domingo, 26 de abril de 2015

Milho ou Pipoca?



A imagem acima, disponível na internet, me faz pensar que queremos as coisas no lugar. Mas somente quando as coisas estão desarrumadas é que conseguimos perceber a necessidade de arrumá-las e assim fazemos.

A ordem é aparente. Ela existe muitas vezes para mascarar a desordem que vai em nós. Na ordem eu não preciso explicar; na desordem, preciso dizer onde estão as coisas.

Gostamos da ordem talvez porque nos dá a sensação de entrega, de compromisso realizado. Mas é a desordem que nos leva a entregar o que realmente importa.

Assustamo-nos com os paradoxos, com as incoerências, com as antíteses. Mas o que é a vida?

Antíteses, contradições e incoerências que tentamos, a todo o momento, transformá-las em ordem, simetria e coerência.

A ordem é uma ilusão.

Precisamos nos reconciliar com os paradoxos. Mas se fizermos isto, eles deixarão de existir. E eles são importantes porque nos fazem compreender que ainda não estamos prontos, que ainda estamos em construção. E a construção traz possibilidades.

“Já estou cheio de me sentir vazio...”, diz a música. E alguém também disse que o melhor discurso é o silêncio. Aliás, quantas coisas o silêncio diz. Acho que por causa disto ele incomoda tanto. Falamos bobagens só para esmagá-lo. Quanta insensatez! Deixe que o silêncio da pausa traga a profundidade real da conversa. Deixe espaço para o silêncio.

Daniel Goleman diz que vivemos numa época sem “vazios”, sem silêncios devido ao excesso de informações. Mais paradoxos. É preciso entender e considerar o que o silêncio pode nos oferecer. Quando existimos num ambiente em que não paramos de responder a estímulos acústicos, diz ele, passamos, apenas, a reagir às coisas, levando ao medo da reflexão porque estamos vivendo num mundo de pensamento contínuo, não valorizamos o silêncio. Sábio ele.

Quando os responsáveis pela criação da constituição dos Estados Unidos estavam reunidos, mandaram cobrir a rua de terra para abafar o barulho feito pelas carruagens, facilitando, assim, o pensamento deles. Pois é, sem comentários...

Quando alguém vê uma cadeira vazia diz: “tem alguém sentado aqui?” Respondemos: “não, pode se sentar”. Deveríamos dizer: “sim, esta cadeira está ocupada para o silêncio. Ele foi até ali mas já vai voltar”. Mas não é o que acontece. O silêncio às vezes volta, mas o seu lugar está ocupado. Sempre achamos que precisamos preencher os espaços das conversas. O silêncio é necessário. Mas o que fazemos com o incômodo que ele traz? Outro paradoxo.

Precisamos ouvir o silêncio do outro e o nosso também. Ouvir o silêncio? Como é que se faz isto mesmo? Esqueci.

Ouvir o silêncio me faz pensar na diferença entre velocidade e pressa. Ficamos apressados não porque temos muito o que fazer, mas para não parecermos ociosos perante a sociedade. Mas   a ociosidade faz parte, sabemos disto. Mas alguém tem coragem de dizer? Alguém disse uma vez que vivemos num “teatro da pressa”, e tirar o pé do acelerador é imprescindível. Se a sua ociosidade te levar a uma inércia ativa, você chegará mais rápido que muita gente. E não é isto o que a gente quer? Chegar antes? Mas chegar antes não adianta muito, porque vamos precisar esperar a festa começar...

Queremos certezas, mas adoramos surpresas maravilhosas! Queremos o previsível para não termos de pensar muito. Pensar dá um trabalho! Além disto, o pensamento pode me perguntar coisas que eu provavelmente não saberei responder. E como quero sempre ter as respostas, mesmo sem saber quais são as perguntas, certamente vou me incomodar. Então deixa para pensar depois.

Esquecemos de coisas que queríamos nos lembrar e nos lembramos de coisas que queríamos nos esquecer. Outro paradoxo.

Mas de onde menos se espera, vem a ajuda. Não da tartaruga, porque ela anda bem devagar, porém é a que mais longe chega.

A ajuda vem da nossa fé que, independentemente da religião ou não de cada um, sempre nos impulsiona a acreditar e a esperar pelo melhor.

O milho da pipoca te apresenta o que está por vir, mas o gosto da pipoca estourada mostra que você chegou lá, que você conseguiu. Outro paradoxo.

Milho da pipoca = oportunidade, esforço, começo.

Pipoca = resultado.

Oportunidade e esforço x resultado: queremos a pipoca pronta. O ato de abrir a embalagem, colocar o óleo na panela, sal e aguardar alguns minutos são coisas do passado. Podemos, também, fazer a pipoca no micro-ondas. É mais rápido. Assim ela ficará pronta mais rápido; assim o nosso prazer poderá ser saciado mais rápido; assim matamos a nossa vontade de comer pipoca mais rápido; e assim chegamos mais rápido ao fim...

Precisamos parar um pouquinho de correr e desfrutar mais a paisagem...

A pipoca pronta me permite participar deste mundo de excessos e de aparências. Tenho coisas para mostrar! O que importa o esforço do estouro e da construção? Isto ninguém vai ver. A pipoca pronta sim, todos irão ver. Então é nisto que vou colocar o meu esforço e minha dedicação. Uma vez alguém disse: “não importa que você não tenha. O importante é parecer que tenha.” Outro paradoxo.

Em muitas situações, o esforço não é valorizado, apenas a entrega. Que ironia, não?! Como entregar sem se esforçar? Como colher a maçã do pé sem plantá-la? Como assistir ao filme sem ligar a televisão? Como aprender a falar sem ouvir? Ouvir? Artigo de luxo este. Ainda existe? Acredito que sim, para aqueles que valorizam o esforço.

Por que o esforço não é valorizado? Porque a entrega aparece mais e ela já vem com aquele cheirinho de pipoca pronta e estourada.

Quem é mais valorizado: quem faz o gol ou quem deu o passe? Deveriam ser os dois, porque um não existiria sem o outro. Mas na nossa cultura do parecer e dos paradoxos, o mais valorizado é quem faz o gol porque ele entregou algo. E quem deu o passe, se esforçou, apenas (!). Deu uma “bela” assistência, diriam os locutores e comentaristas mais atentos. E é só! Mas acho que o passe deveria ocupar um lugar de destaque nesta nossa sociedade de desiguais. O esforço me leva à conquista e não o contrário.

Somos cobrados pela entrega, pelo resultado, mas não importa o esforço. Isto é com você. Ninguém quer saber.

Para quererem saber do seu esforço vão precisar saber dos seus erros. Erros?!  Só quero saber dos fins e não dos meios. Errar é coisa para gente fraca e sem competência, já ouvi gente falando isto. E não foram poucas, não. Quanta arrogância!

Quantas contradições, quantos paradoxos, quantas antíteses.  Alguns estudiosos classificam estes três ora como sinônimos ora como contrapontos. Se nem eles, os entendidos, se entendem...

Valorizamos a ordem, mas criamos a desordem. A desordem é boa? Sim, claro. Já diz o escritor que “o caos cria”. Mas vamos devagar com isto, por favor, que o santo é de barro.

Aliás do barro também se cria.

Os paradoxos nos fazem sentir a realidade, nos fazem sentir que estamos inacabados. Buscamos os contrapontos e os extremos para encontrarmos o nosso equilíbrio e quem sabe, a partir disto, criarmos.

Numa cultura do parecer, o que menos importa é o ser. Outro paradoxo.

Fazemos regime porque vivemos cheios de excessos. Vou começar o meu na segunda-feira.

O humor é sinal de inteligência. Mas os humoristas são os menos valorizados na nossa sociedade. Filme de humor ganha prêmio? Eu não me lembro. Adoramos rir, mas não levamos a sério aquele que faz muita graça. O drama ainda dá muita credibilidade.

Queremos as grifes e as coisas caras porque criam uma falsa imagem sobre quem somos. Usar uma roupa cara, frequentar lugares caros, ir a Paris como quem vai à esquina e ter feito um mestrado no exterior nos isenta de darmos satisfações. Tive uma professora maravilhosa na Faculdade que dizia (ironicamente, claro): “O bom de ser Doutora é que ninguém te questiona.” E aí ela continuava: “...porém deveria ser o contrário: quanto mais se estuda, mais você deveria ser questionado...” enfim, outro paradoxo.

Temos celulares cada vez mais modernos e velozes, mas estamos nos sentindo cada vez mais sozinhos e isolados. Os celulares são tão modernos que não tenho mais tempo para falar com você. Falo pelo WhatsApp, mesmo. “Ué, não é pra isto que ele serve?”, alguém disse uma vez.

Desculpe, mas o WhatsApp deveria ser o meio e não o fim. Mas enfim... Fim e enfim. Fim encerra; enfim continua. São os paradoxos. Precisamos nos acostumar com eles porque somos um deles. E pelo jeito eles não vão embora tão cedo. Sabe aquela visita que chega no café da manhã e fica para o jantar? Pois é...

Dormimos até tarde e depois dizemos que o dia passou tão rápido...

Faço selfie para disfarçar minha realidade. Está todo mundo tão bem! Também preciso fazer parte disto! Porque se sentir triste e infeliz é tão fora de moda! O bacana é ser perfeito e mostrar isto para todo mundo. Sim, claro, se eu não mostrar, qual terá sido a graça? Não basta eu ter ido para a Europa, preciso mostrar que fui.

Precisamos descobrir a beleza da imperfeição.

Um dia alguém me viu escrevendo a lápis e me falou que o lápis cairia em desuso. Pois é, agora o último celular desta semana tem uma canetinha bem charmosa para você ter “precisão na escrita”, diz a propaganda. Mas eu já não sabia escrever? Pena que eu não mais encontrei aquela pessoa.

De qualquer forma tem o tablet, para quem se assustou com a ideia do lápis.

A canetinha deste celular desta última semana só me mostrou aquilo que sabemos: que os excessos de nossas vidas deveriam nos conscientizar sobre as nossas carências. Mas como vou ver minhas carências se a minha agenda está lotada de compromissos? Quem tem muita prioridade, na verdade não tem nenhuma.

Assim como a canetinha deste celular desta última semana voltou, acontece em vários outros setores. Na moda, por exemplo, eles dizem que algumas peças são uma “releitura” dos anos 60, 70, 80. Ah, tá...releitura...

Ah, claro, já ia me esquecendo da vitrola...mas que agora é chamada de “retrô”, acho que é para ficar mais chique. Outro paradoxo. Os entendidos do assunto garantem que há diferença.

Se voltou é porque não deveria ter saído. Pode ser. Outro paradoxo.

O analfabetismo ainda me mostra que eu deveria escrever mais a lápis, pois ainda não estou pronta para entender coisas mais complexas.

Consideramo-nos civilizados, mas a tropa de choque precisa ir ao estádio de futebol acalmar os ânimos dos mais afoitos.

Vamos a Black Friday, mas de verdade, muitos de nós nem sabem o que isto, de verdade, significa. Por que black e não blue, por exemplo? Então...

Queremos morar num bom bairro, mas colocamos grades nos portões.

Quero ter um bom carro, mas faço um empréstimo para pagar o IPVA e o seguro. E olha que o crédito está difícil, agora. Talvez eu não consiga o valor e vá precisar vender o carro para andar de metrô.

Aliás, no metrô, muitos dizem andar somente porque hoje é o rodízio deles...Puxa, haja rodízio!

Não assistimos ao programa Sílvio Santos, só estamos dando uma passadinha no controle...

Falo o que dá estatus... o que aparece. Aliás estatus se escreve assim mesmo, estatus. A marcação do Word foi intromissão da parte dele. Ele insiste nisto. Você escreve e ele sublinha. Escrever status ao invés de estatus dá mais estatus porque será em inglês. Ah, sim, agora entendi. Mas vou escrever estatus, mesmo que isto não dê estatus. Porque é o certo.  Estatus é uma palavra aportuguesada. Por que escrever em inglês? Outro paradoxo.

Uma vez, participando de uma reunião no trabalho, alguém disse que uma determinada pessoa tinha cursado uma faculdade no exterior. E aí a outra pessoa disse: “ah, sim. Qual foi o curso que ela fez e aonde ela se formou?” A outra pessoa então respondeu: “Sei lá, mas o que importa é que foi no exterior”. Se isto é o que importa, é bom revermos muitas coisas...

A grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa. Por quê?

No metrô de Nova Iorque (Iorque e não York) há algum tempo tinha placas dizendo: “cuidado com os ratos”. Que aviso meigo, não? Está certo que temos problemas aqui, de toda ordem, é só escolher, mas dizer que tudo de lá é melhor já não é um pouco demais? Outro paradoxo!

Imagine-se tomando um metrô em Nova Iorque e um ratinho entra para te fazer companhia...e olha que não será o Mickey, porque ele está na Disney...Nova Iorque fica um pouco longe de lá...

Buscamos a lógica, mas a questão toda é: tem lógica?

Vamos à igreja no dia de Santo Expedito, 19 de abril, mas furamos a fila para conseguirmos entrar sob a desculpa: “beijar a imagem”. Será que é isto o que Santo Expedito quer de nós? Outro paradoxo.

Temos excelentes hospitais, universidades e restaurantes mas só para quem tem dinheiro. A excelência parece que pertence a uma classe social, apenas. Parece-me que é isto, não quero julgar...

O café já foi o vilão da alimentação, depois o bonzinho, agora parece que voltou a ser mau.

O Líder de verdade exemplifica no bem; o Líder de mentira faz pressão e é vaidoso. Líderes de verdade que deveriam estar lá mas não estão; Líderes de mentira que estão lá mas não deveriam estar. Que vergonha. Por que eles não pedem para sair? Acho que esta frase é só para o filme, mesmo, Tropa de Elite. E aqui falo sobre Liderança de forma geral, na Política, nas Empresas...eles devem saber bem sobre o que estamos falando. Mas está escrito no quadro da parede da Empresa que há Liderança. Só nos resta saber a qual Liderança eles se referem... Enfim, outro paradoxo.

Acho que os maus Líderes não pedem para sair porque hoje sairá o valor dos dividendos deles.

Somos cobrados para trabalharmos em time mas somos avaliados individualmente. Falam pra gente que não, mas a verdade é que somos sim...Incentivam a competição descaradamente, e por sobrevivência, muitas vezes, erramos a mão e não trabalhamos em time. Mas eles dizem que este é o desafio e falam que contam com você. A teoria é tão distante da prática...

O imposto é pago por vários motivos, e talvez um deles deveria ser para fazer o certo.

Quem mais tem é o que mais ganha porque é o que tem mais chances. Além disto, seus ovos estão espalhados por várias cestas.

Precisamos criar um sistema de cotas, senão a educação ficará para um lado só da moeda.

Rimos muitas vezes para não chorarmos. Os noticiários que o digam...

Quanto mais damos, recebemos. Será? Com o apoio e suporte da fé, sim, acreditamos nisto. Mas se não fosse a nossa fé...Tanto isto é verdade que acabamos de pagar a nossa conta de luz com aumento, e o nosso governo aprovou aumento de verba para todos os partidos políticos! Haja fé para acreditar. Como diz Renato Russo, “nem o Santo tem ao certo a medida da maldade”. Alguém dá o sinal, por favor, para eu descer? Aliás, já dei o sinal em outro texto. Outro paradoxo.

Ainda bem que o paradoxo significa ausência de nexo ou lógica, porque a gente não vai entender mesmo, não é? Precisamos aprender a discutir o “não” com significado, aprender a discutir o paradoxo com significado e não fugirmos dele.

Amar ao nosso próximo. Como é que faz isto?

A ignorância é uma bênção. Depois a gente fala: jura? Poxa, eu não sabia...

Nem sempre o time que mais tem posse de bola é o que ganha o jogo.

Mantenha a coragem mas sem questionar a realidade. Outro paradoxo.

Tem uma frase que diz que antigamente tínhamos tempo. Hoje temos relógio. O tempo. Você já passou pela experiência de falar com alguém enquanto este alguém digita um e-mail e te diz: “pode falar que estou te ouvindo”.

A cultura digital é uma fonte de interrupção constante, que tem a ver com a pressa, com os paradoxos. Depois o cardiologista nos chama de sedentários...Sedentário, do latim, era somente o homem que trabalhava sentado...só isto, meu Deus! Quem deturpou o valor desta palavra? Outro paradoxo.

Fazemos o que podemos para termos seguidores nas redes, e assim a nossa reputação ficará em ordem.

Enfim, está muito complicado isto. Como diz Richard Bach, no livro Biplano, “...vou descer, e assim garantir o meu progresso até aqui”.

Acho que o equilíbrio nos ajudaria a entender os paradoxos. Mas o problema do equilíbrio é que para se chegar até ele, precisamos ir para o meio. E para isto, precisamos saber o início e o final. Alguém se habilita? Outro paradoxo...

domingo, 19 de abril de 2015

Só podia ser...

Num dia desses, saindo de um compromisso e voltando para a minha casa, tomei um ônibus e, como ele estava cheio na parte de trás, resolvi me sentar na frente, em um dos bancos disponíveis. Desta forma eu não precisaria ficar em pé, desconfortável.

Sentei-me tranquilamente no banco, enquanto o motorista do ônibus aguardava a subida de todos para que ele pudesse seguir.

Até aí, tudo bem, cheguei até a abrir o meu livro para ler algumas páginas. Mas foi só um pensamento rápido: o motorista deu uma arrancada naquele ônibus, que até o mais hábil dos leitores ficaria impossibilitado de ler sequer um parágrafo. Mas enfim...

Fechei o livro e me segurei ali, torcendo para chegar logo o meu ponto. Tomar ônibus, hoje, é uma aventura não muito agradável.

Após uns cinco minutos mais ou menos, numa rua bastante movimentada e com muitos carros, o motorista começou a ficar impaciente e demonstrava muita pressa. E começou a frear bruscamente em relação ao carro da frente, fazendo uma pressão para que ele saísse e desse a passagem. Lembrando que era uma rua comum, sem o corredor dos ônibus, ou seja, o motorista da frente não estava infringindo regras, estava dirigindo mais devagar porque o fluxo não permitia. Mas o difícil era aquele motorista entender isto.

De repente, o mesmo carro da frente que o motorista estava pressionando entrou numa garagem de uma loja sem dar a bendita seta...O motorista do ônibus freou bruscamente. Deu para ouvir até umas pessoas atrás dizendo: “nossa, que horror!”  E aí, o motorista buscou seu cúmplice pelo espelho retrovisor (o cobrador!) e disse: “Só podia ser mulher!” E o cobrador, com um sorriso que dizia “já sabia”, disse: “Lógico!”

Como se não bastassem os dois comentários, um passageiro (um senhor dos seus 75 anos) balançou a cabeça e disse: “É mulher, não é?” E os dois disseram: “É, é, não tem jeito, é mulher, só podia ser....”

É redundante falar sobre a questão do preconceito contra a mulher, estereótipos, modelos mentais, etc. Não que eu seja uma feminista de plantão, mas será que SÓ porque era uma mulher, já estava condenada a errar?

Para eles, acho que sim.

Levantei-me do banco no qual eu estava comodamente sentada e fui para trás. Lembrei-me de uma matéria que havia lido há algum tempo falando justamente sobre as imprudências no trânsito.

Veiculada pela rede Gazeta, logo no título, lia-se: “Batalhão de Trânsito comprova: mulheres são mais prudentes no volante”. De acordo com o texto, só no ano de 2013, dos 26.288 acidentes registrados na cidade de São Paulo, apenas 20,82% foram provocados por mulheres, o que equivalem a 5.474 colisões.

Para o educador de trânsito Rodrigo Ramalho, habilidades emocionais femininas, como a de empatia, altruísmo e o instinto protetor, auxiliam as mulheres no enfrentamento dos grandes desafios do trânsito atual, desmistificando o preconceito histórico sobre o mal desempenho das mulheres no trânsito.

E a matéria trazia mais informações inclusive falando que apesar de as mulheres serem mais cuidadosas e prudentes ao volante, este cenário pode mudar em função da necessidade de superação, de as mulheres terem, a todo o momento, de provarem a sua capacidade. E esta pressão poderá torná-las mais agressivas. O artigo ainda alertava para a necessidade de manter estas raízes de cautela e de cuidado.

Acho que aquele motorista não tinha lido ainda esta matéria…. ironias à parte....

O comportamento daquele motorista me chamou a atenção, basicamente, sob dois aspectos:

- o preconceito: ainda estamos muito longe de enxergar as pessoas, de sair um pouco do nosso umbigo, ou será que aquele motorista era algum exemplo de bom condutor para ousar falar de alguém? Ainda por cima de forma preconceituosa e retrógrada. Ele a desqualificou como ser humano... “só podia ser mulher”... ou seja, as mulheres estão condenadas a errarem, na sua triste visão;

a cegueira: como somos cegos diante os nossos defeitos! O motorista apontou, sem pensar, o dedo para a mulher mas ele mesmo dirigia pior! Rotulamos as pessoas! Porque é mulher, porque é pobre, porque é negro, porque é morador da zona a ou b, porque é estudante de escola pública, porque é funcionário público, porque é taxista, porque é motoqueiro, porque é mãe solteira, porque é homossexual. E enquanto isto os nossos defeitos morais ficam escondidos... Quem somos nós para falarmos dos outros? Acho que nem a gente sabe.

Fiquei naquele ônibus uns vinte minutos. E observando a conduta daquele motorista, vi um verdadeiro show de horrores: freadas bruscas, ultrapassagens perigosas, falta de respeito, desrespeito à sinalização e mais algumas coisas que não valem a escrita.  Mas como ele não é mulher, acho que na cabeça dele estava tudo bem...

Vi ali uma pessoa vaidosa, cheia de preconceitos, cega para as suas necessidades.

Mas como não somos perfeitos, aliás estamos bem longe disto, as pessoas começaram a comentar umas com as outras todas aquelas barbaridades que o motorista estava fazendo. E aí, ironicamente, uma mulher disse: “é motorista de ônibus...” e a outra disse “só podia ser....”

domingo, 12 de abril de 2015

Nem se fosse um Persa

Não sei quem disse esta frase, mas certamente é uma pessoa que sabe das coisas.
Por que a palavra “tapete” e não outra palavra? Por que estamos puxando tapetes? Por que puxam o nosso tapete? Por que ficamos bravos quando puxam o nosso tapete e não quando puxam as nossas cadeiras? Puxam as cadeiras para eu me sentar, mas puxam o meu tapete para eu tropeçar. Interessante.
Fiquei com uma pulga atrás da orelha (aliás, por que pulga e não outro inseto?). Fico devendo esta informação porque agora vou atrás do tapete. Acredito que é mais comum puxarem o nosso tapete do que ficarmos com pulgas atrás de nossas orelhas. Então, acho que a pulga pode esperar...
Fui buscar a origem sobre a criação dos tapetes, como eles surgiram na humanidade. E vi que identificar esta origem é bem difícil. Os historiadores não conseguem chegar a um consenso, apenas falam que os tapetes começaram a ser feitos no Oriente há mais de mil anos. Puxa, quanto tempo! Será que naquela época, eles poderiam imaginar que um dia, numa época não muito distante, usaríamos a sua linda criação como sinônimo de passar o outro para trás ou como uma simples inveja básica? Acho que não...
Etimologicamente, vejam que interessante: a palavra “tapete” vem do latim tappetum, do grego tapes, que significa “coberta”. Alguns historiados trazem o sinônimo de “proteção”.
Humm...já começo a fazer algumas associações...Quando puxam o nosso tapete nos sentimos descobertos, desprotegidos, invadidos, desrespeitados, expostos...
E esta invasão que sentimos quando somos expostos vem sempre sem avisar. Lógico. Ninguém avisa pra gente: “olha, vou puxar o seu tapete daqui a cinco minutos.” Não. A puxada de tapete vem sem avisar, pelo menos, a olhos vistos. Talvez haja sinais de que isto possa acontecer, mas muitas vezes será difícil perceber.
“Puxar o tapete”, literalmente, é tirar a cobertura dos seus pés, a sua proteção, e te expor ao ridículo, à vergonha, ao inesperado. No popular, ser pego de calças-curtas, no contrapé. É tirar o seu apoio, a sua segurança. E como nos dá segurança um tapete quentinho, fofo, limpo que acolhe os nossos pés!  Só que infelizmente esta “segurança” que o tapete proporciona não existe, muitas vezes. É preciso estar atento a isto. Acreditamos ingenuamente na proteção daquele tapete, mas não podemos nos esquecer de que existem pessoas que adoram puxá-lo.
Eu diria que não é uma diversão muito saudável esta de puxar o tapete dos outros. Mas tem gosto pra tudo e é preciso estar atento a isto, a estes gostos “inusitados”. Portanto, o importante não é a puxada de tapete em si, porque isto vai acontecer, mas sim o que VOU fazer quando puxarem o meu tapete.
Não está em minhas mãos controlar a “puxada de tapete”, mas o que vou fazer com esta situação sim, está em minhas mãos. Parece óbvio, mas não é muito o que fazemos. Geralmente quando puxam o nosso tapete ficamos desnorteados, confusos, perdidos, envergonhados e abalados. Principalmente se tiram o nosso tapete na frente de terceiros. Também pudera. Somos humanos. Sentimos raiva.
Num primeiro momento é muito importante acolher todos estes nossos sentimentos, mas depois precisamos reagir. Sei que não é fácil. Mas alguém falou para nós que seria? Bem-vindos ao mundo real!
Vivemos num mundo de dualidade: o bom e o mal, o claro e o escuro, o egoísmo e a caridade, a solidão e o companheirismo, a falta e o excesso, o alto e o baixo. Exatamente por vivermos num mundo de dualidades não podemos criar a ilusão de que os pássaros sempre cantarão lá fora e o cor-de-rosa da minha parede ficará sempre intacto. Não. Algumas vezes os pássaros se recusarão a cantar e ao sair, a minha parede cor-de-rosa estará pixada com palavras maldosas.
A ausência do canto dos pássaros e a minha parede pixada me fazem voltar à realidade deste nosso mundo dual. Os pássaros existem, graças a Deus! E o cor-de-rosa também. Ótimo. Mas se os pássaros não quiserem cantar? E se pixarem a minha parede? Terei dois caminhos: incentivar os pássaros a voltarem a cantar, talvez abrindo a minha janela, ou trancar mais ainda a minha porta para eles se esquecerem de mim. E a pixação? Ah...bem, posso ir lá na esquina comprar mais tinta e terminar o belo serviço que começaram ou pintar a minha parede de cor-de-rosa de novo, mesmo que isto custe nova pixação.
Nietzsche já dizia: “precisamos deixar de ver a dor como um mal e sim como uma força”. Se ele estivesse vivo, perguntaríamos a ele: “como se faz isto?”. Bem, Nitze não está aqui para nos responder. Mas talvez haja dois caminhos a se percorrer:
-          olharmos a dor sem dramatizá-la; e
-          olharmos a dor sem nos vitimizar.
O drama e a vitimização só são bonitos na arte. Na vida real, o drama nada tem de belo. E se vitimizar, então, é pedir para morrer a cada dia. É preciso reagir se queremos estar aqui por mais tempo para contarmos nossas histórias para quem quiser ouvi-las.
Os psiquiatras dizem que não há cura para a dor, para o mal. O que há são destinos que você pode dar a eles. Belo choque de realidade. Voltamos, então, à questão principal deste texto: não consigo evitar o mal, muitas vezes, mas consigo dar um destino a ele que seja menos doloroso pra mim. Isto está em minhas mãos.
A questão é sempre a mesma: o que você vai fazer com isto? Esta segurança que buscamos no tapete é ilusória. Acreditar nisto é uma ilusão. Precisamos estar preparados. Nem sempre conseguimos mas só o fato de buscarmos este preparo já nos faz pessoas menos vulneráveis, menos propensas ao drama e à vitimização. Vamos, no mínimo, parecer mais fortes. E esta força pode afastar os pixadores de plantão.
O tapete é só um tapete e não a representação de uma segurança que quero ter. Não podemos exigir isto dele. É uma falsa segurança acharmos que o nosso tapete está lá, paradinho, nos dando apoio e só esperando a nossa chegada. Mesmo que seja um Persa!
O que vamos fazer? Tornarmos reféns? Se acreditarmos muito na maciez, no conforto e na segurança que os tapetes nos proporcionam, sim, seremos reféns.
Puxar o tapete de alguém é silencioso, ninguém precisa saber que fui eu. É um ganho imediato: puxo o tapete, prejudico o outro e ganho vantagem. Já abrir portas e puxar cadeiras é muita exposição, todo mundo vai saber que fui eu. Além do mais, é uma ação que não tem ganho imediato: puxar cadeira pra alguém? Pra quê? O que eu vou ganhar com isto? Abrir a porta? Estou muito ocupado com politicagens para ter tempo de abrir portas. Abrir portas tem ganhos a longo prazo. Puxar tapetes tem “ganhos” a curto prazo. E na nossa cultura do fast, falar de longo prazo dá uma canseira...parece aquele domingo preguiçoso que se estica no sofá. Deixa pra lá. Vamos logo com isto. Acabe logo com isto. Puxe o tapete logo porque a gente tem muita coisa pra fazer.
Deixo o abrir de portas para quem tem tempo. Se a sua porta me oferecer algo, até te faço este favor de abri-la. Mas enquanto isto, puxe você a sua cadeira e abra as suas próprias portas. E de preferência, não obstrua o meu caminho com a sua porta e com a sua cadeira, senão alguns tapetinhos serão puxados...principalmente se não forem persas. Se forem, até conversamos, mas caso contrário, serão puxados com a classe e com a categoria de que quem coloca muita coisa embaixo do tapete.
Colocar a sujeira embaixo do tapete: você sabia que existe o termo tapetear, que foi originado de tapete? Significa fazer uso de meios duvidosos e/ou ocultos para obter algo, e logo em seguida, dar uma aparência de ordem. Socorro! Alguém dá o sinal pra eu descer, por favor?
Que interessante! Logo quando alguém puxa o nosso tapete coloca o que fez (desonestidade) embaixo dele para não ser descoberto. E às vezes ninguém descobre mesmo. Coitado do tapete, ainda por cima ser feito de cúmplice. Que destino triste o dele! Acho que se o tapete pudesse falar diria: “não tenho nada a ver com isto. Alguém me tira daqui, por favor?”
Tudo isto me remete a uma palavra só: inveja. Há várias definições pra ela. Mas acho que a interpretação mais forte para inveja é aquela que o invejoso não se sente capaz, é um infeliz, na concepção do termo. É aquela pessoa que está longe de sua essência, daquilo que a completa, daquilo que traz sentido à vida dela.
O invejoso se distancia de quem ele poderia ser se não fosse este sentimento que o corrompe e que o consome, que o faz querer ser alguém que nunca irá ser. O invejoso é aquele que olha só para o que o outro tem e conquistou e se esquece de suas próprias conquistas e habilidades. E o mais perigoso: nesse imbróglio que o invejoso está, ele acha que o outro o está atrapalhando. Como ele não tem (ele acha que não tem), entende que o outro também não deve ter. É uma doença. É uma tristeza que ele sente pelo sucesso alheio. Você já percebeu como o invejoso ataca? Ele não vai atacar o mal que você faz, suas fraquezas, ele ataca o bem e o sucesso que você faz. Ele tenta destruir o sucesso que você construiu.
Lembrei-me de uma historinha que reflete bem isto. Diz assim:
Quem tem luz própria sempre incomoda aqueles que não têm
Conta a lenda que uma serpente começou a perseguir um vaga-lume. Ele fugia rapidamente da feroz predadora, mas ela não desistia.
No primeiro dia, ela o seguia. No segundo, ela o seguia... No terceiro, já sem forças, o vaga-lume parou e falou à serpente :
- Posso te fazer três perguntas?
E a serpente respondeu:
- Não estou acostumada a dar este precedente a ninguém. Porém, como vou te devorar, pode fazer a sua pergunta.
E assim o vaga-lume perguntou:
- Pertenço a sua cadeia alimentícia?
- Não, respondeu a serpente.
- Eu te fiz algum mal? Disse o vaga-lume.
- Não. Tornou a responder a serpente.
- Então por que você quer acabar comigo?
- Porque não suporto ver você brilhar.
Ou seja, esta história só reforça o que a Escritora Ayn Rand fala sobre o pior mal da humanidade sobre o ataque à habilidade do outro, ou seja, a era da inveja. Isto é a coisa mais imoral que existe, diz ela, ou seja, atacar um homem não por suas falhas, mas por suas virtudes. E não é o que o invejoso faz? O que puxa o tapete? Estejamos atentos às serpentes e às pequenas cascas de bananas que colocam no nosso caminho...
Abaixo listo algumas “sutilezas” que podem sinalizar que uma puxadinha de tapete básica está se aproximando de você. Caso você se identifique com algumas delas, cuidado, porque não é mera coincidência. É realidade mesmo! Lembrando que são sinais e que podem servir tanto para percebermos quando querem puxar o nosso tapete tanto quanto para percebermos se nós é que não somos o problema...se estamos puxando alguns tapetinhos ...
Aí vão:
- aquela pessoa muito crítica e nada construtiva (sempre a mesma pessoa critica o seu trabalho, nunca está bom, sempre vê defeitos naquilo que está bom e que você recebeu diversos elogios de outras pessoas);
- aquela pessoa que, de repente, resolve ficar sua amiga (o) demais, quer se tornar íntimo;
- aquele muito perguntador, que quer saber muitas coisas a seu respeito, principalmente no quesito “vida particular”;
- aquele que se faz de amigo, oferece ajuda e depois fala para o seu Gestor que não conseguiu fechar determinada tarefa porque precisou te ajudar;
- aquele que espera você entrar em férias para contar fofocas e falsidades;
- aquele que te elogia demais, exagera na tinta, mas por trás fala mal de você, te critica;
- aquele que coloca várias palavras na sua boca, que distorce suas falas e depois você precisa ficar se explicando;
- aquele que fala várias coisas para te desestabilizar mas diz que é “para o seu bem”;
- aquele que te prejudica, te coloca numa “roubada”, definitivamente, e aí vem com aquela conversa: “eu sei que você vai conseguir. Este é o desafio! Este trabalho tem a sua cara, só você vai conseguir isto. Seja um protagonista!”;
- aquele que, de tanta inveja que tem de você, só te dá trabalhos menores pra fazer sob a alegação de que você está “ainda” se desenvolvendo;
- aquele que gruda em você para aprender o seu trabalho e começa a dar sugestões demais com a intenção de pegar o seu lugar;
- aquele que fala que você nunca vai conseguir, fala pra você desistir. Lembre-se que a crítica em excesso e de forma errada é capaz de destruir qualquer iniciativa;
- aquela que diz que seu cabelo está ótimo (e no fundo não está) somente para que você seja uma a menos na concorrência.
Bem, o que sei é que o potencial de um indivíduo é desperdiçado quando ele se afasta de sua essência, pois ele gasta tanto tempo colocando e mantendo suas armaduras que se esquece do que realmente importa: viver bem e crescer corajosamente.
Penso também que estas atitudes de puxar o tapete do outro passam pela falta de educação, literalmente. Não fomos educados a valorizarmos atitudes para um olhar coletivo, num mundo de subjetividade. Precisamos buscar sermos mais solidários. O que realmente faz a diferença num mundo onde todos estão padronizados? As atitudes. As boas atitudes.
Num mundo aonde se busca o destaque, o auto centrismo, sair do lugar comum e querer diferenciar-se pelo bem me parece ser a melhor opção. Como disse Walt Disney: “Eu gosto do impossível porque lá a concorrência é menor”.
Parafraseando Disney, já temos concorrentes demais puxando tapetes. Se optarmos por puxar mais cadeiras e não tapetes, quem sabe os pássaros voltarão a cantar e a parede cor-de-rosa poderá ter sua paz reconquistada?

domingo, 5 de abril de 2015

Uma história no trem

Numa destas tardes chuvosas, eu tinha um encontro com uma amiga. Combinamos de nos encontrar no Centro Cultural São Paulo. Era uma sexta-feira. Dia de relaxar para muitas pessoas, mas não para aquele rapaz que encontrei.

Enquanto eu aguardava o metrô na plataforma, vi um rapaz bem franzino e baixinho descer a escada correndo (a pressa dele era tanta que não viu a rolante bem ao lado dele....).

Ao mesmo tempo que ele descia correndo também olhava o celular. E ainda carregava uma grande bolsa a tiracolo. Passou como um vendaval por mim e, apressando o passo, seguiu bem lá para frente, em direção ao primeiro vagão.

Até aqui, tudo bem, quem é que não corre para pegar o metrô? Mas o fato é que o metrô não estava lá, nem dava sinais de estar chegando. Qual o motivo de tanta pressa, meu Deus? Pensei. Até mesmo a estação estava vazia...ele poderia ficar em qualquer lugar que quisesse.

Aquele rapaz parecia ausente, longe...com aquela expressão aflita, certamente naquela plataforma de metrô é que ele não estava. A ansiedade faz isto com a gente: estamos sempre no futuro, lá na frente, num lugar que ainda não chegou, que nem mesmo sabemos onde fica.

Estranho observar a ansiedade do outro. Estamos sempre na primeira fila para observar, mas não queremos que apontem o dedo para nós. Queremos observar, mas não queremos ser observados. Queremos falar, mas não queremos que falem de nós. E quando alguém aponta o dedo para nós, negamos. Eu!? Imagina! Negamos com todas as forças. Queremos passar despercebidos pela vida nestes momentos de fúria e de ansiedade. Acho que por isto negamos. A negação é a nossa vigilância constante para não sabermos o que já sabemos. O alívio, tão buscado por nós, só acontecerá quando abrirmos mão desta negação.

Certamente se aquele rapaz tivesse a opção de não ser notado, assim o faria. Ninguém quer ser visto assim, tão exposto, tão frágil. Ele não percebia que era observado. Mas era.

Como em todos os momentos de pressa, os segundos parecem eternos. E com aquele rapaz não era diferente. Ele batia o pé no chão (até aqui só o direito) acreditando que o metrô ouviria o seu chamado e, portanto, se apressaria a chegar. Mas que nada! O metrô também tem suas prioridades. Ele tem muito mais o que fazer do que corresponder as nossas expectativas! Corresponder expectativas? De quem? Queremos ser correspondidos o tempo todo. Queremos ser atendidos o tempo todo. Mas nem sabemos direito o que queremos!

Parece que quanto mais pressa temos, mais longa é a demora. Às vezes, tenho a nítida sensação que a demora e o tempo ficam atrás da porta, só nos observando para ver até aonde aguentamos. Que ironia! E que irritante, também! Até porque a nossa pressa é sempre mais apressada que a do outro. As coisas têm o seu tempo de acontecerem...que muitas vezes não é o nosso tempo. Ou eu espero ou brigo com o tempo. Acho que a primeira opção é a mais razoável. A segunda opção seria brigar com o tempo. Brigar com o tempo? Que audácia a nossa...

Talvez aquele rapaz não se lembrou desta importante lição da vida. Esperar. Muitas vezes ela é gentil em suas lições, já em outras...mas isto é tema para outro texto.

Voltando ao rapaz:

Quando ele chegou à ponta da plataforma, parou repentinamente, como a se dar conta de que o metrô ainda não havia chegado. Era preciso esperar. E que verbo duro este: esperar...principalmente para aquele rapaz. É preciso esperar, esperar, esperar...e respeitar o tempo das coisas.

O rapaz mantinha sua expressão aflita, tensa e ansiosa. A sua pressa precisou esperar porque o trem ainda não estava lá. Sentir ansiedade e angústia é inevitável na vida. Ele não interagia com aquele ambiente, apenas com sua ansiedade e aflição, o que somente piorava as coisas.

E piorou: ao invés de ele continuar a bater um pé, começou a alternar as batidas nos dois pés e a bufar na plataforma.

Algumas pessoas riram dele naquele momento, que triste! Rir da dor alheia. Ele estava sozinho, não dividiu a sua dor com ninguém. Mas alguém riu...e até agora me pergunto do que aquela pessoa ria. Acho que dela mesma, mesmo sem saber.  Rir e culpar os outros traz um falso conforto para nós. Enquanto o problema do outro é aparente, escondo o meu. Mas, a vida ensina... e certamente a vida não tem essa nossa pressa, ela espera por nós.

Enquanto me distraí neste pensar, percebi que a angústia do rapaz só consumia a sua paz. O silêncio dele falava muito alto, nada era preciso dizer. Estava sofrendo. Certamente poucos perceberam isso. Mas o que importa? Estamos todos tão ocupados! Não dá tempo de saber do outro, ainda mais sobre os seus problemas.  Bastam as minhas angústias, disse alguém!

Enfim, fiquei ali só observando aquilo tudo. Será que ele estava atrasado ou adiantado demais para amanhã? Pensei também nos nossos exageros. Estamos tão acostumados a correr, que quando caminhamos, estranhamos, tropeçamos, esquecemos como se anda.

Quem não corre, quem fala que tem tempo, quem está tranquilo se sente mal em dizer, parece que está errado, sente-se um desocupado. Quanto absurdo!

“...vou errando enquanto o tempo me deixar...”, já dizia a música.

Estamos tão tensos do que está por vir que não aproveitamos o momento, aquilo que está acontecendo. Mas, e o tempo pra isto? Não dá...fica pra depois...

Estamos tão ocupados, é tudo tão urgente, tão relevante, tão ultra mega pra ontem, que até nos esquecemos das redundâncias (como as deste texto) que cometemos! Redundâncias na fala, na escrita, no comportamento, no SER. Quantos excessos! Precisamos de tudo isto? De verdade? Que noção de tempo é esta que achamos que o trem está demorando? (O intervalo entre eles é de quanto tempo mesmo? Poucos minutos, às vezes segundos…).

Será que não temos este tempo para aguardarmos o metrô calmamente? Afinal, ele chega tão rápido! Pelo menos em dias de sol e de calmaria...Acho que foi por isto que aquele rapaz estava tenso e angustiado: estava chovendo muito naquele dia! Pois é, acho que era isto mesmo: a chuva e o mau tempo. Quem falou que não dá tempo? Quem disse que não temos tempo? O tempo está aí, aliás sempre esteve. Você procurou por ele atrás da porta?

E enquanto vamos encontrando uma desculpa para dar pra gente mesmo, enquanto vamos nos apoiando no externo, naquilo que eu não preciso explicar, naquilo que se explica por si (a chuva, o sol, o vento, a fila, o trânsito, o tempo...) vamos caminhando sem culpa, afinal o trem chegou, e já não temos mais tempo para pensar e conversar. É preciso embarcar. O caminho muitas vezes não se sabe, mas é preciso embarcar.

O trem chegou. Embarquei no mesmo vagão daquele rapaz para acompanhar um pouco mais sobre aquela história. Ele se sentou, apanhou o seu celular e deu alguns comandos. Alguns instantes depois, guardou-o na grande bolsa que carregava, juntou suas mãos ao colo, e deu um profundo suspiro. Num lampejo de consciência, ele se deu conta de que, naquele momento, o trem tinha mais força e autonomia que ele. Naquele momento, o trem dava as regras, não ele. De nada adiantaria a pressa, a angústia no rosto, o bater de pés no chão. Era preciso esperar. A pressa daquele homem não era a mesma pressa do trem.

Chegou a minha estação: Vergueiro. Desci. Não pude ver o final daquela história. Não pude descobrir o porquê de tanta pressa. Só sei que o trem partiu com aquele desconhecido dentro levando seus anseios para a próxima estação.

domingo, 29 de março de 2015

Quem matou o seu sonho?


Mario Quintana. Um poeta singular e de uma sensibilidade inigualável. Em uma das passagens de sua vida, estando ele em dificuldades financeiras, foi morar num pequeno quarto de hotel cedido por um amigo. Disse Quintana a uma pessoa que achou o quarto muito pequeno: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas".

Uma pessoa que diz isto só poderia ser poeta, mesmo. Um poeta com alma. Assim era Mario Quintana. Uma pessoa que tinha autoridade para falar sobre sonhos. Disto ele entendia.

Olhando a imagem dele, penso que Mario Quintana devia ser uma destas pessoas deliciosas de se estar perto. Aquele dia em que você pega um café, senta-se no sofá e bate um papo tranquilo sobre coisas importantes. Coisas que a pressa e a urgência se envergonhariam de falar ou não achariam apropriado.

Mario Quintana, no texto acima, faz uma provocação. E esta foi apenas uma das muitas que ele fez. E quão atual ela é! Escritores de primeira grandeza são assim: escrevem coisas atemporais. Elas não cabem no tempo, estão acima dele.

Fiquei pensando na palavra abandono e seu pesado significado. O que poderia ser pior que o abandono? Ah, sim, tem algo pior...a indiferença. Mario Quintana tinha toda razão. O abandono cria mato, mas a indiferença cria abismos. O mato eu corto. Mas e o abismo? Certamente eu não teria pernas para ultrapassá-lo.

Estava no metrô um dia destes, e uma criança de seus 06 anos entrou com o seu pai. Sentaram-se um ao lado do outro. Mas esta proximidade era apenas física. Logo eu saberia disto. O menino com um tablet nas pequenas mãos. Aliás, o tablet era maior que suas mãos. Mas isto é só um detalhe. E o pai com outro tablet. Este sim, cabia em suas mãos. Estava perfeito para alguém que talvez tivesse deixado de sonhar há bastante tempo. A única diferença era que no tablet do menino havia um joguinho e no tablet do pai, um filme qualquer passando.

O vagão estava vazio, ainda bem. Assim pude acompanhar de perto aquela cena. Ambos com os seus olhos grudados na tela. O mundo ao redor deles simplesmente não existia. Não havia interação senão com a tela, principalmente o pai. Por que, então, o filho olharia para outro lugar? O exemplo, muitas vezes, fala mais que palavras.

O diálogo que se segue foi o que presenciei.

- Pai, o menino chama.

- Hum...o pai responde. (A economia de palavras me chamou a atenção. Para falar “oi, meu filho”, levaria mais tempo do que dizer simplesmente “hum”...).

- Pai, o menino chamou novamente.

- Fala, o que é? O Pai responde sem olhar para o menino, continuando a olhar para a tela do seu computador.

- Olha, aqui, Pai, olha o que eu consegui! O menino com suas pequenas mãos estendia o tal do tablet para o seu pai ver algo que ele tinha conseguido.

Mas o Pai, em sua indiferença adquirida ao longo da vida e ao longo dos seus sonhos esquecidos, desta vez olhando rapidamente para a tela do menino, disse:

- Ah, tá. Legal. Mas não me atrapalha aqui...E voltou o seu olhar para a sua própria tela.

O menino, então, recolheu o seu tablet, desligou o aparelho e o repousou em seu colo, também bem pequeno para isto. Deu um leve suspiro, se abraçou naquele apoio que há no metrô (aonde as pessoas se seguram) e encostou a sua cabeça lá. Neste momento, o menino, agora sem mais a distração do tablet, ficou com o seu olhar vago e disperso e deu de cara com o meu olhar pra ele. Um olhar que ele, em sua pouca idade, não conseguiria entender. Ficamos nos olhando por alguns segundos. Havia tantas coisas a dizer mas o momento era de silêncio...

Queria dizer três coisas a ele:  nunca permita que alguém o faça desistir de seus sonhos, apenas você tem este direito; sempre se orgulhe de suas conquistas e seja surdo para a indiferença das pessoas. Mas não pude falar nada.

E o pai? Ah, sim, claro, ainda assistia ao seu filme.

Não sei o gênero do filme que aquele pai assistia. Mas para mim, o gênero era de terror. Pelo menos foi o que presenciei naqueles segundos. Um terror silencioso que só o tempo saberia as consequências para aquele pequeno sonhador.

Culpar aquele pai seria inútil. Ele desaprendeu a arte de sonhar com alguém, também.

Mario Quintana tinha toda razão. A indiferença daquele pai, com aquele “Hum...”, era cruel.

Buscamos o tempo todo aprovação, queremos ser aceitos, amados, incluídos. Que dirá as crianças! Quando as crianças fazem as coisas elas sempre buscam o olhar de aprovação dos Pais, que são sua primeira fonte de autoestima.

O tablet não tem culpa. Aliás ele é maravilhoso...quando se sabe usá-lo. Mas ele também sabe ser bem cruel nas mãos de quem desaprendeu a sonhar, de quem acha que sonhar é piegas. Alguém um dia disse que sonhar era piegas, meio fora de moda. Penso que fora de moda é quem pensa assim.

É preciso sonhar.

Sonhar nos ajuda a colorir o mundo, a ir até um lugar mais agradável e voltar com mais força, vitalidade e vontade. Deixar de sonhar é começar a morrer. E a indiferença é esta morte lenta, imperceptível porque estamos muito ocupados pra isto. Já dizia o coelho branco de Alice no País das Maravilhas: “estou atrasado, estou atrasado, estou atrasado”! De posse daquele imenso relógio que o apressava insistentemente. O tamanho do tablet do menino, em suas mãos, me lembrava o relógio do coelho branco, de Alice. E estar atrasado é uma forma de estarmos indiferentes ao que realmente importa.

Fingimos, muitas vezes, não ver os nossos sonhos porque eles dão trabalho. Sonhar não se compra no supermercado, se constrói. E a construção leva tempo, o supermercado a gente faz mais rápido, principalmente se for um supermercado pequeno. Em dias de chuva, é preciso parar a construção e esperar, aguardar pacientemente até que a chuva dê uma trégua. Mas se está chovendo eu consigo fazer o meu supermercado bem confortavelmente, lá dentro, no coberto e no quentinho. E ainda se eu der sorte, haverá uma degustação de vinho com queijo no mercado para eu me distrair enquanto faço as compras. Dizer “Hum...” é muito mais rápido do que construir e se interessar por algo. Queremos o produto, não queremos construí-lo. Queremos as respostas, não queremos as perguntas. Queremos o fast food, não queremos cozinhar. Queremos resultados, não queremos e nem valorizamos o esforço. Queremos o destino, não queremos a estrada. Queremos estar, e não ser. Então por que vamos querer sonhar? Deixa isto para os poetas, já disse alguém...

E como vamos aprendendo a doce arte da indiferença no dia a dia! Não sonhamos mais, e também não deixamos que o outro sonhe. Se eu não sonho por que você vai sonhar? Não falam que precisamos ser solidários? Então, está aí a grande chance...

Estamos perdendo a nossa capacidade de sonhar exatamente por causa da indiferença, do embrutecimento das nossas emoções.

Quando sonhamos, nossos sonhos ganham uma personalidade, uma forma, uma imagem, asas. E o que a gente faz? Abandonamos ou os deixamos lá, em alguma gaveta que demoraremos a abrir.  Temos o direito de desistir deles? Sim, claro, mas só a gente, não o outro. Aliás deixar alguns sonhos para trás faz parte da vida. Não podemos ter a expectativa de achar que vamos realizar todos. É preciso maturidade para deixar alguns irem embora para outros chegarem. Mas somente nós temos este direito. Abrir mão de alguns sonhos faz parte do processo de amadurecimento e de crescimento, mas abandonar a arte de sonhar e ser indiferente a ele, jamais. Isto seria um crime.

Queremos realizar os nossos sonhos. Isto nos move. Isto nos sustenta. Mas teimamos em permitir que o outro sonhe por nós ou nos diga quais sonhos devemos ter ou se devemos ter sonhos. Cansamos de abrir concessões para que os outros digam quais sonhos deveremos sonhar. Não. Eu sei o sonho que eu quero sonhar e quero realizar. Não o outro.

José Saramago, escritor português, disse que “Todo homem é uma ilha” referindo-se ao autoconhecimento, necessário a todos nós. E eu arrisco em dizer que os nossos sonhos também são estas “ilhas”, até que sejam resgatados por nós e concretizados.

Matar sonhos às vezes é necessário, é a arte do desapego. É um exercício diário. Mas nunca a arte de sonhar. A natureza do sonho é encontrar alguém que o realize, que faça esta ponte. Ele precisa de você, de todos nós.

As distrações diárias brigam entre si para tomarem a nossa atenção. E os nossos sonhos ficam à espreita, apenas a nossa espera. Mas como as distrações são muitas...talvez os sonhos ainda tenham de esperar bastante para serem encontrados e quem sabe, um dia, realizados.

Ouço muito a frase: “devemos pensar em deixar um mundo melhor para os nossos filhos”. Mas será que também não devemos pensar em deixar filhos melhores para o mundo? Querer um mundo melhor para se viver implica, obrigatoriamente, ser uma pessoa melhor porque eu não posso querer um mundo melhor se eu não for uma pessoa melhor. E ser uma pessoa melhor passa pela arte de sonhar e por deixar o outro sonhar, também.

Deixar um mundo com pessoas melhores é deixar um mundo com capacidade de sonhar que é o primeiro passo para a realização. Queremos protagonistas, gente de ação, somos cobrados por isto o tempo todo. Mas uma das primeiras coisas que a gente faz, na convivência com o outro, é matar o sonho dele e dizer aquela frase célebre: “eu não te disse?” Matamos o sonho do outro porque deixamos de acreditar nele há tempos. É uma maldade, mas matamos o sonho dos outros, sim. Como diz a música: “...e a ferrugem no sorriso, só acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção...”. E o que fazemos quando sonhamos? Procuramos abrigo e proteção. Alguém que nos ouça, que não nos seja indiferente.

O perigo de matar o sonho de alguém é que este alguém pode acreditar. Quando somos indiferentes a alguém ou quando sofremos uma indiferença, nos questionamos se devemos continuar, se o caminho vale a pena. E em meio a estes questionamentos, paramos e vamos engordando a fileira dos indiferentes. Vamos dando voz a isto. Não quero mais do que o mundo possa me dar, apenas o direito de sonhar.

Não é só de taxa Selic e de operação lava-jato que vivemos. Felizmente. Sonhar me faz acreditar que um dia sairemos da inércia que nos levou à operação lava-jato, por exemplo. E a taxa Selic com isto? Bem, a taxa Selic, coitada, fica ali só acompanhando os fatos. E é obrigada a subir de patamar por causa do nosso abandono e da nossa indiferença. Ela é uma arma na mão dos desavisados.

Se o que presenciei foi abandono ou indiferença, quem sou eu para julgar. Mas de uma coisa estou absolutamente certa: Mario Quintana tinha toda a razão. Aliás, mesmo à distância, acho que ele escreveu este texto para este pai e para este filho que, simbolicamente, representam boa parte de todos nós em algum momento de nossas vidas.

domingo, 22 de março de 2015

Apertem os cintos...a água sumiu...

...e com ela os valores, a vergonha, a decência, o respeito, a dignidade.

Mas uma coisa não sumiu, pelo menos ainda: a nossa capacidade de indignação. Ainda vejo, e muito, pessoas indignadas. E isto é bom, desde que aliado à ação. Indignação sem ação é só um discurso vazio. E eu acho que é este poder de indignação que ainda nos sustenta, que ainda nos faz acreditar em algo. Quando perdermos isto, certamente o respeito, a vergonha, a decência e os valores já terão ficado para trás há muito tempo.

O fato é que estamos sentindo falta de muitas coisas, de coisas boas, decentes, honestas. E fartos de tantas outras coisas fúteis, indecentes, desonestas. Sentimos falta e estamos fartos. Falta e farta. Falta do que é certo, farta do que está demais. A brincadeira com as palavras mostra que brincar deveria ser algo saudável e verdadeiro, mas brincar com a gente deveria ser proibido.

Uma vez perguntaram para Ferreira Gullar, Poeta, qual era o principal gatilho para a sua inspiração. E ele disse: “um dos principais gatilhos para mim é a indignação ou algo sobre o qual eu não tenha gostado. Isto desperta em mim um sentimento de indignação que se transforma, muitas vezes, em textos”. E eu acho que foi este o meu gatilho para escrever este texto: indignação. Não há como não se indignar com a capacidade alheia de nos subestimar.

Subestimar significa não nos respeitar, não nos aceitar, não confiar em nós. E é disto o que estou farta. Farta desta falta de respeito, deste descaso que fazem conosco. Somos desrespeitados a todo o momento, somos postos à prova diariamente. Nosso estoque de paciência e de tolerância se esgota mais rapidamente do que a Cantareira. E isto não é bom.

Estamos mais arredios, sem paciência uns com os outros. Estamos grosseiros, mal educados. Um pedido de passagem no trânsito é motivo para sinais obscenos e para palavrões. Estamos ultrapassando os limites da decência e do respeito.

Enquanto um de nossos bens mais preciosos está dando sinais de revolta e reivindicando os seus direitos, ameaçando a nos deixar e a nos faltar, a fartura de outras coisas está a nossa disposição. É só escolher. O que vai ser hoje? Corrupção, ganância, enganação, roubo, abuso de poder, guerras? Oras, é só escolher...

A falta de água me faz pensar no que não pensamos e no que não fizemos. No enfoque da relação do homem com o mundo. Não este mundo que aí está, bem à frente de nossos narizes, mas o mundo que vai se destacando e aos poucos mostrando sua face, que até então, era obscura, abstrata e desconhecida. E que medo de saber o que há por trás desta face. Medo porque não fizemos a nossa lição direito, e agora a conta está chegando. Mas quem vai pagar esta conta? Todos nós, pelo menos assim deveria ser. Fizemos. Pagamos. As contas dos débitos morais e financeiros deveriam ser pagas por todos nós. Só que já disseram que haverá mais um aumento nas contas elétricas para cobrirem o rombo que há no setor. Rombo de quem? Como o governo não repassará o valor ao setor em função de “cortes de gastos”, quem o leitor acha que pagará esta conta? Será que é a gente? Bingo! E a conta moral? Quem paga? Quem paga a vergonha de assistir ao jornal e só ver descaso com a população? Com a gente?

O setor elétrico alegou que vai precisar de R$ 23 MM para cobrir as despesas, e entre elas há o custeamento de programas sociais, como tarifas sociais, etc. E isto é só uma das coisas que me deixa farta.  

A crise da água faz-nos perceber nossas limitações. Isto é ruim porque não aprendemos pelo amor, mas sim pela dor, no caso a dor da privação, da corrupção, do roubo escancarado. De toda forma, se isto nos levar a compreender e a usar melhor o nosso poder de superação já será um bom começo...

Antigamente o conhecimento era intuitivo, não havia muitas técnicas e ferramentas para fazermos as coisas. Mas elas aconteciam e eram feitas, de uma forma ou de outra. E hoje, mesmo com tantas ferramentas e técnicas a nossa disposição, não fomos capazes de intuir que a água, um dia iria dar o ar da graça de seu cansaço com o descaso que fizemos com ela. Alguém lá atrás disse que parece que alguém, não sei quem, avisou alguém sobre o problema, e este alguém levantou uma bandeira dizendo que seriam necessárias obras de curto e longo prazos para que este problema com a água não acontecesse. Se esta pessoa falou isto ou não, pouco importa agora. Quem é esta pessoa, também não importa. Um alguém desconhecido, conturbado e confuso, talvez. O que importa é que o problema está aí, e sem uma solução aparente, apenas paliativa.

Temos uma desatenção generalizada para com aquilo que realmente importa. Damos muito mais importância àquilo que dá estatus e fama. Mas o que realmente fará a diferença, seja pra nós quanto para o nosso próximo, não dá ibope. Então pra que nos importar?

Recentemente, assistindo a um programa de televisão, um professor disse que, obviamente, a questão da falta de chuva foi determinante para a falta de água. Porém, o que agravou esta crise foi a arrogância e a sede pelo poder e pelo estatus, por parte dos nossos governantes. E aí ele explicou: uma obra deste porte demoraria cerca de doze anos para ser realizada ou até um pouco mais. E como a sede pelo poder e pelo estatus sempre falaram mais alto, as obras mais longas e que correriam o risco de não levarem o seu nome, devido à extensão do prazo, não foram priorizadas. E como o governo quer deixar sua marca, seu famigerado legado, se fizesse esta obra longa, quem se lembraria dele? Quem ficaria com o bônus da obra? Certamente o governo que a inaugurasse. Então fica a certeza de que ele vai fazer o que for bom pra ele e não para o País. Estou farta disto.

Acho que estamos passando por tantas questões críticas porque descuidamos, seriamente, do que realmente importa. Outro dia uma pessoa sofreu um acidente de carro. Felizmente não se feriu gravemente, mas foi um acidente. Em meio aquilo, esta pessoa pegou o seu celular e fez uma selfie (socorro!) e a colocou nas redes sociais. (!)

Enfim, críticas à parte, afinal quem sofreu o acidente foi ela e ela tem todo o direito de fazer o que quiser com ele, vale uma reflexão se estamos dando muito mais importância para aquilo que é perecível do que para aquilo que deveríamos estar cuidando, no caso do exemplo, a nossa integridade física.

Estamos sendo vítimas de nossas próprias ações. Ou alguém tem dúvidas sobre isto? O governo tem a sua participação? Claro que tem, mas a gente elegeu o Collor novamente! Vamos reclamar do quê? Ele foi o segundo senador empossado em fevereiro deste ano, há bem pouco tempo. Uso o Collor porque acho que é uma figura emblemática para representar todos os demais. Pessoas morreram na época do seu governo, pessoas enfartaram porque foram impedidas de sacarem seus valores nos Bancos, empresas faliram, aulas foram interrompidas, as pessoas saíram para as ruas, pintaram as suas caras e pediram o impeachment. Para que tudo isto? Para colocá-lo lá novamente, agora como Senador! A única coisa leve que ele fez foi chamar os nossos carros de “carroças”, proporcionando assim, a retomada de um setor, até então, longe de nossos domínios. A discussão sobre a importação foi retomada o que forçou uma mudança e ruptura comportamental de nossas indústrias. E foi só.

A corrupção está nas entranhas, grudada. Coisa difícil de sair...Sabe aquela coisa encardida que não sai nem com o melhor dos produtos químicos? Pois é, a nossa política, com raríssimas exceções (se é que tem) está assim. A corrupção está entranhada porque está lá há muito tempo. A gente permitiu que isto acontecesse, temos a nossa parcela. E aí fico pensando nas nossas corrupções pequenas e inocentes do dia a dia:

- molhar a mão do guarda no trânsito;

- furar fila;

- andar pelo acostamento;

- molhar a mão do guarda para olhar o seu estabelecimento comercial;

- fraudar a carteirinha de estudante (esta é clássica);

- passar a nota falsa recebida pra frente (afinal, a culpa não foi sua);

- grudar adesivos na placa do carro para furar o rodízio;

- não devolver o troco recebido a mais;

- pedir para o seu filho passar por baixo da catraca do metrô e se alguém perguntar, mentir a idade;

- fraudar e roubar o sistema hídrico (somente em São Paulo, uma média de 40 fraudes por dia);

- fazer gato com a NET, com a água do vizinho (afinal, ele paga pra você);

- não se importar com a quantidade de água gasta porque você está na lista da tarifa social do governo;

-  pegar o dinheiro do “bolsa moradia” do governo (uma das milhões de bolsas que existem) e pedir para o caixa do Banco depositar na sua caderneta de poupança;  

- fazer de conta que estamos dormindo, no metrô, só para não cedermos o lugar (que achamos que é nosso) a quem mais precisa;

- colocar o pé no banco do ônibus, do metrô (afinal eu já me sentei, o próximo que se vire).

Enfim, eu ficaria aqui listando nossas pequenas fraudes do nosso pequeno universo.

Estamos fartos de tudo isto. Fartos nos dois sentidos: fartos de fartura, ou seja, temos muito disto e fartos de cansaço, chega, não aguentamos mais.

Na escola sempre ouvi dizer que o Brasil é o País do futuro. E lá isto é verdade: precisa saber só que futuro é este e quando ele vai chegar. Alguém me avisa, por favor, para eu ir lá também?

Agora a crise da água e as demais crises estão aí, impostas, sem dó nem piedade. E será a hora de duramente aprendermos a lidar com tudo isto. Aliás, já passou da hora. Ou será que já perdemos a hora? Sinto como se usássemos o “soneca” do rádio-relógio em excesso. Agora é chegar atrasado e encontrar uma boa explicação pra isto tudo.

Tudo isto me faz pensar numa palavra só, que acho que resume as demais: falta de se apropriar. Não nos sentimos donos do nosso País, estes problemas não são nossos. É como se isto tudo fosse desconhecido para nós. Desconhecido não porque não tivéssemos condições de aprender ou porque não nos era falado; desconhecido porque a gente não quis saber, simples assim. Não é de hoje que os problemas insistem em se apresentarem para nós. O que de efetivo a gente faz?

Sabemos do problema da água, mas enquanto a água não acaba na minha casa e no meu chuveiro …vou levando enquanto o tempo me deixar, já dizia a música.

Não estou falando só das leis, das regras e de tudo errado que há aqui, de injusto, estou falando sobre o nosso estar no mundo, sobre o nosso compromisso de fazermos algo melhor e mais justo. O que nos orienta? Se continuar a ser o egoísmo e o poder, difícil será cada vez mais trilhar este caminho. Para que roubamos tanto dinheiro, meu Deus? Que poder é este que nos corrompe? Talvez este dinheiro todo roubado seja para comprar milhares de caminhões-pipa, porque a água vai acabar!

Acho que estamos nos perdendo de vista, por isto a água está indo embora. Setenta por cento do nosso corpo é composto por água: estamos indo embora então?

Percebo uma indiferença no olhar de alguns, como se aquilo não pertencesse a eles. Acho que é uma forma de se protegerem daquilo sobre o qual eles não conseguirão se defender.

Precisamos perceber, nos envolver, nos desenvolver. A propósito, a origem da palavra “desenvolver” que é o ato de desenrolar, permitir a saída e/ou o aparecimento de algo que estava tolhido”. Quem sabe se sairmos um pouco do nosso eu, das nossas selfies e não se preocupar tanto com as curtidas do facebook conseguiremos nos desenvolver, ou seja, deixar aparecerem os nossos valores, aquilo que estava tolhido?

É uma indiferença que se origina do distanciamento que colocamos nas questões. Eles e eu. Não, somos uma coisa só. Esta indiferença está atrofiando nossas emoções, nossos sentimentos.

Nosso mundo é tão belo, mas está doente, sente dor. Isto me faz ficar nostálgica: vejo uma criança correndo pela calçada correndo atrás de uma pomba, e dando muitas gargalhadas. Lembrei da minha infância e de como foi bom ser criança e de ter podido ter uma infância saudável: a minha preocupação era ir para a escola e querer que o sol aparecesse a tarde para brincar na rua, pular corda e sujar bem os pés, sentindo a vida pulsando e valendo a pena. Estávamos, até então, numa zona de conforto e de falso controle. Mas era bom, bom demais! Ser adulto é bom também, muito bom, traz inúmeras satisfações, alegrias e compensações. Mas o problema de ser adulto é que às vezes (ainda bem que poucas!) a pomba vai passar na sua frente e você não vai sentir vontade de correr e de sorrir. Mas fazendo força a gente consegue e vence!

Estamos em conflito não pela coisa em si, mas porque não nos entendemos. Queremos nossas verdades absolutas, a verdade do outro é sempre uma mentira.

Penso que estas contradições nas quais vivemos reflete um profundo esquecimento dos verdadeiros conceitos.

Às vezes, sinto que nos comportamos como se fôssemos uma visita indesejada, aquela que veio sem avisar e que, para piorar, não trouxe algo para contribuir para as despesas. Chegamos sem avisar, usufruímos do mundo e ainda levamos um “pratinho” para mais tarde. Não nos apropriamos dos problemas. É como se estes problemas que aí estão não fossem nossos, não nos pertencessem. É uma alienação generalizada.

Numa cidade do interior de Minas, o carnaval foi cancelado por conta da questão da água. Em uma entrevista, ouvi a seguinte frase: “o governo gasta mal o dinheiro e agora EU fico sem carnaval?” Concordo com a parte do “gastar mal o dinheiro”, acho até que este problema não acontece só na cidade dela (risos), mas um pouquinho de senso de prioridade e de urgência não fazem mal a nós.

Ouvi também, na Globonews, que os impostos subiram para o equilíbrio da máquina pública e para (eles) poderem colocar as contas em ordem. O Ministro falou que as contas estão “desarrumadas”. Contas de quem? Eles desarrumam e a gente arruma. As contas não estão “desarrumadas”, mas sim fomos e somos descaradamente roubados. Se “desarrumar” agora virou sinônimo de “roubar”, o meu diploma de Letras precisa ser revisto.

Acho que se a natureza tivesse este poder ela nos interditaria, e, de verdade, acho que ela ganharia em primeira instância. O livre-arbítrio nos foi concedido, mas de verdade, questiono se Deus não se equivocou. Acho que ele acreditou demais em nós.

E a crise da água nisto tudo? Pois é, enquanto estivermos mais preocupados em postarmos selfies, em poder, estatus, dinheiro e em nos afligirmos em quantas “curtidas” tivemos, a água, realmente, não será um item de primeira grandeza pra nós, porque se assim o fosse, certamente não estaríamos nesta situação. Se estamos, é porque fizemos por onde.