutos, praticamente, é uma pessoa à parte. Nossa capacidade de esvaziar o outro por meio da marginalização é assustadora. Esvaziamos porque priorizamos o excesso. E ele não nos permite enxergar o outro, a água na qual o outro está mergulhado.

Somos commodities ambulantes. Deixamo-nos conduzir pelo conforto de velhas ideias, costumes, excessos. Precisamos abandonar o nosso conforto para acessarmos o problema do outro. Necessário conhecer aquele que transita na nossa estrada, dedicar tempo a ele, a nós, ao entorno, às curvas que mostram os deveres pendentes e não cumpridos.

Abandonar o nosso conforto é aceitar sair do excesso. Isso dói. Mas se conseguirmos, alcançaremos certa mobilidade para caminharmos em direção ao outro. Para dizer e criar algo com significado é preciso conhecer quem sou. E para me conhecer, preciso abandonar o excesso disfarçado de conforto. Necessária uma dedicação de tempo para o conhecimento. Mas como esta dedicação exige muito de mim, delego, e se não delego, alguém chega e diz que pensa por mim e faz todo o trabalho.

Não podemos desempregar os outros. E é o que fazemos por meio dos nossos excessos. Isto traz a superficialidade.

São excessos de palavras ociosas, mas as essenciais não são ditas. Excessos de imagens, mas as vivências estão esquecidas. Excessos de ações, mas as oposições estão afônicas. Excessos de entretenimento porque o pensar foi deposto. Excessos de comida porque o alimento vai para o apetite e não para a fome. Excessos de abreviaturas porque o pensamento fragmentou-se. Excessos porque nos faltam essências. Temos dados. Falta-nos o conhecimento para interpretá-los. Temos. Porque não somos.

Falta-nos disposição para a experiência de composição e de movimento de quem somos. Dá muito trabalho. Mas há outro caminho?

Não há respostas para tudo isso. Somente a autoajuda tem respostas prontas, eficientes, rápidas, fáceis. O que há é trabalho a ser feito em cada cômodo de nossa residência, como disse Lya Luft. Façamos o trabalho. Ele espera por nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de Mario Quintana:

“Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas.”

Que as águas nas quais estivermos mergulhados sejam valorizadas sem, contudo, que o excesso delas turve a nossa visão. Que nossas contradições possam ser concertadas como num grande musical, cujo conjunto da obra, das notas e dos sons possua a beleza do espetáculo. Que as nossas contradições estejam concertadas, reunidas em um conjunto harmonioso para que possam dar o tom certo a todos nós.  Talvez assim, a água passe a ter outro significado porque, agora, terá sido construído. Por mim. Por nós. Pelo peixe.

Que possamos sair das nossas minorias para que a maioridade possa ser alcançada. Não há espaço para os dois. Qual será a nossa escolha?

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Simplicidade desprezada

Para o texto de hoje, parto de uma reflexão de Clarice Lispector que nos diz:

“Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

Clarice escreve de uma forma como se a simplicidade fosse a pauta. Ela fala de um jeito que dá a entender que queremos e buscamos a simplicidade. Mas que, no entanto, somente será atingida após muito trabalho. Mas, de verdade, buscamos a simplicidade?

imagem tirada da internet

Somos contraditórios: quando temos folgas, dizemos que estamos cansados de não fazermos nada. Brigamos com o tempo, fazemos dele a nossa desocupação, e buscamos formas que julgamos lícitas para matá-lo. Quando não temos folgas, e os dias parecem reduzidos para tantos afazeres, invejamos aquele que caminha pela ciclovia vazia, em plena terça-feira. Remarcamos várias vezes aquele almoço devido à demanda urgente, mas quando o almoço veste ares de realidade, enviamos uma mensagem, desmarcamos o almoço e alegamos um motivo que mente, mas que somente nós sabemos. Dizemos “a gente se vê”, “a gente vai marcar”, “a gente precisa se ver mais”, “te ligo” como mera força de expressão. Falas vazias que não se preenchem porque não nos compromissamos com o preenchimento delas.

Por que? Porque complicamos tudo. Dizer “te ligo” e não ligar, faz o outro esperar. E nesta espera, ele sofre. Ele espera. Ele chora. Ele sente raiva. Ele cria fantasmas. Dizer que “está cansado de não fazer nada” cria uma realidade de inutilidade cujo protagonista somos nós. E nesta realidade, duelamos conosco. Andamos de lá pra cá. Olhamos o celular várias vezes. Nenhuma mensagem nova. E as novas são velhas. Observamos a vida alheia, muitas vezes publicada e não vivida, e neste complexo de inutilidade consumimos um consumo inconsumível. Damos visibilidade a muitas coisas inúteis. Por quê? Porque complicamos tudo.

Muitos choram porque não podem visitar seus familiares, devido à pandemia. Mas e quando podiam? Iam? Buscamos o resumo do livro porque lê-lo dá trabalho. No entanto, os resumos nos privam da experiência. E somente ela é a garantia da vivência. É preciso resgatar a importância e o lugar da experiência. Ela nos ajudará na busca pela simplicidade e a saída de uma vida de improvisos, achismos, esnobismos, imobilismo.

Complicamos tudo. Falamos, falamos, falamos. O silêncio nos constrange. E ao preenchê-lo, abrimos mão de lermos as entrelinhas que são a alma da vida.

Clarice tem razão. Como sempre. Uma autora atemporal. Ela nos espia com seu olhar assertivo e nos diz: “Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

Apesar da contradição como característica principal de quem somos, Clarice parece acertar quando dá a entender que queremos esta simplicidade e que, somente por meio do trabalho, ela será atingida. Não é razoável achar que queremos complicação ao invés da simplificação. O problema é que não estamos todos conscientes deste nosso querer. Se assim estivéssemos, agiríamos de outra maneira. Queremos uma vida mais simples e sem tantas visitas inesperadas. A questão é que estamos à cata de facilidades, técnicas milagrosas, autoajuda, salvadores, paternalismos, truques infalíveis para a próxima dieta, entretenimentos, coisas que nos dão a certeza de uma vida confusa, complicada, cheia de sobressaltos.

Simplificar não significa ser simplista. Talvez seja por isso que alguns não gostem muito desta tal simplicidade. Soa piegas. Ser simples é como se estivéssemos privados de sofisticação, de estatus, de porte, de crachá.

Simplificar tira etapas. Ficamos visíveis. Complicar inclui etapas desnecessárias. Ajuda a dificultar que o outro nos encontre. Assim, ele precisará falar com o secretário e marcar hora conosco. Isso dá uma falsa imagem de pessoa importante com inúmeras ocupações inúteis.

Quem cultiva a simplicidade sempre tem tempo. Trabalha para isso. Quem cultiva a complicação nunca tem tempo porque não trabalha para isso.

O simples, infelizmente, na nossa sociedade, não dá ibope. É chique falar difícil, assim ninguém nos entende e passamos por pessoas cultas. É muito mais chique dizer que saboreou, após o almoço, um creme anglaise do que um creme simples à base de leite, açúcar e ovos. Mas é a mesma coisa! Ou um doce com callets, que nada mais são do que gotas de chocolate. Mas o complicado dá estatus de um chique desnecessário. Você conhece alguém que seja role model, que nada mais é do que alguém que serve de referência para determinado assunto? Por que não dizemos: “você tem uma referência neste assunto para me indicar?” Por que insistimos em role model? Descomplicar a vida dá trabalho, realmente.

Uma vida simples não significa uma vida sem problemas, apenas significa uma vida com mais facilidade para enxergá-los e lucidez para buscar soluções. Apenas isso. Mas como estamos distantes do trabalho necessário referido por Clarice, ainda não desfrutamos da companhia da simplicidade.

Trabalhar é aparar arestas. É dizer que vai ligar e ligar. É dizer que vai marcar e marcar. É dizer que está chegando e chegar. É vencer o hábito nocivo do rápido ineficiente, do trocadilho barato, da piada pronta, do cacófato, do descompromisso. É romper com o sujo. É “examinar tudo e reter, apenas, o que for bom”, como disse Paulo de Tarso. É duelar com desconhecidos solitários e saber que não há guerras sem perdas. Trabalhar cansa. Dói. Descortina. Exige. Obriga-nos a jejuar a preguiça, o atalho, o adiamento e a procrastinação, o jejum verdadeiro. E não o jejum hipócrita que perdoa os pecados após palavras decoradas. Ser simples dá trabalho. Como abrir mão da vaidade de assumir que precisamos aparar arestas? A simplicidade escancara os nossos espaços aleatórios e marginalizados.

Trabalhar nos desmente. O que fazemos para nos desmentir? Trabalhar é ler quem somos. Ler: “um verbo insistente”, disse o escritor.

Somos atravessados pelos ensinamentos da vida. Não adianta medirmos forças com ela porque perderemos. Uma luta desigual. Mas para não sermos vencidos, somente aprendendo a linguagem dela: simplicidade, que é uma verdadeira revolução que se dá no nosso cotidiano. Um cotidiano que precisa ser refeito do simples, de infância, de conversas, de diálogos e de convivência conosco, porque parece que há tempos não nos encontramos.

Encontrarmo-nos com a vida é quase uma certa erudição. Sem solenidades por parte dela. Desconfio que ela espera o mesmo de nós.

Quero encerrar este texto, mas não a reflexão, com uma provocação de um gênio da História, Leonardo da Vinci, que dizia:

“a simplicidade é o último grau de sofisticação.”

Enquanto o mundo complica e cria lendas para explicar o mistério de Monalisa, Leonardo da Vinci, na verdade, cria a Monalisa a partir de um reaproveitamento de telas. A habilidade dele com as tintas e com as técnicas resultou numa das maiores obras da nossa História. Um simples reaproveitamento que resultou numa obra-prima, tamanha a sua perfeição. Um retrato inacabado, de uma senhora de época, não entregue. Um segundo retrato, na mesma tela, de outra senhora, inacabado, não entregue. O terceiro retrato, na mesma tela, reaproveitado. Concluído. Resultado? Monalisa.

Enquanto uns complicam. Outros trabalham. E por isso, alcançam a simplicidade. Leonardo Da Vinci foi um gênio inalcançável a cada um de nós. Não nos é possível alcançá-lo. No entanto, aprender com a simplicidade dele, isso nos é possível.

Que nossas telas inacabadas, incompletas e esquecidas possam ser resgatadas e concluídas. Não faremos Monalisas, certamente, mas nossas obras, se forem construídas à base da simplicidade, terá valido todo o esforço.